David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Vegetarianismo’ tag

Práticas violentas contra os animais só existem porque sempre há plateia e consumidores

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Por que só reconhecemos a exploração animal quando envolve violência explícita?

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Sobre zombar de animais e matá-los baseando-se na crença do querer e poder

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Deveria a morte violenta, coercitiva e indesejada ser associada às coisas boas da vida? 

Deveríamos zelar pelos animais, não violentá-los (Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals)

O que leva uma pessoa a tirar foto sorrindo com um animal morto? Você já pensou sobre isso? Considera normal? Aceitável? Por que deveríamos celebrar a morte de criaturas que não nos causam qualquer mal? E mesmo que causassem, consideradas as proporções, isso seria justo? Moral? Ético? Que tipo de mensagem realmente passamos quando jocosamente erguemos um animal morto pelas orelhas, pelas patas, pelo couro ou pelo dorso enquanto seus olhos já não mostram nada a não ser uma ideia concreta de finitude, de um vácuo que parece sempiterno? Como sorrir segurando um corpo desfalecido, um cadáver?

Os animais que matamos, seja para consumo, ou outro tipo de uso ou até mesmo nenhum, não existem ou existiram sozinhos – eles vieram de algum lugar, de alguém. Têm ou tiveram mães, pais, irmãos, irmãs – todo um contexto social, já que não apenas nós humanos somos seres sociais, mas animais de muitas outras espécies também. E mesmo que não tivessem ninguém, e vivessem no mais pleno ostracismo, ainda assim não teríamos tal direito de privar-lhes da vida.

Não tão raramente quanto eu gostaria, um sujeito está junto a um animal morto, o sangue daquela criatura desfalecida ainda quente em contato com a sua mão, mas ele está em frenesi; tão imerso no desconhecimento, no obscurantismo e na ignorância que nem se dá conta de que a sua satisfação e o seu prazer estão associados à morte. E deveria a morte violenta, coercitiva e indesejada ser associada às coisas boas da vida? Como podemos vincular violência e tortura de vulneráveis ao prazer? Deleite? Contentamento?

Deveríamos sorrir quando matamos animais simplesmente porque queremos e podemos? Talvez seja a valiosa lição de que há vidas que podemos suprimir, destruir, exterminar sem qualquer prejuízo consciencioso ou moral? Deveríamos comemorar? Vibrar? Mesmo nos casos em que um animal é apontado como um problema, o ser humano opta sempre pela solução mais fácil – que é exterminá-lo o mais rápido possível. “Matemos e está resolvido!” Não se fala em alternativas, porque alternativas “custam caro”, e vidas não humanas valem pouco.

Nesse aniquilamento ignora-se o fato de que quem morreu não queria morrer – mas apenas viver à sua maneira, não importando conceitos confusamente abstratos ou a racionalização humana da felicidade ou da tristeza. Há quem diga que matamos determinadas espécies porque esse é o papel delas, assim como outros alegam que matamos específicas criaturas porque essas tornaram-se “pragas”.

Se o papel delas é esse por que nasceram sencientes, e até mesmo com níveis distintos e equiparáveis de consciência e inteligência? Com habilidades sociais. Não seriam características a serem consideradas moralmente? Que indicam que assim como nós não partilham do desejo pela morte precoce? Além disso, diante de tanto impacto que causamos ao mundo em proporções desmedidas e pouco refletidas há milhares de anos, e mais visceralmente há centenas de anos, será que temos o direito de chamar qualquer espécie de pinima, de praga?

 





Por que acredito que o sofrimento de um animal não humano não é menor do que o humano na iminência da morte

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Ocidentais e orientais e o consumo de animais

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Podemos falar sobre os direitos dos animais?

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“Podemos começar reconhecendo que o fracasso moral do moderno consumo de carne não é o fim da história”

Gottlieb: “quando você pede uma deliciosa vitela à parmegiana em um chique restaurante italiano, você está consumindo a carne de um ser vivo que foi confinado em uma gaiola tão pequena que mal podia se mover” (Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals)

Em 2014, o filósofo Roger S. Gottlieb, professor de filosofia do Instituto Politécnico de Worcester, em Massachusetts, e autor de 18 livros, incluindo obras sobre filosofia política e crise ambiental, publicou pelo Harvard Divinity Bulletin, um dos boletins da Universidade Harvard, um artigo intitulado “Can We Talk (about Animal Rights)?”.

No texto, Gottlieb apresenta assuntos bastante controversos que envolvem a discussão dos direitos dos animais, como o uso de animais para as mais diferentes finalidades – como consumo e experimentação animal, e defende que nenhuma mudança é possível se não estivermos dispostos a entender ou reconhecer as implicações de nossas ações para os animais não humanos.

O objetivo do filósofo claramente não é oferecer respostas, mas propor reflexões inclusive conflitantes sobre o nosso papel no mundo a despeito das nossas relações com seres não humanos – inclusive evidenciando argumentos de perspectivas contrárias aos direitos dos animais. No decorrer do artigo, Roger. S Gottlieb enfatiza que se uma pessoa age com indiferença em relação ao sofrimento dos animais, inclusive com escárnio, isso não significa que ela seja incapaz de compreender essa realidade ou mudar, mas que talvez agora a mudança não seja moralmente possível.

Na sua perspectiva, o entendimento da realidade da exploração animal depende de uma reflexão profunda e da aptidão para um diálogo horizontal, que deve partir tanto por parte de quem instiga a reflexão quanto de quem é convidado a toma parte nela: “Uma conversa verdadeiramente moral. Parece necessário nos abrimos para o que a outra pessoa está dizendo e tentar encontrar o máximo possível de verdade.” Segundo o autor, não importa o quão correta seja uma afirmação moral, se a humanidade não estiver pronta para aceitar a sua verdade, ela não terá consequências sociais:

Os animais sofrem por muitas razões: eles congelam até a morte em invernos rigorosos, são despedaçados por predadores, envelhecem e passam fome porque não conseguem mais caçar. Se você colocar uma música bem triste nesse cenário, enquanto testemunhamos esses momentos, sem dúvida, muitos olhos se encherão de lágrimas. Mas essas lágrimas são facilmente remediadas por um momento de reflexão sobre os intermináveis e necessários ciclos da vida e da morte.

Existem outras formas de sofrimento que não diminuem tão facilmente. As aves marinhas cobertas de óleo, a raposa presa na armadilha de um caçador – roendo a própria perna na tentativa de fugir; as longas e longas filas de bois e vacas esperando para serem espancados e terem suas gargantas cortadas; os milhões de camundongos a serem usados, sabe lá Deus para qual finalidade, incluindo aqueles que foram cientificamente e geneticamente modificados para desenvolverem câncer (chamados de onco-camundongos). Sem mencionar espécies inteiras, milhares delas, morrendo porque os humanos dominaram ou contaminaram o seu habitat, ou trouxeram espécies exóticas contra as quais eles não desenvolveram defesas, ou simplesmente foram comidos em grandes quantidades.

O que acontece quando olhamos para a dor deles? Muitas vezes, nada de mais, porque a maioria de nós não se preocupa em olhar. Ou, se o fizermos, o que vemos é uma abstração: x milhões de mortos em experimentos, x milhares de espécies perdidas. Se olharmos com cuidado, dispostos a aceitar quaisquer sentimentos que surjam, como por exemplo no caso dos ursos populares forçados a canibalizarem uns aos outros porque o aquecimento global derreteu tanto gelo que eles não podem mais caçar. Olhe para eles – magníficas criaturas com pelos espessos e brancos, incrivelmente adaptados a suportarem o gelo glacial e à neve, em casa e mesmo no mar. São mães que protegem seus filhos jovens e brincalhões dos poderosos caçadores de focas. Esses animais estão morrendo, não de velhice nem na luta contra predadores ou pela liderança de um rebanho, mas porque nós estamos matando eles através do aquecimento global e da imprudente caça esportiva. Há toxinas feitas pelo homem que se acumulam em suas carnes.

