David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Alimentação’ tag

“Cara, não consigo gostar de comida vegana”

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“Porque isso é alimentação vegana, e você acabou de falar que não gosta disso”

— Cara, não consigo gostar de comida vegana.
— Sério mesmo?
— É sim…é muito estranha. Acho que não é pra mim…
— Por quê?
— Muita privação. Não consigo viver sem ter uma alimentação bem diversificada.
— Então vamos tirar esse arroz, feijão, tomate seco, palmito, couve, brócolis, ervilhas e cabotiá do seu prato. E também esse suco de laranja puro. E deixemos você só com a carne. Que tal?
— Por quê?
— Porque isso é alimentação vegana, e você acabou de falar que não gosta disso.
— Não, cara. Isso é comida normal, de quem come carne.
— E o que você acha que veganos comem?
— Não sei. Coisas estranhas, incomuns.
— Não, meu camarada. Veganos comem tudo aquilo que não envolve ingredientes de origem animal. Na nossa alimentação as possibilidades de variedade são imensas. Basta pensar da seguinte maneira – se uma pessoa não se alimenta de animais, o que resta? Uma infinidade de sabores. Agora me diga o que você consome no café da manhã.
— Aveia, banana, whey protein, cacau em pó…
— Substitua o whey protein por proteína vegetal e temos uma refeição para veganos.
— É?
— Sim, sem dúvida alguma.
— O que você come depois?
— Lá pelas nove e meia, normalmente como pão integral com queijo ou com ovo, e tomo um copo de leite.
— Entendi. Você pode manter o pão integral, caso ele não tenha nada de origem animal. Mas substitua o queijo por pasta de amendoim, ou, se preferir, por tofu ou outro tipo de queijo vegetal, que podem ser inclusive preparados em casa. Posso ensinar como fazer isso gastando o mínimo possível. Também troque o leite de vaca por leite vegetal. Isso é alimentação vegana.
— Me parece mais simples do que imaginei.
— Pois é…

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Written by David Arioch

July 13th, 2017 at 9:27 pm

Eu e a minha alimentação

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Comecei a me preocupar mais com a minha alimentação há pouco mais de dez anos (Foto: Reprodução)

Peso 90 quilos, com não mais do que 10% de gordura corporal. Tenho demandas energéticas muito elevadas, metabolismo acelerado. Dizem que meu biotipo é predominantemente mesomorfo. Mas a minha alta demanda de micro e macronutrientes tem relação com o fato de eu praticar atividades físicas de alta intensidade diariamente (principalmente musculação) há mais de dez anos.

Nunca fui obeso. Não tenho facilidade em acumular gordura. Preciso comer muito para ganhar gordura, o que só acontece em fase de bulking (ganho de massa muscular). Minha alimentação é boa. Sou saudável e não consumo nada de origem animal. Nunca fico doente, nunca tive nenhum problema grave de saúde. Pensando bem, me recordo que tive dengue há alguns anos, mas meu sistema imunológico respondeu tão bem que continuei treinando diariamente mesmo com dengue.

Me questionaram recentemente sobre o motivo de eu não seguir uma dieta crudívora. Simplesmente porque o crudivorismo não combina com o meu estilo de vida. Respeito quem vai por esse caminho, mas não é o meu, ainda mais em fase de bulking. Não demonizo alimentos cozidos, porque na minha opinião isso não faz sentido. Assim como não vejo motivo para demonizar glúten, caso a pessoa não seja celíaca. Falo isso como alguém que não é nutricionista, mas que conquistou todos os resultados quanto à estética e saúde por conta própria ao longo dos anos. Então pelo menos quanto ao meu corpo e organismo, sei o que estou falando, já que realizo exames de rotina a cada seis meses – e está tudo muito bem.

