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Documentário denuncia as mazelas da indústria de ração animal
Caso queiram conhecer as mazelas do mercado mundial de ração animal, dominado por cinco grandes conglomerados: Mars, Nestlé, Procter & Gamble, Hills e Big Heart Pet Brands, recomendo que assistam “Pet Fooled”, de Kohl Harrington, disponível na Netfix. O documentário lançado em 2016 mostra como esse mercado funciona sob conveniência e pode não estar tão preocupado com o bem-estar animal.
O veganismo confronta a nossa visão especista de mundo
Uma coisa interessante do veganismo é que ele confronta nossa visão especista de mundo, mostra como os seres humanos podem ser menos justos do que eles aparentam ser. Claro que o consumo de alimentos de origem animal é um fator cultural, mas eu pelo menos não me sentiria bem hoje realizando trabalhos sociais beneficiando pessoas e ao mesmo tempo ignorando toda a problemática que envolve o universo dos seres não humanos. Quero dizer, se sei que o problema existe, não custa fazer o mínimo possível para contribuir de algum modo. Claro que não falo isso para invalidar a luta de ninguém. No meu caso, eu me sentiria como alguém ajudando a perpetuar algo que nunca me agradou, que é a exploração massiva de vidas de seres inocentes visando lucro.
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A vivissecção também ensina valores antropocêntricos e especistas, de que animais são objetos que podem ser jogados fora

“Para que a pesquisa continue, é preciso afastar qualquer sinal de compaixão, e acreditar que eles são objetos, não seres vivos”
Os animais são usados há cerca de 300 anos em uma prática bastante consolidada dentro das instituições de ensino. A maioria das pessoas não sabe, mas para a formação de biólogos, profissionais da área de saúde, geralmente eles são obrigados a passar pela prática de vivissecção, que consiste basicamente em causar um dano ao animal, ou abri-lo ainda vivo.
Ou então usar o cadáver de um animal que foi sacrificado ou morto para aquele tipo de prática pedagógica, para ilustrar conhecimentos que já são sabidos. Vivissecção quer dizer “cortar vivo”, mas esse termo é aplicado hoje a qualquer forma de experimentação animal. A partir do século XIX essa prática se intensificou, e hoje é uma poderosa indústria que produz equipamentos e o que eles chamam de “produtos”.
É comum o uso de cachorros para ilustrar o sistema cardiorrespiratório. É uma prática de fisiologia bastante antiga e tradicional, que consiste em anestesiar um cão, abri-lo, e injetar algumas substâncias para ver como o sistema cardiorrespiratório responde a diferentes substâncias. Então isso é um exemplo dentro de uma série de outros que implicam técnicas de sutura, injeção de “n” substâncias, provocação de queimaduras, indução de fome, indução de estresse.
Depois que eu cumpro com os objetivos da prática, eu jogo o animal no lixo. Geralmente são animais saudáveis, provenientes de biotérios, que são lugares dentro das instituições que criam os animais para essas finalidades. Em alguns casos, esses animais são provenientes de centros de controle de zoonoses.
Peças, encomendas, produtos, modelo, material de estudo – são resumidos a isso. Para que a pesquisa continue, é preciso afastar qualquer sinal de compaixão, e acreditar que eles são objetos, não seres vivos. No começo, o estudante pega um animal, corta e se sente mal com aquele ato. Um desconforto moral, um desconforto físico. Mas se sente mal. Com a repetição, ele já passa a sublimar isso.
Então no final do curso, ele já está cortando numa boa, sem qualquer problema. Então o que é isso? Isso é um processo de dessensibilização pelo qual o estudante passa. No final, ele está mais frio em relação à vida. Ele já “coisificou” a vida na frente dele.
Quando eu corto um cachorro para estudar anatomia, eu aprendo muito mais do que anatomia. Aprendo os valores antropocêntricos e especistas, de que aquele animal é um objeto que eu posso jogar fora. Existe uma série de conteúdo ocultos que são transmitidos de arrasto à prática, e que não estão explicitados no currículo oficial, mas eu aprendo.
Um dia, a gente estava aprendendo a dar injeção em uma égua. Havia 200 alunos dando injeção nela, até que chegou um momento em que um aluno acertou a jugular dela e estourou uma veia. Começou a sangrar muito, e uma das alunas foi lá e começou a estancar o sangue. Só que veio o resto e começou a aplicar do outro lado, e a professora incentivando: “Não! É assim!” Foi horrível! A gente tem dez professores e sete deles falam: “Gente, tadinha nada! Eles estão aqui pra isso!” Nenhum vem dar uma força e falar:
“Não! Eu também acho que isso é errado.” Nenhum! E falam: “Nós temos que sacrificar alguns animais para que vocês possam salvar outros na profissão.” Isso acontece porque a estrutura da universidade está de tal maneira interpenetrada dessa recomendação atribuída a Claude Bernard, de que o cientista para agir profissionalmente ele tem que ser frio em relação ao trato com os animais, que você falar em piedade, dó, compaixão, não combina.