A questão é que não é apenas o sofrimento individual dos ursos polares que chegam até nós, ou mesmo a perda potencial dessa espécie majestosa. Tudo isso é sobre como é difícil olharmos para nós mesmos. Para salvar o urso polar, os grandes felinos e os bovinos nos matadouros, o quanto teríamos que mudar? Quanto da nossa economia, cultura e vida familiar? Quantas leis teríamos que aprovar? Quantos encontros de Ação de Graças seriam ou teriam um sabor diferente? Teríamos que desistir do nosso sonho de infindável expansão econômica a fim de deixar algum espaço para outras espécies? Teríamos que convencer todos os nossos camaradas que um tofu grelhado pode ser tão bom quanto um bife grelhado? Teríamos que dizer que todo o empreendimento humano dos últimos dez mil anos – buscando cada vez mais poder, riqueza, controle, conhecimento técnico e posses – deveria (profundamente, seriamente e essencialmente) ser contido?

Entre a intensidade da dor que sentimos, a culpa pela nossa própria cumplicidade, e a aparente impossibilidade de que todos nós teríamos que mudar, ficamos em uma posição moral difícil. Sentimos culpa por nós mesmos e raiva contra “os outros” que “não entendem isso”. A necessidade de por em prática algo que “fazer tudo parar” e a certeza de que não podemos. Uma vida que já parece suficientemente difícil, mas à qual esses “tipos dos direitos dos animais” querem acrescentar mais preocupações, problemas e coisas para nos incomodar.

Não há saída para esse conflito e confusão. Isto é, de maneira nenhuma isso levará a uma simples solução dos problemas, ou a uma maneira universalmente aceita de pessoas de lados opostos se unirem para terem uma conversa moral calma, racional e agradável. A verdade é que temos sentimentos extraordinariamente poderosos sobre esse assunto, e essas respostas podem se traduzir em intuições morais muito fortes. Essas instituições antagônicas podem ser resumidas da seguinte maneira:

Instituições de ativistas dos direitos animais. Os animais sofrem, como nós. Eles amam seus companheiros e filhos, brincam na grama e brigam entre si. Eles se deleitam em voar através do céu de madrugada, correr pela floresta, ruminar. E apesar do ocasional momento em que eles machucam as pessoas, eles são praticamente indefesos contra nós. E pense em quanto sofrimento lhes causamos: em laboratórios, em fazendas, nos frigoríficos. Se você realmente olhar para eles, ouvir seus gritos, tomar para si suas feridas, como poderá continuar fazendo isso com eles?

Instituições que priorizam o ser humano. Pessoas são mais importantes que os animais. Elas apenas são. Além disso, a vida já é bastante difícil – se eu quiser um bife ou um pedaço de frango frito, eu terei. Tem um gosto realmente bom. E a ideia de que algum rato ou pombo tem direitos é simplesmente ridícula. As pessoas precisam de alimentos. A ciência precisa de animais de laboratório. Pessoas do mundo todo estão famintas e doentes, e você quer que eu me preocupe com uma vaca ou um rato? Caia na real. Se você quiser enlouquecer com isso, tudo bem. Mas deixe o resto de nós em paz. A maioria das pessoas, a maior parte do tempo, vai usar os animais para qualquer coisa que elas queiram. Isso nunca vai mudar.

As coisas poderiam ser amenizadas se todos nós pudéssemos apenas “concordar em discordar”. Por que cada um de nós não pode se dar bem com pessoas que têm opiniões diferentes sobre comer carne, usar animais em experimentos ou sobre a quantidade de espaço que um bezerro deve ter em sua jaula antes de ser abatido? No entanto, isso não daria certo, porque, querendo ou não, se uma determinada e particular “diferença” é permitida, isso já é parte do problema em si. Como indivíduos, como sociedade, temos que desenhar linhas: entre diferenças que são uma questão de gosto (como um guarda-roupa realmente ruim) e diferenças que o colocarão na cadeia (como abusar de seus filhos). Embora a opção pela tolerância às diferenças seja certamente uma opção possível, os direitos animais e os cuidados com os animais podem não ser um problema de tolerância.

Ao mesmo tempo, ainda que pensemos que nossos pontos de vista são tão moralmente corretos que as pessoas do outro lado não nos pareçam apenas diferentes, mas erradas – e tão erradas que o que elas fazem deveria ser ilegal e considerado um ultraje antiético –  seja lá qual for o lado em que estamos, ainda devemos ponderar que há muitas pessoas do outro lado. Se vamos nos relacionar moralmente – pensar naqueles do outro lado como agentes morais que merecem respeito por suas escolhas, assim como nós fazemos, é importante pelo menos para tentarmos nos entender, Além do mais, tal entendimento pode nos levar a um pouco de terreno comum.

Quando os pontos de vista têm uma aceitação ampla e de longa data – como a superioridade humana, consumo de carne e a exploração científica de animais – temos de levá-los a sério em seus próprios termos. Similarmente, quando tantas pessoas são vegetarianas morais, ou se opõem ao uso de animais na ciência, não funciona descrevê-los como hippies excessivamente sentimentais. Se um dos lados for desconsiderado logo no começo, as tentativas de comunicação, ou mesmo de compreensão, dessas diferentes pessoas estarão condenadas desde o início. E onde isso nos deixaria? Uma conversa verdadeiramente moral. Parece necessário nos abrimos para o que a outra pessoa está dizendo e tentar encontrar o máximo possível de verdade.

Primeiro vamos reconhecer que nos relacionamos com os animais de muitas maneiras diferentes. Considere: usamos animais como alimento, para o trabalho e para experimentos científicos. Há animais de estimação, animais selvagens e animais de zoológico. Os animais são presas de caçadores, sacrifícios para algumas religiões e companheiros para os cegos. Como podemos entender todos esses diferentes contextos? Não vou oferecer uma regra simples e universal. No entanto, podemos comparar dois contextos muito diferentes e ver como as diferenças afetam nossas respostas.

Aqui está o primeiro cenário: quando você pede uma deliciosa vitela à parmegiana em um chique restaurante italiano, você está consumindo a carne de um ser vivo que foi confinado em uma gaiola tão pequena que mal podia se mover, e foi mantido por muito tempo no escuro para que sua carne empalidecesse, sem qualquer companhia (o que é necessário, sendo ele um animal social) e, para preservar a delicadeza do gosto de sua carne, nunca foi alimentado sequer com a comida sólida que seu organismo naturalmente requeria.

Claramente, existem todos os tipos de razões culturais para continuar comendo vitela à parmegiana – que tem sido uma iguaria por muito tempo. E tem um ótimo sabor. As pessoas ganham a vida criando, cozinhando e servindo vitela. No entanto, se você se inclinar na direção dos direitos animais, como eu faço, pode parecer muito fácil descartar todas essas defesas em relação à carne de vitela – apontando [inclusive] que a escravidão foi culturalmente apoiada e que as pessoas ganharam dinheiro com o Holocausto. Mas a grande maioria das pessoas simplesmente não equipara gaiolas para bezerros com campos de concentração, então, ao comparar o tratamento dado aos animais aos horrores que humanos infligiram uns aos outros pode ser moralmente válido, mas pode não parecer para muitas das pessoas que você precisa convencer disso.

