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Tazinha e a galinha Jurema
Aquele molho envolvia partes de um ser idêntico àquele que corria pelo quintal com o viço de uma criança

Para conquistar a ave, Tazinha correu para dentro de casa e perguntou: “Mãe, o que a galinha come?” (Foto: Reprodução)
Tazinha chegou em casa e encontrou uma galinha. Ela nunca tinha visto uma de perto, a não ser descaracterizada dentro de uma panela, dividida em peito, pés, coxas e outras partes que depois de consumidas davam a impressão de que o animal reduzido a alimento jamais existiu.
Com cinco anos, Tazinha não imaginava que aquele molho vermelho e borbulhante cobrindo fatias grossas de batata-inglesa envolvia partes de um ser idêntico àquele que percorria o quintal com o viço de uma criança. Quando viu a garotinha de olhos amendoados e graúdos, a galinha se escondeu atrás de um pedaço de capoeira e cacarejou, mantendo os olhos castanhos e vibrantes bem esgazeados. Também abriu as asas mescladas de preto, amarelo e branco e esfregou os pezinhos em uma porção de terra arenosa, fazendo poeirinha.
Para conquistar a ave, Tazinha correu para dentro de casa e perguntou: “Mãe, o que a galinha come?” Então caminhou até a despensa, afundou a mãozinha em um fardo de ração com cheiro de farelo de milho e se apressou em direção ao quintal, arrastando os chinelinhos e deixando um rastro louro como o sol daquela manhã de verão. Ainda desconfiada e hesitante, a galinha a assistiu estendendo as mãos e os farelos deslizando entre os vãos de seus dedos miúdos. Tazinha sorriu apreensiva. Não sabia se devia se aproximar mais ou simplesmente lançar o que restou da ração sobre o chão de terra batida.
Tomou uma decisão. Se ajoelhou, fez um coraçãozinho na terra com o dedo indicador da mão direita e o preencheu com os farelos. Logo que a galinha deu o primeiro passo, Tazinha recuou quase 20 metros, sentou à sombra da jabuticabeira e assistiu a ave se alimentando. Vez ou outra, erguia a cabeça e observava a criança. “Seu nome vai ser Jurema”, disse antes de engolir uma jabuticaba e enterrar a casca. A galinha a olhou rapidamente, cacarejou e continuou comendo, sem levantar a cabeça. Depois daquele dia, sempre que Tazinha corria até o quintal, Jurema a aguardava.
Balouçava as asas e caminhava até a garotinha que a abraçava e acariciava suas penas com o dorso da mão direita. Tazinha sentia cócegas quando a galinha se espichava, esfregando a plumagem contra o seu pescoço. Sua gargalhada era tão alta que atraía a atenção de vizinhos curiosos que penduravam no muro para ver o que estava acontecendo. Em menos de uma semana de convivência, Jurema começou a presentear Tazinha com preciosidades que ela encontrava no quintal.
“Que linda, Jurema!”, comentou assim que a galinha abriu o bico e lançou uma pedrinha colorida na palma de sua mão. Com os presentes, Tazinha fez um colar. Numa noite, quando seus pais questionaram o porquê dela nunca tirá-lo do pescoço, ela respondeu: “Ué, porque a Jurema é minha melhor amiga e quero sempre sentir ela pertinho de mim. Ela teve tanto trabalho pra juntar as pedrinhas.”
Tazinha gostava tanto da galinha que após muita insistência seus pais permitiram que ela levasse Jurema para passear pelas ruas pelo menos três vezes por semana. “Ela também quer se divertir”, justificava, crente de que sua amizade com a galinha seria eterna, e que as duas nunca se separariam. Porém, quando a galinha estava perto de completar seis meses, ela ouviu uma conversa que a entristeceu:
— A galinha que meu irmão deu tá ficando velha, quase seis meses de vida já. Se demorar mais, passa do ponto. E o Alberto chega no final de semana e quer galinha caipira ao molho pro almoço de domingo – disse o pai.
— Meu Deus! E o que vamos falar pra Tazinha? – perguntou a mãe.
— A gente arruma outra galinha pra ela – respondeu o pai.
Desesperada, Tazinha correu até o quintal, pegou a Jurema, a levou até o seu quarto e a escondeu dentro do guarda-roupa, onde passou a noite abraçada com a galinha. Pela manhã, seus pais ouviram um som suspeito vindo do quarto. Encontraram Tazinha chorando e acariciando as penas de Jurema que se mantinha em silêncio, com o bico recostado em seu ombro.
— Por favor! Não mata ela! Eu não sabia que a carne da panela vinha dos bichos. Olha, a Jurema anda, brinca e fica assustada que nem a gente. Coloca a mão aqui, pai! Coloca, mãe! Dá pra sentir o coraçãozinho dela batendo forte. Não mata ela! Por favor! Ela só quer viver!
No domingo, quando Alberto, tio de Tazinha, chegou para o almoço, ele se aproximou do fogão e ergueu a tampa da panela. “Mas que cheiro delicioso é esse, cunhada? Que maravilha!”, declarou. Lá dentro, o molho vermelho borbulhava, exalando olência da combinação de batata, cebola, alho, cebolinha, salsinha, tomate, páprica, azeite e folhas de louro. No quintal, Tazinha amarrava uma fitinha no pescoço de Jurema antes de alimentá-la com um pouquinho de ração.
— Por isso, você me olhou assustada no primeiro dia que te vi. Desculpa! Não precisa mais ter medo, Jurema. A gente nunca mais vai comer carne aqui em casa. Prometo!
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Eu e as proteínas de origem animal
Nunca fui um verdadeiro fã de carne. Carne nunca foi algo que me fez muita falta. Comia carne branca ocasionalmente porque eu julgava como importante, até porque para onde eu olhasse havia alguma propaganda sobre as proteínas de origem animal. No meio da musculação, por exemplo, de cada cinco palavras ditas, uma costuma ser proteína. Dificilmente alguém toca no assunto sem dizer: “Proteína animal, proteína animal, proteína animal, alto valor biológico – filé de frango, claras de ovos, laticínios…”
Com isso em mente, cheguei a consumir até três gramas de proteínas por quilo corporal em uma fase da minha vida, principalmente proveniente de laticínios e ovos. Pode ter certeza que é muita proteína, e uma quantidade que eu vejo hoje como absurda, desconfortável e desnecessária. Comia até sem querer porque tinha um objetivo a ser alcançado. E isso deveria ser bom? Não creio. Sempre fui saudável, exames perfeitos desde a adolescência, mas com o tempo deixei de absorver a ideia de uma dieta altamente rica em proteínas animais como uma coisa boa.
