David Arioch – Jornalismo Cultural

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Blogueiro vegano-abolicionista lança o seu segundo livro em defesa dos direitos animais e do veganismo

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O blogueiro Robson Fernando de Souza, autor dos blogs Veganagente e Consciencia.blog.br e com passagem por sites como ANDA e Vista-se, publicou seu segundo livro em defesa da causa animal e vegana. Intitulado “Direitos Animais e veganismo: consciência com esperança”, ele traz conteúdos sobre a teoria dos Direitos Animais, a exploração animal, o bem-estarismo e o modo de vida vegano.

“O livro vem com uma proposta de divulgar, com linguagem acessível, noções básicas sobre os direitos animais, uma revelação das violências e crueldades da pecuária e da pesca a partir da descrição feita por materiais de zootecnia. Além disso, traz detalhes importantes e pouco conhecidos sobre apicultura e outras criações de insetos, um desmascaramento da natureza ético-moral do bem-estarismo, a apresentação do veganismo como a grande esperança para os animais e o meio ambiente, e dicas importantes sobre como aderir ao veganismo e ao ativismo pelos direitos animais, assim colhendo os benefícios individuais do modo de vida vegano, entre outros conteúdos”, explica Robson Fernando de Souza.

Direitos Animais e Veganismo: consciência com esperança” se soma ao livro anterior de Robson: “Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética”.  As duas obras são resultados do empenho do autor em promover a causa vegano-abolicionista por meio de livros e blogs. Segundo Robson Fernando de Souza, o livro “Direitos Animais e Veganismo” visa não apenas a conscientização de não veganos, mas também o amadurecimento da consciência ética de quem já é vegano ou vegetariano.
O formato impresso do livro “Direitos Animais e veganismo: consciência com esperança” está à venda no site do Clube de Autores, o mesmo site em que está disponível o primeiro título escrito pelo autor: acesse a página de compra do livro aqui.

Também podem ser encontradas as versões E-Pub (na Saraiva, na Livraria Cultura, na Kobo e no blog Veganagente), Kindle (na Amazon) e PDF (no blog Veganagente).

Ficha técnica

Título: Direitos Animais e veganismo: consciência com esperança
Autor: Robson Fernando de Souza
Formato impresso: A5 (14,8 x 21 cm), brochura com orelhas, miolo P&B
Formatos digitais: E-Pub, Kindle e PDF
Páginas: 224
ISBN: 978-85-922722-3-4 (impresso), 978-85-922722-5-8 (Kindle) e 978-85-922722-4-1 (E-Pub)
Editora: edição do autor
Publicação: Clube de Autores
Preço de capa: R$41,76 (livro impresso) ou R$7,00 (formatos digitais)

 

A nossa existência não depende do consumo de animais

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Creio que hoje a missão mais importante seja fazer o caminho reverso da indústria de exploração animal (Foto: We Animals/Jo-Anne McArthur)

Dias atrás, me perguntaram qual seria a melhor forma de reverter a exaltação ao consumo de alimentos de origem animal na atualidade. Qual é a melhor estratégia para ajudar os animais?

Sem dúvida, é imprescindível se aprofundar cada vez mais nessas questões, até porque é importante ampliarmos as nossas possibilidades de argumentação. Mas, a princípio, acredito que o primeiro passo é a conscientização. Mostrar para as pessoas que a existência delas não depende do consumo de produtos de origem animal, que isso é um fator cultural, não essencial.

Talvez pareça “essencial” hoje para muita gente porque elas não levam em conta que os animais sempre foram vistos como matérias-primas de alta disponibilidade, logo eles são explorados porque a indústria deu a entender que sem esse tipo de exploração a vida como conhecemos hoje não seria possível. Mas isso é um grande engano. Exploramos os animais por comodismo e facilidades; porque quando começamos a reduzi-los à comida, o ser humano percebeu que seria ainda mais rentável aproveitar mais do que sua carne.

