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Fogo no matadouro
O fogo estava faminto, e tudo que um dia serviu para ceifar tantos animais conheceria o seu próprio fim

Lá fora, assistimos a crescente cólera do fogo que representava a nossa própria (Arte: G.D.St. John)
Escuto a chuva. Não é violenta, até que é calma. Começou a esfriar ontem. Não faz diferença. Aqui dentro poucas coisas importam. Minha mente continua lá fora; dizem que com o tempo você se acostuma. Será? Não sei, vou vivendo como dá. Eu poderia morrer agora, mas por eles prefiro viver, não vou dar esse prazer. Falaram que vou apodrecer aqui, que jamais vou ganhar a liberdade. Faz sentido, só que é estranho porque lá fora também é uma prisão.
Louco, psicopata, doente, terrorista, perturbado; me chamam assim agora. O dinheiro tem o poder de garantir esses nomes pra você na mídia. Falsos diagnósticos médicos sempre ajudam. Pagando bem que mal tem, não é mesmo? Inventaram um histórico de instabilidade psicológica e emocional que nunca tive. Sempre fui um cara pacífico, e muita gente virou as costas pelo que fiz. Não me arrependo.
Ah! Sou um risco para a sociedade. Isso é engraçado de se reconhecer quando a sociedade é um risco para si mesma. Autofagia! A sociedade come a si mesma. Ontem, um sujeito mal-encarado veio me visitar. Ajeitou o chapéu de couro de boi sobre a cabeça, cuspiu um naco de fumo em minha direção, levantou os olhos, mostrou os dentes amarelecidos e disse: “A gente tem juiz no bolso e força no Congresso. Você já era, filho da puta! Você não é ninguém!” Mostrei o polegar pra ele, sorri e comentei que se eu tivesse mais tempo teria feito muito mais.
Ficou puto e vi nos seus olhos a vontade de me matar. “Não, cara! Não aqui e agora.” Sugeri que parasse de mascar fumo se não quisesse ficar com os dentes iguais aos do Beetle Juice. Ele não entendeu. Recebi visitas de outros tipos estranhos. Outro dia, mandaram um engravatado, parece que a mando de um deputado, me oferecer uma boa grana para entregar meus amigos. Se fosse por dinheiro, não teria feito o que fiz.
O dinheiro é a raiz de toda essa desgraça. Não que eu seja contra ganhar dinheiro; sou contra a escravidão que ele gera. Talvez você esteja se perguntando o que fiz para estar neste buraco. Tem gente me apoiando aqui, e acho que se a coisa ficar feia pode ser que eu não esteja sozinho. Neste momento, registro minha história neste papel higiênico.
Tudo começou em 2015, quando eu participava de um fórum na darknet. Havia pessoas de vários estados do Brasil. Era um grupo de ativistas pelos direitos animais. Nosso lance era ciberativismo mesmo. A gente se articulava por lá e produzia textos e vídeos para rebater falácias especistas e conscientizar as pessoas sobre a indústria da exploração animal. Era legal, mas chegou um momento em que tudo aquilo começou a parecer pouco, muito pouco.
Afinal, qual é o propósito de dedicar tanto tempo a algo que proporcione poucos resultados? A gente queria mais, muito mais. Lembrei da lei de Thelema, do Aleister Crowley dizendo “Faze o que tu queres, há de ser tudo da Lei.” Não demoraria; a gente faria. “Porra, vamos colocar fogo no mundo, cara!”, disse Nikolai. Figura de expressão, hipérbole. Sim, não no mundo, mas algo iria queimar, com certeza. Tínhamos pessoas o suficiente para fazer isso acontecer. Amadores com corações profissionais, isso nos define até hoje.
Acordamos de madrugada naquele domingo e nos dividimos em dois carros e um caminhão. Dirigimos pouco mais de 150 quilômetros até chegarmos ao nosso destino – um dos maiores matadouros do Paraná, situado em uma área rural, ladeado por uma lagoa com a água mais suja que já vi em toda a minha vida.
Senti náuseas diante do odor intenso daquele depósito de lixo flutuante. Restos de animais, fezes, resíduos químicos e outras porcarias se misturavam enquanto a água espumava e esfumaçava como um cenário de um filme do Ed Wood ou da Troma. “Que diabos é isso?”, perguntou Sonia.
Não sei se aquilo era normal ou se tinha acontecido algum acidente, mas o solo estava carcomido por algum tipo de podridão. Fedor absurdo, banhado por um líquido nojento e pegajoso que emborcava lá longe, na nascente. Matava tudo que inspirava vida, desde a menor até a maior das plantas. Tudo naquele inferno inspirava à morte. E estávamos lá por isso.
Quando vi um homem parado no portão, caminhei até ele. Não subornei ninguém, senão seríamos tão sujos quanto qualquer um que vive da degradação social. “Seja como nós, ou seja contra nós”, concluí coçando a nuca. Acenei e Borges retribuiu a cordialidade:
— O senhor sabe o que a gente veio fazer aqui.
— Sei sim.
— E está bem com isso?
— Sim, faça o que tiver que fazer. Falei com os outros, já desativaram todo o sistema de segurança.
Borges era o chefe da segurança, e também tio de Alice, nossa amiga. Quando ele assobiou, três seguranças deram um positivo com a cabeça; caminhamos matadouro adentro. Não era limpo como a TV, os jornais, os vídeos institucionais e os folders mostravam. Talvez improvisassem bons ângulos, vai saber.
