David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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A desinformação a serviço da indústria da carne

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Como achar normal a criação de 70 bilhões de animais terrestres em todo o mundo? (Foto: Reprodução)

Há muito tempo, somos bombardeados com propagandas que vendem a ideia de que somos incapazes de sobreviver sem alimentos de origem animal. Certo! O que dizer de povos que nunca se alimentaram de animais, chegando a viver mais de 100 anos? Entrevistei há alguns anos um senhor vegetariano que à época tinha 95 anos, e ele não morava em nenhuma aldeia. Vivia na minha cidade, mas optou por se tornar vegetariano em 1925, aos oito anos de idade.

O que vemos o tempo todo são criações de ofertas desnecessárias e falsas demandas motivadas pela ganância. Como achar normal a criação de cerca de 70 bilhões de animais terrestres em todo o mundo, sendo que temos uma população mundial de sete bilhões de pessoas? Para que tudo isso? Ainda mais ponderando que em menor ou maior proporção esses animais passarão por privação ou sofrimento.

Ademais, a pecuária contribui com as mudanças climáticas, inclusive sendo apontada como uma das principais causas do desflorestamento da Amazônia. De acordo com a diretora executiva da ONG Food & Watch, Wenonah Hauter, quem se beneficia e faz lobby para esse sistema são os maiores produtores de alimentos, que também são os maiores produtores de carne.

Quando suas empresas crescem e eles enriquecem, normalmente usam o poder político que possuem para ditar as políticas federais quanto à produção de alimentos. Ou seja, tudo que as pessoas consomem de origem animal não é consequência de reais necessidades, mas sim de investimentos massivos em propaganda.

Desde o princípio do século 20, isso tem sido feito de forma muito bem elaborada, para que as pessoas acreditem que não há outro caminho, quando na realidade essa mudança depende apenas de um pouco de esforço e de vontade de lutar por um mundo melhor, e não apenas para nós mesmos.

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Leandro Karnal: “Os vegetarianos são insuportáveis”

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“Eles ficam querendo pregar que a vaca tem direito e a cenoura não”

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Karnal compara os direitos dos animais com os direitos das cenouras (Foto: Reprodução)

Está disponível no YouTube uma palestra do professor Leandro Karnal intitulada “Os Novos e os Velhos Pecados”. Em um determinado momento, o historiador diz que “Os vegetarianos são insuportáveis. Eles ficam querendo pregar que a vaca tem direito e a cenoura não.” Quando você compara um animal com uma cenoura, você está querendo dizer que um animal sofre tanto quanto uma cenoura, ou seja, há uma banalização do sofrimento e da violência. Agora imagine o que isso pode representar na cabeça de um jovem que já não gosta muito de animais.

Bom, achei uma pena vê-lo fazendo esse tipo de comentário satírico e sem embasamento, ainda mais levando em conta que ele costuma viajar pelo país ministrando palestras sobre moral e ética. Pelo jeito, ele precisa estudar sobre direito animalista, que também versa sobre moral e ética. Karnal costuma citar filósofos gregos em suas palestras, e parece-me que ele não sabe que era comum entre eles uma alimentação isenta de carne, e por uma questão moral – o que contrapõe sua observação mais do que irônica.

Em seus artigos e palestras, também há inúmeras citações a Arthur Schopenhauer. Creio que se ele conhecesse profundamente o trabalho do filósofo alemão jamais teria ignorado o fato de que Schopenhauer escreveu que animais não são artigos fabricados para o nosso uso, de acordo com informações da página 375 do livro “Parerga and Paralipomena: Short Philosophical Essays – Volume 2 .

Animais não são meros meios para quaisquer fins. Ao pensarmos que sim, somos coniventes com a violência contra outras espécies e incentivamos a exploração animal em todas as esferas, sendo permissivos inclusive com formas inimagináveis de privação e crueldade. E esse tipo de conduta em detrimento de outros seres vivos leva a um questionamento a respeito da nossa própria moralidade que não contempla ninguém além de nós mesmos.

Schopenhauer via isso como um tipo frequente de moralidade de conveniência. Sendo assim, pode-se dizer que a moralidade conveniente ao homem não é moralidade, já que a moralidade genuína depende de você não observar somente a si mesmo e as conveniências que envolvem apenas aqueles que são de sua própria espécie.

“É uma vergonha essa moralidade digna de párias […], chandalas, mlechchas e que não reconhece a essência eterna que existe em cada coisa viva, e brilha com significado inescrutável em todos os olhos que veem o sol”, escreveu Arthur Schopenhauer na página 173 do livro “O Fundamento da Moral”, publicado em 1840.

Seria mais honesto o historiador Leandro Karnal dizer: “Dane-se os animais e os vegetarianos”, que parece ser o que ele pensa, mas não fazer piadas sobre pessoas simplesmente por serem vegetarianas. É curioso reconhecer que já vi ele falando de moralidade e citando Tolstói. Provavelmente ele não sabe que o autor de “Guerra e Paz” e “O Primeiro Passo” era vegetariano.

A segunda obra que citei, publicada pela primeira vez em russo em 1883, fala justamente da nova concepção moral que Tolstói alcançou com o vegetarianismo. Então observo com certo pesar quando alguém discorre sobre moralidade e faz chacota do vegetarianismo, já que a moralidade vegetariana preza pelo bem-estar animal. Ou seja, tenta expandir a compreensão ética e moral para além daquela que abarca somente seres humanos.

Não é a primeira vez que vejo o Karnal cometendo esse tipo de deslize. Uma vez, quando assisti uma de suas palestras, ele confundiu esteroides anabolizantes com vitamina ADE, e usou a imagem de um rapaz para abordar o tema. Ou seja, é importante termos o cuidado de não abordarmos assuntos sobre os quais não temos conhecimento. Também é ético não expor pessoas à situação vexatória, mesmo que por meio de imagens.

Resposta de Leandro Karnal em que ele confunde veganismo com especismo (Imagem: Reprodução)

Resposta de Leandro Karnal em que ele confunde veganismo com especismo (Imagem: Reprodução)

O problema na atualidade é que há pensadores falando sobre assuntos que desconhecem. Seria muito mais interessante e proveitoso para todos se eles se preocupassem basicamente em transmitir informações sobre aquilo que estudaram e sobre o qual desenvolveram um raciocínio valorosamente crítico.

Algumas pessoas me disseram que o Karnal não disse nada de mais ao fazer piada sobre vegetarianos e os direitos animais, já que ele defende, mesmo que sem argumentos, o ponto de vista dele. Bom, se ele tivesse um programa de stand-up, eu não me importaria com o que ele falou. A diferença é que ele é um formador de opinião que viaja pelo país discutindo sobre moral e ética. Ademais, direitos dos animais tem tudo a ver com moral e ética. Logo se ele vai falar alguma coisa sobre isso, é importante sim estudar sobre o assunto.

Além de desconsiderar meu texto e não apresentar argumentos, Karnal continuou debochando de todos que o questionaram sobre o vídeo em que ele satiriza vegetarianos e os direitos animais. Pelo jeito, o historiador não sabe que vegetarianos e veganos, que se recusam a se alimentar de animais por uma questão moral, naturalmente defendem inclusive o direito à vida dos insetos. Parece que houve uma confusão com um entendimento particularista de especismo. Uma pena, mas cada um conhece a sua própria consciência. 

“Se o problema é dor, bastaria dar sonífero para as vacas e matá-las ao som de Mozart, certo? Seria uma carne sem dor.” Muita sensibilidade vinda de alguém que discorre sobre filosofia. Ainda bem que na contemporaneidade tivemos e temos filósofos como Agostinho da Silva, Sônia T. Felipe, Peter Singer e Tom Regan, só para citar alguns, que foram e vão na contramão disso. Outro fato inesperado é que Leandro Karnal deletou os comentários de veganos e vegetarianos o questionando sobre o assunto.

Passagem em que Leandro Karnal ironiza vegetarianos e os direitos dos animais:

https://www.youtube.com/watch?v=ZAjKScwJvVc

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Agnon: “Quem nos ensina mais do que os animais da terra, e nos faz mais sábios que as aves do céu?”

