David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Vegetarianismo/Veganismo’ Category

O atleta e a vaquejada

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“Isso significa que o seu esporte é puxar violentamente o rabo de um animal?”

— O que você faz?
— Sou atleta.
— Sério mesmo?
— Sim…
— Qual esporte você pratica?
— Vaquejada.
— Isso significa que o seu esporte é puxar violentamente o rabo de um animal?
— Sim…
— Mas o animal consentiu? Ele disse a você que gostaria de sentir dor?
— Não…
— Então como isso se enquadra em esporte?
— Não tenho a mínima ideia.

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O boi e o menino

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Arte: Juan Bosco

Dirigindo pelas estradas de Alto Paraná, perto da Água do Cedro, encontrei um menino andando lado a lado com um boi. Encostei o carro, desci, pedi uma informação e perguntei se ele morava longe. Então o garotinho de nove ou dez anos apontou uma porteira aberta e uma casa de madeira no horizonte à sua direita. A postura e os olhos daquele boi me fizeram suspeitar que havia algo realmente incomum sobre ele.

— E esse boi? Ele mora com vocês?
— Sim, senhor.
— Vocês estão passeando?
— Isso mesmo. Como o senhor sabe?
— É que lá de trás vocês já pareciam companheiros. E agora, de perto, vi que esse boi não tem nenhuma marca no corpo.
— Pra que marcar o bicho, né? Eu que não quero ter o couro marcado. Acho que ninguém quer, né?
— Pois é. Realmente…
— Vocês passeiam sempre?
— Ah, não. Só quando ele quer.
— E como você sabe quando ele quer?
— Ele encosta na porteira, e esfrega a orelha. Meu pai diz que ele faz isso desde criança.
— Desde criança?
— Isso.
— Quantos anos ele tem?
— Ah, ele tem 21.
— Nossa! Incrível!
— É o que todo mundo diz – comentou sorrindo.
— Forte desse jeito? E como ele viveu tanto?
— Não sei dizer não, senhor. Deve ser porque a gente nunca judiou dele, deixa ele bem solto no pasto.
— Isso é bom.
— É sim.
— Vocês nunca pensaram em abater ele?
— Não, senhor. Que isso! O Mestre é da família, é bicho que nem a gente.
— Vocês não comem carne?
— Não. A gente só mexe com horta e pomar. Meu vô, meu pai e minha mãe falam que comer o que não nasce de novo não presta. Tá certo não.
— Ninguém da sua família come carne?
— Não, ninguém.
— Sempre foi assim?
— Não. Foi por causa de uma coisa que aconteceu com o bisa antes do meu pai nascer.
— O que aconteceu?
— Meu bisavô tinha um cemitério no fundo do sítio dele. Um dia, uma vaca entrou lá e empurrou um pedaço de bife dentro de um buraco. Depois ela arrastou a terra com a pata pra cobrir o bife. O bezerro dela tinha sido levado fazia acho que duas semanas. Então o bisa chorou quando viu e prometeu nunca mais comer carne, nem mexer com isso. Essa história a gente escuta desde bem pequeno.

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Quem é vegano vem de onde?

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Pintura: David Stribbling

Enquanto eu aguardava o fim do trânsito interrompido na saída da cidade, duas moças em uma moto encostaram ao meu lado e começaram a rir. A de trás riu primeiro e cutucou a moça da frente. Tive a impressão de que elas estranharam o fato de eu ouvir música ocidental. Tímido, mantive meus olhos em direção ao horizonte, até que uma delas decidiu falar.

