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Usando fezes de grilo para envelhecer uma escritura

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Aspecto do papel envelhecido por longo período com fezes de grilo (Foto: Reprodução)

Aspecto do papel envelhecido por longo período com fezes de grilo (Foto: Reprodução)

Nas décadas de 1930, 1940 e 1950, como a garantia de autenticidade de uma escritura levava em conta o envelhecimento do papel, uma tática muito comum de quem vinha para o Noroeste do Paraná invadir terras consistia em passar fezes de grilo sobre o documento forjado. Assim o papel rapidamente amarelecia e logo era considerado como verdadeiro, já que não havia recursos nem tempo para se avaliar com mais esmero a sua veracidade. Alguns velhacos também depositavam o documento dentro de uma gaveta ou caixa com grilos – o que não apenas amarelecia o papel como ajudava a dar um aspecto de deterioração natural. A prática justifica a origem dos termos “grileiro” e “grilagem de terras”.

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Written by David Arioch

February 5th, 2016 at 10:34 pm

O menino que virou escravo em Paranavaí

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Velhos endinheirados ofereciam pequenas fortunas para ter uma noite de “prazeres” com o jovem caiuá

Fazenda onde Urissanê vivia ficava nas imediações da velha sede da Vila Montoya (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Fazenda onde Urissanê vivia ficava nas imediações da velha sede da Vila Montoya (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Em 1938, Urissanê tinha oito anos quando foi vendido em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, para um cafeicultor que possuía uma grande propriedade nas imediações da velha sede da Vila Montoya, fundada pela Companhia Brasileira de Viação e Comércio (Braviaco). De etnia caiuá, o garoto foi privado do convívio familiar com dois anos, após ser sequestrado por uma tribo rival que vivia na região do Porto São José, na divisa do Paraná com o Mato Grosso do Sul.

“Parece bicho do mato, mas é bem dócil. Pode passar a mão, não tenha medo. Esse aí não sabe nem de onde saiu ou pra onde vai”, dizia e gargalhava o fazendeiro em algumas festas realizadas em sua propriedade, segundo o pioneiro Salvador Marcondes que aos 18 anos começou a trabalhar como capataz para o cafeicultor.

Nas festas, a criança de origem indígena era exposta como um brinquedo para um grupo de magnatas que a encaravam como um pequeno e exótico animalzinho indefeso. As celebrações restritas atraíam muita gente de longe, não apenas do Paraná. “Mais tarde, me dei conta que fiquei frente a frente com pessoas que entraram para a história como figuras revolucionárias e heroicas”, destaca Marcondes que hoje tem 96 anos e uma lucidez invejável.

Alguns velhos endinheirados se ofereciam para pagar pequenas fortunas para ter uma noite de “prazeres” com o menino de olhos pequenos, lábios carnudos, traços femininos e pele tão coruscante que despertava inveja em mulheres de todas as idades. Apesar disso, o fazendeiro, que se dizia um representante dos anseios de Deus na Terra, jamais consentiu tal libertinagem. Também afirmava ser contra a pederastia.

“Cheguei a ver a patroa na cozinha praguejando o menino, dizendo a um padre que não entendia como Deus poderia permitir que um diabinho pagão tivesse uma pele tão bonita, enquanto ela, de origem cristã, uma fiel dizimista da igreja que investia muito dinheiro em produtos de beleza importados, pouco via resultados em sua pele e na de suas filhas”, narra o ex-capataz. O que encolerizava a patroa era o fator genético que afetava sua “linhagem” há mais de um século. Na infância, as mulheres de sua família já desenvolviam acne severa e tipos raros de erupções cutâneas.

Incentivada pela mãe, um dia a filha mais velha do fazendeiro, que tinha cerca de 14 anos, pediu a Urissanê para preparar um pouco de chá de erva-doce. Depois de pronto, o garoto caminhou até o quarto da jovem e, se esforçando para equilibrar uma pesada bandeja de prata, bateu na porta e perguntou se poderia entrar. Ela consentiu e, sentada na cama, ordenou que ele a servisse. Assim que bebericou o chá, o semblante da garota mudou. Enraivecida, retirou o bule da bandeja e lançou todo o chá no rosto de Urissanê.

Enquanto os lábios do garoto tremiam e as lágrimas deslizavam, misturadas ao líquido quente que escorria por toda a fronte queimada, a moça gritou: “Você queria queimar minha boca, não é mesmo, seu vermezinho? O que achou do chá? Gostoso, não é?”, escarneceu, sem se importar com o sofrimento da criança que se contorcia de dor, esfregando os pés pequenos e descalços – um contra o outro, sem emitir som.

Menino trabalhava nos cafezais desde os quatro anos (Foto: Reprodução)

O menino trabalhava nos cafezais de Paranavaí desde os quatro anos (Foto: Reprodução)

Depois de ouvir os gritos da menina, a patroa de Urissanê correu até o quarto, acompanhada das outras duas filhas. Ignorando o rosto severamente ferido do menino, deu atenção somente ao estado emocional da própria filha. “O que você fez com ela, seu macaquinho? O seu lugar é na floresta, não aqui com pessoas de bem”, berrava, sacolejando o garoto que desmaiou e caiu no chão, batendo a cabeça contra o piso de tacos.

A grazinada chamou a atenção de Marcondes que foi até o quarto, onde encontrou o menino caído, quase irreconhecível, com a pele do rosto encorrilhada e disforme. “Era como ver outra pessoa. Pedi ao patrão que me deixasse cuidar do menino. Ele fez uma cara feia fumando um daqueles charutos importados de Cuba, tomou um trago de whisky Evan Williams, o seu preferido, esfregou os dedos na barba e falou: ‘Tá! Agora sai daqui e dê um jeito na situação. Não quero ficar no prejuízo’’’, revela o ex-capataz.

Pela manhã, ouvia-se de longe o fazendeiro discutindo em seu escritório com a mulher e as filhas. “Sua endemoniada, muita gente de nome vinha de longe só pra ver o menino. Ele atraía bom negócio pra mim. O que eu vou fazer agora? Bando de tapadas!”, vociferou esmurrando a mesa.

Quando o marido não estava por perto, as mulheres da casa comemoravam os ferimentos no rosto de Urissanê. Não velavam o prazer de ver o menino padecendo. “Acabou pra sempre aquela pele e aquele rostinho bonito e delicado. Como Deus é generoso!”, celebrava a esposa ajoelhada e levantando as mãos para o céu, ladeada pelas filhas que a imitavam.

Apesar dos ferimentos, o cotidiano de Urissanê em nada mudou – continuava trabalhando dia e noite. Aprendeu a dominar a dor e todos os dias antes de dormir recebia visitas de Marcondes e sua noiva Ruth Moreno. Sem dizer nada a ninguém, os dois se tornaram responsáveis pelo seu bem-estar. A rápida recuperação do menino também chocou a patroa. Não levou mais de três meses para o rosto de Urissanê voltar ao estado normal, sem qualquer indício de que algum dia tivesse sido queimado.

Ainda assim, antes de dormir, para não fugir da propriedade, o fazendeiro obrigava um pistoleiro de sua confiança a acorrentar Urissanê no canto de uma tulha abandonada com chão forrado de palha. Seus punhos severamente machucados ganharam cicatrizes com as formas irregulares de braceletes rudimentares. “Tinha dó daquela criança. Só que se eu o libertasse, o patrão mandava Tonho [um pistoleiro] matar nós dois antes que a gente percorresse um quilômetro. Eu era muito novo e também tinha medo”, diz Marcondes.

O garotinho acordava sempre às 5h e em jejum percorria quilômetros a pé até chegar ao cafezal. Acostumado a trabalhar na área rural de Paranavaí desde os quatro anos, já entendia tanto do plantio quanto da colheita do café. Mas o que mais intrigava os colonos que dividiam o serviço com aquela criança era a sua astúcia para reconhecer as mudanças de tempo e clima. “Ô indiozinho, fala pra nós se o dia vai ser bom ou ruim”, gritou um homem em meio à multidão de colonos numa manhã ensolarada de 1939. Enquanto muitos sorriam, outros ficavam em silêncio prestando atenção na criança mística, considerada pelos mais humildes como alguém que jamais seria corrompido pela maldade.

Perfume da mata da região agradava Urissanê (Acervo: Diederichsen & Tibiriçá)

Perfume da mata da região agradava Urissanê (Acervo: Diederichsen & Tibiriçá)

Urissanê, que usava apenas uma bermuda velha feita a partir de um saco de estopa, cheirou o ar por um instante. Descalço, se ajoelhou, inclinou o rosto no chão e aspirou. “Avatim! Avatim! É o cheiro da terra que conta. Vem vento! Vem água! E derruba até ambição e teimosia”, advertiu o menino com uma voz cantada mais suave que o balanço das folhas verdes do cafeeiro.

Alguns levaram a sério o vaticínio e lamentaram que seria mais um dia de serviço perdido, já que o patrão não pagava a quem não trabalhasse quando chovia. Outros zombaram da predição do menino, reclamando que não iriam abandonar o trabalho por causa de conversa fiada de criança. Uma hora depois, o sol desapareceu, principiando a chegada de uma escuridão intempestiva. O vento intenso, que soprava envergando com fúria os galhos dos cafeeiros, esparramou flores brancas pelo chão de terra, formando um tapete natural convidativo e perfumado.

