David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Produtores de queijo premiado se tornam veganos e trocam o leite de cabra pelo leite de oleaginosas

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“Estávamos ampliando o problema. Não queríamos ser parte do problema, mas sim da solução”

“Agora ao não criar animais com essa finalidade [de produzir leite e queijo], podemos salvar os animais da crueldade em vez de agravá-la trazendo mais animais para o mundo” (Acervo: The Sanctuary at Soledad Goats)

Ao longo de 20 anos, Carol e Julian Pearce produziram um queijo de leite de cabra premiado nos Estados Unidos. Ainda assim, decidiram se tornar veganos e começar uma nova vida, que incluiu a fundação de um santuário e uma nova produção de queijos. Mas dessa vez baseado em oleaginosas, não em leite de cabra.

Carol e Julian se conheceram enquanto cuidavam de bezerros doentes. Quando viviam na Inglaterra, Carol era conhecida por invadir fazendas e “sequestrar” animais que seriam enviados para o matadouro.

Mais tarde, nos Estados Unidos, os Pearce investiram em uma fazenda de caprinos no Sul da Califórnia, onde a política era “nunca matar”. No entanto, com o tempo, começaram a repensar a própria história, o trabalho e a vida. Foi quando perceberam uma contradição em suas ações.

Enquanto resgatavam animais que seriam enviados para os matadouros, eles investiam na procriação de outros para a produção de leite e queijo. “Por ser uma fazenda leiteira, estávamos ampliando o problema. Não queríamos ser parte do problema, mas sim da solução”, explica o casal.

Em 2015, a decisão natural foi o veganismo, que os Pearce qualificam como um imperativo moral, de honrar e respeitar os animais rejeitando todas as formas de exploração. O leite de cabra então foi substituído pelo leite de oleaginosas – nozes, castanhas, amêndoas, etc.

“Estamos replicando a qualidade do queijo que conseguimos produzir com o leite de cabra – textura suave, ingredientes frescos, e feito artesanalmente com cuidado, consistência e paixão. Até agora nossas amostras foram muito bem recebidas, com muitas pessoas nos dizendo que continuarão comprando os nossos produtos em versão vegetal. Isso é muito encorajador para nós”, garantem.

Além de cuidar das cabras do seu antigo rebanho leiteiro, o casal resgata cabras, vacas, bois, cavalos, porcos, frangos, galinhas, patos, cães e gatos maltratados, abandonados e negligenciados. Parte desses animais seria enviada para o matadouro, outros passariam por eutanásia. “Agora ao não criar animais com essa finalidade [de produzir leite e queijo], podemos salvar os animais da crueldade em vez de agravá-la trazendo mais animais para o mundo”, justificam.

Hoje, o The Sanctuary, situado em Soledad, no sul da Califórnia, é uma entidade sem fins lucrativos, e a produção de queijo vegano ajuda a custear as despesas com os animais, assim como a contribuição de seus apoiadores. O santuário é aberto à visitação e quem quiser pode comprar diretamente no site alguns produtos veganos como chocolates, velas, sabonetes, canecas, brincos e hidratantes.

Referência

The Sanctuary at Soledad Goats – Where every animal has a home

 





 

Jovem vegano percorre mais de 1600 quilômetros a pé para arrecadar dinheiro para o resgate de cabras

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“Enquanto os humanos são invariavelmente complicados e esporadicamente miseráveis, não é preciso muito para fazer uma cabra feliz”

“Tudo o que sei é que, devido ao fato de que eu estava despreparado para a magnitude dessa tarefa, tem sido uma experiência que não esquecerei rapidamente” (Foto: The Tab)

O britânico Jack Mackey, de 19 anos, decidiu viajar de St. Albans, na Inglaterra, para Aberdeen, na Escócia, a pé. O motivo? Chamar a atenção e, dessa forma, arrecadar dinheiro para o resgate de cabras abandonadas, abusadas e negligenciadas.

A viagem de mil milhas, o equivalente a mais de 1600 quilômetros, foi a forma que Mackey encontrou de divulgar também o veganismo e conscientizar as pessoas sobre a importância do resgate de outros animais, além de cães e gatos. Em entrevista ao The Tab, ele explicou que não houve nenhuma preparação especial para a viagem, inclusive sua alimentação tem sido improvisada em postos de combustíveis.