Mas é muito difícil entender o modo como os bezerros são criados sem dizer que a dor dos animais é moralmente insignificante. Essa posição é uma espécie de antropocentrismo ortodoxo: as pessoas são o centro de todas as coisas e os seres na periferia disso tudo não contam muito. Curiosamente, até mesmo as pessoas que creem nesse tipo de coisa geralmente não acreditam nisso completamente; e é essa falta de completude que deixa uma abertura para a outra perspectiva. Por exemplo: um bom número de consumidores de vitela à parmegiana (ou servidores) sem dúvida têm seus próprios animais de estimação favoritos que não sonham em tratar da maneira como os bezerros são tratados: animais cujo bem-estar, felicidade e prazer contam para alguma coisa. Nisso há uma inconsistência fundamental que cria um profundo buraco lógico do qual é muito difícil sair.

Então, quando olhamos para a vitela – e, na verdade, para o consumo de carne em geral – o que temos é uma prática social profundamente arraigada que é, quando examinada, sem qualquer justificativa moral. O que o consumidor de vitela pode dizer em resposta? Não muito, e é por isso que sua resposta geralmente é o riso, o desprezo, o ato de ignorar a verdade, isso quando não assistem os filmes sobre as fazendas industriais e os matadouros e dizem: “Isso é apenas como as coisas são feitas aqui”, e repetem: “Isso tem um gosto bom”, como se isso fosse razão suficiente para continuar comendo. Geralmente, há muita atitude, mas pouca discussão. Se o feliz consumidor de carne não quiser se envolver seriamente com as alegações de um defensor dos direitos animais, o que devemos fazer?

Bem, podemos começar reconhecendo que o fracasso moral do moderno consumo de carne não é o fim da história. Há muitas coisas que fazemos que não se somam moralmente. Certamente tenho minhas próprias fraquezas éticas. De fato, todo ativista dos direitos animais vive de uma maneira que prejudica os animais. Esses ativistas dirigem seus carros [elétricos] que se ligam à rede elétrica, contribuindo com o aquecimento global que erradica inúmeras espécies. Até mesmo sua dieta totalmente vegana envolve agricultura em grande escala que promove o deslocamento de animais. E quando seus filhos estão doentes eles não rejeitam medicamentos “fora de princípio” que foram desenvolvidos por meio de testes em animais.

Uma das coisas que distingue a ética em uma época de aquecimento global é que não podemos deixar de ser parte do problema. Certamente seremos [problematicamente] menos importantes se deixarmos de comer produtos de origem animal e nos recusarmos a comprar produtos que foram testados em animais. Mas enquanto integrarmos essa sociedade, estaremos nesse limite.

E a triste verdade é que muitas pessoas que apreciam profundamente os animais podem, ao mesmo tempo, ser indiferentes a outras pessoas e a outras preocupações morais importantes. Elas podem pensar e falar com humanos que comem animais com ódio e violência verbal. Elas podem se refugiar em um senso reconfortante de superioridade, analisando incessantemente o inventário moral das falhas de todos os outros enquanto nunca examinam seriamente as suas próprias falhas.

Essa linha de pensamento não elimina as tensões entre os “dois lados”. No entanto, permite que o ativista dos direitos animais, crítico moralmente, se aproxime do seu adversário com uma postura menos arrogante e mais modesta. Poderíamos também ser capazes de ver que uma melhora parcial é melhor do que nenhuma melhora. Em alguns países, houve um acordo sobre restrições legais sobre como você pode criar carne de vitela e em outros assuntos relacionados a animais também. Se essas novas leis não são o suficiente para o vegetariano moral, entendo completamente. Mas a vida moral é, muitas vezes, talvez tipicamente, não um caso de “suficiência”. Geralmente é, na melhor das hipóteses, um caso de “buscar melhorias”.

Agora vamos considerar um segundo cenário: seu filho nasceu com fibrose cística (FC), uma condição genética geralmente fatal em que a ausência de uma enzima leva a problemas pulmonares e digestivos. Enquanto isso costumava significar uma morte prematura para todos os portadores, pesquisas recentes permitiram que muitos vivessem por seus 30 e 40 anos.

Se fosse seu filho, condenado a uma vida de infecções pulmonares frequentes, ciclos de tosses aparentemente intermináveis, e um tratamento contínuo de fisioterapia respiratória para limpar o muco de FC distintamente espesso e imutável, você se importaria com quantos animais de laboratório estão morrendo na busca pela cura? Ou mesmo na busca de um tratamento que permitirá ao seu filho ter uma vida um pouco mais longa e tolerável? Em 40 anos, a idade média de portadores de FC passou de dez para 37. É isso que você está contando, não o número de ratos que foram usados para desenvolver tratamentos e, potencialmente, uma cura para o seu filho.

Se comer carne, em especial vitela, é uma imoral autoindulgência, o uso de animais para pesquisas para curar doenças mortais é outra coisa. Aqui temos o que pelo menos parece ser uma escolha clara: permitir que uma criança sofra e morra jovem, ou faça o que precisa ser feito pelo humano às custas dos animais. Se você é esse pai – ou a própria criança – você acha que vai dar mais atenção aos relatos sobre o sofrimento animal?

É claro que o defensor dos direitos animais pode simplesmente dizer que não há razão para preferir o humano ao animal, ou levantar questões de grau e escopo. Além disso, e mais poderosamente, pode-se argumentar que usar animais para pesquisa custa dinheiro, e que o dinheiro para os cuidados de saúde é limitado e que há muitas outras coisas que podemos fazer com esse dinheiro que são boas para a saúde das pessoas e não envolvem crueldade contra os animais. Podemos melhorar o meio ambiente para que menos pessoas tenham câncer em decorrência da poluição; podemos ensinar as pessoas e terem melhores hábitos de saúde; para que as doenças que surgem a partir dos seus estilos de vida diminuam; podemos encorajar as pessoas a não comerem alimentos de origem animal, uma vez que contribuem muito para o surgimento de problemas de saúde. Essas medidas não prejudicarão os animais; na verdade, elas ajudarão tanto os animais quanto as pessoas, uma solução vantajosa para todos.

No entanto, mesmo os melhores regimes ambientais e toda uma população fazendo ioga, meditando e comendo apenas saladas, arroz integral e lentilhas cozidas não acabarão com problemas genéticos de saúde como a FC. Ainda teremos o pai desesperado e a criança doente, pessoas com uma doença terrível e os animais cujas vidas desejaremos sacrificar para encontrar melhores tratamentos.

Talvez, mais uma vez, a única abordagem com uma chance razoável de sucesso seja tentar melhorar as coisas. Primeiro, pare com todos os estúpidos, inúteis e insanos experimentos com animais: os que jogam cosméticos nos olhos dos coelhos até ficarem cegos, ou que esmagam as cabeças dos macacos em paredes para confirmar se cabeças esmagadas contra uma parede ferem o cérebro; ou aquele teste de quanto tempo leva para os animais enlouquecerem, sujeitando-os aleatoriamente a choques elétricos.

E quanto aos experimentos de fibrose cística? Bem, talvez pudéssemos concordar em falar sobre eles mais tarde. Há muita coisa que pode ser feita para limitar ou eliminar experimentos com animais antes de pararmos a pesquisa destinada a curar doenças letais. Em uma vida moral, muitas vezes nos deparamos com escolhas difíceis. Às vezes, essas são escolhas realmente falsas, e devemos nos certificar de que sabemos quem ou o que disse: “Escolha entre A e B.”

