David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

“Não rola ser vegano. Você deve ter tempo de sobra pra cozinhar essas coisas”

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Vegetais, legumes e frutas são obviamente mais baratos do que carne

— Não rola ser vegano. Você deve ter tempo de sobra pra cozinhar essas coisas.

— Cozinho mais no domingo. As receitas que publico normalmente são feitas no final de semana. Caso eu tenha pouco tempo no sábado ou no domingo, acordo mais cedo ou então cozinho à noite quando chego em casa.

— Ah, deve ser caro fazer esses hambúrgueres vegetais e esses bolinhos.

— Não é. Uso mais feijões e ervilhas frescas como fonte de proteína para esses hambúrgueres. Pago menos de R$ 5 no quilo do feijão e R$ 6 no quilo de ervilhas frescas. Os demais ingredientes, os temperos, por exemplo, dá pra plantar inclusive em casa, até mesmo dentro de garrafas ou vasos, caso não tenha espaço. E sobre os bolinhos, o que mais uso é aveia, cacau em pó e pasta de amendoim integral. É possível encontrar aveia por R$ 5 o quilo, cacau em pó por menos de R$ 2 cada 100 gramas. A pasta de amendoim pode ser feita em casa (sai em torno de R$ 8 o quilo) ou caso não tenha como fazer, é possível encontrar o quilo por menos de R$ 15, e dura um bom tempo.

— Vegetais, frutas e legumes não são tão baratos.

— São bem mais baratos do que carne, e obviamente mais saudáveis, pode ter certeza. Além disso, você pode procurar por promoções. Entre em contato com pessoas da sua cidade que já se alimentam dessa forma e peça dicas. Pessoas dispostas a ajudar não faltam.

— Tofu é muito caro.

— Faça em casa que sai barato. É possível fazer um quilo de tofu com menos de R$ 10.

— Leite vegetal é caro.

— Leite vegetal é mais barato que leite de vaca. Experimente fazer em um final de semana.

— Ah, mas não tenho tempo pra me exercitar, ir pra academia.

— Durante mais de três anos, acordei às 5h para ir à academia. Depois não pude mais ir de manhã e mudei para o horário da noite. O dia tem 24 horas, você não tem uma hora ou 30 minutos para se exercitar diariamente?

— Não tenho grana pra comprar suplemento proteico vegano. É muito caro.

— Suplemento proteico só é necessário em casos específicos, quando uma pessoa não supre as necessidades diárias a partir da alimentação. Em qualquer outro caso, é desnecessário. Além disso, existe proteína vegetariana bulk, a granel, que é mais acessível. Vamos parar de arrumar desculpas.

 





Written by David Arioch

October 5th, 2017 at 8:20 pm

Diante do semáforo

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Pintura: Dianne Dengel

De manhã, diante do semáforo, ao meu lado havia um fusquinha bege bem conservado. Ao volante, um senhorzinho já bem idoso. Enquanto o sinal não esverdeava, ele levantou a pequena mão da esposa e a beijou delicadamente. Ela sorriu e ajeitou a gola da blusa dele. Quando o sinal ficou verde, o fusquinha seguiu o seu caminho, sem pressa, ignorando as ultrapassagens. Naquele momento, pensei: “Realmente, nós que fazemos a velocidade da vida; nos entorpecemos ou nos sublimamos com ela.”





Written by David Arioch

October 4th, 2017 at 2:23 am

Aos animais a liberdade

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Bilhões de animais criados para consumo no mundo todo escutavam isocronicamente um som jamais ouvido antes

Sonhei que bilhões de animais criados para consumo no mundo todo escutavam isocronicamente um som jamais ouvido antes; um tipo de chamamento que fazia com que nada temessem, apenas reconhecessem a sua força em evidência por uma subitânea expansão da consciência.

