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“Você acha que as pessoas são ruins por se alimentarem de animais?”
Não. O consumo de alimentos de origem animal é cultural, então creio que as pessoas se apeguem a três fatores – costume, paladar e saúde. Sabemos que o terceiro é mais facilmente refutado, já que há tantos vegetarianos e veganos saudáveis pelo mundo afora. Porém a questão de costume e paladar é mais delicada, porque muitas pessoas os veem inclusive como indissociáveis.
Eu, assim como muita gente, cresci me alimentando de animais por um fator cultural baseado no costume. E quando esse fator está tão enraizado na cultura de alguém não é tão fácil enxergar o que realmente existe por trás do que consumimos. Também não é tão simples convencer todo mundo a abandonar esse hábito que muitas vezes representa inclusive todas as refeições que uma pessoa consome ao longo do dia. Há pessoas que tomam leite ou comem queijo no café da manhã, comem carne no almoço, e assim por diante.
É basicamente um dia todo consumindo animais. Fora que as pessoas passam uma vida toda sendo bombardeadas com informações que as convençam de que os alimentos de origem animal devem ser consumidos diariamente. Há uma indústria que te impele a isso; além de escolas, universidades, profissionais de saúde, e toda uma cultura comercial que absorve essa produção surreal que custa a vida de bilhões de animais a cada ano, isso para citar somente os terrestres. Olhe à sua volta e veja quantos estabelecimentos em um raio de quilômetros você pode citar que vendem animais reduzidos a produtos. Neste momento penso em mercados, empórios, bares, lanchonetes, restaurantes, etc.
Claro, muitas pessoas, principalmente adultos, sabem que estão se alimentando de um animal que foi morto, ou de algo que foi retirado dele em regime de privação ou sofrimento. No entanto, saber, enxergar e entender não são a mesma coisa. Uma pessoa pode testemunhar a morte de um animal, mas isso não significa que ela tenha uma real dimensão do que aquilo representa de fato; porque isso depende do seu nível de cognição em relação ao que foi visto e o que aquilo é capaz de despertar nela.
Também é preciso considerar o fato de que hábitos alimentares podem se tornar vícios mesmo que as pessoas não percebam. Alimentos de origem animal têm um poder muito grande de despertar algum tipo de dependência. Porém, qualquer hábito alimentar é passível de mudança, já que somos seres de hábitos mutáveis, embora isso pareça aparentemente difícil, o que na realidade não é.
Nós que temos essa crença e essa resistência. Acredito que não existe nada que o ser humano não seja capaz de fazer nesse sentido. Tudo é possível quando falamos de hábitos alimentares. Mas antes é preciso estimular um novo nível de consciência. Porque uma transição para o vegetarianismo ou veganismo sem uma sólida razão pode ser transitória, efêmera. Uma perspectiva vegana da crueldade pode ou não ser partilhada por quem não é vegetariano ou vegano.
Quero dizer, o vegano está em um nível diferenciado de consciência sobre a exploração animal, e aquilo pode ter um efeito positivo ou não sobre quem não é dependendo da acepção de quem o lê ou o ouve. Darei um exemplo. Duas pessoas observam carnes em um açougue. Uma delas é vegana e a outra não. A vegana fica chocada com o que vê, por entender que está diante dos pedaços do cadáver de um animal não humano, o que é a mais honesta compreensão da realidade.
Por outro lado, quem não é vegano ou vegetariano observa apenas a carne, dissociada do animal. Não reflete sobre o que aconteceu antes daquela carne chegar àquele local. Vamos supor que aí existe a possibilidade de um diálogo. Se esse diálogo estiver muito aquém do nível de consciência ou da predisposição interpretativa daquele que se alimenta de animais, o resultado pode não ser tão positivo dependendo da abordagem.
Claro, a pessoa citada nesse exemplo pode ter algum nível superficial de consciência de que aquilo foi um ser vivo, mas isso não significa que ela tenha feito ou pelo menos esteja disposta a fazer uma concatenação entre carne, privação e morte. É como um cenário em que duas pessoas estão diante de um assassinato – uma delas assiste tudo e a outra escuta apenas os tiros e os gritos. Ou seja, a primeira pessoa naturalmente estará em um nível de reflexão mais profundo do que foi visto. E como a outra não viu nada, seja por recusa ou temor do que aquilo poderia despertar nela, talvez a interpretação do fato seja dissonante.
