David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Noroeste do Paraná’ tag

Visita aos mortos

without comments

Como o cemitério poderia ser nefasto se plantas cresciam ao redor dos túmulos? 

22333503

Não o visitava com tanta frequência, mas a experiência me agradava bastante (Foto: Reprodução)

Na infância, eu gostava de ir ao cemitério. Não o visitava com tanta frequência, mas a experiência me agradava bastante porque me dava a impressão de que eu estava entrando em outro mundo, onde os vivos reencontram os mortos. Não o considerava um lugar sombrio. Muito pelo contrário. Como poderia ser nefasto se plantas cresciam ao redor dos túmulos? Se cães e gatos frequentavam o lugar?

Não era difícil entender o motivo. A calmaria, o silêncio preeminente na maior parte dos dias, permitia que os seres mais atentos ouvissem os sons da terra, a harmonia e a dissonância das espécies em suas criteriosas relações com a natureza. Ainda me lembro de um casal de sabiá-do-campo que cantava à curta distância do túmulo da minha bisavó, a poucos passos da entrada da necrópole.

O gorjeio suave acompanhava a brisa solene que chegava como um alento. Se projetava do alto de uma árvore, onde algodão, grama e gravetos secos constituíam um ninho em forma de cesta. “Hum…ali vai nascer alguém”, pensei. De repente, um sabiá encostou ao lado do muro branco, renovado com cal, e começou a esgravatar o solo a procura de alimentos. Me observava e ciscava sem pressa, talvez confiante em sua argúcia, já que estava em casa, onde o estranho era eu.

Me afastei e caminhei à esquerda para ler as inscrições e os epitáfios escritos de improviso no concreto ou gravados nas placas de bronze. “Por que os túmulos são tão diferentes? Não poderiam ser iguais?”, perguntei aos meus pais. Me explicaram que os maiores normalmente pertencem aos ricos. Há quem acredite que quanto maior o jazigo, maior o nível de importância do falecido. E baseado nessa crença faraônica supõe-se que até mesmo os estranhos serão atraídos pelos mausoléus. A imponência sempre ajudou a destacá-los dentre os demais, como num floreio que ingenuamente romantiza o inevitável destino de todos os seres.

Em minhas reflexões, túmulos, por mais distintos que fossem, lembravam embalagens de produtos ou pacotes de presentes. Quero dizer, por mais suntuosa que fosse uma sepultura, a verdade é que resguardava a mesma matéria de qualquer outra. Alguns mausoléus eu via como fortalezas, criadas para proteger ou velar a frágil efemeridade humana. Portas, janelas e grandes argolas me faziam suspeitar que talvez os familiares acreditassem na possibilidade de um retorno do querido ente falecido. “Será que eles pensam que o morto um dia vai levantar e sair pela porta?”, questionei.

Observando, aprendi também que às vezes um sepulcro homérico pode revelar uma forma de carinho, tornada material, ou tardia compensação ao morto por algum desentendimento ou parca participação em sua vida. Ouvi histórias de pessoas que movidas por remorso flagelante gastaram pequenas fortunas nas construções de túmulos. Algumas obras custaram mais caro do que uma casa. Os materiais foram trazidos de outras regiões do Brasil e de outros países, assim garantindo à catacumba um privilégio sui generis.

“Você ficou sabendo que a família do Orlando contratou um especialista em arte maneirista para criar o projeto da sepultura?”, ouvi numa manhã. Talvez houvesse uma intrínseca relação com o memorial, o destempero humano diante da finitude, num exercício de perpetuação simbólica. “Vamos criar algo para que ele nunca seja esquecido. Para que séculos após sua morte ainda seja lembrado. Mesmo que não reste nenhum de nós, outros, mesmo que desconhecidos, estarão aqui para visitá-lo”, talvez pensem alguns, se negando a crer que a morte dos nossos sempre muda algo dentro de nós, mas o mundo há de continuar seguindo seu curso natural, ratificando nossa pequenez, independente da nossa dor.

Olhando ao meu redor no cemitério, e vendo tanto sortimento em cores, tipos, tamanhos e adornos, lembrei de uma aula do professor Babeto em que ele nos mostrou fotos de uma necrópole na França, onde a morte reafirma a indistinção dos seres humanos. Sobre o gramado verdejante havia apenas cruzes brancas de concreto. Tudo parecia tão uniforme, harmonioso, justo e coerente. Afinal, não há mais nada a ser provado quando a vida se esvai, já que somos o que fazemos em vida.

Talvez alguns sejam passionais demais para aceitar que os seus também foram vencidos pelo passamento, como tantos outros. Assim, não duvido que para alguns o jazigo passa a ser encarado como uma morada, onde o fim há de ser postergado até o momento que o último pedaço de tijolo ou de mármore estiver envolvendo o ataúde.

De qualquer modo, nunca me senti tão intrigado por mausoléus como me senti por túmulos velhos, desamparados, relegados ao ostracismo – que raramente recebem visitas de familiares e amigos. Curioso e inquiridor, descobri jazigos abandonados há décadas, de famílias que já não existem mais, com histórias e sobrenomes perdidos no tempo – obsoletos e extintos como raros espécimes. Conheci sepulturas que desapareceram porque não eram perpétuas, principalmente de pessoas humildes, lavradores.

Nos anos 1990, por exemplo, eu visitava o túmulo de duas garotinhas com não mais de dez anos, amigas de infância de minha mãe. Num dia chuvoso da década de 1960, elas foram atingidas por um raio enquanto lavavam louça no fundo de casa. Morreram agonizando num chão de terra batida que escureceu-lhes os cabelos claros que cobriam os rostos.

A tragédia comoveu muitos sitiantes que caminharam a pé por longas distâncias para orar pelas crianças, desfalecidas na mais alegórica das fragilidades, rodeadas por cafezais que em pouco tempo deixariam de florescer e frutificar. Dona Maria visitou a filha e a sobrinha até o dia que o túmulo não perpétuo foi destruído para dar lugar à outra criança falecida, que não corria o risco de ter seus restos mortais remanejados porque pagaram o suficiente por tal privilégio. Recebi a notícia há três anos, depois de procurar o jazigo em vão.

Tenho recordações de como eram pequenos os dois túmulos. Sem placas de bronze, fotos, nomes ou qualquer informação. Com o tempo, e sem alarde, continuaram existindo para poucos até o completo e figurado desvanecimento material. “Eram boas meninas. Só que o ciclo delas nesse lugar acabou. Talvez tenha sido melhor assim. A mãe sofria demais”, comentou uma velhinha com sorriso plangente.

Caminhei até outro jazigo, acompanhando essa senhorinha que se apresentou como Tazinha. Seus olhos rutilantes e primaveris contrastavam com a pele do rosto delgado e achacado pela ação do tempo. Tinha voz dulcificada, de quem aceitava da vida aquilo que ela oferecia e por menor que fosse ainda agradecia. Ela visitava o marido uma vez por mês desde 1957, quando ele morreu em decorrência da maleita.