Talvez haja uma opção C que funcione para todos nós – como as medidas de saúde holísticas e preventivas descritas acima. Ainda assim, às vezes, e infelizmente, há casos em que não há saída para alternativas dolorosas. Nós ainda teremos que lidar com a dor nesta vida, assim como todos os outros, e nenhuma quantidade de bondade moral jamais levará isso embora. Tipos que defendem “Eu posso fazer qualquer coisa que eu quiser com os animais” têm seus próprios animais de estimação, assim como há defensores dos direitos animais que têm seus filhos e outras pessoas que privilegiariam em vez dos animais. Essa é uma das razões pelas quais essa questão dos experimentos com animais é muito difícil, e exatamente onde um acordo entre diferenças reais pode ser alcançado.

A verdade prática de qualquer reivindicação moral – direitos dos animais, das mulheres, casamento gay, e o que devemos às pessoas que passam fome – é tão poderosa quanto o nível de desenvolvimento moral das pessoas com quem estamos conversando. Não importa quão correta seja uma afirmação moral, se a humanidade não estiver pronta para aceitar a sua verdade, ela não terá consequências sociais. Pode ser que, de acordo com o pleno respeito pelos animais, isso seja apenas algo que não é psicologicamente e, portanto, moralmente possível agora. A cada minuto de cada dia a nossa civilização pode de fato estar cometendo crimes monstruosos, e talvez os angustiados e “extremistas” gritos dos ativistas dos direitos animais são exatamente o que precisamos para despertar. No entanto, suspeito que, neste caso, quaisquer mudanças que façamos serão necessariamente graduais, mais baseadas na compreensão silenciosa e em lentas e moderadas melhorias do que em rejeições morais por atacado.

Provavelmente, alguns ativistas dos direitos animais, e talvez até mesmo os próprios animais, pensem que isso é uma desculpa covarde diante do massacre em massa. Mas devemos lembrar que a longa luta pela igualdade social e legal das mulheres está longe de terminar; e enquanto os escravos foram libertados em 1865 [nos Estados Unidos], mais de um século depois, os afro-americanos ainda lutavam por direitos civis básicos. Com todas as mudanças importantes que ocorreram, é difícil saber quanto foi conquistado através de raiva, violência verbal e leis coercivas, e quanto foi conquistado pelo paciente trabalho de conversação moral – em que fazemos o melhor que podemos para entender o “outro”, apesar do amargo desacordo. Talvez refletir sobre essa história nos ajude a ficar um pouco satisfeitos com ganhos limitados que tornam a vida um pouco melhor, em vez de nos apegarmos com raiva e amargura a um ideal impossível [em curto prazo]. Goste ou não, grandes mudanças são lentas.

Enquanto isso, aqueles de nós que prestam atenção [a essa realidade], podem pelo menos reconhecer o quanto isso nos incomoda. Podemos nos lamentar em relação aos limites morais de outras pessoas, sabendo que por nós mesmos já temos muitos limites. Podemos nos perguntar qual é a diferença entre o golden retriever que dorme em nossa cama à noite e o bacon que comemos no café da manhã. E se estamos realmente dispostos a sentir toda a gama e intensidade de nossas emoções sobre os nossos primos animais, na tentativa de assimilar a sua dor e a nossa responsabilidade sobre isso, e desenvolver a compaixão por eles e ao mesmo tempo por nossos companheiros humanos, quem sabe no que isso pode resultar? Não o suficiente, com certeza. Mas claramente o suficiente para fazer a diferença.

Referência

Gottlieb, Roger S. Can We Talk (about Animal Rights)? Harvard Divinity Bulletin. Harvard University (2014).





Sobre crianças que são obrigadas a se alimentarem de animais

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Não conheço história de animal que sentiu prazer em tornar-se alimento

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Natalja Nordman e Anna Barykova e suas contribuições ao vegetarianismo russo

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As escritoras Natalja Borísovna Nordman-Severova e Anna Pavlovna Barykova foram duas importantes vozes do vegetarianismo russo no final do século 19 e início do século 20. Elas realizaram um trabalho visando a inclusão do vegetarianismo no sistema educacional russo. Natalja, que também era sufragista, foi a responsável por apresentar o vegetarianismo ao famoso pintor realista russo Ilya Repin, que logo se tornou vegetariano.

Em 1911, ela publicou o livro “Povarennaia kniga dlia golodaiushchikh” ou “Livro de Receitas para Famintos”. A escritora fazia o possível para mostrar os benefícios e a importância do vegetarianismo, tanto que em sua casa servia apenas comida vegetariana. Até mesmo quem não era vegetariano ficava extasiado com os pratos servidos. Por sua casa, passaram artistas e intelectuais como Maxim Gorky, Vladimir Mayakovsky, Vasily Polenov, Isaak Brodsky, Filipp Malyavin, Vladimir Bekhterev, Nicolai Fechin e Aleksandr Kuprin.

Já a contribuição de Anna Barykova diz respeito principalmente às questões éticas do tratamento e adoções de animais na Rússia do final do século 19. Além de divulgar os benefícios da alimentação vegetariana e discutir as implicações éticas do consumo de animais em instituições de ensino, Barykova traduziu para o russo e publicou o poema “Queen Mab: A Philosophical Poem; With Notes”, do escritor vegetariano inglês Percy Bysshe Shelley, lançado em 1813.

Ela Também traduziu cinco obras do poeta e dramaturgo inglês John Gay que levanta questionamentos sobre a crueldade e a imoralidade humana em relação aos animais: “Pythagoras and the Countryman”, “The Beggar’s Opera,” “The Wild Boar and the Ram,” “The Court of Death” e “The Philosopher and the Pheasants.”

Referências

Notaker, Henry. A History of Cookbooks: From Kitchen to Page Over Seven Centuries.  Páginas 231-232. California Studies in Food and Culture (Book 64). University of California Press (2017).

Shulga, Alexey. The History of Russian Veganism: In A Nutshell. Vegan Publishers (2015).





Qual é a nossa dieta natural?

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Collura: “Dietas vegetarianas e veganas podem proporcionar uma vida inteira de nutrição saudável”

Collura: “Curiosamente, os defensores da dieta paleo enfatizam a origem recente (nos últimos 100 anos ou mais) das principais doenças que marcaram a civilização ocidental; no entanto, a agricultura tem muitos milhares de anos” (Arte e Foto: Zdenezk Burian/Veganuary)

Em 2004, o proeminente biólogo Randall Collura, que tem doutorado em biologia molecular e biologia antropológica pela Universidade Harvard, publicou um ensaio intitulado “What is our natural diet and should we really care?” A obra integra o livro “Food for Thought: The Debate Over Eating Meat”, editado pelo conceituado filósofo moral Steve Sapontzis, especialista em direitos animais e ética ambiental com doutorado em filosofia pela Universidade Yale.

No ensaio, Collura, que dedicou uma parcela de sua vida a estudar sobre a evolução das dietas humanas, defende que não existe uma dieta natural humana, mas sim diversas que foram colocadas em prática por inúmeros fatores – muitas vezes desconsiderados. Também critica a ideia de um retorno a um “estado natural”, defendendo que esse “estado natural” nunca existiu na singularidade, já que as sociedades humanas, e aquelas que deram-lhe origem nunca foram uniformes.

