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O veganismo não reconhece nada de origem animal como alimento de consumo humano

Reconhecer algo de origem animal como alimento é uma defesa do utilitarismo, bem-estarismo, não veganismo (Arte: Reprodução)
O veganismo não reconhece nada de origem animal como alimento de consumo humano, por entender que estaríamos consumindo algo que não foi feito para nós. Reconhecer algo de origem animal como alimento é uma defesa do utilitarismo, bem-estarismo, não veganismo.
O veganismo por defender o abolicionismo animal, naturalmente rejeita a ideia de que qualquer coisa produzida pelos animais seja legitimada como fonte de nutrição humana. Até porque, se esse discurso fosse endossado pelo veganismo, a luta não seria pela libertação animal, mas somente pela criação de animais em grandes espaços, disseminando uma ingênua ideia de liberdade.
Afinal, ainda assim os animais estariam confinados a uma realidade servil, que é a de fornecer alimento aos seres humanos. Sendo assim, não seria nada mais do que um tipo de exploração que pareça simpática aos olhos, e que impacte menos na nossa consciência.
Particularmente, não tenho nada contra quem é bem-estarista, mas se um dia a libertação animal for conquistada, não tenho dúvida alguma de que isso terá sido possível graças ao ideal vegano. Não há como alcançar um grande objetivo se todos forem condescendentes ou concordarem com uma “flexibilização” de ideais. Um posicionamento menos vacilante é imprescindível. Os abolicionistas do passado são a prova disso.
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A problemática do consumo de leite
Enquanto o leite for supervalorizado, a indústria vai seguir firme na exploração de animais
Um rapaz me disse que vive em uma chácara e tem uma vaca que ele ordenha diariamente. Afirmou que a trata bem e que ela não passa por nenhum tipo de sofrimento e privação. Certo. Mas que tipo de problemática o veganismo poderia apontar em torno disso?
O fato de você ordenhar a vaca e consumir o leite dela significa que o leite dela existe para consumo humano, o que não é verdade, já que o leite da vaca naturalmente é destinado ao bezerro. Só de consumir o leite da vaca criada, mesmo que no quintal de casa, já estamos nos posicionando de forma favorável à exploração animal em níveis industriais.
Mas como assim? Porque, mesmo que a vaca permitisse o consumo do seu leite, é importante levar em conta que nem todo mundo teria condições, espaço ou tempo para atender todas as necessidades de uma vaca. Sendo assim, é natural que a cadeia industrial acabe por suprir uma demanda gigantesca criada por força de hábitos culturais, e que se estende a milhões de consumidores só no Brasil.
Vou citar outro exemplo. Vamos supor que eu tenha uma vaca de quem extraio o leite para o consumo familiar. De repente, alguém que nunca consumiu leite decide me visitar e fica deslumbrado ao experimentar leite de vaca pela primeira vez. Então apresento as despesas com o animal, ele acha caro, fora das suas possibilidades, mas ainda assim quer encontrar um meio de obter um fornecimento diário de leite.
Vejo aí uma oportunidade e faço uma proposta de fornecimento de leite. Ele não gosta do valor e diz que encontrou um produto mais vantajoso no mercado ou na padaria perto de sua casa. Então o camarada começa a financiar as grandes indústrias leiteiras porque é mais prático para ele, mesmo que isso custe bezerros sendo apartados de suas mães e mortos.
Nesse caso, a solução seria comprar o leite do leiteiro? Não creio. Acredito que a única solução plausível para não tomar parte na privação ou sofrimento do gado leiteiro é não contribuindo com esse mercado. Mas por que não? O leiteiro não vai judiar da vaca.
Sim, o leiteiro pode “não machucá-la” e, de repente, até a deixe “pastando livremente”, mas o animal não continuaria sendo condicionado a servir os seres humanos? Ademais, qual é a participação real do amigo leiteiro numa demanda de 34 bilhões de litros de leite [de acordo com a Embrapa] produzidos no Brasil? É muito leite, e vivemos em um país que não possui área o suficiente para a produção de tanto leite que não seja em níveis industriais – que não imponha privação às vacas e morte aos bezerros.