Há pessoas que me perguntam às vezes porque as minhas receitas têm valores nutricionais detalhados. Simplesmente porque peso tudo que como há anos. Hoje não faço isso toda hora porque decorei os valores nutricionais de dezenas de alimentos. O tempo facilita isso. Sei quais são minhas necessidades diárias de glicídios, proteínas e lipídios. Me alimento seis vezes por dia, porque é o que funciona melhor pra mim. E isso não tem relação com a “teoria do metabolismo acelerado”.

Basicamente, sempre fui um cara disciplinado. E sobre as receitas que publico em meu blog Vegaromba, de culinária, bom, às vezes alguém diz que algumas são “porcarias”. Aí depende muito do que você come, quanto come e com qual objetivo. Algumas eu como ocasionalmente no que chamo de “Dia do Lixo”, que alguns não gostam, mas outros gostam. Sou um dos que gostam, até para “quebrar a dieta”. As minhas receitas são elaboradas atendendo a um objetivo específico. A maioria, mesmo aquelas do Dia do Lixo, têm alguma finalidade, não são combinações aleatórias de calorias vazias, e mesmo que fossem não vejo nada de errado, desde que não sejam parte da minha rotina alimentar.

 

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Written by David Arioch

May 29th, 2017 at 3:06 pm

Quantas vezes comi no McDonald’s na minha vida?

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Consigo contar nos dedos das duas mãos quantas vezes entrei em algum estabelecimento das grandes redes de fast food (Foto: Reprodução)

Quantas vezes comi no McDonald’s na minha vida? Nenhuma. Consigo contar nos dedos das duas mãos quantas vezes entrei em algum estabelecimento das grandes redes de fast food. Claro que isso é algo pessoal, mas me recordo que quando eu era bem mais jovem sempre encontrava pessoas tentando fazer com que eu me sentisse alienado por isso.





Written by David Arioch

May 21st, 2017 at 4:30 pm

Ativista vegano de 12 anos tem chamado a atenção no Canadá

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Daniel: “Seu corpo é o seu templo, então você precisa comer os alimentos certos”

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Daniel Bissonnette é vegano desde que nasceu (Foto: Divulgação)

Aos 12 anos, o estudante Daniel Bissonnette está se tornando um dos mais conhecidos ativistas veganos do Canadá. Depois de passar oito anos sendo chamado de “garoto estranho” por causa da sua alimentação livre de ingredientes de origem animal, atualmente, sempre que possível, ele viaja pelo país compartilhando suas experiências com o veganismo.

Depois de sofrer preconceito por alguns anos, na 3ª série uma de suas professoras o convidou para fazer uma apresentação para a classe, falando sobre sua alimentação e os benefícios do veganismo. “A senhora Stanley veio até mim e disse que seria uma ótima ideia. Percebi que eu tinha certas capacidades que outras crianças não tinham, certas forças que vêm da forma como me alimento”, relatou a David Bell, da CBC News.

Nem por isso Daniel se vê como melhor que as outras crianças, porém, ele declarou que por meio de uma alimentação vegana suas habilidades cognitivas estão melhores do que nunca – seu cérebro tem adquirido o combustível certo. Os três alimentos mais importantes na alimentação do garoto são mirtilo, óleo de coco e cacau. “Que é do que todo chocolate é feito. [Esses alimentos] estimulam a memória, o foco e a concentração, então você pode dar o seu melhor em um exame escolar ou em um projeto em que esteja trabalhando”, declarou.

Bissonnette, que vive perto de Vancouver, importante cidade litorânea da Colúmbia Britânica, deixa claro que seu maior objetivo é inspirar outros jovens a mudarem sua alimentação e a sentirem o impacto positivo do veganismo. “Estou realmente apaixonado por ensinar as crianças a comerem um café da manhã saudável, porque eu sei que muitas têm medo de que outras crianças zombem delas por se alimentarem assim”, comentou.

Daniel, que é vegano desde que nasceu, tem compartilhado suas experiências se pautando principalmente em uma alimentação saudável e livre de ingredientes de origem animal. Segundo ele, as crianças são muito negligentes em relação ao café da manhã, que é uma refeição de extrema importância no rendimento cotidiano. “Seu corpo é o seu templo, então você precisa comer os alimentos certos e, se seus amigos o chamarem de estranho, encontre melhores amigos”, recomendou em entrevista a David Bell.