Além disso, destaca que estamos distantes de nossos ancestrais há milhares e até milhões de anos – e não há como ignorar as transformações contextuais. Logo, no seu entendimento, não faz sentido o ser humano crer, por exemplo, que a alimentação de seus ancestrais seria a salvação para problemas atuais (chamando isso de soluções simples para problemas complexos) – e ignorando a ideia de uma “tábua de salvação”. Ele aponta falhas em dietas como a paleolítica que culpa o surgimento da agricultura como responsável pelo declínio da saúde humana. “Curiosamente, os defensores da dieta paleo enfatizam a origem recente (nos últimos 100 anos ou mais) das principais doenças que marcaram a civilização ocidental; no entanto, a agricultura tem muitos milhares de anos. Se os alimentos neolíticos eram os culpados por essas doenças, teríamos uma história de vários mil anos dessas doenças”, argumenta.

Collura vai além – aponta inconsistências em relação a todas as dietas radicais. E não só isso, discute o mito do “Jardim do Éden”, o anseio do ser humano que, espelhando-se romanticamente no passado, espera reencontrar a dieta perfeita, como se isso permitisse uma proximidade com a ideia de um paraíso terreno, puro, livre de moléstias. Arrogância dietética e a crença em uma dieta mitológica são vistas por ele como inimigas do bom senso. O biólogo também cita a contradição de quem critica veganos por suplementarem B12, mas consome muitos alimentos enriquecidos com vitaminas – ignorando que “suplementa” diariamente sem perceber ou reconhecer. Randall Collura enfatiza ainda que dietas vegetarianas e veganas podem proporcionar uma vida inteira de nutrição saudável:

Qual é a nossa dieta natural? Essa tem sido uma questão central no movimento vegetariano dos últimos 150 anos ou mais. Autores vegetarianos exploraram a questão por meio de anatomia comparativa e fisiologia de diversificada sofisticação. A conclusão tem sido geralmente de que os seres humanos são mais adequados a uma dieta vegetariana, o que não surge como uma grande surpresa. As evidências apresentadas, no entanto, nunca foram definitivas e acredito que nunca será. Implícita nessa questão é a crença de que nossa dieta natural certamente seria a melhor dieta para nós.

Natural é igual a melhor – não é mesmo? Talvez nossos mitos enuviaram nosso pensamento. Mesmo se pudéssemos determinar nossa verdadeira dieta natural, seríamos capazes de encontrar os alimentos que a compõe? Nós não os encontramos em nossos supermercados locais – nós mudamos nossos alimentos tão dramaticamente quanto mudamos nossos hábitos alimentares. Deveríamos mesmo estar fazendo essa pergunta em primeiro lugar? Ou deveríamos perguntar, em vez disso, qual seria a melhor dieta para nós hoje, com nosso estilo de vida atual e nossas escolhas alimentares, e esquecer sobre a mítica (natural) dieta perfeita já perdida? Vamos explorar a questão.

O Jardim do Éden é um mito poderoso e difundido pelo menos na cultura ocidental. Alusões a esse mito estão em toda parte. Cobras, maçãs, folhas de figueira e o conceito de um paraíso tranquilo ou da “Idade do Ouro” estão tão enraizados na nossa consciência coletiva que são tomados como referência. A ideia é estendida à nossa história evolutiva também. Vivíamos em uma floresta paradisíaca até que alguma coisa (mudança climática?) nos forçou a nos mudarmos para a savana para cuidarmos de nós mesmos até perdermos a nossa inocência.

Talvez esse mito ressoe tão universalmente porque, em parte, a história espelha nosso próprio desenvolvimento como indivíduos. Somos nutridos enquanto crescemos em um lugar seguro onde somos assistidos por seres poderosos com quem partilhamos um interesse emocional. Eventualmente, é esperado que deixemos esse bom lar para cuidarmos de nós mesmos (e isso envolve a perda da nossa inocência). Até mesmo o nosso conto científico da evolução da vida na Terra é contado como um mito da criação, conforme a narrativa sempre começa e termina com a nossa evolução.

Essa mitologia faz com que estejamos abertos a um chamado “retorno à natureza”, para recuperar a “sabedoria antiga” e viver uma vida mais primitiva. A seguinte citação é de um livro publicado em 1896 que defende uma dieta crudívora, baseada principalmente em frutas e castanhas; o autor é Adolf Just, um naturopata alemão:

“No paraíso, o homem originalmente viveu livre do pecado e da doença, em perpétua alegria e límpida felicidade. Mas o homem perdeu o paraíso – foi expulso de lá. Os mitos antigos, especialmente os mitos sobre o paraíso, que encontramos em todos os povos civilizados, incorporam as mais profundas verdades sobre o estado original do homem e a história primitiva da humanidade.”

Como o mito do “Jardim do Éden” se enquadra à realidade? Não muito bem. Os últimos 150 anos ou mais trouxeram uma revolução na compreensão científica sobre os nossos parentes macacos mais próximos e sobre a nossa verdadeira história evolutiva. Até os anos 1970, nossa associação com os primatas era consideravelmente incerta, embora sempre tenhamos sido considerados da mesma família dos grandes símios. Desde então, nossa estreita relação com os chimpanzés foi descoberta, sem qualquer dúvida. É muito provável que os ancestrais dos modernos seres humanos estivessem vivendo (e provavelmente parecendo) como os chimpanzés de hoje, e isto há apenas seis milhões de anos.

Enquanto continuamos a estudar cuidadosamente nossos grandes primos, “a selva paradisíaca” que habitamos há muito tempo começa a parecer um pouco mais desagradável do que amistosa.  No habitat do macaco moderno as frutas são abundantes em algumas épocas, mas bastante escassas em outras. As frutas que estão disponíveis não estão de acordo com os nossos gostos domésticos – são bem menos doces e muito mais rica em fibras do que aquelas que encontramos em caixas nos supermercados. Chimpanzés comuns fazem guerra contra os grupos vizinhos – matam os machos e muitas vezes ferem as fêmeas.

Macacos carregam parasitas, sofrem por causa de ossos quebrados e morrem de doenças que também afetam os seres humanos. Agressão e infanticídio são realidades desagradáveis de muitos primatas. Sob qualquer avaliação, estamos muito melhor ou temos potencial para sermos muito melhores do que nossos ancestrais e parentes mais próximos. O mito, no entanto, é muitas vezes mais poderoso do que a verdade – ou talvez seja apenas mais atrativo enquanto crença. A primeira coisa que precisamos fazer para olhar claramente esta questão é abandonar o mito do “Jardim do Éden”.

Como os autores vegetarianos analisaram nossa dieta no passado? Pegue um livro sobre vegetarianismo a partir da década de 1880 ou da década de 1980 e você provavelmente encontrará um capítulo sobre a nossa dieta natural. De fato, provavelmente não haverá muita diferença entre esses capítulos escritos com 100 anos de diferença. A lógica é simples: comparando nossa anatomia e fisiologia com a de outros animais, devemos ser capazes de determinar a dieta mais adequada para nós. Ouvi os mesmos argumentos feitos em um contexto evolucionário ou bíblico.

Chame-o de “determinismo físico dietético”. O foco geralmente é a forma e o tamanho do dente, comprimento e complexidade do trato digestivo e algumas outras características. Somos mais como os carnívoros ou como os herbívoros? E quanto aos onívoros? Humanos são classificadores – gostamos de colocar as coisas em categorias – mas quão rígidas são essas designações? No mundo natural, não há divisões rígidas como “os carnívoros”. Não é que não haja grupos naturais formados por linhas de descendência, mas esses grupos não são necessariamente homogêneos.