No geral, creio que é problemático qualificar quem consome animais como alguém ruim. Naturalmente, pesamos o sofrimento dos animais, e isso é evidentemente terrível. Porém, se nos entregamos à emoção, facilmente perdemos a razão – como diz o clichê. Sim, não tenho dúvidas de que há pessoas que não teriam problema nenhum em matar animais e comê-los. Talvez até por uma questão de disfunção narcotizante, que neste caso em específico seria a banalização da morte, mas esses não representam a maioria da população. Na realidade, a maioria sequer já teve contato real com animais reduzidos a alimento e produtos. Tenho certeza de que muitas pessoas precisam apenas de uma oportunidade de conscientização, de contato mais profundo com essa questão da exploração animal; de tudo que envolve a redução dos animais a alimentos e outros produtos.
Normalmente me deparo com situações em que pessoas que comem carne ficam surpresas e sensibilizadas com algum fato que envolve a exploração animal. Posso citar como exemplo um caso em que havia um mamilo em um pedaço de bacon e houve bastante comoção. Muita gente apontou hipocrisia nisso, o que não deixa de ser verdade, já que ao comer bacon, você está comendo um pedaço de um porco, um animal com mamilos. Mas, por outro lado, entendo que essa reação também pode ser um indicativo de um choque de realidade que pode instigar conscientização e sensibilidade, enfim, quem sabe, predisposição a uma verdadeira reflexão do que é o sofrimento animal. Sendo assim, vejo nessas pessoas que ficam chocadas uma franca possibilidade de mudança.
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Não é realmente correto relacionar veganismo com religião
Não é realmente correto relacionar veganismo com religião. O veganismo como conhecemos hoje surgiu no ocidente e a sua única defesa é pelos direitos animais. Afinal, não existia nada nos moldes atuais antes do veganismo, e a literatura relacionada aos direitos animais está aí para provar isso.
E se alguém pergunta, mas e as religiões que condenam o consumo de animais? Eu respondo com outra pergunta: Me diga quais religiões que lutaram de fato pela libertação animal? Elas normalmente dialogam com os seus, não com os outros. E mesmo quando seus adeptos não consomem animais, eles não realizam de fato um trabalho abrangente contra a objetificação animal, como o defendido pelos ativistas dos direitos animais.
É um caminho desacertado relacionar vegetarianismo místico ou religioso com veganismo, e simplesmente porque não são a mesma coisa. Uma pessoa pode ser religiosa e vegana, isso é normal, mas não é adequado dizer que sua religião é vegana, porque veganismo não tem nada a ver com religião; porque o veganismo é o reconhecimento do direito animal à vida e a luta pelo abolicionismo animal. E a verdadeira transformação tem acontecido a partir daí.
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A história do ex-palhaço do McDonald’s que se tornou um vegetariano ético
“Meu desejo a todos aqueles que comem carne é que entendam que é possível ser saudável e feliz sem participar da matança de animais inocentes”
Geoffrey Giuliano nasceu em Rochester, Nova York, em 1953. Se graduou em artes cênicas pela Universidade de Nova York e depois concluiu o mestrado na mesma área. Com uma esposa e dois filhos, ele chegou a um ponto em sua vida em que o desemprego e um empréstimo estudantil o levaram a participar de todos os tipos de audições, inclusive de empresas do ramo alimentício que contratavam atores.
A única oportunidade em que viram o seu potencial foi em uma audição do Burger King, onde ele interpretou o Marvellous Magical Burger King, ícone da rede de fast food. “Foi a única oportunidade que apareceu. Minhas crenças eram minhas. ‘Se todo o resto do mundo quer matar uma vaca e comê-la, deixe que façam isso, desde que eu não participe.’ Era assim que eu justificava isso”, explicou Geoffrey Giuliano em entrevista publicada no “Hinduism Today” em março de 1991.
