David Arioch – Jornalismo Cultural

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Sobre críticas equivocadas em relação ao veganismo

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Se uma pessoa rejeita o veganismo, mas volta a consumir alimentos baseados em exploração animal, ela está fazendo simplesmente o que julga conveniente

A maior parte dos veganos que conheço seriam incapazes de consumir carne novamente (Arte: Dana Ellyn)

Não raramente circula na internet algum texto de alguém dizendo por quais motivos deixou de ser vegano. Normalmente são desabafos em que alguém volta a consumir alimentos de origem animal e decide antagonizar a filosofia de vida vegana, um motivo que nunca vou entender, porque isso significa se manifestar contra o direito à vida dos animais não humanos. Nesses textos, não raramente um dos pontos mais preocupantes é a afirmação de que veganos compram produtos de empresas que na realidade são boicotadas por veganos. Ou seja, há quase sempre uma confusão entre vegetarianismo e veganismo. Também são comuns as observações que reduzem o veganismo a uma questão ética meramente alimentar, o que não é verdade.

No geral, as críticas dos detratores do veganismo me parecem consideravelmente generalizadas, já que são baseadas em alguns supostos veganos do convívio social do autor – ainda assim são feitas falando do veganismo como um todo – o que é muito estranho se levarmos em conta que é um movimento mundial.

Mesmo pesquisando sobre o assunto todos os dias, eu seria extremamente pedante se julgasse o veganismo na totalidade, até porque não tenho conhecimento para tal. Ademais, experiências compartilhadas ou observações não representam e nunca representarão a universalidade de algo.

Sendo assim, seria legal se as pessoas pesquisassem um pouco sobre as motivações históricas e morais do veganismo antes de tentar se referir ao veganismo a partir de um ponto de vista obtuso e que reflete uma idealização pessoal, não o que realmente é.

E tenho visto muito disso, pessoas com suas bagagens culturais tentando moldar o veganismo de acordo com seus interesses e crenças, ignorando que antes delas existirem já havia todo um trabalho sendo desenvolvido, e que hoje ainda serve de base para milhões de pessoas. Sim, o movimento deve estar em constante aperfeiçoamento e evolução, acredito, mas não deve destoar do propósito maior – que é a libertação animal.

Se você diz que já foi vegano e hoje se alimenta de produtos de origem animal, não nego que acho isso muito estranho, levando em conta que a maior parte dos veganos que conheço seriam incapazes de consumir, por exemplo, carne novamente, por entenderem que se trata do cadáver de um animal que foi privado de existir à sua maneira. Tenho o claro entendimento de que um animal não existe para ser fatiado e colocado em meu prato.

Os animais merecem compartilhar conosco um mesmo universo moral – que lhes garanta pelo menos o direito à vida (Foto: Toronto Pig Save)

No entanto, o que tenho visto, e com alguma frequência, são pessoas que se dizem ex-veganas, mas que se tornaram “veganas” pelos motivos errados. O veganismo tem suas limitações sim, mas dizer que as pessoas não consumirem alimentos de origem animal não faz uma grande diferença é no mínimo uma afirmação bem equivocada, ainda mais levando em conta que o objetivo do veganismo é o abolicionismo animal, e algo que primariamente só poderá ser alcançado quando pararmos de ver os animais como comida ou como objetos.

Além disso, muitas pessoas no contexto do veganismo não se veem como os baluartes da transformação, mas sim como pessoas empenhadas em mudar a mente daqueles com quem elas têm contato, o que na minha opinião já é uma grande coisa. Quem analisa o veganismo de forma ponderada e consciente sabe que todo e qualquer passo é importante.

Porém, não consigo deixar de pensar que se você afirma ser ex-vegano e hoje come carne, naturalmente creio que você não sente compaixão pelos animais não humanos nem reconhece que eles merecem compartilhar conosco um mesmo universo moral – que lhes garanta pelo menos o direito à vida.

Como disse Schopenhauer, a moralidade que é conveniente ao ser humano não é moralidade. Se uma pessoa rejeita o veganismo, mas volta a consumir alimentos baseados em exploração animal, ela está fazendo simplesmente o que julga conveniente. O escritor sul-africano J.M. Coetzee diz que é um crime contra a natureza resumir qualquer ser vivo a uma unidade de um processo industrial.

Então, se voltamos a compactuar com isso, e simplesmente por não concordarmos com as ações de alguns veganos ou grupos de veganos “que julgamos como se fossem todos ou a maioria”, estaremos sendo cúmplices e financiadores da exploração animal, o que naturalmente é um passo para trás.