Subitamente o vento cessou e a chuva começou a cair leve sobre os colonos ainda indecisos sobre ficar ou partir. Aqueles que confiavam nas palavras do menino se protegeram do vento e da chuva dentro de uma grande tulha do outro lado do carreador. Quando cessou, os mais céticos dançaram em torno dos cafeeiros, gritando: “Êêê indiozinho que num sabe de nada. Acha que vamo credita nessa conversa? A gente precisa é de dinheiro no bolso!” Menos de um minuto depois, um raio caiu sobre Josué, o homem que achincalhou Urissanê, matando-o instantaneamente diante de todos os colonos. Seus companheiros correram horrorizados até a tulha onde os mais precavidos se protegiam da intempérie.

Apesar da condição cativa, o garoto trabalhava com o vigor de um adulto. Nunca demonstrava tristeza, raiva ou qualquer sentimento negativo. Era como se fosse motivado a viver por um motivo que jamais seria entendido pelos homens, mulheres e crianças com quem convivia. “Parecia que nada o abalava. Ele tinha uma paz enorme dentro dele e isso incomodava muita gente”, explica Salvador Marcondes.

No final da tarde, logo que o trabalho no campo terminava, Urissanê retornava para a casa da fazenda, onde era obrigado a atender aos caprichos da família do patrão até as 22h. Às vezes, quando estava sozinho lavando os pés da patroa na sala de descanso, o menino levava golpes de relho e mesmo assim não se queixava ou reagia. A observava atentamente com um olhar plácido e reflexivo, dando a impressão de que sua mente era independente do corpo. “Uma vez vi a reação dele. Era de arrepiar. Pedi pra patroa não judiar do menino e ela alegou que estava educando ele”, lembra.

Dodge 1937, modelo usado na fuga de Urissanê (Foto: Reprodução)

Dodge 1937, modelo usado na fuga de Urissanê (Foto: Reprodução)

Nos raros momentos em que tinha tempo livre e podia brincar, ainda que sob supervisão de alguém, Urissanê deitava na relva e observava o céu. A noite o agradava muito por causa do brilho das estrelas e da acentuada olência fresca da selva. A mata nativa, não muito distante, parecia trazer lembranças de um tempo que nunca viveu. Estirado no chão e com as mãos apoiadas na cabeça, cantava uma curta canção chamada “O Sereno da Lua”. Falava de uma criança que todos os dias tentava enxergar na lua a sua própria história. Se a lua não fosse capaz de realizar esse desejo, que pelo menos o preenchesse com uma nova história.

O capataz se apegou tanto ao menino que um dia decidiu libertá-lo. Ele e sua noiva, Ruth, planejaram a fuga uma semana antes do Natal de 1939. Quando relatou o plano, Urissanê recusou a partida. Embora vivesse como um animalzinho que desconhecia outra realidade que não a da gaiola, argumentou que nunca se sentiria livre se fugisse. “Agradeço a bondade do senhor, mas não sei o que fazer sozinho lá fora. Não sei se existe algo pra mim, até descobrir vou vivendo dentro de mim”, justificou.

Salvador ficou decepcionado e perguntou como o menino poderia aceitar viver daquele jeito. “Sei quase nada sobre a vida, mas sinto que minha dor é passageira, mais passageira do que a dor do patrão ou da patroa. Esse povo tá marcado por um sofrimento que nunca vou carregar comigo. Quando apanho sinto mais pena deles do que de mim”, confidenciou, deixando o capataz em silêncio.

Na véspera de Natal, o jovem caiuá teve uma surpresa quando Salvador e Ruth o surpreenderam, abrindo a porta do barracão onde ele dormia. Assustado, saltou da cama de palha e só se tranquilizou quando reconheceu o casal. Transportando uma grande variedade de alimentos, ofereceram um banquete jamais visto por Urissanê, acostumado a se alimentar mal. Ocasionalmente comia escondido as parcas sobras da boa comida que a mulher do patrão mandava jogar no lixo.

Durante a ceia, Salvador e Ruth insistiram mais uma vez na fuga, deixando claro que partiriam com Urissanê. O menino acabou concordando. Marcondes então rompeu a machadadas as longas correntes que prendiam os punhos de Urissanê, o impedindo de dar mais de quatro passos. Depois de juntarem os poucos pertences, invadiram um barracão e furtaram um caminhão Dodge 1937 do patrão. O barulho atraiu a atenção do pistoleiro Tonho que não conseguiu dormir e saiu para caminhar por aquelas bandas. “Que tá acontecendo aí dentro? Vamos, Salvador! Saia já daí!”, gritou, em seguida mirando a espingarda na altura do peito de Marcondes.

Crente de que não escapariam com vida, o capataz fez uma proposta. Mostrou todo o seu dinheiro guardado dentro de um pequeno saco e o ofereceu a Tonho. Ele hesitou, franziu a testa, fez careta e recusou. Prestando atenção em Marcondes e mantendo os olhos em direção ao veículo, o pistoleiro viu Ruth e Urissanê lá dentro. O menino sorriu para ele como um filho que reencontra o pai depois de muito tempo. “Quero nada não. Pode ir embora. Vá, Salvador! Vá logo!”, ordenou.

Tonho virou as costas, cuspiu um naco de fumo no chão e desapareceu na escuridão sem olhar para trás, com a espingarda apoiada no ombro. Quando o caminhão se afastou da fazenda, Urissanê observou a casa do patrão até desaparecer do seu campo de visão. Marcondes e Ruth assistiram a reação do menino sem dizer palavra. “A lua também me acompanha. Acho que agora também consigo viver fora de mim”, disse o menino.

Saiba Mais

Graças a Salvador Marcondes e Ruth Moreno, Urissanê reencontrou a família em 1946. O jovem caiuá continuou se correspondendo com o casal até 1965, quando perderam completamente o contato.

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As crianças do Cine Ouro Branco

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Vi as lágrimas escorrendo pelo seu rosto, molhando sua camisa xadrez abotoada até na altura do pescoço

Cine Ouro Branco marcou gerações em Paranavaí (Acervo: Osvaldo Del Grossi)

Não faço parte de uma geração que tem as lembranças mais sólidas e claras do Cine Ouro Branco, um dos grandes pontos de entretenimento da população de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, até 1993. Quando o cinema foi fechado, eu ainda era criança. Apesar disso, frequentei o Ouro Branco por alguns anos da minha infância e tenho boas recordações daquele tempo.

A minha primeira vez no cinema foi numa sessão de “Os Heróis Trapalhões – Uma Aventura na Selva”, num final de semana em 1988. Até então, a maior tela que eu tinha visto era da TV de 21 polegadas, coberta por uma caixa de madeira envernizada, que ficava na sala de casa. Mesmo assim eu era feliz assistindo desenhos animados nela.

Logo que eu, meu irmão e minha mãe chegamos em frente ao Cine Ouro Branco, na Rua Manoel Ribas, no centro de Paranavaí, prestei atenção na grande movimentação de pessoas na fila da bilheteria. Miúdo, eu observava tudo na proporcionalidade da minha estatura. Via mais sapatos, pernas e cintos do que rostos. A não ser, claro, quando as pessoas eram tão pequenas quanto eu.

Antes de entrarmos, caminhei vagarosamente e de costas pela calçada, tentando observar a altura do prédio do Cine Ouro Branco, mas era impossível para mim. Então pensei que aquele fosse o maior cinema do mundo. Quem sabe, atravessasse os céus e tivesse contato direto com o paraíso de que falavam na escolinha.

O gentil pipoqueiro sorria pra mim, percebendo através dos meus olhos grandes, cilíndricos e pretos que aquela era a minha estreia no cinema. “É sua primeira vez? Você vai gostar e vai querer voltar mais vezes”, disse enquanto ajeitava uma pequena quantidade de pipoca doce que tentava se misturar com a salgada.

Quentinha, a pipoca pronta para consumo estalava dentro do carrinho. Por um momento, cheguei a crer, na minha ilusão meninil, que talvez a pipoca tivesse vida própria e também quisesse entrar no cinema para assistir Os Trapalhões. Ao meu lado, prevalecia um aroma adocicado que pacificava as crianças mais buliçosas – sim, era um eficaz calmante açucarado e rubro.

Trazia recordações dos airosos ipês-vermelhos que eu via todos os dias perto de casa, quando apontava com o dedo e gritava: “Olha lá um pé de pipoca-doce!” Do outro lado do carrinho de pipoca, a olência mudava, assim como o público. Os adultos, principalmente os homens, se achegavam para comprar: “Me vê da salgada, por favor!”

Habilidoso, o pipoqueiro sabia como ninguém quantas pazinhas de alumínio eram necessárias para encher um saquinho. Eu assistia suas mãos sulcadas lucilando diante da pequena lâmpada já amarelecida que iluminava e dourava seu rosto crispado. Era desse jeito, sempre que ele se inclinava ou se aprumava. Aquele era seu espetáculo e na entrada do Cine Ouro Branco ninguém era mais importante do que o pipoqueiro.

Naquele dia, antes de entrarmos no cinema, cinco engraxates, com idade entre 6 e 14 anos, se aproximaram, encostaram numa parede ao lado do Cine Ouro Branco e, como os jovens farroupilhas do filme Los Olvidados, de Buñuel, começaram a fumar, observando famílias descendo dos automóveis e atravessando a calçada.

