David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Paranavaí’ tag

Seu Santo contra a matança de animais

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Pintura: Ivanici Emília Gonçalves

No final dos anos 1940, meu avô conheceu uma fazenda de café em Paranavaí onde era proibida a matança de animais. Havia dezenas de casebres, e quem quisesse trabalhar e viver ali era obrigado a aceitar o fato de que não era permitido se alimentar de animais. Qualquer morte de animal era punida com expulsão. O dono da fazenda era conhecido como “Seu Santo”.

Ele andava mancando porque em 1944 levou uma mordida de onça na perna direita, perdendo parte de massa muscular e de massa óssea. No dia do acontecido, a onça saltou sobre uma árvore assim que ouviu o barulho de um Ford movido a gasogênio. Logo dois jovens desceram armados e se posicionaram para abatê-la.

Ciente de que ela seria morta, Seu Santo apenas gritou com os filhos: “Deixa ela. Tá no direito dela. Foi a gente que invadiu isso aqui.” O deitaram na carroceria do caminhão e partiram rumo ao Hospital do Estado. Esse lugarejo existiu por mais de 30 anos, até ser abandonado em decorrência das últimas grandes geadas. Hoje resta apenas quiçaça e uma história que parece recôndita sob a terra fragilizada.

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Um bate-papo com a escritora Etel Frota

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Foto: Amauri Martineli

Ontem, tive o privilégio de mediar um bate-papo com a escritora Etel Frota, considerada uma das maiores letristas do Brasil. O evento realizado na Biblioteca Municipal Júlia Wanderley fez parte do Mês da Literatura, realizado pela Secretaria Estadual de Cultura do Paraná. No final de julho, Etel lançou o seu primeiro romance na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

O livro intitulado “O Herói Provisório” conta, misturando realidade e ficção, a história do Incidente de Paranaguá, quando o capitão Joaquim Ferreira Barboza, um herói transformado em bode expiatório, comandou em 1º de julho de 1850 o ataque a um cruzador inglês que perseguia navios brasileiros na Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres, na Ilha do Mel.

Entre pesquisa e publicação, a obra levou 14 anos para ser concluída. Etel chegou a ter contato com descendentes do capitão. Ainda assim, fez questão de dizer que, como não se trata de um trabalho biográfico, ela prefere que os leitores o encarem como uma ficção inspirada por fatos históricos. “Que a memória de Joaquim Ferreira Barboza possa me absolver”, declarou.

Etel Frota, que despertou o interesse pela literatura aos seis anos quando ganhou o primeiro livro de seu pai, também falou sobre o seu livro de poesia “O Artigo Oitavo”, publicado em 2002, inspirado na obra do icônico poeta Thiago de Mello, autor do clássico “Estatutos do Homem”, que elogiou o trabalho da escritora e contribuiu declamando no CD anexo ao livro.

O romance de Etel Frota vai ser lançado hoje na Livraria da Vila, no Pátio Batel, em Curitiba. O livro já pode ser reservado no site http://www.etelfrota.com.br/o-heroi-provisorio/

 

 

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Dizem que boi não fala

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Arte: Betty Mulligan

Na saída de Paranavaí, encontrei um boi tentando se coçar no tronco de uma árvore na entrada de um sítio. Ele parecia solitário, mas ao mesmo tempo tranquilo, sentindo a brisa massageando suas orelhas cendradas. Desci do carro. Não havia ninguém além dele. Ameacei me aproximar e o boi manteve os olhos em minha direção.

Não parecia incomodado com a minha presença. Cheguei perto e ele parou de se coçar e ficou me olhando por um instante, sem mover qualquer parte do corpo, como uma estátua de carne e osso. Cheguei mais perto. Continuou se esforçando em vão. Ainda mais perto. O boi não achou ruim. Ousei e massageei sua cabeça adornada por um belo par de chifres, uma verdadeira raridade num universo onde cornos são cerrados logo cedo.

Quando encostei a mão em seu dorso, ele abaixou a cabeça e depois a levantou. Então passei a mão exatamente onde ele não conseguia se coçar. Seu corpo tremia como de uma criança recebendo carícias. Depois de alguns minutos, me afastei, até que um homem se aproximou.