Sou um ser humano, não uma máquina. E tenho certeza que minhas necessidades são sempre mais modestas do que eu costumava imaginar ou acreditar. E acho que se meu organismo não quer um alimento, não devo ir além. Perdi as contas de quantas pessoas conheci que comiam tanto com a intenção de ganhar massa muscular que chegavam a sentir ânsia de vômito. Se exercitar e se alimentar bem deve ser sempre algo positivo, não impositivo, porque há sempre o risco da reeducação alimentar se tornar um novo tipo de disfunção.
Também cheguei a comprar caixas de filé de frango durante um período da minha vida. E comia sem prazer – porque qualificava isso como importante para a minha saúde, condição física e estética. Mesmo distante dessa realidade há muito tempo, ainda sou a mesma pessoa, sem qualquer prejuízo. E estou empenhado em provar que definitivamente não preciso de alimentos de origem animal.
Além disso, me recordo da última vez em que estive em uma granja e observei as galinhas confinadas, privadas de liberdade, almejando pelo menos um espaço maior de circulação. Elas não pareciam felizes, e foi então que tomei a decisão de não consumir mais ovos – último alimento de origem animal que comi. Muito tempo antes, comecei a refletir sobre a forma como sempre defendi a igualdade, o respeito e a tolerância entre os seres humanos.
E por que não estender isso aos animais? Já tinha abandonado a carne há um bom tempo, mas enquanto consumia ovos e laticínios não conseguia me ver como um ser humano em posição de falar de forma justa sobre a igualdade e a importância da vida.
O leitãozinho da vitrine
A verdade é que ninguém se importou com a sua presença até que o vidro começou a vibrar
A fila do açougue parecia não ter fim, quase encostando em uma distante parede branca, onde centenas de pacotes de cereais preenchiam os expositores. Pessoas e mais pessoas compravam imensas quantidades de carne. “Me vê vinte quilos de costela!”, “Quero dez quilos de costelinha de porco!” Ah! E também sete quilos de linguiça toscana!”, “Não! Pedi quinze quilos de cupim!”, “Isso! Isso! Dezoito quilos de miolo de paleta!”
Carne moída, asinhas de frango, coxas e sobrecoxas, coxão mole, alcatra, fraldinha, maminha, bacon. A demanda era tão grande que um dos açougueiros teve de checar na sala de corte se ainda havia carne o suficiente para atender toda aquela gente. Alguns fregueses se desesperaram com a possibilidade de faltar um ou outro corte. “Pelo Amor de Deus! Se eu não conseguir um bom pedaço de picanha, sei nem o que fazer. É pra acabar com o feriado da família!”, reclamou um homem que empurrava um carrinho repleto de bandejas de carne congelada e resfriada.
Em meio ao ranger de dentes e roer de unhas, os mais discretos chutavam sutilmente as rodinhas do carrinho enquanto aguardavam a resposta do açougueiro, a quem foi dada a missão mais importante do dia. “Quero bife, mãe! Quero bacon, mãe!”, gritava uma criança chorosa de menos de oito anos. O carnólatra mirim abria tanto a boca para reclamar que não era difícil ver fiapos de carne entre seus dentes.
E quanto mais o açougueiro demorava, mais a tensão aumentava. Notei mãos trêmulas, gente coçando o próprio corpo, como se tomada por comichão. Enfim, olhares inquietos, expressões de desalento, raiva e reprovação engrossavam o baluarte da inquietação. Quando o açougueiro retornou, acenou com a cabeça e sorriu, uma multidão de clientes o aplaudiu.
Rapidamente as vozes e as palmas foram abafadas pelo som das serras elétricas fatiando colossais pedaços de costela. E ninguém se importava com a névoa de farelos de ossos que caíam sobre suas cabeças. Diante do álgido e sortido cheiro de carne, um leitãozinho era mantido sob a vitrine. Ele passava despercebido com uma maçã na boca. A verdade é que ninguém se importou com a sua presença até que o vidro começou a vibrar.
Os fregueses se entreolharam e não viram nenhuma mão ou perna humana tocando a vitrine. E do lado de dentro, o leitãozinho tentava quebrar o vidro com a maçã na boca. Fazia um esforço descomunal para se livrar da fruta. Quando conseguiu, grunhiu como nunca. Assustados, adultos gritaram e crianças choraram. Mas ninguém se emocionou mais do que o porquinho que escorregou sobre as próprias lágrimas.
“Meu Deus! Que isso! Que nojo! Que sacanagem! Um porco vivo! Que brincadeira de mau gosto! Misericórdia! Que maldade! Onde o mundo vai parar!”, diziam. A imagem do leitãozinho vivo fez os clientes abandonarem a fila do açougue, e se não por horror, por constrangimento. A exceção foi o homem que estava na fila para comprar picanha:
— O que o senhor quer?
— Quero o leitão.
— Mas, meu senhor, ele ainda está vivo!
— É assim mesmo que eu quero.
— Vou ver o que posso fazer.
— Então?
— Tá tudo certo! Pode levar o porco. O senhor paga isso aqui lá no caixa.
— Muito bem! Obrigado, amigo.
Naquele dia, o último cliente do açougue abandonou o carrinho onde transportava muitas bandejas de carne resfriada e congelada. Com o leitãozinho nos braços, atravessou o mercado e ignorou dezenas de olhares. No caixa, pagou por algo que não considerava mais um produto e caminhou até a saída como se embalasse um bebê. Lá fora, a noite não parecia escura e fria. Então o leitãozinho da vitrine encostou o focinho no ombro do homem e não chorou, somente cochilou.
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Sobre a dor das plantas e o veganismo
Por causa de veganos e vegetarianos que campanhas a favor da preservação da natureza são encampadas
Uma das imagens que mais tenho visto compartilhada por pessoas que não são vegetarianas ou veganas é uma que induz à ideia de que as plantas sentem dor. E isso curiosamente, embora até então não tivesse nenhum respaldo científico, hoje vai ao encontro de uma matéria controversa e de interpretação variegada publicada pela Deutsche Welle, na Alemanha, envolvendo um trabalho de pesquisadores do Instituto de Física Aplicada da Universidade de Bonn.
Embora o título da matéria, também veiculada no Brasil e em Portugal, dê a entender, logo no título e na linha fina, talvez como chamariz, que as plantas sentem dor, o próprio trabalho informa que não é bem assim. O estudo, encampado por cientistas da área de física aplicada, não de biologia, é baseado em sinais de comunicação, e responder a um sinal de comunicação não é atestado de sensibilidade.
Ainda assim, não deixa de ser um trabalho relevante quanto à captação e transmissão de estímulos. Porém, se pensarmos nos animais, já foi provado que eles têm sensibilidade inclusive superior à humana pelo fato de serem incapazes de racionalizar as próprias emoções. Logo eles sentem dor, e muita, algo que é provado independente da ciência.