Além disso, os animais substituem o que comem ao longo do tempo. E eles devem fazer isso. Porque todos os mamíferos derivam de um ancestral comum, mudanças na dieta devem ter ocorrido em muitos pontos na evolução dos mamíferos, incluindo aqueles que deram origem aos nomes. É claro que não somos carnívoros como os gatos – meticulosamente adaptados a uma dieta de carne. Poucos argumentam que somos, no entanto. É claro que não somos herbívoros como os ruminantes artiodáctilos (isto é, as vacas), também. Eles têm um sistema digestivo evoluído que, com a ajuda de micróbios que digerem celulose, podem processar forragens que outros mamíferos não podem.

Curiosamente, um grupo de macacos do Velho Mundo (e uma ave do Novo Mundo) desenvolveram um sistema similar de forma independente. Outros mamíferos, incluindo alguns primatas, digerem alguns alimentos fibrosos no intestino grosso.  O intestino posterior dos humanos não parece ser sido ampliado para esse propósito. Na verdade, nosso sistema digestivo não parece muito especializado. Nossos dentes também não ajudam muito. Uma coisa que define humanos e nossos ancestrais hominídeos (espécies que evoluíram desde nossa divisão com os chimpanzés) são os caninos reduzidos.

Um rápido olhar para os grandes símios (chimpanzés, gorilas e orangotangos) mostra caninos bem grandes, ainda assim eles são supostamente nossos primos vegetarianos. Acontece que esses dentes são usados em competições entre espécies – machos competindo e às vezes brigando por fêmeas. E se os machos não lutam pelas fêmeas (ou seja, formam pares), os caninos grandes podem ser desnecessários. Nossos dentes podem ter mais a dizer sobre nosso sistema social do que nossa dieta.  O ponto de partida é que nada sobre a nossa anatomia ou fisiologia dita uma dieta vegetariana (ou a exclui também). Inclusive para o determinismo físico dietético.

E as dietas dos nossos parentes próximos? Estudos sobre os hábitos alimentares dos grandes primatas têm claramente mostrado que os nossos parentes não humanos mais próximos sobrevivem primariamente de vegetais. Mas eles são realmente vegetarianos? É importante ter em mente que o vegetarianismo é um conceito humano. Outros animais podem seguir dietas à base de plantas, mas eles não são vegetarianos no sentido de evitar intencionalmente alimentos de origem animal. Por exemplo, muitos primatas consomem insetos quando estão disponíveis. Chimpanzés adoram cupins e são especialistas em desenvolver ferramentas para capturá-los.

Formigas e vermes também estão entre os alimentos preferidos dos macacos. Chimpanzés comuns também caçam e comem mamíferos, embora isso seja mais raro. Os chimpanzés pigmeus (bonobos) não caçam tanto, mas ainda ocasionalmente comem carne. Esta espécie, tão relacionada aos humanos quanto os chimpanzés comuns, também geralmente é menos agressiva. Ambos os chimpanzés preferem frutas maduras quando estão disponíveis. Em geral, nossos parentes mais próximos têm dietas que são baseadas principalmente em vegetais, mas nenhum deles é vegetariano no nosso sentido da palavra.

E quanto à comida na evolução humana? Desde que aprendemos mais sobre a nossa história evolutiva, autores modernos que defendem várias formas de alimentação ampliaram as comparações dietéticas para incluir espécies e dietas do nosso passado. Ao longo dos últimos seis milhões de anos, nossos ancestrais existiram em pequenos grupos nômades que viviam da caça e da coleta. A quantidade de carne e outros alimentos de origem animal provavelmente subiu de forma gradual até se tornar uma parte significativa de algumas dietas dos nossos antepassados.

Como significativa é uma questão em aberto, opiniões podem dizer mais sobre o pensamento atual em relação à evolução humana do que sobre qualquer estimativa científica real. Essa pilha de ossos com marcas de ferramentas de pedras corresponde a uma refeição ou a um completo estilo de vida? Como poderíamos dizer se a caça era algo que era feito três vezes por semana ou três vezes por ano? Recolher e comer um pedaço de fruta ou desenterrar um tubérculo não deixa registros de traços de fósseis.

Reconstruir dietas antigas não é tarefa fácil. Na verdade, não é tão fácil determinar o que as pessoas estão comendo hoje, seja nas sociedades contemporâneas de caçadores-coletores ou na nossa própria. As dietas mudam frequentemente numa base sazonal e para obter uma imagem completa, as pesquisas precisam ser feitas ao longo do ano. As dietas podem mudar até de ano para ano dependendo da precipitação de chuvas, disponibilidade e outros fatores. Uma análise mundial recente das dietas dos caçadores-coletores apontou uma proporção relativamente alta de grupos de alimentos de origem animal para mais da metade das necessidades energéticas, independente de latitude.

No entanto, o registro arqueológico mostra claramente mudanças substanciais nas capacidades tecnológicas dos nossos antepassados há cerca de 50 mil anos. Como poderia a redução na capacidade de caça do arcaico Homo sapiens ou do Homo erectus alterarem a relação de alimentos caçados vs. alimentos coletados? Se pudéssemos voltar no tempo e pegar uma amostragem das sociedades humanas espalhadas por todo o globo há 30 mil anos atrás e até 90 mil anos atrás – olhando para o que eles comiam, como viviam e morriam – tenho certeza de que encontraríamos uma enorme quantidade de variabilidade.

Mudanças na dieta ocorridas durante a maior parte da evolução humana foram graduais, embora certamente não insignificantes. As mudanças que ocorreram com a invenção da agricultura contudo, tanto em termos de dieta como de estilo de vida, foram rápidas e sofreram guinadas dramáticas em relação a tudo que existia anteriormente. De certa forma, nossas dietas provavelmente se tornaram mais baseadas em plantas e menos dependente de alimentos de origem animal (de acordo com a disponibilidade de milhões de anos atrás).

No entanto, os grãos que se tornaram a base das dietas neolíticas (Nova Idade da Pedra: após cerca de dez mil anos atrás) foram introduzidas pouco antes de sua domesticação. Mudanças nos níveis de atividade, mobilidade e densidade populacional também foram pungentes partindo de um estilo de vida de pequenos grupos de caçadores-coletores que se espalharam pelo mundo no período Paleolítico (Período: antes de 10 mil anos atrás).

Os últimos cem anos trouxeram mudanças ainda mais dramáticas para as dietas e os estilos de vida das sociedades ocidentalizadas. Agricultura mecanizada e outros aspectos da industrialização reduziram ainda mais o gasto médio diário de energia (exercícios). As redes globais de comércio garantem que plantas e animais domesticados em uma parte do mundo sejam criados em climas semelhantes no mundo todo. O Mundo Novo tem domesticado tanto o milho e a batata que são cultivados na África e na Europa quanto a Ásia domestica o arroz criado no Novo Mundo.

Muitas dessas mudanças são benéficas; contudo, algumas reduzem drasticamente a qualidade da dieta. Refinamentos em técnicas de fresagem que separam eficientemente o farelo e o germe do trigo resultam em uma farinha que pode durar mais tempo nas gôndolas, mas com menor valor nutritivo. A produção de açúcar refinado de cana e beterraba também alterou drasticamente a relação entre nutrientes e calorias. Agora é possível consumir uma dieta adequada em total de calorias, mas quase completamente desprovida de nutrientes. Outra mudança substancial nas dietas ocidentais foi a inclusão de maiores quantidades de carne proveniente de animais domesticados, que tende a ser muito maior em gordura do que a carne proveniente da caça selvagem.