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“Para que eu não cometa o erro de desconsiderar qualquer criatura, faço questão de mencionar os animais domésticos, as feras e os pássaros”

Agnon venceu o Prêmio Nobel de Literatura em 1966 (Foto: Reprodução)

Agnon venceu o Prêmio Nobel de Literatura em 1966 (Foto: Reprodução)

Shmuel Yosef Agnon é considerado um dos nomes mais importantes da literatura hebraica moderna. Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1966, o escritor israelense se destacou pela produção de contos e romances que abordam os conflitos espirituais da humanidade e o choque entre tradição e modernidade. Também recorrente em suas obras é o vegetarianismo, definido pelo próprio autor como uma filosofia de vida que preza pelo respeito aos animais.

“Para que eu não cometa o erro de desconsiderar qualquer criatura, faço questão de mencionar os animais domésticos, as feras, e os pássaros. Jó nos disse há muito tempo: ‘Quem nos ensina mais do que os animais da terra, e nos faz mais sábios que as aves do céu?”, discursou Agnon na cerimônia de premiação do Nobel de Literatura de 1966.

Shmuel Yosef dizia que os animais são a maior fonte de aprendizado da humanidade. Uma das lições foi materializada pelo escritor em “O Conto da Cabra”, publicado originalmente em 1925. Na história, que para os ocidentais pode trazer lembranças da parábola “O Lenhador e a Raposa”, um senhor fica maravilhado ao experimentar o peculiar leite de uma cabra. Segundo ele, é tão maravilhoso que tem o sabor do céu, do paraíso.

Ao perceber que o animal sempre desaparece por período inexato, o homem conversa com o filho, crente de que o gosto do leite tem relação com as viagens da cabra. O jovem então decide segui-la. O percurso que parece durar horas, mas pode significar até dois dias, termina em uma caverna, uma passagem para um paraíso inimaginável chamado Terra de Israel.

Extasiado, e ciente de que a véspera do sabat anteciparia a escuridão, ele se vê incapaz de retornar para casa. Preocupado, prende um bilhete na orelha da cabra e pede que ela a entregue a seu pai. Quando vê o animal chegando sozinho, o homem entra em desespero e pragueja a cabra, a quem responsabiliza pelo sumiço do filho. Movido por surto momentâneo, a entrega a um açougueiro. Depois que o animal é assassinado, o bilhete cai da orelha da cabra.

“Ai do homem que rouba de si mesmo a sua própria fortuna, e ai do homem que reivindica o bem com o mal”, gritou o velho arrependido, batendo as mãos na própria cabeça. O luto durou dias. O homem se debruçou choroso sobre o animal e se recusou a ser consolado. Na história, o leite é também uma metáfora dos caminhos e dos descaminhos do homem.

Um autor de gênio inquestionável, Agnon é apontado como um dos maiores contadores de histórias do século 20. Está entre os autores de língua hebraica mais elogiados e influentes da literatura. Sua escrita chama atenção pela forma como ele aborda os conflitos da humanidade e o resgate da tradição. Combinando realidade e surrealismo, Shmuel Josef sempre tratou com muita personalidade de questões filosóficas e psicológicas que até hoje transparecem atemporais.

O escritor vegetariano é apontado como um dos maiores contadores de histórias do século 20 (Foto: Reprodução)

O escritor vegetariano é apontado como um dos maiores contadores de histórias do século 20 (Foto: Reprodução)

A perda da inocência no mundo moderno, a turbulência espiritual vivenciada por quem se viu obrigado a deixar a própria casa, a pátria e, em alguns casos, até a fé, serviram de inspiração para o escritor judeu. Exemplo disso é a obra “Um Convidado para a Noite”, publicada em 1938. Autobiográfica, a história apresenta um narrador anônimo que retorna à Galícia depois de muitos anos, reencontrando sua cidade natal em estado de desolação. Para escrevê-la, Agnon se inspirou em uma visita que fez a Buczacz, onde nasceu, lugar que ele chamava de “a cidade dos mortos”.

Além de colocar em discussão o velho e o novo mundo que surgia, suas histórias sempre foram ternas, dotadas de um requinte onírico que leva o leitor a questionar se suas narrativas são reais ou fantasiosas. Em “Hakhnasat Kallah,“O Dossel Nupcial”, sua obra mais famosa, reconhecida como uma das pedras fundamentais da literatura hebraica moderna, Shmuel Agnon protesta contra o hábito judaico de servir carne no sabat. Faz isso com sutileza.

“Ele recebeu o sabat com doce canção e cantou melodiosamente sua santificação com vinho de passas. A mesa estava bem distribuída, com todos os tipos de frutas, feijões, matérias verdes e boas tortas…mas de carne e peixe não havia qualquer sinal”, escreveu na página 222.

Para o escritor israelense, o silêncio em face da injustiça equivale à cumplicidade. Sua defesa do vegetarianismo significava reprovar os maus-tratos contra os animais. Por isso, ele usava a sua literatura como forma de ampliar a percepção humana em relação à sensibilidade animal e às questões éticas que permeiam o direito à vida, independente de espécie.

Agnon publicou seu primeiro conto aos 18 anos

Shmuel Yosef Agnon nasceu em Buczacz, então Império Austro-Húngaro (atual Ucrânia), em 17 de julho de 1888. Criado em uma família bem diversificada, que incluía comerciantes poloneses judeus, rabinos e acadêmicos, Agnon não chegou a ingressar em uma escola. Recebeu educação de seu pai, que o ensinou o aggadah, a literatura rabínica, e de sua mãe, que o introduziu na literatura alemã.

Aos oito anos, começou a escrever em iídiche e hebraico. Entre os 15 e os 18 anos, produziu seus primeiros poemas e histórias. Na fase adulta, ao longo de três anos, e com um ritmo de produção mais intenso, escreveu 70 peças em hebraico e iídiche. Nesse período, deixou Buczacz e se mudou para Yafo, atual Jaffa, em Israel, onde adotou um estilo de vida secular.

O seu primeiro conto, intitulado “Agunot”, que significa “Esposas Abandonadas”, foi publicado na Palestina em 1908, um ano depois que adotou o sobrenome Agnon. Em 1913, o escritor emigrou para a Alemanha, onde viveu por 11 anos. Seu estilo agradou primeiro aos mais jovens, que viram qualidade na sua maneira de combinar tradição e modernidade.

A repercussão de seus trabalhos atraiu a atenção do magnata Salman Schocken, que se tornou admirador de Agnon e decidiu patrociná-lo. Sem se preocupar com dinheiro, Shmuel Yosef viveu muito bem logo nos primeiros anos de sua carreira. No entanto, quando um incêndio destruiu sua casa, ele interpretou aquilo como um sinal e tomou a decisão de retornar a Israel, adotando Jerusalém como lar. Em 1929, sua casa foi saqueada durante uma animosidade entre judeus e árabes.

Em 1932, Agnon conquistou prestígio internacional após o lançamento de “O Dossel Nupcial”. Mais tarde, obteve ainda mais reconhecimento quando lançou a antologia, “Days of Awe”, “Dias de Temor”, baseada em histórias de costumes judaicos. O escritor também publicou livros baseados em contos populares inspirados na cultura rabínica, além de contos inspirados na filosofia e nas lendas hassídicas. Vítima de ataque cardíaco, Shmuel Yosef Agnon faleceu em 17 de fevereiro de 1970 em Rehovot, Israel.

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Além do Prêmio Nobel de Literatura, Shmuel Yosef Agnon recebeu o Prêmio Israel de Literatura em 1954 e em 1958.

Referências

Agnon, Shmuel Yosef. The Bridal Canopy (1931). The Toby Press; Reissue Edition (2015).

Agnon, Shmuel Yosef. The Fable of the Goat Whose Milk Taste of Eden (Tale of the Goat). Disponível em http://jhom.com/topics/goats/fable.htm

Agnon, Shmuel Yosef. A Guest for the Night (1938). The Toby Press (2015).

Gross, Aaron; Schwartz, Richard; Kalechofsky, Roberta; Levine, Jay. A Case for Jewish Vegetarianism. Peta Publisher (2012).

Fisch, Harold. S.Y. Agnon. Ungar Pub Co (1975).

Gershon Shaked, Shmuel Yosef Agnon: A Revolutionary Traditionalist. New York University Press (1989).

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Vaquejada não é esporte, é violência

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Como violentar um animal pode ser considerado esporte? (Foto: Reprodução)

Do ponto de vista moral e ético, vaquejada nunca foi esporte. Em primeiro lugar, porque não há o consentimento do animal. Em segundo, porque o submete à situação vexatória análoga à tortura. Incompreensível também é defini-la como manifestação cultural, na tentativa de legitimar sua prática, endossar sua aceitação.