“Se tivesse pai ou mãe não tava nessa vida, irmão! Ser pobre e sozinho não é fácil não. Olha quanto luxo dessa molecada”, comentou um deles com os quatro amigos que o acompanhavam. Sem falar nada, apenas balançaram a cabeça em concordância, esmagando bitucas a pés pequenos.

Sujo, com unhas encardidas e cheiro nauseante de cigarro barato, um engraxate de não mais que 12 anos se aproximou de uma turma de crianças. Como alguém indeciso sobre entrar ou sair, cruzou os braços e ergueu o rosto enquanto uma das luzes da entrada realçava sua dúbia expressão de satisfação.

“Pessoal, escuta aí! Rapidinho! Esse filme dos Trapalhões é bom demais. Só tem uma coisa ruim. O Mussum e o Zacarias morrem no final. Valeu! Tchau!”, gritou e correu rindo, com os cabelos ondulados e escuros esvoaçando. Naquele momento, ele se tornou um antagonista digno do vilão Cicatriz interpretado por Carlos Koppa no filme dos Trapalhões.

O garoto arrastou os chinelos surrados e, acompanhado de seus comparsas, desceu satisfeito em direção à Rua Pará. Algumas crianças não se importaram com a revelação, mas outras ficaram tão irritadas que queriam que seus pais chamassem a polícia ou fizessem algo a respeito. Por bem, ninguém os perseguiu.

Dentro do Cine Ouro Branco, fiquei boquiaberto com as poltronas a perder de vista. “Aqui cabe mil e quinhentas pessoas. Olhe lá em cima, é como numa ópera”, informou minha mãe, observando a minha reação e a do meu irmão Douglas. Sem pressa, giramos ao redor da sala mastodôntica, tentando registrar os detalhes.

Por sorte, havia lugares vagos nas primeiras fileiras. Então caminhamos até lá, atravessando corredores e ouvindo sons de espectadores comendo pipoca, conversando, fazendo troça e se abraçando. Perto de nós, o lanterninha acompanhava tudo com sua aura indefectível de vagalume. Se sentia o líder de um coliseu onde nada aconteceria sem sua autorização, ainda mais quando as luzes se apagavam.

Assim que me sentei, observei um garoto com roupas remendadas sentado ao meu lado, acompanhado de sua mãe. Seu nome era Juscelino e ele era um ou dois anos mais velho do que eu. Também era a primeira vez dele no cinema. Percebi sua ansiedade porque seus pés miúdos não paravam de balouçar, assim como os meus.

Suas mãos trêmulas suavam tanto que toda hora ele as enxugava nas laterais da calça xadrez de barras curtas. Juscelino falava comigo mantendo o rosto em direção à desmesurada tela de projeção. Achei que era empolgação por causa do filme, até que notei algo de diferente em seus olhos, uma clareza cristalina como nunca vi antes. Com naturalidade, a mãe revelou que o filho nasceu cego.

Juscelino não enxergava nada. Ainda assim sua empolgação no Cine Ouro Branco superava até a minha. Os sons e olores que chegavam até ele eram como presentes imateriais, memoriais. Com uma rara acuidade auditiva e olfativa, Juscelino percebia até o que as pessoas faziam ou comiam nas poltronas mais distantes – e comentava tudo comigo.

Filho de um casal de lavradores de Alto Paraná, ele chegou a Paranavaí de ônibus pela manhã e ficou horas esperando a bilheteria abrir. Seu pai não prestigiou o grande acontecimento porque o dinheiro economizado a duras penas só cobria as despesas da mulher e do filho. “Vai começar, mãe!”, disse o garotinho segundos antes do projetor iniciar a rodagem do filme, como se tivesse um dom para presságios.

Do início ao fim, Juscelino ficou em completo silêncio, tentando absorver o máximo possível de informações sonoras. Ocasionalmente, se movia sobre a poltrona sem fazer barulho, preocupado em incomodar. Eu, ele e meu irmão estávamos unidos por uma experiência que jamais se repetiria. As nossas maiores descobertas eram visuais e as de Juscelino auditivas. Talvez até mais ricas, já que ele se colocava na condição de criador para dar vazão à criatividade de tudo que ouvia.

Ainda no escuro, vi as lágrimas escorrendo pelo seu rosto, molhando sua camisa xadrez abotoada até na altura do pescoço. Ao final, com o retorno das luzes, perguntei a ele como era a assistir a um filme no cinema sem poder ver. Minha mãe me repreendeu, mas a de Juscelino não se importou com a pergunta.

“Não sei explicar direito, mas eu vejo sim, só não vejo com os olhos. Vejo tudo que carrego pra dentro de mim”, justificou antes de segurar a mão de sua mãe e caminhar a passos curtos em direção à saída, onde a iluminação artificial contrastava e se harmonizava com a luz anilada e complacente da venusta Lua recém-chegada.

Na esquina, no cruzamento entre a Rua Pará e a Manoel Ribas, os cinco engraxates, crianças vivendo como adultos, tamborilavam suas caixas, sentados no meio-fio, imersos em sorrisos postiços e olhares acabrunhados, tentando existir para um mundo que pouco reconhecia suas verdadeiras intenções.

Retornando para casa a pé, atravessamos a rua. Quando passamos por eles, o mesmo garoto que causou o alvoroço na entrada do cinema me puxou pelo braço e, com um olhar supliciado, perguntou: “Ei, amigo. Você pode contar pra gente a história do filme que tu viu lá no cinema?”

Curiosidade

Fundado em 27 de janeiro de 1961 pela Família Del Grossi, o Cine Ouro Branco foi uma das mais importantes fontes de entretenimento da população de Paranavaí até 1993.

Calado, o homem que rejeitou a sociedade

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Diante do sol nascente fez uma oração à natureza, se preparando para cobrar pelo sangue derramado

Paranaguá quando Maurício teve de fugir de casa (Acervo: Instituto Histórico e Geográfico do Paraná)

Paranaguá quando Maurício teve de fugir de casa (Acervo: Instituto Histórico e Geográfico do Paraná)

Calado não é um personagem comum ou conhecido da população de Paranavaí e do Noroeste do Paraná. Na realidade, ouso dizer até que é anônimo. A primeira vez que ouvi falar sobre ele foi no Cemitério Municipal de Alto Paraná, em uma conversa entre meus familiares e outras pessoas já falecidas que chegaram a esta região nas décadas de 1930 e 1940. À época, eu tinha entre 11 e 12 anos e fiquei fascinado, embasbacado com o relato sobre aquela figura quimérica que logo invadiria meus sonhos. Acordado, eu divagava e escrevia, baseando-me no que foi ou poderia ser tal sujeito de características singulares.

A história diz que Calado ou Saru, chamado Maurício, chegou ao Noroeste do Paraná no final do século 19, após ser acusado de se aliar aos maragatos em Paranaguá, durante a Revolução Federalista em 1894. Há quem diga que ele era parente de Gumercindo Saraiva, um dos comandantes das tropas rebeldes que lutavam pela deposição do presidente do Rio Grande do Sul, Júlio de Castilhos. Mesmo com a morte de Ildefonso Pereira Correia, o barão do Serro Azul, em 6 de agosto de 1894, injustamente executado como traidor da pátria, os chimangos (republicanos) intensificaram a perseguição aos que teriam contribuído com os maragatos, independente da consistência das provas.

Com 19 anos, na tarde de 13 de setembro, Maurício estava em casa ajudando o seu pai a recolher as tábuas de um velho rancho que tinham desmontado pela manhã. Antes que pudesse terminar o trabalho, quatro homens invadiram a chácara da família procurando pelo rapaz. Assim que Maurício se apresentou, dois soldados o seguraram pelos braços, o acusando de conspiração contra a república. Vasculharam o quarto do jovem e encontraram uma pequena caixa de madeira dentro de um armário. No interior, havia um lenço vermelho, que caracterizava a vestimenta dos maragatos, e o rascunho de uma carta que supostamente foi entregue em julho de 1894 a Gumercindo Saraiva, líder do movimento.

Nela, o autor dava detalhes sobre a localização de uma fazenda que poderia servir de abrigo para os insurgentes sob comando do almirante Custódio de Mello. As informações selaram o destino de Maurício que tentou explicar que a caixa não pertencia a ele. Desesperados, seus pais choraram e imploraram para que o filho não fosse levado. De nada adiantou. O rapaz foi transportado até uma casa velha e abandonada a quilômetros de distância, onde o obrigaram a entrar em um porão extremamente sujo.

O rapaz foi acusado de se aliar aos maragatos (Foto: Reprodução)

O rapaz foi acusado de se aliar aos maragatos (Acervo: Instituto Histórico e Geográfico do Paraná)

O lugar era úmido, escuro e havia um odor nauseante de ferrugem. Sem enxergar nada, Maurício quase escorregou em uma poça. Quando um dos soldados acendeu a lamparina, o rapaz viu que havia bastante sangue sob seus pés; uma parte ressequida e outra ainda fresca, indicando que não fazia muito tempo que alguém entrou ou saiu gravemente ferido daquele lugar. O oficial que comandava a operação, identificado apenas como Justo, disse com voz plácida e pausada para Maurício assumir a autoria da carta, justificando que assim eles não precisariam machucá-lo.

O rapaz rejeitou a oferta. Por cerca de um minuto, o oficial observou seus olhos sem transmitir qualquer tipo de emoção. Caminhou até uma cadeira recostada num canto bem iluminado e sentou-se diante de uma mesinha onde havia um cachimbo com um tubo de bambu e um fornilho de barro. Lá mesmo, o sujeito começou a fumar ópio, alheio ao que aconteceria nos próximos minutos.