Enfim, não existe pasto para esses animais serem criados soltos. Sendo assim, o alto consumo de laticínios deu origem ao regime de confinamento do gado leiteiro. O que naturalmente significa animais vivendo em situação avessa à sua natureza. Ou você conhece algum animal que goste de ficar preso ou de ser condicionado? E tudo isso é legitimado porque classificamos o leite de vaca como alimento de consumo humano.
Sendo assim, mesmo que indiretamente, quem consome leite de uma vaca criada na própria chácara ou no quintal de casa, também está endossando o mercado da produção industrial de leite. E simplesmente porque enquanto o leite de vaca for visto como algo disponível ao consumo humano, a indústria vai seguir firme na exploração de animais. Afinal, a única coisa que ela precisa é de pessoas afirmando que o leite de vaca é um “super alimento” para seres humanos.
Johnny Marr: “Desde que escrevemos ‘Meat is Murder’, nunca mais comi carne”
“Eu não poderia ser hipócrita. Para ser honesto, não foi realmente um sacrifício [ficar sem comer carne]”
Um dos fundadores da icônica banda britânica de rock The Smiths, Johnny Marr até hoje é citado como um dos mais importantes guitarristas dos anos 1980. Ao lado de Morrissey, ele gravou o álbum “Meat is Murder”, que se tornou um símbolo para vegetarianos e veganos do mundo todo. Enquanto Morrissey assinava as letras das músicas, Marr se responsabilizava pela harmonia. A parceria durou cinco anos, e juntos gravaram quatro discos.
Em entrevista a John Hind, do The Guardian, publicada em 20 de novembro de 2016, Johnny Marr contou que desde que ele e Morrissey escreveram “Meat is Murder”, ele nunca mais comeu carne. “Eu não poderia ser hipócrita. Para ser honesto, não foi realmente um sacrifício [ficar sem comer carne], disse em referência ao álbum lançado em 1985.
A faixa título, que critica o consumo de carne, e ainda traz o apelo de uma pequena gravação de vacas mugindo em um matadouro, mudou a vida de muita gente. Enquanto Morrissey canta: “Morte sem razão é assassinato”, a guitarra de Johnny Marr chora ao fundo. Sem dúvida, “Meat is Murder” é uma das composições mais intensas e perturbadoras escritas pelo The Smiths em sua curta e produtiva carreira.
Prova da força da música é que até hoje os fãs se aproximam de Johnny Marr para dizer que “Meat is Murder” mudou completamente seus hábitos alimentares, e mais – suas vidas. Ele se orgulha de encontrar pessoas dizendo que se tornaram vegetarianas ou veganas por causa da composição, de acordo com informações publicadas no Clash Music em 27 de julho de 2010.
“Não teria sido certo para mim tocar essa música sem ser vegetariano. A coisa engraçada é que até então a minha única interação com os animais tinha sido algo como: “Espero que este cão não me morda”. […] Mas quando parei de comer animais, comecei a sentir mais empatia por eles”, declarou em entrevista publicada por Louise Wallis em 6 de agosto de 2011.
Johnny Marr se tornou vegano em 2005, quando se mudou para Portland, no estado do Oregon, nos Estados Unidos. Sobre essa decisão, ele justificou que gosta da ideia do progresso, de ser progressista. “Portland tem uma atitude muito liberal e moderna, e alguns dos meus amigos lá já eram veganos. Estou feliz por ter entrado nessa. É muito mais fácil ser vegano nos Estados Unidos do que na Europa; há mais variedade cultural e, portanto, mais escolhas”, argumentou.
Questionado sobre o processo de composição de “Meat is Murder”, Marr relatou que Morrissey deu o título e a letra da música e ele entrou com o sentimento. “Apareci com a melodia, que interpretei como sugestiva, contudo inquietante, e a banda captou isso em uma tarde de inverno em Liverpool. A senti intensa, mas estranhamente bela quando a criamos. Adoro essa faixa”, admitiu a Louise Wallis.