A recepção tem sido bem positiva e Mackey está conseguindo atrair a atenção que desejava. “Tudo o que sei é que, devido ao fato de que eu estava despreparado para a magnitude dessa tarefa, tem sido uma experiência que não esquecerei rapidamente”, afirmou.

Desde que deixou St. Albans, a alimentação do jovem tem sido baseada em pasta de amendoim, smoothies e pães. Segundo Mackey, que começa a estudar na Universidade de Aberdeen em setembro, a inspiração para a viagem a pé também veio com a música “I’m Gonna Be (500 Miles)”, da banda escocesa de folk rock The Proclaimers.

“Tentarei arrecadar dinheiro para uma instituição de caridade que resgata cabras abandonadas, abusadas e negligenciadas, proporcionando-lhes uma um lar e uma boa vida. Enquanto os humanos são invariavelmente complicados e esporadicamente miseráveis, não é preciso muito para fazer uma cabra feliz”, enfatizou.





 

Written by David Arioch

June 1st, 2018 at 12:31 pm

Cheri Vandersluis: “Os animais usados nos testes [em laboratórios] não deveriam ter contato humano, porque isso faria com que tivessem vontade de viver”

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“Ficamos no portão ouvindo os nossos cabritos chorando enquanto eles eram levados embora”

O casal vegano Cheri e Jim administra o santuário Maple Farm no estado de Massachusetts, nos Estados Unidos (Foto: Maple Farm Sacntuary)

Cheri Ezell-Vandersluis é a fundadora do santuário Maple Farm, criado em parceria com o marido Jim Vandersluis. O local situado na pequena Mendon, no estado de Massachusetts, nos Estados Unidos, funciona como um refúgio seguro e amoroso para os chamados “animais de criação” ou seja, animais criados para consumo; criaturas que por diversos motivos escaparam de serem enviados para o matadouro. Lá, eles vivem suas vidas em paz e fazem tudo que têm vontade sob a tutela do casal vegano.

No entanto, Cheri admite que antes de fundarem um santuário, ela conheceu o lado mais obscuro e insensível da natureza humana no que diz respeito ao tratamento dispensado aos animais. “Sempre amei os animais, mas cresci em uma sociedade que os trata como bens, coisas. […] Eu não tinha ideia de que a carne que eu comia vinha de vacas de olhos arregalados e galinhas fofinhas e inocentes. Embora eu sempre quisesse trabalhar com animais, levou tempo e várias lições de vida para encontrar um emprego que realmente os beneficiasse”, relata.

O primeiro trabalho em que Cheri Ezell teve contato constante com os animais foi em um laboratório de testes de toxicidade de medicamentos. Ela atuava como técnica em histologia e autópsia: “Disseram-me que a pesquisa beneficiava a humanidade e que o assassinato de animais era um tipo de ‘sacrifício’. Nos diários de bordo onde gravávamos os dados da sala de autópsia, não havia o conceito de matar, mas apenas de “sacrificar números’.”

Essa dissimulação da realidade foi o que sempre facilitou o trabalho das pessoas em laboratórios. Ou seja, evita-se confrontar a realidade e refletir sobre as implicações das ações para as vítimas, nesse caso, os animais. Cheri se recorda de quando caminhava para as seções onde pequenos e doces beagles eram confinados e rotineiramente vitimados pela administração de compostos promotores de crescimento, antibióticos, dopamina e muitos outros fármacos.

“Eu queria conversar com eles, alcançar as gaiolas para acariciá-los, olhar em seus olhos confiantes e desconhecidos. Fiz isso por alguns dias antes de ser flagrada e repreendida por esse comportamento. Me disseram que os animais usados nos testes não deveriam ter contato humano. Deveriam apenas receber os medicamentos, serem examinados, limpos e alimentados, uma vez que qualquer expressão de carinho faria com que tivessem vontade de viver, afetando negativamente sua reação aos compostos”, revela.

Ela conviveu com essa justificativa por quatro anos até que pediu demissão. Então conseguiu um emprego em um aquário destinado a entreter visitantes. Em síntese, mais um trabalho em que “bolsos cheios significam o derramamento de sangue animal”, na perspectiva de Cheri. A sua função de “aquarista” incluía alimentar e monitorar a saúde dos milhares de peixes e mamíferos marinhos – supervisionando a qualidade da água e ajudando a equipe a cuidar dos mamíferos marinhos, além de auxiliar na realização de autópsias.