Então, até onde devemos ir para encontrar a nossa “dieta natural”? Cem anos, 500 anos, 20 mil anos, mais? Defensores da dieta paleo (que inclui apenas alimentos disponíveis antes do surgimento da agricultura) diriam que os seres humanos modernos têm a genética e constituição dos nossos antepassados paleolíticos, mas dietas e estilos de vida que são muito diferentes dos que eles tinham. As “doenças da civilização” – o que inclui aterosclerose, hipertensão, diabetes, câncer, osteoporose, perda auditiva, cáries, outras doenças e obesidade – são o resultado da discordância entre a nossa antiga genética e nossos estilos de vida e dietas modernas – de acordo com esses defensores. Isso pressupõe que não nos adaptamos a esses novos estilos de vida e dietas.

Mas quanto tempo leva para se adaptar a uma nova dieta? O consenso emergente sobre a evolução genética é de grande variabilidade nas taxas de mudança. Nossos genes são uma colcha de retalhos de notável estabilidade e mudanças incrivelmente rápidas, dependendo das pressões seletivas nos genes individuais. Embora seja verdade que compartilhamos uma grande porcentagem de nossa composição genética com nossos ancestrais e outras espécies de primatas, assim como todos os outros animais, isso de forma alguma nega a importância das distinções genéticas.

As diferenças genéticas entre chimpanzés e nós mesmos são muito pequenas, mas as manifestações dessas diferenças são bem significativas. Além disso, mudanças na dieta parecem ser capazes de induzir mudanças evolutivas devido à importância central da dieta na sobrevivência das espécies. Um exemplo é a retenção da atuação da lactase (para digerir açúcar do leite ou lactose) em adultos cujos antepassados utilizaram o leite animal como fonte de alimento. Mudanças genéticas só começaram a ser investigadas recentemente e podem ter havido muitas adaptações genéticas em relação às mudanças dietéticas que ocorreram nos últimos 10 mil anos.

É muito menos provável que as mudanças na dieta e no estilo de vida que ocorreram desde a revolução industrial tiveram impacto significativo em nossa constituição genética. Curiosamente, os defensores da dieta paleo enfatizam a origem recente (nos últimos 100 anos ou mais) das principais doenças que marcaram a civilização ocidental; no entanto, a agricultura tem muitos milhares de anos. Se os alimentos neolíticos eram culpados por essas doenças, teríamos uma história de vários mil anos dessas doenças.

Por que autores que promovem a dieta paleo sugerem um retorno a uma dieta de mais de 10 mil anos para a prescrição de doenças que se tornaram um grande problema apenas desde a revolução industrial? Não há razões convincentes para começar a comer como um “homem das cavernas”. Talvez então, em vez de uma receita paleolítica para as doenças da moderna civilização, precisemos de uma receita neolítica. Ao contrário de questões relativas à proporção de alimentos de origem vegetal ou de origem animal nas dietas de nossos distantes ancestrais, é uma tarefa mais fácil realizar escolhas nos baseando em mudanças que ocorreram tão recentemente que temos registros escritos delas.

A dieta neolítica seria baseada em grãos integrais com uma proporção muito maior de alimentos não refinados, e muito menos carne e açúcar (a dieta macrobiótica, bem como dietas vegetarianas integrais poderiam ser consideradas neolíticas). Mudanças no estilo de vida incluem maiores quantidades de exercícios – embora não ao nível dos caçadores-coletores contemporâneos. Não estou sugerindo que todos os aspectos da vida neolítica devem ser replicados. No entanto, existem muitos aspectos da ecologia industrial que devem ser questionados. O generalizado uso de pesticidas, herbicidas, conservantes e outros produtos químicos em nossa comida têm consequências a longo prazo que são pouco consideradas e estudadas. Muitos desses têm benefícios incontestados, mas sem uma verdadeira compreensão dos custos – e decisões apropriadas sobre seu uso nunca podem ser tomadas.

Outro movimento dietético popular que olha para trás em sua busca por uma dieta perfeita é o crudivorismo. Os defensores das dietas crudívoras gostam de dizer (com escárnio) que os humanos modernos são os únicos animais que cozinham a comida. Quanto tempo faz que os humanos cozinham a comida é ainda uma questão ativa na antropologia. É seguro dizer que em algum ponto na evolução humana começamos a cozinhar alimentos e antes disso nossas dietas eram todas cruas. Essa mudança pode ter sido tão antiga quanto a origem do Homo erectus (1,8 milhão de anos atrás) ou tão tarde quanto a origem do Homo sapiens (40-100 mil anos atrás).

De qualquer forma, não há provas de que começar a comer alimentos cozidos foi prejudicial para nós – muito pelo contrário, se ponderarmos relatos imparciais que os humanos estão fazendo muito bem em comparação com os nossos parentes macacos que comem alimentos crus. O atual movimento crudívoro é um desdobramento do movimento vegetariano, e comer cru é por vezes considerado o “próximo nível dietético”. Onde exatamente essa progressão pode levar não está realmente claro. “Respiratorianismo” talvez? De qualquer forma, pode ser instrutivo olhar para um assunto do movimento crudívoro – enzimas alimentares.

O conceito de enzima alimentar pode ser resumido da seguinte forma: As células vivas contêm enzimas que mediam todas as atividades dentro da célula. Alimentos crus, incluindo aqueles que foram aquecidos, mas não acima de uma temperatura crítica (essa temperatura varia de autor para autor) mantêm suas enzimas intactas. Estas enzimas ativas, obtidas a partir de alimentos crus, são um componente essencial da nossa dieta. Ao consumir alimentos que contêm enzimas ativas, nós conservamos nosso próprio suprimento de enzimas que pode então ser utilizado para funções celulares importantes, em vez da digestão.

As enzimas alimentares podem também ser absorvidas, redistribuídas e usadas em todo o corpo. Há quase uma importância de qualidade mística atribuída às enzimas. Dizem que elas contêm “a vida e a força”, e isso é destruído pelo cozimento (ou seja, pelo calor). É por isso que as dietas de alimentos crus também são chamadas de dietas de “comida viva”. Infelizmente, não há mérito para esse conceito, e como qualquer reflexivo estudante de biologia do ensino médio poderia provar, de forma alguma enzimas ativas em alimentos poderiam ser um componente dietético essencial.

O conceito de enzima alimentar começa com uma importante observação sobre a bioquímica das células vivas; o papel central das enzimas na mediação das reações bioquímicas. Por enquanto, tudo bem; mas um fato crucial sobre as enzimas é encoberto nesse argumento – as enzimas são MUITO específicas. Existem milhares de enzimas diferentes em uma típica célula, cada uma mediando uma reação bioquímica específica. Enzimas são proteínas, muitas vezes trabalhando em conjunto com íons de metal e cofatores. Proteínas são feitas de longas cadeias de cerca de 20 aminoácidos diferentes que estão dispostos em uma ordem específica. Essa ordem é ditada pela sequência de DNA que codifica a proteína.

A atividade das enzimas específicas é regulada pela produção de proteína quando necessária e pela complexa interação de enzimas que regulam as atividades de outras enzimas. O fato importante é que as enzimas não são intercambiáveis. Especificamente, enzimas de alimentos, não importando quão ativas, seriam inúteis para nós como enzimas porque elas foram produzidas para mediar as atividades das células na planta (ou nos animais) que se tornaram nossos alimentos. Enzimas necessárias para produzir um broto de grama de trigo são muito diferentes daquelas necessárias para produzir células de sangue vermelho.

Em qualquer caso, enzimas e outras proteínas estruturais não passam intactas por nosso sistema digestivo. Todo o propósito do sistema digestivo é quebrar macromoléculas para os seus componentes por absorção. As proteínas são quebradas em aminoácidos, amidos se convertem em açúcares e lipídios em ácidos graxos. Esses componentes são então transportados para as nossas células para se tornarem os blocos de construção das proteínas (incluindo enzimas), carboidratos e lipídios que requeremos em nossas células. Isso é biologia muito básica.