“Se já fazemos comida com os animais, se eles vão morrer de qualquer jeito, por que não usar inclusive os cascos e os chifres?”, alguém pensou, e assim a vida animal acabou sendo ainda mais desvalorizada do que já era antes da Revolução Industrial. Todos esses produtos criados a partir de animais como fonte de matéria-prima existem basicamente porque a indústria viu nisso um negócio altamente lucrativo, de baixo custo.

A maior prova disso é o processo de fabricação de artigos de couro. Uma peça de couro cru de pouco mais de um metro pode custar menos de R$ 50 no varejo hoje em dia. Esse é o valor da pele de um animal que um dia respirou, assim como eu e você. Com essa peça, não é difícil obter um lucro de 1000% dependendo do produto a ser feito.

Acredito que a reflexão sobre a questão animalista deve ser estimulada não apenas de forma passional, mas com argumentos, mostrando as falhas desse sistema e suas consequências. A conscientização, mais do que nunca, precisa estar acompanhada de pesquisas que apresentam alternativas para suprir as lacunas que devem ser deixadas pela indústria, até para realocação de recursos, empregabilidade, entre outras consequências que poderiam gerar crises econômicas.

Além disso, o aprofundamento é uma boa forma de rebater falsos argumentos disseminados por uma indústria que não poupa esforços, que patrocina a produção de muitos artigos acadêmicos com finalidades escusas, assim ampliando o escopo de desinformação. Sem dúvida, na atualidade muita gente depende do sistema de exploração animal, e claro que porque isso não se firmou agora.

Estamos falando de um sistema que começou a se desenvolver exponencialmente e nos moldes industriais no período da Revolução Industrial, ou seja, desde o século 18. É muito tempo incutindo na mente das pessoas uma quantidade absurda de falsas necessidades. Infelizmente, é um fator negativamente cultural, reforçado por meio de propaganda. E os meios de comunicação, como vetores, têm grande parcela de culpa nisso.

Creio que hoje a missão mais importante seja fazer o caminho reverso da indústria de exploração animal. As transformações, as mudanças, devem acontecer dia a dia. Por enquanto, é imprescindível a contínua disseminação de informações que induzem à discussão, à reflexão, à produção de soluções e de provas de que o abolicionismo animal busca e prevê o melhor futuro para a humanidade e os animais.

Também acho importante mostrar que os vegetarianos e veganos nunca estiveram sozinhos. A história do vegetarianismo e do veganismo precisa ser contada sempre, para mostrar que não se trata de uma tendência. Sempre tivemos bons representantes dos direitos animais e do vegetarianismo, e, desde 1944, do veganismo. Essa preocupação sempre existiu, ao contrário do que muitas vezes é veiculado de forma equivocada pelos meios de comunicação. Em síntese, quanto mais informação e mais pesquisa, melhor.





Campanha em prol do meu trabalho de conscientização sobre a exploração animal

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Criei na semana passada uma campanha no site de financiamento contínuo Apoia.se. Se você considera o meu trabalho de conscientização sobre a exploração animal relevante, te convido a dar uma olhada na minha campanha e a contribuir, se puder e se achar que vale a pena. Muito obrigado pela atenção. Segue o link da campanha:

https://apoia.se/5a3139638f9ef48907c41c75

Written by David Arioch

December 26th, 2017 at 12:17 pm

Quantos animais você tem? Uma reflexão sobre posse e pertencimento

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Lori Gruen: “Os animais devem ter direitos?”

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“O fato é que nos concentrarmos na quantidade de animais que são parecidos conosco nos obriga a assimilá-los em nossa estrutura orientada ao ser humano”

Lori Gruen: “Lori aponta que quase todas as nossas ações e decisões afetam outros animais de diversas maneiras” (Foto: Divulgação)

Lori Gruen é uma professora de filosofia e escritora que nas últimas décadas tem se dedicado à ética animal. Em 1987, ela coescreveu o livro “Animal Liberation”: A Graphic Guide”, em parceria com Peter Singer e David Hine; depois vieram outros. Atualmente ela coordena estudos ambientais e animais na Wesleyan University, de Connecticut. Lori já contribuiu com outros importantes nomes na discussão sobre os direitos animais nos Estados Unidos, como Raymond Frey, Steve Sapontzis e Marc Bekoff.