Um dia, o aquário recebeu quatro golfinhos nariz-de-garrafa. Cheri sentiu-se privilegiada pela oportunidade de nadar com eles durante a adaptação ao cativeiro. Mas a ideia romanesca de golfinhos vivendo muito bem em um ambiente artificial logo foi descortinada pela realidade: “No começo de uma manhã, ouvi gritos agudos. Nós não podemos falar a língua deles, mas a angústia, a tristeza e a frustração são facilmente traduzíveis. Um dos golfinhos machos prendeu seu nariz em uma rede e tentou se libertar. Ele estava retorcido e apertado – aprisionado sob a água. Na natureza, se um golfinho fica doente ou ferido, outros o auxiliam e o empurram para a superfície para conseguir ar. Nessa configuração cativa, eles só poderiam assistir o companheiro se afogando lentamente [os outros não atinham acesso ao local onde um dos golfinhos agonizava].”

Cheri e outro funcionário do aquário mergulharam com uma faca na esperança de cortar a rede onde o golfinho estava preso. Era tarde demais, e o corpo do animal já estava sem vida. Pouco tempo depois, o golfinho foi substituído por outro espécime capturado na natureza, e a rede substituída por uma corrente de metal. Assim o show prosseguiu. “Depois que saí do aquário, passei pouco tempo atuando como designer gráfica antes de entrar para o ramo de leite de cabra. Conheci meu marido, Jim, quando eu estava comprando cabras para o meu negócio. Ele estava vendendo suas vacas leiteiras e se preparando para adquirir novilhas. Nos tornamos inseparáveis”, revela.

Em uma ocasião, quando Jim estava ordenhando uma vaca, Cheri entrou no celeiro e encontrou uma bezerra doente. O marido explicou que a novilha seria vendida para um comerciante de carne e logo mais reduzida a pedaços de carne. “Naquele tempo, eu tinha algum dinheiro e implorei para que ele me deixasse cuidar dela. Ele concordou relutantemente. A levei para uma clínica veterinária, onde aplicaram fluidos intravenosos e antibióticos, e disseram que mais um dia sem cuidados e ela teria morrido. Quando ficou boa o suficiente, eu a trouxe para a fazenda onde ela acabou se tornando uma vaca leiteira”, confidencia.

Com o tempo, Jim e Cheri não conseguiram mais continuar ordenhando vacas. Por isso, aumentaram o rebanho de cabras e começaram a vender leite de caprinos: “O infeliz subproduto disso é: ‘O que fazer com todas as crianças?” Não demorou, e o casal percebeu que em certas comunidades étnicas é uma tradição consumir carne de cabras ainda bebês, ou seja, cabritos, durante o feriado de Páscoa. Pessoas de descendência portuguesa e grega sempre os procuravam nessa época do ano.

“Nós pesávamos os pequenos de 11 a 15 quilos e os clientes pagavam. Eles eram recolhidos e jogados na parte de trás do porta-malas ou na carroceria de uma caminhonete como se fossem pedaços de bagagem. Esses bebês olhavam nos meus olhos com confiança, admiração e medo. Jim e eu sabíamos o destino deles. Trabalhando com laticínios a vida toda, Jim tentava endurecer as minhas emoções. […] Muitas vezes, ficamos no portão ouvindo os nossos cabritos chorando enquanto eles eram levados embora. Foi em um daqueles momentos terríveis que Jim e eu nos olhamos de esguelha e decidimos começar a nossa jornada a favor da vida.”

Cheri e Jim conheceram a organização não-governamental Pessoas Pelo Tratamento Ético dos Animais (Peta) e receberam toda a ajuda necessária para fazer uma transição para uma vida em verdadeira conformidade com o bem-estar animal:

“Entre soluços, falei com uma pessoa maravilhosa que me tranquilizou e disse que estávamos fazendo a coisa certa. Para aliviar o fardo financeiro, nos deram uma lista de santuários para onde poderíamos levar algumas das cabras. Depois de fazer contato com vários santuários sem espaço para mais animais, encontramos o OohMahNee. Os fundadores Cayce Mell e Jason Tracy garantiram que estávamos realmente fazendo o que era certo. Meu coração estava doendo. Eu amava minhas cabras e mandá-las para longe foi difícil mesmo sabendo que seria um lugar seguro para elas. Depois de muito refletirmos, enviamos metade do nosso rebanho para os santuários OohMahNee e PIGs. Foi um dia de sentimentos mistos, mas Cayce e Jason foram meus anjos e nos confortaram durante esse momento angustiante.”