Além disso, não há nada místico sobre as enzimas. Algumas operam em altas temperaturas, e outras preferencialmente em baixas temperaturas. Algumas em pH alto, outras em Ph baixo. Algumas são muito instáveis e vão quebrar rapidamente enquanto outras (como a lisozima) podem ser fervidas em ácido e, em seguida, funcionam muito bem (na verdade é assim que os pesquisadores purificam a lisozima). Estas diferenças funcionais são resultado de pressões evolutivas específicas ao longo de períodos de tempo. Agora chega de enzimas.

Para ser perfeitamente claro, não há nada de errado com alimentos crus. Frutas frescas e vegetais são excelentes fontes de muitos nutrientes e até mesmo os guias nutricionais mais conservadores promovem o seu consumo. Por outro lado, cozinhar não deve ser considerado um pecado. Cozinhar destrói alguns nutrientes, mas torna outros mais disponíveis. Também garante uma ampla variedade de alimentos comestíveis que são quase inúteis como alimentos. Os seres humanos se saíram muito bem seguindo uma dieta baseada na mistura de alimentos crus e cozidos. Então, por que as pessoas são atraídas por dietas extremas, como a dieta crudívora ou a dieta paleolítica?

Parte é a mentalidade do “Retorno ao Éden”, delineada acima: soluções simples para problemas complexos. Testemunhos são outro fator poderoso para convencer as pessoas a mudarem suas dietas. Eles geralmente envolvem curas milagrosas de doenças graves e potencialmente fatais. E se alguém diz que estavam perto da morte e uma certa dieta os curou, outros tomam nota. Dessa forma, essas dietas assumem um caráter quase religioso e os seguidores desenvolvem um tipo de fé e fervor. Testemunhos não são provas científicas, no entanto, e as pessoas que promovem dietas completamente diferentes, muitas vezes apresentam depoimentos que são virtualmente intercambiáveis (talvez qualquer mudança de uma dieta de coca-cola e “junk food” seja uma boa mudança em potencial).

Se metade de um por cento das pessoas que tentam uma determinada dieta têm uma melhoria acentuada na saúde e os outros não mostram alterações (ou poucas), isso não é realmente um grande endosso (e as melhorias podem ter ocorrido por acaso). No entanto, se cinco mil pessoas tentarem essa dieta, ainda haverá 25 testemunhos impressionantes soando por aí. Para muitas pessoas em dietas extremas, comida torna-se uma obsessão. Um autor cunhou um termo para obsessão na busca por uma dieta perfeitamente saudável: “ortorexia nervosa”.

Isso não é para sugerir que a alimentação saudável é um distúrbio, mas que algumas pessoas em um esforço para encontrar uma dieta que seja uma combinação de promoção de saúde e pureza perfeita podem desviar-se para o caminho do transtorno alimentar. Nenhuma dieta permitirá que você viva para sempre – nossos primos símios certamente não. Por toda a nossa impureza alimentar, em média, superamos os chimpanzés por décadas.

O que tudo isso significa para vegetarianos e veganos? Essas dietas são naturais? Eu argumentaria que os humanos não têm uma dieta natural. Nós evoluímos seguindo uma ampla variedade de dietas contendo alimentos de origem vegetal e animal. Poderíamos gastar tempo e energia tentando descobrir o que eram, mas isso só nos diria por onde passamos, não onde estamos.

Realmente não sabemos quão saudáveis nossos ancestrais eram ou por quanto tempo viveram, de qualquer forma. Podemos ter certeza de que eles sobreviveram, é claro; de outra forma não estaríamos aqui. No entanto, como seres humanos modernos nas sociedades industriais ocidentais (ou qualquer sociedade contemporânea), queremos saber quais opções de alimentos e estilo de vida fornecem a melhor chance de uma vida longa e saudável aqui e agora. Há muita evidência científica que mostra que as dietas vegetarianas e veganas são tão potencialmente saudáveis quanto as dietas mistas. Não há razão para vegetarianos e veganos éticos sacrificarem suas éticas e alterarem seus hábitos de consumo para que suas dietas pareçam mais “naturais”.

Na verdade, pode-se argumentar que nenhuma dieta consistindo de alimentos hoje seja natural – e isso não é necessariamente uma coisa ruim. Nos últimos dez mil anos, não apenas houve uma mudança em relação ao tipo de alimento que comemos como também em relação aos próprios alimentos. Alguém do período paleolítico não reconheceria a maioria das frutas e legumes nos supermercados. Seleção artificial (pessoas escolhendo apenas certas sementes, geralmente das melhores plantas a serem semeadas no ano seguinte) tem produzido alimentos com menos fibras, mais doces e maiores que seus parentes naturais.

Eles também são selecionados por conterem menores quantidades de compostos que as plantas produzem para repelir herbívoros, como taninos, alcaloides e oxalatos. Lembre-se, é apenas no mito do Jardim do Éden que as plantas são criadas para o nosso benefício. No mundo real, as plantas normalmente não “querem” ser comidas e evoluíram todos os tipos de defesas. Nossa seleção qualitativa de alimentos (estou me referindo a alimentos integrais, não processados) pode não ser realmente “natural”, mas provavelmente é melhor do que em qualquer ponto do passado.

No entanto, é importante que veganos e vegetarianos não ignorem o potencial problema da deficiência de vitaminas e outros nutrientes sob a falsa suposição de que suas dietas são “naturais” e, portanto, perfeitas – uma noção comum em minha experiência. No mesmo filão, embora na direção oposta, é curioso perceber como a comunidade dietética tradicional sempre aponta a falta de vitamina B12 como um problema em uma dieta vegana – o que implica na ideia de que sem suplementos há uma dieta inerentemente deficiente e restritiva – faz isso enquanto ignora as muitas vitaminas e suplementos minerais adicionados aos alimentos comuns (iodo em sal, vitamina B em grãos, vitamina D no leite, cálcio em muitos alimentos, etc).

Fazer essas importantes adições tornam as “padronizadas” dietas mistas inerentemente deficientes e restritivas? Deficiência de certos nutrientes podem ter sido uma característica comum da existência ao longo da evolução humana, ou pode ser o resultado de mudanças muito recentes nas tecnologias de processamentos de alimentos e estilo de vida – e até mesmo ambos.

Em qualquer caso, as dietas vegetarianas e veganas não devem ser apontadas como exclusivas em relação a isso, mas vegetarianos e veganos não devem ser complacentes nesse sentido. Arrogância dietética e mitologia antiga não têm lugar na política alimentar moderna e na nutrição. Nem pressões de produtores e indústrias específicas de alimentos. Precisamos olhar, de maneira imparcial, quais regimes dietéticos promovem vidas saudáveis para as pessoas de acordo com suas opções de alimentos e estilo de vida. Financiadas por entidades que buscam uma resposta específica, muitas pesquisas nutricionais procuram respostas que são muito limitadas para responder questões maiores.

Inquéritos mais abrangentes que buscam abordar relações mais amplas entre longevidade, doença e dieta podem fornecer algumas respostas, e esta certamente é a melhor maneira de proceder. Nenhuma dieta jamais fornecerá uma vida potencialmente infinita, mitológica e 100% livre de doenças. Contudo, dietas vegetarianas e veganas podem proporcionar uma vida inteira de nutrição saudável.

Tradução: David Arioch

Referência

Sapontzis, Steve. Collura, Randall. What is our natural diet and should we really care? Food for Thought: The Debate Over Eating Meat. Prometheus Books (2004).