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Written by David Arioch

March 21st, 2017 at 2:12 am

Pawel Kuczynski, um cartunista que desperta reflexões sobre a exploração animal

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“Nossa realidade é triste e, como consequência, meu senso de humor é mórbido”

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Kuczinsky: “A realidade é tão louca e absurda que é difícil competir com isso” (Foto: Reprodução)

O artista gráfico e cartunista Pawel Kuczynski vive em Police, uma cidade com pouco mais de 40 mil habitantes, situada na região da Pomerânia Ocidental, no Noroeste da Polônia. Lá, ele produz desenhos que despertam a atenção para temas como exploração animal, ecologia, política, pobreza, fome, ganância, novas tecnologias e vício em internet. Kuczynski une metáforas visuais, a estética do surrealismo, a sátira e o humor mórbido para fazer com o que o espectador reflita sobre questões bem atuais.

Muito popular em mídias sociais como Reddit, Pinterest, Instagram e Facebook, neste último ele tem mais de 528 mil seguidores, o artista polonês já produziu inúmeros desenhos em que propõe discussões sobre a forma como nos relacionamos com os animais. São trabalhos que permitem inúmeras releituras e colocam em evidência a hipocrisia humana no que diz respeito ao fato de considerar alguns animais como companheiros e outros simplesmente como comida. Exemplo disso é “Dinner”, uma de suas obras mais populares, em que um açougueiro acaricia a cabeça de um gato enquanto é assistido por animais não domésticos na entrada de um estábulo.

Alguns cartuns de Kuczynski, que trabalha com técnicas de lápis aquarelável, mostram como as pessoas fingem não ver que estão consumindo um ser que um dia teve vida, e talvez por tal motivo em alguns de seus trabalhos os animais estão vivos. Um exemplo é “Pig”, em que um porco aparece sorrindo inocentemente com uma toalha sobre o dorso, sem reconhecer que ele é a mesa e o prato principal de um banquete. Em “Coffin”, ele apresenta o funeral de um porquinho que tem como caixão um lanche, uma referência às tiras de bacon.

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Uma das imagens mais famosas do cartunista polonês

Em “Eggs”, há uma máquina que esmaga galinhas para a produção de ovos. Provavelmente, a intenção de Kuczynski é mostrar que ovos não são apenas ovos. Eles custam a vida das galinhas que são descartadas quando produzem pouco ou quando representam despesas. Outra de suas obras destaca um homem com aspecto morbígero, uma boca enorme e dentes pontiagudos, prestes a engolir a cabeça de um suíno, numa analogia à glutonaria humana.

Pawel Kuczynski também critica quem cria peixes em casa. Além desses animais viverem até sua morte em pequenos espaços para o deleite humano, as pessoas normalmente ignoram o quão paradoxal é criar um peixe ao mesmo tempo em que se come outro. Tal contradição é evocada no cartum em que aparece um peixe enlatado dentro de um pequeno aquário.

Em outro desenho, um boi tem um grande pasto como guardanapo amarrado ao pescoço, referência ao desmatamento e a superprodução de grãos para alimentar esses animais, o que vai muito além do que é investido na produção alimentícia voltada aos seres humanos.  elwu6vn-vert

Por esses e outros trabalhos, o polonês graduado na Academia de Belas Artes de Poznań, e com especialização em artes gráficas, já foi premiado nos Estados Unidos, Brasil, Bélgica, Itália, Espanha, Portugal, Rússia, Japão, China, Coréia do Sul, Colômbia, República Tcheca, Irã, Itália, Eslováquia, Turquia, Síria e Taiwan. Em 2005, ele recebeu o Eryk, prêmio da Associação Polonesa de Artistas, por ter conquistado um número recorde de premiações em competições internacionais. Só em 2010, Kuczynski ganhou 19 prêmios e distinções.

“Não sou o tipo de cartunista que trabalha com humor. Não é o tipo de sátira que as pessoas podem associar com piadas. São assuntos muito sérios. A realidade é tão louca e absurda que é difícil competir com isso. A realidade me inspira. Apenas tento ser honesto sobre as minhas observações em meus desenhos. Coloco uma informação em minha cabeça e espero pelos resultados. Se eu já tiver algo em minha mente, e for uma boa ideia, preciso de dois dias para fazer o desenho”, disse em entrevista à Fluster Magazine, da Itália, publicada em 10 de março de 2012.

Um observador do comportamento humano, Pawel Kuczynski considera surpreendente o fato de que vivemos há tanto tempo neste mundo e ainda assim seguimos cometendo os mesmos erros. ele cita como algumas das maiores incoerências humanas as guerras, a pobreza, a fome, a exploração animal e a destruição do meio ambiente. “Nossa realidade é triste e, como consequência, meu senso de humor é mórbido. Acho que talvez eu seja muito lírico e sentimental”, declarou.pawelk7-horz

O artista polonês sempre gostou de arte barroca, das obras de Caravaggio [Michelangelo Merisi]. Sua admiração o motivou desde cedo a usar a luz teatral como uma grande aliada, ou seja, aprendeu a manipular sabiamente o contraste entre o claro e o escuro. “É muito útil para organizar a composição narrativa em minhas obras”, justificou.