Giulliano já era vegetariano nos anos 1970, embora não por uma motivação verdadeiramente ética como comprova a frase acima. Depois de interpretar o famoso rei em vestes medievais que atraía principalmente crianças para as franquias do Burger King, o ator estadunidense foi contratado entre mais de 600 palhaços para representar Ronald McDonald, o personagem mais famoso da rede McDonald’s.
“Uma das primeiras coisas que me impressionou foi que o núcleo executivo do McDonald’s e a equipe da sua agência de publicidade [que sabiam exatamente como tudo era feito], nunca comiam a comida do McDonald’s. Eles tinham um chefe le cordon bleu, e era só chamá-lo que ele preparava qualquer coisa que eles quisessem”, disse.
Para interpretar o palhaço carismático, Geoffrey Giuliano recebia um salário anual de 50 mil dólares, além de chofer, limusine, um chefe de cozinha a seu dispor o dia todo, um escritório em uma cobertura e uma secretária. “Eu sentia que comer carne era prejudicial à saúde, desnecessário e muito, muito errado. Eu queria me redimir e deixar esse mundo, para sempre. E se eu pudesse ajudar alguém antes, essa seria a única razão para que eu continuasse nesse negócio de Ronald McDonald”, declarou ao “Hinduism Today”.
Giulliano ficou tão famoso como Ronald McDonald que as pessoas o paravam na rua para pedir autógrafo. Em uma carta aberta, ele explicou o motivo do seu desligamento da rede McDonald’s depois de dois anos. “Fui contra tudo em que acredito, vendendo para o gigante corporativista McDonald’s, interpretando Ronald McDonald para milhares de crianças inocentes que confiavam em mim. Também lamento dizer que interpretei o Marvellous Magical Burger King no Nordeste dos Estados Unidos, fazendo um show de mágica para crianças e promovendo as ‘glórias’ de comer carne para a corporação Burger King”, escreveu.
Em junho de 1990, Geoffrey Giuliano, o ex-Ronald McDonald, se juntou a 150 ativistas pelos direitos animais para falar sobre como a matança de animais visando a produção de alimentos não faz o menor sentido. Na ocasião, ele gritou frases como: “Carne é assassinato!” Em publicação do “The Sunday Sun”, de 1º julho de 1990, ele contou que é muito cruel comer animais.
Dez anos depois que deixou o seu trabalho como Ronald McDonald, o ator estava assistindo TV quando viu um anúncio antifumo estrelado por um dos intérpretes do Marlboro Man, que contraiu doença pulmonar por causa do tabagismo. Isso o inspirou a fazer algo a respeito do seu passado. Ele tomou a decisão de criar um show de mágica sem fins lucrativos, para conscientizar as crianças sobre o estilo de vida vegetariano, incentivando-as a respeitarem os animais e o meio ambiente.
“Quero me desculpar por ajudar a fazer lavagem cerebral nos jovens da América do Norte”, declarou. Como Ronald McDonald, Geoffrey Giuliano participou de comerciais e compareceu a muitos eventos do McDonald’s, inclusive inaugurações de franquias entre os anos de 1980 e 1982. O seu show mais conhecido era o “Ronald McDonald Safely Show”, voltado para crianças.
“Eu fazia shows, e todos os shows eram gratuitos, e havia crianças que nunca viram nenhum [tipo de] show em suas vidas. Eles corriam até mim, choravam e riam. As crianças eram maravilhosas. Isso foi o que me impediu [de continuar sendo o Ronald McDonald]”, justificou.
Em entrevista ao documentário “McLibel: Two Worlds Collide”, lançado em 1998 e dirigido por Franny Armstrong e Ken Loach, Giuliano revelou que a ideia era convencer as crianças de que os hambúrgueres não têm nada a ver com uma vaca morta, que eles crescem em um lugar feliz e você apenas os arranca com a ajuda de um cara roxo, do Hamburglar, e todos os outros personagens.