Em 2014, levando em conta a controvérsia sobre um caso do Nonhuman Rights Project, que defendia os direitos de quatro chimpanzés que viviam em Nova York, buscando reconhecê-los como indivíduos, Lori Gruen escreveu um artigo intitulado “Should animals have rights?”, ou seja, “Animais devem ter direitos?”, que mesmo após alguns anos ainda propõe uma discussão cada vez mais atual.

De acordo com a professora de filosofia, o debate sobre direitos a animais não humanos sempre vem acompanhado de “piadas” por parte de quem considera um absurdo que outros animais tenham direitos. Por outro lado, há também muitos seres humanos que consideram a resposta para essa questão como bastante óbvia, apontando que é claro que eles devem ter direitos morais. “Afinal, somos animais e muitos de nós amamos, apreciamos e respeitamos não humanos, então por que eles não têm direitos? Não acho a questão totalmente absurda, mas tenho uma preocupação quando falamos em ‘direitos’”, destaca.

A questão é que quando fala-se em atribuição de direitos não se pode esquecer que essas atribuições são feitas por aqueles que estão no poder, ou seja, no comando dessas decisões. Sendo assim, dar ou não direito a alguém vai depender sempre da assimilação que é feita em relação ao assunto. Para Lori Gruen, os argumentos para incluir mais do que seres humanos nas deliberações éticas que podem qualificar outros animais como portadores de direitos dependem sempre de uma preocupação ética que não pode se restringir a quem ocupa o centro moral. Ou seja, o ser humano, neste caso, pode reconhecer direitos que não são os seus se for capaz de observar o outro fora de um escopo de conveniência, com uma percepção amplamente moral e ética.

“Historicamente, nos Estados unidos e na Europa, por exemplo, temos visto homens brancos e cristão estendendo direitos a homens não cristãos e não brancos, e depois às mulheres. À medida que o círculo de detentores de direitos cresce, o ideal é que toda a humanidade seja incluída independente de raça, nacionalidade ou expressão de gênero”, destaca. Porém, Lori faz a seguinte pergunta: “Se podemos ir além da nossa espécie, por que não fazer isso?”, em referência ao preconceito baseado em espécie.

A professora de filosofia cita estudiosos e ativistas que têm tentado combater o que é alternativamente chamado de “especismo”, “humanormatividade” e “excepcionalismo humano”. De que forma isso tem sido feito? Um método bastante usual é a apresentação de trabalhos empíricos que provam que há outros animais que são realmente semelhantes a nós e, portanto, merecem direitos. Pesquisas etiológicas e cognitivas que endossam nossas semelhanças com outras espécies facilitam a aceitação de outros animais em nosso círculo moral por meio do reconhecimento de que eles também possuem características que admiramos em nós, logo atribuímos valor. Assim surge a defesa de que devemos valorizar e admirar aquelas qualidades independente do corpo que as transportam.

Hoje em dia, não são raras as pesquisas que mostram que muitos outros animais têm ricas relações sociais; sacrificam a própria segurança para ficarem próximos de seus familiares doentes ou feridos. Há muitos seres não humanos que se preocupam em não deixar os seus desamparados, mesmo diante da morte.

“Eles ficam enlutados, têm respostas ao estado emocional dos outros, se envolvem em comportamentos regidos por normas, são capazes de manipular e enganar, compreendem representações simbólicas e transmitem cultura”, cita Lori Gruen. De acordo com o artigo “Os Animais Devem Ter Direitos?”, pesquisas com chimpanzés e bonobos sugerem que eles têm um sendo distinto de si mesmos, e se entendem como alguém com interesses que se estendem ao longo do tempo. Essa capacidade de se reconhecer como alguém com um passado e um futuro foi definida há muito tempo por John Locke como as características que caracterizam alguém como uma pessoa.