Membro da Associação Polonesa de Artistas, ele prefere não enaltecer a sua própria história. Quando questionado sobre o motivo de divulgar sempre uma curta biografia, Kuczynski costuma responder que o mais importante não é ele, mas sim o seu trabalho. Sobre sua rotina, ele começa o dia praticando atividades físicas. “É a melhor forma de refrescar meus pensamentos. Ou a melhor forma de não pensar em desenhos”, enfatizou em entrevista veiculada no portal iraniano Tabriz Cartoons em 11 de setembro de 2016.

coffin-pawel-vertO cartunista normalmente prepara o projeto um dia antes de executá-lo, e seu período de maior produção costuma ser à tarde. “Trabalho como freelancer. É o que mais me convém, mas posso trabalhar em qualquer lugar onde eu tenha um canto para desenhar e acesso à internet. Tudo que tenho em Police [sua cidade natal] é um ambiente tranquilo, amigos e família. Não preciso de nada mais além disso”, contou a Tabriz Cartoons.

Pawel Kuczynski transparece não ter grandes ambições e ressalta que o mais importante é ter ideias e força para trabalhar. Se suas obras seguirem conquistando as pessoas e permitirem que ele continue vivendo do seu trabalho, isso o deixará satisfeito. “É o suficiente para mim. Como qualquer jovem estudante, eu fazia retratos em festas, imagens para decorar interior de apartamentos. Sou duro comigo e prefiro não admirar meu trabalho. Sempre acho que o próximo será melhor e me forço a ir além. Claro, como qualquer autor, fico feliz quando meu trabalho é notado e recompensado em competições”, ponderou.

Há pessoas que criticam alguns trabalhos de Kuczynski por interpretá-los como críticas intransigentes ao uso de tecnologias. Porém, embora não use smartphones, ele deixa claro que sua intenção nunca foi essa: “Não sou um inimigo das inovações técnicas. Estou ativamente usando e usufruindo delas. Mas, por outro lado, é por isso que tenho o direito de alertar sobre as armadilhas que estão sempre à nossa espreita.” Para o polonês, a melhor forma de manter a qualidade do seu trabalho é jamais negligenciar o próprio cérebro que, por ser um músculo, precisa sempre de bons estímulos.

Saiba Mais

Pawel Kuczynski começou a trabalhar com desenhos satíricos em 2004.

 Para comprar algum dos trabalhos do artista polonês, acesse:

http://www.pictorem.com/collectioncat.html?author=Pawel+Kuczynski

 Referências                    

http://pawelkuczynski.com/

Showcase: Pawel Kuczynski

http://tabrizcartoons.com/en/news/tcan/6196-interview-with-pawel-kuczy%C5%84ski-poland,2016.html

Considerações sobre o discurso “bandido bom é bandido morto”

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Crítica em forma de imagem que tem circulado sobre o assunto na internet 

Um problema que surge quando você se manifesta contra o discurso “bandido bom é bandido morto” é que há pessoas que “entendem” que você passa a mão na cabeça de assassinos, pedófilos, estupradores e outros sujeitos que cometem os piores crimes. Quando alguém diz que é contra o “discurso bandido bom é bandido morto”, normalmente o que a pessoa quer dizer é que não se deve nivelar todos os crimes e que todos eles devem ser punidos de acordo com a prática.

Conversando tranquilamente com um sujeito que defende o discurso “bandido bom é bandido morto”, ele me disse que independente de crime todos os criminosos merecem a “vala”. Achei tal comentário visceral, ainda mais levando em conta as minhas experiências de anos em contato com pessoas que cometeram os mais diversos delitos, além de laranjas, usuários de drogas, alcoólatras e andarilhos. Inclusive conheço e escrevi histórias de jovens que abandonaram o mundo do crime.

Expliquei que sou da opinião de que a justiça não deve ser feita por ele nem por mim, mas por quem tem competência e autoridade para tal, e obviamente que respeitando a legislação vigente. Penso que se as leis são falhas, também temos culpa, porque chegamos a esse ponto por uma questão de permissividade de nossa parte.

Irritado com minha observação, o sujeito retrucou que gostaria de ver minha reação quando um bandido matasse algum de meus familiares ou invadisse minha casa. Realmente sou privilegiado por nunca ter sido vítima de assalto, mas não consigo entender como uma pessoa pode torcer pelo mal do outro simplesmente por não partilhar da mesma opinião.

Devo ser vítima de algum ato bárbaro, cruel, para ter a mesma opinião que a sua? Devemos desejar que todos aqueles que não compartilham desse discurso sejam mortos, tenham familiares violentados e assaltados, só para que, num cenário hipotético, sejam forçados a mudarem de opinião e o outro se sinta satisfeito em sua razão?

Precisamos buscar a reafirmação de nossas crenças na hostilização do outro? Como isso pode não ser propagar mais violência? Se você sente raiva de mim por não concordar com o discurso generalizado “bandido bom é bandido morto”, e me deseja algum mal, o que te incomoda não é apenas a criminalidade, mas também a contrariedade, que surge inclusive na figura de muitas pessoas honestas, que nunca cometeram nenhum crime e desejam o melhor para os outros.