Cultura é uma palavra que no meu ideário sempre preferi relacionar, pelo menos instantaneamente, com coisas boas, embora infelizmente também seja atrelada a coisas ruins. Quando o assunto é cultura, logo penso em algo que ajude a elevar a alma humana e o desenvolvimento de nossas sensibilidades. É triste reconhecer que há manifestações culturais que envolvam privação e sofrimento a outros seres vivos. Como alguém pode se divertir ou ter prazer em algo assim? Não tenho dúvida alguma de que a vaquejada já não deveria mais ser vista em nossa sociedade como uma manifestação cultural, mesmo que endossada legalmente pelo desejo de uma minoria.

Tanto os filósofos da Grécia Antiga quanto os mais contemporâneos que não endossam a exploração animal convergem para um mesmo ponto quando falamos de ética. Eles argumentam que a ética não existe sem liberdade de escolha. Sendo assim, não há fundamento para a defesa da vaquejada quando alguém a qualifica como manifestação cultural. Ademais, nesse aspecto, penso que cultura e ética são indissociáveis. Nem poderia ser diferente, já que o animal não escolheu ter o seu rabo puxado violentamente para a efervescência da barbárie humana.

É uma pena que tanta gente continue se omitindo em relação às vaquejadas. São pessoas que poderiam contribuir para uma importante retomada de consciência em relação ao valor da vida animal. Falar em liberdade, igualdade e exploração quando se trata de outros assuntos, e ao mesmo tempo não se posicionar quanto a isso, me parece um paradoxo difícil de ignorar, porque grita conveniência, desinteresse por aquilo que não nos atinge diretamente. Há uma evidente ausência de empatia e respeito à vida; uma crença de que se a dor do outro não é a minha, ou se não a reconheço por sermos diferentes, pouco me importa.

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Written by David Arioch

October 24th, 2016 at 11:46 pm

Magalhães Lima: “Somarão milhões as folhas em que se encontram os nomes de vegetarianos que foram faróis do seu tempo”

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“Desde que a nossa civilização pôde gravar seu rastro na história, a tradição do vegetarismo jamais se interrompe completamente”

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Magalhães Lima é o autor do ensaio “O Vegetarismo e a Moralidade das Raças” (Foto: Reprodução)

Admirador de Liev Tolstói, a quem conheceu quando viajou à Rússia, o escritor português Jaime de Magalhães Lima foi um defensor e pesquisador do vegetarianismo. Ao longo da vida, publicou 30 livros, começando por “Estudos sobre a Literatura Contemporânea”, de 1886.

O encontro com Tolstói foi narrado no livro “Cidades e Paisagens”, de 1889. Inclusive a consciência vegetariana do escritor russo teve grande influência sobre o pensamento do português. “Uma das mais doces e encantadoras recordações da minha vida”, escreveu Magalhães Lima. Amigo do proeminente escritor Eça de Queiroz, com quem trabalhou na “Revista de Portugal”, e também do médico Amílcar de Sousa, para quem produziu muitos artigos publicados na revista “O Vegetariano”, Jaime Magalhães se tornou um importante ativista vegetariano, principalmente a partir de 1912, quando lançou o ensaio “O Vegetarismo e a Moralidade das Raças”.

“Que crime horrível lançar em nossas entranhas as entranhas de seres animados, nutrir na sua substância e no seu sangue o nosso corpo! Para conservar a vida a um animal, porventura é mister que morra um outro? Porventura é mister que em meio de tantos bens que a melhor das mães, a terra, dá aos homens com tamanha profusão, prodigamente, se tenha ainda de recorrer à morte para o sustento, como fizeram ciclopes, e que só degolando animais seja possível cevar a nossa fome?”, registrou o escritor na página 3 do ensaio, parafraseando o poeta romano Ovídio.

De formação cristã, Jaime Magalhães descobriu uma forma pessoal de espiritualidade. Influenciado pelo panteísmo que também mudou a vida de muitos escritores vegetarianos nos séculos 18 e 19, ele viu na adoração da natureza umas das mais importantes vocações do ser humano. “Percorre montes e vales, preferindo sentir a aspereza dos caminhos a percorrê-los sobre quatro rodas, ele que possui o primeiro automóvel de Aveiro”, consta na página 17 do Boletim Municipal de Aveiro, publicado em 1986.

De acordo com Jaime de Magalhães Lima, o vegetarianismo foi e é uma das características do zênite moral das civilizações, e como tal o aceitaram, proclamaram e praticaram os gênios que mais fundamente as compreendem e mais brilhantemente as serviram.

“Por certo, somarão milhões as folhas impressas em que se encontram os nomes de vegetarianos que foram na história dos povos da Europa, como sinais de sua grandeza, juízes e faróis do seu tempo e dos tempos futuros. E o vegetarismo, tendo já os seus altares e o seu punhado de fiéis em todos os países que atingiram a sua sensibilidade moral e religiosa, está infelizmente longe de ter penetrado na concepção vulgar das obrigações humanas, como é mister para a redenção de tantos e tão dolorosos males que nos afligem e perseguem por culpa da nossa cegueira e obscuridade”, observa o português.

Pitágoras, Percy Shelley, Élisée Reclus e Liev Tolstói foram considerados pelo escritor como arautos do vegetarianismo, que chamaram a atenção de multidões escravizadas pela primitiva animalidade, aviltados em sórdidos prazeres. “Desde que a nossa civilização pôde gravar seu rastro na história, a tradição do vegetarismo jamais se interrompe completamente. Em mais de vinte e cinco séculos, a sua taça passa de mão em mão, e ora se expõe à luz de sol erguida por austeros e hercúleos sacerdotes cuja rectidão e fôrça nos subjugam, ora é guardada devota e humildemente em solitárias ermidas, mas jamais se partiu ou sequer arrefeceu desamparada do alento de lábios que nela busquem beber a essência do vigor do corpo e do espírito”, defende.

Abordando a busca da superioridade moral elencada pelo filósofo grego Pitágoras, Magalhães Lima menciona que seis séculos antes de Cristo, já existia uma consciência que almejava a pureza moral e a abstinência da carne, assim como de todo o derramamento de sangue. “Não pode restar a menor dúvida de que nas origens da civilização se encontra imposta, como preceito fundamental, a abstinência da carne aos que pretenderem seguir na vida o caminho da dignidade”, declara na obra “Vegetarismo e a Moralidade das Raças”.

Havia em Crotona, um homem da ilha de Samos que se exilara da pátria pelo ódio que tinha aos tiranos. Tinha com os deuses aturado comércio. O que sabia comunicava-o a uma multidão de discípulos que em grande silêncio o admiravam. Foi o primeiro que condenou o uso de comer a carne dos animais: doutrina sublime, e tão pouco apreciada, cuja paternidade se lhe atribuía. Deixai, mortais, dizia, deixai de vos servir de manjares abomináveis: dão-vos os campos searas abundantes; para vós vergam de frutos as árvores com os mais belos pomos e produzem uvas as vinhas. Tendes legumes dum suave gôsto, excelentes alguns quando cozidos. […] Enfim para vós, a terra é pródiga de suas riquezas e oferece-vos toda a espécie de alimento sem que necessiteis para sustentar-vos de recorrer à morte e à carnagem, narra Ovídio.

"Não pode restar a menor dúvida de que nas origens da civilização se encontra imposta, como preceito fundamental, a abstinência da carne" (Foto: Reprodução)

“Não pode restar a menor dúvida de que nas origens da civilização se encontra imposta, como preceito fundamental, a abstinência da carne” (Foto: Reprodução)

Para Jaime de Magalhães Lima, um dos monumentos da dignidade humana são as obras morais do filósofo grego Plutarco, que versam sobre o vegetarianismo como última forma de legitimidade moral e fisiológica. O português, assim como outros vegetarianos como o médico estadunidense John Harvey Kellogg, também condenava o consumo de álcool, alegando que a bebida afasta o ser humano do seu estado natural. “Hoje, como então, a carne e o vinho são companheiros e cúmplices nessa embriaguez do nosso sangue”, sentencia.

Na ótica do escritor, somente aos animais convêm o consumo de carne. E, mesmo assim, poucos se sustentam dela. “Os cavalos, os bois e as ovelhas vivem só de ervas; apenas as feras, os tigres, os leões, ursos e lobos fazem da carne seu sustento habitual. […] Que a piedade não seja sacrificada à vossa gula, que para vos saciar não expulseis dos seus corpos as almas dos vossos pais nem vos alimenteis do seu sangue…”, enfatiza.

