Archive for the ‘Direitos Animais’ tag
Como a realidade do “gado leiteiro” pode ser pior do que a realidade do “gado de corte”?

Há ainda a inevitável morte do bezerro – que pode ou não ser reduzido a pedaços de carne (Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals)
Na produção de carne, você engorda um animal e o mata precocemente. De fato, sua expectativa de vida não é considerada porque isso significa custos e desvalorização de matéria-prima. Sim, isso é muito ruim. Por outro lado, na produção de leite, há o custo da exploração da vaca até a exaustão, ou seja, até o momento em que ela deixa de atingir níveis aceitáveis de volume leiteiro.
Assim, claro, em decorrência disso, e sob a perspectiva de mercado, ela passa a ser considerada inútil e descartável. Consequentemente, seu destino comum é o matadouro e mais tarde o setor de frios dos mercados – onde não raramente pode ser encontrada em forma de pedaços de hambúrguer. E para além disso, há ainda a inevitável morte do bezerro – que pode ou não ser reduzido a pedaços de carne, dependendo do contexto e do país.
Não está tudo bem em consumir leite

Há muitas pessoas que nem imaginam que pode haver até mais sangue na produção de um copo de leite do que de um pedaço de carne (Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals)
Quem acha que está tudo bem em consumir leite porque ele é apenas extraído dos úberes da vaca realmente não tem a mínima ideia de como funciona esse sistema. Como diz o Gary Francione, há muitas pessoas que nem imaginam que pode haver até mais sangue na produção de um copo de leite do que de um pedaço de carne.
Como os humanos, a vaca e o bezerro compartilham um vínculo especial

As vacas são profundamente afetadas pela dor emocional de serem separadas dos bezerros (Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals)
Como os seres humanos, uma vaca e seu bezerro compartilham um vínculo forte e especial – um que se forma poucos minutos após o nascimento. Quando as vacas e seus bezerros podem levar uma vida natural, o bezerro chega a mamar por até um ano. Porém, isso é o que menos acontece. Uma pesquisa da Animal Australia mostrou que as vacas são profundamente afetadas pela dor emocional de serem separadas dos bezerros, uma prática padrão da indústria de laticínios. Será que vale a pena consumir leite e derivados?
Vaquejada não é esporte, é violência
Práticas violentas contra os animais só existem porque sempre há plateia e consumidores
Por que só reconhecemos a exploração animal quando envolve violência explícita?
Sobre zombar de animais e matá-los baseando-se na crença do querer e poder
Deveria a morte violenta, coercitiva e indesejada ser associada às coisas boas da vida?
O que leva uma pessoa a tirar foto sorrindo com um animal morto? Você já pensou sobre isso? Considera normal? Aceitável? Por que deveríamos celebrar a morte de criaturas que não nos causam qualquer mal? E mesmo que causassem, consideradas as proporções, isso seria justo? Moral? Ético? Que tipo de mensagem realmente passamos quando jocosamente erguemos um animal morto pelas orelhas, pelas patas, pelo couro ou pelo dorso enquanto seus olhos já não mostram nada a não ser uma ideia concreta de finitude, de um vácuo que parece sempiterno? Como sorrir segurando um corpo desfalecido, um cadáver?
Os animais que matamos, seja para consumo, ou outro tipo de uso ou até mesmo nenhum, não existem ou existiram sozinhos – eles vieram de algum lugar, de alguém. Têm ou tiveram mães, pais, irmãos, irmãs – todo um contexto social, já que não apenas nós humanos somos seres sociais, mas animais de muitas outras espécies também. E mesmo que não tivessem ninguém, e vivessem no mais pleno ostracismo, ainda assim não teríamos tal direito de privar-lhes da vida.
Não tão raramente quanto eu gostaria, um sujeito está junto a um animal morto, o sangue daquela criatura desfalecida ainda quente em contato com a sua mão, mas ele está em frenesi; tão imerso no desconhecimento, no obscurantismo e na ignorância que nem se dá conta de que a sua satisfação e o seu prazer estão associados à morte. E deveria a morte violenta, coercitiva e indesejada ser associada às coisas boas da vida? Como podemos vincular violência e tortura de vulneráveis ao prazer? Deleite? Contentamento?
Deveríamos sorrir quando matamos animais simplesmente porque queremos e podemos? Talvez seja a valiosa lição de que há vidas que podemos suprimir, destruir, exterminar sem qualquer prejuízo consciencioso ou moral? Deveríamos comemorar? Vibrar? Mesmo nos casos em que um animal é apontado como um problema, o ser humano opta sempre pela solução mais fácil – que é exterminá-lo o mais rápido possível. “Matemos e está resolvido!” Não se fala em alternativas, porque alternativas “custam caro”, e vidas não humanas valem pouco.
Nesse aniquilamento ignora-se o fato de que quem morreu não queria morrer – mas apenas viver à sua maneira, não importando conceitos confusamente abstratos ou a racionalização humana da felicidade ou da tristeza. Há quem diga que matamos determinadas espécies porque esse é o papel delas, assim como outros alegam que matamos específicas criaturas porque essas tornaram-se “pragas”.
Se o papel delas é esse por que nasceram sencientes, e até mesmo com níveis distintos e equiparáveis de consciência e inteligência? Com habilidades sociais. Não seriam características a serem consideradas moralmente? Que indicam que assim como nós não partilham do desejo pela morte precoce? Além disso, diante de tanto impacto que causamos ao mundo em proporções desmedidas e pouco refletidas há milhares de anos, e mais visceralmente há centenas de anos, será que temos o direito de chamar qualquer espécie de pinima, de praga?
Moby está vendendo seus equipamentos musicais para arrecadar dinheiro para um comitê de médicos veganos
O renomado músico e ativista vegano Richad Melville Hall, mais conhecido como Moby, abriu hoje uma loja online depois de firmar uma parceria com o mercado online reverb.com para vender mais de 100 peças de seus instrumentos e equipamentos musicais pessoais. Os recursos serão doados ao Comitê de Médicos Pela Medicina Responsável dos Estados Unidos, formado por médicos veganos. “Estou vendendo o equipamento que usei para fazer todos os meus discos. Tenho muitos equipamentos e quase todos têm profundo valor sentimental para mim, incluindo sintetizadores que comecei a usar nos anos 1980. Mas, em vez de guardar tudo, quero vendê-los por uma boa causa”, disse Moby ao reverb.com.
O Comitê beneficiado pela boa ação de Moby defende o consumo de alimentos de origem vegetal em substituição aos alimentos de origem animal como uma medida preventiva contra doenças. O grupo também vai além da dieta, voltando-se para os direitos animais. Nos últimos anos, o Comitê de Médicos pela Medicina Responsável dos Estados Unidos tem lutado por medidas legislativas contra a realização de testes em animais nas escolas de medicina. O grupo também é conhecido por incentivar a reformulação das refeições escolares nos Estados Unidos – oferecendo opções veganas e também excluindo alimentos de origem animal como carnes processadas.
Referência
Por que acredito que o sofrimento de um animal não humano não é menor do que o humano na iminência da morte
Animais que produzem medicamentos a partir de plantas podem despertar novas discussões sobre a senciência e a inteligência animal
A medicina não é exclusivamente uma invenção humana, e muitos outros animais são conhecidos por se automedicarem com plantas e minerais