Written by David Arioch

January 19th, 2017 at 1:18 am

Saramago: “Pudesse eu, fecharia todos os zoológicos do mundo”

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“Pudesse eu, proibiria a utilização de animais nos espetáculos de circo”

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Saramago: “Não devo ser o único a pensar assim, mas arrisco o protesto, a indignação” (Foto: Fundação José Saramago)

“Pudesse eu, fecharia todos os zoológicos do mundo. Pudesse eu, proibiria a utilização de animais nos espetáculos de circo. Não devo ser o único a pensar assim, mas arrisco o protesto, a indignação, a ira da maioria a quem encanta ver animais atrás das grades ou em espaços onde mal podem mover-se como lhes pede a natureza”, escreveu o controverso escritor português José Saramago em seu blog no dia 20 de fevereiro de 2009.

Um dos maiores autores de língua portuguesa contemporânea, Saramago é mais conhecido por obras como “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, de 1991, e “Ensaio Sobre a Cegueira”, de 1995, embora para conhecê-lo melhor seja importante ler “As Intermitências da Morte”, “História do Cerco de Lisboa”, “Memorial do Convento” e “Levantado do Chão”, livros lançados entre os anos de 1980 e 2005.

A dúvida, o sobrenatural, a viagem interiorizada e exteriorizada e o experimentalismo linguístico são características que reforçam a identidade de Saramago como autor preocupado tanto com o conteúdo quanto com a forma. No entanto, o que mais me chamou a atenção nos seus últimos anos de vida foi a sua frequente preocupação em abordar de forma implícita e explícita os direitos dos animais.

José Saramago, o escritor que brincava com a pontuação e pouco se abstinha em suas críticas, registrou em “Suzi”, publicado em 2009 no livro “O Caderno”, que os circos conseguem a proeza de tornar ridículos os patéticos cães vestidos de saias, as focas a bater palmas com as barbatanas, os cavalos empenachados, os macacos de bicicleta, os leões saltando arcos, as mulas treinadas para perseguir figurantes vestidos de preto, os elefantes mal equilibrados em esferas de metal móveis:

“Que é divertido, as crianças adoram, dizem os pais, os quais, para completa educação dos seus rebentos, deveriam levá-los também às sessões de treino (ou de tortura?) suportadas até a agonia pelos pobres animais, vítimas inermes da crueldade humana.”

Segundo o escritor português, por muito tempo, e pela desinformação, as pessoas tiveram motivos para crer que as visitas ao zoológico poderiam ser instrutivas, mas não mais, já que há tanta informação disponível através de documentários que revelam a realidade sobre o sofrimento animal. “Se é educação que se pretende, ela está aí à espera”, sugeriu.

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“Para completa educação dos seus rebentos, deveriam levá-los também às sessões de treino (ou de tortura?)” (Foto: Reprodução)

Saramago jamais esqueceu de uma elefanta solitária que vivia em um zoológico de Barcelona. Acometida por infecções intestinais, ela sofria pela perda de uma companheira com quem dividia um espaço reduzido, insuficiente para movimentarem-se adequadamente. “O chão que ela pisa é de cimento, o pior para as sensíveis partes destes animais que talvez ainda tenham na memória a macieza do solo das savanas africanas. Cuidar de Suzi, dar lhe um fim de vida mais digno. A quem devo apelar? À direção do zoológico? À Câmara? À Generalitat?”, desabafou o escritor.

Em “Penas Chinesas”, que integra o livro “O Caderno”, Saramago confidencia sua surpresa e choque ao saber como os animais são tratados pela indústria alimentícia. “Um dia vi num documentário como alimentam os frangos, como os matam e destroçam, e pouco me faltou para vomitar”, registrou.

Também se sentiu muito mal ao ler um artigo a respeito da utilidade dos coelhos nas fábricas de cosméticos. Soube que as provas sobre a irritação causadas pelos ingredientes dos xampus são feitas por aplicação direta nos olhos dos animais. ”Agora, uma curta notícia aparecida nos jornais, informa-me de que, na China, as penas de aves destinadas a recheio de almofadas de dormir são arrancadas assim mesmo, ao vivo, depois limpas, desinfetadas e exportadas para delícia das sociedades civilizadas que sabem o que é bom e está na moda”, lamentou.

Vencedor do Prêmio Camões em 1995 e do Prêmio Nobel de Literatura em 1998, o primeiro concedido a um autor de língua portuguesa, José Saramago publicou em 2008 o livro “A Viagem do Elefante”, qualificado como romance, mas considerado conto pelo autor. A obra é inspirada no episódio em que o rei de Portugal e Algarves, Dom João III, resolveu presentear com um elefante o arquiduque austríaco Maximiliano II, genro do imperador Carlos Quinto.

Com uma estilística inovadora e linear, Saramago apresenta a história de solimão (com s minúsculo mesmo), um elefante que se torna alvo da corrupção, individualismo, egocentrismo e outras falhas que permeiam a natureza humana. E essas deficiências mostram como o animal é vitimado pela superioridade que os personagens da história julgam possuir sobre o elefante de quatro toneladas.