— Ele é manso mesmo. Só tem essa cara que às vezes dizem que assusta, mas é bom de tudo. Não tem maldade nenhuma, diferente da gente.
— É o senhor que mora aí?
— Não…era a casa do Seu Barbosa. Só que ele já morreu e o boi ficou.
— Como assim? E nunca tentaram matar ele?
— Esse aí? Esse aí é o Tucurunda. É boi, mas a vizinhada cuida dele e respeita por causa da história dele.
— Que história?
— Ele salvou um menino de morrer afogado.
— Como assim?
— O Joinha foi criado junto com ele, o filho do Seu Barbosa, e há muito tempo ele os primos foram brincar no açude ali pra baixo. Quando o menino pisou em falso e afundou, o boi tava na margem e começou a mugir, mugir bem alto, até que o Seu Barbosa ouviu e veio correndo. Ele pulou na água e deu tempo de puxar o menino ainda com vida. Graças ao Tucurunda, né?
— Que história incrível…
— Pois é…e dizem que boi não fala.

 

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Um exemplo de simplicidade e sensibilidade

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Arte: John Lautermilch

Fui na Vila Alta conversar com uma senhora que teve o marido assassinado com um tiro na cabeça em um bar. Ele foi usado como escudo em um acerto de contas entre jovens envolvidos com o narcotráfico. Me surpreendeu a simplicidade dela, uma pessoa de fala mansa que não sente raiva nem ódio de ninguém, mesmo depois de uma tragédia. Me disse que gostaria apenas que as pessoas parassem de se matar em vez de destruir a própria vida e a dos outros.





Written by David Arioch

July 26th, 2017 at 9:38 pm

Minhas histórias sobre Paranavaí e seus personagens

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Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí

Compartilho histórias sobre Paranavaí e seus personagens porque pesquisei e escrevi sobre isso ao longo de dez anos. Assim que entrei na verdadeira fase adulta, e influenciado pelo regionalismo literário e pelo jornalismo literário que teve e tem grande peso na minha vida, fui levado por esse caminho. Inclusive sou grato por ter conquistado alguns prêmios em decorrência disso, embora eu nunca tenha gostado de competição.

Desde criança, sou muito curioso. E sempre estranhava quando eu perguntava o nome de uma via, alguém respondia, mas não sabia dizer quem era aquela pessoa que foi homenageada com nome de rua. Mas acredito que a minha curiosidade em relação ao passado, tempos longínquos em que nem mesmo meus pais tinham nascido, começou com minhas visitas ao cemitério na infância.

Eu passava horas percorrendo túmulos, lápides e gavetas lendo datas e tentando imaginar como era o mundo daquelas pessoas. Também fui influenciado pelos contadores de histórias da minha família, como meu falecido avô. Bem distante de coisas como bairrismo, ufanismo ou coisa do tipo, sou apenas alguém que reconhece que todo lugar, independente de tamanho, tem muitas histórias; mas narrá-las de algum modo vai depender sempre da boa vontade humana.

Gosto da oralidade como fonte de escrita, porque posso ter contato com muitas bibliotecas em forma de gente. E claro, antes que elas partam e levem consigo todas as páginas que foram seus olhos, suas experiências, suas vidas. Afinal, sempre que um caixão se fecha, livros são enterrados.

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Written by David Arioch

June 14th, 2017 at 1:15 am

Hoje é aniversário do Tio Lu

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Tio Lu usa a arte como meio de afastar crianças e adolescentes das ruas, das drogas e do crime (Foto: David Arioch)

Hoje é aniversário do Tio Lu, da Oficina do Tio Lu. Fui até a Vila Alta dar um abraço nele e conversar um pouco. Ele está muito feliz de chegar aos 87 anos com pique para trabalhar e para ajudar a garotada do bairro. Tio Lu, que foi tema do meu documentário “Oficina do Tio Lú“, usa a arte como meio de afastar crianças e adolescentes das ruas, das drogas e do crime.