Fui treinado para salvar vidas, e de repente vou lá e uso um cachorro para um aluno aprender a fazer uma cirurgia no estômago e mato o cachorro. No dia seguinte, estou salvando um cachorro naquela mesma cirurgia. Adiantou eu operar? Matei um para salvar o outro. É como um médico operar um cara lá e matar o sujeito para aprender a salvar outro.
Não tem muito critério para utilizar esse método, usa porque é mais fácil. Tem um canil atrás da faculdade, eles pegam um cachorro onde é conveniente, levam para o laboratório e não precisa fazer nenhum esforço. Atualmente, o pessoal do segundo ano [de medicina] está fazendo a primeira experiência com os ratos, que é aquela de injetar estricnina no estômago ou no intestino, e os ratos começam a ter convulsões; alguns ficam com as entranhas todas para fora – intestino, estômago.
O rato morre, mas antes fica convulsionando até o final. O pessoal está me mandando mensagem [agora] de como foi a experiência, o que isso adicionou. Pelo menos quem está escrevendo aqui não ficou satisfeito com esse tipo de aula. Em síntese, você ensina o aluno a ter preconceito com os diferentes. O animal é diferente dele: “Eu tenho autoridade de sacrificá-lo.”
Thales Tréz, biólogo e professor da Universidade Federal de Alfenas (Unifal).
Ana Paula de Sá, estudante de medicina veterinária da Universidade Anhembi Morumbi
Irvênia Prada, professora titular emérita da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP.
Marco A. Gioso, professor do departamento de cirurgia da FMVZ.
Carlos Bustamante, estudante da Faculdade de Medicina do ABC.
Odete Miranda, cardiologista e professora da faculdade de medicina do ABC.
Excertos de “Não Matarás”, documentário lançado em 2005 pelo Instituto Nina Rosa. O filme critica a vivissecção, os testes em animais, ao revelar como os seres não humanos são explorados de forma desnecessária e cruel em um contexto de banalização da vida animal.
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Quase 18 milhões de bovinos e suínos foram mortos no Brasil no terceiro trimestre de 2016
De acordo com o IBGE, 7,32 milhões de bois foram enviados para o matadouro no Brasil no terceiro trimestre de 2016 para que suas carnes fossem comercializadas como produtos. Também segundo o IBGE, 10,57 milhões de porcos foram mortos no terceiro trimestre de 2016 no Brasil. Tudo isso para que as pessoas comam picanha, coxão mole, coxão duro, maminha, fraldinha, paleta, acém, ponta de agulha, filé mignon, alcatra, músculo, cupim, costela, bisteca, bacon, costela, lombo, contrafilé, cupim, lagarto, salsicha, linguiça e hambúrguer.
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250 mil animais foram assassinados no Festival Gadhimai em 2014
Em 2014, 250 mil animais foram assassinados ao longo dos dois dias de duração do Festival Gadhimai em Bariyarpur, no Nepal, de acordo com o jornal britânico Daily Mail e a Humane Society International. Muitas mortes foram inclusive provocadas por hindus de etnia madeshi. Felizmente, o festival foi proibido no país em 2015, embora isso não impeça que o sacrifício de animais seja realizado fora do festival. Não sou supersticioso, mas o Nepal é um dos países da Ásia mais atingidos por terremotos e outros tipos de tragédias de proporções inimagináveis? Difícil aspirar a paz quando semeamos tantas mortes, e acredito que isso vale para todos os tipos de morte de animais relacionadas a algum tipo de exploração.
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Sobre a realidade comum dos matadouros brasileiros
Brasil é um dos países onde é mais difícil entrar com equipamento para registrar as atividades dentro dos grandes matadouros. Vocês podem perceber que em vídeos institucionais normalmente tudo é mostrado superficialmente, e sempre denotando muita limpeza.
Agora me diga, como que um local onde animais são mortos diariamente pode se manter tão limpo? Isso é simplesmente a dissimulação da realidade. Ou seja, material produzido estrategicamente para convencer as pessoas de que não existe nada de chocante em suas atividades. É importante entender uma coisa, não existe carne sem sofrimento e sem derramamento de sangue.
Na foto, retrato de um matadouro tipicamente brasileiro, diferente daqueles mostrados em campanhas publicitárias como aquela que o apresentador Rodrigo Faro fez para a Friboi. Onde há carne, há sangue e um rastro de sofrimento. Afinal, quem sangra sem jamais sofrer? Nenhum ser senciente.
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“Esses franguinhos têm uma vida muito triste e curta”
Esses franguinhos têm uma vida muito triste e curta. Todos nascem em uma chocadeira artificial aos milhares de cada vez. O primeiro ar que eles respiram é impregnado de formol. Dizem seus criadores que assim eles ficam amarelinhos e isso agrada mais aos clientes. Eles nem sabem quem são. Nunca vão poder sentir a presença de uma mãe, nunca vão abrigar-se sob suas asas, ou mesmo ter a oportunidade de ciscar ou correr livremente. São tratados como coisas. Para os criadores, eles são simplesmente um produto:
“Você tem que fazer a seleção e depois vacinar. Aqueles que não são aproveitados são triturados.“
Excertos do documentário “A Carne é Fraca”, lançado em 2005 pelo Instituto Nina Rosa.