Sêneca, o intelectual romano a quem o escritor português admirava, dizia, inspirado em Focion, que o homem precisa reconhecer a sua capacidade de encontrar alimentos sem o derramamento de sangue. Do contrário, a crueldade há de ser mantida como hábito, já que a prática da carnificina passa a ser primeiramente associada ao prazer do apetite.

“Acrescentava ele que é nosso dever limitar os materiais da luxúria. Que, todavia, a variedade de alimentos é nociva à saúde e não é natural ao nosso corpo. Se estas máximas [da escola de Pitágoras] são verdadeiras, então nos abstermos da carne dos animais é animar e promover a inocência; se mal fundadas, ensinam-nos ao menos a frugalidade e a simplicidade da vida. E que perdeis vós perdendo a nossa crueldade? Apenas vos privo do alimento dos leões e dos abutres”, cita Magalhães Lima. Depois de mais de um ano de abstinência de alimentos de origem animal, Sêneca disse que não apenas era fácil ser vegetariano, como delicioso. Alegou também que as faculdades do seu espírito se tornaram mais ativas.

É acostumar-nos a derramar o sangue humano degolar animais inocentes e ouvirmos sem piedade seus tristes gemidos. É desumanidade não nos comovermos com a morte do cabrito, cujos gritos tanto se assemelham aos das crianças, e comermos as aves a que tantas vezes demos de comer. Ah! quão pouco dista d’um enorme crime!, transcreve Magalhães Lima, fazendo menção a Ovídio.

Outro argumento que reforça o posicionamento do português em relação à abstenção de carne é o fato de que para ganhar sabor é preciso submetê-la a um processo de transformação. “Qualquer dama de mãos mimosas que trinca com delícia uma costeleta coberta de pão e embalsamada em louro, em cravo, em salsa, em cebola, pimenta e limão, empalidece de náusea sentindo o cheiro do açougue, considera imundície um pedaço de carne crua nos seus vestidos, e foge mais depressa da praça do peixe do que da montureira que aduba a horta”, critica.

Na perspectiva de Magalhães Lima, na cozinha vegetariana ocorre o oposto. O esmero e a perfeição consiste em conservar inalterável o sabor próprio de cada alimento. “Muitos e muitos [crianças] que seriam incapazes de roubar de qualquer salgadeira um grama de toucinho, não resistem à tentação de se aproveitarem do primeiro cacho de uvas que lhes esteja à mão. Os assaltos às hortas e pomares são frequentes, e de tal forma isso parece estar na ordem natural que grande número dos homens rudes não lhes associe nem de longe a noção do crime. Longos séculos de corrupção da dieta não conseguiram atrofiar essas tentações de uma antiguidade bíblica, as mesmas que desgraçaram Adão e Eva”, compara.

Saiba Mais

Jaime de Magalhães Lima nasceu em 15 de outubro de 1859 em Vera Cruz, Aveiro, e faleceu em Eixo, também em Aveiro, em 26 de fevereiro de 1936.

Referências

Lima, Jaime de Magalhães. O Vegetarismo e a Moralidade das Raças (1912). Editora Ônibus Mágico (2015).

Lima, Jaime de Magalhães. Cidades e Paisagens (1912). Biblioteca Digital (2015).

Lima, Jaime de Magalhães. Entre Pastores e nas Serras. Editora Portucel (1986).

Lima, Archer de. Magalhães Lima e a Sua Obra – Notas e Impressões (1911).

Boletim da Aderav, Aveiro, n.º 15 (1986).

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Amílcar de Sousa: “A carne não é o alimento do homem”

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“A maior parte da gente […] se visse morrer os animais, não se banquetearia com tão grande gáudio…”

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Amílcar de Sousa fundou a Sociedade Vegetariana de Portugal em 1908 (Foto: Reprodução)

Foi em 1908 que o médico Amílcar Augusto Queirós de Sousa, defensor do vegetarianismo, fundou na Avenida Rodrigues de Freitas, na cidade do Porto, a Sociedade Vegetariana de Portugal. No ano seguinte, Sousa inaugurou a revista “O Vegetariano”, periódico mensal que circulou até 1918 e teve boa repercussão na Europa e no Brasil.

Especialista em dietética e nutrição, Amílcar escreveu que da velha confusão de teorias médicas, da grande época obscura do empirismo, como um dogma da ciência de então, uma forma errónea e cheia de preconceito, como se fora um mandado religioso e por isso mesmo eivado de má fé, surgiu com esta frase perturbante: o homem é omnívoro. Como à boca se pode levar tudo que queira, daí resultou essa monstruosidade deturpante da humanidade. Tal reflexão consta na página 45 da 4ª edição da revista “O Vegetariano”, publicada em 1912.  À época, Sousa já realizava conferências e palestras em defesa do vegetarianismo.

No livro “As Hortaliças na Medicina Natural”, lançado em 1992, Alfons Balbach e Daniel S.F. Boarim narram que Amílcar de Sousa foi um grande apologista do regime frugívoro: não só ele, como toda a família, só se alimentavam de frutas. “Na sua revista intitulada ‘O Vegetarianismo’ tem feito propaganda das mais inteligentes e proveitosas em favor deste regime, e o número de adeptos que conseguiu converter ao regime frugívoro orça por muitas centenas em tempo relativamente curto”, registraram.

Na obra “O Livro Negro do Açúcar – Algumas Verdades Sobre a Indústria da Doença”, de 2006, Fernando Carvalho observa que Amílcar de Sousa, um médico do século XIX, estava melhor informado do que seus colegas da atualidade. “Desde a forma dos dentes à capacidade do estômago e às dimensões do intestino, como dados anatómicos em referência à comparação da série animal de que o homem é primaz – tudo demonstra que o gênero humano não é omnívoro. A dentadura é semelhante à dos símios antropoides que se alimentam de frutos; e se os obrigarmos a serem carnívoros, imediatamente estigmas de degenerescência se notam, doenças de pele, a queda dos pelos, o reumático e outras manifestações de artritismo”, argumenta Sousa no artigo “O Homem é Frugívoro”, de 1912.

Em setembro do mesmo ano, o médico publicou “O Caldo de Carne”. No artigo da revista “O Vegetariano”, ele afirma que a carne não é o alimento do homem. Se fosse, o ser humano deveria ter condições de matar os animais com mãos e garras, triturando os ossos ou lacerando os músculos ainda quentes com os dentes, assim como faz a hiena. “Desprovido de armas cortantes e do artifício da culinária, o homem não pode utilizar-se da carne nem do peixe”, justifica.

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Periódico em que Sousa divulgava suas ideias e descobertas em relação ao vegetarianismo (Foto: Reprodução)

Segundo o médico português, para uma consciência límpida e um espírito moral, ver morrer um boi é um espetáculo canibalesco e incompatível com a humanidade. “Assistir ao assassinato dum cordeiro é, sem dúvida, barbaridade infame. Queremos acreditar que a maior parte da gente que bebe às colheres a sopa, ou corta com a faca um pedaço de vaca, se visse morrer os animais, não se banquetearia com tão grande gáudio…”, defendeu no artigo “Caldo de Carne”.

Um homem revolucionário, Amílcar de Sousa é considerado pela Associação Vegetariana Portuguesa (AVP) o maior impulsionador do vegetarianismo e do naturismo em Portugal. “Ele conseguiu mobilizar outros médicos e personalidades da burguesia para o estilo de vida natural e saudável”, reconhecem Gabriela Oliveira e Nuno Metello no artigo “Vegetarianos há mais de um século”, publicado no semanário português SOL em 2011.

Em 1923, Sousa publicou a novela naturista “Redenção”, que aborda a importância da proximidade do ser humano com a natureza. Na obra, ele defende uma consciência ética universal, em que os animais têm assegurado o direito de não serem mortos simplesmente para atender maus hábitos culturais e alimentares da humanidade.

“Mas por que é que estas ideias [do vegetarianismo] não as tem defendido a classe médica? É simples a resposta. É que não há pílulas de sol, nem injecções de exercício, nem tão pouco vacinas de ar… e é preciso viver dos doentes. O médico do futuro é só aquele que nada receitar. Ensinem os doentes a viverem conforme a natureza e os sãos a não se desviarem dela. O medicamento fez já as suas provas. São negativas”, declarou na revista “O Vegetariano” em abril de 1912.