Lori exemplifica que no sistema legal os chimpanzés não são considerados pessoas, assim como nenhum outro animal; logo não são reconhecidos como portadores de direitos. Em vez disso, são classificados como propriedades. O próprio sistema jurídico facilita essa atribuição, já que legalmente só contamos com duas categorias para distinção entre seres. Ou seja, pessoa ou propriedade. “É compreensível em um contexto legal que, como os chimpanzés possuem capacidades semelhantes às pessoas humanas, eles devem ter certos direitos”, defende. Em linhas gerais, a autora define os direitos como reivindicações que fazemos uns aos outros para garantirmos que não sejamos prejudicados ou violados:

“O nosso sistema legal pode ser estruturado de forma a vermos os detentores de direitos em desacordo uns com os outros, mas essa é uma visão bastante sombria de como interagimos uns com os outros em nossas comunidades. Na verdade, esse quadro, no qual temos que nos proteger dos outros, pode servir para reforçar uma visão relativamente obscura de nossos relacionamentos uns com os outros e com os animais. Acabamos focados no que podemos extrair uns dos outros ou como podemos proteger o que temos, ao invés de nos concentrarmos em como podemos trabalhar juntos para melhorar a vida uns dos outros.”

A prioridade deveria ser o que devemos não apenas aos nossos semelhantes, mas também aos outros animais. Se a preocupação central fosse essa, colocaríamos em evidência as nossas relações não estritamente humanas e poderíamos obter melhores resultados no que diz respeito à vida em sociedade e a maneira como interagimos com outras espécies. Com esse pensamento, teríamos mais chances de desenvolver preocupações éticas que envolvem, de fato, o nosso papel enquanto seres conscientes e racionais que promovem ou dificultam o verdadeiro bem-estar dos animais.

Lori aponta que quase todas as nossas ações e decisões afetam outros animais de diversas maneiras: “Se eles vivem ou morrem, se suas descendências têm algum futuro, se os seus habitats continuarão a existir, depende do que compramos, do que comemos e em quem votamos. Ninguém quer estar em um relacionamento ‘ruim’, então pensar sobre a maneira como nos relacionamos com outros animais e o que devemos a eles pode ajudar a melhorar essa relação. A abordagem dos direitos também tende a valorizar semelhanças e ignorar diferenças importantes que podem nos ajudar a repensar sobre quem é valioso e por quê.”

A professora de filosofia crê que quando nos limitamos a procurar semelhanças, no que diz respeito à Inteligência ou habilidades cognitivas, incorremos no erro de obscurecer aspectos distintamente valiosos da vida daqueles que nos são diferentes. Então ela questiona o que isso significa para os animais, seres humanos e não humanos, que são menos inteligentes ou cujas capacidades cognitivas são completamente diferentes das nossas.

O fato é que nos concentrarmos na quantidade de animais que são parecidos conosco nos obriga a assimilá-los em nossa estrutura orientada ao ser humano. Ou seja, concedemos consideração com base no que acreditamos que eles compartilham conosco. Consequentemente, ignorando o que faz de fato suas vidas serem significativas e valiosas por suas próprias razões. Segundo Lori Gruen, por meio do nosso olhar orientado para humanos, reconfiguramos um dualismo ou, na melhor das hipóteses, uma hierarquia que, inevitavelmente, encontrará um “outro” para excluir ou marginalizar. Ou seja, normalmente aqueles que são realmente diferentes dos que qualificamos como “fisicamente e mentalmente aptos”.