Trabalhava abrindo estradas em Paranavaí, até que um dia adoeceu e não levantou mais. Não chegou nem a receber pelos últimos dois meses de trabalho. “Fui até a casa do patrão cobrar os atrasados. Daí o homem berrou: ‘Tenho nada com a senhora, meu negócio era com seu marido. Vá daqui!’ Sem me irritar, fui embora”, narrou. Anos mais tarde, Tazinha ficou sabendo que o sujeito foi assassinado a tiros. Ele vendeu um sítio com duas casas e tentou derrubar uma delas para revender a madeira.

Após a morte do marido, Tazinha nunca mais se relacionou com outro homem. Ainda carrega no dedo a aliança de casamento comprada em 1951. Quando perguntei se ela não se sentia muito sozinha, argumentou que a solidão não habita um coração em comunhão com a própria vida. Também questionei o motivo dela continuar visitando o marido depois de tanto tempo.

Enquanto ela asseava o túmulo com um pedaço de flanela, um dos mais singelos do cemitério, o desempoando como se estivesse fazendo carícias, me observou com um sorriso cândido e respondeu: “O ser humano que não é fiel às suas promessas não é capaz de ser fiel a si mesmo. Assim como faço todo mês, estou aqui cumprindo a minha, não por obrigação, mas porque revigora o meu coração. A vida está em todos os lugares, nas entranhas da terra e nas incertezas do céu, e no cemitério não é diferente. Daqui também se vê o nascente, assim como o poente.”

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Lembranças do Mais Cinema

without comments

Projeto reuniu cinéfilos de Paranavaí uma vez por semana ao longo de cinco anos

Reportagem sobre o Projeto Mais Cinema que saiu no jornal "O Paraná", de Cascavel, em 2009 (Imagem: Reprodução)

Reportagem sobre o Projeto Mais Cinema que saiu no jornal “O Paraná”, de Cascavel, em 2009 (Imagem: Reprodução)

Em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, o Projeto Mais Cinema, realizado de 2008 a 2013, oferecia uma vez por semana sessões gratuitas de cinema na Casa da Cultura Carlos Drummond de Andrade, onde cinéfilos com faixa etária de 18 a 70 anos se reuniam para assistir filmes que não fazem parte do circuito comercial. Ao final das exibições, eu sentava na beira do palco, analisava o filme e abria espaço para perguntas e comentários.

Não vou mentir e dizer que muita gente participava do Mais Cinema. Não, isso não é verdade, mas, apesar do público modesto, fazia o nosso projeto valer a pena, já que quem frequentava a Casa da Cultura sabia o que estava buscando e o que encontraria. Além da oportunidade de assistir bons filmes, os cinéfilos ainda recebiam refrigerante e pipoca – tudo isso graças à Fundação Cultural de Paranavaí e ao nosso amigo Sobhi Abdallah, responsável pelo empréstimo de um projetor que substituiu o nosso já danificado.

Pelo seu idealismo minimalista, o Mais Cinema chamou tanta atenção que em poucos meses jornais de diversas cidades do Paraná publicaram reportagens sobre a iniciativa. Um exemplo foi o “O Paraná”, de Cascavel, na região Oeste, a quem concedi uma entrevista falando do nosso objetivo após seis meses de implantação do projeto que contava com o empenho voluntário de amigos e artistas como Amauri Martineli, Rosi Sanga, Elza Pavão, Sobhi Abdallah e Paulo Cesar de Oliveira.

“Valorizamos aqueles cineastas que tiram proveito da sensibilidade para estabelecer uma profunda construção de sentido, nada óbvio, mas com uma capacidade de humanização que faz o espectador ir embora refletindo sobre o mundo, a vida, suas experiências e seu comportamento”, declarei ao jornal “O Paraná” em 2009.

Logo no início, seguindo a proposta de exibir e discutir filmes “alternativos”, o projeto presenteou o público com um cosmopolitismo cinematográfico – cinema clássico, expressionismo alemão, neorrealismo italiano, cinema surrealista, realismo poético francês, nouvelle vague, cinema noir, novo cinema alemão e cinema novo brasileiro, entre outros movimentos artísticos.

Público também participava do debate ao final do filme (Foto: Amauri Martineli)

Público também participava do debate ao final do filme (Foto: Amauri Martineli)

Ao longo de cinco anos, exibimos muitos filmes, obras de mais de 40 países e de todos os continentes. Quem participou do projeto sabe que a prioridade era seguir na contramão da Indústria Cultural, fomentadora de uma fantasia distante do homem comum. O mais importante era levar o público à imersão, um convite à reflexão – imprescindível nas obras de cineastas aptos a captar o obscurantismo da complexidade humana – individual e coletiva.

Com esse caráter, dentre filmes nacionais exibidos, vale destacar o clássico “Vidas Secas”, adaptado por Nelson Pereira dos Santos, inspirado no livro homônimo de Graciliano Ramos. Na obra, o cineasta conduz o espectador, por meio de recursos estéticos, a sentir o vazio existencial, ingente e avassalador dos personagens: flagelados do sertão. A própria ausência de diálogo, em muitos momentos do filme, é elementar em transmitir uma miséria que não agride apenas o organismo, mas a essência do homem.

Não menos marginal é o filme neorrealista “Ladrões de Bicicleta”, do mestre italiano Vittorio de Sica, em que o personagem principal é um desempregado de origem humilde – idiossincrasia de uma decadente classe operária subjugada a um sistema socioeconômico que os impele a trocar valores e ideologias por comida.

Continuando nessa dimensão variegada, o público conheceu o futurista “Fahrenheit 451”, exímio exemplar da Nouvelle Vague, e idealizado pelo singular francês François Truffaut. No filme, uma sociedade hipócrita e paradoxal – afugentada pela opressão ditatorial, renega a literatura, numa crítica mordaz ao cerceamento da liberdade intelectual.

Uma ode à fragilidade humana, a bela trilogia das cores – “A Liberdade é Azul”, “A Igualdade é Branca” e a “Fraternidade é Vermelha”, do surpreendente diretor polonês Krzysztof Kieślowski, foi exibida em três sessões – numa sequência ordenada, respeitando a característica de unidade indissolúvel dos três filmes.

Na trilogia, cada obra tem seu título justificado de várias formas, seja por meio da estética ou da dialética, e sempre a partir do momento que a individualidade de um personagem é confrontada com a de outro, no contexto de um relacionamento. Sendo assim, é possível interpretar a partir da obra-prima de Kieślowski que ideologias, crenças, valores, conceitos, são todos descartáveis perante a vida.

Muitos outros filmes foram celebrados na Casa da Cultura, mas esses em especial merecem ser citados porque marcaram o início de um projeto que trouxe a Paranavaí até cinéfilos de outras cidades da região. Boas e duradouras amizades foram construídas no auditório da Casa da Cultura, a sala oficial do projeto Mais Cinema que hoje ainda é lembrado em tom de nostalgia por tanta gente que por lá passou, mesmo que somente uma vez.

