David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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O problema da exploração animal está no silêncio dos que poderiam rejeitá-la

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Foto: We Animals/Jo-Anne McArthur

Não é difícil encontrar pessoas usando qualquer justificativa que lhes é conveniente para continuarem explorando animais ou tomando parte nessa exploração por meio do consumo; ou para causarem danos ao meio ambiente – ou defenderem ou ignorarem esses danos.

Isso é evidentemente previsível levando em conta a realidade diante dos nossos olhos. Porém, animais devem ou merecem ser mortos para serem reduzidos a alimentos e outros produtos? A natureza deve ou merece continuar sendo espoliada? Admito que sou contra a exploração de animais e também contra o mal causado ao meio ambiente, seja em decorrência dessa exploração ou não. Creio que se há interesse em continuar perpetuando essas formas de exploração, isso se dá simplesmente por conveniência, até porque alternativas que não envolvam essas práticas não faltam.

Não raramente, pessoas dizem, pelos mais diferentes motivos, que toda a preocupação com os animais não humanos e com o meio ambiente não passa de bobagem, sensacionalismo barato. Será que realmente os ativistas dos direitos animais e os ativistas ambientais tem tanta grana assim para fazerem esse massivo sensacionalismo global? E se isso é verdade por que ativistas recebem ameaças? Por que todos os anos são publicadas inúmeras notícias de assassinatos de ativistas? Se o que eles fazem ou dizem está em desacordo com a verdade ou com a realidade por que matá-los?

Será que há mais grandes empresas e políticos com interesses em defender a exploração animal ou em antagonizá-la? Há mais grandes empresas e políticos com interesses favoráveis ou contra a exploração do meio ambiente? Não tenho dúvida alguma de que empresas que lucram com a exploração animal ou com a agressão ao meio ambiente têm muito mais recursos para criarem factoides contra a defesa dos direitos animais e do meio ambiente do que os defensores dos animais e do meio ambiente em produzirem conteúdo contra essas explorações.

Enquanto de um lado há uma inesgotável quantidade de recursos que pode facilmente manipular a opinião pública, do outro há pessoas se dedicando de forma voluntária a causas em benefício dos animais ou do meio ambiente, ou dos dois. Em muitos casos, são pessoas que têm apenas a própria voz, a própria consciência e a vontade de usar também suas habilidades e profissões a favor de quem não tem voz.

Felizmente, não é tarefa difícil descortinar as dissimulações que envolvem a exploração de animais e do meio ambiente. Por outro lado, infelizmente é doloroso reconhecer que mesmo diante dessas informações muitos preferem se calar ou se omitir. Acredito que o que dificulta muito o entendimento da defesa dos direitos animais é o olhar de estranheza, um olhar fundamentado no desconhecimento, em algum pré-conceito que dependendo do grau de entranhamento não é tão fácil de ser extirpado.

Há uma ideia equivocada de que a luta pelos direitos animais é a luta por garantir mais direitos a seres não humanos, o que tanto na teoria quanto na prática não faz o menor sentido. A verdade é que direitos animais é em primeiro lugar sobre o direito de assegurar, de fato, que um ser não humano possa viver sem sofrer em decorrência da intervenção humana. Em síntese, um direito simples e básico.

Outro ponto a se considerar é que há muitas pessoas imersas em uma condição egoica incentivada pela própria formação educacional, cultural e social, e também por um nível entorpecente de desinformação que lhes parece sempre admissível, porque segundo suas interpretações condicionadas da realidade – o mundo é como deveria ser, logo o que outros animais sofrem, por exemplo, não lhe diz respeito. O que, sobretudo, está longe de ser verdade. Afinal, o mundo é o que fazemos dele, e se não vemos necessidade em fazer o bem, menos ainda temos de fazer o mal.

Essa banalização da exploração, da violência, do que é vil e sua aceitação foi categorizada há muito tempo por Lazarsfeld e Merton como disfunção narcotizante. E, além da contumaz indiferença sedimentada pela disfunção, há também muitos casos em que o reconhecimento do óbvio passa a ser um exercício tortuoso, incognoscível e inalcançável. Exemplo disso é a indiferença em relação ao destino de animais reduzidos a alimentos e produtos.

Tudo isso endossa o que qualificamos como “parte de uma realidade que não nos interessa”, porque somos incapazes de pesar ou entender o que isso representa para o outro, e também o que isso diz sobre as nossas relações com a vida, com o mundo e com outras espécies que exploramos e matamos sem qualquer necessidade.