Mesmo usando o método acústico-etileno, os pesquisadores alemães também não conseguiram provar que plantas têm sentimentos. Já os animais, sabemos que sim. Ademais, animais têm vida social complexa como as dos seres humanos, basta ver a forma como eles se relacionam com seus filhos.
Além disso, é um equívoco muito comum alguém crer que veganos e vegetarianos não atribuem valores às plantas. Muito pelo contrário. É justamente por causa de veganos e vegetarianos que muitas campanhas contra o desmatamento e a favor da preservação da natureza são encampadas. Ninguém combate mais isso do que pessoas que se recusam a consumir alimentos de origem animal, já que a destruição da natureza hoje em dia está mais relacionada à crescente destinação de espaço para a criação de animais e produção de ração.
Conversando sobre esse assunto, dias atrás um amigo me perguntou o que eu faria se hipoteticamente fosse provado que as plantas sentem dor. Bom, eu continuaria trilhando meu caminho, já que um vegano precisa de uma área 18 vezes menor para se alimentar do que quem não é. Minha prioridade é proporcionar o menor impacto possível aos seres vivos enquanto eu viver, e vou me adaptando às novidades sem problema algum. Jamais desconsiderei a importância das plantas. Penso que tudo que compõe a natureza é belo e essencial à sua maneira, independente de níveis de sensibilidade.
Comentei também que acho um grande erro qualificar um vegano como elitista ou elitizado, porque acredito que é exatamente para não parecer assim que muitos aderem ao veganismo. Considero até uma contradição chamar um vegano de elitista. No meu caso, tento viver sob o princípio da igualdade – não me sinto superior a nenhum animal. Por isso optei por não me alimentar deles. É um estilo de vida que condiz com a minha essência, e não falo só de valores morais e éticos. Acredito que muitas pessoas já nascem para o veganismo, mas muitas vezes só descobrem isso muito tempo depois, quando notam ou sentem os sinais que os levam para esse caminho.
Upton Sinclair e as mazelas da indústria frigorífica
“Queria tocar o coração do público, mas acabei tocando o estômago”
Em 1906, o escritor estadunidense e reformador social Upton Sinclair lançou o seu livro mais famoso. Intitulado The Jungle (A Selva), a obra que denuncia as mazelas da indústria frigorífica teve tanta repercussão nos Estados Unidos que o governo não viu outra saída, a não ser a criação da Food and Drug Administration (FDA), órgão responsável, dentre outras competências, pela fiscalização da produção alimentícia.
A riqueza de detalhes com que Sinclair descreve as más condições enfrentadas pelos trabalhadores e pelos animais explorados pela indústria fez com que milhares de pessoas se tornassem vegetarianas nas primeiras décadas do século 20. E com o tempo, e a popularidade mundial do livro traduzido em mais de 50 idiomas, o número de adeptos da alimentação livre de ingredientes de origem animal cresceu exponencialmente.
Convertido ao vegetarianismo por influência de John Harvey Kellogg, criador do famoso cereal matinal, o escritor produziu uma obra de denúncia que até hoje é apontada como a mais influente sobre a matança de animais nos Estados Unidos. Embora alguns pesquisadores defendam que após alguns anos Upton Sinclair abandonou o vegetarianismo, citando como exemplo um texto de 26 páginas intitulado Fasting and the Use of Meat, seu livro continuou influenciando muita gente a não consumir mais carne e a lutar por reformas sociais envolvendo as agroindústrias.
O protagonista da obra é o lituano Jurgis Rudkus, um imigrante que mal sabe falar inglês e vive com a família em um distrito de Chicago dominado por currais e fábricas de carne processada. Desempregado, Rudkus aceita um emprego em um matadouro. Mas a desilusão cresce quando ele se vê endividado. Às raias da miséria, é obrigado a se sujeitar aos trabalhos mais sórdidos, além de amargar experiências traumatizantes como a morte do pai, vítima da falta de segurança nas linhas de produção da indústria frigorífica. Em uma das passagens da página 38 de The Jungle, uma imigrante lituana se mostra chocada ao saber do destino de milhares de bois e vacas.
“E o que será de todas essas criaturas?”, chorou Teta Elzbieta.
“Esta noite, todos serão mortos e fatiados. E logo ali, do outro lado dos depósitos de acondicionamento, há mais ferrovias, e de lá vêm os vagões que vão levá-los embora”, respondeu Jokubas Szedvilas. No total, dez milhões de criaturas vivas eram transformadas em alimento a cada ano.
Assim como os animais, os trabalhadores também eram tratados como seres inferiores, já que suas vidas se resumiam às longas jornadas de trabalho. Exemplo disso é um adolescente que vencido pela exaustão e pela embriaguez dorme no trabalho, onde se torna comida para ratos na madrugada. Nesse trecho, Upton Sinclair denuncia ainda a falta de higiene nas linhas de produção. Também revela no livro que muitas vezes a carne bovina se misturava à carne dos ratos que morriam nas linhas de produção.
À frente, havia uma grande roda de ferro, de 20 pés de circunferência e com anéis por toda a sua borda. (…) Quando a roda virou, o porco teve seu pé arrancado e arremessado para o alto. Ao mesmo tempo, ouviu-se um grito aterrorizante; os visitantes ficaram alarmados; as mulheres empalideceram e recuaram, escreveu Sinclair na página 40 de The Jungle.
No livro-denúncia de viés socialista, o sofrimento dos animais e dos homens estão interligados; um não existe sem o outro num contexto em que na prática o sonho americano não passa de uma distopia velada pela inocente fantasia. E nesse cenário, o maior financiador é o consumidor que alheio à excruciante realidade aceita tudo na sua passividade.
A omissão do Estado também endossa e justifica a existência dessas práticas. Publicado há mais de cem anos, The Jungle é uma obra que, em síntese, não apenas flerta com a atualidade, mas diz muito sobre ela. “Queria tocar o coração do público, mas acabei tocando o estômago”, declarou Sinclair ao avaliar a recepção do livro.
Saiba Mais
Upton Sinclair nasceu em 20 de setembro de 1878 em Baltimore, Maryland, e faleceu em 28 de novembro de 1968 em Bound Brook, Nova Jersey.
O livro Dragon’s Teeth (Dentes de Dragão), que garantiu o Prêmio Pulitzer a Upton Sinclair em 1943, narra o zeitgeist e o drama dos eventos registrados na Europa que resultaram no início da Segunda Guerra Mundial.
Referências
Harris, Leon. Upton Sinclair: American Rebel. Thomas Y. Crowell Company, New York (1975).
Mason, M. Diane. Mullins, T. Janet. Vegetarian 101: History, Health and Tips. University of Kentucky (2016).