Paranavaí, a flor dos cafezais

without comments

Novo livro do poeta Paulo Marcelo é baseado em poemas sobre a colonização de Paranavaí

11958088_957539504285047_2658505986920988194_o

Por meio da poesia, Paulo Marcelo ensina história com uma linguagem de fácil compreensão (Foto: Amauri Martineli)

Em janeiro deste ano, o escritor Paulo Marcelo Soares da Silva, radicado em Curitiba, me presenteou com o seu novo livro – “As flores dos cafezais”, recém-lançado. A obra de leitura simples e cativante é baseada em uma coleção de poemas, bem-dispostos em ordem cronológica, sobre a colonização e a evolução de Paranavaí desde os tempos da Fazenda Ivaí, que antecede a Vila Montoya, até a atualidade.

O título do livro é uma clara homenagem a Paranavaí, a quem o escritor se refere em seus poemas como flor dos cafezais, já que a cidade se desenvolveu sob o signo do café até o início dos anos 1970, quando a cafeicultura perdeu espaço para a pecuária.

Por meio da poesia, Paulo Marcelo ensina história com uma linguagem de fácil compreensão. Transmite impressões de uma Paranavaí pouco conhecida pelos mais jovens, mergulhada em impressões de um passado longevo, mas rico e bucólico, que aguça a sensibilidade de quem tem e até de quem não tem contato com a cultura regionalista.

“A realidade e o mito se confundem com o passar do tempo. Ao lado do que é real há que se preocupar também com o ilusório. Os sonhos, a magia e o folclore são peças indispensáveis na engrenagem da vida”, defende o escritor que em sonetos petrarquianos conta com paroxismo como nasceu Paranavaí.

No livro, a narrativa poética romantiza fatos da década de 1920. A partir de um soneto homônimo, Paulo Marcelo aborda com preciosismo a chegada de desbravadores, colonos e outros migrantes que se tornaram pioneiros – numa universalização alheia a nomes. O fim de Montoya, o nascimento da Fazenda Brasileira e a escolha do nome da cidade são referenciados com a rima do autor.

“Entre 1950 e 1960 a produtividade cafeeira atingiu seu ápice na região. Afirma-se que em algumas áreas chegou-se a colher 300 sacas em coco por mil pés de café”, introduz o escritor antes de poetizar as brincadeiras em torno dos cafeeiros, assim como as manhãs ensolaradas, as moças do campo, a inocência dos colonos, a alegria durante as colheitas, a fartura e as grandes geadas.

No livro, a narrativa poética romantiza fatos da década de 1920 (Foto: David Arioch)

No livro, a narrativa poética romantiza fatos da década de 1920 (Foto: David Arioch)

Na obra, alguns personagens, as festas típicas e os cinemas da cidade também são mencionados em versos curtos com digna e nostálgica simplicidade. “Paranavaí é filha dos cafezais. Nasceu numa manhã de muito sol e foi batizada numa tarde de mil cores”, garante o poeta. Em síntese, “Flores dos Cafezais” é um livro de rápida leitura e que não exige demais do leitor, a não ser vontade de peregrinar em emoções e reflexões poéticas, inspiradas em mais de 90 anos de história.

Quem é Paulo Marcelo?

Além de escritor, Paulo Marcelo é bacharel em direito e possui licenciatura em geografia. Participou e foi premiado em muitas edições do Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup). Também recebeu prêmios de menção honrosa no 15º e 19º Jogos Florais de Barreiro, Portugal, e no 1º Concurso de Romances Juvenis da Academia Paranaense de Letras.

Tem contos publicados pela Empresa Tipográfica Casa Portuguesa, de Lisboa, em Portugal, e Casa da Cultura dos Trabalhadores da Quimigal, de Barreiro, também em Portugal. Ademais, é autor de “O Lendário Capitão”, de 2012, e “Xondó e o Furto da Vassoura”, de 2013. O livro “Encantamento”, de 2015, contém ilustrações do próprio escritor e traz um conto sobre a história de um casal que se apaixonou em Paranavaí nos tempos da colonização.

Saiba Mais

Caso queiram adquirir o livro, vocês podem entrar em contato com o autor através do e-mail pmmssi@yahoo.com.br.

Soneto que integra o livro e faz referência ao pássaro que empresta seu nome a uma das áreas históricas de Paranavaí:

O Canto do Surucuá

Voa o lindo passarinho

Ao vento que vem lá,

No quadro, tudo mais belo,

Ao canto do Surucuá

 

As dores vão se afastando,

Em busca d’outro lugar…

Levando mágoas prá longe,

O canto do Surucuá

 

Segue o moço a cavalo,

Batendo o peito por ela

(Um amor que vai buscar)

 

Na fazenda, a donzela

Suspira, lá da janela

Ao canto do Surucuá

No filtro de Kemmy Fukita

without comments

Com arte em filtro de papel reaproveitado, jovem ilustradora chama atenção pela singularidade

Kemmy Fukita reaproveita os filtros usados pela mãe (Foto: Arquivo Pessoal)

Kemmy Fukita reaproveita os filtros usados pela mãe (Foto: Arquivo Pessoal)

Em 2015, a ilustradora Kemmy Fukita, de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, criou uma página no Facebook para divulgar o seu projeto “No Filtro”, em que reaproveita filtros de papel usados para coar café. Unindo arte e sustentabilidade, Kemmy reproduz com singularidade imagens de pessoas famosas e anônimas em construções visuais que transmitem fortes sentimentos e sensações.

Seus traços influenciados pelo hiper-realismo, surrealismo e art nouveau são carregados de intensidade, influências que ela assume com orgulho, assim como a fotografia. “Muitos dos meus desenhos surgem da observação. Gosto muito de desenhar rostos femininos realistas e um pouco desfigurados do real, com cicatrizes. Isto porque sempre tentei representar uma mulher forte, apesar das dificuldades que ela tenha de passar”, explica.

Toda vez que Dona Rosa termina de usar um filtro de café, a filha Kemmy, de 20 anos, o lava com sutileza, para preservá-lo com aspecto envelhecido, e aguarda a secagem antes de começar a produção de mais um desenho. “O processo não é demorado, mas exige muita paciência porque se algo der errado é preciso recomeçar. Para desenhar um rosto realista, por exemplo, eu levo uma hora. Varia de acordo com o grau de dificuldade”, informa.

12822183_1698499637097673_526877625_n

“Vi que o giz pastel garantia melhor pigmentação e incluí também as tintas nanquim e aquarela” (Foto: Kemmy Fukita)

Após criar obras em papelão, um dia Kemmy Fukita estava observando a mãe preparar café e teve a ideia de separar o filtro já usado. O lavou, secou e começou a pintar. Gostou tanto da primeira experiência que criou uma página com seus desenhos, frases e trechos de músicas reproduzidos em filtros. “Me baseei em artistas com quem já me identificava. A princípio, tudo era feito com lápis de cor e tinta guache. Depois vi que o giz pastel garantia melhor pigmentação e incluí também as tintas nanquim e aquarela”, revela.