Arrebentavam gaiolas, grades, correntes, atravessavam pastos e cidades. Se articulavam como nunca, como seres sociais que são. Fugiam de matadouros e laboratórios. Não podiam mais ser tocados, mas simplesmente observados. Aos seres humanos, incapazes de se moverem por um artifício romanesco, restava o direito e a obrigação de assistir tudo como meros espectadores.

A cada passo dos sobreviventes em direção à vida, os seres humanos eram presenteados com flashes da libitina, do decesso, da ortotanásia, da morte; não da própria morte, nem de mortes humanas, mas da finitude dos familiares daqueles animais que remanesceram. Os olhos de uma vaca que corria em celeridade, mesmo com os úberes morrudos e quase tocando o chão, projetavam titânicos hologramas de crianças mortas. Todos os seus filhos executados ao longo de anos de ordenha.

Uma galinha sem bico e com olhos cor de terra projetava o exato momento de sua debicagem, calvário que perdurou por semanas. Na cumeeira, no ponto mais alto de muitas cidades, havia projeções colossais de pintinhos sendo triturados em máquinas. Não paravam de cair, não paravam de morrer. Lembranças de um passado hodierno.

Pessoas tentavam cobrir suas cabeças, temendo que o sangue das pequenas criaturas pudesse lavar suas ignorâncias, insipiências. O obnóxio apedeutismo sufocaria. Mas o ser humano é recalcitrante. Pessoas de todas as idades persistiam; tentavam vendar os olhos, seus e dos outros. Não era mais possível abrenunciar a realidade.

Aqueles que privaram os filhos da verdade também amargaram consequências; as crianças não foram poupadas. Por que seriam? Os animais corriam, e os hologramas se expandiam. A morte evidenciada visceralmente por todos os lados, sem romantismo, sem subversão conscienciosa. A verdade avançava. O céu virou um painel.

Cenas de peixes sufocados em tralhas e devolvidos (ou não) ao mar agonizavam, incapazes de sobreviver por mais do que minutos sempiternos. O fim chegaria, mas custaria. Oceanos, mares e rios cuspiam a humanidade, seus barcos, suas bargas e tralhas. Porquinhos soluçavam pendurados sobre grilhões. Era o último registro do último matadouro. Caprinos e ovinos saltavam sobre os carros; amassavam latarias e corriam.

Aos animais a liberdade, à humanidade o reconhecimento da fealdade. Mais adiante, animais telúricos desapareciam através de tocos de árvores transformados em troncos que se alargavam e funcionavam como portais. Nas águas, os não humanos atravessavam crateras, furnas e lapas quiméricas que repeliam os indesejados. Do outro lado, na terra, na água ou no céu, não havia humanidade, somente reciprocidade semeada pela vontade.





Na minha infância

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Pintura: Alexandros Christofolis

Na minha infância, um dia a professora chamou a minha mãe para denunciar que eu tinha colado em uma prova. Então fomos para a orientação. Chegando lá, a professora com toda a certeza que lhe cabe, começou:

— O David colou na minha prova. Dei uma folha para ele responder sobre um livro que leu e ele pediu mais cinco folhas para escrever sobre o livro “O Escaravelho do Diabo”, da Coleção Vagalume. Ele chegou a citar páginas inteiras do livro.
— Isso não significa nada — respondeu minha mãe.
— Como não? Ele tem nove anos. Nunca conseguiria fazer algo assim sem colar.
— Confio no meu filho e acho que ele pode provar que a senhora está errada.
— Como? Então prove!

Narrei mais de dez páginas do livro e a professora ficou me olhando com expressão estrambótica.

— Posso narrar ele inteiro se a senhora se quiser. São 128 páginas.

A orientadora então interrompeu a narrativa. A professora se desculpou comigo e com minha mãe. Mas, pelo seu olhar que ainda rememoro, continuou achando estranho o que aconteceu.

Quando meu pai me colocava de castigo, eu aproveitava para ler, e o castigo logo não era mais castigo. Assim eu acabava decorando parcialmente ou integralmente o conteúdo dos livros. Então poderia consultá-los dentro da minha própria mente.

