David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Vegetarianismo’ tag

Nascem, crescem numa velocidade assustadora e morrem para tornarem-se comida

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Nos condicionamos a crer que precisamos de carne para sobreviver

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Será que vale a pena se alimentar de animais?

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Será que vale a pena consumir leite e derivados?

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Vaca e bezerro antes de serem separados definitivamente (Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals)

Imagine carregar um bebê no ventre por nove meses, sentindo que existe outra vida dentro de você, e assim que ele nascer, ser retirado do seu convívio. Esse tipo de privação é a realidade comum da indústria de laticínios. Reflita sobre o nível de estresse da vaca e do bezerro nessa situação. No sistema industrial não é incomum os bezerros mamarem somente uma vez (ou nem isso) se não forem considerados “interessantes” como matéria-prima.

Caso haja o interesse de comercializar carne de vitela, eles normalmente passam dois dias com a mãe para serem amamentados com o colostro, o que previne doenças e evita que a carne do bezerro seja desqualificada comercialmente. Depois são separados definitivamente e confinados em gaiolas, baias ou qualquer outro espaço reduzido – onde são alimentados com um leite artificial pobre em ferro e outros nutrientes que ajudam a tornar a carne “mais clara, tenra e macia”.

A carne classificada como ideal é obtida após a morte de um bezerro com idade entre três e seis meses. Para produtores que não têm interesse nesse tipo de mercado, o que é muito comum no setor nacional de laticínios, a morte do bezerro pode ser decretada logo após o nascimento; já que ele é considerado descartável – ou simplesmente um efeito colateral de um processo. De fato, suas necessidades como ser senciente não são ponderadas, e a sua curta existência é apenas uma forma de assegurar a manutenção da produção leiteira.

Afinal, uma vaca precisa gerar vidas para entrar no período de lactação – seja de curta, média ou longa duração. Sendo assim, isso nos leva a uma óbvia conclusão. Se uma vaca produz leite, mesmo que geneticamente modificada e condicionada a produzir volumes incomuns, ela não o faz para alimentar seres humanos, mas sim por um dom natural que é alimentar seus filhos, assim como faziam seus ancestrais antes da intervenção humana.





Como a realidade do “gado leiteiro” pode ser pior do que a realidade do “gado de corte”?

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Há ainda a inevitável morte do bezerro – que pode ou não ser reduzido a pedaços de carne (Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals)

Na produção de carne, você engorda um animal e o mata precocemente. De fato, sua expectativa de vida não é considerada porque isso significa custos e desvalorização de matéria-prima. Sim, isso é muito ruim. Por outro lado, na produção de leite, há o custo da exploração da vaca até a exaustão, ou seja, até o momento em que ela deixa de atingir níveis aceitáveis de volume leiteiro.

Assim, claro, em decorrência disso, e sob a perspectiva de mercado, ela passa a ser considerada inútil e descartável. Consequentemente, seu destino comum é o matadouro e mais tarde o setor de frios dos mercados – onde não raramente pode ser encontrada em forma de pedaços de hambúrguer. E para além disso, há ainda a inevitável morte do bezerro – que pode ou não ser reduzido a pedaços de carne, dependendo do contexto e do país.

 





Não está tudo bem em consumir leite

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Há muitas pessoas que nem imaginam que pode haver até mais sangue na produção de um copo de leite do que de um pedaço de carne (Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals)

Quem acha que está tudo bem em consumir leite porque ele é apenas extraído dos úberes da vaca realmente não tem a mínima ideia de como funciona esse sistema. Como diz o Gary Francione, há muitas pessoas que nem imaginam que pode haver até mais sangue na produção de um copo de leite do que de um pedaço de carne.





Como os humanos, a vaca e o bezerro compartilham um vínculo especial

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As vacas são profundamente afetadas pela dor emocional de serem separadas dos bezerros (Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals)

Como os seres humanos, uma vaca e seu bezerro compartilham um vínculo forte e especial – um que se forma poucos minutos após o nascimento. Quando as vacas e seus bezerros podem levar uma vida natural, o bezerro chega a mamar por até um ano. Porém, isso é o que menos acontece. Uma pesquisa da Animal Australia mostrou que as vacas são profundamente afetadas pela dor emocional de serem separadas dos bezerros, uma prática padrão da indústria de laticínios. Será que vale a pena consumir leite e derivados?





Um animal sem nome sem espécie

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Único em seu gênero, repousa ao lado de uma macieira

Há um animal, sem nome sem espécie. Único em seu gênero, repousa ao lado de uma macieira. Um homem assiste. Parece boi? Porco também não. Frango, galinha? Menos ainda. É bonito, espadaúdo. Mais do que isso aos olhos do homem – carnoso, delicioso. A fome emana o que a gana encana.