Desde o ano passado, a artista cria obras sob encomenda. As mais pedidas são pautadas em imagens de escritores e músicos, seguidas por desenhos de pessoas comuns. Trabalhos inspirados nas fotos mais icônicas do escritor estadunidense Charles Bukowski estão no topo dos pedidos mais atendidos por Kemmy. “Eu o admiro muito, tanto que um dos meus poemas prediletos é ‘O Pássaro Azul’. Também faço muitas obras baseadas em bandas de rock e cantores e cantoras de outras épocas”, enfatiza.

“É preciso entender que coloco amor e dedicação no que faço” (Foto: Kemmy Fukita)

“É preciso entender que coloco amor e dedicação no que faço” (Foto: Kemmy Fukita)

Cada encomenda, com moldura e dois filtros – um acompanhado de ilustração e outro de uma frase, custa apenas R$ 40. “Uso como embrulho o TNT ou um papel transparente amarrado com uma cordinha de sisal”, destaca, deixando claro o quanto é caprichosa no que se propõe a fazer. Ainda assim a artista reconhece que o seu trabalho não é devidamente valorizado, já que há pessoas que reclamam do preço cobrado por cada obra. “É preciso entender que coloco amor e dedicação no que faço”, argumenta a ilustradora.

Com o projeto “No Filtro”, Kemmy admite que se descobriu ainda mais como ser humano e artista. Inspirada no pai poeta, várias vezes premiado no Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup), ganhou coragem para escrever poemas e publicá-los com seus desenhos. “Desanimei muitas vezes e tive bloqueios criativos, uma descrença no que faço. Mas foram nesses momentos difíceis que encontrei pessoas me apoiando e falando para eu não desistir. Uma frase que sempre trago comigo é do Vinicius de Moraes: ‘A arte não ama os covardes’. É bem isso. Quem vive neste mundo precisa de coragem para se arriscar e amar o que faz”, defende.

Trabalho inspirado em imagem e frase de Charles Bukowski (Foto: Kemmy Fukita)

“Eu o admiro muito, tanto que um dos meus poemas prediletos é ‘O Pássaro Azul’” (Foto: Kemmy Fukita)

Além de artista, Kemmy Fukita é estudante de moda. Perto de se graduar, não pensa em atuar como estilista. Quer trabalhar com ilustração de moda, se desvinculando da criação de roupas. “Quero futuramente conciliar a ilustração de moda com o aspecto social, pouco valorizado”, confidencia. Sem nunca ter estudado desenho, Kemmy é autodidata, porém acredita que o curso de moda a ajudou a desenvolver habilidades específicas, como se aperfeiçoar no desenho de mãos e pés.

A primeira experiência desenhando foi aos 13 anos, quando decidiu reproduzir os personagens da Turma da Mônica, de Mauricio de Sousa. “Só que não eram tão realistas. Ao longo dos anos fui testando outros materiais além do papel comum. Tive a ideia de pintar desenhos minúsculos em hashi e deu certo. Também fiz isso em pratinhos de papelão, usando tinta guache e palitinhos de dente. Eu era revoltada com pincéis”, conta rindo.

A página “No Filtro”, criada por Kemmy em 2015, se aproxima dos nove mil seguidores. A ilustradora justifica que a crescente popularidade é resultado da divulgação de um de seus trabalhos em uma página de música do Facebook. “E também a uma encomenda feita pelo presidente da Fundação Cultural de Paranavaí, Amauri Martineli. Tudo isso foi de grande importância e eu não esperava, nem tinha noção de que tantas pessoas valorizariam a minha arte”, comemora.

Página do projeto No Filtro no Facebook

 https://www.facebook.com/nofiltro/

Tulipa, a cadelinha evangélica

without comments

Do início ao fim do culto, Tulipa fica em silêncio, atenta a tudo que acontece no interior da pequena igreja

Tulipa assiste aos cultos três vezes por semana há oito meses (Foto: David Arioch)

Tulipa assiste aos cultos três vezes por semana há oito meses (Foto: David Arioch)

Na Rua C, em um pequeno espaço contíguo à residência da artesã Lindinalva Silva Santos vive a mais jovem frequentadora da Igreja Pentecostal Jesus é a Cura, na Vila Alta, periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Três vezes por semana, pouco antes das 19h30, a cadelinha mestiça Tulipa deixa a sua confortável casinha de madeira, salta sobre uma base de tábuas que lhe serve como passarela e pula a cerca, encurtando caminho por um terreno baldio onde uma pequena porção de capim-colonião a cobre completamente.

Aguerrida, segue pulando e amortecendo a relva com as patas miúdas até chegar à estrada de terra ao lado do Bosque Municipal. Tranquila, mas atenta, percorre mais cem metros até chegar à esquina da Rua A. Olhando ao seu redor, Tulipa atravessa o interior da igreja para mostrar que está pronta para o início do culto. Observa rapidamente o pastor até ser notada e então se aconchega debaixo de um comprido e envernizado banco de madeira. “É o jeito dela de cumprimentar todo mundo. É como se fosse uma pessoa e desse algum tipo de satisfação aos presentes”, informa Lindinalva.

Do início ao fim do culto, Tulipa fica em silêncio, atenta a tudo que acontece no interior da pequena igreja. Por volta das 21h, e da mesma forma que entrou, ela se despede à sua maneira. Lá fora, recebe muitas carícias. Tem tanta confiança no ser humano que fecha os olhos e inclina a cabecinha para ser afagada. Depois retorna para casa fazendo o mesmo trajeto. Muito querida por todos os frequentadores da Igreja Pentecostal Deus é a Cura, a cadelinha começou a participar dos cultos há oito meses e desde então jamais se ausentou. Com o tempo, sua presença se tornou uma atração, principalmente para as crianças.

Cadelinha mostra por onde ela salta quando vai à igreja (Foto: David Arioch)

Cadelinha mostra por onde ela salta quando vai à igreja (Foto: David Arioch)

“Vou dar uma bíblia em miniatura, menor que um dedo, pra ela carregar amarradinha no dorso quando for à igreja”, declara a artesã às gargalhadas. Dócil e silenciosa, Tulipa aceita até carinho de estranhos. “Ela é muito dada e ninguém judia dela. Fica com um dentinho fora da boca o dia todo, só que não faz mal a ninguém. Se dá bem com todos os bichos. Só late à noite porque ela se sente como se fosse a guardiã da casa”, declara Lindinalva. Assim que massageio o pescoço de Tulipa, ela deita e se vira para cima, ansiando por mais afagos.

A cadelinha vive com a artesã há três anos, desde que foi encontrada abandonada ainda filhote ao lado do Bosque Municipal de Paranavaí. “Fazia poucos dias que ela tinha nascido. Peguei ela porque fiquei com medo que algum carro a atropelasse e a matasse. Era bem miudinha e dormia dentro do meu chinelo felpudo. Nunca incomodou ou fez sujeira dentro de casa. Ela é muito obediente e limpinha. Não preciso falar mais de uma vez”, garante Lindinalva apontando para a casinha construída especialmente para Tulipa.