Referência

Satya Magazine. From goat farmer to sanctuary founder. Vandersluis, Cheri-Ezell (junho de 2007).





 

Susana Romatz: “Não é difícil ficar sem carne ou laticínios. Difícil é ver as pessoas presas a uma mentalidade em desacordo com seus valores morais básicos”

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Susana: ” Demorei para fazer a conexão com o leite que acompanhava o meu cereal matinal” (Foto: Acervo Pessoal)

Susana Romatz conta que estava trabalhando em um PetSmart uma rede de petshop, quando conheceu Pinkie, uma pequena cadelinha preta com manchas brancas e olhos azuis. “Me apaixonei por ela e a adotei. Mas, infelizmente, os seus rins não se formaram corretamente e à medida em que ela crescia seus rins começaram a falhar. Ela viveu por apenas dois anos, mas naqueles dois anos aprendi o que era amar um cão. Fiquei devastada quando ela morreu”, explica.

O relato poderia ser apenas uma experiência comum de alguém amargando a perda de um animal doméstico. Porém, no caso de Susana, a experiência fez com que ela não conseguisse mais se alimentar de animais, embora não definitivamente. “Eu não conseguia ver a diferença entre a minha amada cachorra e os animais em meu prato. Comecei a assistir vídeos sobre bem-estar animal e doei dinheiro para grupos de ativismo animalista. Tentei ser vegana, mas não consegui por uma infinidade de razões, principalmente força de vontade e educação”, admite.

Quando se mudou para o Estado do Oregon em 2002, ela ouviu pela primeira vez alguém falando em animais “criados de forma humanitária”, em referência à carne e aos laticínios com “certificado humanitário”; e aquilo chamou a sua atenção, já que em Saginaw, Michigan, sua cidade natal, nunca ouviu tal termo, simplesmente porque as pessoas não pensavam em carne como partes de animais, mas apenas como algo para comer. “Tendo sido enganada pelo fascínio da carne abatida humanamente, vejo a grande ironia dessa estratégia de rotulagem. Os profissionais de marketing precisam trabalhar mais para dessensibilizar as pessoas que estão mais conscientes da verdade. Consumidores que têm alguma compreensão da injustiça de se matar animais, mas optam por pagar por isso, precisam trabalhar mais para rejeitarem a realidade de suas próprias escolhas”, diz.

Susana acredita que o asteísmo disso tudo é que as pessoas que optam por gastar dinheiro extra comprando produtos de origem animal que resultam do “abate com compaixão” são mais cúmplices da violência e da morte prematura de animais do que aqueles que nunca pensaram que seus hambúrgueres um dia foram indivíduos que desejavam viver: “No Oregon, comecei a comprar a mentira de que se pode matar um animal com humanidade para atender a preferência do paladar […] Claro, a voz mais suave da compaixão muitas vezes é difícil de ser ouvida.” Ela percebeu o próprio contrassenso vindo de alguém que não queria   machucar qualquer ser vivo, nem mesmo pequenos insetos que se afogavam em poças.

Antes de se tornar vegana, Susana Romatz aceitou um emprego em uma fazenda de “cabras felizes” e na mesma época comeu o seu primeiro hambúrguer preparado com carne de um animal supostamente abatido de forma humanitária. Foi mais além. Passou a comprar peitos e bifes orgânicos de frango. Para aliviar a consciência, pagou bem mais caro em pedaços de bacon com “certificado humanitário”:

“É incrível o que você consegue bloquear quando coloca força nisso. Eu, que dez anos antes tinha me reduzido às lágrimas, observando vídeos secretos de como os animais de criação eram tratados – privados, violentados, esfaqueados, degolados, eletrocutados – agora estava trabalhando em uma fazenda de produtos lácteos onde recém-nascidos eram tirados de suas mães logo após o nascimento, e seus gritos de aflição eram ignorados.”