Orangotangos transformaram o extrato de uma planta da ilha de Bornéu em um analgésico tópico (Foto: Getty Images)
Este mês, a Scientific American, uma das revistas científicas mais prestigiadas dos Estados Unidos, publicou um artigo intitulado “Orangutans use plant extracts to treat pain”. Ou seja, “Orangotangos usam extratos de planta para tratar a dor”. No artigo, o autor Doug Main, afirma que a medicina não é exclusivamente uma invenção humana, e que muitos outros animais; como insetos, aves e primatas não humanos, são especialmente conhecidos no meio científico por se automedicarem com plantas e minerais – principalmente para tratar infecções e outras enfermidades. O que por si só já é um indicativo claro não apenas dos níveis de consciência animal, mas também de inteligência.
Mas o que mais chama a atenção no artigo, que pode despertar novas discussões sobre a inteligência animal e a senciência, ou seja, a capacidade de sentir dor, é que a pesquisadora e ecologista comportamental Helen Morrogh-Bernard, que há décadas estuda o comportamento dos orangotangos na ilha de Bornéu, encontrou evidências de que orangotangos têm produzido medicamentos de forma inédita a partir de plantas.
Helen, que trabalha para a Borneo Nature Foundation, passou mais de 20 mil horas realizando observação formal do comportamento desses animais, e constatou que ocasionalmente eles mastigam especificamente uma planta que não faz parte de suas dietas. Os orangotangos a mastigam até formar uma espuma e então a esfregam na pele. As massagens com o medicamento natural duram até 45 minutos, e normalmente o extrato é usado nas pernas e nos braços. Os pesquisadores acreditam que esse é o primeiro exemplo conhecido de um animal não humano usando um analgésico tópico fabricado por ele mesmo.
A planta, que tem o nome de Dracaena cantleyi, é um arbusto de aparência incomum com folhas riscadas, e é muito eficaz no tratamento de dores. A química do analgésico dos orangotangos da ilha de Bornéu foi estudada na Academia Tcheca de Ciências, na Universidade Palacký (em Oromouc, na República Tcheca) e na Universidade Médica de Viena.
Os pesquisadores dessas instituições, parceiros da Borneo Nature Foundation, adicionaram extratos às células humanas que foram cultivadas em um prato e as estimularam artificialmente para produzir citocinas – uma resposta do sistema imunológico que causa inflamação e desconforto. Os cientistas envolvidos na pesquisa relataram à revista acadêmica Scientific Reports que o extrato vegetal da Dracaena cantleyi reduziu a produção de vários tipos de citocinas.
Segundo o biólogo Jacobus de Roode, da Universidade Emory, sediada em Atlanta, nos Estados Unidos, o resultado realmente sugere que os orangotangos usam a planta para reduzir a inflamação e tratar a dor. Descobertas como essa ajudam a identificar plantas e substâncias químicas que podem ser úteis na fabricação de medicamentos de uso humano.
De acordo com o artigo “Orangutans use plant extracts to treat pain”, publicado pela Scientific American, em criaturas como insetos, a capacidade de se automedicar é quase certamente inata; as lagartas do tipo urso lanoso infectadas com moscas parasitas procuram e comem substâncias vegetais que são tóxicas para as moscas. Mas animais mais complexos podem aprender tais truques após uma descoberta inicial por um membro de seu grupo.
“Por exemplo, um orangotango pode ter esfregado a planta em sua pele para tentar lidar com parasitas e percebeu que ela também causava um agradável efeito analgésico”, disse Michael Huffman, primatologista da Universidade de Kyoto, no Japão. Esse comportamento pode então ter sido passado para outros orangotangos.
Aparentemente, não há registros desse tipo de automedicação fora do centro-sul de Bornéu, o que significa que a descoberta tem grande valor científico. E claro, tudo isso ajuda a endossar o fato de que não temos razão para subestimar a senciência e a inteligência animal não humana quando, cada vez mais, eles nos dão mostras de que ainda temos muito a aprender, e principalmente em relação às suas lições e ao valor da vida não humana – incluindo sua capacidade de sentir dor.