Até hoje a cadelinha só engravidou uma vez, mas os filhotes nasceram mortos e ela nunca mais ficou prenha. Hoje em dia, durante o cio, Tulipa não sai de casa. “Fica arredia com os outros cachorros. Não deixa nenhum deles se aproximar. Entra em um quartinho e fica lá”, revela a artesã que nessa fase redobra os cuidados com a cadelinha.

Tulipa também é exigente quando o assunto é comida. Desde pequena, nunca gostou de nenhum tipo de ração. Prefere biscoitos de leite ou maisena esmigalhados em uma porção de leite. “Arroz, por exemplo, ela só come se tiver molho. Senão só olha e passa longe. A bichinha sabe o que quer e apesar de pequena come que nem cachorro grande”, garante Lindinalva rindo.

O menino Valdir

without comments

Zombava ao ver uma barreira invisível me impedindo de ultrapassar a soleira da padaria

WP_20160228_10_09_00_Pro

Panificadora Pão de Açúcar, onde vovô presentava seu neto postiço (Foto: David Arioch)

Eu tinha cinco anos quando meu avô João chegou em casa falando do menino Valdir. Tranquilo e compenetrado, continuei no sofá assistindo desenho animado. Ele sentou ao meu lado e disse que Valdir era tão dedicado que gostava dele como se fosse seu próprio neto.

Naturalmente comecei a sorrir, mostrando os dentes com bisonhice e observando a expressão serena em seu rosto esfíngico e ainda pouco crispado. De repente, questionei: “Quem é menino Valdir?” – crente de que se tratava de nome e sobrenome. Ele coçou o queixo liso, recém-barbeado, hesitou e falou que era um menino muito esperto e da minha idade. Segundo vovô, Valdir gostava de ajudá-lo em qualquer circunstância.

Fiquei intrigado e imaginei quem seria esse garoto. “Eu conheço o menino Valdir?”, perguntei à minha mãe na cozinha enquanto ela amaciava a longa massa de pão girando um rolo à manivela. Respondeu que não, voltei para a sala e continuei encucado. “Menino Valdir, menino Valdir, menino Valdir, menino Valdir, menino Valdir…”, pensei antes de dormir, como uma dessas crianças que contam carneirinhos, observando o forro amadeirado e envernizado do quarto.

De madrugada, vovô invadiu meus sonhos passeando de mãos dadas com Valdir. Sorridentes, os dois caminhavam até a Panificadora Pão de Açúcar, onde ele presenteava seu neto postiço com os doces mais caros e mais bonitos da vitrine. “Como você é bonzinho, Valdir. Seus pais devem ter muito orgulho de você. Saiba que és a melhor criança do mundo”, comentava.

Valdir, que só balançava a cabeça em concordância, gargalhava e apontava o dedo para mim. Zombava ao ver uma barreira invisível me impedindo de ultrapassar a soleira da padaria. Fui obrigado a assisti-los do lado de fora, ouvindo o ronco do meu estômago. Sentia que havia um cabouco dentro de mim, uma fome tão avassaladora que deixava meu corpo minúsculo tiritante.

Escorado no batente, minha visão enturvecia conforme eu reconhecia a olência edulcorada de alguns doces que em meu mundo diminuto e inaudito eram os mais deliciosos do mundo. Performático, Valdir mastigava com ledice. Repartiu um pãozinho em dois pedaços, apontou o recheio cremoso e frutado em minha direção, lambeu os beiços e simulou que me daria um pedaço.

Levantou do banquinho, veio em minha direção e, faltando dois passos para chegar até a soleira, esticou o braço e recuou. Macarrônico, retornou fazendo o clássico moonwalk, de Michael Jackson, acompanhado de uma fosquinha. Sentou, fechou os olhos rapidamente, suspirou e abocanhou o pão que em poucos segundos desapareceu dentro de sua boca de rapa-tachos. “Por que, vovô? Por que, Valdir? Por que tão fazendo isso?”, retumbavam inúmeros fraseados ribombados que singravam intrincados dentro da minha mente.

Langoroso e atento a tudo que acontecia no interior da padaria, nem me dei conta de que eu estava completamente nu, com exceção dos pés envolvidos por um par de chinelinhos do Zé Colmeia. Só percebi o supra-realismo da situação quando ouvi gritos ensandecidos de uma multidão que me observava do outro lado da Avenida Distrito Federal. Tentei tapar minhas partes íntimas com as mãos, mas não adiantou. Pelado, corri ruborizado até o cruzamento com a Rua Getúlio Vargas, indo em direção ao Jardim São Cristóvão.

Ao meu redor, os motoristas reduziam a velocidade, colocavam suas cabeças titânicas como melancias janela à fora e gritavam com embocadura de hipopótamo: “Pelado, sem vô e faminto, isso que é um azar do quinto!” As vozes continuavam ecoando por todos os lados. Eu corria e não chegava a lugar algum, como se estivesse sobre uma esteira. De repente, o dia virou noite e o céu azul como um oceano prepóstero desvaneceu.

No firmamento, eu via somente escuridão, um vazio abissal. “Cadê a lua e as estrelas?”, refleti, até que centenas de olhos de coió surgiram entre as fendas que se abriram na abóbada celeste. Eram pretos, castanhos, azuis, verdes, cinzas, fulvos, rosáceos, enfim, de todas as cores possíveis e impossíveis. Eles me vigiavam e me acompanhavam com a destreza indefectível de um mecanismo automatizado, e com precisão de lentes telescópicas.

Para todos os olhos havia apenas uma boca. Não! Uma bocarra tétrica que parecia prestes a engolir meu mundo e me deixar vagando pelo sempiterno da inexistência terrena. “O que você quer? Fala logo, baixote!”, projetou o vozeirão macambuzio com um hálito vigoroso e vicejante como das hortas caseiras de hortelã. A cada palavra, ela me lançava uma aragem que esvoaçava meus cabelos com ferocidade e arrancava as folhas dos galhos de uma sibipiruna que me protegia, evitando que eu fosse arrastado.

Tive dificuldade em manter os olhos abertos – esbraseavam por causa da violência lancinante da ventania que sibilava e chiava, me motivando a abraçar o tronco da árvore com minhas mãos miúdas que afundavam em seu dorso, enchendo as unhas de vestígios moscados de coscorão. Num impulso, gritei que só queria voltar para casa. “Por favor! Nunca mais vou seguir o vovô e o Valdir!”, prometi com olhos marejados.

As lágrimas escorriam pelo meu rosto rubicundo, desciam pelo corpo e afrouxavam o elástico do par de chinelinhos tornado escorregadio como pele de sapo. Cabisbaixo, silenciei e quase desmaiei, com a visão ligeiramente embaçada. Só despertei com a chuva morna e torrencial tocando meus cabelos e ombros com a graciosidade de um cafuné e um abraço. Era colorida e tinha cheiro e sabor de sodinha.