Por que animais criados para consumo chegam a praticar canibalismo

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Você já pensou em quais circunstâncias um animal domesticado e criado pelo ser humano com finalidade de consumo pratica canibalismo?

Arte: Jackson Thilenius

Quando ele passa por um processo visceral de despersonalização, de completa perda de identidade e individualidade. Ele se torna algo desconhecido para os outros e para ele mesmo. E como isso acontece? Como consequência de níveis constantes e excruciantes de privação, ansiedade e estresse extremo, entre outros fatores que podem envolver ou não agressão física.

Animais não humanos, diferentemente de nós, não verbalizam o que sentem e por isso podem sofrer mais perante a incomunicabilidade no contato com seres humanos. Afinal, o seu desespero e ânsia pela vida podem ser facilmente desconsiderados levando em conta as diferenças no código de comunicação. E, evidentemente, podem ser interpretados ou distorcidos à revelia.

Essa incomunicabilidade com o ser humano, logo animal de outra espécie, amplifica o desespero e o sofrimento no esteio de uma vida não natural que tem como consequência ordinária a figuração da violência em suas mais diferentes formas. Afinal, a violência contra um animal está muito além de espancá-lo ou de matá-lo.

A violência pode ser manifestada a partir do simples e iterado ato de privá-lo de sua natureza, do trivial e pernicioso ato de não permitir que ele seja ele mesmo; de não permitir que ele crie vínculos sociais à sua maneira, nem mesmo desenvolva uma rotina condizente com seus hábitos inerentes ou atávicos.

A natureza de um animal criado para consumo, logo objetificado, é comumente suplantada para dar lugar a uma natureza de viés mecanicista, em que ao animal não é permitido nenhum direito de escolha no decorrer de sua vida, nem mesmo o direito de escolher com quem se relacionar, como se alimentar. Enfim, nenhum direito em relação a nada.

Assim, seus hábitos são precocemente suprimidos e sua natureza inerente gradualmente obliterada. Dependendo do nível de obliteração, ele pode praticar ou não o canibalismo, que neste caso talvez seja um dos símbolos maiores do aviltamento e da degradação não humana em uma sociedade imersa na desconsideração e na negação de direitos não humanos.

 





Não, realmente não está tudo bem em explorar animais

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Animais não humanos também compartilham desse interesse em não morrer (Foto: Jan van IJken)

De acordo com a interpretação clássica do direito, basicamente os animais não têm direitos, enfatizou um camarada, referindo-se à nossa Constituição que realmente não assegura direitos aos animais. Sim, de fato, o que temos são leis subjetivas (alguns podem interpretar como limitadas, dúbias, capciosas ou falhas) de proteção aos animais contra a crueldade, o que em si é uma contradição em essência, já que a exploração animal, praticada neste momento contra milhões de animais só no Brasil, é um ato de crueldade em si – levando em conta dois fatores – a exploração precoce que culmina em morte precoce, ou a exploração precoce prolongada que também culmina em morte. A morte em si é um ato de crueldade refletido nos olhos da vítima que não quer ceder.

— Mas se a lei diz que não é crime explorar esses animais na indústria frigorífica ou leiteira, significa que está tudo dentro da lei, dentro do senso de justiça ocidental, logo não há nada de errado nessa prática.

— Realmente, mas todas as suas ações se sustentam em parâmetros legais? Quero dizer, se a lei não diz que alguns de nossos atos não são criminosos, então devemos cometê-los? Sabemos que tudo que é ilegal é considerado errado, mas nem tudo que é errado é considerado ilegal. Se bato em um carro parado de madrugada e fujo, posso escapar da punição caso não haja nenhuma testemunha, mas a minha inclinação moral me impede de desaparecer sem dar satisfação ou me predispor à reparação. Assim como uma pessoa pode esquecer uma carteira ao meu lado, eu poderia pegá-la, guardar no bolso e ir embora. Mas eu não faria isso. Por que? Porque reconheço que é errado. Entendo as implicações disso para o outro, me coloco em seu lugar. Uso a mesma baliza moral quando se trata de animais explorados diuturnamente como fontes de matéria-prima, alimentos e produtos. Sim, eles não são como nós, mas são seres viventes e sencientes que, de maneira diversa, expressam interesse em não sofrer ou morrer.

— Mas, mais cedo ou mais tarde, eles morrerão de qualquer forma.

— Você tem razão, mais cedo ou mais tarde, eu também morrerei de qualquer forma, mas nem por isso você me vê oferecendo o pescoço para ser degolado. Animais não humanos também compartilham desse interesse em não morrer. Sendo assim, não, realmente não está tudo bem em explorar animais.