Dagomir Marquezi: “[Hambúrguer] é uma mistura [de carnes], e o sentido da vida foi diluído numa massa ali”
“O caso mais chocante que eu acho é o do hambúrguer, porque você come um amontoado de carne moída que vem de vários animais, de vários bois, e você não sabe o que é exatamente. É uma mistura, e o sentido da vida foi diluído numa massa ali, e você não tem a consciência de que foi um animal, de que aquilo foi parte de um ser vivo; que foi parte de um ser vivo que tinha a sua vida, a sua dor.”
Jornalista Dagomir Marquezi em “A Carne é Fraca”, de 2005.
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“É um exercício de poder falarmos que os animais são simplesmente máquinas”
É um exercício de poder falarmos que os animais são simplesmente máquinas, que não pensam, que não têm raciocínio e assim por diante; que agem só por instinto, porque assim eu posso usá-los ao meu bel-prazer. Então o fato de não admitir essa dimensão chamada de mente e alma nos animais é o mesmo mecanismo de exercício de poder que se usava em relação aos escravos na época de escravatura aqui no Brasil, que faz pouco mais de cem anos. Como é que o clero e outras instituições religiosas conviviam com isso? Afirmando que os escravos não tinham alma. Era uma estratégia de exercício de poder.
Irvenia Prada, então professora titular de anatomia da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP, no documentário “A Carne é Fraca”, de 2005.
Um exemplo de como animais reduzidos a alimentos são sensíveis, e nada têm de amorfos, é a arte “The Price” do artista estadunidense “Jackson Thilenius”. A obra é inspirada na realidade dos porcos que vivem em regime de confinamento. Distantes de uma vida natural e diante de muito estresse e outros transtornos psicológicos e emocionais, eles enlouquecem e acabam por matar os próprios companheiros. Infelizmente, essa é uma consequência da suinocultura intensiva visando a produção de bacon, lombo, presunto, pernil, picanha e costela, entre outros chamados produtos que as pessoas consomem no cotidiano.
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A angústia do boi a caminho do abate

“A parte mais estressante são os últimos minutos dele, porque ele vê o amigo dele caindo, escuta o mugido”
O processo de abate começa na fazenda, na hora que o pecuarista separa o lote dele para o frigorífico. Daí já começa o manejo para o abate. [Quando chegam ao matadouro o desespero dos bovinos é tão grande que eles se prensam na saída da carroceria do caminhão]. Na hora do abate, eles são tocados. Quanto menos usar choque nessa hora, menos prejudicial [bois sendo eletrocutados e mugindo]. A parte mais estressante são os últimos minutos dele, porque ele vê o amigo dele caindo, escuta o mugido.
Mesmo estando confinado em um lugar muito apertado, que tem gente em cima, pra mim, aquela parte é a mais angustiante. [Nesse momento o boi reconhece que algo de muito ruim está acontecendo com o seu amigo e então ele recua, tentando fugir]. Aquela angústia dele na rampa, nos últimos minutos, me marcou até hoje. Não olho nem pro osso deles.
É chamado de pistola pneumática o equipamento que a gente usa para insensibilizar. Tem um êmbolo mais ou menos da grossura do meu dedo. Na hora que o operador aperta o gatilho, esse êmbolo sai, lógico que entra na cabeça e volta. E daí dá aquele abalo no cérebro e faz ele ficar insensível. Daí cai na praia de vômito, é içado e depois de um minuto no máximo ele tem que ser sangrado porque senão ele acaba morrendo. Então ele tem que estar com a circulação funcionando para sangrar e escoar o máximo de sangue. Daí já pode fazer todas as operações – esfola, abertura da barriga, evisceração, serragem.
Muitos deles, a quase totalidade deles, quando já percebe o que está acontecendo com os outros lá na frente, eles entram em midríase, ou seja, eles ficam com a pupila dilatada. Então esses animais com certeza estão com taquicardia, com aumento de pressão arterial.
E nessa hora eles descarregam na circulação uma série de substâncias altamente tóxicas por medo, por pavor, por impossibilidade de fuga. E isso caracteriza o fato deles estarem em pânico. E essas substâncias, elas ficam na carne, e depois o homem vai se alimentar com isso. Seja a morte deles em um desses frigoríficos modelo ou em um matadouro comum.
Giovana Mondelli, responsável pelo controle de qualidade do Frigorífico Mondelli.
Irvenia Prada, professora titular em anatomia da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP.
Fernando Travi – psicólogo e higienista
Excertos do documentário “A Carne é Fraca”, lançado pelo Instituto Nina Rosa em 2005.
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