Observei novamente o céu e vi centenas de olhos encharcados. O choro se transformou na chuva que aquecia meu corpo, afastando a friagem. Depois, todas as fendas findaram no céu e a água prosseguiu sua jornada solitária, se intensificando e formando uma pequena corrente caudalosa que me arrastou até a Rua Pernambuco. Quando abri o portãozinho de casa, um forame sem fundo surgiu logo abaixo dos meus pés. Não consegui me afastar – era tarde demais. Enquanto eu caía, tudo ao meu redor se desfazia. Subitamente tive um espasmo hipnico e acordei. Três anos depois, o mesmo pesadelo retornou, só que pela última vez.

Naquela madrugada, sentado na cama, me recordei de todos os episódios que vovô viveu com Valdir, tantas experiências e histórias partilhadas. Então tomei uma decisão. Caminhei até a varanda, onde vovô repousava em uma cadeira – ouvindo rádio e vendo a frugal movimentação de passantes na rua, e pedi que me levasse para conhecer o menino Valdir. Ele me observou atentamente em silêncio, sorriu e revelou: “Valdir nunca existiu, a não ser dentro da minha e da sua mente, onde a criatividade floresce sem um pedaço de semente.”

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Tamanduá que perseguiu um grupo de padres em 1953

without comments

Tamanduá que correu atrás de um grupo de padres alemães na área rural de Paranavaí em 1953, de acordo com o artigo “Noch ein Missionsbericht“, escrito pelo então frei Alberto Foerst e publicado na revista alemã Karmelstimmen em outubro de 1954 (Foto: Ordem do Carmo)

Tamanduá que correu atrás de um grupo de padres alemães na área rural de Paranavaí em 1953, de acordo com o artigo “Noch ein Missionsbericht“, escrito pelo então frei Alberto Foerst e publicado na revista alemã Karmelstimmen em outubro de 1954 (Acervo: Ordem do Carmo)

Written by David Arioch

February 19th, 2016 at 6:59 pm

A dura realidade de Nelson

without comments

Entregue ao vício, pedreiro sonha em se livrar do álcool e do crack

" Preciso me curar. Tenho cinco filhos. Três são casados e dois são pequenos” (Foto: David Arioch)

” Preciso me curar. Tenho cinco filhos. Três são casados e dois são pequenos” (Foto: David Arioch)

Nelson Ferreira Filho tinha dez anos quando viu a mãe ir embora para nunca mais voltar. Inconformado, seu pai começou a beber pinga todos os dias. “Ele comprava pra tomar no fim da tarde. Só que não percebeu que eu também me sentia abandonado. Então quando ele ia trabalhar eu bebia o litro de pinga inteiro sozinho. Meu pai ficava bravo comigo e eu com ele porque minha mãe sumiu”, narra.

Mais tarde, Nelson conseguiu se afastar do alcoolismo. Porém, retornou ao antigo vício quando a esposa deixou claro que queria a separação. “É a mãe de um de meus filhos. Quando a perdi há 15 anos, mergulhei no álcool de uma maneira que você nem imagina”, admite. Quem o conhece de longa data, relata com pesar a degradação de Ferreira Filho.

No auge da profissão, acostumado a circular pelas ruas da Vila Alta, na periferia de Paranavaí, com motocicletas caras, o pedreiro Nelson chegou a ter quatro casas, dois terrenos e uma boa grana na poupança. “Sou pedreiro bom, tenho tanta ferramenta que a maioria nem sabe para que serve. Trabalhei no ramo por quase 25 anos. Eu era o cara da Vila Alta, o pessoal me via como exemplo de sucesso. Tinha vida boa e gostava de ajudar todo mundo”, garante enquanto chora.

Há sete anos, quando perdeu outra esposa, Nelson encontrou na rua um garoto oferecendo “um negócio de fumar”. “Era crack. Me acostumei com a droga e vendi dois terrenos. Gastei tudo comprando pedra. Rapaz, já fumei até mil reais numa noite. Depois vendi minhas ferramentas de trabalho pra comprar droga”, revela.

Chegou a não se importar mais em ser flagrado fumando crack. Às vezes o desespero de Nelson era tão grande que ele invadia terrenos baldios e matagais para fumar pedra. “Eu fumava muito com um colega. Um cara levava todo dia 50 gramas na casa dele e a gente alucinava. Graças a Deus, ele se livrou da droga. Fico feliz por aquele cara. Ele não vem mais pra cá. Não gosta nem de lembrar. Só o encontro lá pra cima da Vila Operária”, assegura chorando.

A situação de Nelson piorou nos últimos cinco anos, quando se entregou completamente ao alcoolismo. Hoje em dia, o pedreiro acorda às 5h para beber. “A minha vida é essa. Bebo o dia todo se deixar. Tomo fácil dois litros de pinga, então quando quero cortar os efeitos do álcool eu fumo uma pedra de crack. Esta semana fumei quatro, mas o lance é que só fumo quando bebo. Se eu não bebo, eu não uso droga”, confidencia.

Por mês, Ferreira Filho gasta em média R$ 400 em dois bares onde compra pinga. Como a garrafa custa R$ 10, o acesso é fácil. “Muitas vezes o cara ‘tomba’ antes de terminar a garrafa, por isso não é difícil virar alcoólatra. Agora pra quem usa droga, R$ 10 não é nada. Outra facilidade é que toda hora tem gente te oferecendo bebida de graça. O povo bate até na porta de casa pra acordar pra beber. E se não tiver dinheiro, é só vender as coisas pra comprar o ‘goró’”, informa.

As muitas lembranças de Nelson na casa onde viveu com a família o motivou a sair de lá para morar em uma residência alugada. No local, há apenas duas camas, um fogão e uma geladeira. “Lembro de tudo que fiz de errado na minha vida. Seis mulheres que tive moraram lá, além dos meus filhos. E como eu já vivia sozinho, eu quis sair. Hoje fico por aí, pelas ruas. Quando caio bêbado em algum lugar, sempre tem alguém que me puxa pelos braços, me arrasta e me deixa em casa”, destaca.

"Fiquei com medo de não acordar mais. Passa muita coisa pela minha cabeça. Quero ver meus netos crescendo" (Fotos: David Arioch)

“Fiquei com medo de não acordar mais. Passa muita coisa pela minha cabeça. Quero ver meus netos crescendo” (Fotos: David Arioch)

O estado do pedreiro é tão grave que ele não consegue dormir quando não bebe. O consumo constante de álcool o obrigou a interromper o uso do sedativo Diazepam porque a combinação poderia ser desastrosa. “Já bebi e tomei remédio ao mesmo tempo e me deu um branco daqueles. Fiquei com medo de não acordar mais. Passa muita coisa pela minha cabeça. Quero ver meus netos crescendo. Esses dias uma nora trouxe um pra eu ver. Eu estava sentado em frente ao portão. Amo todos eles”, afirma.