Saiba Mais

Daniel Bissonnette tem se apresentado em eventos veganos e vegetarianos e feito o seu ativismo em canais de mídia social. Ele também publicou um livro intitulado “Daniel’s Breakfast Burst”.

Referências

http://www.cbc.ca/news/canada/calgary/daniel-bissonnette-calgary-health-show-1.3999718

http://vegnews.com/articles/page.do?pageId=9117&catId=1

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Written by David Arioch

March 14th, 2017 at 12:06 pm

Por que as pessoas suplementam vitamina B12?

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Antigamente, o ser humano não precisava suplementar vitamina B12 porque a terra não era comprometida, havia grande disponibilidade de bactérias fornecedoras de B12

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Deficiência de B12 é uma consequência dos maus hábitos contemporâneos, das chamadas novas técnicas de produção (Foto: Reprodução)

Antigamente, o ser humano não precisava suplementar vitamina B12 porque a terra não era comprometida, havia grande disponibilidade de bactérias fornecedoras de B12. Ademais, os alimentos eram muito mais ricos em nutrientes do que hoje. O que hipoteticamente pode explicar porque escritores do passado, que entraram para a história do vegetarianismo e do veganismo, não procuravam por suplementos de vitamina B12, e talvez não sofressem de carência vitamínica.

Essa deficiência é uma consequência dos maus hábitos contemporâneos, das chamadas novas técnicas de produção, muito mais motivadas pela ganância do que pela demanda. Sem dúvida, um sistema que todo mundo sabe que visa quantidade, não qualidade. A necessidade de suplementar B12 está associada principalmente ao fato dos alimentos não serem produzidos de forma natural.

A B12 que os seres humanos consomem hoje em dia, por meio de proteína animal, também pode não ser natural. Até porque os animais também estão sujeitos a sofrer com a parca produção de bactérias no intestino grosso, já que isso depende da qualidade do solo e de boa matéria disponível como alimento. Um exemplo comum a se considerar é a deficiência de cobalto, que reduz os níveis séricos de vitamina B12 dos animais. Por isso, a B12 que muitas pessoas alegam consumir através da proteína animal, pode não ter sido produzida naturalmente.

Por outro lado, veganos que conseguem se alimentar somente de alimentos orgânicos, por exemplo, nem sempre precisam suplementar. Pioneiro nesse tipo de pesquisa, o médico James A. Halsted, da Universidade Harvard, se surpreendeu quando conheceu nos anos 1980 o estilo de vida dos veganos iranianos. Halsted descobriu que eles não sofriam de deficiência de vitamina B12, mesmo sem suplementar.

O médico então produziu uma pesquisa sobre a relação entre a alimentação orgânica e a B12. Considerado revolucionário na época, o trabalho foi publicado em 1988 no American Journal of Clinical Nutrition. Em síntese, se suplementamos B12 é porque os gananciosos contribuíram para que nos afastássemos de nossa vocação natural.

Importante

É essencial a realização de exames para checar os níveis de vitamina B12, independente de ser vegetariano ou vegano. Embora haja variáveis, a análise ao soro sanguíneo é a mais comum para verificar os valores totais de vitamina B12 no sangue. Também são indicados os exames de holotranscobalamina, homocisteína e urinálise. Realizando esses quatro exames, é possível obter melhores resultados. E, se necessário, iniciar a suplementação sob supervisão médica.

Saiba Mais

De acordo com a rede Dr. Schweikart GmbH, a vitamina B12 é imprescindível no equilíbrio da saúde. Sendo assim, a deficiência dessa vitamina pode acarretar sérias consequências, como depressão ou até mesmo psicose se ela afetar os neurotransmissores. Se mantida em níveis baixos por longo período, há o risco de surgimento de doenças como esclerose múltipla, demência e Mal de Parkinson. Tais agravantes surgem quando as membranas celulares são enfraquecidas e as células não são corretamente redistribuídas.