Sinclair, Upton. The Jungle. Dover Publications; Unabridged Edition (2001).
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Augusto dos Anjos e a consciência vegetariana
Na mão dos açougueiros, a escorrer/Fita rubra de sangue muito grosso/A carne que ele havia de comer!
O paraibano Augusto dos Anjos, por vezes qualificado como simbolista, parnasiano e pré-modernista, era na realidade um poeta solitário que pouco se via no contexto de qualquer corrente literária. Assim como muitos outros artistas, sofria com o anacronismo em relação às suas obras, poemas que fundamentados num tipo peculiar de panteísmo místico já externavam uma conexão entre o homem e a natureza, algo pouco compreendido até o seu falecimento precoce, aos 30 anos. Embora não haja registros sobre os hábitos alimentares de Augusto dos Anjos, não há dúvidas de que ele foi um dos primeiros escritores brasileiros a abordar a consciência vegetariana em suas obras. Ou seja, foi muito além da escatologia, da consciência da morte enquanto tema.
Sofredor é o termo coloquial que melhor define a essência do poeta paraibano que raramente se via livre da cefaleia e do desconforto existencial. Dotado de exímia sensibilidade, Augusto dos Anjos cristalizava suas insatisfações, anseios e observações com a mesma angústia do simbolista francês Arthur Rimbaud. E talvez esse fosse o maior indicativo de que ele era humano, demasiado humano, como no conceito criado e publicado por Nietzsche em 1878.
Educado em casa pelo próprio pai, um profícuo homem das letras, Augusto se identificou na infância com a linguagem das ciências naturais, o que o motivou a criar seus primeiros sonetos aos sete anos. “Desde a mais tenra idade me entreguei exclusivamente aos estudos, relegando por completo tudo quando concerne ao desenvolvimento, numa atmosfera de rigorosíssima moralidade, da chamada vida física”, disse o poeta em entrevista concedida a Licinio Santos em 1912 e publicada no livro A Loucura dos Intelectuais em 1914.
E o rigor moral realmente acompanhou o escritor ao longo de toda a sua vida. A maior prova são seus poemas publicados na obra póstuma Eu e Outras Poesias, lançada por iniciativa da Imprensa Oficial do Estado da Paraíba em 1920. No livro, sua consciência da relação dissonante da humanidade com a natureza é apresentada de forma ácida e veemente. Em À Mesa, a mórbida ironia revela a leviandade e a consciente cumplicidade humana no ato de se alimentar de animais:
Cedo à sofreguidão do estômago. É a hora
De comer. Coisa hedionda! Corro. E agora,
Antegozando a ensanguentada presa,
Rodeado pelas moscas repugnantes,
Para comer meus próprios semelhantes
Eis-me sentado à mesa!
Como porções de carne morta… Ai! Como
Os que, como eu, têm carne, com este assomo
Que a espécie humana em comer carne tem!…
Como! E pois que a razão me não reprime,
Possa a terra vingar-se do meu crime
Comendo-me também.

“Quando a faca rangeu no teu pescoço, ao monstro que espremeu teu sangue grosso” (Imagem: Reprodução)
No bucólico Engenho do Pau D’Arco, em Sapé, sua cidade natal, Augusto dos Anjos chegou a conduzir sessões de mediunidade. Ainda assim, ele jamais se viu como um religioso. Muito pelo contrário. Suas obras sempre abordaram de forma satírica as mais pertinentes contradições que permeiam o cristianismo. No entanto, isso nunca o impediu de se identificar com o panteísmo, assim como o célebre e também incompreendido poeta inglês William Blake.
Quem sabe o escritor paraibano tenha sido atraído pelo fato de que a doutrina se baseia no reconhecimento de Deus em tudo que compõe a natureza. E a partir dessa influência, Augusto fez cabais associações entre a tradição mística do ocidente, o cientificismo que o acompanhou por toda a vida e a cultura oriental fundamentada em religiões védicas da Índia. Esse hibridismo e a constante busca pela sabedoria provavelmente tinham relação com a sua ânsia por entender o mundo, os seres humanos e sua relação com todas as formas de vida.
Exemplos de sua aspiração transcendental são os poemas O Meu Nirvana e Budismo Moderno, publicados no livro Eu, de 1912. Extremamente sensível, Augusto dos Anjos se empenhou em encontrar em fontes orientais um amenizador para a inquietude que o atormentava. “Sinto uma série indescritível de fenômenos nervosos, acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar”, confidenciou em entrevista a Licinio Santos. E foi essa emotividade à flor da pele que o motivou a escrever A Um Carneiro Morto, de 1909, que fala da desproporcionalidade entre a empatia animal e a truculência humana.
Quando a faca rangeu no teu pescoço,
Ao monstro que espremeu teu sangue grosso
Teus olhos — fontes de perdão — perdoaram!
Oh! tu que no Perdão eu simbolizo,
Se fosses Deus, no Dia de Juízo,
Talvez perdoasses os que te mataram!
Alimentado com leite de escrava na infância, Augusto dos Anjos não se orgulhava de sua herança fundamentada no patriarcalismo rural. Cresceu desinteressado pela socialização, o que lhe garantiu o apelido de “O homem ausente”. Importantes nomes da literatura brasileira, como Orris Soares e José Américo de Almeida, o descreviam como um sujeito de tez pálida e morena, mais alto do que baixo, franzino e recurvo, de fronte alongada e grandes olhos sem mobilidade. Suas mãos eram moles e denunciavam timidez. Andava como se estivesse sempre na ponta dos pés, e de longe sua magreza excessiva chamava atenção pelo aspecto insalubre. E nada disso parecia-lhe relevante, talvez até insignificante, já que para além do trabalho ele vivia imerso em si mesmo e na própria poesia. Em A Obsessão do Sangue, Augusto dos Anjos discorre sobre a barbárie consentida entre o açougueiro e o consumidor que se excita diante da carne a ser servida.
Levantou-se. E, eis que viu, antes do almoço,
Na mão dos açougueiros, a escorrer
Fita rubra de sangue muito grosso,
A carne que ele havia de comer!
No inferno da visão alucinada,
Viu montanhas de sangue enchendo a estrada,
Viu vísceras vermelhas pelo chão…
E amou, com um berro bárbaro de gozo,
O monocromatismo monstruoso
Daquela universal vermelhidão!
Graduado em direito, o poeta jamais atuou como advogado. Preferiu o magistério e se tornou professor no Liceu Paraibano. Se casou em 1910 e logo se mudou para o Rio de Janeiro, onde lecionou na Escola Normal e Ginásio Nacional. O salário era tão modesto que ele mal conseguia sustentar a família. Ainda assim, prosseguia escrevendo, dando vazão à sua vocação. No poema Monólogo de Uma Sobra, Augusto dos Anjos reafirma sua crença na relação entre a solidariedade, o cosmo e o misticismo. Em um excerto, ele escreveu:
E o animal inferior que urra nos bosques
É com certeza meu irmão mais velho!