Há que se ter sempre um cuidado em relação à concepção de “direitos”, porque às vezes quando julgamos estarmos construindo algo podemos estar beneficiando alguns enquanto rejeitamos muitos outros: “[…] Podemos considerar o que é ser um chimpanzé, uma galinha ou uma criança com uma deficiência cognitiva em suas relações únicas com os outros. Ao imaginar seus mundos a partir de suas perspectivas, podemos ver que o bem-estar geral pode ser promovido de diferentes formas, mas o bem-estar de um não é menos valioso do que o de outro apenas porque são diferentes.”

Saiba Mais

Lori Gruen se dedica à teoria à prática ética como foco particular em questões que envolvem animais humanos e também animais não humanos. Ela já publicou livros sobre a questão animal e o ecofeminismo. Em 1994, lançou o livro “Reflecting On Nature: Readings in Environmental Ethics and Philosophy”, em parceria com Dale Jamieson; “Ethics and Animals: An Introduction”, de 2011; “The Ethics of Captivity”, de 2014; e “Entangled Empathy: An Alternative Ethic for Our Relationships with Animals”, de 2015; além de outros.

Referência

 





Paul Waldau: “Os direitos animais tratam de conectar-se com o sentido da vida”

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“Essa experiência de ultrapassar o eu permite que os seres humanos se tornem tão humanos quanto possível”

Waldau: “É extremamente necessária a vontade de reconhecer que o debate sobre os ‘direitos animais’ é aquele em que os valores fundamentais estão sendo elaborados” (Acervo: Paul Waldau)

Paul Waldau é um professor e pesquisador que dedicou décadas à antrozoologia, ou seja, a ciência que estuda a interação entre pessoas e animais. Ao longo dos anos, ele ministrou palestras no programa de legislação animal da Universidade Harvard e da Universidade Yale. De 2001 a 2013, publicou importantes livros que deram sua contribuição à discussão dos direitos animais, como “The Specter of Speciesism: Budhist and Christian Views of Animals”, de 2001; “A Communion of Subjects: Animals in Religion, Science, and Ethics”, de 2006; “An Elephant in the Room: The Science and Well-being of Elephants in Captivity”, de 2008; “Animal Rights: What Everyone Needs to Know”, de 2011; e “Animal Studies: An Introduction”, de 2013.

No seu livro “Direitos Animais: O Que Todo Mundo Precisa Saber”, lançado pela editora da Universidade de Oxford, umas das mais importantes bases acadêmicas de estudos sobre direitos animais no Reino Unido, uma das principais referências de Waldau foram as muitas pessoas com quem ele teve a oportunidade de conversar sobre direitos animais. Claro, não apenas profissionais ligados à filosofia ou à ciência, mas também pessoas que ele encontrou ocasionalmente em diversas partes do mundo, mas que tinham uma opinião sobre a questão.

Assim, ele sedimentou um grande e diversificado referencial que o permitiu analisar preocupações que envolvem os chamados “animais de companhia” – como cães e gatos, animais selvagens, animais usados em pesquisas científicas e laboratórios, animais criados com finalidade alimentícia e como fontes de matéria-prima para produtos. A princípio, Waldau parte da perspectiva filosófica, científica e legal que fundamenta os direitos animais, permitindo a compreensão da história da proteção animal, seus erros e acertos, e a realidade social que os animais enfrentam hoje principalmente como desdobramento da inexistência de sólidas políticas públicas.

O livro está dividido nos capítulos “Os Próprios Animais”, “Argumentos Filosóficos”, “História e Cultura”, “Leis”, “Realidades Políticas”, “Realidades Sociais”, “Educação, Profissões e Artes”, “Ciências Contemporâneas – Natural e Social”, “Principais Figuras e Organizações no Movimento dos Direitos Animais” e o “Futuro dos Direitos Animais.” Waldau abre o livro perguntando como responder a pergunta “O que as pessoas precisam saber sobre a importante, mas controversa noção de direitos animais.”