Eu andava e o ar pesava, uma energia ruim que emanava daquele ambiente onde entrava vida e saía pedaços de morte bem embalados. O matadouro tinha muros bem altos, como uma fortaleza. Imaginei os gregos invadindo o lugar dentro do Cavalo de Troia.
Do lado de fora, era impossível ver o que acontecia lá dentro. Enquanto Eu, Nikolai, Sonia e Alice entramos, Marcelo, Roberto, Lúcia e Bruna percorreram as imediações, confirmando que não havia nenhum animal, humano ou não, por perto.
Azulejo branco nas paredes e piso vermelho por onde escorria o sangue dos inocentes. Corredores estreitos, plataformas, grilhões, correntes, caixas, gaiolas, carretilhas, roldanas, ferrugem, torneiras, pias de lata, pistolas, facas, tubos, marretas, escadas, sangue seco, riscos no chão – marcas de luta; campos de concentração aprovados pela humanidade e legitimados pela legislação.
As dependências vazias contavam histórias de terror e medo. Borges relatou que milhões de animais morreram naquele lugar. Muitos resistiam em vão. Ele tinha razão. Ouvi porcos se contorcendo e grunhindo, presos aos grilhões enquanto o sangue quente jorrava. Famílias de bois, vacas e bezerros, assassinados em espaços diferentes – mortes sempre solitárias. Nenhum deles queria morrer; ninguém queria reconhecer.
Como podemos comer algo que um dia teve pernas para fugir, olhos e ouvidos para assistir e ouvir o próprio fim? Algo que um dia fez parte de alguém que sentiu calor, frio, fome e sede como nós mesmos; que não teve a oportunidade de viver o suficiente para descobrir algum prazer em existir, porque foi forçado a sucumbir. Morrer cedo demais é algo que animal nenhum deseja ou espera – jamais.
Poderíamos ter provocado um incêndio no departamento de expedição, causando uma pane no painel de controle da esteira que conduz os pedaços de cadáveres que eles chamam de produtos. Mas não teríamos como mensurar a proporção do estrago. Não! Tinha que ser feito à moda antiga.
Descarregamos galões de querosene e derramamos sem economia por todos os espaços. Alguns de nós gargalhavam e entoavam: “Para aqueles que só o que pesa no bolso pesa na consciência, ignorando dos mais fracos a capacidade de senciência.” Já em silêncio, terminamos de despejar os últimos litros de querosene pelas dependências.
O odor não era agradável. Pelo menos mascarava a álgida fedentina de morte. Pedi que os outros saíssem do matadouro e me esperassem na entrada. Me ajoelhei, inclinei a cabeça em direção ao chão e falei: “Que vocês me perdoem por tudo que não fiz.”
Acendi um coquetel molotov e arremessei com força, fazendo a garrafa atravessar dezenas de metros antes de explodir em chamas, como um pássaro dourado ganhando a liberdade. O fogo estava faminto, e tudo que um dia serviu para ceifar tantos animais conheceria o seu próprio fim.
Borges e os seguranças já tinham partido. Lá fora, assistimos a crescente cólera do fogo que representava a nossa própria. Assim que o prédio começou a desmoronar, Marcelo confirmou que não havia ninguém nas imediações. E o tempo previsto para a chegada do Corpo de Bombeiros não poderia ser outro – somente quando as chamas deitassem a última fundação.
Talvez tenha sido o maior espetáculo de nossas vidas. Afinal, ninguém dança melhor que o fogo quando suplanta a sevícia humana contra outras espécies. Ele é livre, mais do que nós na nossa incompletude existencial que perpetuamos por empáfia e pedantismo.
— Sentimos muito pelas pessoas que podem ficar desempregadas, mas ninguém deveria se profissionalizar em tirar vidas. Isso destrói o outro e você, mesmo que você não perceba – disse Sonia.
— É, não acho que alguém consiga ser feliz trabalhando num lugar desgraçado desse, ainda mais num ambiente onde se gera mais morte do que emprego; e menos ainda qualidade de vida – acrescentou Lúcia.
Fomos embora, não crentes de que estávamos salvando o mundo, mas acreditando que uma mensagem foi dada – nem todos abaixam a cabeça ou se mantêm calados diante da intransigência humana, de suas ações escusáveis, caprichosas e gananciosas.
Me entreguei à polícia no dia seguinte, e insisti para que ninguém fizesse o mesmo. Se eu não me entregasse, as pessoas não saberiam o que aconteceu no matadouro. Ah! Algumas matérias dizem que sou um piromaníaco, desequilibrado; alguém sem qualquer motivação. A mídia independente e as redes sociais estão aí para provar o contrário.
Ainda não fui a julgamento. Faz dois meses que estou em prisão preventiva. Muita gente se afastou de mim; pessoas que não me fazem falta. Os poucos e bons amigos me trazem notícias. Fiquei sabendo que mais de 30 matadouros foram incendiados até agora. Não sei onde e quando. Ninguém se feriu ou morreu. Isso é bom. Dizem que sou o mentor intelectual. Isso é ruim. A única coisa que fiz foi mostrar que hoje não é ontem, e que o fogo também representa o renascimento daquilo que amortece o desconhecimento.