Written by David Arioch

June 2nd, 2017 at 12:33 am

Idoso precisa de ajuda para tratamento de doença infecciosa aguda

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Seu Juvenal sofre em decorrência de erisipela, uma doença que causa inchaço extremo nos pés e nas pernas (Foto: David Arioch)

O aposentado Juvenal Ferreira, que sobrevive com apenas um salário mínimo, e há muito tempo deixou de andar em decorrência de graves problemas de saúde, passa o dia em uma cadeira de rodas. Morador da Vila Alta, na periferia de Paranavaí, ele sofre em decorrência de uma doença infecciosa aguda chamada erisipela, que provoca extremo inchaço nos pés e nas pernas.

“Tenho outros problemas de saúde, mas esse é o pior. Tem dia que não consigo dormir, porque a dor é muito grande. O medicamento não é oferecido pelo SUS, então a gente tem que comprar na farmácia. Já estou endividado e não tenho mais condições de continuar comprando os remédios; e são caros pra gente. Não é fácil, meu filho”, explica.

Seu Juvenal conta com o apoio da esposa, Dona Neide, que é quem se responsabiliza por todas as suas necessidades diárias, já que ele não consegue andar. Os únicos medicamentos usados pelo aposentado até hoje e que deram bons resultados foram as pomadas SAF-Gel, um gel hidratante com alginato de cálcio e sódio, e Quadrilon – indicado para dermatoses causadas por infecção bacteriana ou fúngica.

“Gasto dois tubos de cada por mês. E quando falta, a minha situação piora”, garante Seu Juvenal. A pomada SAF-Gel custa de R$ 50 a R$ 60, e a pomada Quadrilon pode variar de R$ 22 a R$ 35. O sonho de Juvenal Ferreira, que quase teve as pernas amputadas por causa da doença, é voltar a andar ou pelo menos ficar em pé sem a ajuda de ninguém. Para mais informações, ligue para (44) 98837-5322.

Saiba Mais

O endereço do Seu Juvenal é Rua das Ameixas, Nº 19, Quadra 15, Lote 18, na Vila Alta.

 

Written by David Arioch

June 1st, 2017 at 1:38 pm

Jero: “Lá na cadeia você sempre encontra um inimigo. É ruim demais ficar preso”

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“Já peguei um lá pelos lados da Praça dos Pioneiros. Era só dar bobeira que eu passava na mão leve”

Conversamos em frente ao terreno baldio à esquerda (Foto: David Arioch)

Na Vila Alta, de bermuda, chinelos e sem camiseta, Jero diz pra esperar um pouco que ele vai buscar “um café”. Logo retorna com uma garrafa térmica e uma caneca plástica. “É pra você! Coloca aí!”, diz naturalmente, sem cerimônia. Não costumo beber café, mas tomo um gole em deferência. Embora muito jovem, Jero tem algumas cicatrizes no corpo que revelam conflitos e violência. É como se sua pele contasse sua própria história. Criado nas ruas, em meio à pobreza, foi preso pela primeira vez há dois anos, depois de roubar um “radinho”, como chama os smartphones.

“Já peguei um lá pelos lados da Praça dos Pioneiros. Era só dar bobeira que eu passava na mão leve”, conta. Por causa de pequenos delitos, Jero ficou preso quatro vezes. Três vezes foi encaminhado para o Centro de Socioeducação (Cense) de Paranavaí. Na quarta, o enviaram para o Cense de Cascavel, no Oeste do Paraná. “Gostei mais de lá porque a galera é mais humilde. Quem tá preso lá é mais de boa. Não tem tanta rivalidade como no Cense daqui. Aqui um fica querendo ferrar o outro. É briga de gangue, mano”, comenta esfregando uma das mãos pelos cabelos descoloridos.