“Que leves o elefante à porta da basílica e o faças ajoelhar-se ali, Não sei se serei capaz, Tenta-o, Imagine vossa paternidade que eu levo lá o elefante e ele se recusa a ajoelhar-se, embora eu não entenda muito destes assuntos, suponho que pior que não haver milagre é encontrar-se com o milagre falhado, Nunca terá sido falhado se dele ficarem testemunhas”, sugere o padre em diálogo com o tratador na página 79 de “A Viagem do Elefante”.

O sacerdote propõe usarem o animal para forjar um milagre e angariar recursos para o caixa da igreja. E a suposta graça é apenas a primeira etapa de um plano para fazer do elefante o mais valioso dos bens em mãos humanas. “Não é todos os dias que um elefante se ajoelha à porta de uma basílica, dando assim testemunho de que a mensagem evangélica se dirige a todo o reino animal e que o lamentável afogamento daquelas centenas de porcos no mar da galileia foi apenas resultado da falta de experiência, quando ainda não estavam bem lubrificadas as rodas dentadas dos mecanismos de milagres”, ironiza Saramago.

Logo são formados acampamentos em torno do elefante e a exploração do animal ganha outros rumos a partir do momento que seu pelo é extraído para ser vendido aos crédulos. “Amanhã se dirá que uma infusão de pelo de elefante, três vezes ao dia, é o mais soberano dos remédios. Fritz não tem mãos a medir, no bolsinho que traz atado ao cinto as moedinhas já pesam, se o acampamento permanecesse aqui uma semana acabaria rico”, satiriza.

Solimão, tornado salomão, e que chegou a salvar uma criança quando chegou ao seu destino, faleceu no inverno de 1553, depois de amargar uma vida de servidão humana. “Além de o terem esfolado, a salomão cortaram-lhe as patas dianteiras para que, após as necessárias operações de limpeza e curtimento, servissem de recipientes, à entrada do palácio, para depositar as bengalas, os bastões, os guarda-chuvas e as sombrinhas de verão. Como se vê, a salomão não lhe serviu de nada ter-se ajoelhado”, concluí José Saramago. Assim é justo dizer que além de ser uma metáfora da vida humana, “A Viagem do Elefante” é um retrato da abusiva relação dos seres humanos com os animais e também da obtusa forma como o homem enxerga o seu papel no mundo.

Saiba Mais

Nascido em 16 de novembro de 1922 em Azinhaga, Portugal, José Saramago faleceu em 18 de junho de 2010, em Tías, Espanha.

O livro “O Caderno” reúne textos escritos por Saramago entre setembro de 2008 e março de 2009.

Referências

Saramago, José. O Caderno. Companhia das Letras (2009).

Saramago, José. A Viagem do Elefante. Companhia das Letras (2008).

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Do anonimato à superexposição na internet

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Éramos anônimos e o anonimato era praticamente uma bandeira para nós

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Não tínhamos nome, sobrenome, origem, cidade, estado nem mesmo um país real quando usávamos proxy internacional (Foto: Reprodução)

Sou de uma geração de anônimos na internet. E o que quero dizer com isso? Bom, quando comecei a usar a internet por volta de 1996, eu, assim como a maioria dos usuários, era um anônimo. Não tínhamos nome, sobrenome, origem, cidade, estado nem mesmo um país real quando usávamos proxy internacional. O mais importante não era aparecer, mas sim conhecer e trocar informações, ideias e alguns poucos arquivos.

Cheguei a ter contato com pessoas por anos sem jamais saber quem eram de verdade; como eram fisicamente, quantos anos possuíam, o que faziam para sobreviver, entre outras coisas, até porque, dependendo, isso pouco importava. Éramos anônimos e o anonimato era praticamente uma bandeira para nós. Fotos dos usuários eram raras. E isso não fazia muita diferença.

Em alguns aspectos, acho que existíamos mais para o conhecimento, o conteúdo, do que para as relações interpessoais. Palace, ICQ, mIRC, fóruns, usávamos o que existia na época. Acredito que éramos feitos de linhas, estilos, linguagens, narrativas e trocas de arquivos. Em salas, tópicos e janelas privadas, poderíamos conversar hoje e então nunca mais. O vínculo era possível, mas não essencial. Desrespeito, intolerância e balbúrdia eram coibidos com o mais icônico BAN.

Não havia tanta exposição. Ninguém precisava aparecer se não quisesse, nem por isso seria tachado de coisa alguma. Muito pelo contrário, era a mais comum das práticas daqueles tempos. Aos poucos esse mundo foi desaparecendo, pelo menos diante de um novo onde os usuários de internet se tornaram mais transparentes, mais vaidosos, alcançáveis e até mesmo presas de um universo ruidosamente curioso.