Segundo Amílcar de Souza, o melhor que os pais podem deixar aos filhos é a saúde. Portanto, para que os filhos não tenham doenças, o ideal é ensiná-los a seguir um regime natural, valorizar a vida ao ar livre e praticar exercícios regulares. “A alimentação humana tem sido desvirtuada pelo preconceito. [O leite] não é alimento do homem, mas sim dos filhos das vacas, dos cabritos, dos jumentos etc., antes de terem dentes para comer as ervas dos montes e prados! […] A velha fábula de Prometeu que roubou o fogo do céu para comer os cadáveres dos animais cozinhados, eis a base em que assenta toda a errónea conduta da humanidade”, enfatizou em publicação da revista “O Vegetariano” de 5 de julho de 1912.

O pioneiro do vegetarianismo português

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Maria Feio: “[Amílcar de Sousa] Dispõe de uma resistência hercúlea. Caminha dezenas de quilómetros a pé sem a menor fadiga” (Foto: Reprodução)

Amílcar Augusto Queirós de Sousa nasceu em Cheires, Alijó, em 1876. Graduou-se em medicina pela Universidade de Coimbra. Mais tarde, em Paris, estudou a relação entre a nutrição e as doenças. Considerado o pioneiro do vegetarianismo português, correspondeu-se com outras personalidades que advogavam em defesa do vegetarianismo. Entre os quais, o famoso médico estadunidense John Harvey Kellogg, o naturalista alemão Ernst Haeckel e o médico francês Paul Carton. Pacifista, também criticou Primeira Guerra Mundial. “Dispõe de uma resistência hercúlea. Caminha dezenas de quilómetros a pé sem a menor fadiga”, escreveu Maria Feio sobre Amílcar de Sousa.

Obras publicadas por Amílcar de Sousa

“O Naturismo”, “A Saúde pelo Naturismo”, “A Cura da Prisão do Ventre”, “A Redenção”, “Arte de Viver”, “Banhos de Sol” e “O Naturismo em Vinte Lições”.

Saiba Mais

Amílcar de Sousa era amigo do poeta brasileiro e também defensor do vegetarianismo Carlos Dias Fernandes, com quem se correspondia frequentemente.

Adepto do pedestrianismo, o médico chegou a viajar de Lisboa a Sines a pé, percorrendo mais de 160 quilômetros. Além disso, gostava de caminhar descalço. Faleceu na cidade do Porto em 1940.

Sousa considerava Pitágoras o maior filósofo da história da humanidade. Para ele, Jean-Jacques Rousseau, que defendia a importância do contato das crianças com a natureza, era o melhor educador.

Referências

O Vegetariano: Mensário Naturista Ilustrado – Volumes I a IV. Sociedade Vegetariana de Portugal (1912).

Boarim, Daniel S.F.; Balbach, Alfons. As Hortaliças na Medicina Natural (1992).

Oliveira, Gabriela; Metello, Nuno. Vegetarianos há mais de um século. Semanário SOL. Páginas 40 e 41 (30 de setembro de 2011). Disponível em http://www.avp.org.pt/notiacutecias/vegetarianos-h-mais-de-um-sculo

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Editorial Enciclopédia. Volume 29. Página 761.

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Montaigne: “Há um dever geral da humanidade em relação aos animais, que têm vida e sentimento”

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“E com que devoção e respeito vejo a própria imagem da amizade, tão pura, nos animais!”

O filósofo defendia que a humanidade deve justiça aos seus e benevolência às outras criaturas (Pintura: Reprodução)

O filósofo defendia que a humanidade deve justiça aos seus e benevolência às outras criaturas (Pintura: Reprodução)

O francês Michel de Montaigne foi um dos mais importantes filósofos e humanistas do Renascimento, e entrou para a história como o criador do gênero literário ensaio, situado entre o poético e o didático. No século XVI, inspirado pelo grego Plutarco, a quem via como um mestre, ele criticava a irracionalidade e o preconceito humano em relação às outras espécies. Seu trabalho, muito avançado para a época, influenciou pensadores como Friedrich Nietzsche, René Descartes, Jean-Jacques Rousseau e Isaac Asimov.

Vegetariano, Montaigne sempre defendeu os animais através de suas obras. Em “Ensaios”, publicado em março de 1580, considerado um dos livros não ficcionais mais influentes de todos os tempos, o pensador declarou acreditar que foi pelo massacre dos animais selvagens que o ferro tingido de sangue esquentou pela primeira vez. “E com que devoção e respeito vejo a própria imagem da amizade, tão pura, nos animais!”, escreveu.

Se aprofundando na história e na relação da humanidade com as outras espécies, o francês conta que antes do surgimento do cristianismo, os turcos realizavam muitas obras de caridade em benefício dos animais, inclusive construíram hospitais para espécies não humanas.

Os romanos tinham um serviço público para a alimentação dos gansos. Já os atenienses, por volta de 490 a.C., ordenaram a libertação das mulas e dos burros após a construção do Templo Hecatompedon, permitindo que eles circulassem por qualquer lugar, sem restrição. No mesmo período, os agrigentinos seguiam a tradição de enterrar com dignidade os seus animais. Muitos monumentos suntuosos foram erguidos para homenageá-los.

“E duravam, visíveis, por vários séculos adiante. Os egípcios enterravam lobos, ursos, crocodilos, cães e gatos em lugares sagrados. Embalsamavam seus corpos e ficavam de luto. Címon [estadista e general ateniense] fez uma sepultura honrosa para os jumentos (…). O político Xantipo mandou fazer uma tumba para seu cão num promontório, na costa do mar, o qual desde então conservou esse nome”, narra Michel de Montaigne.

O filósofo defendia que a humanidade deve justiça aos seus e benevolência às outras criaturas. E no relacionamento entre humanos e animais há uma obrigação do primeiro em zelar pelos demais. “Não temo confessar a ternura de minha natureza tão pueril que me leva a não conseguir recusar ao meu cão a festa que me oferece fora de hora”, confidencia em “Ensaios”.

" Entre os vícios, odeio cruelmente a crueldade, tanto por natureza como por julgamento, como sendo o extremo de todos os vícios" (Pintura: Reprodução)

” Entre os vícios, odeio cruelmente a crueldade, tanto por natureza como por julgamento, como sendo o extremo de todos os vícios” (Pintura: Reprodução)

E foi estudando o trabalho de Plutarco que Montaigne descobriu que não era exatamente a figura caricata do gato ou do boi, por exemplo, que os egípcios, enquanto politeístas, adoravam. O que eles amavam nesses animais era a imagem das faculdades divinas materializadas em suas diversas qualidades, como paciência, singeleza e vivacidade. Além disso, viram que os animais eram incapazes de suportarem a clausura, e isto representava a liberdade que amavam mais do que qualquer faculdade divina.

Por outro lado, o filósofo observou que a religião dos antigos gauleses, povo celta que deu origem aos franceses, incutiu a ideia de valores diferentes para os animais. Eles acreditavam que como a alma é eterna e passível de mudar de um corpo para o outro, o destino de cada um dependeria de sua conduta. “As almas dos cruéis entrariam nos corpos dos ursos, as dos ladrões nos corpos dos lobos, e as dos mentirosos nos corpos das raposas. E depois de vários anos e, através de mil figuras, seriam chamados às suas formas humanas originais, uma vez que teriam sido purificados pelo Rio Lete [que tinha Hades com guardião, o deus do mundo inferior e dos mortos]”, cita Montaigne.

Os gauleses levavam a sério a crença de que os homens valentes poderiam renascer como leões, os voluptuosos como porcos, os covardes como cervos ou lebres e os maliciosos como raposas. “Eu, inversamente, o que tenho de bom o tenho pelo acaso do meu nascimento (…). A inocência que há em mim é uma inocência inata, de pouco vigor e sem arte. Entre os vícios, odeio cruelmente a crueldade, tanto por natureza como por julgamento, como sendo o extremo de todos os vícios”, enfatiza.

Uma das cenas que mais marcou a vida do pensador foi o testemunho da degola de um frango. Além disso, Michel de Montaigne não suportava ouvir os gemidos das lebres frequentemente atacadas por cães de caça. “A caça é uma forma violenta de prazer. Os que devem combater a volúpia a usam de bom grado, mostrando que ela é totalmente viciosa e irracional”, critica.