Durante a conversa, em cada frase de Jero há sempre alguma palavra que nunca ouvi. O seu vocabulário é tão incomum que até mesmo quem é da Vila Alta tem dificuldade de entender – a não ser os mais jovens que passam o dia nas ruas. A linguagem de Jero é uma mixórdia de referências popularizadas na periferia, onde neologismos e regionalismos se misturam o tempo todo. Nas vezes em que foi preso por furto e roubo, o garoto não chegou a confrontar a vítima ou agredi-la no ato do crime. Não tem o costume de usar armas. “Só que é sujo isso aí. Não vale a pena. E lá na cadeia você sempre encontra um inimigo. É ruim demais ficar preso”, afirma enquanto acende um cigarro paraguaio e dá uma tragada, assoprando fumaça com o esmero de uma criança desenhando paisagem com o dedo no chão de terra.

Além do “careta”, Jero também gosta de fumar maconha. Não todos os dias, mas ainda assim com certa regularidade. Relata que conhece todo tipo de droga, só que nunca se interessou em usar nada mais “pesado”. “Crack é pra quem quer virar escravo ou zumbi. Você cai numa noia tão zuada que esquece até quem você é. Deixa o cara louco. Quem vende crack também se lasca porque tem que aguentar gente colando no seu barraco até de madrugada mendigando pedra. Mano, tu acaba com a vida de muita gente e não ganha quase nada. O dinheiro é dos graúdos”, comenta.

Na terceira vez em que foi preso, Jero ficou sabendo que outro adolescente com quem tinha uma querela de longa data também estava no Cense. “O maluco me colocou na mira de um traficante, falando que eu estava de olho na boca de fumo do mano. Armou pra mim. Queria me ferrar. Inventou mais umas histórias”, garante. Crente de que mais cedo ou mais tarde algo aconteceria, Jero se antecipou.

Um dia pegou a própria escova de dente, quebrou a cabeça e começou a afiná-la, deixando-a pontiaguda. A escondeu dentro da bermuda, até que numa ocasião, após a aula, caminhou a passos leves até o seu desafeto. Enraivecido, gritou o nome do inimigo e ocultou sob os dedos o estoque feito com a escova de dentes. Quando o garoto se aproximou, ele o golpeou quatro vezes na barriga. “Ou eu dava nele ou ele dava em mim. Preferi sair na frente. A intenção não era matar. Fiz isso pra mostrar que não tenho medo dele. O papo é um só – se vier, vai levar!”, justifica, baseando-se em um senso de justiça particularista.

O sangue descia e Jero só assistia, até que a vítima foi socorrida e encaminhada à Santa Casa de Paranavaí com vários ferimentos, embora nenhum grave. Depois do ataque, Jero foi transferido para o Cense de Cascavel, onde cumpriu pena. Quando o soltaram, retornou a Paranavaí e decidiu se afastar do crime, opção que pouco pesou na consciência de seus inimigos. “Tem gente querendo me matar ainda. Sei disso”, admite com sorriso dúbio e plangente. De temperamento volátil, Jero foi convencido por alguns “amigos” a participar do furto de um “radinho” e de uma bicicleta.

Na última segunda-feira, fiquei sabendo que ele foi preso novamente. Minha intenção era fazer mais uma entrevista e tirar algumas fotos, mesmo que velando seu rosto. Não deu tempo. Há quem acredite que há males que vêm para o bem. No dia em que Jero retornou à prisão, um detento ganhou a liberdade – um traficante que jurou que o mataria no dia em que fosse solto. Na Vila Alta dizem que Jero se envolveu com a ex-namorada do sujeito. Por enquanto sua salvação está assegurada no ambiente que até então mais desprezava – a cadeia.

Saiba Mais

Jero é um apelido fictício para preservar a identidade do entrevistado.

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Written by David Arioch

May 10th, 2017 at 4:05 pm

A morte de João Gilberto Noll, uma triste surpresa

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Mediei um bate-papo com João Gilberto Noll e Luís Henrique Pellanda em setembro de 2012 (Foto: Sesc)

Fiquei sabendo agora do falecimento do escritor gaúcho João Gilberto Noll, vencedor de cinco Jabutis. Me recordo que em setembro de 2012, quando eu ainda estava na casa dos 20, logo mais inseguro do que hoje em dia, tive a oportunidade de mediar um bate-papo com ele e com o Luís Henrique Pellanda, de Curitiba, durante a Semana Literária do Sesc.

