David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for September, 2017

Sobre “O Som e a Fúria”, de Faulkner

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O Som e a Fúria (Companhia das Letras) – Clássico de Faulkner e divisor da literatura norte-americana. Ficou bonitão. Veremos qual versão ficou melhor. Esta ou a da Cosac & Naify. Interessante como a construção em torno da decadência de uma família pode marcar o fim e o limiar de tantas coisas; das incertezas à obscuridade e à falsídia. Assim penso também na mente que mente.

Figuras de hábitos enredadas nas próprias ruínas, incapazes de um olhar além, mas que tentam (ou não)…; e que são também o próprio som e fúria materializado em conflitos humanos, assim como a própria narrativa, naturalmente furiosa.

Como escreveu Shakespeare em “Macbeth”, os nossos ontens simplesmente iluminaram para os tolos o caminho que leva ao pó da morte, porque a vida não passa de uma sombra que caminha um pobre ator que se pavoneia e se aflige no palco. Esse caminho é trilhado pela Família Compson de Faulkner, que numa subjetiva universalização poderia ser muitas outras famílias, de outras partes do mundo.

Creio que uma das coisas mais instigantes em “The Sound and the Fury” é o fluxo de consciência, que marcaria sua trajetória como escritor. É interessante como a narrativa começa linear e torna-se avessa à linearidade. A sintaxe incompleta também ajuda a endossar os conflitos, as limitações, os costumes e as falhas dos personagens. Em síntese, um bálsamo e um terror para a mente.

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Written by David Arioch

September 26th, 2017 at 1:55 am

“É intrigante a forma como tratamos certos animais, não?”

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Acervo: Animal Equality

— Posso fazer uma pergunta?
— Sim, sem problema.
— O que o senhor vê nessa imagem?
— Um animal selvagem sendo morto.
— E o que o senhor acha disso?
— Claro que acho terrível. É uma coisa grotesca. Inadmissível!
— Entendo.
— E o que o senhor acha dessas outras imagens?
Mostro imagens de um boi, um porco e uma galinha sangrando durante o abate.
Silêncio.
— É intrigante a forma como tratamos certos animais, não?
— É sim…mas é a nossa cultura, né? Afinal, a maioria come carne.
— Entendo…realmente.
— Agora convido o senhor a pensar em uma outra situação. E se o animal que as pessoas mais comessem fosse aquele da primeira imagem?
— Isso não seria possível.
— Por quê?
— Porque seria doentio, nojento.
— Mas não é carne também?
— Sim, mas não é inerente à nossa cultura. Comemos bois, vacas, porcos, frangos, galinhas…animais comuns, que existem para isso.
— Pois é. Mas neste caso não é um condicionamento, uma construção cultural, alimentar-se de um animal e não de outro?
— Talvez, pode ser.
— Será realmente que os animais concordam com essa perspectiva de que eles existem para nos servir? Sendo isso um fato, eles não deveriam morrer felizes, trazendo nos olhos uma expressão de contentamento e nobreza?
— Isso eu não sei, mas creio que não importe tanto pra maioria.
— E se eu disser ao senhor que do ponto de vista da ciência tanto o animal da primeira imagem quanto os demais estão em níveis muito próximos de senciência? Sentem medo, ansiedade, desespero. Enfim, reagem a dor e, sempre que possível, resistem à morte.
— É triste, mas fazer o que…
— Se possível, peço que o senhor reflita sobre essa dissonância na maneira como julgamos que uns animais têm direito à vida e outros não. Realmente precisamos matar? Devemos matar? Ou podemos viver muito bem sem matar nenhuma criatura? É só uma sugestão de reflexão. Obrigado.
— Tudo bem…

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O sofrimento animal na indústria do café de civeta

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Os grãos de café de civeta são comercializados livremente na internet, inclusive em sites como Amazon, Ali Baba e Mercado Livre, entre outros.

Kopi luwak ou café de civeta é o café mais caro do mundo, mas o que chama a atenção sobre esse produto é que a sua fabricação está associada à morte e captura de milhares de civetas, mamíferos noturnos que são nativos da Ásia e da África.

O que tem a ver uma coisa com a outra? Acontece que no processo de fabricação esses pequenos animais são mantidos confinados em locais distantes da área urbana e condicionados a comerem grãos de café que mais tarde serão defecados, coletados e limpos. O diferencial é que civetas têm a habilidade natural de selecionar os melhores grãos para se alimentarem.

Como eles não digerem a semente do café, mas somente a polpa, o grão consumido por esses animais passou a ser visto como um produto com grande valor de mercado, até pelo fato do grão sofrer um “especial” processo de modificação no processo digestório.

De acordo com informações da World Animal Protection, em decorrência disso, civetas começaram a ser perseguidos, confinados e até mesmo mortos depois de cumprirem o seu papel. Por mais incrível e chocante que pareça, os grãos de café de civeta são comercializados livremente na internet, inclusive em sites como Amazon, Ali Baba e Mercado Livre, entre outros. Em sites do Brasil, cada 100 gramas desse café custa até R$ 368.

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Além do barulho desconfortável, fogos de artifício contêm insumos de origem animal

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Além de fogos de artifícios causarem um grande mal aos animais por causa da audição sensível, que acarreta demasiado desconforto em situações de muito barulho, ou até mesmo fobias, outro ponto a se considerar é que fogos de artifício normalmente têm insumos de origem animal em sua composição.

O insumo mais comum é o ácido esteárico (proveniente de gordura animal), o mesmo usado na fabricação de pneus. Mas por que colocam esse ácido em fogos de artifício? Os fabricantes fazem isso para revestir o pó metálico (de alumínio ou magnésio), assim evitando a oxidação.