Joana do Matadouro
Um dos animais levantou a cabeça e observou silenciosamente os olhos de Joana
Enquanto as crianças choravam, Joana abriu a porta da geladeira e viu que não havia nada lá dentro, a não ser um pouco de água em uma garrafa pet. Ela já sabia disso, mas talvez por motivo de fé acreditasse que uma porção de alimentos pudesse brotar da porta. Ou, quem sabe, das planas divisórias de plástico, iluminadas por uma lâmpada que tremulava, ameaçando se apagar completamente a qualquer momento, assim como sua própria vida.
Com as mãos no rosto, sentiu o palato arder e se esforçou para não gritar e esmurrar a parede com o pouco de força que restara. Não teve coragem de pedir novamente ao vizinho que “emprestasse” uma xícara de arroz e feijão. Quando o silêncio tomou conta da casa, ela sabia que as crianças já estavam dormindo:
— Eu morreria aqui agora pela salvação dos meus filhos. Eles não merecem sofrer por minha causa – balbuciou diante de uma vela, a única luz da casa após o corte de energia elétrica no final da tarde.
Depois de receber cesta básica por três meses, Joana não tinha mais a quem recorrer, e por ter sido abandonada, muitos a culpavam, dizendo que ela era um fracasso como mulher – “incapaz de atender as necessidades do marido”. Quando saía às ruas, vez ou outra ouvia alguma ofensa. Em vez de reagir, ela ignorava. Preferia se preocupar somente com os filhos, e deixar que a vida se encarregasse do resto.
Em uma tarde de domingo, o vizinho João Batista contou que abriram uma vaga no Frigorífico Areia Nova, onde ele trabalhava como motorista há mais de dez anos.
— Só que é na linha de abate, serviço que pode ser desagradável e pesado às vezes. O salário não é dos melhores, mas já é alguma coisa. Se for do seu interesse, posso levar a senhora lá.
Com a experiência de quem já trabalhou no corte de cana e na colheita de mandioca, a palavra “pesado” não assustava ou incomodava Joana, mas sim a ideia de matar animais para sobreviver. Por isso, hesitou por dois dias até concordar em participar do treinamento na linha de abate.
Em uma manhã, pegou carona com João Batista, e na cabine do caminhão sentiu um estranho cheiro agridoce. Notando a reação, o vizinho explicou:
— Deram nos córneos dum boi fujão aí que a gente foi buscar lá pelas bandas da Pedra Gaiteira. Ele não queria vir por bem, tivemo que arrasta na pancada. Quando deitou lá atrás, já tava desmaiado. A boca do bicho sangrou que nem bica de mina. Nunca vi coisa igual. Só machucaram a cabeça; deram choque nele. Não podia exagerar pra não estragar o couro. Agora esse cheiro que ficou aí é dele, e taí pra mais de semana. Não sei se a senhora acredita em sortilégio, mas acho que esse bicho morreu antes da hora, e o sangue taí pra lembrar a gente toda hora.
Joana não disse nada, mas sentiu um calafrio que começou na ponta dos pés e terminou na nuca. “A morte nunca cheira bem”, ecoou na sua consciência. O silêncio foi mantido até a chegada ao matadouro, onde outros caminhões estacionaram para descarregar a boiada.
Joana testemunhou os passos lentos e pesados da manada, que parecia um cortejo fúnebre. Nunca tinha visto de perto tantos animais reunidos em um mesmo lugar. Em pouco tempo, todos estariam mortos; incapazes de sentir o frescor da manhã outonal, de trocar olhares com os seus, ou de simplesmente matar a sede que já não existiria mais. Seria o fim de tudo que se movia sobre quatro patas naquele pedaço de terra vermelha onde diziam que tudo dava, menos o direito à vida bovina.
Sob ordens humanas, e em meio a olhares mecânicos, naturalizados pela prática cotidiana, pouco a pouco o gado seguiu até um corredor relativamente estreito – de vinte metros de comprimento e quatro metros de largura. “Se fosse gente, já estariam dando com os cotovelos um no outro. Que lugarzinho apertado”, comentou Joana com João Batista, que respondeu com um sorriso amarelecido.
Daquele lugar, nenhum dos bois corpulentos fugiria. Seria preciso machucar um companheiro para conseguir algum espaço; e nenhum deles parecia disposto a ferir alguém. A boiada continuou atravessando o corredor. Conforme os animais desapareciam da fila, mais adiante ouvia-se barulhos estranhos de metais, algo se chocando contra o piso, alguns mugidos curtos e outros mais longos.
Sem tempo para cordialidades, um dos encarregados gritou o nome de Joana e falou que se ela quisesse o trabalho teria que acompanhá-lo. “Seu trabalho aqui vai ser na caixa, mas antes veremos como você se sai no treinamento”, avisou Oliveira, o responsável pelos magarefes. Ela o seguiu até um local, onde um boi branco foi colocado dentro de um caixote. Quando o animal entrou, ele olhou para Joana e, sensibilizada, ela desviou os olhos. “Você tem que ver o serviço. É pra isso que você tá aqui, não é não?”, questionou o encarregado.
Ele mostrou uma pistola para Joana e disse que o processo é bem simples, mas é preciso atingir o ponto certo no crânio do boi. “É nessa altura aqui, tá vendo? Nem pra cá, nem pra lá. Não tem segredo. É um serviço quase sempre limpo.” Enquanto Joana prestava atenção, o boi recebeu um tiro de pistola disparado por Oliveira. Depois que o dardo atravessou o cérebro do animal, ele deu um mugido lamurioso e desabou no chão, fazendo a caixa tremer.
— Seu serviço basicamente é esse. Colocar o bicho pra dormir. O resto é com a outra equipe. A não ser que você queira colocar a mão na massa. O que acha?