Lindas e robustas maçãs caem entre as pernas do sujeito. Ele? As ignora. Não! “Quero ele”, balbucia roçando a ponta da língua no lábio superior. Desembainha a faca espigada e caminha até o animal que não corre – nem se move na inocência vituperada pela inexperiência.

O homem o abraça. Vra! Vra! Vra! Maçãs rolam ao seu encontro. Maçãs do amor, “caramelizadas” pelo sangue morno, basto. Brilham. O homem comemora diante do moribundo que não chora.





Somos estranhos na nossa relação com outras espécies

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Encarceramos espécies que jamais nos causaram qualquer mal

A ideia da inferiorização do que é diferente há muito embruteceu o ser humano (Arte: Hartmut Kiewert)

Como seres humanos somos estranhos na nossa relação com outras espécies. Confinamos os nossos quando esses são condenados por crimes. Porém, encarceramos outras espécies, que jamais nos causaram qualquer mal, simplesmente porque, ao nos considerarmos superiores, nos colocamos em posição de subjugar aqueles que não partilham das nossas habilidades e do mesmo código comunicativo que nós. Porque a esses relegamos o destino da servidão que finda com a morte.

A ideia da inferiorização do que é diferente há muito embruteceu o ser humano. E mesmo hoje, quando o pretexto de suplantar o outro é mais desnecessário do que nunca, até mesmo aqueles que gozam de certas habilidades intelectuais defendem essa prática. Mas por que as coisas são assim?

Simplesmente porque muitos não reconhecem ou preferem não reconhecer que o que fazem nada mais é do que perpetuar hábitos facilmente substituíveis e vícios do paladar que se arrastam por gerações, ou que se desenvolvem a partir dos nossos pontos de vulnerabilidade. Sim, porque se digo que sou incapaz de me abster do consumo de animais, por exemplo, sou, sem dúvida, inábil em controlar as minhas próprias vontades – o que é uma axiomática fraqueza.

O ser humano, independente de inteligência ou níveis de empatia, quando é dominado por algo, não raramente sofre de um tipo criterioso de cegueira, mas é uma cegueira viciosa e deleitável que suprime as possibilidades de ser vista como algo problemático – o que exigiria reflexão e reavaliação sobre quem somos, quem são os outros e o que fazemos. O prazer que determinados humanos têm com a reafirmação da ideia da superioridade e seus desejos a partir da morte de outras criaturas também são um endosso comum desse hábito.

Há algo de altaneiro, e não no bom sentido, no ser humano que, desconsiderando as implicações de suas escolhas para as vítimas, busca pretextos para justificar o consumo de animais. A verdade é muito simples – se há vida saudável sem morte, a matança é sempre injustificada. Afinal, todo alimento proveniente de privação, sofrimento e morte é resultado de nossas escolhas ou do condicionamento dessas escolhas; sejam culturais ou não, conscienciosas ou não.





Uma reflexão sobre o consumo de embutidos

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Será que as pessoas costumam considerar a quantidade de animais que deu origem a um pequeno embutido?

Em muitos casos, embutidos reúnem partes de diversos animais, não apenas de um (Arte: Tommy Kane)

Todo mundo já viu embutidos na seção de frios dos mercados, ou aqueles nuggets em caixinhas. Mas será que as pessoas costumam considerar a quantidade de animais que deu origem a um pequeno embutido? Você está diante de uma seção, e a poucos centímetros dos seus olhos há meio quilo de alguma coisa; e aquela alguma coisa muitas vezes reúne partes de diversos animais, não apenas de um.

Na realidade, creio que poucos ponderam que aquilo pertenceu a um animal, já que o costume faz com que a associação mais frequente seja com os pedaços comprados à mão do açougueiro. Isso não te parece surpreendente? Pedaços de diversos animais embalados e compactados em algo tão pequeno. Fragmentos que antes permitiram que tais seres sencientes existissem, mesmo que marcados pela mortandade precoce.

De repente, temos meio quilo de algo que um dia fez parte de um número indefinido de criaturas. Muitos animais, no caso dos nuggets – que basicamente são partes de frangos, seres sociais com personalidades distintas. E a mortadela e a salsicha? Sim, pedaços de muitos animais selecionados mecanicamente.

Isso significa que quando alguém come, por exemplo, uma salsicha, esse alguém pode estar consumindo não apenas a parte de um animal que um dia enxergou o mundo, caminhou sobre a terra, sobre um pedaço de concreto, e, a partir de suas características, manifestou seus próprios anseios e potencialidades de socialização.

Realmente, não. São vários animais que dão origem a um mesmo embutido – significando assim uma diversidade de identidades suprimidas por um desejo, na maioria dos casos, inconsciente pela morte de vulneráveis. Afinal, quando nos alimentarmos de animais, naturalmente não apenas damos o aval, mas ordenamos, mesmo que irrefletidamente, que suas vidas sejam diluídas às nossas vontades.