“Eles encobriram esse massacre de animais inocentes como em um conto de fadas. Uma vez fui à fábrica onde as galinhas são ‘preparadas’ para fazer o McNuggets. Elas entravam de um lado vivas e saíam mortas do outro lado. O cheiro era horrível. Havia algo escorregadio e nojento no chão, e você sabia que era um lugar de morte”, enfatizou.
Geoffrey Giuliano, que criou os quatro filhos como vegetarianos, se recordou em entrevista ao “Hinduism Today” que ele tinha muita facilidade para fazer as crianças sorrirem. Em suas visitas como Ronald McDonald ao Hospital de Crianças de Toronto, no Canadá, onde ele visitava pacientes em fase terminal, um dia uma enfermeira disse para ele não entrar em um dos quartos porque o garotinho que ele pretendia visitar estava em coma profundo.
“Bom, se ele está tão distante [em coma profundo], o que pode machucá-lo?”, questionou. Então caminhou até a criança, mexeu em seu nariz, fez um pequeno truque de mágica, sussurrou em seu ouvido e segurou sua mão. “Juro por Deus, ele saiu do coma e sorriu. Foi inacreditável!”, garantiu.
Longe dos holofotes, Giulliano se especializou na produção de biografias e se tornou um autor bem-sucedido. Publicou livros sobre a vida de Paul McCartney, George Harrison e Pete Townshend, além de um livro de entrevistas raras dos Beatles. Em publicação do “Hinduism Today” de março de 1991, ele se desculpou novamente com todos os vegetarianos, principalmente aqueles que, por causa do seu trabalho como Ronald McDonald, tiveram dificuldades em convencer seus filhos a seguirem uma dieta vegetariana.
“Meu desejo é que todos aqueles que comem carne entendam que é possível ser saudável e feliz sem participar da matança de animais inocentes”, destacou.
Referências
Armstrong, Franny. Loach, Ken. McLibel: One-Off Productions e Spanner Films. Two Worlds Collide (1998).
https://www.hinduismtoday.com/modules/smartsection/item.php?itemid=804
http://www.mcspotlight.org/people/interviews/guilliano_geoff.html
http://www.mcspotlight.org/people/witnesses/advertising/guiliano_geoff.html
http://www.thenazareneway.com/vegetarian/ronald_mcdonald_is_now_a_vegetar.htm
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“O reconhecimento do direito animal à vida é isso, não me colocar acima deles quando posso viver bem sem explorá-los”
— Vamos supor que você tenha virado vegano no mês passado, e de repente grande parte da sua muscular construída em anos de musculação está indo embora. O que você faria? Digo isso num cenário hipotético em que não é possível evitar essa perda de massa magra.
— Eu não faria nada. Claro, eu gosto de ter um shape legal, mas isso não é mais importante pra mim do que não comer animais. O que tenho é um corpo que é consequência da minha filosofia de vida. E se uma nova filosofia de vida não permitisse que eu tivesse uma boa massa muscular, sem problema. Pra mim, o reconhecimento do direito animal à vida é isso, não me colocar acima deles quando posso viver bem sem explorá-los. Meu ego e minha vaidade diminuem um pouquinho mais a cada dia. Ter saúde seria o suficiente para continuar trilhando o meu caminho. Isto aqui é uma carcaça que merece cuidados para que eu possa ter uma boa qualidade de vida. Porém, me vejo mais abaixo do que acima, talvez uma consequência natural de um tipo peculiar, ou estranho aos olhos de alguns, de estabelecimento de prioridades.
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“Moço, o que você tanto olha?”
Saí da academia e passei na Praça dos Pioneiros apenas para caminhar. Enquanto eu andava, comecei a observar o céu límpido, onde despontavam inúmeras estrelas. Minutos depois, uma mulher se aproximou:
— Moço, o que você tanto olha? Me mostre também que quero ver.
— Estou olhando as estrelas.
— Só isso? Achei que fosse algo mais interessante.