Para não ter um grande conflito de consciência, Susana se esforçou para evitar pensar a respeito. Mas às vezes uma compreensão lancinante do que estavam fazendo era inevitável. Enquanto trabalhava, ela acreditava que os animais tinham seus chifres removidos para a sua própria segurança, e que o processo era indolor. Até que uma vez testemunhou como isso realmente era feito. “Os cabritos foram capturados e seus chifres queimados com ferro quente enquanto eles gritavam e chutavam tentando escapar. Depois de libertados, ficavam tão abalados que tropeçavam e saíam balançando a cabeça violentamente, confusos e com muita dor”, narra. Alguns deles nunca mais permitiram que qualquer pessoa se aproximasse sem que demonstrassem um terrível pavor.

Um dia, quando chegou ao trabalho, ela percebeu que uma das cabras de quem ela mais gostava tinha sido morta porque estava com um abscesso e uma mastite. Alegaram que o abscesso era possivelmente contagioso e que ela não estava produzindo uma boa quantidade de leite: “Tentei não pensar sobre o fato de que ela era uma cabra engraçada e brincalhona que me fazia rir o tempo todo.”

Em outra ocasião, Susana encontrou uma cabra grávida deitada e com os olhos fechados. Logo suspeitou que havia algo de errado. A cabra estava morta. Abriram-na com uma lâmina de barbear e tiraram três cabritos pálidos. “Eu podia sentir seu coração batendo tão rápido sobre a minha mão. Todos eles morreram. A mulher [proprietária da fazenda] começou a chorar balançando a cabeça e lamentou: “Oh, minha melhor provedora. Meu belo prêmio.” No entanto, não foi esse episódio que levou Susana definitivamente para o veganismo. Mais tarde, ela resgatou um chihuahua e a sua namorada disse que não poderia mais continuar se alimentando de animais. Então as duas fizeram a transição para o veganismo.

Susana Romatz era viciada em queijo. Para se ter uma ideia, ela consumia mais de dois quilos de cheddar por semana. “Experimentei alguns queijos veganos e eles eram realmente bons, mas decidi fazer o meu próprio, encontrar uma receita diferente usando ingredientes mais acessíveis. Estar no Oregon foi uma benção por causa das incríveis avelãs que crescem em todos os quintais e cantos. Os queijos ficaram tão deliciosos que decidimos criar um negócio. Como amamos a palavra latina para avelãs, Avellana, assim nasceu a Avellana Creamery”, revela em referência à sua pequena fábrica de queijos veganos baseados em avelãs orgânicas e cultivadas localmente.

Depois que se tornou vegana, Susana passou a refletir com mais clareza inclusive sobre os sinais que recebeu na infância, indicando que havia algo de errado em explorar animais. Com 10 ou 11 anos, ela testemunhou quando sua tia comprou uma máquina brilhante para a ordenha mecânica das vacas:

“Eles colocaram os tubos e a ligaram. Ela [a vaca] era bastante serena, mas me lembro de uma sensação de tristeza em sua situação. Parecia-me errado forçá-la a entregar o seu próprio leite. Embora não tenha ficado visivelmente ferida, isso me marcou profundamente. Demorei para fazer a conexão com o leite que acompanhava o meu cereal matinal. […] Em nossa cultura, temos o hábito de afastar-nos de coisas que nos trazem dor. Estou aprendendo que se afastar não ajuda em nada. Encarar de frente o que nos aflige nos dá a oportunidade de transformar o que é prejudicial em algo bonito. Não é difícil ficar sem carne ou laticínios. Difícil é ver as pessoas presas a uma mentalidade em que suas decisões diárias estão fundamentalmente e violentamente em desacordo com seus valores morais básicos. Nós podemos e devemos fazer o melhor.”

Referência

Romatz, Susana. My journey from “humane” dairy farmer to vegan cheese maker. Humane Facts (março de 2017).





 

Relato de uma ex-funcionária de uma fazenda de “cabras felizes”

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Foto: Weed ’em & Reap

Para não ter um grande conflito de consciência, Susana Romatz se esforçava para evitar pensar a respeito. Mas às vezes uma compreensão angustiante do que estavam fazendo era inevitável. Enquanto trabalhava em uma fazenda de criação de cabras, ela acreditava que os animais tinham seus chifres removidos para a sua própria segurança, e que o processo era indolor. Até que uma vez testemunhou como isso realmente era feito.