Enquanto isso, Maurício, mantido nas pontas dos pés com os braços suspensos por uma corda, levava socos e chutes de dois chimangos, mas não o suficiente para feri-lo gravemente. Ainda assim, sentindo severas dores em várias partes arroxeadas do corpo, ele lacrimejava em silêncio e ocasionalmente gritava que era inocente. Quando Justo parou de fumar, e acenou com uma das mãos cobertas pela fuligem de uma lamparina pendurada a centímetros de distância, os soldados se afastaram e saíram do porão.

“Você já ouviu falar no ‘braço de folie?’ É uma técnica muito interessante que um mercenário, um apátrida francês, descobriu na Ásia para conseguir respostas honestas de pessoas que não gostam muito de falar a verdade. É bem eficaz, tanto que até hoje nunca deixei de alcançar meu objetivo. Ah! E é exatamente pela boa aplicação dela que me chamam de Justo”, declarou com voz grave e sorriso tétrico.

Desinteressado em fazer mistério, o oficial caminhou até outro canto do porão, retirou algumas flores amarelas de um saco e começou a macerá-las vagarosamente com um pilão, combinando com outros dois ou três ingredientes desconhecidos. “Meu rapaz, veja que dádiva de flor! Se chama ranunculus e pode ser tão bela aos olhos quanto deletéria ao corpo. Há de concordar comigo em breve”, comentou.

Jonathas Kistner - Grupo de Estudos Manoa

Ainda jovem viajou com tropeiros até chegar ao interior de São Paulo (Acervo: Jonathas Kistner – Grupo de Estudos Manoa)

Justo avaliou a viscosidade da pasta, caminhou até Maurício, deu alguns tapinhas em suas costas e esfregou nas axilas do rapaz a mistura que tinha a consistência de um unguento. Em segundos, sentiu a pele esquentando. Um minuto depois, todos os pelos da área afetada caíram e suas axilas queimaram como se alguém as tocasse com um ferrete. “Enquanto sentia a pele em carne viva e se balançava, na tentativa de resfriar as queimaduras, ele continuava afirmando que era inocente. Disse à minha avó que a princípio o cheiro da mistura ajudava a amenizar a dor insuportável”, conta Arminda Gervasi, sobrinha-neta de Maurício.

Justo também esfregou um pouco do “braço de folie” nas costas do rapaz que não suportou as dores e acabou desmaiando. A sensação era terrível, dando a impressão de que seus músculos dorsais foram dilacerados. Horas mais tarde, Maurício estava deitado em uma cama dentro de um barracão de estocagem de erva-mate. Acordou e não entendeu o que aconteceu. No seu corpo não havia sinais de queimadura, apenas da violência física cometida pelos dois soldados. Quando ouviu o som da buzina de um navio, percebeu que estavam nas imediações do porto.

O seu algoz continuava ao seu lado, observando sua reação. Supostamente o rapaz seria levado em um navio da Marinha para ser julgado no Rio de Janeiro. Porém, o oficial da escolta mudou de ideia ao ter certeza que Maurício não mentiu. “A verdade é que não vamos levá-lo a lugar nenhum. A ordem que recebi é para matá-lo e abandonar o seu cadáver num buraco qualquer. Só que minha experiência me convenceu de que você é inocente. Como não posso admitir falhas, deixarei você viver sob duas condições: suma deste lugar e nunca mais procure seus pais. Se eu souber que não acatou minha ordem, voltarei e matarei toda a sua família. Agora vá! Desapareça da minha frente!”, ordenou o homem.

Confuso, assustado e tremendo, o rapaz saiu porta afora e correu mancando por mais de dois quilômetros até encontrar uma floresta onde se escondeu entre os arbustos. Sujo, faminto e ofegante, Maurício observou ao longe seus pais cabisbaixos na entrada de casa. Contrariando o oficial da escolta, caminhou furtivamente até eles e relatou tudo que aconteceu desde que foi levado de casa.

“Não posso ficar. Fiz um acordo com aquele homem e ele prometeu que viria atrás de mim e de toda nossa família se eu não cumprisse sua ordem. Vim só pra me despedir e avisar que entrarei em contato em no máximo um ano”, prometeu. Abraçados com o filho, os pais choraram novamente e pediram que ele passasse pelo menos mais uma noite em casa antes de partir. Temendo o pior, Maurício recusou. Aceitou só os curativos, a mala preparada pela mãe e um saco com alimentos, principalmente pães e frutas. Também se despediu da irmã Sophia que à época tinha dez anos.

No dia 27 de março de 1896, entrou na floresta para não mais retornar (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

No dia 27 de março de 1896, entrou na floresta para não mais retornar (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Enquanto caminhava a passos rápidos, o jovem manteve o olhar em direção aos pais. A mãe, Maria, uma costureira baixinha e de mãos aveludadas, estava com o rosto rubro e os olhos túrgidos de tanto lacrimejar. O pai, Nestor, um magro sapateiro de estatura mediana que se dedicava tanto ao trabalho que trazia no rosto duas pequenas manchas indeléveis de graxa, acenava com uma das mãos enquanto usava a outra para acariciar o ombro da esposa, na tentativa de confortá-la. Prestes a desaparecer através do nevoeiro, Maurício ouviu o eco da voz de sua mãe gritando que o amava, lembrança que o acompanharia por toda a vida.

Assim que deixou Paranaguá, o rapaz encontrou um grupo de tropeiros e os acompanhou até chegar a Sorocaba, em São Paulo. De lá, partiu a pé e sozinho para Tatuí e Avaré, também no interior paulista. “Trabalhava só pra sobreviver. Seu objetivo era ficar longe e ao mesmo tempo sentir-se perto dos pais. Não parava em lugar algum porque seu sonho era voltar ao Paraná, de uma forma que não comprometesse sua família”, enfatiza Arminda, neta de Sophia.

Maurício chegou no início de 1896 à Fazenda da Prata, da Família Alcântara, onde mais tarde surgiria a cidade de Jacarezinho, no Norte Pioneiro do Paraná. Lá, se ofereceu para trabalhar na derrubada de mata. Na incursão pela floresta, ficou impressionado com as belezas da flora e da fauna. Era a primeira vez que sentia-se bem desde que saiu de casa.

Sempre que perguntavam seu nome e origem, ele mentia, preocupado com a possibilidade de ser perseguido pelos republicanos. Evitava falar do passado e não gostava de conversar mais do que o necessário. Às vezes, dormindo na colônia da fazenda ou em algum acampamento perto da mata, onde passava meses trabalhando, acordava sobressaltado, suando frio e soluçando. “Nunca mais foi o mesmo. Tinha fortes dores de cabeça e de estômago, delírios ocasionais e um medo constante de morrer, agravado por uma ansiedade sem fim. Sonhava com a família todos os dias, só que decidiu nunca mais procurar ninguém por receio de represália”, revela a sobrinha-neta.

Avesso à violência, quando presenciava brigas entre peões, Maurício virava as costas e se afastava com o corpo trêmulo. O som de cada soco ou chute trazia nefastas recordações das sessões de tortura em Paranaguá. A agonia e o estado de desespero só eram amenizados com a leitura de um livro que o acompanhava desde os 15 anos – “Papéis Avulsos”, de Machado de Assis, que ganhou dos pais no Natal de 1890.

“Antes de falecer em decorrência de um câncer de tireoide, minha avó ainda falava com os olhos cheios de lágrimas das muitas vezes que seu irmão sentou perto da cabeceira para ler uma das histórias desse livro antes dela dormir”, confidencia Arminda emocionada. Maurício tinha predileção pelos contos “A Teoria do Medalhão”, A Sereníssima República”, “O Alienista” e “O Espelho”, decorando-os integralmente antes de completar 16 anos.

Cerca de dez anos depois, ouviu barulhos cada vez mais frequentes de pessoas abrindo picadões (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Cerca de dez anos depois, ouviu barulhos cada vez mais frequentes de pessoas abrindo picadões (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Respeitado pelo patrão, e tratado com desprezo e indiferença por gatos (fiscais) e colegas de trabalho – homens brutos do sertão, o rapaz teve a paz abalada numa noite amena de outono. Cochilando com as costas escoradas numa árvore, deu um grito alarmado quando um sujeito embriagado o segurou pelo colarinho da camisa, o questionando sobre o paradeiro de uma quantia em dinheiro guardada embaixo de um toco. “Por favor, me deixe em paz. Eu não sei de nada. Me solta! Me solta!”, pediu Maurício, de acordo com Arminda Gervasi.

Ignorando a negativa, o homem desferiu um soco no rosto e outro no estômago do rapaz que de tão espaventado teve uma repentina crise de diarreia. Entre goles de cachaça e muita gritaria, os peões já bêbados apontavam os dedos para Maurício e gargalhavam, numa zombaria sem limites. Sem dizer palavra, ele se levantou, caminhou até a barraca onde guardava seus pertences, juntou as próprias roupas em um saco e desapareceu mata adentro, sob o olhar displicente do fiscal que entornava uma garrafa de aguardente. Aquelas pessoas nunca mais o veriam.

Sem se importar com o que poderia lhe acontecer, o jovem se distanciou cada vez mais da sociedade e da civilização, entregando a própria vida aos acasos do desconhecido. “Ele já não queria mais viver junto de outras pessoas. O que aconteceu naquela noite foi o estopim”, garante a sobrinha-neta.