— Pois é…
O vegetarianismo na vida de Attila Csihar

Csihar: ” “Fiquei terrivelmente apavorado. Foi algo como: “Porra, não sei se quero fazer parte disso”
O vocalista e compositor húngaro Attila Csihar, que se tornou famoso como vocalista da banda de black metal Mayhem, não cansa de surpreender quem não o conhece. Levando em conta o seu perfil performático, sombrio e chocante durante suas apresentações, as pessoas rendidas aos clichês dificilmente imaginam que ele seja vegetariano. Sim, Attila Csihar se tornou vegetariano nos anos 1990.
Em entrevista à Revolver Magazine, ele contou que ficou enojado quando encontrou cabeças e pedaços de suínos no palco em seu primeiro show com o Mayhem. “Fiquei terrivelmente apavorado. Foi algo como: “Porra, não sei se quero fazer parte disso”, relatou.
Csihar explicou mais tarde que com o tempo entendeu que as carcaças de animais sobre o palco refletem a sociedade, a gula humana e a sua relação com os animais, o que pode parecer horrível ou reprovável para muita gente, mas para ele isso apenas reforça um fato cotidiano.
O vocalista e compositor concorda que embora estejamos imersos em uma sociedade acostumada a se alimentar de animais, a maioria rejeita a possibilidade de ter que confrontar uma realidade mais próxima de um matadouro do que de um açougue, onde os pedaços são fatiados e embalados de forma a despersonalizar o que a morte de animais realmente representa.
Antes de tocar no Mayhem, com quem gravou três álbuns entre os anos de 1994 e 2014, Attila Csihar fez parte da banda de black metal Tormentor, fundada em 1984, e que gravou o primeiro álbum “Anno Domini” em 1988. Ele ingressou na banda norueguesa em 1994, após a morte do fundador e guitarrista Oystein Aarseth, mais conhecido como Euronymous, assassinado em 10 de agosto de 1993.
Além do seu projeto Plasma Pool e da sua carreira solo, Csihar também teve passagens por bandas como Aborym, Limbonic Art, Korog, Anaal Nathrakg, Keep of Kalessin, Emperor, Sear Bliss, Sunn O))), Astarte, Ulver, Taake, Burial Chamber Trio e Grave Temple, entre outras. Ele também é conhecido por suas máscaras peculiares, como as criadas pelo egípcio Nader Sadek, que já assinou a direção de efeitos visuais dos shows do Mayhem e de seus projetos.
Saiba Mais
Attila Csihar nasceu em Budapeste, na Hungria, em 29 de março de 1971.
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Para o escritor Pat Condell, dizer que alguns vegetarianos comem peixe é como dizer que alguns budistas adoram Alá
Pat Condell se tornou vegetariano em 1978 depois de testemunhar o abate de um cervo

Condell: “Nós nos tornamos nossas crenças e as vestimos como se fossem roupas, e é fácil imaginar que tudo é como deve ser até você confrontar a realidade”
O escritor e comediante irlandês Pat Condell se tornou vegetariano em 1978, quando testemunhou um cervo sendo abatido. Desde então, não quis mais saber de comer nada de origem animal. “Foi uma das melhores coisas que fiz”, admite.
Em seu site, ele conta de forma bem-humorada que não entende porque todos os seres humanos não são vegetarianos. “Nós nos tornamos nossas crenças e as vestimos como se fossem roupas, e é fácil imaginar que tudo é como deve ser até você confrontar a realidade”, ponderou.
Condell já passou por muitas situações inusitadas e desconfortáveis por ser vegetariano. Ele se recorda de uma vez em que foi até um restaurante e percebeu que não havia nada para vegetarianos, a não ser uma simples salada. “Ah, vamos lá! Certamente você pode ter um frango. Tem um cérebro tão pequeno que é praticamente um vegetal”, respondeu o garçom.
Sobre experiências em consultórios médicos, o escritor também não tem recordações muito boas. Segundo Pat Condell, se você contar ao seu médico [que reprova o vegetarianismo] que você é vegetariano, você pode ouvi-lo mentalmente o reprovando. “É como dizer a um padre que você se converteu ao islã”, ironizou.
O escritor afirma que raramente vai ao médico, já que dificilmente fica doente. Ele não sabe se isso tem relação com o fato de ser vegetariano, mas logo emenda: “Acho que tem sim. Posso ficar anos sem pegar um resfriado, e sempre me sinto muito bem. Hurra! para mim e passe-me os brotos de feijão”, enfatizou em tom bem-humorado.