O filósofo aponta o século XVI como um período de exemplos inacreditáveis de legitimação da crueldade, intensificados principalmente pelas guerras. O passado, segundo ele, não era pior que o presente. Ainda assim, o pensador não conseguia se acostumar com tanta violência. E quanto mais animais eram mortos, mais bárbaro o homem se tornava, ampliando a morte dos seus.

“Eu mal era capaz de me convencer, antes de tê-lo visto, que pudessem existir almas tão ferozes que cometessem assassinatos por prazer – retalhar e cortar os membros de alguém, aguçar o espírito para inventar torturas inusitadas e mortes novas, sem inimizade, sem proveito, e só para o fim de gozar do agradável espetáculo, dos gestos e movimentos lastimáveis, dos gemidos e dos gritos (…)”, lamenta.

E levando em conta esse tipo de experiência, Montaigne escreveu que julgava incoerente as opiniões mais moderadas de raciocínio que tentavam apontar as semelhanças entre os seres humanos e os animais. “Quando tentam compará-los a nós, sem dúvida rebaixo muito nossa presunção e renuncio de bom grado a essa imaginaria realeza sobre as outras criaturas. Mesmo se esse não fosse o caso, há todavia um certo respeito que nos liga e um dever geral da humanidade em relação aos animais, que têm vida e sentimento”, pondera.

"Eu mal era capaz de me convencer, antes de tê-lo visto, que pudessem existir almas tão ferozes que cometessem assassinatos por prazer" (Pintura: Reprodução)

“Eu mal era capaz de me convencer, antes de tê-lo visto, que pudessem existir almas tão ferozes que cometessem assassinatos por prazer” (Pintura: Reprodução)

O pensador jamais conseguiu entender onde o ser humano busca motivação para perseguir e matar um bicho inocente, que além de não ter defesas, não causa mal a ninguém. “E o cervo que comumente, sentindo-se sem fôlego e sem força, e não tendo outro remédio, se vira e se rende a nós mesmos que o perseguimos, pedindo-nos piedade por suas lágrimas, sangrando e, lembrando, por seus queixumes, um suplicante. Isso sempre me pareceu um espetáculo muito desagradável. Não pego animal vivo a que não restitua liberdade. Pitágoras fazia o mesmo, comprando-os dos pescadores e dos passarinheiros para libertá-los”, assinala.

Platão, em sua perspectiva da Era de Ouro, destaca que uma das maiores conquistas da humanidade foi o estabelecimento da comunicação com os animais, a capacidade de reconhecer as verdadeiras qualidades não humanas. Nesse período, foi validado o valor da inteligência animal, garantindo à humanidade o privilégio de traçar um futuro próspero e harmonioso. “É preciso mais provas do que isso para condenar a imprudência humana em relação aos animais?”, questiona Michel de Montaigne.

Para o pensador, as índoles sanguinárias em relação aos animais atestam uma propensão natural à crueldade. Ele cita como exemplo da decadência humana a emergência dos espetáculos de mortes de animais na Roma Antiga. A ânsia por sangue e violência cresceu, e mais tarde surgiram os gladiadores. Ou seja, a violência do homem contra o homem é um desdobramento da barbárie iniciada com a suplantação dos animais.

“A própria natureza (temo) fixou no homem um instinto de desumanidade. Perdera-se o prazer de ver os animais brincando entre si e acariciando-se; e ninguém deixa de senti-lo ao vê-los se dilacerarem e se desmembrarem. Os animais foram sacrificados pelos bárbaros para os benefícios que deles esperavam”, avalia Montaigne.

Um homem à frente do seu tempo

O ensaísta inglês William Hazlitt expressou admiração por Michel de Montaigne, declarando que, distante do fanatismo e do pedantismo, ele foi o primeiro autor que teve a coragem de dizer como se sentia enquanto ser humano. Não era pedante e nem fanático.

À época, seu ensaio, recheado de anedotas e reflexões pessoais não foi bem recebido pelos leitores. Consideraram sua obra deficiente, talvez porque Montaigne tenha revolucionado a literatura não ficcional ao incluir-se como matéria do seu próprio livro, gerando desconforto nos leitores mais conservadores. Mais tarde, Montaigne acabou por ser considerado um dos melhores escritores do seu tempo.

Seu comentário mais famoso e cético é: “Que Sçay-je?”, que significa O que eu sei? em francês da Idade Média. Até hoje Montaigne é considerado um autor moderno, isto porque examinava o mundo através dos próprios olhos, conciliando bagagem cultural, observação e experiência. E a partir daí, formulava juízo sobre tudo. Séculos após sua morte, foi considerado o autor mais acessível do Renascimento. Depois de unir narrativa pessoal e sabedoria intelectual, montaigne se tornou uma referência da literatura moderna não ficcional.

Saiba Mais

Michel de Montaigne foi um político, jurista, filósofo e humanista francês. Para ele, a educação de qualidade só é possível quando a formação de indivíduos privilegia o discernimento moral aliado à prática.

Montaigne, que só teve o seu trabalho devidamente reconhecimento após sua morte, também foi influenciado pelo jônico Pitágoras, pelo ateniense Sócrates e pelo neoplatônico Porfírio.

O pensador nasceu no Castelo de Montaigne em 28 de fevereiro de 1533 e faleceu no mesmo local em 13 de setembro de 1592.

Referências

Montaigne, Michel de. Rosa Freire D’Aguiar. Os Ensaios. Penguin – Companhia das Letras (2010).

The Autobiography of Michel de Montaigne. Marvin Lowenthal. David R. Godine, Publisher (1999).

Williams, Howard. The Ethics of Diet (1883). University of Illinois Press (2003).

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Paulinho e a fazendinha das abelhas

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“Cadê o dourado do sol cobrindo a fazendinha das abelhas?”

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Parou de lacrimejar e sorriu, levantando as mãos para o firmamento, onde o zunido da última abelhinha ecoou como um tipo de agradecimento (Pintura: Delilah Smith)

Até os sete anos, a maior alegria de Paulinho era acordar cedo para comer algumas bolachinhas de mel, tomar um copo de suco de laranja e sair para brincar com os amiguinhos. O doce sabor do alimento fazia sua língua acidular. Com satisfação, ele sempre dizia: “Eita, delícia!”

Iogurte com mel, banana com mel, panqueca com mel, bolo de mel, torta de mel e bala de mel. Tudo que tinha o néctar das abelhas o alegrava. E depois de comer, não era raro o garotinho ludibriar os pais, fugindo da obrigação de escovar os dentes. Entrava no banheiro, fechava a porta, molhava a escova de dentes e a esfregava contra a palma da mão esquerda, fazendo barulhinho ardiloso.

Após dois ou três minutos, saía de lá sentindo-se vitorioso, roçando a língua entre os dentes e absorvendo o aroma de mel da própria boca. “Amo mel! Queria que minha boca nunca perdesse o cheiro de mel”, refletia copiosamente.

E era verdade. Paulinho gostava tanto de mel que seu quarto foi decorado como se fosse a mais romanesca das colmeias. Havia abelhas e zangões bem pintados nas quatro paredes. Sobre a cômoda, repousavam alguns espécimes elétricos – todos sorriam. O destaque era um zangão de brinquedo que voava perdido num voo sem sentido, porém divertido.

Em seu mundinho era impossível conceber a ideia de que abelhas e zangões não fossem felizes. E as maiores provas estavam nos desenhos animados que assistia, nos livrinhos que o apraziam e nas histórias em quadrinhos que o satisfaziam. Tudo parecia tão belo.

Paulinho acreditava que as abelhas davam mel às pessoas em troca de algo que ele ainda não tinha descoberto o que era. “O que será que elas ganham? Tem que ser algo muito mais gostoso do que mel. Será que existe?”, monologou. Um dia, se surpreendeu quando seu amiguinho Inácio contou que seu pai descobriu a localização de uma fazenda de mel.

— Vamos dar um jeito de ir lá ver como é, Inácio. Agora fiquei curioso.

— Eu também, Paulinho. Já sei! Vamos inventar uma história pra conseguir visitar esse lugar.

Para convencer sua mãe a levá-los até a fazenda apícola, Paulinho disse que a professora deu um trabalho sobre a vida das abelhas. “Depois ela quer que a gente escreva sobre tudo que vimos lá”, justificou. Como ele jamais tinha mentido, a mãe estranhou a tarefa, mas não o questionou.