— Tudo bem, mas o próprio Aristóteles foi uma grande influência para a base moral cristã ocidental, e ajudou a endossar o uso de animais. Quero dizer, ele rejeitava a ideia da racionalidade animal, pesando contra os animais a concepção da “racionalidade matemática”, que o levava a ver os animais como sujeitos sem qualquer direito que justificasse não consumi-los ou usá-los.

— Sim Aristóteles fez isso, e teve influência inegável sobre o antropocentrismo. Mas ao citar Aristóteles, você desconsidera Pitágoras, Plutarco, Plotino, Empedócles, Platão, Teofrasto, Apolônio de Tiana, entre outros da Grécia Antiga que, embora divergissem em alguns aspectos, convergiam para a questão moral da vida não humana em algum nível. É importante não ignorar que a moralidade e a ética independem da legalidade, porque versam sobre o que clama à integridade e à virtude humana. É sobre quem você é como sujeito que reconhece o êthos de suas ações para além do que lhe é concernente. Ou seja, há a prática e o reconhecimento de uma atribuição de valor, e é isso que fazemos, por exemplo, quando rejeitamos a ideia de que animais não são sujeitos de direitos. Isto porque o direito no caso dos animais, não é uma prerrogativa para assegurar privilégios a seres não humanos, mas sim direitos básicos como existir sem correr o risco de sofrer em decorrência da intervenção humana. Tenha em mente que direitos animais não envolvem humanização, não dizem respeito a isso; porque o ato de humanizar animais em si é, na minha concepção, um ato reprovável. Mas por que? Porque reverbera especismo a partir do momento que ansiamos por aproximá-los de nós na tentativa de atribuir valores humanos às suas existências; e isso considero evidentemente errado. Animais não precisam de valores humanos, precisam do reconhecimento de seus valores não humanos, que é o que realmente condiz com quem são, não com quem os tornamos ou queremos que eles sejam.





Jacaré, mais um animal reduzido a alimento

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Espécie se tornou alvo da ganância humana

Corumbá, no Mato Grosso do Sul, tem o terceiro e maior frigorífico de jacarés do Brasil, e, assim como outros, com o aval e apoio do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Assim como outros animais, do jacaré não se aproveita apenas a carne, mas tudo, inclusive os olhos. Para 2018, a estimativa é de que pelo menos 600 animais sejam abatidos por dia somente em um frigorífico, de acordo com informações da Caimasul. Isso representa 65 mil quilos de carne de jacaré por mês.

Estamos falando de uma carne que pode custar até R$ 70 por quilo. Logo, além da exploração desnecessária e da crueldade legitimada, interessa a quem algo assim? Quem tem condições de pagar por isso? Não é difícil interpretar que essa oferta vai ao encontro de uma demanda específica, que se volta para a exportação e para uma pequena camada da sociedade com maior poder de compra.

Atualmente, nas maiores cidades do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul, o jacaré já é visto por muita gente como alimento, assim como o boi, o porco e o frango. Não é incomum encontrar pedaços de jacaré em açougues e mercados. Normalmente, estão reduzidos à ponta de cauda, filé de cauda, filé de lombo, filé de dorso, filé mignon, coxa, sobrecoxa, linguiça e iscas. Uma cooperativa de criadores de jacaré alega que a iniciativa visa a conservação do meio ambiente e a preservação da espécie.

Mas será mesmo que criar milhares de animais em cativeiro, em baias e galpões, e manter um ritmo de produção de milhares de toneladas por ano é uma medida que visa realmente o bem-estar da espécie? E o que eles pretendem fazer quando a demanda dobrar, triplicar ou quadruplicar? Ou até mais do que isso. Afinal, eles estão incentivando novos hábitos na população, e também a ideia de que o Pantanal é território fértil para esse tipo de exploração.

Além disso, essa demanda também pode estimular naqueles que veem nisso um bom negócio, mas não têm condições de investir formalmente e legalmente na área, o interesse pela comercialização ilegal de carne de jacaré, que pode ter um custo até quatro ou cinco vezes menor. Ou seja, surge aí um estímulo para que mais animais selvagens sejam mortos para atender a uma demanda que deve crescer substancialmente.

Precisamos considerar também o fato de que esses animais estão sendo criados fora do seu habitat. Se o foco é a preservação ambiental, então por que matá-los e reduzi-los a alimentos? Se a ideia é o controle populacional, por que eles são condicionados a se reproduzirem em cativeiro?
Enfim, se há uma superpopulação de jacarés no Pantanal, e eles devem ser supostamente abatidos, a situação chegou a esse ponto por negligência e interferência humana.