— Não, senhor — respondeu, se esforçando para velar o impacto que aquela cena teve sobre ela.
Depois de conhecer todas as etapas do trabalho no matadouro, e de ser aprovada no treinamento, Joana foi contratada na semana seguinte. O salário de mil e trezentos reais custaria muitas mortes ao final do mês. Para não pensar tanto nisso, ela sempre olhava uma foto dos três filhos com idade entre 3 e 6 anos, deixados aos cuidados da avó enquanto trabalhava.
Em uma manhã de segunda-feira, após três semanas de serviço, Joana sabia que seria preciso abater o primeiro boi sem a supervisão de Oliveira. Antes de sair de casa, se ajoelhou diante da cama e orou, pedindo a Deus que garantisse que tudo corresse bem em mais um dia de trabalho.
Como de costume, Joana assistiu mais uma vez a chegada da boiada, foi ao banheiro vestir o uniforme e umedeceu o rosto diante do espelho. Estava pálida e assustada. Ainda não tinha se acostumado a segurar uma pistola; nem a testemunhar a queda daqueles dóceis animais que em poucos segundos sucumbiam com os cérebros dilacerados. Não choravam como nós, mas choravam como eles, na quietude da incompreensão, trazendo nos olhos cristalinos a inocência de quem da humanidade espera a redenção.
Tão logo Joana ouviu um barulho, um boi foi empurrado para dentro da caixa. A cena se repetiu muitas vezes naquele dia e em muitos outros. À tarde, um dos animais levantou a cabeça e observou silenciosamente os olhos de Joana. A ausência de som e de movimentos por parte do boi a chocou mais do que se ele tivesse reagido e tentado fugir – porque a mansidão significava que ele confiava nela.
As mãos de Joana tremularam até que ela ouviu um grito ao fundo: “Vamos agilizar isso aí que hoje a fila é grande.” Joana posicionou a pistola e disparou contra a cabeça do animal. O dardo não penetrou o cérebro, mas fez um furo no crânio, por onde o sangue desceu. Longe de se entregar ao próprio fim, o boi começou a mugir e a tentar escapar da caixa, mas não sem antes confrontar os olhos de Joana, mostrando que ele sabia que ela tentou matá-lo. Desesperada, se afastou e começou a gritar por ajuda.
Oliveira interveio e assobiou para dois rapazes. “Deu merda! Deu merda! Vamos! Vamos! Rápido!” Eles entenderam e se apressaram carregando duas marretas. Mandaram Joana se afastar e intercalaram marretadas na cabeça do boi. Agitado, respingava sangue e mugia como se sua vida dependesse dos seus berros. Diante da cena, e do boi lutando para sobreviver mesmo depois de inúmeras pancadas, Joana ficou chocada. Havia sangue em seu uniforme, cabelos e pescoço.
Não conseguia mais negar a si mesma que tinha tomado parte em um tipo nefasto e lancinante de violência. O tiro de pistola, que parecia limpo, até então serviu apenas para mascarar um fato imutável – não há romantismo na morte de quem não quer morrer, independente do método. A constatação fez seu coração disparar. Mais constrangida e abalada do que nunca, se afastou e correu até o banheiro sem pedir autorização. Vomitou tanto que sentiu dores intensas na garganta. Vendo o estado de Joana, Oliveira a dispensou, permitindo que ela fosse para casa.
— Você tem doença, Joana. E não é doença de brincadeira. É coisa séria — disse Oliveira.
— Como assim?
— Você tem a doença do “não matarás”. Pode ir pra casa. Aqui não é lugar pra você. Vou dar um jeito de garantir que você receba o salário do mês pelo seu esforço.
Antes de deixar o matadouro, Joana tomou um banho demorado e, quando terminou, se encolheu nua em um canto. Através do ralo, por onde a água descia, ela viu um pedaço de carne bovina que se liquefazia. Os olhos do boi morto à marretadas a espiavam entre os frisos do ralo. Por minutos, Joana viu tudo girando, mas não conseguiu chorar.
Em casa, à noite, ainda sentia o cheiro agridoce do sangue do boi que respingou em seu corpo. Perguntou aos filhos e à sua mãe se eles notaram algum odor diferente nela, mas ninguém percebeu – só Joana. Depois de um jantar sem carne, caminhou até o quintal e falseou um sorriso ao ver os filhos brincando.
— Olha, mãe! Eu sou o boi Tadinho, o Guilherme é o boi Chorinho e o Gabriel é o boiadeiro Marquinho. A brincadeira é correr e não deixar o boiadeiro pegar a gente — contou Gustavo, o filho mais velho, com expressão doce e quiescente.
Joana simulou mais um sorriso e sentou-se em uma cadeira sob a jabuticabeira. Quando seus filhos e sua mãe dormiram, ela retornou ao quintal, observou o céu estrelado e uma fazenda que começava onde seu bairro terminava. Em seu colo, havia um embrulho. Ela desenrolou um revólver calibre 38.
— Que a justiça seja feita aqui e agora, que meus filhos e minha mãe superem essa perda e que Deus me perdoe por todo o mal que eu fiz.
Joana tirou a arma do colo e colocou o cano gelado dentro da boca. Fechou os olhos e as lágrimas desceram pesadas e silenciosas. Prestes a acionar o gatilho, ouviu um barulho, abriu os olhos e tirou a arma da boca. Um bezerro pardo, que trazia um coraçãozinho branco de pelos no topo da cabeça, começou a lamber a sua mão. Joana guardou o revólver.