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Ninguém precisava aparecer se não quisesse, nem por isso seria tachado de coisa alguma (Foto: Reprodução)

Houve uma metamorfose e hoje vivemos a contramão do anonimato. Há uma superexposição como jamais imaginada nas décadas anteriores. E isso é encarado como algo natural. Muita gente parece não se importar em ter o cotidiano integralmente registrado na internet. O que faz em horários bem específicos, onde come, o que compra, o que ama, o que odeia, quando sai, com quem sai, quais ambientes frequenta.

É possível criar uma agenda de rotinas a partir das informações que as pessoas disponibilizam nas mídias sociais. Acredito que aí subsiste o perigo da superexposição, já que não conhecemos todas as pessoas que recebem essas tantas informações compartilhadas. Sim, você está sendo apenas você, porém e se ser você implica de algum modo em uma consequência negativa para si mesmo e para outros? Ainda valeria a pena?

Em mídias sociais, todos os dias me deparo com conteúdo ofensivo ou formulado de forma bastante equivocada. Não consigo deixar de pensar em como isso pode ser perigoso. Nossa opinião pode reverberar coisas que nem imaginamos dependendo da forma como elaboramos um texto.

Acredite, muitas vezes a maneira como escrevemos pode gerar interpretações inimagináveis se não formos cuidadosos com as palavras. Não é à toa que pessoas são demitidas, amizades e casamentos são desfeitos, entre outras consequências. Afinal, somos responsáveis pelo que publicamos.

Há inclusive muitos casos de ameaças, brigas e assassinatos em decorrência de discursos, opiniões ou “críticas” e críticas publicadas na internet. Então por que não tentar ser mais comedido? Até porque quanto mais ódio disseminamos, mais ódio atraímos. Não é possível conquistar sorrisos sendo avesso à pluralidade.

Na minha opinião, a ponderação deve ser a base de toda produção textual divulgada em mídia social. E faço tal afirmação porque tenho certeza que a maioria não se sente bem gerando inimizades ou perdendo a admiração de pessoas que apenas têm alguns pontos divergentes dos seus.

Não se trata de ser imparcial, até porque a imparcialidade é um mito, mas sim de tentar ser justo e ter sempre em mente que o outro não merece ser ofendido por você apenas por pensar diferente. Há que se ter o entendimento também de que mesmo quando você publica um texto obtuso ou ofensivo e se arrepende e o deleta, isso não significa que ele deixou de existir.

Assim como sabemos que não existe fora no mundo, eu acredito que o mesmo acontece no ciberespaço. Na internet, deletar não significa fazer o conteúdo desaparecer completamente. E volto a endossar que a forma como escrevemos é a porta de entrada para o conteúdo que queremos transmitir. Ser arrogante, desrespeitoso, visceralmente satírico ou desdenhoso desqualifica até mesmo textos bem embasados, desestimulando a reflexão.

 

 

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Quando me decepcionei com Arnaldo Jabor

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Em dezembro de 2004, Arnaldo Jabor destilou preconceito e arrogância ao abordar um assunto que desconhecia (Foto: Reprodução)

Quando adolescente, e ainda mais ingênuo por sinal, eu gostava de assistir aos comentários sazonais do Arnaldo Jabor na TV. Até que um dia, em dezembro de 2004, percebi como um formador de opinião pode ser capaz de destilar tanto preconceito e arrogância ao falar de um assunto que desconhece completamente. Desde então nunca mais vi ou ouvi tal crítico comentando sobre coisa alguma.

É surpreendente reconhecer como até mesmo aqueles que são apontados por muitos como grandes críticos e articulistas derrapam num erro tão primário que é o de se sentir tão superior que se considera apto a falar com desdém sobre qualquer coisa, mesmo que não tenha se informado ou estudado sobre o tema. Basicamente não há como deixar de encarar isso como uma das armadilhas do ego.

Crítica no seu conceito original precisa estar sempre atrelada a argumentos. Ela precisa impreterivelmente de sustentação. Se isso não existe, não é uma crítica. E foi exatamente o que vi no último dia em que assisti ao Arnaldo Jabor na TV, há mais de 11 anos. Achismo, opinião inconsistente e a estoica e nociva personificação da pessoalidade.

https://www.youtube.com/watch?v=cHf-ZloVe4I

Written by David Arioch

May 26th, 2016 at 11:58 am

Não há nada de enobrecedor em apelar em vez de argumentar

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Pasticho da obra “O Pensador”, de Rodin (Arte: Linda Apple)

Estamos em 2016 e até hoje me deparo com pessoas xingando presidentes e ex-presidentes diariamente, e com palavras que não têm qualquer relação com o desempenho de um cargo público – como piadas sobre a aparência, defeitos físicos e analogias com animais. É esse tipo de passionalidade que sempre me esforço para evitar. Não vejo nada de enobrecedor em apelar em vez de argumentar.

Se quiser convencer alguém, faça mais do que o óbvio ou trivial, até porque nessas situações a primeira coisa que os mais ponderados imaginam é alguém encolerizado e fragilizado intelectualmente, dominado pelos rompantes da negatividade; e se isso acontece pode ter certeza que o principal afetado é você.