Dessa forma, podemos concluir que os animais também são usados como matéria-prima para criar algo que vai incomodar outros animais, levando em conta a produção e aplicação dos fogos de artifício.

 

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Já ouviu falar em espermacete?

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Já ouviu falar em espermacete? É uma gordura extraída da cabeça de golfinhos e baleias (cachalotes). É usado em velas especiais com a finalidade de minimizar odores. Também conhecido como cetina ou cetila, a aplicação do espermacete se estende à fabricação de cosméticos, lubrificantes, óleos automotivos, detergentes e produtos farmacológicos.

O espermacete é um ingrediente considerado tão valioso pelas mais diferentes indústrias que é apontado como uma das causas da caça de golfinhos e baleias. Sendo assim, se você não quer contribuir com a caça desses animais, é melhor evitar a compra de produtos com espermacete (cetina ou cetila).

 





Sobre testes com animais na indústria tabagista

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Foto: Occupy for Animals

Algumas pessoas ficaram chocadas com o meu artigo sobre o cigarro ser testado em animais. Achei isso intrigante. Afinal, estamos falando de um produto com 5.315 toxinas. Se usam animais até em testes de papel higiênico e alimentos, é claro que tratando-se de cigarro não é possível esperar o melhor para os animais quando eles são usados em testes da indústria tabagista. Também é importante ponderar que há animais que têm uma grande facilidade de desenvolver dependência química em estado de subjugação, como é o caso dos macacos.

 





Written by David Arioch

September 25th, 2017 at 1:23 am

Batata pré-frita pode não ser vegetariana

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Muita gente crê que batata pré-frita, por se tratar de um tubérculo, não tem como não ser um alimento vegetariano, mas a realidade é que tem como sim, principalmente porque a batata pode ter sido pré-frita em banha, ou seja, gordura de porco. O mesmo pode acontecer quando você pede uma porção de fritas em algum lugar. Por isso é importante ficar atento ou entrar em contato com o fabricante caso as informações não estejam tão claras.





Written by David Arioch

September 25th, 2017 at 12:54 am

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Como falar em respeito às plantas quando não há respeito aos animais?

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Quando as pessoas falam em respeito às plantas, mas se alimentam de animais, às vezes pergunto: “Como você fala em respeito às plantas quando ainda não há respeito aos animais?” O respeito é um questão de gradação, as coisas vão evoluindo conforme vamos nos mobilizando e nos predispondo às mudanças que representem uma real preocupação com outras formas de vida.

E a preocupação só existe, de fato, quando nossas ações condizem com nossos discursos. Não é muito coesivo falar em respeito às plantas se antes não há respeito aos animais, já que as duas coisas estão associadas. Ademais, como falar em respeito às plantas quando o fim delas está associado principalmente à morte de animais? Pode parecer duro, mas considero uma resposta justa a essa pergunta.

 

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Written by David Arioch

September 25th, 2017 at 12:51 am

Sou peixe

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Arte: Peta

A distância me garante segurança, mas não sou mais forte que a intemperança. A fome me engana, ludibria, me esgana. Mordo na inocência, sufoco na displicência. Constrição, dilatação, sou peixe asfixiado à mão da ilusão. Consciência ainda tenho. Mas cortam-me o cenho. Gente feliz observa o lume do verniz. Cheiro de azeite, a morte é um deleite?

Vivo e consciente. Quero morrer. Só tenho cabeça. Movo-me por dentro, não por fora, arrastando agora o minuto que aflora. Não tem fim. A faca de um lado para o outro. De repente, perfume de alecrim, ou seria jasmim? Difícil diferenciar o que a morte permite desconcertar. Se quero morrer? Sobreviver? Mesmo que seja só ver. Toca-me a lâmina fria. Assimetria. Posso pedir?

Lance minha cabeça à água que esfria. Mergulho no molho vermelho. Me choco contra uma batata, ou seria fragata reluzindo no espelho? Comem-me os pedaços com regalo. Que assim seja, catarata, cascata, violência, zaragata. Morro de calor, sol de baixo, destemor. A vida desaparece, esfacelada em sabor e desamor, porque a morte recolhe o que a vida não acolhe.

 

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Written by David Arioch

September 23rd, 2017 at 12:23 am

Mãe e filho

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Foto: Wired

Vi uma criança chorando, forçada a ficar longe de sua mãe. Claro que ela não queria, mas não tinha forças para fazer a sua vontade prevalecer. Sua mãe também tentou se aproximar. Não adiantou. Correu para alcançar o filho. Tarde demais. Manteve os olhos no horizonte, vendo o caminhão se afastar com a criança na carroceria.

Enquanto a seguravam, parecia querer atravessar a cortina de poeira com os olhos. Balançou a cabeça e manteve a perspectiva. A observava e ela reagia. Olhos baixos e escuros, cabelos cobrindo parcialmente a fronte. Um olhar sorrateiro, o último registro daquele amor despedaçado pela violência da vida.

Ninguém chorou pela situação, só os dois que amargavam as agruras da inocência, da intransigência e da sofreguidão. Ele morreria mais cedo, a mãe morreria mais tarde depois de uma vida de servidão. Sobreviveriam as lembranças dos toques, das brincadeiras, das cabeças se tocando e se amornando. A bonomia da amamentação. Talvez o cheiro do campo, da relva. Sim, alguém de sensibilidade não esqueceria.

Mais surgiriam e mais morreriam. A história se repetiria muitas vezes no campo, quando fosse dada a ordem: “Aqui o bezerro não mama mais. Esse leite é pra vender. Pode levar!” Seria muita sorte permitir que os dois se encontrassem como pedaços de bife sobre um prato. Não! Não! Não! A morte, sob jugo humano, clama por destinos diferentes, destinos que não permitem encontros, porque quando a mãe partir os cascos da criança não existirão mais.

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