Vivemos em um mundo com mais de 7,2 bilhões de pessoas, e onde mais de 870 milhões de seres humanos sofrem de subnutrição crônica, mas temos um péssimo costume de culpar outras espécies por nossas falhas e concupiscências. A comercialização de carne de jacaré é um exemplo disso. Transformamos um animal selvagem em bode expiatório, extraímos o máximo que pudermos dele para gerar lucro, e esse lucro não é redistribuído nem mesmo direcionado à recuperação do meio ambiente.

Acredito que é mister não ignorar que essa indústria mata animais privados de seu habitat, habitat este que não pertence a ninguém, a não ser a própria natureza. E os espólios de suas mortes são celebrados por uma pequena parcela da população com maior poder aquisitivo. É justo isso? Não creio.

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Written by David Arioch

September 9th, 2017 at 8:11 pm

Kátia Abreu e a objetificação animal

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Jumento, mais um animal relegado ao consumo humano

A senadora e pecuarista Kátia Abreu publicou em sua página no Facebook uma foto de um banquete em Pequim que incluiu carne de jumento. O que as pessoas não fazem por dinheiro. Se refletirmos um pouco, não é difícil concluir que muitos animais não são vistos como commodities no Brasil simplesmente porque não têm um valor “adequado” de mercado. Porém, não dá pra ignorar que a exportação de jumentos pode abrir um precedente temerário e mais preocupante para os próximos anos. A impressão que fica é que qualquer animal, pelo menos neste país, está sujeito à morte massiva se em algum momento alguém mostrar que seu fim pode ser uma boa fonte de renda.

 





Written by David Arioch

September 9th, 2017 at 8:04 pm

Marcar um boi, um dos símbolos da objetificação animal

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Você encararia um ferrete?

Marcar um bovino, assim como qualquer outro ser senciente criado sob um sistema exploratório, é um dos símbolos da objetificação animal, da reafirmação de que um ser vivo nada mais é do que um produto, e que sua dor não vale nada diante do lucro a ser gerado. Imagine o sofrimento e o trauma de ser marcado com um ferrete. Você encararia?





Veganos e o compromisso de não contribuir com a exploração animal

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Retratos de um sistema exploratório que objetifica animais, os colocando em condição de privação e sofrimento. São seres vivos que, em muitos casos, nascem e morrem sem saber por que existiram (Fotos: Jo-Anne McArthur)

De vez em quando me deparo com alguém dizendo que veganos são hipócritas porque não estão livres de usarem algo de origem animal. Sim, essa pessoa tem razão ao dizer que não estamos livres de usarmos algo de origem animal, ou testado em animais. Mas sabe por que não somos hipócritas?

Justamente porque tomamos para nós a responsabilidade de não contribuir com a exploração animal. Afinal, nos esforçamos para evitá-la. Sabemos que a exploração existe, e temos conhecimento do mal que ela causa. E é por isso que entendemos que não temos o direito de fazer isso com os animais. Então ser vegano é um esforço constante de se livrar das armadilhas de uma indústria que explora os animais o máximo possível.

Hipocrisia, no meu entendimento, e aproveitando esse discurso agressivo que não raramente encontro por aí, é o fato de saber que a exploração animal existe, que é possível se esforçar para não tomar parte nisso, e ainda assim virar as costas e apontar o dedo para quem tenta contribuir com uma vida mais digna para os animais não humanos.

Muitos veganos se empenham em conscientizar as pessoas sobre as consequências que envolvem a fabricação dos muitos produtos de origem animal. E a partir do momento que a indústria reconhece que as pessoas já não aprovam o uso de animais em um produto, ou que sejam realizados testes em animais, ela é obrigada a rever o seu papel, se não junto aos animais, pelo menos junto aos consumidores, o que já força uma desaceleração que envolve esse tipo de exploração.

É importante não ignorar que se estamos imersos em um universo onde a maior parte dos produtos é de origem animal, ou pelo menos traz algo de origem animal na composição, é porque a maioria da população segue indiferente à exploração e ao sofrimento animal; assim inexistindo uma grande demanda que poderia mudar os rumos das nossas relações com os animais. Sem dúvida, as opções de alimentos e outros produtos isentos de exploração animal vão surgindo conforme as pessoas se recusarem a alimentar esse sistema injusto e mortífero.

 

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