Depois de tanto perguntarem sobre o motivo que o levou para o vegetarianismo, um dia Pat Condell decidiu dar uma resposta imprevisível. Questionado pela médica se ele é vegetariano pela saúde ou por razões morais, ele respondeu: “ Nenhuma! Faço isso apenas para irritar as pessoas.”
Outra questão que sempre o incomodou é o fato de encontrar pessoas sempre insistindo para que ele coma peixe, ovos e queijo:
— Você come peixe?
— Não.
— Alguns vegetarianos comem.
— Isso é como dizer que alguns budistas adoram Alá.
— E sobre ovos?
— Não.
— Queijo?
— Sinto muito.
— Não é um pouco extremo?
Pat Condell usa esses exemplos, que ele apresenta de forma cômica, para mostrar como há tantas pessoas, inclusive bem instruídas, que até hoje não sabem como é a alimentação de um vegetariano, e, segundo ele, muitas vezes por desinteresse.
Saiba Mais
Pat Condell nasceu em Dublin, na Irlanda, em 23 de novembro de 1949.
Em 2010 e 2012, ele publicou os livros “Godless and Free” e “Freedom is My Religion”.
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“Fat, Sick & Nearly Dead”, um documentário em que vidas são transformadas pela alimentação vegetariana

Documentário mostra homens perdendo dezenas de quilos se alimentando de frutas e vegetais (Arte: Reprodução)
Se você tem dificuldade de perder peso ou algum problema sério de saúde, recomendo que assista “Fat, Sick & Nearly Dead”, do australiano Joe Cross, na Netflix. O documentário conta a história de homens obesos que perderam dezenas de quilos simplesmente fazendo refeições líquidas à base de vegetais e frutas. São transformações incríveis e acompanhadas por profissionais da área de saúde. Eles conseguiram se livrar não apenas de graves doenças, mas também de todos os medicamentos que consumiram por anos e anos. Vale a pena. É uma baita lição.
Google lança vídeo denunciando o papel da pecuária no desmatamento da Amazônia
Este mês, o Google lançou um vídeo em seu canal no YouTube intitulado “Eu Sou Mudança – Consumo Consciente”. O trabalho bastante objetivo, que não chega a um minuto e meio de duração, denuncia, de maneira bem simples e didática, como a pecuária tem contribuído com o desmatamento na Amazônia. Ao final, enfatiza que “o desmatamento pode estar no prato de quem consome carne”, relacionando esse hábito com o impacto ambiental.
De acordo com o vídeo, na Amazônia, mais de 750 mil quilômetros quadrados de floresta foram destruídos, dois terços foram transformados em pasto, o equivalente ao tamanho da Espanha. Tudo começa assim, uma pequena estrada de terra é aberta na floresta, por onde entram madeireiros interessados no corte das árvores com maior valor comercial. Quando acabam de cortar, e deixam a área, chega o fazendeiro de gado pela mesma estrada, corta todas as árvores remanescentes e bota fogo em tudo para fazer pasto.
Aí o gado se espalha, em uma imensidão de território só ocupado por ele. Segundo informações do filme, a pecuária extensiva ainda é a maior responsável pela derrubada de floresta na Amazônia brasileira. É um ciclo vicioso. Após a derrubada da floresta, o pasto se degrada rapidamente, exigindo assim novas aberturas na floresta.
O vídeo diz também que 38% de toda a carne produzida no Brasil vem da Amazônia. Somos o maior exportador de carne do mundo. “Não seria exagero dizer que o desmatamento pode estar no seu prato. Até agora já são 20% de toda a Amazônia que se foi. Todo esse pasto, e pensar que era tudo floresta”, termina.
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“Por que você acha que as pessoas consomem alimentos de origem animal?”

Dos trabalhos old school da artista plástica britânica Sue Coe, este é um dos meus preferidos: “It’s a Picnic”. De um lado, animais confinados e sendo açoitados. Do outro lado, pessoas se confraternizando. Essa arte sintetiza o desinteresse humano em fazer alguma diferença na vida dos animais, ignorando à sua volta até mesmo um cenário de privação, sofrimento e morte.