“Desistir dessas coisas [alimentos de origem animal] não significa sacrifício ou miséria para mim. Vejo isso como o oposto, é interessante. […] Todas essas coisas me tornaram mais focado e energizado. Toda a minha família é vegetariana. Angie [esposa] era vegetariana quando nos conhecemos. Eu tinha 15 anos, e ela 14. Era bem informada. Eu provavelmente teria me tornado vegetariano mesmo sem a música, suponho”, destacou.
Saiba Mais
Johnny Marr nasceu em Manchester, na Inglaterra, em 31 de outubro de 1963.
Ele gosta de comer salada com tofu, comida tailandesa, mediterrânea e mexicana, além de massas e muito espinafre.
Referências
https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2016/nov/20/life-on-a-plate-johnny-marr-the-smiths
http://www.clashmusic.com/news/johnny-marr-talks-vegetarianism
http://www.louisewallis.net/johnny-marr-interview/
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James McWilliams: “Me tornei vegano no dia em que assisti um vídeo de um bezerro nascendo em uma fazenda industrial”
“Me tornei vegano no dia em que assisti um vídeo de um bezerro nascendo em uma fazenda industrial. Antes de tocar o chão, o bebê foi arrastado para longe de sua mãe. A mãe correu atrás de seu filho e explodiu de raiva quando o funcionário da fazenda fechou o portão na frente dela.
Ela gemeu, e aquele foi o barulho mais doloroso que já ouvi vindo de um animal; e então ela sucumbiu e enterrou o seu rosto na própria placenta enlameada. Eu não tinha ideia do que estava acontecendo ao que diz respeito à química cerebral, instinto animal, ou o que quer que seja.
Eu só sabia que esse sofrimento nunca valeria o sabor do leite e da carne de vitela. Eu tive empatia pela vaca e pelo bezerro, e assim minha vida mudou.”
James McWilliams é professor de história da Universidade Estadual do Texas, e importante referência em história dos Estados Unidos no período colonial e história ambiental. Ele também é autor dos livros “O Selvagem Moderno: Nossa Decisão Irracional de Comer Animais” e “A Política do Pasto: Como Dois Rebanhos Inspiraram um Debate Nacional sobre o Consumo de Animais”.
Referência
http://james-mcwilliams.com/
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Moby-Dick: “Não resta dúvida de que o primeiro homem que matou um boi tenha sido considerado um assassino”
“Vá ao mercado de carnes e veja as multidões de bípedes vivos de olhos vidrados nas longas filas de quadrúpedes mortos”

Melville foi influenciado por Thoreau e Emerson, escritores e filósofos que defendiam o respeito à natureza
Publicado em 1851, o romance “Moby-Dick; or, The Whale”, de Herman Melville, que se tornou um dos livros mais importantes da literatura dos Estados Unidos, conta a história de vingança de Ahab, o obsessivo capitão do baleeiro Pequod que, depois de ter a sua perna arrancada pela lendária baleia branca Moby-Dick, decide dedicar sua vida a persegui-la e destruí-la, ignorando o fato de que ele invadiu o habitat do animal e tentou matá-lo.
Quando escreveu a obra, Melville já havia sido influenciado pelas ideias e obras de Henry David Thoreau e Ralph Waldo Emerson, escritores e filósofos estadunidenses que defendiam o respeito à natureza, e que, por vezes, são classificados por alguns autores como vegetarianos, embora não haja registros tão precisos sobre seus hábitos alimentares, assim como os de Melville.
A inspiração para produzir “Moby-Dick” veio de aventuras fantásticas que o escritor vivenciou a partir de 1841, quando passou 18 meses no baleeiro Acushnet, um dos mais de 700 navios baleeiros dos Estados Unidos, de um total de 900 atuando na pesca comercial naquele ano.
Embora a experiência tenha sido muito rica, Herman Melville a qualificou como extremamente infeliz, porque a vida no mar era absolutamente miserável. E ele, assim como outros marinheiros, eram tratados como escravos e tinham que se submeter a todos os tipos de ordens de “homens vulgares e brutais”.