 

 





Written by David Arioch

October 4th, 2017 at 1:52 am

O perfume do veneno

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Pintura: Long Road Home, Ally Benbrook

Às vezes, deita a cabeça e sente o perfume do veneno. Sabe que é veneno, mas abre a boca para inalar, engolir, tragar, manducar. Derrama da cabeça, da mente erodente. Escorre pelo corpo, se entranha no chão e vira semente. Cresce na mesma noite, usando os pés como raiz; é rasteira, é videira. Brota pelas mãos, cotovelos, orelhas, nariz, boca, topo da cabeça.

Batem na porta, não consegue se mover. Mesmo que conseguisse, não se importaria. Deixe que vão. Melhor assim. Deita, sente a cama forrada de folhas frescas e macias. Murcham num minuto. Secas como a boca ressequida, lábios tracejados, lanhados. O manto verde arranha as costas, fere a pele. Os espinhos não param de crescer, furam a carne. Sangue, sangue, sangue. Sangra mesmo. Salta da cama e caminha em direção à janela.

O veneno escorre pelos poros. Amarescente, não mais. Da vergonha subjacente ainda resta a dor de dente. Talvez devesse ter falado. Não importa mais. Abre a janela e deixa a chuva torrencial entrar, oblíqua como a própria existência. Fecha os olhos e deixa a água lavar. Lava tudo. Não resta mais nada, a não ser um corpo cicatrizado, quiçá provisoriamente purificado.





Written by David Arioch

September 30th, 2017 at 11:14 pm

Posted in Crônicas/Chronicles

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“Vamos ter que abater uma das vacas, não tem jeito”

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Minha mãe me ligou e contou que encontrou um amigo de longa data que cria gado leiteiro.

— Vamos ter que abater uma das vacas, não tem jeito. Está compensando mais como carne do que como fonte de leite.
— Mas quem vai fazer isso? Você?
— Não, não tenho essa coragem. O peão que vai matar.
— Mas você não é o responsável por ela?
— Não adianta. Não consigo matar nenhum animal. Não consigo nem olhar.
— Você tem entrado no blog do David?
— Sim, mas os textos dele sobre veganismo eu não leio. Só leio os outros.
— Por que não?
— Prefiro não ler. Não quero ficar com isso na cabeça.





Written by David Arioch

September 29th, 2017 at 11:52 pm

Sobre “O Conto da Cabra” de Yosef Agnon

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Ao perceber que a cabra sempre desaparece por período inexato, o homem conversa com o filho, crente de que o gosto do leite tem relação com as viagens da cabra. O jovem então decide segui-la. O percurso que parece durar horas, mas pode significar até dois dias, termina em uma caverna, uma passagem para um paraíso inimaginável chamado Terra de Israel.

Extasiado, e ciente de que a véspera do sabat anteciparia a escuridão, ele se vê incapaz de retornar para casa. Preocupado, prende um bilhete na orelha da cabra e pede que ela a entregue a seu pai. Quando vê o animal chegando sozinho, o homem entra em desespero e pragueja a cabra, a quem responsabiliza pelo sumiço do filho. Movido por surto momentâneo, a entrega a um açougueiro. Depois de assassinada, o bilhete cai da orelha da cabra.

“Ai do homem que rouba de si mesmo a sua própria fortuna, e ai do homem que reivindica o bem com o mal”, gritou o velho arrependido, batendo as mãos na própria cabeça. O luto durou dias. O homem se debruçou choroso sobre o animal e se recusou a ser consolado. Na história, o leite é também uma metáfora dos caminhos e dos descaminhos do homem.

Sobre a obra “סיפורו של העז” ou “O Conto da Cabra”, de Shmuel Yosef Agnon.