No dia 27 de março de 1896, Maurício entrou na floresta para não mais retornar. Sem medo do próprio fim, começou uma jornada despretensiosa de descobertas e autoconhecimento. Durante o dia, atravessava quilômetros de mata fechada e quando anoitecia se abrigava sobre as árvores. Com o tempo, aprendeu a escalar as mais altas e robustas, que lhe permitiam uma visão privilegiada das cercanias.

Apesar das dificuldades, seu organismo então fragilizado aprendeu a se adaptar a uma alimentação baseada em frutos e vegetais. Algumas vezes, após ingerir algo completamente desconhecido, passou tão mal que pensou que fosse morrer. “Ele era muito mais forte do que imaginava. Em poucos dias, já se sentia saudável. Talvez fosse um sinal, um chamado da natureza, de que nasceu para aquela vida. Acho que outras pessoas não sobreviveriam”, avalia Arminda.

Com o tempo, o rapaz abandonou roupas e pertences, menos um relógio de bolso que prendeu no braço – presente dos pais. Sem rumo, atravessou centenas de quilômetros de mata nativa. Só interrompeu o percurso por volta de 1898, quando encontrou uma onça-pintada caída, quase morta, com o sangue escorrendo sobre pedras musgadas às margens de um riacho.

Ainda acordada, observou Maurício a arrastando alguns metros mata adentro. Ele a deitou sobre a relva e estancou com folhas e raízes um grande ferimento na barriga do animal. Cuidou da onça por dez dias e, apesar de parecer assustada e confusa, ela não o encarou como ameaça, sequer mostrou os dentes ou apontou as garras.

Ele justificaria mais tarde que os caçadores traziam uma energia pesada e sufocante que ameaçava o equilíbrio da vida e a vitalidade soberana da floresta (Acervo: Ordem do Carmo)

Saru começou a minar os planos dos caçadores que invadiam a mata nativa noroestina (Acervo: Ordem do Carmo)

Para Maurício, já não era algo surpreendente. A floresta tornou-se um lar e, de algum modo, seus velhos habitantes o aceitavam. Nem mesmo os índios de etnias caingangue e caiuá que encontrou pelo caminho o tratavam como invasor. Muito pelo contrário. Até o convidavam a participar de algumas celebrações, e foi numa dessas ocasiões que o batizaram como Saru, palavra tupi-guarani que significa Calado em português.

Meses depois, o rapaz reencontrou a onça de quem salvou a vida. Empoleirada numa árvore, ela saltou quando o viu. Se aproximou, observando os olhos de Saru, e deixou que ele deslizasse rapidamente as mãos pelo seu dorso. Cabeludo, barbudo, de estatura mediana e magro, o jovem ostracista de pele oliva aprendeu a ser mais silencioso do que os mais leves e menores animais que atravessavam a mata nativa. Vivendo sozinho, só interagia com quem se aproximava dele, o que talvez justifique porque sobreviveu tanto tempo na floresta. “Ele chegou a ser picado por cobras. A sua salvação foi o tratamento dos índios caiuá”, informa Arminda.

Em 1898, Calado já vivia em uma área onde surgiria a cidade de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Numa manhã, cansado de viajar sem rumo e de dormir ao relento, começou a construir uma casa no topo de uma gameleira. Dias depois, levou um susto numa madrugada quando notou que havia um animal pressionando as patas contra a lateral da casinha. Cuidadoso, se aproximou e viu que era a onça que o visitou em outra ocasião.

Segundo relato de Arminda, Saru saltou da árvore e seguiu o animal até uma área dominada por cedros, ipês e aroeiras, onde árvores menores ofereciam muitos frutos desconhecidos. A onça a quem Calado deu o nome de Sophia, em homenagem à irmã, conviveu com ele por mais de 15 anos. Por volta de 1914, um pequeno grupo de invasores que chegou à região, provavelmente vindo do estado de São Paulo, para avaliar a qualidade do solo, matou Sophia e Toriba, um de seus filhos, a tiros. Os dois brincavam às margens de um riacho.

Assim que ouviu um estampido, Calado atravessou até o local do ataque e observou os quatro homens armados se aproximando de seus amigos mortos. Um deles sorriu, cutucou a onça com a bota e comemorou: “Nunca imaginei que seria tão fácil matar um bicho selvagem no seu próprio habitat.” Saru guardou para si a fúria que o dominou naquele momento e esperou anoitecer.

Ele justificaria mais tarde que os caçadores traziam uma energia pesada e sufocante que ameaçava o equilíbrio da vida (Acervo: Ordem do Carmo)

Ele justificaria mais tarde que os caçadores traziam uma energia pesada e sufocante que ameaçava o equilíbrio da vida (Acervo: Ordem do Carmo)

Quando os quatro montaram acampamento e se reuniram em torno de uma fogueira, ele assistiu um dos homens ir até uma mina buscar água. Assim que o sujeito retornou, Calado atirou castanhas em várias direções. Também imitou rugidos de onça e escalou a árvore mais próxima. Preocupados, recolheram suas armas e tentaram localizar a origem do barulho, se afastando do acampamento. Silencioso, Calado saltou perto da fogueira, abriu cada cantil e dentro despejou “sono de abaité”, um veneno de origem indígena baseado em batracotoxina, uma secreção extraída das costas de rãs e besouros.

Pela manhã, ao retornar ao acampamento, os quatro invasores tinham tomado a água do cantil e estavam mortos. Semanas depois, outros homens chegaram ao local procurando os desaparecidos. No entanto, concluíram que as mortes foram uma consequência natural da falta de atenção dos desbravadores que talvez tivessem comido frutos venenosos.

Ainda abalado com a morte de Sophia e Toriba, Saru enterrou os dois no ponto mais elevado da floresta, onde frequentemente os animais menores passavam o dia brincando. A cerimônia atraiu a atenção dos outros descendentes da onça-pintada. Ele também notou a presença de antas, pacas, quatis, veados, tatus, jaguatiricas, lobos-guará, gatos-do-mato, bugios e aves. Coincidentemente ou não, parecia uma reunião.

Embora tenha vivido mais alguns anos sem contato com seres humanos, Calado sabia que isso não duraria para sempre. Cerca de dez anos depois, ouviu barulhos cada vez mais frequentes de pessoas abrindo picadões. “Pra ele, o mais importante era que ninguém interferisse na vida selvagem, não matasse os animais. A floresta ainda era grande e ele reconhecia que era possível viver longe da civilização, mesmo com a chegada dos desbravadores”, assinala Arminda.

Desde a morte de Sophia e Toriba, Saru se colocou na posição de guardião da mata nativa de uma grande área onde surgiriam as cidades de Paranavaí e Alto Paraná. Os remanescentes dos índios caiuá nada poderiam fazer a respeito, já que a maioria vivia a mais de 100 quilômetros de distância, próximos do Rio Paraná e do Rio Paranapanema. Beirando os 50 anos, Calado pouco sofreu com a ação do tempo. Facilmente poderia ser confundido com um homem de pouco mais de 30 anos.

Corria pela floresta com extrema agilidade e se exercitava todos os dias sobre as árvores – tanto que ao longe era facilmente confundido com um animal. Vivia como alguém que nasceu e cresceu em território selvagem. Em contraponto, acreditava que quando uma vida era ceifada por motivo banal cabia a ele fazer justiça. E foi assim que Calado puniu entre as décadas de 1920 e 1950 muitos caçadores que invadiram a mata noroestina com a intenção de matar onças por diversão ou para extrair o couro que seria vendido a algum curtume. “Ele tinha o hábito de se abrigar dentro de tocos de árvores, de onde ele observava a movimentação dos invasores”, assegura a sobrinha-neta.

Evitava circular próximo da área urbana de Paranavaí (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Calado evitava se aproximar da área urbana de Paranavaí (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Quando uma jovem onça-pintada foi morta às margens de um córrego no início da década de 1930, onde surgiria o Jardim Ouro Branco, em Paranavaí, Calado extraiu-lhe as garras e as fixou em um tipo grosso de luva confeccionada à mão. Antes de usá-la, as deixou por uma noite embebidas no “sono de abaité”. De manhã, Saru se ajoelhou no chão, e diante do sol nascente fez uma oração à natureza, se preparando para cobrar pelo sangue derramado. De longe, reconhecia a intenção dos homens, se eram inimigos ou não.

Ele justificaria mais tarde que os caçadores traziam uma energia pesada e sufocante que ameaçava o equilíbrio da vida e a vitalidade soberana da floresta. “Meu tio-avô matou mais de 20 caçadores. Os corpos eram abandonados nos carreadores para que a família tivesse direito de enterrar o falecido. Ninguém nunca desconfiou que aquelas mortes pudessem ser causadas por um homem. Achavam que era coisa de onça mesmo”, narra Arminda Gervasi.

Guardião da floresta, Calado encarava como um ritual de justiça os matadores de onças sentirem a própria carne sendo penetrada pelas garras dos felinos que mataram. Entretanto, ao contrário do que imaginavam na época, as mortes eram causadas pelo “sono de abaité” e não pelos golpes, mais simbólicos do que fatais. Caçadores temidos em diversas regiões do Brasil sucumbiram diante das artimanhas de Saru.