Nelson diz que se sente mal pelo sofrimento que causou à família, sonha em se livrar do vício e em viver novamente com a esposa. “É muito amor. Preciso me curar. Tenho cinco filhos. Três são casados e dois são pequenos”, enfatiza sorrindo e enxugando as lágrimas do rosto.

Ouvia gente cochichando no quintal e corria com foice ou facão

Morador da Vila Alta desde 1986, Nelson Ferreira Filho se orgulha da profissão de pedreiro e também de ter trabalhado como segurança de prefeito. No entanto, quando fala do presente reconhece que a única solução para se livrar do alcoolismo, vício que inclusive o motiva a usar drogas, é o internamento em uma clínica de reabilitação. “Preciso de uma psicóloga pra trabalhar na minha cabeça. Sou explosivo e não quero mais essa vida. Fico perigoso e violento quando bebo demais”, confessa.

Sofrendo de ansiedade e depressão há anos, não se esquece do dia em que subiu na moto e foi a Alto Paraná [a 20 quilômetros de Paranavaí] à toa quatro vezes consecutivas. “Fiz isso na ‘noia’, na ‘pira’. Achei que se ficasse parado iria enlouquecer. Já fiz coisa mais estranha ainda. O crack me dá alucinação, coisa do diabo. Direto eu ouvia gente cochichando no quintal, daí eu corria em volta da casa com foice ou facão e via que não tinha ninguém. Quando decidi parar com a droga, a minha mulher já tinha ido embora. Há pouco tempo mesmo tive alucinação e fiquei três dias sem dormir”, conta Nelson que é aposentado por invalidez.

Apesar dos problemas com o alcoolismo, Ferreira Filho deixa claro que não tem coragem de ir atrás da família porque tem vergonha da própria situação. “Você tem poucos amigos quando bebe e usa droga. Quase todo mundo se afasta de você. Não me considero mais dependente químico porque chego a ficar até meses sem usar crack”, argumenta e lembra que está devendo R$ 40 reais em uma boca de fumo.

Dois encontros com a morte

Há 20 anos, antes de ser demitido de uma construtora, o pedreiro Nelson Ferreira Filho trabalhou até a noite em uma obra. No dia seguinte, discutiu com o patrão por causa da demissão. Bastante irritado, foi até um bar, comprou uma garrafa de pinga e bebeu tudo sozinho. Depois subiu na moto e dirigiu até as imediações da Serpavi, atual Secretaria Municipal de Infraestrutura, onde foi atropelado por um caminhão da prefeitura que atravessou a preferencial.

“O motorista sumiu de Paranavaí com medo de mim. Não vi nada depois da pancada. Tive uma fratura exposta tão grave que o médico queria amputar minha perna. Aí implorei pra ele não cortar. Fizeram uma gambiarra lá e não perdi a perna, só que ela não levanta mais. Ando mancando, puxando a perna”, relata e exibe uma grande cicatriz que começa no pé e termina quase no joelho. Além disso, perdeu os movimentos de um braço.

O que também afetou muito o estado psicológico e emocional de Ferreira Filho foi a declaração do juiz durante uma audiência para conseguir a aposentadoria por invalidez. “Ele disse que eu não tinha como provar que era inválido. Eu nem andava na época, pra você ter uma ideia. E mesmo assim o juiz falou isso. Quando chove, não consigo caminhar. A outra perna tá boa”, pontua.

O acidente foi o segundo encontro do pedreiro com a morte. O primeiro aconteceu quando ele tinha 20 anos e estava trabalhando como lenhador. Nelson era um dos sete passageiros de um caminhão que retornava de Nova Olímpia, na região de Umuarama, também no Noroeste do Paraná. Antes que o motorista percebesse, o veículo ficou sem freio no trevo perto de Cianorte. “Até uma criança, filho do motorista, estava com a gente. O caminhão foi parar no canavial. Ainda bem que ninguém morreu. Quando saí do hospital, falaram que não sobrou nada do caminhão. Aquele dia foi Deus que abençoou”, comenta.

Frase de Nelson Ferreira Filho

“Tive uma esposa que foi morta na mesa de cirurgia por um médico daqui de Paranavaí. Hoje ele continua trabalhando como se nada tivesse acontecido.”

Written by David Arioch

February 10th, 2016 at 12:08 pm

Nefaltzi Vallató

without comments

“Reveste-lhe o âmago um mausoléu, nuvens turvas que no decantar de suas lágrimas expropriam o céu”

Nefaltzi Vallató gostava de caminhar fora da colônia (Arte: Pierre-Auguste Renoir)

Nefaltzi Vallató gostava de passar um bom tempo distante da colônia (Arte: Pierre-Auguste Renoir)

Na década de 1910, antes do surgimento das cidades do Noroeste do Paraná, já havia um núcleo populacional a poucos quilômetros da fronteira do Paraná com o então Mato Grosso. Era um lugarejo isolado, mas muito bem organizado e com boa infraestrutura, onde ninguém poderia entrar sem autorização de uma companhia de colonização conhecida como Sulina – O Braço Armado do Norte Sulista. A colônia foi fundada por um grupo de magnatas que tinha como conselheiro um suposto profeta chamado Ausenbaum. O homem defendia que as tradicionais sociedades urbanas definhariam até 1930. Também pregava que o fim do mundo estava próximo.

À época, vivia no povoado um jovem questionador na faixa dos 20 anos e estatura mediana. Seu nome era Nefaltzi Vallató e ele tinha o atípico costume de passar horas do dia em um cemitério clandestino que começava onde terminava a colônia – local em que seus pais foram enterrados dois anos antes, em 1913. Por causa desse hábito, um dia o jovem foi abordado por dois guardas. Um deles sorriu e o cumprimentou. Nefaltzi retribuiu a cordialidade, porém se manteve circunspecto. O mais baixo, um homem chamado Marino, que se dizia um poeta do acaso, chamou-lhe a atenção e o questionou: “Rapaz, sorria! De que adianta nutrir sentimentos negativos na alvorada se é no resguardar da madrugada que a serpente deve ser alimentada?”

Nefaltzi, que desde a morte dos pais nunca sorria com facilidade, respondeu: “Por que ultrajar a verdade? Por que demonstrar emoções inexistentes e obscurecer as verdadeiras? Confuso és, pois dentro de ti reveste-lhe o âmago um mausoléu, nuvens turvas que no decantar de suas lágrimas expropriam o céu. Por que abrir a boca e expor os dentes se for arbitrariedade aos sentimentos?” Impaciente e ofegante, Marino pediu que Nefaltzi virasse de costas. Algemou-lhe as duas mãos e o levou até o pequeno escritório da Polícia Independente de Sulina. No local, o rapaz foi formalmente autuado por desacato. Sileno, o único investigador contratado pela companhia, abriu um inquérito, prevendo que a polícia poderia ser vista como bonapartista.