O primeiro sinal de estranhamento dos meninos surgiu quando eles perceberam que a fazenda não era tão colorida como nas historinhas infantis. Parecia opaca demais para ser real. Não havia nenhum tipo de brilho no local, somente dezenas de caixas velhas e sujas de madeira rodeadas por árvores fragilizadas, com galhos secos que se inclinavam como se suplicassem pelo despertar da vida em suas mais variadas formas.

A terra nua persistia áspera, arenosa e rala, onde poucas porções de gramíneas se esforçavam para brotar do chão choroso.

– Cadê o girassol e o dourado do sol cobrindo a fazendinha das abelhas? Por que tem pessoas aqui e nenhuma abelha veio receber a gente?

— É mesmo, Paulinho! E que roupa estranha é aquela que tão usando ali?

— Acalmem-se, meninos! É cedo ainda para começar a reclamar.

Logo um homem carregando uma máscara se aproximou para recebê-los. Era o administrador da Fazendinha Douradina, de onde saía o mel que Paulinho tanto apreciava.

— Vieram conhecer nosso trabalho? Sejam bem-vindos, meus amigos!

— Cadê as abelhas?, questionou Paulinho sem titubear.

— Elas estão naquelas caixas ali.

— Ué, mas cadê a colmeia? Aquilo não parece uma, reclamou Inácio.

Sem saber o que responder, o homem desconversou e os convidou para irem até a área industrial da fazenda, onde o mel era processado e embalado. Antes de segui-lo, Paulinho não gostou de ver pessoas manipulando as abelhas nas caixas. Quanto mais eles mexiam, mais os insetos ficavam agitados. Paulinho e Inácio sentiram o desconforto das abelhas através da frequência dos zunidos.

No depósito, enquanto passeavam por expositores com milhares de potinhos de vidro, que traziam na embalagem abelhinhas felizes voando sobre um caldeirão de mel, Paulinho perguntou onde era o banheiro. Disfarçadamente caminhou até um senhor que observava o trabalho da equipe de apicultores.

— Você sabe o que eles estão fazendo ali?, perguntou Paulinho.

— Sei sim. Estão se preparando para substituí-las. Com esse calor e trabalhando na produção de mel, as operárias cansam muito rápido, não vivem mais do que 45 dias. Vão trocar também a Rainha porque ela fez dois anos e está colocando menos de dois mil ovos por dia. Inclusive já devem ter achado as “realeiras”. É difícil evitar que elas morram nesse processo, revelou o motorista da Fazendinha Douradina.

Paulinho ficou surpreso, sentiu os olhos fumegantes e se esforçou ao máximo para não chorar. Seus lábios tremiam e ele não conseguiu desfazer o bico. Sensibilizado, o homem se arrependeu de ter contado a verdade.

— Não, filho! Não é bem assim. Não fique triste, por favor!

De repente, Paulinho sentiu uma leve picada na panturrilha. Quando se agachou, viu uma abelhinha estonteada desfalecendo sobre o chão calcinado. Junto dela, contou mais sete, oito, nove, dez abelhas mortas.

— Nunca mais vou comer nada com mel! Juro por tudo!, berrou o menino antes de correr até os caixotes e derrubar um por um com as próprias mãos nuas. Contrariando todas as probabilidades, as abelhas não atacaram Paulinho, simplesmente partiram voando e zunindo, deixando para trás tudo que produziram.

Quando os apicultores perseguiram o menino, o motorista gritou:

— Não! Deixem ele! Toda criança tem razão porque sua ação vem da pureza do coração.

Cansado, Paulinho deitou ileso numa porção de relva que parecia ter brotado naquele momento, aspirando à vida que ele assistia preenchendo o céu em forma de abelhas. Parou de lacrimejar e sorriu, levantando as mãos para o firmamento, onde o zunido da última abelhinha foi interpretado por ele como um tipo de agradecimento.

O suposto motorista era na realidade o dono da Fazendinha Douradina. Ele não repreendeu Paulinho. Também não se queixou com a mãe do menino. Muito pelo contrário, o agradeceu. No final da tarde, não havia mais abelhas nem mel no local. Pela primeira vez em 20 anos a fazenda fez jus ao próprio nome, quando a luz inédita do sol dourou tudo que renascia sob o canto de um rouxinol.

Curiosidade

“Realeira” é uma grande célula de onde emerge a nova rainha.

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Written by David Arioch

August 21st, 2016 at 11:25 pm

O pescador e o dourado

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Era um dourado que cintilava tanto quanto a primeira luz que o sol lançou sobre o Rio Paraná

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Orlando levou um susto ao ouvir o dourado se chocando contra o casco do barco (Foto: Reprodução)

Como fazia todos os dias, Orlando lavou o rosto, escovou os dentes, preparou a tralha, se despediu da esposa, da neta e saiu de casa na silente escuridão da madrugada. Durante a caminhada até a barranca do Rio Paraná ganhou a companhia de cigarras e grilos que cantavam com tanta sofreguidão que pareciam ansiar pela alvorada.

Quando encostou no bambuzal a poucos metros da margem, Orlando acendeu o palheiro e observou no horizonte o sol saindo ocioso por trás das cortinas de água – lançava um brilho que dourava o Paranazão até onde os olhos poderiam alcançar. “Que coisa linda! Faz valer pular da cama cedinho assim”, comentou tragando e baforando uma fumaça ruça que saía quente da boca e logo arrefecia, deixando a língua amarga e o peito chiando. Se recordou dos pedidos exaustivos da mulher para que largasse o fumo de corda. Teimoso, ainda fumava dois ou três toda manhã.

Antes da última tragada, o cenho grave de Orlando deu lugar a uma gargalhada expansiva que fez sua barriga doer ao contar oito sapos coaxando e brincando no cerne de um brejo. “Até parece disputa pra ver quem canta mais alto. E tem quem diz que os bichos não são espertos”, comentou quando o menor dos sapos se esquivou de uma investida ardilosa do maior. Sem mais distrações, caminhou até o Rio Paraná, se ajoelhou, reverenciou o céu, a terra e a água. Subiu sobre o barco, o desamarrou, ajeitou a tralha e ligou o motor. Seguiu criando pequenas ondas, cortando a água que se tornava menos turva e mais cristalina conforme se distanciava da margem.

Massageando seus poucos cabelos grisalhos, o vento temperado e úmido trouxe lembranças da mocidade, dos amigos que partiram, dos familiares falecidos. Com 60 anos, sentia-se cansado, não pela ação do tempo sobre o corpo. O rosto estriado não o incomodava. Orlando simplesmente não sabia o que havia de errado em sua vida, mas sentia, e seguia fazendo o que sempre fez. Pescador desde a infância, morou em cinco ilhas no seio do Paranazão. Pescou tanto em mais de 45 anos que deixou de sentir prazer em tirar da água as preciosidades da natureza.

— Depois que criaram a barragem, muitas espécies de peixes sumiram, é o que todo mundo diz, inclusive eu. Mas será que a gente também não tem culpa nisso? Todos esses anos de pesca deve ter traumatizado a natureza – refletiu coçando o queixo levemente enrugado e queimado pela frequente exposição solar.

Durante décadas, Orlando sorriu para fotos, segurando peixes de até 80 quilos. Abasteceu muitos congeladores de peixarias em um raio de mais de 100 quilômetros. Porém, nos últimos cinco anos deixou de ver os animais que tirava da água como troféus. Num final de tarde, se irritou quando o amigo Laércio, um de seus clientes, ameaçou romper negócios, alegando que ele estava entregando poucos peixes.

“Parece que não sabe pescar mais. Tem piá aí que já tá te deixando pra trás, meu amigo. Vai dizer que já esqueceu que te chamavam de Zóio de Anzol? Vamos despertar aí!”, reclamou Laércio. Durante a travessia da Lagoa do Jacaré, Orlando se recordou do episódio na peixaria. Ele não disse nada a Laércio naquele dia. Continuou pescando por pressão que não reconhecia.

Por volta das 17h, após percorrer o Rio Bahia, retornou à margem. Desanimado, viu a própria casa despontando na ladeira. Desligou o motor do barco e ficou em silêncio, ora observando a água, ora o céu. O pescador não queria estar ali, e postergava o inevitável amargando a volatilidade de uma crise existencial.

Entristecido, cochilou com a cabeça escorada sobre o colete salva-vidas. A noite ameaçava surgir e ele não tinha pescado nada. “O que vão pensar de mim?”, se perguntou. O sol foi piedoso; cobriu seu corpo com uma luz morna, até que meia hora depois Orlando levou um susto ao ouvir algo se chocando contra o casco do barco.