Foi uma noite inesquecível; um bate-papo que se estendeu por quase duas horas, e depois continuou na mesa de uma pizzaria em frente ao Grande Hotel, onde ele pediu uma latinha de Coca Zero. Reservado, sua conversa era pausada, reflexiva e bastante ponderada. Por outro lado, como autor era um libertador, arrebatador; sempre semeando um espírito com ânsia pela liberdade. Penso que sua força literária era a sua coragem existencial. Quem sabe, até como reação de uma severa formação religiosa que lhe impôs tantos limites.

Ainda me recordo de sua voz morna durante a leitura ao público. Persistia uma serenidade que se misturava à ansiedade de seus personagens imersos em anseios e situações que escapavam à imaginação do público. Acredito que ainda tenho o áudio do nosso bate-papo. Se eu encontrar, e espero encontrar, vou tentar transformar em alguma coisa que compense a leitura.

 





Written by David Arioch

March 30th, 2017 at 2:20 am

Children of the White Gold Cinema

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I saw the tears streaming down his face, wetting his plaid shirt buttoned up at the point of his neck

The White Gold Cinema, one of the great entertainment points of the population of Paranavaí (Archive: Osvaldo Del Grossi)

I am not part of a generation that has the strongest and clearest memories of the White Gold Cinema, one of the great entertainment points of the population of Paranavaí, in the Northwest of Paraná, until 1993. When the cinema was closed, I was still a child. Despite this, I went to the Gold Cinema for a few years of my childhood, and I have fond memories of that time.

My first time at the movies was a session of “The Bumbling Heroes – An Adventure in the Jungle”, on a weekend in 1988. By then, the biggest screen I had seen was the 21-inch TV, covered by a box of varnished wood, which was in the living room. Even so, I was happy watching cartoons on it.

As soon as my brother, my mother and I arrived in front of the White Gold Cinema, in Manoel Ribas Street, in the downtown, I paid attention to the people lined around the box office. Tiny, I watched everything in the proportionality of my stature. I saw more shoes, legs and belts than faces. Except, of course, when people were as little as I was.

Before we got inside the cinema, I walked slowly and backwards along the sidewalk, trying to observe the height of the White Gold’s building, but it was impossible for me. So, I thought that was the biggest movie theater in the world. Who knows, maybe it crossed the skies and had direct contact with the paradise they talked about in school.

The gentle popcorn seller smiled at me, noticing through my large, cylindrical black eyes that it was my movie debut. “Is it your fist time?” You’ll like it and you’ll want to come back many times”, he said, straightening a small amount of sweet pop corn, preventing it from mixing with the salty one.

Warm and smelling, the popcorn popped into the cart. For a moment, I believed, in my boyish illusion, that maybe the popcorn had a life, and wants to go to the movies to watch “The Bumbling Heroes”. By my side, prevailed a sweet aroma that pacified the most bewildering children – yes, it was an effective white-hot soothing odor.

It reminded me of the airy red tabebuia tree, that I saw every day near my house, when I pointed with my finger and shouted: “Look that sweet popcorn tree!” On the other side of the popcorn cart, the smell of popcorn changed, as well as the public. The adults, especially the men, approached and asked: “Give me the salty one, please!”

Skilled, the popcorn seller knew the exact amount of popcorn to fill every bag. I watched his grooved hands glittering in front of the small yellow lamp that glowed and gilded his wrinkled face. It was that way, whenever he leaned in or steeled himself. That was his spectacle, and at the entrance of the White Gold Cinema, nobody was more important than the popcorn seller.

On that day, before we went to the cinema, five shoeshine boys, aged between 6 and 14, approached. They leaned against a wall next to the White Gold Cinema and, as the ragamuffins boys from Buñuel’s “The Young and the Damned”, started smoking, watching families getting out of cars and crossing the sidewalk.