Vallató preservou o mesmo semblante – de um rosto pictórico, assim que Sileno o inquiriu sobre o desrespeito ao guarda. Sem compreender com clareza, abaixou a cabeça, coçou a palma da mão, se levantou e disse: “Por que muitos cavalgam na luz se sabem que enxergam apenas no escuro? O galope com destino à refração enobrece alguém? Saiba, senhor, não sei onde nasce ou morre a razão, mas acredito que é no ranger dos dentes que se admite a intransigência ou a intemperança”, comentou Nefaltzi que ainda refutou a acusação e perguntou se poderia fazer outro comentário.

O investigador concordou e Vallató discursou: “Se acordas pela manhã e beijas a fronte de seu primogênito, não o faz para congratular-se como benemérito de Lemúria, e sim porque no desabrochar de uma relação o sentimento tenro privilegia a sinceridade, autodoação. Pena que seja limitado e defasado, tanto quanto o princípio da isonomia que, embora registrado na Magna Carta, destoa da realidade em tempos modernos. Penso em nós como selvagens, logo que nascemos e abrimos os olhos, somos impelidos a enxergar o mundo sob a hierarquia de Lupus – somos todos animais engolindo a mesma cauda, a nossa e a dos outros. Antropofagia! É isso que praticamos todos os dias!”

Nefaltzi se calou por segundos, até que o investigador, tornado meândrico, o interrogou sobre a relação de seu discurso com a autuação. Estático, justificou: “Nenhuma! Principalmente se enxergas o mundo como uma extensão do próprio quintal!” Irrequieto, Sileno levantou-se e pediu a ele que o acompanhasse até a sala do delegado Abílio. Foi recebido cordialmente, embora a fisionomia do homem transmutou-se ao saber o motivo da visita. Sileno reclamou que o rapaz se recusava a colaborar durante o interrogatório, então indagou se Abílio poderia cuidar do caso. Apesar da feição carrancuda e da sudorese repentina, o delegado concordou, dispensou Sileno e pediu que Vallató se sentasse.

Com olhar esfíngico, o estudante também interpelou Abílio sobre o motivo da acusação. “Meu jovem, você foi trazido até a minha sala porque temos a melhor das intenções, por que não contribui e ainda faz o possível para dificultar o nosso trabalho?”, queixou-se. Nefaltzi prosseguiu em silêncio, roçou o piso de madeira com a sola do sapato e disparou: “Transgressão, será? Hum…parece-me um aparato ardiloso. Sabes o motivo, não é mesmo? Pois bem, é volátil, não é substancial nem equânime. Eu e o senhor sabemos que a verdadeira transgressão é aquela que mascara o capricho de poucos em detrimento de muitos. Isso me lembra um vizinho que resolveu derrubar uma árvore porque não lhe forrava mais o quintal com bons frutos.”

Irascível, o delegado se retirou da sala e pediu a Sileno que formalizasse o pedido de prisão preventiva. Na noite daquele dia, Vallató foi preso após o parecer favorável do juiz Bacelar. Marcaram o julgamento para a semana seguinte. Nefaltzi rejeitou o direito à defesa. Durante a curta audiência, Bacelar questionou se o jovem tinha algo a declarar, logo que o promotor deu por encerrado o caso. Com a mesma feição peculiar, soergueu-se modestamente, olhou para o juiz e argumentou:

“O que significa ser culpado ou inocente? A culpa pode nascer da inocência, assim como a inocência pode ser rebento da culpa. Creio que dispendem tempo demais com os lacônicos e esquecem dos binômios. De qualquer modo, ficarei grato se o meritíssimo senhor juiz responder a pergunta que farei agora: ‘Por que o homem refugia-se nos ditames da sociedade quando macula a própria integridade com a ignorância da inverdade?’” O magistrado torceu o nariz, não respondeu e anunciou o veredicto. Vallató, que não tinha mais família na colônia, foi condenado a dez anos de prisão. A pena começou a ser cumprida numa área erma e privada situada a sete quilômetros ao leste de Sulina.

No dia seguinte, encaminhado ao seu destino, Nefaltzi teve o dorso amarrado por uma longa corda de cânhamo que o desceu até a Boca Apuara, um buraco com cinquenta metros de profundidade, úmido e sobrenaturalmente oxigenado, o que evitava que os transgressores morressem asfixiados. Quando Vallató foi deixado na Apuara, não havia nenhum outro condenado vivendo ali – estava sozinho. Nos primeiros meses, Marino e alguns amigos do rapaz percorriam o trajeto a pé até chegarem ao local. Lá, gritavam-lhe o nome e pediam que recostasse à lateral direita para não ser machucado pelo atrito com os alimentos lançados ao buraco.

Desde a condenação, Nefaltzi nunca mais falou, embora ao longo das visitas sinalizasse que estava bem, entoando sons primitivos com o auxílio de uma ocarina que carregou escondida no bolso no dia da transferência. Três anos depois do confinamento, ninguém mais se lembrava dele. Por eventualidade, um rapaz, Titu Csendes, que há muito tempo deixou a colônia com a família, retornou para ver de perto a situação do amigo. Csendes, ao gritar em vão durante horas diante da Boca, ficou desesperado e resolveu pedir ajuda no escritório policial e na sede administrativa de Sulina. Enviaram três guardas. Um deles desceu até o buraco e se assustou ao encontrar Nefaltzi morto, com o corpo sujo pelo solo vermelho.

O guarda se surpreendeu com a pouca profundidade da Apuara. Depois que retiraram o cadáver, usaram um enorme rolo de fita métrica para mensurá-la. A Boca de cinquenta metros estava com menos de quinze. Houve grande comoção e espalhou-se pelo lugarejo um boato de que o mundo chegaria ao fim em poucos dias. Antes do enterro de Nefaltzi Vallató, ninguém percebeu que o interior da sua boca tinha vestígios de terra vermelha. Do lado de seu corpo, antecipando o próprio fim, o jovem escreveu uma frase usando a face da pequena ocarina: “Alimento-me da boca para a qual servi de alimento.” Ninguém entendeu ou se importou.

Curiosidade

Quando comecei a pesquisar sobre a história de Paranavaí em 2006, há dez anos, escrevi o meu primeiro conto inspirado no tema – “Nefaltzi Vallató”. Hoje, depois de tanto tempo, o divulgo pela primeira vez.

Consequência da grilagem de terras durante a colonização

without comments

Problema está relacionado com a grilagem nos tempos de colonização (Foto: Toshikazu Takahashi)

Problema está relacionado aos tempos de colonização (Foto: Toshikazu Takahashi)

Uma curiosidade sobre a região Noroeste do Paraná é que há muitas propriedades em situação de irregularidade fundiária. De acordo com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), os imóveis estão localizados principalmente em Paranavaí, Querência do Norte, Santa Cruz do Monte Castelo, São Pedro do Paraná, Amaporã, Nova Londrina, Marilena, Terra Rica e Santo Antônio do Caiuá, além de outros municípios. Um fato que pode ter relação com a grilagem de terras iniciada nos anos 1930.

Written by David Arioch

February 6th, 2016 at 2:39 pm