Titubeante, preparou a vara de pescar e a lançou na água com destreza, como se chicoteasse o leito. Em menos de minuto, sentiu uma fisgada no anzol e a vara envergando. Enquanto se esforçava para puxá-la, um peixe se debatia violentamente sob a água. Era um dourado que cintilava tanto quanto a primeira luz que o sol lançou sobre o Rio Paraná.

Deitado à força no interior do barco, o peixe de seis quilos lutou com vigor, se debatendo em cima de um pedaço de lona. Orlando franziu a testa, cerrou os dentes e evitou olhar diretamente para o animal. Seus olhos doíam. Ainda assim, tirou o peixe do barco, o enrolou na lona para não ter de observá-lo e caminhou até a peixaria. Lá, colocou o dourado sobre uma mesa com vestígios de vísceras e sangue seco nas rebarbas e gritou:

— Ô de casa! Ô Laércio! Vim trazer um dourado. Tu disse que faz tempo que não recebe nenhum. Pega logo aqui que quero ir pra casa.

— Tô aqui no fundo, Orlando. Venha me dar uma mão. Preciso mudar a posição dos congeladores.

Mesmo a contragosto, Orlando ajudou Laércio. De volta à recepção da peixaria, o dourado não estava mais lá, somente o pedaço de lona que o envolvia. O pescador levou as mãos à cabeça e seu coração disparou.

— Não acredito nisso! Não é possível que levaram o peixe daqui! O que eu vou fazer agora?

Cerca de cem metros ladeiro abaixo, Orlando ficou chocado quando viu o dourado pulando, tentando chegar às margens do Rio Paraná. Então correu até ele e, antes que alguém o fizesse, o tomou nos braços e continuou descendo, sem se preocupar com as correias do chinelo que se desfaziam pelo caminho.

Com olhos escuros e fixos, e uma boca que abria e fechava o tempo todo, o peixe parou de se debater e pela primeira vez o pescador enxergou o próprio reflexo nas escamas do animal. Mais do que tudo, o dourado ansiava pela água. E o cheiro que emanava de seu corpo não era de carne, mas sim de vida. Sob a luz do poente, assim que o peixe foi lançado ao rio, Orlando renasceu e o dourado desapareceu.

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Written by David Arioch

August 7th, 2016 at 4:01 pm

Tonho o boiadeiro

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“Quando o céu sobre a terra desabar, o homem há de acordar. E todos vamos pastar pelo simples prazer de verdejar”

Foto: á fora, Tonho assobiou e Atalante apareceu, um cavalo preto e robusto de 15 anos (Pintura: Amanda Kate)

Lá fora, Tonho assobiou e Atalante apareceu, um cavalo preto e robusto de 15 anos (Pintura: Amanda Kate)

Tonho abriu os olhos, sentou na cama e observou através da janela o céu revolto e avermelhado na madrugada de domingo. Estranhou o silêncio do galo, mas não se importou. Levantou e caminhou até uma pia no canto do quarto. Lavou o rosto, umedeceu os cabelos, ajeitou a barba com as pontas dos dedos e manteve a cabeça baixa enquanto a água escorria. “Acho que o dia não quer nascer, o sol tá de teimosia. De quem deve ser a culpa? Sei lá eu!”, monologou coçando o peito musculoso.

Vestiu calça jeans e camisa azul, lustrou a fivela cintilante que trazia a letra T em destaque e calçou um par de botas de cano alto. Antes de sair para trabalhar, alinhou o chapéu sobre a cabeça, preparou o café, tomou uma caneca e limpou a barba com o dorso da mão direita. “Agora tô pronto!”, disse sorrindo, batendo solas no piso de tacos, e observando o próprio reflexo no espelho pendurado num prego.

Lá fora, Tonho assobiou e Atalante apareceu, um cavalo preto e robusto de 15 anos. Preparou a sela, subiu sobre o lombo do animal e cavalgou em direção à invernada. Nas primeiras horas da manhã, sem berrante e sem assistência, o rapaz mestiço, de origem caiuá e caucasiana, reuniu mais de mil bois cantando “Cabirúchichi”, uma canção que fala sobre a renovação do amor dos seres humanos pelos animais depois de 30 dias de trovoadas e tempestades.

— Quando o céu sobre a terra desabar, o homem há de acordar. E todos vamos pastar pelo simples prazer de verdejar. É o dia que chega, meus amigos!

O gado entendia as palavras de Tonho. Sempre que ele terminava sua canção e seu discurso, eles o observavam com atenção e complacência. E o silêncio de segundos era ofuscado por um coro de mugidos em direção ao céu. A reação da boiada fazia o pasto vibrar e a relva balouçar.

Aquela era a vida do boiadeiro há mais de 10 anos, e ultimamente seu trato com os animais começou a causar estranhamento nos outros peões. Durante a tradicional travessia do Riacho de Santa Luzia, ele tentava confortar a boiada.

— Fica assim não, Rufião. Você consegue! Olhe pra você, cara! Lindão e forte. Veja também quantos de seus amigos estão esperando você atravessar pra te seguir. Vamos lá! Confie em mim. Por favor!

Hesitante, com os cascos apoiados às margens do riacho, Rufião cedeu ao pedido de Tonho. A travessia de Santa Luzia sempre assustava o gado porque fazia parte do percurso final antes do confinamento seguido de abate. Eles pressentiam que o pior estava por vir. Do outro lado do riacho, a boiada pastava lastimosa, como se seguisse um cortejo fúnebre. Tonho tentava animá-los em vão. Nenhum boi queria enxergar nada além da grama queimada e das pegadas de seus irmãos que jamais retornaram.

Alguns escoravam a cabeça sobre os companheiros mais próximos, crentes de que isso poderia protegê-los e afastá-los da morte. Cansados, mugiam baixinho, até que desapareciam no horizonte ensolarado para nunca mais serem vistos por aquelas bandas. Uma semana depois da última travessia, Tonho pulou no Ribeirão Guararema para salvar um bezerro, filho de Rufião, arrastado pela correnteza.

Quando saiu encharcado da água, com o bezerro tremendo e gemendo em seus braços, notou três homens o esperando, sentados sobre a relva, fumando palheiro. Um deles, Cambuci, o mais velho, parou de furar a terra com um canivete de lâmina escura e disse:

— A gente percebeu que você tá diferente, Tonho. Parou de comer carne, ovo e beber leite. E ainda fica tratando bicho que nem gente. Até aí tudo bem! Tenho nada a ver com suas loucuras. Agora o que você fez foi demais. O patrão ficou sabendo de tudo e disse que isso não tá certo, que você traiu a confiança dele e precisa pagar.

Tonho colocou o bezerro na grama, deu um tapinha em seu lombo e o bicho correu para longe.

— Faça o que tiver de fazer, mas saiba que o mundo de hoje e o mundo de amanhã não há de ser o mesmo, independente da sua vontade ou do patrão. A terra sangra junto com os animais. Vai dizer que tu nunca percebeu? Olha o que isso aqui virou. Esse pasto queimado, castigado por mais de 100 dias de estiagem.

Enquanto falava, recebeu cinco balaços no peito e deitou às margens do riacho. Sem replicar, os três pistoleiros travestidos de peões viraram as costas e partiram. Tonho não chorou, gritou ou gemeu, só observou o céu mais claro do que nunca e sentiu uma porção de água acariciando suas orelhas e massageando seus cabelos.

Também assistiu o filho de Rufião lutando para empurrar seu corpo para fora da água com a cabeça. O bezerro gemia e fazia um esforço descomunal. De repente, um longo filete de sangue escorreu da boca de Tonho e se misturou à água, seguindo a correnteza como se tivesse vida própria. “Siga o sangue, siga o sangue, siga o sangue…”, repetiu antes de falecer.

O bezerro se jogou no Guararema e partiu com a aguagem, sendo arrastado por quilômetros. Estonteado e enfraquecido, foi lançado sobre um banco de areia, onde deitou choroso. Em poucos minutos, ouviu um mugido para além da mangueira. Era seu pai, Rufião, inquieto, tentando atravessar a cerca. Surpresa e emocionada, Mirela, namorada de Tonho, se aproximou e pediu que dois rapazes carregassem o bezerro. Batizado como Obajara aquele foi o primeiro dia do jovem sobrevivente no clandestino Santuário Parassú, para onde Tonho enviou centenas de animais nos últimos meses.

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Written by David Arioch

July 31st, 2016 at 3:51 pm