Depois de quatro anos, e atendendo à recomendação médica, o poeta migrou para Leopoldina, em Minas Gerais, com a esposa Ester Fialho e os dois filhos. Lá, ele exerceu o cargo de diretor do Grupo Escolar até que faleceu em 12 de novembro de 1914 em decorrência de pneumonia.
Na área em que estou, ao matinal assomo,
Passa um rebanho de carneiros dóceis…
E o Sol arranca as minhas crenças como
Boucher de Perthes arrancava fósseis,
Escreveu Augusto dos Anjos em Estrofes Sentidas, poema que na minha opinião sintetiza sua empatia por todos os seres vivos, mesmo diante da própria finitude extemporânea.
Saiba Mais
Augusto dos Anjos nasceu em 20 de abril de 1884 em Engenho do Pau D’Arco, em Sapé, na Paraíba.
Eu, seu único livro de poesia publicado em vida, foi lançado no Rio de Janeiro em 1912.
Os escritores preferidos do poeta eram William Shakespeare e Edgar Allan Poe.
Referências
Dos Anjos, Augusto. Eu e Outras Poesias. Bertrand SP (2001).
Santos, Licinio. A Loucura dos Intelectuais (1914).
Figueiredo, José Maria Pinto. A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos. Universidade Federal do Amazonas (2012).
Paes, José Paulo. Augusto dos Anjos ou o evolucionismo às avessas. Novos Estudos (2008).
Viana, Chico. Autobiografia e lirismo em Augusto dos Anjos (2007). Disponível em chicoviana.com.
Erickson, Sandra, S. F. Augusto dos Anjos: Budismo Moderno. XVII Anais: Semana de Humanidades. UFRN (2010). Disponível em http://www.cchla.ufrn.br/shXVIII/artigos/G T05/Sandra%20S.F.%20Erickson.pdf.
Nóbrega, Humberto. Augusto dos Anjos e sua época. João Pessoa, Edição da Universidade da Paraíba (1962).
Sabino, Márcia Peters. A questão da religiosidade em Augusto dos Anjos. Disponível em http://www.seer.ufu.br/index.php/letraseletras/article/viewFile/25201/14017.
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A cabra da mangueira
Era como se sua essência se esforçasse para se lançar para fora de um abismo movediço e ruidoso
Eu tinha oito anos. Henrique e Thiaguinho vieram me chamar num sábado para ir até a casa deles brincar com um animal “diferente”. Avisei minha mãe e acompanhei eles até o quarteirão de baixo. Chegando lá, vi uma cabra tão branquinha e portentosa que só o fato dela existir parecia o suficiente para transmitir a mais querençosa das serenidades.
Ela se mantinha silenciosa amarrada a um pé de manga no quintal, e desde que a vi pela primeira vez notei seu olhar amiudado e melancólico. Em algumas partes do seu corpo havia uma porção de cicatrizes; talvez tivesse se machucado nas tentativas de fuga. Enquanto tirava minhas próprias conclusões, ela se cansou de ficar em pé e sentou sobre uma porção de folhas secas, ignorando as mangas apodrecidas que lambuzavam seus pelos.
Sua cabeça se movia lentamente de um lado para o outro. Ao mesmo tempo, sete ou oito pessoas gritavam, riam e conversavam. Cães e gatos atravessavam o outro lado do quintal, numa brincadeira consentida sem hora para terminar. Com receio de ser repreendido, fiquei num canto assistindo a cabra a quem dei o nome de Belinha – sem contar a ninguém.
O pai de Henrique não tirava os olhos dela. Entre um gole e outro de cerveja, ele se aproximava da cabra que indiferente a tudo não reagia às leves palmadas que recebia, acompanhadas de um sorriso e uma frase clichê: “É hoooojeeee!” Não entendi o que ele quis dizer e fiquei calado. Quando tossi, Belinha notou que eu estava sentado no chão, escorado contra o cercadinho da varanda.
Em seu olhar havia uma opacidade que se misturava a um brilho fortuito. Era como se sua essência se esforçasse para se lançar para fora de um abismo movediço e ruidoso. Cerca de 15 minutos após a minha chegada, ela fechou os olhos, mirou o chão e assim ficou. Me levantei e caminhei em direção a ela, até que o pai de Henrique apareceu de repente e sugeriu que eu me afastasse da cabra: “Vá brincar pra lá, David! Não é pra chegar perto da cabra!”
Assustado, voltei amuado para o meu canto. Belinha abriu novamente os olhos. Mesmo com as patas sujas e o lombo ligeiramente turvo, no meu ideário ela ainda era o ser mais impoluto do lugar. Eu não conseguia associar sua imagem à sujeira. Seu semblante e tudo que emanava dele reforçava minha opinião.
Mais alguns minutos se passaram e uma brisa repentina balançou as folhas da mangueira. Belinha se levantou, elevou a cabeça em direção ao céu e sentiu o bafejo da natureza acariciando sua barba longa e fina. Tive a impressão de vê-la sorrindo enquanto seus pelos se avolumavam na sua simplicidade contemplativa.
Assim que a aragem partiu, a luz aos poucos se extinguiu. O sol já não brilhava sobre nossas cabeças. Era um início de tarde travestido de fim. Preocupado, corri até em casa para ajudar minha mãe a tirar as roupas do varal, crente de que logo mais a chuva chegaria, derrubando e arrastando tudo com patifaria.
De volta à casa de Henrique, minhas pernas tremularam quando olhei em direção à mangueira. Belinha foi degolada e abaixo dela havia dois baldes cheios de sangue que respingaram sobre o solo, tingindo de vermelho as folhas e mangas no chão. Tentei encostar a mão na sua cabeça, ou pelo menos nos fios de sua barba, mas eu era pequeno e só pude acariciar suas patas.
Me arrepiei e chorei ao ver seus olhos retangulares e melífluos ainda úmidos. Sabia que ela também tinha chorado, porque sua barba gotejou transparência sobre a minha testa. Encolerizado, caminhei até uma roda de homens e perguntei porque eles mataram a cabra. “Pra comer, ora! Por que mais seria?”, responderam em uníssono, fazendo troça da minha exasperação.
À noite, antes de dormir, me ajoelhei diante da cama, orei e pedi a Deus que colocasse Belinha em um bom lugar, que não a deixasse vagar pelos umbrais por ter morrido de forma trágica e antes da hora. No dia seguinte, vieram em casa oferecer a carne da cabra, mas minha mãe recusou educadamente. Apesar de enraivecido, eu não disse nada. Depois fiquei sabendo que todos que comeram a carne de Belinha passaram muito mal.