— Oi!
— Oi…
— Desculpe a indiscrição, mas você é turco, moço?
— Não…
— O que você é?
— Sou vegano.
— Quem é vegano vem de onde?
— Do Veganistão.
— Humm…
— É longe?
— É sim.
— Onde fica?
— Na região da Veganícia, na porção setentrional da Eurásia.
— Como é lá?
— Ah, é um lugar onde é proibido explorar, matar e comer animais. Para nós, todos os animais são sagrados.
— Existe mesmo um lugar assim? Nunca imaginei.
— Existe sim. Quem explora animais no Veganistão é preso ou punido com chibatadas, dependendo da gravidade do crime.
— Sério mesmo?
—É sim.
—Que cultura diferente! Que povo radical!
— E vocês comem o que lá?
— Tudo que não venha de animais.
— Diferente isso. Faz tempo que você mora aqui?
— Sim, tem anos.
— Imaginei. Você quase não tem sotaque de estrangeiro.
— É?
— É sim.
— Fale alguma coisa em vegano pra gente.
— Como?
— Falar alguma palavra ou frase em vegano.
— Životinje nisu hrana [Os animais não são comida]
— Nossa! Olha como fiquei arrepiada. Você ouviu o que ele falou? Parece poesia. Ah, seja bem-vindo, moço.
— Obrigado.
— De nada.





Sobre ser contra algumas formas de exploração e desconsiderar o veganismo

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Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals

É estranho ser contra diversas formas de exploração e ainda assim considerar o veganismo como algo impraticável ou impossível. Quero dizer, se me alimento de animais, e tenho acesso à informação sobre as variantes da exploração de seres sencientes, devo reconhecer que se compro um pedaço de carne isso significa que algum ser vivo passou por privação ou sofrimento, ou os dois; senão aquele pedaço não chegaria às minhas mãos.

Claro, posso defender algumas bandeiras contrárias a alguns tipos específicos de exploração, mas analisando como um todo, as minhas contrariedades seriam pontuais, e em alguns casos até paradoxais e convenientes, já que é mais fácil defender aquilo que nos atinge primariamente.

Eu não acharia justo eu fazer um discurso sobre exploração, igualdade e equidade, por exemplo, em um churrasco convencional. Quero dizer, enquanto me alimento de animais. Mas por que? Simplesmente porque eu me sentiria invalidando o meu próprio discurso. Claro, esse é o meu entendimento, e a minha perspectiva. Não vendo verdades; apenas estimulo reflexões.

Alguém que é contrário a algumas formas de exploração poderia alegar que não vive sem carne. Não, não vivemos sem a nossa própria carne, ou seja, do nosso corpo, assim como qualquer animal não humano. É por isso que não existe carne sem morte, embora muita gente ainda resista a fazer tal associação. Não há como negar que um pedaço de carne que se consome é mais do que o simbólico fim de uma vida. Representa a negação à plena existência, e até mesmo à existência verdadeiramente pacífica.

 





Written by David Arioch

June 10th, 2017 at 9:04 pm

“Também num gosto de carne”

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Pintura: Xueling Zou

Enquanto eu aguardava atendimento em um escritório de advocacia, um garotinho bastante animado, com seus cinco ou seis anos, me observava com um olhar de curiosidade.

— Qual é o seu nome, tio?

— David e o seu?

— Bruno…

— Você é forte, né, tio?

— Eu tento…

— É sim!

— Você deve comer muita carne pra ser forte assim…

— Por que você acha isso?

— Por que minha mãe diz que a gente precisa de carne pra ficar forte. Ah, então acho que você come muita carne.

— Não como não…

— É?

— É sim…

— Não precisa?

— Não, não preciso, ninguém precisa. Só que tem que comer direitinho pra não faltar nada, porque se você não come carne e fica doente as pessoas vão falar que é porque você não come carne. Então tem que se cuidar.

— Também num gosto de carne. Vou falar de você pra minha mãe, tio, e ver se ela deixa eu não comer também.

A secretária assistiu tudo e achou graça da nossa conversa. Quando os pais de Bruno saíram de uma das salas, ele se aproximou deles:

— Mãe, olha aquele tio ali, ele é forte e não come carne. Você disse que quem não come carne morre.

Com um sorriso amarelecido, a mãe não disse nada e o pai riu. Em segundos, atravessaram a recepção em direção à saída. Bruno sorriu mais uma vez.