Até certo ponto, Melville compartilhou suas aventuras com o seu amigo Richard Tobias Green, com quem desembarcou em Nuku Hiva, a maior das Ilhas Marquesas da Polinésia Francesa. Um dia, Green desapareceu quando saiu para procurar ajuda para Melville que estava com uma séria lesão em uma das pernas.
Sozinho, o escritor foi capturado pelos typees, uma tribo canibal que em nenhum momento ameaçou sua vida. Muito pelo contrário, Herman Melville foi alimentado com refeições vegetarianas e saudáveis, baseadas em coco e fruta-pão, de acordo com o escritor R.L. Fisher, que assina a apresentação do livro “Moby-Dick; or, The Whale”, publicado pela editora Tor em 1996. O relato também é endossado por Hershel Parker em “Herman Melville: 1818-1851” e Steven Olsen-Smith em “Melville in His Own Time: A Biographical Chronicle of His Life, Drawn from…”.
Melville se sentiu tão bem entre os nativos, que tinham fama de bárbaros e hediondos, que definiu aqueles chamados canibais como muito superior aos civilizados americanos e europeus. Considerado transcendentalista por influência de Waldo Emerson, a natureza sempre foi um dos temas centrais na literatura de Melville, que jamais hesitou em deixar claro que quando o homem fere a natureza, ele deve se preparar para as consequências; e a maior prova disso é a entrega a uma forma odiosa de passionalidade do capitão Ahab, na sua sanha por matar a baleia Moby-Dick a qualquer preço.
“Seus três botes afundavam à sua volta, e os remos e os homens giravam em redemoinhos; um capitão arrancou uma faca das cordas da proa arrebentada e arremessou-se contra a baleia – como um duelista do Arkansas contra seu adversário, tentando atingir às cegas, com uma lâmina de seis polegadas, a vida profunda da baleia. Esse capitão era Ahab. E foi então que, subitamente, passando por baixo dele com a foice de sua mandíbula inferior, Moby-Dick cortou a perna de Ahab, como faria uma ceifadeira com a grama no campo.
Nenhum turco de turbante, nenhum veneziano ou malaio mercenário o teria atingido com tamanha malícia. Havia poucos motivos para duvidar de que, desde aquele encontro quase fatal, Ahab nutrisse uma violenta sede de vingança contra a baleia, ainda mais terrível porque, em sua morbidez frenética, atribuíra a ela não apenas todos os seus infortúnios físicos, como também seus sofrimentos intelectuais e espirituais”, escreveu nas páginas 178 e 179.
Na página 209, Melville discorre sobre a natureza humana, partindo, a princípio, da perspectiva de um homem duro, embrutecido pelo meio e pela própria ignorância: “A condição permanente do homem tal como é fabricado, pensava Ahab, é a sordidez. Pressupondo que a Baleia Branca incite os corações dessa minha feroz tripulação, e imaginando que sua ferocidade até produza neles uma espécie de brio generoso, todavia, enquanto dão caça a Moby-Dick por prazer, é necessário alimentar também seus apetites comuns e rotineiros.”
Ele prossegue a narrativa declarando que mesmo os enlevados e cavalheirescos Cruzados de outrora não se contentavam em atravessar duas mil milhas de terra para lutar por seu Santo Sepulcro sem pilhar, roubar e obter outras pias vantagens pelo caminho: “Tivessem eles se limitado a seu único objetivo último e romântico – daquele objetivo último e romântico, muitos teriam desistido por desgosto. Não tirarei desses homens, pensou Ahab, a esperança do dinheiro – sim, dinheiro. Poderiam menosprezar o pagamento agora; mas deixasse passar alguns meses, sem nenhuma promessa em perspectiva de paga, e então esse mesmo capital se amotinaria todo de uma vez dentro deles e decapitaria Ahab.”
Melville faz referência a um fato já comum à época – de que o homem do mar, que tinha como principal fonte de renda a frequente morte de seres vivos não humanos, poderia se transformar, chegando a não pensar duas vezes se tivesse que matar um semelhante para lucrar ou mesmo se vingar.