Além disso, quatro homens que participaram do abate da cabra faleceram na mesma semana em um acidente, transportando gado do Mato Grosso do Sul para o Paraná. Supersticioso, o pai de Henrique e Thiaguinho nunca mais matou nenhum animal. E eu, ao longo de um mês, prossegui com a mesma oração: “Deus, coloque os amigos do pai de Henrique em um bom lugar. Mas em primeiro lugar a Belinha que morreu antes.”
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Mark Twain, um porta-voz dos animais
“O fato de que o homem pode agir erradamente prova a sua inferioridade moral em relação a toda criatura que não pode”
Um dos mais proeminentes escritores dos Estados Unidos, o jornalista, romancista e humorista Mark Twain publicou dois livros que fazem parte da lista de obras essenciais da literatura mundial – The Adventures of Tom Sawyer, de 1876, e The Adventures of Huckleberry Finn, de 1885. No entanto, o que pouca gente sabe até hoje é que Twain foi um importante defensor dos direitos dos animais.
“De todas as criaturas, o homem é a mais detestável. De todas, somente ele possui malícia. Ele é o único que causa dor por esporte e com consciência de que isso causa dor. O fato de que o homem sabe distinguir o certo do errado prova a sua superioridade intelectual em relação às outras criaturas. Mas o fato de que ele pode agir erradamente prova a sua inferioridade moral em relação a toda criatura que não pode”, escreveu Twain em seu livro de ensaios What Is Man?, publicado em 1908.
Na obra, Twain apresenta um homem jovem e um idoso conversando sobre a natureza humana. Enquanto o mais velho, que oscila entre o pragmatismo e o pessimismo, define o ser humano como alguém que vive para si mesmo, o rapaz, como bom questionador, pede que ele se aprofunde em suas explanações, assim equilibrando a discussão. À época, o escritor decidiu lançar What Is Man? de forma anônima, até que se arrependeu de tê-lo publicado quando percebeu que a maioria dos leitores pouco se interessava pelo assunto.
Mesmo após sua morte, em 21 de abril de 1910, em Redding, Connecticut, em decorrência de um ataque cardíaco aos 74 anos, seu livro de ensaios ainda recebeu críticas inflexíveis. A maior delas talvez seja uma do New York Tribune que qualificou seu livro como uma obra antirreligiosa e sombria, mesmo ele chamando a atenção para questões de grande importância como o tratamento que os seres humanos dão aos animais.
Embora haja controvérsias sobre ele ter sido ou não vegetariano em algum momento de sua vida, já que há pesquisadores que afirmam que Mark Twain consumia alimentos de origem animal, ele demonstrava ser um sujeito de grande sensibilidade em relação aos animais. Um exemplo é a passagem abaixo, revelando grande remorso após atirar em um passarinho na infância:
“Eu atirei em um pássaro sentado em uma árvore alta, com a cabeça inclinada para trás e derramando uma grata canção de seu inocente coração. Ele tombou de seu galho e veio flutuando flácido e desamparado até cair aos meus pés. Sua música foi extinta assim como sua inocente vida. Eu não precisava ter feito isso com aquela criatura inofensiva. Eu a destruí desenfreadamente e senti tudo o que um assassino sente, de tristeza e remorso quando chega em casa e percebe o quanto desejaria desfazer o que estava feito, ter suas mãos e sua alma limpa outra vez, sem acusar sangue”, relata Mark Twain em texto raro que faz parte da obra póstuma Book of Animals.
O livro mostra que Twain se preocupava muito com o bem-estar animal. Inclusive, de acordo com informações biográficas, seu tom de voz suavizava ao falar de algum animal, ao contrário do que acontecia quando o assunto era a humanidade.
“Eu não estou interessado em saber se a vivissecção produz ou não resultados rentáveis para a raça humana. Saber que é um método rentável não reduz a minha hostilidade em relação a isso. As dores infligidas aos animais sem o consentimento deles é a base da minha oposição. Os vivisseccionistas têm em sua posse uma droga chamada curare que impede o animal de lutar ou chorar. É um recurso horrível sem qualquer efeito anestésico. Muito pelo contrário, intensifica a sensibilidade à dor. Incapaz de fazer qualquer sinal, o animal é mantido perfeitamente consciente enquanto seu sofrimento é duplicado”, argumenta Twain em carta enviada a London Anti-Vivisection Society em 26 de maio de 1899.
E a inspiração do escritor para se tornar um protetor dos animais veio de sua mãe, Jane Lampton Clemens, que mantinha a casa cheia de gatos, alguns com nomes curiosos como Blatherskite (Fanfarrão) e Belchazar. “Uma vez, ela repreendeu um homem na rua porque ele estava batendo no próprio cavalo”, revela a editora Shelley Fisher Fishkin no prefácio do livro.
Entre as suas histórias mais célebres, e que destaca com clareza a sua sensível perspectiva em relação aos animais, está Jim Smiley and His Jumping Frog que conta a história de um apostador que tem uma rara habilidade de cativar os animais.
“De 1899 a 1910, ele emprestou sua caneta para reforçar os esforços dos dois lados do Atlântico, sendo o porta-voz do movimento pelo bem-estar animal. O que ajudou muito foi o fato de que ele era o mais famoso escritor americano da época”, declara a pesquisadora Shelley Fishkin, PhD em estudos americanos pela Universidade Yale, em New Haven, Connecticut. Outro fato intrigante é que Mark Twain começou sua carreira literária da mesma forma que a iniciou – escrevendo sobre animais. Após o seu falecimento, sua família descobriu que ele havia deixado inúmeras obras inéditas, principalmente contos sobre distintas figuras animalescas capazes de povoar o ideário popular por dezenas de gerações.
Saiba Mais
Mark Twain nasceu em Flórida, Missouri, em 30 de outubro de 1835.
Ele dizia que o homem é o único animal que cora. Ou que precisa corar.
O Título What is Man? do seu livro de ensaios foi inspirado no Salmo 8.
Referências
Mark Twain’s Book of Animals. Shelley Fisher Fishkin. University of California Press (2011).
R. LeMaster, James Darrell Wilson, Christie Graves Hamric.The Mark Twain Encyclopedia. Taylor & Francis (1993).
Twain, Mark. The Celebrated Jumping Frog of Calaveras County. University of California Press (2011).
Twain, Mark. What Is Man? CreateSpace Independent Publishing Platform (2011).
Kirk, Connie Ann. Mark Twain – A Biography. Connecticut: Greenwood Printing (2004).