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Imagine passar a sua vida toda confinado

Chegando, quem sabe, a perder a noção do que existe fora das grades que afunilam seu mundo (Foto: Reprodução)
Imagine passar a sua vida toda confinado, chegando, quem sabe, a perder a noção do que existe fora das grades que afunilam seu mundo; sem poder sentir o aroma de nada que não seja sua ração e suas próprias fezes. Aos poucos, você se torna incapaz de distinguir importantes elementos da realidade. Talvez, dependendo do nível de estresse e do tipo de ambiente, você comece a comer as suas próprias fezes confundidas com ração.
O som de seus companheiros que não voltam mais. Eles resistem quando são agarrados, mas logo são imobilizados – mesmo que isso custe penas voando e asas dilacerando. Há um tipo de esperança que persiste, mas não em todos. Os mais sensíveis enlouquecem mais rápido em meio à agitação; começam a se estranhar e tentam se bicar porque já não sabem quem são.
Aves que não se veem mais como semelhantes e pouco agem como aves, sintoma de uma degradação tradicional que usurpa do mais frágil o direito ao que seria de fato uma vida normal. Dentro de um caminhão, o colocam dentro de uma caixa minúscula. Sem espaço para movimentar naturalmente as asas, se encolhe num canto e assiste, entre grades de plástico, carros ultrapassando, caminhões encostando, pessoas falando.
Quantas vidas existem lá fora, mas nenhuma delas é como a sua. Te penduram, te atordoam e te sangram por três minutos. Sua existência se esvai com o vermelho que escorre pelo chão. Seu sangue, símbolo-mor da sua vitalidade sem unção, é tratado como imundície. Alguém deve limpar. Não existe velório. Só escaldagem, depenagem e evisceração; e mutilação, gotejamento e resfriamento. Mais tarde, te embalam e te enviam para um açougue. Alguém há sempre de comer. Quanto vale sua morte? R$ 4,50 o quilo, mais ou menos.
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Queenie, a vaca que fugiu de um matadouro em Nova York
Ela escapou do Astoria Live Poultry depois de ouvir alguns animais gemendo e reconhecer o seu destino

Queenie vivendo tranquilamente no Farm Sanctuary (Foto: Divulgação)
Em 2000, Queenie, uma vaca branca e marrom, fugiu de um matadouro no Queens, em Nova York, depois de ouvir alguns animais gemendo. Quando percebeu que seria enviada para a morte, ela percorreu desesperadamente vários quarteirões da cidade, interrompendo o trânsito e chamando a atenção de motoristas e pedestres.
Para capturá-la, foram enviadas mais de uma dúzia de viaturas da polícia de Nova York e veículos do Corpo de Bombeiros. As primeiras chamadas para o 911 foram recebidas antes das 10h, mas Queenie só foi capturada uma hora depois, com a mobilização de dezenas de pessoas e o uso de uma arma tranquilizante.
A vaca que teve a sua fuga interrompida em Briarwood, um bairro de classe média de Nova York, fugiu do Astoria Live Poultry, um matadouro halal, onde os animais são executados de acordo com a lei islâmica. A sua fuga, na tentativa de garantir a própria liberdade, fez com que centenas de pessoas ligassem para o Centro de Controle e Cuidados de Animais pedindo que ajudassem a salvá-la.
A história de Queenie teve rápida repercussão, não apenas em Nova York, mas em todo o país. Os principais veículos de comunicação dos Estados Unidos, incluindo mídia impressa, TV e rádio, fizeram a divulgação. “Milhões de telespectadores viram uma vaca assustada correndo do matadouro, claramente consciente do destino que a esperava”, registrou o Farm Sanctuary, de Nova York, em seu site. Houve grande comoção e pressão sobre o Astoria Live Poultry, para que a liberassem e permitissem que a vaca passasse o resto de sua vida em liberdade.

Obra de Sue Coe inspirada na fuga de Queenie
Logo o Farm Sanctuary, em Watkins Glen, entrou em contato com o Centro de Controle e Cuidados de Animais, oferecendo um local seguro e amoroso para Queenie. Graças à pressão pública, Aladdin El-Sayed, o proprietário do matadouro, concordou em libertá-la. Aos jornais Newsday e Daily News, ele disse que, embora tenha pagado 500 dólares pela vaca, se Deus estava disposto a dar a ela uma nova vida, por que ele não concordaria? Sayed também comentou que notou algo de diferente nela.
Quando chegou ao Farm Sanctuary, Queenie saltou da carretinha em meio aos aplausos de boas-vindas da equipe do santuário de animais. Algumas vacas também a recepcionaram. Em 2001, a artista inglesa Sue Coe, que vive em Nova York desde 1972, transformou a história em uma obra intitulada “Queenie Escapes the Slaughterhouse”. A fuga de Queenie serviu para mostrar que vacas também têm emoções e sentimentos.
Referências
https://www.farmsanctuary.org/the-sanctuaries/rescued-animals/featured-past-rescues/queenie/
http://www.nydailynews.com/news/wild-chase-takes-cruise-queens-article-1.243566
http://nycitylens.com/2016/02/animal-escapes/
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A exploração animal na arte barroca de Rembrandt

Obra de Rembrandt chocou os espectadores em 1655
Em 1655, o holandês Rembrandt Harmenszoon van Rijn, ou simplesmente Rembrandt, um dos maiores pintores europeus de todos os tempos, pintou o quadro “Boi Abatido”. A obra-prima apresenta um grande pedaço de carne pendurado em uma construção de madeira em um quarto sombrio que funciona como matadouro.