Em 1937, Sophia, irmã de Maurício, viajou à Fazenda Brasileira com o marido para comprar uma propriedade rural. Enquanto se distraía caminhando por um carreador, ela observou ao longe um homem nadando em uma lagoa de águas cristalinas. Curiosa, se afastou do marido que conversava com um corretor de imóveis e andou em direção ao desconhecido. “Quer que pegue suas roupas? Onde elas estão?”, questionou Sophia. Quando o homem que serpenteava entre os peixes virou o rosto em sua direção, ela caiu de joelhos no chão, com as mãos tapando o nariz e a boca. Sophia chorou como uma criança ao notar nos olhos expressivos daquele homem de 62 anos o olhar vívido do irmão que partiu com 19 anos.

Sem dúvida, Maurício tinha envelhecido, mas ainda parecia mais jovem que Sophia. Calado ou Saru, que abandonou a identidade de Maurício, não conseguiu articular palavra. Ficou imóvel, com as mãos trêmulas enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto já molhado. Ao ver que não havia roupas por perto, Sophia correu até o carro do marido, abriu uma mala e pegou uma calça, uma camisa e um par de sapatos. Então sugeriu que Maurício os vestisse.

Apesar da falta de hábito, ele concordou com o pedido da irmã. Saru, que então mais do que nunca justificava o nome dado pelos índios, passou uma semana com Sophia. Somente no terceiro dia começou a conversar normalmente e contou-lhe tudo que viveu desde que deixou Paranaguá em 1894. Sophia, mais chorosa do que falante, ouviu tudo atentamente. Não cobrou notícias do irmão, pois sabia que ele tinha seus próprios motivos. Maurício foi tomado por uma confusão de sentimentos ao saber que seus pais adoeceram e faleceram em 1931 em decorrência de pneumonia.

Também foi Sophia quem informou que as falsas provas de que ele contribuiu com os maragatos foram plantadas por um antigo amigo chamado Arthur. Apaixonado pela jovem Teodora que sonhava em se casar com Maurício, o rapaz decidiu afastá-lo para sempre de sua amada, mesmo sabendo que Maurício não tinha intenção alguma de ser mais do que amigo da moça, muito menos desposá-la. “Essa informação não teve grande efeito sobre ele, que já não se importava tanto com o mundo civilizado. Somente as memórias familiares o arrebataram de forma surpreendente”, esclarece Arminda.

Sophia e o marido tentaram convencer Maurício a se mudar para Curitiba, onde ela vivia há mais de 20 anos. Ele declinou a oferta, a abraçou e argumentou que nada mais o interessava no mundo dos humanos. Antes de partir, Sophia levou as duas mãos ao rosto do irmão e recitou um trecho de “O Espelho”, de Machado de Assis, um dos contos preferidos de Maurício:

“Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro… Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; – e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja.”

Os dois sorriram, se despediram e Maurício correu em direção à floresta, onde, antes de desaparecer completamente, cumpriu um dos seus rituais mais sagrados – se livrou das roupas, o que significava se despir da civilização. Sophia e o marido não compraram nenhuma fazenda em Paranavaí, mas retornaram mais vezes procurando em vão o paradeiro de Maurício tornado Calado.

Entre as décadas de 1960 e 1980, alguns pioneiros e moradores de Paranavaí e Alto Paraná juraram tê-lo visto caminhando pelas estradas da Fazenda Ipiranga e Água do Cedro, além de áreas de mata do Jardim Ouro Branco e Jardim São Jorge. “Uma vez, voltando de viagem, parei no Cemitério de Alto Paraná pra dormir. Tenho certeza de que o vi atravessando tranquilamente por trás das árvores. Isso foi em 1976”, confidencia o pioneiro Júlio Galhardo.

O aposentado Amâncio Bonavero também afirma que viu Calado na área rural de Paranavaí em 1993, com base na descrição que lhe passaram nas décadas anteriores. Se o sujeito correndo pelo campo realmente era Saru, isso significa que ele estava vivo e saudável aos 118 anos. “Tem gente que acredita que o Calado ainda não morreu. Eu sou um desses. Acho que não o vemos mais porque hoje, mesmo de longe, ele ainda evita contato com pessoas. Quem sabe esse seja o motivo da sua longevidade”, deduz Bonavero sorrindo.

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O homem que estuprou as 14 filhas

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“Falou que não existia nada melhor do que ter mulheres da família sempre à sua disposição”

Sandra tentava, sem sucesso, chorar, observando um pneu que balançava preso à corda (Foto: Reprodução)

Sandra tentava, sem sucesso, chorar, observando um pneu que balançava preso à corda (Foto: Reprodução)

Um dia, na Vila Operária, na periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, eu estava conversando na calçada com alguns moradores quando um senhor de 70 anos se aproximou. Aparentemente tranquilo, o sujeito que caminhava quase arrastando os pés fez alguns comentários sobre o tempo e o clima e se afastou, caminhando em direção à Rua Luiz Spigolon.

Há alguns anos, esse mesmo homem a quem chamo de Turvo, para velar sua identidade – a pedido dos envolvidos na história, descobriu um câncer e o médico disse que ele tinha apenas poucos meses de vida. À época, amigos, vizinhos e conhecidos o visitaram para se despedir, crentes de que o sujeito não sobreviveria.

Mesmo quem não simpatizava com o homem, sensível à situação, o procurou para se desculpar por velhos desentendimentos. Ninguém queria que o sujeito morresse amargando veleidades envolvendo fofocas e discussões acaloradas por causa de empréstimo de míseras quantias em dinheiro.

Ainda assim as visitas tinham atmosfera fúnebre, mas o sujeito, genioso e autoritário, parecia não se importar muito, já que seu comportamento e hábitos não mudaram em nada. Com o passar do tempo, Turvo não morreu, inclusive atualmente circula pelo bairro, e até mais saudável do que antes, surpreendendo muita gente.

Porém, há poucos dias, uma de suas ex-mulheres decidiu fazer uma confidência chocante, com a única exigência de que nenhum nome real fosse divulgado. Nervosa, constrangida e assustada, a mulher relatou que Turvo estuprou as 14 filhas, de um total de 19 filhos. E o homem jamais encarou isso como violência sexual ou incesto, mas sim como direito de pai.

“Só tivemos uma filha e ele também se aproveitou dela. Quando fiquei sabendo disso me deu um nojo muito grande. Ele mesmo contou tudo numa noite, depois de chegar bêbado em casa. Falou que não existia nada melhor do que ter mulheres da família sempre à sua disposição, nem que fosse pelo uso da força”, revela Marga que depois se separou do marido. No entanto, não teve coragem de prestar queixa na delegacia.

Com olhos marejados, a mulher relata que o homem só não estuprou todos os filhos porque cinco são homens. Apesar disso, prevendo a represália do pai que os criou sob a disciplina do medo, nenhum deles ousou enfrentá-lo ou denunciá-lo, mesmo sabendo que o pai estuprou todas as filhas.

Os primeiros casos de violência sexual e incesto praticados por Turvo começaram há mais de 30 anos, quando as filhas mais velhas entraram na puberdade. O homem chegava tarde em casa com odor de cachaça, ignorava a esposa que dormia e ia direto para o quarto das filhas, onde as obrigava a ter relações sexuais com ele. Às vezes, enquanto ele molestava uma, as outras filhas fingiam que dormiam, aterrorizadas com a possibilidade de serem as próximas vítimas.

“Vem cá que o papaizinho vai cuidar de você. Papaizinho vai provar que te ama tanto quanto ama a mamãe. Vem, Sandrinha, vem! Papai vai te ensinar que não existe nada melhor que amor de pai”, murmurou o homem cheirando à pinga e enrolando a língua num tom de voz meloso aos pés da cama. A sombra e as mãos pegajosas de Turvo a cobriam de forma tão sufocante que pareciam tentáculos.

Sandra se recorda do desespero que sentiu quando o pai a observou com olhos graúdos, assustadores e repulsivos. O sujeito acariciou suas pernas com as mãos esfoladas e sujas de terra. Talvez tivesse caído na rua quando caminhava do boteco para casa. Em seguida, percorreu seu corpo com a língua áspera e fedorenta que a fez sentir-se como se fosse lambida por uma dessas lagartas que invadem pedaços de pau podre em terrenos baldios.

Com o rosto virado, Sandra chorava em silêncio, mordendo os lábios e mirando o telhado de fibrocimento (Eternit). Se esforçava para sair do próprio corpo. Não queria enxergar nem sentir nada. A poucos centímetros, observou Isabel à direita – a bonequinha de tecido tinha um vestido encardido, levemente avermelhado.

“Lembrei da virgindade que aquele velho pedófilo tirou de mim. Ele ainda comemorou quando viu o meu sangue escorrendo pelo lençol. Falou desse jeito: ‘É assim, filhinha, a primeira vez de vocês tem que ser com o papai.’” Turvo se levantou e desapareceu na escuridão, carregando uma garrafa de pinga e arrastando os pés no chão.

Nada a fazia esquecer o cheiro nauseante do pai. As palavras do homem continuaram ecoando pela mente de Sandra. Era como se por um artifício fantástico tivessem anexado ao seu ouvido um gravador que reproduzia copiosamente as frases do criminoso. Ela não conseguia expor ao mundo o sentimento inimaginável que a dominou desde a noite do estupro.