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Lord Byron e a abstinência da carne
Desde que Eva comeu a maçã, a felicidade do homem depende em grande parte do jantar

O que Byron mais repudiava eram os excessos que ele testemunhava nos jantares da burguesia britânica (Arte: Reprodução)
Um dos poetas mais controversos do Reino Unido, o satírico George Gordon Byron, ou simplesmente Lord Byron, entrou para a história da literatura no século 19, depois de escrever seus dois poemas mais importantes – os longos Don Juan e Childe Harold’s Pilgrimage (Peregrinação de Childe Harold). À época, muita gente acreditava que Byron era um escritor que usava a literatura simplesmente para transmitir o seu cínico desprezo pela humanidade. No entanto, o que ele mais repudiava eram os excessos que ele presenciava nos jantares da burguesia britânica.
Durante os banquetes, não foram poucos os momentos em que o mais antirromântico dos românticos se revoltou ao testemunhar tantos animais mortos sendo servidos à mesa para satisfazer a glutonaria dos abastados. Sem cerimônia, se queixava diante de todos, exacerbando sua cólera muito bem harmonizada através da ironia:
Toda a História humana atesta,
que a felicidade para o Homem – o insaciável pecador! –
Desde que Eva comeu a maçã, depende em grande parte do jantar,
poetizou o britânico em um excerto de Canto XVII, de Don Juan.
No entanto, Lord Byron nem sempre foi vegetariano. Inclusive houve um período em que ele chegou a discutir com Percy Shelley, marido da escritora Mary Shelley, sobre suas contrariedades em relação ao vegetarianismo. Porém, mais tarde admitiu em carta à sua mãe que estava determinado a se livrar completamente dos alimentos de origem animal, uma decisão que pode ter sido influenciada por Shelley.
Segundo o poeta britânico, se abster de consumir carne iria proporcionar-lhe percepções mais claras, um novo entendimento da vida e do mundo. Tomada a decisão, Byron, que até então era considerado tão volátil como ser humano quanto artista, adotou em certo período um estilo de vida surpreendentemente frugal, com uma alimentação baseada em água e bolachas caseiras, preparadas a seu gosto. Das bebidas alcoólicas, apenas o vinho branco ainda o acompanhava. Como alguém que tencionava se afastar cada vez mais das armadilhas do ego e das insídias da vida em sociedade, o poeta escreveu em Childe Harold’s Pilgrimage:
Existe prazer nas matas densas
Existe êxtase na costa deserta
Existe convivência sem que haja intromissão no mar profundo e música em seu ruído
Ao homem não amo pouco, porém muito a natureza
No dia 25 de junho de 1811, de acordo com o livro Life of Lord Byron: with his letters and journals, de Thomas Moore, o poeta informou que havia se tornado vegetariano há muito tempo, e que peixe ou qualquer outro tipo de carne estava fora de cogitação: “Por isso estou estocando batatas, verduras e bolachas. Não estou bebendo nem vinho. Com relação à minha saúde, estou me sentindo bem. Recentemente tive malária, mas me recuperei rapidamente.”
Em 1818, quando hospedou Percy e Mary Shelley em sua casa na Vila Diodati, nas imediações do Lago de Genebra, na Suíça, e justamente num período chuvoso em que Mary, com a ajuda do marido, escreveu o esboço de Frankenstein, a dieta de Lord Byron era baseada em uma fatia fina de pão com chá no café da manhã; vegetais e uma ou duas garrafas de água com gás no jantar; e uma xícara de chá verde sem açúcar na ceia. Ao sentir fome, ocasionalmente ele mastigava tabaco ou fumava charutos. “Nenhum outro regime funcionou tão bem para mim até hoje como o meu chá com bolachas, mesmo quando me alimento com moderação”, declarou o poeta em seu diário em 1813.
Um dos problemas que mais o incomodava antes de aderir ao vegetarianismo era o excruciante aumento de fluidos na sua corrente sanguínea, provocando inturgescência vascular. E tudo isso era agravado se Byron consumisse alimentos de origem animal. “O remédio para a sua pletora é simples – a abstinência”, consta em registro pessoal de 28 de janeiro de 1817.
Ele demonstrou através de seus poemas e cartas que por trás de sua abstinência sempre houve uma motivação moral. Além disso, Lord Byron amava os animais, tanto que jamais viajava sem levar pelo menos cinco gatos. Um deles, chamado Beppo, foi inclusive homenageado com um poema homônimo. Outro de seus amigos inseparáveis era Boastwain, um cão da raça newfoundland que o inspirou a conceber Epitaph to a Dog em 1808.
Quando seu companheiro canino faleceu, Byron erigiu um monumento para eternizar a imagem de Boastwain em verso. E seguindo suas recomendações, assim que o poeta faleceu com apenas 36 anos em 19 de abril de 1824, em decorrência de imperícia médica após contrair febre reumática na Guerra de Independência da Grécia, sua família atendeu ao mais expresso dos seus pedidos: “Que o monumento em minha homenagem não seja maior do que o de Boastwain.” E assim foi feito.
Observações do autor
Há pesquisadores que creem que o vegetarianismo de Lord Byron era estimulado simplesmente por distúrbios alimentares. Independente do que o levou a adotar o vegetarianismo, a verdade é que Byron, com seu perfil antiacademicista, até hoje é uma figura labiríntica da literatura inglesa, o que significa que por mais que estudem ou escrevam a seu respeito, sempre vai perseverar a controvérsia.
Em síntese, o texto acima tem o propósito de apresentar a outra face de George Gordon Byron, que ficou mais conhecido pela fama que fizeram dele do que pela sua própria história. Ainda hoje sua imagem quase sempre é associada a orgias, relacionamentos carnais com centenas de mulheres e muitos relatos envolvendo bebedeiras, além de outras extravagâncias consideradas profanas no contexto do cristianismo.
Curiosidade
Lord Byron foi vegetariano por muito tempo e o mais intrigante é que o poeta John Polidori escreveu uma obra prosaica chamada The Vampyre, inspirada em alguns dias que ele conviveu com Byron e o casal Shelley na Suíça. E mais tarde, a história de Polidori inspirou Bram Stoker a escrever Dracula. Muita gente crê que Drácula é um personagem baseado em pesquisas sobre o conde Vlad Tepes, mas na realidade o início de tudo foi a inspiração que veio através de Byron. Sendo assim, o Drácula foi inspirado em um vegetariano.
Saiba Mais
Lord Byron, nascido em Dover, no Reino Unido, em 22 de janeiro de 1788, faleceu em Missolonghi, quando lutava contra os turcos pela independência da Grécia.
Byron tinha um defeito no pé direito, por isso mancava quando andava.
O vegetarianismo do poeta também foi inspirado no filósofo e matemático grego Pitágoras.
Referências
Moore, Thomas. Life of Lord Byron: with his letters and journals (1854). Disponível em archive.org.