Referências

Halsted, A. James. American Journal of Clinical Nutrition. Páginas 852-858. Volume 48 (1988).

Wolfe, David. The Sunfood Diet Success System. Página 301 (1988).

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Um corpo que padece

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Parei de andar tem alguns meses, logo que meu corpo assumiu o controle da minha vida

(Arte: Mindcage, de Rodrigo Aviles)

“Continuo sem me mover e só consigo pensar na última vez em que fiquei em pé” (Arte: Mindcage, de Rodrigo Aviles)

Acordei um dia e percebi que meu corpo já não era meu. Tentei me movimentar na cama e não adiantou. Eu pertencia a ele, mas ele não me pertencia. Então continuei deitado observando o teto em meio à escuridão plangente. Havia traços disformes e oscilantes. Não! Mais do que isso! Uma imundície densa e clara que me lembrou aquelas medonhas bactérias que vi nas aulas de biologia na adolescência.

Eu nunca tinha reparado como o forro podia ser tão sujo. Acho que concentra a medula da nossa podridão. Ou será que era minha imaginação? Talvez eu fosse a própria bactéria, agraciada com uma visão panorâmica de mim mesmo. Vai saber! A verdade é que minha respiração continuava fétida e ruidosa. Como era horrível! Meu nariz simulava um aterro sanitário, espalhando chorume a cada expirada. E o que escorria dele eu nem sentia ou via. Afinal, desse espetáculo repulsivo que usava meu corpo como palco, fui relegado a mero espectador.

Como me esforcei para silenciar minha mente. Claro que não consegui! Fechei os olhos por alguns minutos e a temperatura do ambiente caiu para cinco ou seis graus Celsius. Tremi mais de ódio do que de frio. Eu estava coberto com um edredom branco, velho e encardido, com algumas manchas amareladas – rodelas de mijo que o maldito do gato do vizinho deixou de presente quando invadiu meu guarda-roupas. Que lazarento!

Tudo bem! Logo esqueci do bichano e quis me levantar para dar uma lição na mãe natureza. Como eu queria arrastá-la pelos cabelos. Quem sabe a cada chumaço arrancado ela subisse um grau de temperatura. Com 15 chumaços, eu a deixaria parcialmente careca e teria 20 ou 21 graus. E que vitória! Ainda poderia usar aqueles cabelos para fazer um espanador ou uma pequena cortina para um teatrinho de bonecos.

Rinite, bronquite e sinusite, sinusite, bronquite e rinite, difícil descobrir quem queria me ferrar mais. Bah! Quero enganar a quem? Fumei mesmo! E fumei muito! Chegando a quatro maços por dia! Eu era uma chaminé mais eficaz do que qualquer Maria Fumaça já vista. Sou o maior colecionador de doenças pulmonares que este mundo desconhece. Eu deveria estar no Guinness Book! Segurando o meu maior troféu, o único pulmão que me restou, tão preto que parece sobejo de carvão pós-churrasco.

E daí? Meus dentes eram tão louros, e meu hálito tão fedegoso que eu poderia fazer cosplay do Beetlejuice. Eu adorava jogar fumaça na cara dos outros, principalmente de quem desprezava fumantes. Eu chegava pertinho, como quem não queria nada, concentrava bem a fumaça e a soltava bem na hora que alguém abria a boca para falar alguma coisa. Daí era só falsear expressão de constrangimento – um par de olhos arregalados, uma respirada profunda e uma inclinada de cabeça, pedir desculpas e me afastar. Me diverti muito quando não existia ambiente para não fumantes. Ah! Deixa pra lá…Não quero mais falar disso!