— Por que você acha que as pessoas consomem alimentos de origem animal, mesmo quando reconhecem que estão se alimentando de animais mortos?
— Eu vejo três aspectos importantes para entender um pouco essa questão. O primeiro é um fator historicamente cultural, ou seja, o distanciamento da ideia de que um animal não é um produto. E claramente isso foi reforçado a partir da Revolução Industrial no século 18, se estendendo em proporções aberrantes até os dias atuais. É até interessante tocar nesse ponto porque o vegetarianismo, ou melhor, o vegetarianismo ético, começou a ser formatado nos moldes atuais exatamente nesse período, o que pode ter sido inclusive uma reação a um novo nível de banalização da vida.
Mas voltando à questão, vejo que antigamente não era incomum os criadores terem algum tipo de vínculo ou afinidade com os animais. Na realidade, no Brasil, por exemplo, isso era muito comum até os anos 1970, pelo menos no interior do país. Sei disso porque parte da minha família veio do meio rural. Mas essa afinidade, mesmo quando culminava ou culmina na morte do animal reduzido a produto, era e é limitada, limitada por uma crença de que se você ver inúmeras semelhanças entre você e um animal, você não é capaz de matá-lo. Talvez de mandar que alguém o mate, dependendo dos níveis de conexão e desconexão.
Ainda assim, eu diria que pode ser bem difícil você atentar contra a vida de um animal depois de reconhecer, talvez até mesmo por identificação, que ele é um ser de direitos com necessidades que pareçam similares às humanas, embora não signifique que sejam. Digo isso porque devemos considerar que cada animal tem a sua própria complexidade enquanto ser vivo. Sobre a desconexão, um exemplo que posso citar baseado em uma realidade histórica regional é que se evitava dar nomes aos animais, principalmente nomes humanos. Também não era recomendado manter contato diário que fosse além do essencial, como alimentá-los. E aqui eu falo da realidade dos pequenos criadores. Porque nas médias e grandes propriedades já havia claramente toda uma estrutura que permitia um distanciamento muito maior.
Afinal, dependendo da quantidade de animais concentrados em uma área, é mais fácil não encará-los como “sujeitos de uma vida”, termo cunhado pelo filósofo Tom Regan. Não tenho dúvida de que para que a morte dos animais continue sendo perpetuada, é preciso que a desconexão seja predominante, e muitas vezes essa desconexão é baseada na ideia de que o animal está cumprindo o seu papel, que é servir como comida, logo há quem encare isso como um ato de nobreza, mesmo que mascarado por uma falsa premissa. Sem essa desconexão, se você se permitir entender o quanto a vida de um animal é importante para ele, assim como a sua é para você, as chances de você matá-lo ou comê-lo diminuem consideravelmente. Qualquer pessoa que experimenta não apenas o entendimento, mas a sensibilidade do que é a vida não humana, tem grandes chances de não querer mais tomar parte nessa desnecessária exploração animal.
O segundo aspecto que considero relevante é a dissimulação da informação. Conheço muitas pessoas de grande sensibilidade, mas que estão imersas no fator cultural da legitimação da exploração animal. Mas sei, baseado no que vejo, que muitos desses irão abdicar disso no futuro. Porém, ainda não o fizeram porque têm dúvidas, inclusive medo, sobre as consequências dessa decisão. Ainda assim, não tenho a menor dúvida de que aos poucos isso vai melhorando, conforme mais e mais informações forem compartilhadas, e os mitos derrubados. Acredito que a única ferramenta para reverter isso é a conscientização, que naturalmente varia de acordo com o emissor e seu nível de informação. Temos inclusive literatura voltada para a educação vegana, o respeito aos animais para além do especismo.