Mesmo que a realidade não seja tão visceral, essa é a imagem que você transmite numa rede social por exemplo. Acredito que nem todo desabafo motivado pela agressividade merece ser levado ao público, ainda mais levando em conta que ofensas não têm nenhum peso no desenvolvimento de ideias.

Written by David Arioch

May 12th, 2016 at 7:48 pm

A contradição de clamar por democracia sendo antidemocrático

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Vejo muita passionalidade envolvida, e muitas vezes me parecem armadilhas do ego e da vaidade

Discurso de Péricles em Atenas, um dos símbolos da democracia (Pintura: Philipp Foltz)

Discurso de Péricles em Atenas, um dos símbolos da democracia (Pintura: Philipp Foltz)

Esses dias, testemunhei na internet um camarada sendo chamado de “comunista”, no sentido mais pejorativo do termo, aquele que hoje povoa o ideário comum, porque publicou um vídeo mostrando um general da época da ditadura militar impedindo um jornalista de exercer a própria função. Esse sujeito que o ofendeu com palavras baixas e declarou que o camarada deveria ser fuzilado por ser “comunista” é um exemplo de uma efervescência perigosa e sem precedentes que tenho visto na internet.

Primeiro porque o camarada não é “comunista”. Ainda assim, tentei entender o posicionamento do rapaz, mas foi impossível porque ele vive uma estoica contradição – uma pessoa que diz estar lutando pela democracia e ao mesmo tempo se coloca no direito de dizer que muitos brasileiros deveriam ser deportados ou fuzilados porque não pensam como ele. Me refiro a alguém que entra na internet para impor sua opinião de forma agressiva em páginas de pessoas com quem não partilha as mesmas ideias.

Penso que se não sou seu amigo e entro na sua página para comentar algo sem ser convidado, devo pelo menos ser educado e defender o meu posicionamento de forma ponderada e lúcida – o mínimo que se pode esperar de um ser humano que deveria respeitar o outro tanto quanto respeita a si mesmo. Não é correto invadir um perfil pessoal no Facebook para impor nada, até porque esse espaço pode, porém não precisa ser democrático. Ninguém tem o direito de fazer isso, independente de qualquer coisa.

Sinceramente, não há como negar que comportamentos como o do rapaz citado têm relação direta com a indigência cultural, já que generalizações e ofensas costumam ser usadas com mais frequência por pessoas que não são capazes de argumentar ou defender um ponto de vista sem apelar para clichês ou estereótipos. O sujeito que ofendeu esse meu camarada trabalha como instrutor em uma academia onde paro em frente quase todos os dias quando o sinal vermelho do semáforo está acionado.

Já o vi algumas vezes rindo e fazendo brincadeiras com alunos e colegas de trabalho, o que torna tudo mais chocante porque mostra como um ser humano aparentemente pacífico pode na realidade esconder uma faceta agressiva e tirânica, o que é interpretado por estudiosos do comportamento humano como sinais de sociopatia.

Acho válido citar também pessoas mais próximas que conheço há muito tempo e que presenciei e ainda presencio defendendo discursos de ódio em mídias sociais. Posso dizer que não é fácil olhar para a pessoa e não associá-la ao que li na internet. A vida segue, mas um resquício de fel na boca persiste.

Vejo muita passionalidade envolvida, e muitas vezes me parece armadilha do ego e da vaidade, aliada a uma visão canhestra do mundo; até um anseio jactante e quase totalitarista de redefinir o que é certo e errado. É incrível como nos deparamos todos os dias com pessoas hostilizando alguém. Tudo isso porque não foram preparadas para lidar com as diferenças, e acho que esse é um problema que surge na infância e adolescência.

Diariamente encontramos pessoas querendo moldar o mundo e as pessoas à sua maneira, o que não significa que seja algo basicamente ruim, já que no fundo todos fazemos isso de algum modo. E claro, muitas coisas nesse sentido podem ser realmente positivas. No entanto, a preocupação surge quando as negativas se sobrepõem, porque aí o respeito é relegado à farelagem e o ser humano deixa de ser humano.

Crítica não existe sem argumento

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Crítica não existe sem embasamento ou argumento. Também não privilegia ofensas. E sim, críticas de verdade não são comuns hoje em dia se levarmos em conta o conceito original grego que qualifica a ponderação como imprescindível. Além disso, a partir do momento que você insulta ou xinga alguém há sempre o iminente risco de ter o discurso totalmente desconsiderado, independente de floreios e outras qualidades.