Olhe! Nunca tinha reparado como o forro ganha desenhos tracejados na madrugada. São como lombrigas abjetas que dominam os bastidores da casa. Acho que também sou uma porque já não sinto mais minhas vértebras. Me resumo a uma matéria modorrenta e estiolada. Quem sabe tudo que vejo e desprezo seja em alguma proporção uma representação de mim mesmo.

Fiquei imaginando quantos bichos tétricos e horrendos não habitam este lugar noite após noite. Aposto que se eu derrubasse tudo encontraria centenas de animais sem nome, jamais catalogados. Seres que só existem por poucas horas da madrugada, quando confundimos realidade, sonho e pesadelo. Pode ser que se alimentem de esperanças, devaneios e reflexões prolongadas.

Certo! Continuo sem me mover e só consigo pensar na última vez em que fiquei em pé. Me parecia tão irrelevante, inútil. “Cuidado com a coluna, postura ereta, um passo após o outro”, quanta tolice! Eu só queria sentar e deitar, deitar e sentar. Talvez eu tivesse nascido para ser um tatu-bola. Só que rolar também exige tanto esforço que sinto calafrios só de imaginar. E a pressão abdominal na hora de girar? Triste e dolorosa! Ser uma lesma é igualmente desprezível porque sou impaciente e quero tudo na hora. Bom, não me sinto representado por nenhum animal, racional ou não.

Como gosto de comida! Me alimentei tão mal a minha vida toda e isso me proporcionava o mais insólito dos prazeres. Onde havia alguém se alimentando corretamente, eu me aproximava e sentava ao lado. Queria que a pessoa ficasse incomodada com a minha presença. Eu era um despertador de reações sorumbáticas. Eu queria chocá-la, vê-la siderada pelos meus maus hábitos.

“Isto! Este sou eu! E sou contra tudo aquilo em que você acredita. Estou aqui como a prova cabal de que o mundo não pertence a vocês. A ditadura da saúde não vai prevalecer. Ainda somos maioria e não seremos derrotados. Eu não permitirei! Nunca! Nunca! Veja! Olhe o tamanho dele, quanta gordura! Pedi que a atendente colocasse mais 200 gramas de bacon e 200 gramas de queijo cheddar. Quanto mais industrializado, melhor! Exigi o triplo de gordura trans! Observe! Observe o óleo escorrendo pelas rebarbas do meu lanche. Tem tanto óleo que poderemos fritar batata dentro da minha boca depois que eu comê-lo. Você aceita?”, sugeri, exibindo meus dentes saburrentos e caramelizados pelos churros que comi antes como aperitivo. Chocada, a moça ao meu lado na praça de alimentação levantou-se e foi embora sem dizer palavra.

Atividades físicas? Eu as desprezei desde o primeiro dia que as vi! Em qualquer lugar por onde eu passasse, se alguém me convidasse para me exercitar, eu não pensava duas vezes antes de mandar às favas. Que desaforo! Para os diabos com essa baboseira! Viverei e morrerei como quiser! Para que ficar em pé, caminhar ou correr? Odeio tudo isso com todas as minhas forças! Não acredito nem mesmo que fomos feitos para andar! De quem foi essa ideia? Tomara que o morfético tenha morrido brutalmente!

Pensando em bípedes e quadrúpedes, como eu adorava carne! Comia mais de 15 quilos por semana, até que contraí aterosclerose. Beleza! O que está feito está feito. Só que não há como negar que foi uma das melhores fases da minha vida. Quando eu andava pelo centro da cidade, as pessoas achavam que estavam próximas de um açougue ou matadouro. Não! Não havia nada do tipo por perto. Era a fragrância natural exalada pelo meu corpo. “Que cheiro de carne crua, de onde vem isso?”, “Nossa! Que fedor de vaca morta!”, “Acho que tem um açougue novo por perto”, ouvia.

As bebedeiras constantes também marcaram a minha vida. Claro! Eu dizia que era um socialzinho. Haha! Bobo de quem acreditasse. O que eu bebia três vezes por semana era o que muitos não consumiam em um mês. Eu precisava ser bom no que fazia. Por isso descobri um método eficaz para ampliar a minha tolerância ao álcool. Claro que não vou dizer qual é! Sim! Fui bem longe, tão longe que meu fígado não teve condições de me acompanhar. Hoje vivemos em lugares separados.