“If I had a father or a mother I would not be in this life, brother! Being poor and alone is not easy. No, sir! Look how much luxury those kids have”, said one of the four boys to his friends. Without a word, they just shook their heads in agreement, crushing little butts with their little feet.

Dirty, with grimy nails and the nauseating smell of cheap cigarettes, a shoeshine boy no more than 12 years old lead a group of kids. As someone hesitant about entering or leaving, he folded his arms and raised his face as one of the entrance lights highlighted his dubious expression of satisfaction

“Guys, listen up! Quickly! This movie ‘Bumbling Heroes’ is very good. There’s only one bad thing. Mussum and Zechariah die at the end. Thanks! Bye! “He shouted and ran laughing, while his dark and curly hair was fluttering. At that moment, he became an antagonist worthy of the villain Scar.

The boy dragged his shabby slippers and, with his companions, went down to Pará Street. Some children did not care about the revelation, but others were so angry that they wanted their parents to call the police or do something about it. For good, no one pursued them.

Inside the Gold White, I was stunned by the out of sight seats. “There are one thousand five hundred seats here. Look up there, it’s like an opera”, my mother told us, watching our reactions. Unhurried, we spun around the mastodontic room, trying to see all the details.

Luckily, there were vacant seats in the front row. Then, we walked there, crossing hallways and listening to the sounds of spectators eating popcorn, talking, making fun of someone and hugging each other. Near us, the usher accompanied everything with its indefectible aura of firefly. He felt like the leader of a coliseum where nothing would happen without his permission, especially when the lights went out.

As soon as I sat down, I observed a boy in mended clothes sitting next to me, accompanied by his mother. His name was Juscelino, and he was a year or two older than me. It was also his first time at the movies. I noticed his anxiety because his small feet kept swinging, as did mine.

His trembling hands sweated so much that every time he wiped them on the sides of his plaid pants. Juscelino was talking to me, keeping his face toward the disproportionate projection screen. I thought he was excited because of the movie, until I noticed something different in his eyes, a crystal clarity like I’ve never seen before. Naturally, the mother revealed that her son was born blind.

Juscelino could not see anything. Still, his excitement at White Gold Cinema surpassed even mine. The sounds and smells that came to him were like immaterial gifts, memorials. With a rare auditory and olfactory acuity, Juscelino could even see what people were doing or eating in the furthest seats- and he liked to discuss everything with me.

Son of peasants from Alto Paraná, he arrived in Paranavaí by bus in the morning, and stayed waiting for hours for the ticket office to open. His father could not participate in the big event, because the savings just barely covered the expenses of his wife and child. “It’s going to start, mom!” Said the little boy seconds before the projector started showing the movie, as if he had a gift for omens.

From beginning to end, Juscelino was completely silent, trying to absorb as much sound information as possible. Occasionally, he moved about the chair without making a sound, worried about bothering people. Juscelino, my brother and I were united by an experience that would never be repeated. Our greatest discoveries were visual, and those of Juscelino were auditory. Perhaps even richer than ours, as he put himself in the position of creator by putting forth to the creativity of everything he heard.

Still in the dark, I saw the tears streaming down his face, wetting his plaid shirt buttoned up at the point of his neck. At the end, with the return of the lights, I asked him what it was like to watch a movie at the cinema without being able to see. My mother scolded me, but Juscelino’s mother did not mind the question.

“I can not explain it right, but I see, yes, I just do not see with my eyes. I see everything I carry inside me”, he justified before taking hold of his mother’s hand and walking in short steps toward the exit. The artificial lighting contrasted and harmonized with the compliant light of the newly arrived portentous moon.

On the corner, at the intersection between Pará and Manoel Ribas Street, the five shoeshine boys, children living as adults, drummed their boxes. They were seated on the curb, immersed in false smiles and sullen stares, trying to exist for a world that scarcely recognized their true intentions.

Returning home on foot, we crossed the street. As we passed them, the same boy, who caused the commotion at the entrance to the cinema, pulled me by the arm and, with an implied look, asked “Hey, my friend. Can you tell us the story of the movie you saw there at the cinema?”

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Written by David Arioch

March 30th, 2017 at 1:28 am