Em seu interior, o desespero incessante consumia a voz e a capacidade de se comunicar. “Os gritos e o choro não eram ouvidos e vistos por ninguém. Existiam apenas dentro de mim. E minha mãe [primeira esposa de Turvo] sabia de tudo e aceitava”, narra chorando. As lágrimas pareciam banhar o interior de cada um dos órgãos – do coração ao útero. A voz perdida, apenas ela ouvia. A vontade de viver se esvaía com o sangue maculado, arbitrariamente dilacerado do seu corpo em desenvolvimento.

Lá fora, no quintal sujo, Sandra tentava, sem sucesso, chorar, observando um pneu que balançava preso à corda amarrada em uma árvore. Para ela, tudo continuava desfocado e diluído. “Eu queria morrer e, em vários momentos da vida, sei que minhas irmãs também. Ele abusou da gente não só uma ou poucas vezes, mas muitas. Ele estuprou todas as filhas e mesmo depois de tantos anos algumas ainda recebem suas visitas noturnas”, garante Sandra que se arrepia, apontando com o dedo indicador os pelos eriçados do braço.

Embora todas sejam bonitas, os traumas provocados por Turvo atingiu as 14 filhas de forma tão truculenta que até hoje, mesmo as que são casadas, não têm estrutura familiar ou conseguiram se realizar como mulheres ou profissionais. Com baixa autoestima, não se sentem bem ou bonitas, mesmo que alguém diga o contrário.

“Temos um bloqueio muito grande, dificuldade em confiar em alguém, enxergar sinceridade no que dizem. Pra você ter uma ideia, eu e todas as minhas irmãs viramos prostitutas em algum momento da vida. Algumas se prostituem até hoje. Acham que a intimidade já não vale mais do que um punhado de reais”, desabafa Sandra, sem velar o olhar pesaroso.

Saiba Mais

Os nomes são fictícios para preservar a identidade dos entrevistados.

Written by David Arioch

January 19th, 2016 at 6:08 pm

A sina de Nenê, um ex-peão de boiadeiro

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Enquanto gesticula, coça a cabeça e sorri de forma acanhada, ele informa que é dia de música

Nenê:

Nenê: “Vô rum-a píi-a po radímm” (Foto: David Arioch)

Na Rua B da Vila Alta, enquanto eu converso com o artista plástico Tio Lú em frente a um terreno baldio, um homem se aproxima. Não entendo quase nada do que ele diz e suspeito que o sujeito esteja embriagado. Ele carrega um relógio muito bonito, que já não funciona mais. Tio Lú pede que eu aguarde um minuto, entra dentro de sua casa e traz um rádio pequeno. Nenê sorri efusivamente e pega o radinho com uma das mãos. Exibindo os poucos dentes que lhe restam na boca, parece uma criança quando ganha um doce.

Ele segura minha mão e diz algumas frases – entendo não mais do que meia dúzia de palavras e o observo se afastando. Então pergunto ao Tio Lú se ele pode chamar o Nenê novamente para responder uma ou duas perguntas. Em menos de 30 segundos, Nenê retorna e me diz com muita dificuldade que já foi peão de boiadeiro.

Conta que não sente falta dos tempos de boiadeiro, apenas da saúde. Anos atrás, antes de prometer a si mesmo que jamais montaria em um animal novamente, caiu de cima de um touro e bateu a cabeça com força no chão de terra, ficando em coma por vários dias. Quem o conhecia como boiadeiro, decidiu se afastar, julgando que o rapaz nada mais tinha a oferecer. A queda o deixou com graves sequelas, dificultando sua fala, dando a impressão de que está sempre embriagado.

Enquanto gesticula algumas vezes, coça a cabeça e sorri de forma acanhada, ele informa que hoje é dia de música. “Vô rum-a píi-a po radímm”, explica com dificuldade. Dias atrás, Nenê estava caminhando perto da estrada de terra da Farinheira Cassava quando alguns jovens começaram a importuná-lo. Como ele não gosta de briga, tentou se afastar, mas o jogaram no meio de uma roda, o empurraram e o estapearam até que as agressões se intensificaram.

Sem ter como fugir, Nenê derrubou quatro rapazes, distribuindo apenas quatro socos. “Ele é quieto, mas extremamente forte”, declara Tio Lú que toda semana separa algum objeto para entregar a Nenê que gosta de caminhar ladeado pelo Bosque Municipal, tratando cada presente como um motivo a mais para viver no seu universo de inocência e redescoberta tardia.

Tito o malabarista

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“Antes ficava muito triste quando viravam o rosto, fingiam que não me viam”

Tive a impressão de que as bolinhas representavam fases de uma vida (Foto: Reprodução)

Tive a impressão de que as bolinhas representavam fases de uma vida (Foto: Reprodução)

Um dia, aguardando o sinal verde de um semáforo da Rua Manoel Ribas, no centro de Paranavaí, vi um rapaz agachado na esquina, ajeitando suas bolinhas de malabares dentro de uma mochila. Curioso, estacionei o carro e me aproximei. Sorrindo, ajeitou o boné e me cumprimentou cordialmente, mostrando, sem dizer mais nada, os pulcros desenhos que fez em quatro das seis bolinhas. Tive a impressão de que representavam fases de uma vida. E ele confirmou minha suspeita.

A bolinha número um reproduzia um momento marcante dos seus tempos de bebê, quando era assistido pelo pai enquanto a mãe o embalava nos braços. A bolinha número dois trazia uma imagem dele ainda criança sentado na areia de um parquinho brincando com um caminhãozinho e sendo observado pela mãe.

A bolinha número três o mostrava no início da adolescência, lendo sozinho, sentado no canto de um quarto. E a bolinha número quatro destacava sua partida com uma mochila nas costas, olhando para trás, onde não havia ninguém de quem se despedir. Intrigado, perguntei porque as outras duas bolinhas não tinham desenhos. “É que ainda me vejo na bolinha número quatro. Aquele sou eu hoje”, comentou com um sorriso vaporoso e contraposto ao olhar levemente melancólico.

Tito, sem nome composto ou sobrenome – prefere assim, tem como lar todo lugar e lugar nenhum. Deixou a terra natal no início da adolescência, quando sua mãe morreu de câncer. O pai partiu antes, vítima de um ataque cardíaco. Mora por aí, onde encontra um lugar para dormir. Artista de rua, perambula com a única missão de levar diversão. “É bom demais ver alguém admirando e elogiando seu trabalho. Triste é quando me perguntam se quero um emprego de verdade. Isso machuca. Não sou vagabundo!”, lamentou sensibilizado, acrescentando que tem graduação em artes cênicas.

Magrinho, com a pele bastante queimada pela exposição solar, e cabelos e olhos pretos como erva-moura, Tito nasceu prematuro, aos seis meses. Seus órgãos não se desenvolveram completamente e todo ano ele passa meses internado para fazer tratamento. “Meu coração é diferente do coração de uma pessoa normal. Posso morrer hoje ou amanhã. Por isso vivo cada dia como se fosse o último”, revelou com olhar ensimesmado.

De carona, Tito já viajou para mais de dez países e percorreu todas as regiões do brasil. A sua maior alegria em fazer malabarismo com os mais diferentes objetos é o prazer de ter os olhos voltados para si mesmo por poucos minutos. “É assim que sinto que estou vivo, que existo. Antes ficava muito triste quando viravam o rosto, mantinham os vidros do carro fechados, fingiam que não me viam. Hoje o reconhecimento de poucas pessoas em cada sinaleiro já faz o meu trabalho valer a pena”, declarou.

Por causa dos problemas de saúde, Tito não pensa em casar ou ter filhos. O rapaz demonstra que o medo de se envolver emocionalmente com alguém pode ser maior do que o seu temor perante a morte. “Tudo seria mais doloroso se eu tivesse uma companheira. Seria uma pessoa a mais para sofrer comigo. Juro que não queria morrer, mas isso não depende da minha vontade. Como tenho esses problemas, só me resta seguir na esperança de que eu não deixe de existir antes de desenhar novas fases da minha vida nas minhas últimas bolinhas brancas”, desabafou.

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Written by David Arioch

January 16th, 2016 at 3:52 pm

O tesouro da Fazenda Brasileira

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O dia em que um colono encontrou um pote cheio de moedas de ouro na serraria da Braviaco

Paranavaí no ano em que João desenterrou um tesouro em uma velha serraria (Foto: Toshikazu Takahashi)

Paranavaí no ano em que João desenterrou o tesouro em uma velha serraria (Foto: Toshikazu Takahashi)

Em 1958, João Mariano, colono de uma das maiores fazendas de café de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, foi convidado por um amigo, também chamado João, para procurar um tesouro enterrado na velha serraria da Companhia Brasileira de Viação e Comércio (Braviaco) nos tempos da Fazenda Brasileira.

“Ele estava bem animado em trabalhar na fazenda porque ganhou dinheiro o suficiente para comprar uma potranca e uns porquinhos para criação. Um dia, chegou pra mim e disse: ‘Aqui, Graças a Deus, estou muito bem, João!”, lembra Mariano que visitava o amigo com frequência quando anoitecia.

Em uma noite, o companheiro fez uma sugestão: “Ô, João, vamos arrancar um tesouro ali naquela serraria velha?” Sem entender do que se tratava, Mariano titubeou. “Tesouro?”, interpelou. Com olhar sereno e voz remansosa, o homem respondeu: “Sim, um pote cheio de moedas de ouro que enterraram lá há muito tempo, na época da Brasileira.”