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Written by David Arioch

June 6th, 2017 at 3:19 pm

Hitler não era vegetariano nem amante dos animais

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Hitler não era vegetariano nem amante dos animais (Foto: Reprodução)

Rynn Berry é um dos maiores pesquisadores dos Estados Unidos quando se fala na história do vegetarianismo e em figuras históricas que eram vegetarianas. Levando em conta que existe um mau hábito na internet de disseminação de inverdades como forma de tentar invalidar o vegetarianismo e o veganismo como escolha natural por parte de pessoas que não concordam com a exploração animal, acho importante dizer que não, o ditador Adolf Hitler nunca foi realmente vegetariano nem amante dos animais. E as provas disso estão no livro “Hitler: Neither Vegetarian Nor Animal Lover”, de autoria de Rynn Berry, e publicado em 2004. Na obra, ele apresenta registros dos hábitos alimentares de Hitler ao longo de sua vida.





Matamos 292 milhões de bovinos por ano

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Foto: Marvin Bredel

Matamos 292 milhões de bovinos por ano. Os olhos deles são como os nossos. Brilham, refletem, revelam medo, terror, ânsia pela vida. A carne que se come custou o fechamento definitivo desses olhos, que já não verão os seus, a luz do dia, o cair da noite. Basicamente, não verão nada. Serão simplesmente descartados como pedaços de imundície.





Written by David Arioch

June 5th, 2017 at 12:36 am

Os animais não matam por um prazer sádico

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Foto: Defenders.org

Um exemplo clássico da conduta humana cotidiana em minimizar o valor da vida animal é dizer que os piores assassinatos parecem trabalho de animais, pela ausência de piedade. Porém, os animais não fazem isso por um prazer sádico, ao contrário de quem comete um assassinato bárbaro.

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Written by David Arioch

June 3rd, 2017 at 8:54 pm

A respeito dos meus textos sobre veganismo

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Se eu sensibilizar ou levar uma pessoa a ver o veganismo com bons olhos, já terá valido a pena (Foto: SHS Maroon)

Se eu sensibilizar ou levar uma pessoa a ver o veganismo com bons olhos, já terá valido a pena. Não sou o tipo de pessoa que escreve tentando impor nada a ninguém, até porque acho que esse não é o caminho. Se uma pessoa tem uma reação negativa aos meus textos, entendo apenas que pelo menos naquele momento ela não tem nenhuma inclinação ao veganismo ou a refletir sobre a exploração animal.

Talvez isso mude, talvez não. Discutir desnecessariamente ou brigar por causa disso não faz nenhum sentido pra mim, simplesmente porque vencer uma discussão significa apenas que alguém apresentou melhor estrutura de ideias e argumentos, o que não quer dizer exatamente que houve sensibilização ou conscientização. O ser humano é muito complexo, e vencer uma discussão pode ser algo interessante e positivo, mas também pode ser uma vitória solitária.

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Sócrates e o consumo de carne como símbolo da injustiça e das desigualdades

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A redução dos animais à comida seria um gatilho para minar as condições de construção de uma sociedade mais justa

Sócrates: “Esse hábito de comer animais não exigiria que abatêssemos animais que conhecemos como indivíduos” (Arte: Reprodução)

Um dos fundadores da filosofia ocidental, o filósofo ateniense Sócrates ficou conhecido principalmente pela sua contribuição no campo da ética e da epistemologia. Suas crenças e ideias tornaram-se mundialmente famosas por meio de seus diálogos e discursos registrados por seus discípulos Platão e Xenofonte. Embora não seja possível afirmar se Sócrates foi vegetariano ou protovegetariano, na obra “A República”, escrita por Platão, está clara a sua preocupação sobre as consequências do consumo de carne e da exploração animal, além das implicações desse hábito na saúde humana.