“Passei anos em Oxford, na Inglaterra, estudando o lado acadêmico de várias questões, e então passei uma década lecionando em uma faculdade de veterinária. Ao mesmo tempo, lecionei no programa de legislação animal em alguns das melhores faculdades dos Estados Unidos. […] Olhei centenas de livros, artigos impressos e sites que usam a frase ‘direitos animais’ porque eu queria saber sobre o que as pessoas estavam falando. Com base em todos esses antecedentes e pesquisas, cheguei à conclusão de quais são as questões mais importantes, portanto, ‘o que todos precisam saber’ sobre direitos animais”, narra.

De acordo com Paul Waldau, o termo “direitos animais” é empregado na maioria das vezes para descrever os direitos morais e os valores sociais a favor da compaixão e contra a crueldade envolvendo animais. Porém, o termo se expandiu com o tempo, assim como a possibilidade de conquista de direitos legais para alguns ou todos os animais não humanos. Waldau relata que atualmente há um ativo debate sobre a frequência e até que ponto nossas diferenças nas sociedades humanas podem permitir específicos direitos legais e outras formas de proteção aos animais.

O pesquisador cita que pessoas influentes no que diz respeito aos direitos animais têm interpretações com diferenças bem pontuais em relação ao termo como uma luta pela conquista de direitos legais. Na perspectiva do autor, ainda é predominante uma concepção genérica de “proteção animal” como “direitos animais”. Por isso, no livro “Animal Rights: What Everyone Needs To Know”, ele busca explicar por que os direitos animais no sentido de direitos morais é, na sua ótica, a maior e mais fundamental questão, já que específicos direitos legais para indivíduos não humanos em muitos casos não abrangem todos os direitos dos animais como direitos morais.

“O debate sobre os direitos animais geralmente é polarizado, mas apenas em alguns círculos. Nesses lugares em que a polarização afeta a forma como as pessoas conversam e ouvem umas as outras, defensores e ativistas em oposição podem alimentar ainda mais essa polarização”, avalia. Por outro lado, o pesquisador aponta que os direitos animais permitem que as pessoas criem uma grande conexão entre elas.

Outra observação feita é que muitas pessoas reconhecem os direitos animais como sendo também pró-pessoas, uma conclusão que pode parecer contraintuitiva para alguns ou até mesmo falsa para outros: “Se você explorar os debates sobre os direitos animais em profundidade, notará que há aqueles que defendem que os direitos animais podem ser pró-humanos de várias maneiras. Alguns argumentam que isso se deve ao fato dos seres humanos serem ‘animais’. Outros argumentam que os direitos dos animais são uma reafirmação da vida, o que, claro, tem decididamente características pró-humanas.”

Contudo, há também aqueles que argumentam que em primeiro lugar deve estar sempre a preocupação em proteger a vida de seres de outras espécies, porque esse posicionamento reforça a nossa natureza ética. “Proteção para outros seres vivos” e “Devemos ouvir a voz dos animais” são algumas das significâncias mais comuns encontradas e justificadas pelas fontes de Paul Waldau em relação ao conceito dos direitos animais: “Estudantes de veterinária frequentemente me dizem que os ‘direitos animais’ são um ‘termo valioso’ mas quando eles o utilizam, correm o risco de serem condenados por alguns colegas de classe e, tragicamente, por membros de sua faculdade de veterinária.”

Muitas pessoas sentem que os direitos animais são inegavelmente atrativos, mas, segundo o autor, essa percepção pode ser comprometida quando ativistas pelos direitos animais usam a violência em nome da causa. “[…] A proteção animal é um movimento social mundial. […] Cidadãos ativos neste movimento desafiam práticas de longa data e valores [que mesmo nocivos aos não humanos são] profundamente apreciados. […] É extremamente necessária a vontade de reconhecer que o debate sobre os ‘direitos animais’ é aquele em que os valores fundamentais estão sendo elaborados. Sem dúvida, algumas pessoas decididamente sentem que a simples menção do termo é um repúdio aos humanos e, portanto, profundamente imoral. Mas descobri que muitas pessoas sentem que esse pensamento profundamente focado nos seres humanos não atende as possibilidades éticas dos seres humanos”, analisa.