Na página 289 de “Moby-Dick”, Ishmael, alter ego de Herman Melville, narra que não resta dúvida de que o primeiro homem que matou um boi tenha sido considerado um assassino; talvez tenha sido enforcado; e, se o tivessem levado a julgamento por causa disso, certamente teria merecido a sua sentença. E naturalmente, são os compradores e consumidores que perpetuaram tal negócio que ainda nos dias de hoje parece distante do fim.
“Num sábado à noite, vá ao mercado de carnes e veja as multidões de bípedes vivos de olhos vidrados nas longas filas de quadrúpedes mortos. Esse espetáculo não tira um dos dentes do maxilar dos canibais? Canibais? Quem não é um canibal? Garanto a você que o Juízo Final será mais tolerante com um providente Fijiano que salgou um missionário magro em sua adega para se prevenir contra a fome do que contigo, gourmand civilizado e esclarecido, que prendes os gansos no chão e te refestelas com seus fígados dilatados em teu patê de foie gras”, criticou.
Melville era um autor muito à frente do seu tempo, e a maior prova disso é que o seu romance mais famoso – “Moby-Dick; or, The Whale”, dedicado a Nathaniel Hawthorne, não obteve qualquer prestígio após o lançamento. Quando faleceu em 28 de setembro de 1891, seu livro já não era mais encontrado à venda em lugar algum.
A rejeição ao seu trabalho pode ter sido facilitada pelas críticas que fez ao comportamento dos ocidentais de seu tempo, imersos em hipocrisia, egolatria, preconceitos, superficialidades e pouco respeito à natureza. Em suma, “Moby-Dick” também é um livro que desvela a ferocidade do antropocentrismo, embora, por vezes, também transpareça, mesmo que minimamente, antropocêntrico; provavelmente por influência da época.
O escritor estadunidense William Faulkner, um dos mais importantes dos Estados Unidos do século 20, declarou que gostaria de ter escrito “Moby-Dick”. O inglês D.H. Lawrence, outro autor igualmente relevante, definiu o romance da baleia branca como um dos mais estranhos e maravilhosos livros do mundo.
“Mas Stubb, ele come a baleia à luz de seu próprio óleo, não? E isso é somar insulto à injúria, não é? Olhe para o cabo de sua faca, meu caro gourmand civilizado e esclarecido a comer um rosbife, do que é feito o cabo? – do quê, senão dos ossos do irmão do mesmo boi que você está comendo? E com o que você palita os dentes, depois de devorar aquele ganso gordo? Com uma pena da mesma ave. E com que pena o Secretário da Sociedade de Supressão de Crueldade aos Gansos escreve suas circulares? Há apenas um ou dois meses essa sociedade tomou a decisão de patrocinar somente penas de aço”, escreveu Herman Melville na página 289 de “Moby-Dick; or, The Whale”, romance publicado em 1851.
Saiba Mais
Herman Melville nasceu em Nova York em 1º de agosto de 1859 e faleceu na obscuridade e na pobreza. Seu túmulo pode ser visitado no Cemitério de Woodlawn.
Outra obra de grande prestígio de Melville é “Billy Budd”, publicada pela primeira vez em 1924, editada por Raymond M. Weaver, da Universidade Columbia.
Referências
Melville, Herman. Moby-Dick or The Wale (1851). Tor Classics (1996).
Melville, Herman. Moby Dick. Cosac Naify (2008).
Parker, Hershel. Herman Melville: 1818-1851. Johns Hopkins University Press; First edition (2005).
Olsen-Smith, Steven. Melville in His Own Time: A Biographical Chronicle of His Life, Drawn from… University Of Iowa Press; 1st edition (2015).
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A consciência de José
“Lendo os ingredientes para ver se não encontra nada de origem animal, não é mesmo?”
No mercado, enquanto eu olhava os produtos na seção de cereais, um camarada, a quem vou chamar de José, passou por mim, me cumprimentou e disse: “Checando se não encontra nada de origem animal entre os ingredientes, não é mesmo?” Balancei a cabeça em concordância e sorri.