Byron, Lord. Childe Harold’s Pilgrimage. CreateSpace Independent Publishing Platform (2009).
Byron, Lord. Don Juan. CreateSpace Independent Publishing Platform (2009).
McGann, Jerome. Byron, George Gordon Noel (1788–1824). Oxford Dictionary of National Biography. Oxford University Press (2013).
MacCarthy, Fiona. Byron: Life and Legend. Farrar, Straus and Giroux; First edition (2002).
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O vegetarianismo na literatura de Mary Shelley
“Não tenho que matar o cordeiro e a cabra para saciar o meu apetite”

Além da mitologia grega, Mary Shelley se inspirou também em Rousseau para escrever Frankenstein (Arte: Rothwell)
A escritora britânica Mary Wollstonecraft Shelley, famosa pela criação do monstro de Frankenstein, um dos mais emblemáticos da literatura mundial, teve uma vida pautada pelo vegetarianismo. Quando decidiu escrever aquela que se tornaria sua grande obra-prima, a maior inspiração da autora não foi basicamente o mito grego do titã Prometeu, um defensor da humanidade que roubou o fogo de Héstia e presenteou os mortais, mas também o conceito de nobre selvagem, cunhado pelo filósofo suíço e defensor do vegetarianismo Jean-Jacques Rousseau.
“Mas considerai primeiro que, querendo formar o homem da natureza, não se trata por isso de fazer dele um selvagem e de relegá-lo ao fundo dos bosques, mas, envolvido em um turbilhão social, basta que ele não se deixe arrastar nem pelas paixões, nem pelas opiniões dos homens; veja ele pelos seus olhos, sinta pelo seu coração; não o governe nenhuma autoridade, exceto a de sua própria razão”, declarou o suíço em O Bom Selvagem.
Em primeiro lugar, a busca pelo autoconhecimento; depois o interesse pela linguagem e pelas convenções sociais. Seguindo essa premissa idealizada por Rousseau, Mary Shelley moldou um anti-herói vegetariano que nada mais é do que o ser humano em seu estado mais impermisto e natural. A maior prova disso é que ainda isento dos vícios da civilização, o monstro vive na floresta, onde se alimenta estritamente de bagas e oleaginosas, não de carne, já que ele não vê sentido nem necessidade em matar animais para se alimentar.
No século 19, embora o romantismo enquanto arte tivesse estreita relação com o vegetarianismo, a verdade é que fora dos círculos literários quase ninguém reconhecia ou falava sobre a abordagem vegetariana no livro Frankenstein. Na realidade, muita gente reconhecia as qualidades de Mary Shelley como escritora, mas menosprezavam seu estilo de vida.
Ao contrário de muitos autores que se tornaram vegetarianos ao longo da vida, ela teve a oportunidade de crescer em uma família que sempre simpatizou com o vegetarianismo, inclusive quase todos os amigos de seu pai William Godwin também eram vegetarianos. Assim, desde cedo, Mary foi incentivada a entender que o consumo de carne dependia do sofrimento animal.

Percy Shelley: “Não mais agora/Ele mata o cordeiro que o observa/E terrivelmente devora sua carne mutilada” (Arte: Alfred Clint)
Na juventude, depois de conhecer alguns dos maiores intelectuais que defendiam esse estilo de vida, a escritora começou a ler obras como An Essay on Abstinence from Animal Food: as a Moral Duty, do britânico Joseph Ritson e The Return to Nature, or, a Defense for the Vegetable Regimen, de John Frank Newton, precursores do veganismo, assim como William Lambe, de quem ela leu o livro Water and Vegetable Diet. Shelley também se inspirou em Plutarco, John Milton e nos textos em grego antigo e latim que abordavam o estilo de vida de Pitágoras, que era ovolactovegetariano.
Cercada por pessoas que não consumiam alimentos de origem animal, ela acabou se casando em 1816 com Percy Bysshe Shelley que, além de ter sido um dos mais importantes poetas românticos da Inglaterra, era um ativista vegetariano e também precursor do veganismo. O poeta lançou obras polêmicas como A Vindication of a Natural Diet e On the Vegetable System of Diet. No prefácio do primeiro, ele publicou um excerto do seu poema Rainha Mab:
Não mais agora
Ele mata o cordeiro que o observa
E terrivelmente devora sua carne mutilada;
Além do casal Shelley, outros românticos como Alexander Pope e Thomas Tryon ajudaram a promover o vegetarianismo na Europa. No entanto, nenhuma obra daquele período superou a popularidade de Frankenstein. Em uma das passagens do livro, a criatura se emociona ao dizer que sua comida não é a mesma dos homens:
“Não tenho que matar o cordeiro e a cabra para saciar o meu apetite. Bolotas e bagas são o suficiente para a minha alimentação. Minha companheira vai ser da mesma natureza que a minha, e vai se contentar com o mesmo que eu. Faremos a nossa cama de folhas secas; o sol vai brilhar sobre nós da mesma forma que brilha sobre os homens, e ele vai amadurecer a nossa comida. A imagem que apresento a vocês é humana e pacífica.” Ou seja, na essência, o monstro de Mary Shelley carregava em si a perfeição moral que faltava ao homem mediano, rendido aos excessos da ganância e da megalomania.
Embora haja controvérsias sobre até que ponto Mary Shelley foi vegetariana ao longo de sua vida, a verdade é que ela trouxe grandes contribuições para o vegetarianismo e, quem sabe, a maior seja a idealização de uma criatura desafortunada que desprezava o hábito humano de se alimentar de animais.
“Por que há de o homem vangloriar-se de sensibilidades mais amplas do que as que revelam o instinto dos animais? Se nossos impulsos se restringissem à fome, à sede e ao desejo, poderíamos ser quase livres. Somos, porém, impelidos por todos os ventos que sopram, e basta uma palavra ao acaso, um perfume, uma cena, para provocar-nos as mais diversas e inesperadas evocações”, escreveu Mary Shelley em Frankenstein, externando sua antipatia pela jactância e pelos caprichos do ser humano.
Saiba Mais
Mary Shelley nasceu em Londres em 30 de agosto de 1797 e faleceu em 1º de fevereiro de 1851.
Referências
Shelley, Mary. Frankenstein. CreateSpace Independent Publishing Platform (2015).
Shelley, Percy Bysshe. A Vindication of Natural Diet: Being One in a Series of Notes to Queen Mab (Disponível em ivu.org)
Bellows, Martha. Categorizing Humans, Animals and Machines in Mary Shelley ’s Frankenstein. Página 6. University of Rhode Island (2009).
Fortes, Luis Roberto. Rousseau: o bom selvagem. 2º ed. – São Paulo: Humanistas: Discurso Editorial (2007).
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