Na página 77 de “A República”, Sócrates comenta com Glauco que levando em conta a forma como as pessoas viviam nas cidades, logo seria considerada imprescindível a criação de gado de todos os tipos. “Mas, levando este tipo de vida, teremos necessidade de muito mais médicos do que antes”, diz Sócrates a Glauco, que concorda com a associação do consumo de carne com o surgimento de problemas de saúde.

Sócrates também critica o hábito dos pastores da época de treinarem os cães para auxiliá-los no trabalho com os rebanhos de carneiros, reconhecendo que esse costume poderia endurecer a natureza dos animais, excitando a intemperança dos cães e tornando-os seres brutos. “A fome ou qualquer hábito vicioso os levaria a fazer mal aos carneiros e a tornarem-se iguais aos lobos [que apenas agiam instintivamente] dos quais os deveriam proteger”, declarou o filósofo ateniense na página 147 de “A República”. A observação de Sócrates revela uma preocupação com o fato da humanidade subverter a natureza animal para benefício próprio.

Na segunda parte de “A República” Platão apresenta Sócrates como um sujeito preocupado com as implicações morais do abate de animais, embora ele demonstre que, primariamente, o que o incomodava era a possibilidade de que o consumo de animais pudesse corromper cada vez mais a humanidade, a distanciando de sua natureza justa e complacente. “Esse hábito de comer animais não exigiria que abatêssemos animais que conhecemos como indivíduos, e em cujos olhos poderíamos olhar e ver-nos refletidos, apenas algumas horas antes de nossa refeição?”, questiona, ao que Glauco responde prontamente: “Esse hábito exigiria isso de nós.”

A coisificação dos animais não humanos é apontada por Sócrates e Glauco como algo capaz de impedir a humanidade de alcançar a felicidade. “E, se seguirmos esse modo de vida, não teremos de visitar o médico com mais frequência?”, questiona o filósofo, que recebe a confirmação de Glauco: “Teríamos tal necessidade.” Sócrates prevê ainda que o hábito de comer animais e criá-los com a finalidade de vendê-los transformaria o ser humano em alguém não somente ambicioso, mas ganancioso a ponto de espoliar propriedades vizinhas para ampliar suas pastagens:

“Se nosso vizinho seguir um caminho semelhante, não teremos que ir à guerra contra o nosso próximo para garantir maiores pastagens? Porque as nossas não serão mais suficientes para o nosso sustento, e nosso vizinho terá a mesma necessidade e entrará em guerra conosco?” Glauco corrobora o receio do ateniense ao confirmar que sim, deixando subentendido que a humanidade se tornaria mais suscetível à decadência e às tentações de uma sociedade imersa em desigualdades. Para Sócrates, a redução dos animais à comida seria um gatilho para minar as condições de construção de uma sociedade mais justa – e um distanciamento cada vez mais crescente da forma mais genuína de felicidade.

Essas reflexões de Sócrates envolvendo a exploração animal e o consumo de carne vão ao encontro do estudo da virtude. Ele dizia que é mais importante a busca do desenvolvimento humano do que a busca pela riqueza material – um dos principais motivos da exploração de animais enquanto produtos. Sócrates acreditava tanto nisso que nem mesmo quando foi sentenciado à morte por questões políticas, segundo as obras “Apologia” e “Críton”, de Platão; e pessoais, de acordo com Xenofonte, cogitou curvar-se ao júri ou fugir em vez de enfrentar a injusta condenação. Nascido em 470 a.C., Sócrates, que preferiu à morte ao exílio, faleceu em 399 a.C, depois de ser obrigado a ingerir cicuta após 30 dias preso.

Referências

Platão. A República. Nova Fronteira (2014).

Platão. A República – Parte II. Escala Educacional (2006).

The Republic of Plato. Translation by F. Sydenham and T. Taylor, revised by W.H.D. Rouse. With introduction by Ernest Barker. London – Methuen (1906).

Kofman, Sarah. Socrates: Fictions of a Philosopher (1998).

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