“Os cabritos foram capturados e seus chifres queimados com ferro quente enquanto eles gritavam e chutavam tentando escapar. Depois de libertados, ficavam tão abalados que tropeçavam e saíam balançando a cabeça violentamente, confusos e com muita dor”, narra. Segundo Susana, alguns deles nunca mais permitiram que qualquer pessoa se aproximasse sem que demonstrassem um terrível pavor.

Susana Romatz foi funcionária de uma fazenda de “cabras felizes” no Estado do Oregon, nos Estados Unidos.

Referência

My Journey from ‘Humane’ Dairy Farmer to Vegan Cheese Maker

 

 





 

A peste que assolou a Brasileira

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Doença dizimou centenas de porcos na década de 1940

Salatiel Loureiro: “A peste acabou com a minha porcada. Fiquei no zero” (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

No início da década de 1940, muitos dos pioneiros que chegavam à Fazenda Brasileira, atual Paranavaí, no Noroeste do Paraná, trouxeram gado, porcos e cabras, visando incrementar renda com a criação de animais. O que ninguém imaginava na época é que alguns anos depois um surto de peste suína dizimaria centenas de porcos.

Em 1944, muitos migrantes e imigrantes que fixaram residência na colônia tiveram a ideia de investir na suinocultura, motivados pela escassez de carne. Um exemplo é o pioneiro paulista Salatiel Loureiro que naquele ano construiu o terceiro rancho da Brasileira.

Logo que fixou residência no povoado, Salatiel Loureiro sentiu falta de comer carne, então decidiu ir a pé até Campo Mourão, no Centro Ocidental Paranaense, comprar animais para criar. Lá, comprou porcos e os tocou a pé até a Brasileira, numa viagem que durou dias. “Vim pela estrada mesmo, não tinha condução”, contou. A via percorrida por Loureiro era um picadão precário envolto por uma mata densa e fechada.

À noite, o pioneiro, acompanhado dos porcos, se abrigava diante de uma fogueira para descansar e também evitar o confronto com animais selvagens. “O ruim era que tinha muito mosquito”, comentou, acrescentando que as agruras eram superadas pelas belezas naturais. Segundo Loureiro, as novas gerações nunca imaginariam como a região de Paranavaí era bonita nos anos 1940.

População local já venerava muitos santos nos anos 1950 (Acervo: Ordem do Carmo)

Em 1947, Salatiel tinha uma das maiores criações de porcos da Fazenda Brasileira, o que era motivo de orgulho para o pioneiro. No entanto, no mesmo ano a peste suína chegou à colônia e dizimou centenas de suínos. “A peste acabou com a minha porcada. Fiquei no zero”, lamentou Loureiro que nunca mais quis saber de investir na suinocultura. Conforme palavras dos pioneiros, a doença vitimava animais todos os dias.

Poucos suínos resistiram à doença. A sobrevivência desses é creditada a uma promessa feita pelos pioneiros. “Eles se juntaram e rezaram. Falaram que se Deus os livrasse da peste suína, eles fariam de São Sebastião o padroeiro da igreja. A peste desapareceu e o povo cumpriu o prometido”, revelou o padre alemão Ulrico Goevert no pequeno livro “Histórias e Memórias de Paranavaí”.

Um dos moradores da Brasileira foi de caminhão até São Paulo, de onde trouxe a estátua de São Sebastião feita em gesso e com 1,30m de comprimento. A imagem doada pelo imigrante italiano Genaro Pienaro foi guardada na residência de um agricultor, pois a igrejinha ainda não tinha telhado. Se chovesse, a estátua corria risco de ser danificada. Não foram poucas as vezes em que o colono recebeu visitas de moradores que pediam autorização para orar em frente ao padroeiro da cidade.

Foi assim até a estátua ser remanejada para a Casa Paroquial. De acordo com Frei Ulrico, quando o telhado da igreja ficou pronto, São Sebastião foi colocado no seu devido lugar. “Durante o período de reformas, as estátuas ficaram desabrigadas, no mais verdadeiro sentido da palavra”, enfatizou o padre alemão que se surpreendeu com o fato da população local venerar tantos santos.