Agora me veio à mente as lembranças da minha transformação. Parei de andar tem alguns meses, logo que meu corpo assumiu o controle da minha vida. Se manifestava sobre onde queria ir e quando. Tão caprichoso, genioso! Caso não gostasse da ideia, ele travava como um brinquedo com pilha gasta. Será que é vingativo? Pois é! Como pode ser tão odioso? Na semana passada, permitiu pela última vez que eu movimentasse a perna direita e o braço esquerdo.

Continuo observando o forro, atento a duas lagartixas que se alimentam de um besouro. Apoiado sobre a janela aberta, o gato endiabrado do vizinho, com as orelhas mirando a lua cheia, lambe as próprias patas e as observa. Me recordo do Escaravelho do Diabo, tão valioso e tão inútil, assim como é a vida para tanta gente. Me sinto cansado, alheio ao meu corpo. Meus olhos se fecham e reconheço que não sou mais humano, somente presa de quem fui predador. “Que o teu corpo não seja a primeira cova do teu esqueleto”, escreveu Jean Giraudoux no livro Notes Et Maximes, Le Sport, de 1928.

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Um homem moldado pelo ferro

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Com 20 anos de treino, Betão Marcatto se tornou uma importante referência da musculação no Brasil

A evolução de Betão Marcatto com a musculação (Foto: Arquivo Pessoal)

Na internet, o paulista Betão Marcatto se tornou uma das mais proeminentes referências da musculação, e não por acaso. Com uma relação de amor e ódio ao treinamento iniciada há 20 anos, o marombeiro graduado em eletrotécnica, mecânica, engenharia de produção e educação física se destaca por dividir o conhecimento com milhares de seguidores por meio do “Blog do Betão” e de uma página no Facebook. Outro diferencial é que Betão é o fundador da Academia Betoflex, de Guarulhos, São Paulo, uma das “mecas” do treino com pesos no Brasil.

Assim como muitas lendas do fisiculturismo, Betão Marcatto se sentia pequeno e muito magro na adolescência. “Um dia, meu pai trouxe uma fita de videocassete do filme ‘Comando para Matar’ com o Arnold Schwarzenegger, o que me impulsionou a procurar uma academia de musculação. Achei que se ficasse daquele tamanho seria mais respeitado na escola”, conta se referindo a um episódio em 1986, quando estava na sexta série do atual Ensino Fundamental.

Ao longo da trajetória com a musculação, Betão que tem 1,84m passou por uma fase em que se preocupava mais com volume do que qualidade muscular. “Só depois me dei conta que estava obeso, com 147 quilos. Foi a minha maior frustração. Então me empenhei e consegui reverter isso”, explica.

Marcatto: “O treino com pesos moldou meu caráter” (Foto: Arquivo Pessoal)

Apesar de ter vivido situações típicas entre marombeiros que estudam e trabalham, como dificuldade para conciliar horários, Marcatto jamais abandonou os treinos, nem quando era estagiário da Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec) e tinha apenas 30 minutos por dia para praticar musculação. Em vez de desistir, como faz a maioria, Betão encontrou uma academia no caminho para o trabalho.

Para entender a filosofia de vida do marombeiro é preciso ter em mente que a musculação vai muito além de atividade física que promove mudanças estéticas e de saúde. É uma prática com sentido metafísico que ensina a viver melhor, a ter disciplina e lidar com a frustração e a dor. “A musculação moldou meu caráter. Me deixou mais forte, menos emocional no sentido de sofrer por pouco. Você consegue transportar para fora da academia tudo aquilo que aprende treinando”, avalia.