O boi foi esfolado e aparece decapitado, sem órgãos e cascos, simplesmente um oco cadavérico. A carcaça é iluminada por uma fonte de luz que não pode ser identificada pelo espectador. Na porta, há uma mulher com um chapéu branco, e ela parece observar tanto o boi morto quanto o espectador.
Para transmitir a aspereza e a contumácia da situação, Rembrandt pintou a obra com traços espessos, garantindo mais realismo à pintura, e talvez fazendo uma referência à brutalidade do açougueiro.
“Boi Abatido” é um exemplo da genialidade do pintor barroco que, com uma porção de traços grossos, conseguiu chocar os espectadores no século 17 ao registrar uma situação tão funesta e ao mesmo tempo recorrente, não somente naquele tempo como na atualidade, já que sua obra até hoje gera repercussão e controvérsias.
A atmosfera sepulcral, que transmite pesar e ao mesmo tempo frieza, assim como a distribuição de cores que fazem referência aos vestígios de sangue ainda fresco do animal, deixa evidente que ali não há nada mais importante do que a carcaça de um ser que horas antes respirava.
Saiba Mais
A obra de Rembrandt está em exposição no Museu do Louvre, instalado no Palácio do Louvre, em Paris.
O grito dos animais por trás do grito de Edvard Munch
“Creio que quando [Edvard Munch] criou esse nome [em alemão], ele o relacionou com o grito dos animais”

O Grito, de Edvard Munch, cortesia da Galeria Nacional, em Oslo
O pintor norueguês Edvard Munch, precursor do expressionismo alemão, conquistou fama mundial com a sua obra-prima Skrik (O Grito), de 1893, considerada uma das mais importantes pinturas da história do expressionismo. Embora muita gente associe a obra à angústia e decepção em sua vida pessoal, a verdade é que existe muito mais por trás dessa pintura que se tornou o símbolo internacional da ansiedade.
Em “O Grito”, que mais tarde recebeu versões de Andy Warhol e Gary Larson, um corpo contorcido, um rosto esticado e uma boca oblonga e aberta tem ao fundo duas pessoas conversando, possíveis amigos de Munch. Acredita-se que as cores mais vívidas tenham sido inspiradas pelos matizes impetuosos do céu europeu durante a erupção do vulcão Krakatoa em 1883.
Há quem diga que a pintura é uma manifestação das insatisfações de Munch no amor e na amizade. Porém, declarações de artistas conceituados e pesquisas mais aprofundadas trazem informações reveladoras. Um exemplo é o livro “Edvard Munch: Behind the Scream”, da inglesa Sue Prideaux, publicado pela Yale University Press em 2005.
A escritora e pesquisadora da obra e vida do pintor norueguês confirma que a cena de “O Grito” foi baseada em um lugar na Colina de Ekeberg, um bairro de Oslo, na Noruega. A inspiração veio de uma memória de quando ele caminhava ao pôr-do-sol em companhia de dois amigos.
Segundo informações que Sue transcreveu do próprio diário de Edvard Munch, o pintor sentiu-se exaurido e parou para descansar, encostando na grade retratada na pintura. Também sofrendo de ansiedade, problema crônico que sempre o acompanhara, ouviu sons que pareciam vir diretamente da natureza. Eram gritos de animais sendo mortos em um matadouro perto de um hospício. Os sons perturbadores se misturaram ao choro dos pacientes internados em um manicômio onde sua irmã era uma das internas.

Munch provavelmente tinha grande aptidão para se sensibilizar tanto com a dor humana quanto com a dor dos animais (Foto: Edvard Munch – The Dance of Life Site)
Na pintura, ao fundo, a paisagem esmaecida da Colina de Ekeberg, que proporciona uma túrbida perspectiva, deu a tônica do estado emocional de Munch transformado em protagonista. A inquietação do personagem combinou a agitação interna e externa de tudo que o pintor vivenciou na caminhada em companhia dos dois amigos. Ele também chamava sua pintura de Der Schrei der Natur (O Grito da Natureza), nome alemão que deu à obra.
“A experiência foi muito perturbadora para ele quando atravessou aquela ponte. Creio que quando [Edvard Munch] criou esse nome [em alemão], ele o relacionou com o grito dos animais. Acho que se abrirmos nossos corações para esse grito, os animais estão falando através de si mesmos”, interpreta a artista britânica Sue Coe, deixando subentendido que Munch provavelmente tinha grande aptidão para se sensibilizar tanto com a dor humana quanto com a dor dos animais.
Saiba Mais
Edvard Munch nasceu em Løten em 12 de dezembro de 1893 e faleceu em Ekely em 23 de janeiro de 1944.
Uma das cinco versões de “O Grito” foi vendida em um leilão por 120 milhões de dólares para um colecionador privado. As outras estão em exibição em museus ao redor do mundo.
Referências
Prideaux, Sue. Edvard Munch: Behind the Scream. Yale University Press (2005).
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Liev Tolstói e a realidade dos matadouros
Quando o boi não caiu onde o açougueiro queria, ele gritou: “Maldito diabo!”