É perceptível o receio das pessoas em tornarem-se vegetarianas ou veganas, um temor que desde o princípio do século 20 é alimentado por muita propaganda que existe não exatamente para garantir o bem-estar da população, mas para manter o status quo das grandes indústrias que atuam no ramo da exploração animal. E qual é o maior exemplo da eficácia dessa propaganda? Quando se tornam parte do ensino. Ou seja, invadem escolas e universidades como vemos há muito tempo. O que as instituições de ensino repercutem, quando ajudam a reforçar a falsa necessidade da exploração animal, é uma versão supostamente educativa da publicidade e da propaganda que ganhou muita força no século 20. Compare a propaganda com a educação nesse aspecto da objetificação. Basicamente é a mesma coisa, o que muda é apenas a linguagem. Afinal, se houvesse uma forte crença do quanto é desnecessário consumir, por exemplo, carne, leite, ovos, o que as grandes indústrias fariam? Elas não teriam como se sustentar no mercado, porque elas dependem de uma aprovação massiva, que poderia sair de controle com uma perda acentuada de consumidores.
Não tenho dúvida de que no entendimento da indústria da exploração animal, é preciso bombardear a população com informações diárias e constantes sobre a importância do consumo de alimentos de origem animal, o que obviamente é uma falsa necessidade, já que vegetarianos e veganos saudáveis são a prova disso. Sem propaganda, a indústria da exploração animal não seria o que é. E ela tem a seu favor o fato de que ainda podemos encontrar muita, muita gente mesmo, que nunca viu um porco vivo à curta distância, assim como um boi ou qualquer outro animal reduzido a produto, o que dificulta o processo de empatia e reconhecimento de direitos não humanos. Isso é mais comum do que podemos imaginar. E facilita bastante a dissociação entre vida, morte e comida.
É fácil encontrar pessoas no mercado que não sabem a origem do presunto, quero dizer, de qual animal esse suposto alimento é proveniente. Isso mostra o quão imersos estamos em uma realidade preocupante, em que muitas vezes as pessoas não se importam, de fato, com o que consomem e as implicações disso, seja para outros seres ou até mesmo para nós. E por que isso acontece? Porque eles acreditam cegamente na indústria. Não há realmente um questionamento contundente. Quando ele existe, se volta mais para a “qualidade do produto”, não para o que ele realmente é.
O terceiro aspecto é o paladar, que também está relacionado com o aspecto cultural e a dissimulação da informação. As agências de publicidade conseguem despertar um anseio no espectador ao trabalhar imagens positivas, repletas de cores associadas ao prazer da alimentação baseada na exploração animal – o que podemos interpretar como um efeito sinestésico. Além disso, sempre apresentam animais como seres felizes e caricatos ao darem sua vida para alimentar seres humanos, se enquadrando no que costumo chamar de “dissimulação estética”. E qual animal seria feliz em morrer para alimentar alguém? Obviamente, nenhum, já que isso não acontece nem mesmo na savana, imagine então no contexto da indústria de carnes, laticínios e ovos, onde muitos animais são condicionados à exploração intensiva, privados de uma vida livre da má intervenção humana.
É preciso considerar também que o paladar é um prazer sensorial que há muito tempo dita alguns hábitos da humanidade. Como lidar com o paladar quando falamos de exploração animal? Bom, o paladar só pode ser associado ao prazer se entendermos que o que estamos consumindo é plenamente satisfatório, sem levantar muitas dúvidas e questionamentos que coloquem esse hábito em xeque a ponto de propor uma real mudança. E não há como algo ser satisfatório se a sua mente trabalha contra isso. Portanto, isso explica por que vegetarianos e veganos muitas vezes têm esse prazer anulado ou neutralizado.
Até porque torna-se impossível não ver os animais que deram vida àqueles “produtos” nas vitrines dos açougues e nas seções de frios, por exemplo. Claro que nem todos são assim. Há quem sinta falta de alguns produtos de origem animal. No entanto, com o passar do tempo esse anseio vai desaparecendo cada vez mais, quem sabe, até se extinguir completamente. Ainda assim, é importante reconhecer que substituir o prazer da gustação, seja motivado por compaixão ou razão, é uma demonstração de que o paladar está abaixo de valores mais importantes como a valorização da vida não humana. Afinal, você associa produtos de origem animal com exploração, privação, sofrimento e morte.
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