A partir do seu trabalho, Waldau percebeu que muitas pessoas encontram múltiplas conexões com o mundo a partir do reconhecimento dos direitos animais. “Porque o termo [direitos animais] funciona para tantos não como um repúdio dos seres humanos, mas como uma afirmação das habilidades especiais dos humanos em se preocuparem com os outros. O termo [direitos animais] abre a porta para um mundo rico, mais do que humano, que está além da nossa espécie”, afirma. Sendo assim, a noção e a crença nos direitos animais não é um exemplo de desconexão com o mundo, como vaticinado, por exemplo, por um senso comum equivocado, mas sim o oposto disso. Ou seja, uma gama de conexões.

O pesquisador cita o historiador inglês Marc Gold que em 1995 escreveu que o termo direitos animais é um tipo útil de taquigrafia para um movimento baseado no reconhecimento de que animais não humanos vivem vidas com propósitos emocionais e são capazes de sofrer como os seres humanos: “Bondade e tolerância para aqueles que são diferentes e mais fracos do que nós estão entre as mais altas aspirações humanas possíveis.”

A conexão com os direitos animais também permite que as pessoas criem uma conexão coletiva e particular com os seres humanos e o mundo ecológico – seja o próprio quintal ou um espaço muito mais amplo. Waldau cita também o caso de crianças que muito cedo manifestam voluntariamente um anseio de que seus pais partilhem com elas a consideração pelos animais. “Essas conexões nem sempre são explícitas. No entanto, mesmo quando essas conexões são apenas implícitas, são reais, pessoais e motivadoras. Tanto os adultos quanto as crianças consideram que os direitos animais são uma maneira de honrar o mundo”, destaca.

O pesquisador sugere que a polarização não seja uma característica dominante no debate sobre os direitos animais. Para ele, há uma questão mais comum que deve ser considerada: “Qual é o sentido da vida?” “Pessoas reconhecem que as ações diárias, as escolhas e o trabalho podem dar vazão à imaginação humana e nossas consideráveis habilidades em cuidar dos outros, e eles sabem que nós prosperamos quando nos conectamos a um projeto maior que começou antes de nossa própria vida e que continuará depois disso. As preocupações éticas com outros seres vivos, humanos ou não, proporcionam tais possibilidades.”

Depois que finalizou o livro “Direitos Animais: O Que Todo Mundo Precisa Saber”, Paul Waldau chegou à conclusão de que muitas pessoas descobriram que a preocupação com os direitos animais não apenas promove virtudes, mas, na prática, contribui para sustentar a propriedade da imaginação humana. Usando também sua experiência como referência, o pesquisador revelou que estudar, investigar e se preocupar também com a vida não humana promove formas saudáveis de pensamento e racionalidade. “Essa experiência de ultrapassar o eu permite que os seres humanos se tornem tão humanos quanto possível. Isto é, humano no contexto de um mundo biologicamente rico e cheio de outros seres vivos interessantes. […] Ao escrever este livro cheguei a entender que os direitos animais, como a maioria das pessoas me descreviam, tratam de conectar-se com o significado da vida”, ponderou.

Saiba Mais

Paul Waldau foi diretor legal do Great Ape Project (GAP), uma organização fundada em 1993 por Peter Singer e Paola Cavalieri que reúne primatologistas, antropologistas e eticistas que visam assegurar direitos para chimpanzés, bonobos, gorilas e orangotangos.

Referência

Waldau, Paul. Animal Rights: What Everyone Needs to Know. Oxford University Press (2001).





Me ajude a continuar produzindo conteúdo sobre a exploração animal e a conscientizar as pessoas

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Nos últimos anos, me interessei bastante pela questão da exploração animal (Foto: We Animals/Jo-Anne McArthur)

Sou o David Arioch, jornalista profissional há 12 anos (MTB 0010612/PR), e acabei enveredando pelo caminho do jornalismo cultural e histórico em 2006. Em 2009, criei este blog homônimo – David Arioch – Jornalismo Cultural (davidarioch.com), onde publico regularmente matérias, reportagens, artigos, reflexões, críticas, contos, crônicas e traduções, etc. Em síntese, textos em geral.