Tolstói: “Mas o açougueiro marchava atrás, pegou a cauda e a torceu; rangeram as vértebras” (Foto: Reprodução)
Em um de seus vários relatos sobre suas experiências em matadouros, o escritor russo Liev Tolstói escreveu que uma vez, quando observava um rebanho, ele notou que o primeiro animal se destacava pela beleza, robustez e cor alva com manchas e extremidades pretas.
“Um jovem animal musculoso e enérgico. Quando tiraram a corda, ele abaixou a cabeça e se deteve com decisão. Mas o açougueiro marchava atrás, pegou a cauda e a torceu; rangeram as vértebras. O boi lançou os que prendiam a corda, jogando-os contra o chão, e se deteve de novo olhando para os lados com seus olhos negros cheios de fogo”, relatou.
Sua cauda foi violentada mais uma vez, e ele avançou. Quando chegou onde queria, o açougueiro se aproximou, apontou e o golpeou. O mau golpe não fez o boi ceder. Ele agitou com força a cabeça, mugiu e, sangrento e furioso, se soltou e inclinou-se.
Segundo Tolstói, quem estava perto da porta fugiu. Acostumados com o perigo, os açougueiros pegaram a corda e mais uma vez puxaram a cauda do animal. Depois de enganar o boi, fizeram com que ficasse exatamente onde queriam. E de lá, ele não poderia escapar. Um dos açougueiros golpeou o belo animal que, cheio de vida, moveu a cabeça e as pernas enquanto o degolavam e o esfolavam.
Quando o boi não caiu onde o açougueiro queria, ele gritou: “Maldito diabo!”, e cortou a pele da cabeça do animal. Cinco minutos depois, a cabeça preta estava vermelha e aqueles olhos, que cinco minutos antes brilhavam com tanta força, estavam vítreos e apagados.
Depois, Tolstói foi ao matadouro de ovelhas, um grande prédio com pavimento asfaltado. Ele viu mesas com apoios, e sobre elas as ovelhas e os bezerros eram degolados. Naquele local com forte odor de sangue, o trabalho tinha terminado e havia somente dois açougueiros.
“Um deles soprava a perna de uma ovelha morta e esfregava com a mão o ventre inchado do animal. O outro, que era moço e levava o avental cheio de sangue, fumava um cigarro. Seguiu-me um homem que parecia um antigo soldado. Levava um cordeiro de um dia, preto, com uma mancha no pescoço e as patas amarradas, e o pôs sobre a mesa”, relatou o escritor russo.
O cordeiro continuava imóvel como a ovelha morta e inchada enquanto eles cumprimentavam-se e conversavam. De acordo com Tolstói, a única diferença era que o animal movia vivamente a pequena cauda e ocasionalmente as laterais, com celeridade.
“O soldado, sem fazer esforço, apoiou a cabeça do pequeno animal na mesa, e o açougueiro, sem parar de falar, segurou com a mão esquerda a cabeça do cordeiro e lhe cortou o pescoço. A vítima agitou-se, a cauda ficou rígida e parou de se mover. Enquanto o sangue descia, o açougueiro acendeu o cigarro”, testemunhou.
Tolstói se surpreendeu com a tranquilidade daqueles homens. Quando o sangue parou de escorrer, o cordeiro se agitou de novo e a conversa prosseguiu sem cessar nem por um segundo.
Referência
Tolstói, Liev. O Primeiro Passo (1892).
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Na época da escola…
Na época da escola, lembro que nos levavam à fábrica da coca-cola, entre outras grandes indústrias que permitiam nossas visitas, mas sempre com um guia que romantizava tudo. Por que não nos levavam para conhecer a origem da carne, dos produtos lácteos e dos ovos? Matadouros, aviários, avícolas ou os bastidores da indústria leiteira… É uma pergunta retórica mesmo.
Tolstói: “Às vezes, o açougueiro não acertava direito o golpe e o boi resistia e mugia enquanto jorrava sangue”
“Ninguém se importava se era uma boa ou má ação matar aqueles bois”

Tolstói: ““A bacia enchia rapidamente, mas o boi estava vivo e continuava golpeando o ar com os casco” (Foto: Reprodução)
Em um dia quente de julho, uma sexta-feira, o escritor Liev Tolstói visitou mais um matadouro em Tula, ao sul de Moscou. Sentiu um odor de sangue ainda mais intenso do que da última vez. O trabalho dos açougueiros prosseguia, e ele observava o pátio cheio de gado. Também havia animais nos galpões adjacentes ao prédio central. Carretas e mais carretas carregadas de bois, vacas e bezerros chegavam ao matadouro.
Em alguns carros puxados por cavalos, ele viu bezerros vivos empilhados com as patas para cima. Os veículos se aproximavam do matadouro e descarregavam. “Havia ainda outros carros com bois mortos, cujas patas se moviam conforme as sacudidas do veículo. Mostravam suas cabeças inertes, seus pulmões vermelhos e o fígado marrom. Todos saíam do matadouro. Junto à cerca, havia cavalos montados, que pertenciam aos fazendeiros. Estes, com suas longas blusas e de chicote à mão, iam e vinham pelo pátio, ou marcavam com alcatrão o gado que lhes pertencia”, escreveu Tolstói.
Depois de negociar o preço, os fazendeiros vigiavam o transporte do gado do pátio até o galpão, e de lá até o prédio. Todos pareciam preocupados por causa das negociações. Ninguém se importava se era uma boa ou má ação matar aqueles bois. Se importavam tanto com isso quanto com a composição química do sangue que escorria pelo chão”, lamentou o escritor russo.