Ele continuou: “Cara, aqueles seus textos sobre veganismo mexem com a cabeça da gente. Tenho que reconhecer.” Gostei de saber disso e comentei que a ideia é justamente essa. José deu um sorriso amarelecido e partiu empurrando seu carrinho de rodinhas tortas que dificultavam uma movimentação mais rápida.
Depois de 10 a 15 minutos, na seção de farináceos, o vi na fila do açougue. Provavelmente ele estava aguardando a vez desde que trocamos algumas palavras. Assim que me viu, desviou os olhos. Empunhando uma longa faca recém-usada para fatiar parte de algum animal, o açougueiro ajeitou o boné branco com uma mão enluvada e perguntou o que ele desejava. Mesmo à distância, ouvi sua resposta: “Não desejo nada, meu senhor, nada! Muito obrigado! Tenha um bom dia!”, e se afastou, esfregando a mão sobre o topo da cabeça e empurrando o carrinho em sentido oposto.
Continuando as compras, na seção de hortifruti, fiquei feliz por encontrar brócolis e couve-flor orgânicos a preços acessíveis. Peguei dois de cada, coloquei no carrinho e olhei à minha direita. José, como se carregasse bebês nos braços, deitou duas bandejas de iogurte grego e uma garrafa de bebida láctea dentro do carrinho quando notou minha presença.
Ele corou e tirou todos os laticínios do carrinho, recolocando-os no expositor. Testemunhando a cena, uma idosa baixinha segurando uma caixinha de leite de arroz com as duas mãos falou: “Você fez bem, filho! Leite de bicho faz mal. Olhe como você está vermelho!” Só ouvi um não sonoro e desajeitado que afastou a boa senhora, mas não sem antes fazê-la agigantar os olhos e levar as duas mãos ao coração, sem entender o que aconteceu.
Quando me recordei que em casa não havia mais alho, me apressei até a banca e, coincidência ou não, vi José segurando duas bandejas de ovos de galinha. Ele parecia preocupado em ser visto por alguém, e movia a cabeça de um lado para o outro. Não notou que havia uma plaquinha amarela avisando que o piso estava escorregadio. Gritei seu nome em vão. José não ouviu e foi ao chão, caindo sentado e resfriando o traseiro. Não restou um ovo inteiro.
A raiva era tanta que ele grunhiu: “Nunca mais como ovo na minha vida! Nunca mais! Para os diabos com os ovos!” Sorte ou não, nenhum o atingiu. Me aproximei para ajudá-lo a levantar, só que ele recusou: “Estou bem, David. Me deixe, estou bem!” As pessoas o observavam sem entender o que se passava com José. Preocupado com as horas, caminhei até as seções de produtos de limpeza e higiene, o que me tomou um tempinho considerável.
Já no caixa, logo à minha frente, encontrei José esvaziando o carrinho e colocando as compras sobre o balcão. No fundo, restavam três bandejas de embutidos, um saquinho com carne moída e outro saquinho com bifes. Ele os posicionou sobre o balcão, mas quando me viu logo atrás, levou um susto e sorriu. Retribuí o sorriso e José chamou a atenção da moça do caixa: “Olhe, alguém deve ter colocado por engano esses embutidos e essas carnes no meu carrinho. Isso aqui não é meu. Vou deixar aqui do lado.”
Sobre críticas ao meu trabalho
Se eu for dar atenção a todas as críticas que as pessoas fazem ao meu trabalho, além das problemáticas desnecessárias que são criadas, eu terei que parar de trabalhar. Sendo assim, vale mais a pena produzir do que dedicar tempo discutindo desnecessariamente sobre algo. Sou da seguinte opinião: “O que eu posso fazer durante o tempo que posso perder?”
Não me incomoda saber que há pessoas que não gostam de mim
Aceito esse fato como parte de uma realidade diversa em que cada um tem suas preferências
Não me incomoda saber que há pessoas que não gostam de mim. Não vejo nada de errado nisso. Aceito esse fato como parte de uma realidade diversa em que cada um tem suas preferências e naturalmente acaba por pautar sua vida a partir daí.