Written by David Arioch

April 19th, 2016 at 3:09 pm

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A importância da tolerância em tempos sombrios

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A maneira como nos expressamos diz muito mais do que imaginamos

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“São exatamente os predicados negativos que afetam não apenas nós mesmos, mas todos à nossa volta” (Acervo: Geledés)

Nos últimos dias, algumas pessoas me perguntaram o que eu acho do momento político que vivemos no Brasil. O que eu acho? Acho que existe passionalidade demais de todos os lados, o que na realidade não me surpreende, já que essa é uma característica comum do brasileiro – a de se deixar levar pela emoção, de se exaltar. Há predicados bons e ruins. Mas são exatamente os negativos que afetam não apenas nós mesmos, mas todos à nossa volta.

Quando digo que muitos são dominados pela passionalidade, me refiro em específico ao fato de xingarem e repercutirem a esmo publicações que pouco contribuem para um debate. Exemplo são os textos que partem diretamente da conclusão, que não permitem abertura para o leitor trilhar seu próprio caminho. Esse tipo de material costuma ser deletério porque na realidade ele não te instiga a pensar, mas sim a compartilhar e defender uma opinião já definida.

Sim, somos arrogantes e pernósticos todas as vezes em que dividimos uma opinião impositiva, logo autoritária, que não permite qualquer tipo de diálogo ou discussão saudável. A realidade é que vivemos tempos sombrios, em que alguém é capaz de desqualificar o outro, seja nas suas particularidades profissionais ou sociais, por causa de uma opinião ou posição política. Quando alguém age assim, uma questão sempre ecoa pela minha mente: “Será que esse sujeito já pensou que, em menor ou maior proporção, ele absorve cultura de alguém que pensa completamente diferente dele?” Seja por meio de filmes, livros, músicas, etc.

De um lado, vejo pessoas que compartilham frases de Gabriel García Márquez e Julio Cortázar xingando quem se identifica com políticas de esquerda. Do outro, pessoas parafraseando Jorge Luis Borges e Mario Vargas Llosa e ofendendo quem se alinha com políticas conservadoras. O ser humano pouco percebe o quanto recai em contradição quando condena alguém por suas disparidades.

Se você é estoico a ponto de desprezar ou odiar alguém por sua posição política, acredite, você vive uma ilusão, já que é impossível, ainda mais com o advento da globalização, se privar de reconhecer valor em algo gestado por alguém que vá na contramão de sua inclinação política. Você pode não saber, mas você é sim influenciado por pessoas muito diferentes de você em inúmeros aspectos, inclusive políticos. E compreender a complexidade disso é o primeiro passo para entender a importância da diversidade.

Não é novidade que nas mídias sociais pululam muitas ofensas gratuitas, xingamentos ostensivos, desnecessários e generalizados por causa de política. Porém, quem deve ser julgado são os políticos, mas dentro da legalidade, não pessoas que apenas fazem valer o seu direito de pensar diferente de mim ou de você, independente do nível de influência que elas tenham.

Considero a situação preocupante porque me surpreendo cada vez mais com a baixeza das publicações na internet. Pessoas disseminando ódio, trocando ameaças, entrando em conflito com amigos de longa data, tudo isso por indisposições que muitas vezes não chegam nem a ser ideológicas.

Acho justo e imprescindível não rotular pessoas por suas opiniões políticas. A defesa de algo em um momento específico pode e também deve ser encarada como resultado de uma avaliação contextual, ainda mais quando os envolvidos são apartidários. Se você não é capaz de aceitar isso, talvez você não esteja preparado para viver em sociedade.

Hoje em dia, mesmo com todas as facilidades advindas das novas formas de comunicação, muitas pessoas estão mais preocupadas em entrar em conflito por nada ou quase nada – simplesmente porque há uma crença de que algo dentro de você fará com que você se sinta inferiorizado se você não se manifestar, mesmo que de forma obtusa.

Muitos se mostram dispostos a exercer violência – até matar ou morrer por causa de política. Acredite, se você está preparado para chegar a esse ponto significa que você não defende de fato a democracia. Na era da guerra da informação, supor que a solução seja a irrupção de uma guerra nos moldes mais antigos é um retrocesso descomunal, desconsiderado até mesmo por militares que participaram da deposição de Jango em 1964.

Quando você tiver vontade de xingar ou ofender alguém por causa de política, não se esqueça que vivemos em um país democrático onde a maior parte da população quer o fim da corrupção e da impunidade. Não é motivo o suficiente para pelo menos perseverar o respeito? Políticos e seus asseclas são minoria em um país com mais de 200 milhões de pessoas; e muitos são capazes de qualquer coisa para segmentar a população, assim como aconteceu em muitos países.

Outro fator a se considerar é que não se estimula alguém a refletir com xingamentos. Quer que levem sua opinião a sério? Argumente. Do contrário, será apenas mais um desabafo fragilizado ou ofensa vazia. A maneira como nos expressamos diz muito mais do que imaginamos. A forma como você apresenta uma linha de raciocínio pode desqualificar todo o conteúdo se ele transparecer excessos como jactância, intransigência, destempero e excesso de vaidade. Seja tolerante. A tolerância é uma das qualidades mais importantes do ser humano porque ela assegura a manutenção da vida.

Written by David Arioch

March 18th, 2016 at 3:38 pm