Não havia nenhum açougueiro no pátio. Todos trabalhavam. Ao final do dia, tinham matado pelo menos cem bois. Tolstói entrou no prédio central e ficou junto à porta. Ele não poderia entrar porque não havia espaço. Enquanto o gado se amontoava, o sangue gotejava do teto, espirrando nos açougueiros. “Se eu tivesse entrado, também mancharia minha roupa”, enfatizou.
O escritor russo testemunhou um dos homens derrubando um boi enquanto outro animal deslizava por uma das pistas. No mesmo local, um boi com as patas brancas já não agonizava. Morto, era esfolado por um açougueiro. Pela porta oposta, passava um boi vermelho e gordo. Ele resistia enquanto o arrastavam. Mal chegou à entrada, e um açougueiro o golpeou no pescoço com um machado.
Caiu pesadamente no chão, voltou-se de lado e moveu convulsivamente as patas e o rabo. Logo outro açougueiro se lançou sobre ele, pegou-lhe pelos chifres, e fez com que sua cabeça ficasse rente ao chão para que outro açougueiro o degolasse. Pela ferida aberta, o sangue vermelho escuro brotava como de uma fonte, e um menino sujo de sangue o recolhia com uma bacia de metal. Apesar de tudo, o boi se esforçava para não morrer. Não parava de se mover, sacudindo a cabeça e agitando involuntariamente as patas.
“A bacia enchia rapidamente, mas o boi estava vivo e continuava golpeando o ar com os cascos, o que obrigava os açougueiros a afastarem-se. Tão logo a bacia encheu, o rapaz a colocou na cabeça e a levou para a fábrica de albumina, enquanto outro menino trouxe outra bacia”, registrou Tolstói.
O boi esperneava desesperadamente. Quando cessou de correr o sangue, o açougueiro levantou a cabeça do boi e começou a esfolá-lo. O animal não tinha morrido. “Tinha a cabeça já esfolada e vermelha, com veias brancas. Sua pele pendia dos dois lados, e o boi não cessava de mover-se. Outro açougueiro pegou o boi por uma pata, a quebrou e a cortou: o ventre e as outras pernas continuavam estremecendo convulsivamente”, testemunhou o escritor russo.
Sem demora, alguns homens lhe cortaram os membros restantes e os lançaram em um monte, onde já havia muitos membros de animais. Depois arrastaram o boi, já sem vida, até a polia e o penduraram. Da mesma forma, morreram outros três bois. Todos passaram pelo mesmo processo; cortaram suas cabeças, cujas línguas pendiam entre os dentes. Às vezes, o açougueiro não acertava direito o golpe e o boi resistia e mugia enquanto jorrava sangue. Se esforçava para escapar de suas mãos. Sem chance, o arrastavam ao centro do prédio e o golpeavam até cair.
“De perto, vi repetir a mesma operação, e de que maneira se obrigava os animais a entrar. Cada vez que pegavam um boi do galpão e o arrastavam por meio de uma corda amarrada aos chifres, o animal, farejando sangue, resistia, mugia e retrocedia. Dois homens não conseguiram arrastá-lo à força. Então um dos açougueiros se aproximou, pegou o boi pelo rabo, o torceu e rompeu-lhe uma vértebra. O animal avançou temeroso. Quando terminaram de matar os bois de um pecuarista, deram início ao abate dos animais de outro”, confidenciou o escritor russo Liev Tolstói.
Referência
Tolstói, Liev. O Primeiro Passo (1892).
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Tolstói: “Já que se come carne, é preciso ver como se matam os bois”
Em uma sexta-feira, o escritor russo Liev Tolstói foi a Tula, ao sul de Moscou, encontrar um amigo que ele considerava bondoso e sensível. Durante a conversa, pediu que o acompanhasse até um matadouro. O homem concordou em conhecer as instalações, inclusive admitindo curiosidade, porém deixou claro que não entraria no local se os animais estivessem sendo abatidos. “E por que não? Precisamente, é isso que quero ver. Já que se come carne, é preciso ver como se matam os bois”, argumentou Tolstói.
O amigo, que também era caçador, logo um matador, declinou a proposta, mas acabou concordando. Quando chegaram ao matadouro, notaram um odor intenso e repugnante de putrefação. O mau cheiro aumentava conforme eles se aproximavam do edifício de tijolos vermelhos com cúpulas e longas chaminés.
“Entramos pela porta da garagem. À direita, há um grande pátio cercado, que tem uma área de um quarto de hectare. Ali é onde duas vezes por semana amontoam o gado vendido. A portaria fica na extremidade desse pátio. À esquerda, há dois prédios com portas ogivais. O pavimento é de asfalto, forma um duplo declive; e contém aparatos para pendurar os bois mortos”, informou o escritor russo.
Diante da portaria, eles viram seis açougueiros sentados. Estavam com os aventais ensanguentados e as mangas arregaçadas, exibindo braços musculosos. Como o expediente terminara há 30 minutos, eles descansavam. As portas abertas do matadouro ajudavam a amplificar o odor nauseante de sangue quente. Lá, viram um pavimento turvo e brilhante. Em suas valas, havia sangue coagulado.
“Um dos açougueiros nos explicou de que modo se mata, e nos mostrou o lugar em que acontece tal operação. Não a compreendi de todo, mas ao contrário do que eu pensava, a realidade teve mais impacto sobre mim do que a minha imaginação”, admitiu Liev Tolstói.
Referência
Tolstói, Liev. O Primeiro Passo (1892).
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