Isso é normal, e não me sinto realmente desconfortável em reconhecer que sempre vai existir gente que não simpatiza comigo. Não se pode abraçar o mundo e, se você tenta, provavelmente você se machuca desnecessariamente.
Esse tipo de reflexão me traz lembranças do jardim de infância, quando uma criança chorava porque algum coleguinha não queria brincar com ela porque não gostava dela. Talvez houvesse algum ruído, problema de comunicação, e logo a professora tomava a decisão de intervir para tentar aproximá-los.
Então ela pegava a mão de um coleguinha e o levava até o outro para que apertassem as mãos e se abraçassem. E selava a “união” com algo como: “Agora vocês são amiguinhos!” Funcionava? Sim, mas não todas as vezes. Desde sempre, e por um condicionamento social, acreditamos que se alguém não gosta de nós ou se não gostamos de alguém temos que fazer o possível e o impossível para tentar mudar isso.
Claro que se o problema de gostar ou não gostar envolve ações equivocadas, extemporâneas ou mal-entendidos, é possível fazer algo a respeito. Mas e quando não há? E se uma pessoa simplesmente não gosta de você? Da sua personalidade?
Fomos criados de uma forma a crer que quando uma pessoa não gosta de nós precisamos corrigir isso, descobrir quem está errado. É como se sempre houvesse alguém certo e alguém errado. Então devemos nos esforçar e apresentar motivos para que gostem da gente, nos respeitem e nos amem. Podemos tentar, claro. Mas e se não funcionar?
Devemos seguir em frente, até porque acredito que mais importante do que gostar é respeitar. Isso sim faz uma grande diferença em nossas vidas como seres sociáveis. Afinal, você pode não gostar de uma pessoa, mas deve respeitá-la, porque isso é uma premissa do bom convívio e ninguém sai perdendo.
O mundo pode parecer um lugar estranho, sombrio e realmente duro se você se sentir exaustivamente incomodado toda vez que souber que alguém não gosta de você. Mas a verdade é que ninguém é pior ou melhor que ninguém por não ser apreciado ou por não simpatizar com o outro.
Somos seres complexos, com interesses bem diversos, e usamos isso como referência para nos aproximar ou nos afastar das pessoas em algum nível. Tendo isso em mente, creio que temos que ser cuidadosos para não nos anularmos e também não anularmos os outros nessa tentativa de ser aceito e conquistar a apreciação de alguém.
Ademais, não tenho nenhum problema em apertar a mão e tratar bem quem não gosta de mim, até porque não vejo motivo para agir de outra forma. Acredito que a cordialidade tem importante papel na manutenção da vida. E não existe falsidade nisso, mas apenas a preponderância do respeito que deve ser maior do que nossas antipatias.
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Um acumulador de versões
Sou um acumulador de versões. Então é natural que eu não seja a mesma pessoa do ano passado, do mês passado, da semana passada ou até mesmo de ontem. Temos uma tendência a achar que pessoas que mudam são basicamente pessoas volúveis. Sim, podem ser, mas se for para o bem delas, seu crescimento, prefiro chamar isso de evolução.
Pessoas que escrevem, por exemplo, são pessoas curiosas, interminavelmente curiosas, eu diria. Então é natural que não passem a vida toda escrevendo sobre as mesmas coisas ou abordando sempre os mesmos assuntos. Escrever é desbravar-se primeiro para então desbravar aquilo que está diante dos seus olhos e reverberando em sua mente.
Ademais, escrita, na minha opinião, trata-se de fidelidade. Ser fiel a si mesmo, seja no campo ficcional ou não. Quem não é fiel a si mesmo dificilmente faz um bom trabalho nesse sentido.
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Quando tentam me agredir
Normalmente, quando alguém tenta me ofender ou me agredir de alguma forma, tenho vontade de sorrir. Na realidade, não só tenho, como realmente acabo por sorrir, mesmo sem dizer nada, porque não é difícil perceber que a fragilidade do outro em me agredir é muito maior do que a minha em retribuir.