Betão tem como inspiração fisiculturistas conceituados como o inglês Dorian Yates, o alemão Markus Rühl e o estadunidense Lee Priest que se tornaram expoentes da chamada Freak Era, em que os atletas começaram a se preocupar com enorme volume muscular, além de simetria e definição extrema. “Também me inspiro no [estadunidense] Derek Poundstone, grande atleta de strongman da atualidade”, acrescenta.

Os melhores resultados ao longo de duas décadas, Marcatto conquistou se autoavaliando, conhecendo o próprio corpo, lendo muito e tornando-se “cobaia” das próprias experiências que ele define como “insanidades”. “Tenho mais de 80 livros de musculação e aprendi a colocar em prática tudo que sei”, relata o marombeiro. Com muita bagagem profissional, reclama que as faculdades de educação física não preparam adequadamente o estudante para a profissão. A sugestão para o egresso evitar o fracasso é a procura de cursos específicos.

Betão fundou uma das “mecas” do treino hardcore no Brasil (Foto: Arquivo Pessoal)

A Metroflex brasileira

Nos Estados Unidos, a Metroflex Gym, autora do slogan “A Hardcore Training Facility”, é um dos mais almejados ginásios de treino com pesos do mundo, onde treinam figuras emblemáticas como Ronnie Coleman e Branch Warren, fisiculturistas de elite do Mr. Olympia, a maior e mais tradicional competição de bodybuilding.

Com a referência da Metroflex, Betão Marcatto fundou a Betoflex em 13 de fevereiro de 2006, uma data que até hoje é lembrada com alegria e emoção. Betão deixou o emprego em outra academia um dia antes, levando para o novo ginásio um grupo de marombeiros que já se identificavam com o rigor de seus ensinamentos. “Sempre quis uma academia com professor que treina e incentiva os alunos, o que é raro hoje em dia”, diz.

Quem pratica musculação sem nenhuma meta específica pode se assustar logo na recepção, onde há cartazes com a frase “Pare! Se você não tem objetivo, não entre!” Outra raridade é que a Betoflex tem uma rigorosa política de trabalho aplicada aos alunos. “Já adianto o que espero de cada um e explico como será o tempo em que eles estarão aqui. Alguns desistem na mesma hora”, garante.

Betoflex oferece estímulos por meio de desafios (Foto: Arquivo Pessoal)

O marombeiro se orgulha dos 90% de alunos matriculados, de um total de 250, que treinam com seriedade. É um dado atípico se comparado a maior parte das academias, onde a minoria se empenha.

Cultura old school

Betão Marcatto faz o possível para contribuir com o sucesso dos alunos, seja incentivando, corrigindo a execução incompleta dos exercícios, um fato comum, ou impondo desafios. “Há alunos que chegam com vários vícios e um exemplo é o meio supino. A pessoa deve estar disposta a ouvir que treina errado e precisa mudar. É um grande impacto pra eles, tanto que muitos só ficam um mês”, lamenta. Embora a Betoflex seja conhecida como um ambiente masculino, a academia conta com uma sala feminina frequentada por um bom número de alunas.

Adepto dos princípios de treino old school, Betão deixa sempre um caderno na recepção, o que serve de baliza para estatísticas de melhorias. Quem chega deve escrever o próprio nome e o horário. “Além de custar uma fortuna, a catraca eletrônica deixa tudo muito formal e automatizado, o que não condiz com a Betoflex. Tanto é que sei o nome de todos os alunos. É uma questão de respeito”, ressalta.

No ginásio, também existe a preocupação com a trilha sonora, elaborada sob um esquema de progressão. Há mais de três mil músicas disponíveis. Pela manhã, os marombeiros “puxam ferro” curtindo hard rock, heavy rock ou rock clássico como Airbourne, Deep Purple e AC/DC. Betão treina um pouco mais tarde, quando prioriza bandas de thrash metal, groove metal e metal industrial como Sepultura, Pantera e Fear Factory.

Se o treino é pesado, a música também deve ser. “São gêneros que me inspiram. O resto do dia é recheado de Metallica, System of a Down e outros”, exemplifica. Outra curiosidade da Betoflex é que alguns aparelhos foram desenvolvidos dentro da própria academia.