Companhias suspeitas de financiarem a semi-escravidão em países subdesenvolvidos

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Companhias que, de acordo com a organização Human Rights Watch, não fornecem informações claras sobre a origem de seus produtos, levantando suspeitas sobre o financiamento de sweatshops, ou seja, locais onde pessoas trabalham em más condições e por longas jornadas, em um regime de semi-escravidão. Das 72 companhias contatadas pela HRW, apenas 17 assinaram um documento se comprometendo em fornecer todas as informações sobre seus fornecedores a partir de dezembro deste ano.

Por enquanto, esta é a lista de companhias na mira da coalizão formada pela Clean Clothes Campaign, Human Rights Watch, IndustriALL Global Union, International Corporate Accountability Roundtable, International Labor Rights Forum, International Trade Union Confederation, Maquila Solidarity Network, UNI Global Union e Worker Rights Consortium:

Abercrombie & Fitch, Adidas, ALDI North, American Eagle Outfitters, Arcadia Group, Armani, Asics, ASOS, Benetton, BestSeller, C&A, Canadian Tire, Carrefour, Carter’s, Clarks, Coles, Columbia Sportswear, Cotton On Group, Debenhams, Decathlon, Desigual, Dick’s Sporting Goods, Disney, Esprit, Fast Retalling, Foot Locker, Forever 21, G-Star Raw, Gap, H&M Group, Hanesbrands, Hudson’s Bay Company, Hugo Boss, Inditex, John Lewis, KiK, Kmart Australia, Levi Strauss, LIDL, Lindex, Loblaw, Mango, Marks and Spencer (M&S), Matalan, Mizuno, Morrison’s, Mountain Equipment Co-op (MEC), New Balance, New Look, Next, Nike, Patagonia, Pentland Brands, Primark, Puma, PVH Corporation, Raph Lauren Corporation, Rip Curl, River Island, Sainsbury’s, Shop Direct, Sports Direct, Target Australia, Target USA, Tchibo, Tesco, The Childen’s Place, Under Amour, Urban Outfitters, VF Corporation e Walmart, Woolworths.

 





Grandes companhias ajudam a financiar a exploração do trabalho infantil

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Grandes companhias que têm ajudado a financiar a exploração do trabalho infantil em países subdesenvolvidos:

Nestlé, H&M, Phillip Morris, Walmart, Victoria’s Secret, Gap, Apple, Nike, Zara, Urban Outfitters, Aldo, Primark, Disney, Forever 21, Hershey, Mars, ADM, Godiva, Kraft Foods, Cadbury, Fowler’s Chocolate, Starbucks, Aeropostale, La Senza e Toys R.

De acordo com informações da International Labour Organization (ILO), 152 milhões de crianças trabalham em regime de semiescravidão no mundo todo. Desse total, 72,1 milhões de crianças são exploradas na África, 62,1 milhões na Ásia, 10,7 milhões nas Américas, 1,2 milhão no Oriente Médio e 5,5 milhões na Europa e na Ásia Central.





“Não basta tê-lo atingido, precisa ainda do corpo como troféu de sua glória”

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Foto: Acervo Viral Nova

Num raio de sol por detrás da gameleira, o safado espreita o pássaro negro dos sonhos dourados e de súbito, ao alcance da pedra da atiradeira, interrompe o glorioso voo. O pássaro cai dos céus e para a sombra do rasteiro e sorrateiro. Cambaleia, tenta voo e não consegue sair do chão. Surge a surpresa de repente, faz parecer o fim; sem a força do brilho do voo tem como último recurso a sombra raquítica da graminha que vai se dobrando aos poderosos passos do safado infeliz. Não basta tê-lo atingido, precisa ainda do corpo como troféu de sua glória. Destroncar o pescoço caso ainda não esteja morto. A insensibilidade é o prazer amplificado. A pequena sombra é o recurso infinito que confunde os olhos do gigante no meio do silêncio da impotência e do pavor.

“As Gameleiras”, páginas 41 e 42 do livro “Tear Africano: Contos Afrodescendentes”, de Henrique Antunes Cunha Junior.

 





Written by David Arioch

September 29th, 2017 at 2:09 pm