Sempre realizei esse trabalho de forma dedicada e independente. Ou seja, sem vínculo com ninguém ou com qualquer organização. Nos últimos anos, me interessei bastante pela questão da exploração animal, direitos animais, vegetarianismo e veganismo. Então comecei a escrever a respeito e logo desenvolvi um ritmo regular de produção. Atualmente a minha maior satisfação é produzir diariamente conteúdo sobre isso, assim conscientizando as pessoas. Inclusive por isso abri mão de outras atividades.

Porém, assim como qualquer outra pessoa, tenho limitações e despesas, e no meu caso envolvem o processo de pesquisa e produção de conteúdo sobre esses temas. Então decidi criar uma campanha no Apoia.se pedindo a sua contribuição – como puder e se puder contribuir. Afinal, qualquer trabalho realizado sem um apoio realmente sólido acaba encontrando muitos obstáculos por maior que seja a boa vontade.

Também sou o idealizador do blog de culinária vegana vegaromba.com, onde publico minhas receitas regularmente.

Caso queira contribuir ou simplesmente entender como funciona a campanha, te convido a acessar o link abaixo:

Minha Campanha no Apoia.se

https://www.youtube.com/watch?v=X47ztwWcqoM

 

 

Conversando com crianças e pré-adolescentes sobre veganismo

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A convite da professora Rosana Martineli, fui hoje à Escola Estadual Curitiba conversar com crianças e pré-adolescentes sobre história, contos e veganismo. Mais uma vez, uma experiência muito legal. Em um determinado momento, depois de eu falar um pouquinho sobre o que é ser vegano, e por iniciativa dos próprios alunos que tinham muita curiosidade em relação ao tema, um deles me perguntou:

— Mas você não precisa de carne?

— Será? Olhando pra mim, você acha que eu preciso de carne?

Muitos alunos riram.

— Não…humm…vou parar de comer carne também.

Em outro momento, outro aluno me perguntou o que eu faria se estivesse em uma ilha e precisasse comer um animal para sobreviver.

— Bom, acredito que isso não é algo que aconteceria facilmente, mas hipoteticamente se estou em uma ilha, e se nessa ilha há arvores, eu provavelmente recorreria em primeiro lugar aos frutos dessas árvores. Além disso, não há garantia nenhuma de que esse suposto animal seja o meu alimento, e não eu o alimento dele caso ele seja carnívoro. Por quê? Não tenho dúvida nenhuma de que as habilidades naturais de caça de um animal selvagem são muito superiores à humana. Afinal, o ser humano só é bom caçador quando está bem munido para a caça, ou seja, com armas em punho, e preparando-se para atingir um animal de forma traiçoeira, às escondidas, não é mesmo? Eu particularmente desconheço um ser humano que enfrente um animal selvagem com os próprios braços e de frente. Acho que há várias possibilidades que não podem ser descartadas. Mas é importante entender também que veganismo não é baseado em improbabilidades, no que é vagamente possível. É sobre eu fazer o possível para não tomar parte na exploração, na violência contra animais. Quero viver, certo? Eles também querem. Sigo esse caminho de reconhecer que eles também têm esse direito, e por isso não me alimento deles, assim como tenho a preocupação de não usar nada de origem animal.





Uma breve reflexão de Natal

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Te convido a refletir sobre o consumo de alimentos de origem animal no Natal.

 





Como podemos chamar os órgãos vitais de um animal de “miúdos”?

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Como podemos chamar os órgãos vitais de um animal de “miúdos”? Talvez miúda seja a nossa sensibilidade e consciência em relação ao papel que esses órgãos tiveram para esses seres que um dia foram cheios de vida.