O Blog do Betão

Betão Marcatto, que é chamado carinhosamente de “tio” ou “titio”, não tinha a mínima ideia da influência sobre milhares de marombeiros de Norte a Sul do Brasil. Ficou sabendo da repercussão do trabalho há pouco tempo, quando instalou um contador de visualizações no “Blog do Betão”. Mais tarde, encontrou muitos de seus artigos espalhados por dezenas de sites e blogs sobre musculação.

O marombeiro oferece assistência a todos os alunos (Foto: Arquivo Pessoal)

A ideia de criar uma página surgiu quando percebeu que muitas pessoas estavam com dúvidas sobre treinamento, mas não tinham a quem recorrer, seja por interesse em aprender um pouco mais ou não conhecer um profissional bem preparado. O blog se popularizou e todos os dias Betão recebe muitas perguntas que responde conforme a disponibilidade. “Às vezes, acontece de algumas mensagens sumirem em meio a tantas outras, parecendo que estou ignorando a pergunta, mas não estou [risos]. Além disso, gosto muito de escrever”, frisa.

Betão sabe que se não atualizar o blog diariamente a cobrança dos leitores aparece no mesmo dia. A justificativa é o conteúdo diferenciado que conta com metodologias de treinamento que foram criadas ou adaptadas por Marcatto. Um exemplo é a técnica 3D’s – Difícil, Dolorido e Doentio, destinada a praticantes intermediários e avançados de musculação. Em síntese, o “Blog do Betão” é recomendado para apaixonados por musculação, pessoas dispostas a treinar sob um novo patamar de intensidade.

Mister Freaky, personagem interpretado por Betão que ficou famoso na internet (Foto: Arquivo Pessoal)

Três perguntas para Betão Marcatto

Betão, o seu estilo de vida inspira muita gente, não apenas de Guarulhos [na Região Metropolitana de São Paulo], mas de todo o Brasil. Você acha que isso é um reflexo da insatisfação quanto a falta de uma política de seriedade na maior parte das academias do país?

Acho que quem treina sério percebe quando o objetivo de quem está por trás do estabelecimento é só dinheiro. O comportamento passivo da maioria dos donos de academia é o reflexo disso. Tenho academia porque amo musculação. Poderia estar trabalhando em outra área, mas isso não me traria felicidade. ‘Trabalhe no que você não gosta e só será feliz no dia do pagamento. Trabalhe com o que gosta e será feliz todos os dias’. Você tem que ganhar dinheiro, claro, mas isso tem que ser consequência de um trabalho bem feito. Por parte dos donos de academias, vejo muito “abandono” tanto de aparelhos quanto de alunos. São verdadeiros órfãos do ferro.

Como surgiu a ideia de criar a série Mister Freaky, com um fictício e controverso personagem que ganhou muita popularidade discutindo de forma bem humorada os clichês da musculação?

Publicidade feita com bom humor (Arte: Arquivo da Betoflex)

A ideia do Mister é satirizar dois públicos da musculação: o cara que se acha mau e forte e aquele que vai malhar e não treinar, o popular “franguinho”. Produzi diversos vídeos, mas os retirei da internet porque estavam vinculados a um projeto ao qual não pertenço mais. Fiz alguns remakes, mas a edição ainda não saiu. Estou estudando a possibilidade da volta do Mister Freaky.

Recursos ergogênicos são sempre úteis se usados corretamente, porém dentre os principiantes há uma exaltação dos suplementos em detrimento da alimentação. Como você avalia isso?

Alimentação é a chave. É por meio da alimentação que construímos nossos corpos, que chegamos ao objetivo. Se você negligenciar a alimentação, tudo estará perdido. Suplementos ajudam, mas não podem ser considerados essenciais. São importantes se você não tem tempo para preparar suas refeições.

Blog do Betão

http://blogdotitiobetao.blogspot.com.br