Ainda com dúvidas sobre a proposta do amigo, Mariano questionou se ele recebeu algum aviso, teve um sonho ou visão com o tal tesouro enterrado. Depois de acenar negativamente com a cabeça, e justificar que apenas acreditava na crença de que todo lugar abandonado esconde algo surpreendente, o homem se calou. “Procurar algo à toa, sem base, sem cabimento? Falei que assim eu não iria não!”, argumentou.

Um dia, sem fazer alarde, João reuniu seus pertences e partiu com a família. Antes, sem explicar o motivo, avisou ao amigo que decidiu retornar para São Paulo, seu estado de origem. “Só estranhamos porque ele estava bem aqui. Mas no fim achamos aquilo normal, né? Afinal, era comum um ou outro deixar Paranavaí para tentar a vida em outro lugar”, comenta Mariano.

Mais tarde, caminhando em meio à invernada, o colono João Mariano decidiu dar um passeio pela velha serraria da Braviaco. Quando chegou lá, teve uma surpresa. “Vi um buraco no chão e uma marca ainda brilhante, arredondada e exata de um pote. Lá dentro tinha uma moedinha de ouro. Aí falei: ‘Puta merda! Agora sei porque ele foi embora. Voltei e contei pro meu irmão que me lembrou que quando alguém acha um tesouro tem de deixar uma moedinha pra trás, num sinal de boa fé”, narra.

Quando o proprietário da fazenda soube do acontecido, gritou: “Filho da puta! Esse dinheiro estava na minha fazenda, então era meu. “Mas o senhor não foi arrancar o tesouro, não é mesmo?”, questionou Mariano que nunca mais teve notícias do amigo afortunado.

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A fazenda situada entre a estrada para Tamboara e a Vila Operária somava mais de 400 alqueires.

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Written by David Arioch

January 15th, 2016 at 6:15 pm

Biblioteca Júlia Wanderley preserva coleções históricas de HQs

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Acervo é mantido em uma sala especial da biblioteca (Foto: David Arioch)

Acervo é mantido em uma sala especial da biblioteca (Foto: David Arioch)

Em Paranavaí, na Biblioteca Municipal Júlia Wanderley, ao lado da Fundação Cultural, existe uma sala especial onde são guardados os itens de colecionadores.

Nas inúmeras vezes em que estive lá, encontrei muitas coleções históricas, edições raras que enchem os olhos de qualquer amante de HQs como Fantasma, de Lee Falk; Lobo Solitário, de Kazuo Koike e Goseki Kojima; e edições da Mini-Heróis dos anos 1970 e 1980.

Outra boa surpresa é a coleção de A Espada Selvagem de Conan, lançada em 1984, baseada no personagem bárbaro da Ciméria que o escritor texano Robert E. Howard criou em 1932. Todo esse material está em ótimo estado de conservação. Tem muitas outras raridades por lá.

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Written by David Arioch

January 13th, 2016 at 11:26 pm

O que eu não sabia sobre hérnia de disco

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Me animei com a possibilidade de me ver curado, sem precisar mais me preocupar tanto com a lombar

Após a confirmação do problema, Torino falou pra eu ficar de bruços (Imagem: Reprodução)

Após a confirmação do problema, Torino falou pra eu ficar de bruços (Imagem: Reprodução)

Tenho hérnia de disco desde os 20 anos. Apesar disso, levo uma vida normal, inclusive faço muitos exercícios que exigem bastante da coluna lombar. Porém, como qualquer outra pessoa que tem uma rotina intensa de treinamento com pesos, ocasionalmente acontece de eu cometer um pequeno deslize e sentir as consequências no dia seguinte.

Uma vez, em 2014, comentei com um amigo sobre o meu infortúnio, explicando que em situações como essa preciso ir com calma até me recuperar completamente. Solidário, ele sugeriu que eu procurasse um especialista conhecido como Torino Massagista, um sujeito com excelentes referências que viveu alguns anos em Nanquim, na China, onde estudou técnicas milenares para tratamento de hérnia de disco, artrose e escoliose, entre outros problemas de coluna.

Gostei da sugestão e me animei com a possibilidade de me ver curado, sem precisar mais me preocupar tanto com a lombar em caso de mau jeito durante os exercícios. Liguei para o massagista numa manhã de quarta-feira e agendei uma sessão para as 16h de sexta. Às 15h40, acionei o interfone da referida clínica situada em um bairro residencial de Paranavaí.

Fui recebido por um rapaz sorridente, e com expressão dúbia, que mais gesticulava do que falava, me lembrando um mímico. “Seja bem-vindo, senhorino”, disse ele atrás de um balcão, segurando um livro de autoajuda. Lá dentro, encontrei dois homens de meia-idade sentados em poltronas individuais bem confortáveis. Havia uma terceira poltrona vaga, então me acomodei e comecei a observar o ambiente enquanto não chegava a minha vez de ser atendido.

O local era extraordinariamente limpo e exalava olência maviosa que não fui capaz de identificar; uma suposta e agradável combinação de ervas. O piso claro de granito arabesco cintilava, atraindo meus olhos e me permitindo ver no chão o meu próprio reflexo. Em uma mesa de centro, também de granito, havia muitas revistas de saúde, principalmente sobre terapias alternativas. O mais curioso é que não eram velhas como a maioria que encontramos em consultórios.

Durante a minha distração, ouvi alguns sons estranhos com brevidade de um ou dois segundos, embora baixos e indistinguíveis, vindo de duas direções diferentes da clínica. Alguém parecia estar com muita dor. Talvez o tratamento fosse além das minhas expectativas, minimizando um pouco a minha volúvel condição.

De repente, ouvi passos vindo do corredor à direita. Um homem de estatura mediana, beirando os 40 anos, caminhou com satisfação, exibindo dentes curtos numa boca larga. Se aproximou da recepção à minha esquerda e antes que dissesse alguma coisa, o recepcionista questionou se ele iria querer ser recebido no mesmo dia e horário na semana seguinte. “Pode apostar que sim!”, respondeu, mantendo a voz relativamente baixa e me observando com desconfiança.

Assim que o homem saiu da clínica, um camarada que conheço há mais de dez anos, inclusive participei de um jantar em sua casa, onde fui muito bem recebido por sua mulher e filhos, deixou uma sala no corredor à direita. Quando me viu, a expressão serena e o sorriso lacônico foram substituídos por uma fisionomia sisuda – digo até que notei um olhar sobressaltado. Não entendi a reação e me mantive em silêncio. Para minha surpresa, ele passou ao meu lado, me ignorou, abriu a porta e foi embora.

Aguardando a vez, um senhor barbudo me cumprimentou e perguntou se já estive ali. Respondi que não e ele comentou que frequentava a clínica há dois anos. “Meu jovem, este lugar mudou minha vida. Hoje sou outro homem, bem mais realizado em todos os sentidos”, garantiu, acrescentando que sempre teve o apoio da esposa.

O sujeito seguia elogiando a clínica no instante que o recepcionista atendeu o telefone e me chamou, sem dizer meu nome. “O senhor vai ser atendido agora. Vamos lá?” Me levantei e segui o rapaz. Assim que ele abriu a porta, pediu que eu tirasse as roupas, ficando somente de cueca, e me deitasse em uma mesa de massagem tão confortável que lembrava uma cama da melhor qualidade.

Enquanto eu me despia, observei que havia grande instrumentária no local, até mesmo penduradas nas paredes claras com inscrições praticamente pictóricas, e eu não tinha a mínima ideia para que servia. Me parecia pouco usual, mas concluí que talvez fossem ferramentas trazidas de lugares longínquos da Ásia. Até aquele momento, interpretei tudo que vi de diferente na sala como resultado de um atendimento diferenciado.

Um minuto depois que deitei, o recomendado Torino Massagista se aproximou de mim, se apresentou e questionou se o motivo daquela sessão era uma hérnia de disco. Após a minha confirmação, ajeitou o jaleco e falou pra eu ficar de bruços. Apesar de considerar a posição desconfortável, não quis parecer descortês ou estulto, e acabei acatando ao pedido.

Do outro lado da sala, ele ligou um pequeno aparelho de som que tocava uma música transfigurada e malemolente, um tipo curioso de pop letárgico estrangeiro. Na sequência, reparei que a fluorescência do ambiente caiu consideravelmente. Havia também um aroma exótico e frutado no ar. Não sei como, mas o local já não estava tão claro. “Feche os olhos e sinta a energia fluindo. Deixe tudo acontecer”, recomendou.

Em silêncio, senti um corpo estranho, algo úmido, quente e sulcado encostando no meu braço direito. Quando abri os olhos, o tal do massagista estava rebolando, usando uma cueca preta de couro sintético e zíper, por onde sobressaía o próprio falo rijo e apoiado em uma das mãos. “Você é louco, cara! Que isso? O que tem de errado contigo?”, perguntei. Surpreso e igualmente constrangido, o sujeito argumentou que aquela não era uma clínica de verdade.

Sem querer mais explicações, saltei da mesa, limpei meu braço com uma toalha de papel, vesti minhas roupas em segundos e atravessei o corredor a passos céleres. Na sala de espera, o homem com quem conversei antes declarou com um sorriso indecoroso, seguido por uma piscadela: “Não falei que o serviço é de primeira?” Não respondi. Simplesmente abri a porta e ganhei as ruas, ciente de que hérnia de disco também é um código para outra coisa que eu nunca quis saber exatamente o que é.

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