David Arioch – Jornalismo Cultural

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Morrer como se jamais tivesse existido

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Mais do que um escritor, Borges foi um enigma literário 

O escritor argentino Jorge Luis Borges  dizia que, quando chegasse a sua hora, gostaria de morrer como se jamais tivesse existido, existe poesia nisso; claro, talvez não para todo mundo ou especialmente para aqueles que ignoram a finitude. Quando Borges falou isso, pensei na questão do desapego, da construção de legados, dos tributos e de tudo aquilo que fazemos para nós, não para os que se foram.

Muitos se incomodam com a ideia de pessoas que não vivem para construir nada pomposo ou tangível, a não ser elas mesmas e algo em torno daqueles com quem se comunicam no decorrer da vida. Ainda somos ignorantes a ponto de acharmos que todos querem viver como nós, que todos querem criar laços ou viver e morrer como se fossem muito maiores do que realmente eram.

Há quem se assuste com a ideia de pessoas que ao longo da vida se comunicam de forma profunda, mas fortuita e transitória com os outros, sem criar vínculos concretos, complexos ou objetivos. Apenas existem sem se preocupar em definir coisa alguma. O que não deveria ser visto como aberrante, já que não fomos feitos em série.

Nem todos querem deixar algum legado, assim como nem todos buscam fazer algo pelo que ser lembrado. Há aqueles que querem apenas viver para algo que parece mínimo a tanta gente, mas que dê algum sentido ao existir. Nem todo mundo quer fazer planos de curto, médio ou longo prazo. Tem gente que prefere cultivar apenas a própria consciência, uma consciência que também pode reverberar a possibilidade de que o fim pode ser hoje ou amanhã.

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March 5th, 2017 at 7:56 pm

Harper Lee e “O Sol é Para Todos”

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16830823_1342851275806264_1364202372851685136_nComprei hoje o livro “O Sol é Para Todos”, que nunca li, embora sempre tenha ouvido falar bem a respeito. É um dos maiores clássicos da literatura dos Estados Unidos, que garantiu a escritora Harper Lee o Prêmio Pulitzer.

A obra narra a história de um advogado que se torna alvo de uma comunidade racista ao defender um homem negro acusado de estuprar uma mulher branca. Eu já conhecia o filme, também um clássico eternizado por Robert Mulligan e Gregory Peck em 1962. Harper Lee é a mulher que ajudou a alavancar a carreira daquele que é considerado um dos nomes mais importantes do jornalismo literário norte-americano – Truman Capote.

Ele é mais conhecido pelo clássico A Sangue Frio, obra que conta a história do bárbaro massacre de uma família do Meio-Oeste, e que Capote só conseguiu escrever graças ao suporte de Harper, que foi quem o assessorou e garantiu contato com as mais importantes fontes e referências. Uma pena que Capote não deu a ela qualquer crédito, inclusive mais tarde sendo apontado como um sujeito que embora talentoso, também era invejoso e mesquinho.

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February 19th, 2017 at 12:01 am

Jorge Luis Borges: “Comecei a perder a vista desde o momento em que comecei a enxergar”

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Borges: “Uma das primeiras cores que se perde é o negro” (Foto: Reprodução)

Em 1985, durante o programa Conexão Internacional, da TV Manchete, Roberto D’Ávila questionou o escritor argentino Jorge Luis Borges sobre a sua experiência com a cegueira. Então ele respondeu o seguinte:

“Uma das primeiras cores que se perde é o negro. Perde-se a escuridão e o vermelho também. Vivo no centro de uma indefinida neblina luminosa. Mas não estou nunca na escuridão. Neste momento esta neblina não sei se é azulada, acinzentada ou rosada, mas luminosa.

Tive que me acostumar com isto. Fecho os olhos e estou rodeado de luz, mas sem formas. Vejo luzes. Por exemplo, naquela direção, onde está a janela, há uma luz, vejo minha mão. Vejo movimento, mas não coisas. Não vejo rostos e letras. É incômodo mas, sendo gradual, não é trágico. A cegueira brusca deve ser terrível. Mas se pouco a pouco as coisas se distanciam, esmaecem.

No meu caso, comecei a perder a vista desde o momento em que comecei a enxergar. Tem sido um processo de toda minha vida. Mas a partir dos 55 anos, não pude mais ler. Passei a ditar. Se tivesse dinheiro, teria uma secretária, mas é muito caro. Não posso pagar.”

Written by David Arioch

January 28th, 2017 at 8:37 pm

Tolstói: “Não ouçam os médicos antigos que preconizam o uso da carne, porque o fazem unicamente por teimosia”

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Tolstói: “O movimento moralizador que constitui a base de todo progresso se cumpre sempre lentamente”

Quando Liev Tolstói foi questionado sobre o motivo pelo qual ele acreditava que a privação da carne é a primeira etapa para a vida moral, o escritor russo disse que a resposta poderia ser encontrada no livro “The Ethics of Diet”, de autoria do inglês Howard Williams, lançado em 1883.

Segundo Tolstói, a obra representa não apenas a voz de um homem, mas da humanidade, na pessoa de seus melhores representantes desde que chegamos ao que ele chama de idade da razão. Em seu ensaio “O Primeiro Passo”, publicado em 1892, o escritor russo justificou que embora a imoralidade da alimentação de origem animal seja conhecida, a verdade é que ela continua sendo ignorada porque a maioria prefere não confrontar a sua própria consciência moral.

“O movimento moralizador que constitui a base de todo progresso se cumpre sempre lentamente. […] Tal é o movimento vegetariano; este movimento está expresso tão bem por todos os escritos que se incluem no livro citado [The Ethics of Diet], como pela existência da própria humanidade, a qual tende mais e mais, sem que sequer o perceba, a passar da alimentação animal ao regime vegetal, e este movimento se manifesta com uma força particular e consciente no vegetarianismo, que adquire cada vez maior extensão”, escreveu Liev Tolstói.

O escritor fez essa otimista observação depois de ver a evolução do movimento vegetariano, principalmente na Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos, onde, no início do século 20, já crescia o número de pousadas e hotéis vegetarianos. Para Tolstói, o vegetarianismo é um sinal da aspiração séria e sincera da humanidade em direção à perfeição moral. Poetizando os desígnios do vegetarianismo, comparou a alegria em ver a evolução do movimento com o exemplo de um homem disposto a alcançar gradualmente o andar mais alto de um edifício.

Para o escritor russo, o melhor caminho é o mais simples, ou seja, é preciso começar subindo o primeiro degrau da escada. “Aqueles que duvidam disso, leiam os numerosos livros escritos por médicos e sábios. Eles provam que a carne não é necessária como alimento. Não ouçam os médicos antigos que preconizam o uso da carne, porque a preconizaram seus antecessores; e o fazem unicamente por teimosia […]”, criticou.

Referência

Tolstói, Liev. O Primeiro Passo (1892).

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Guy Endore, autor de “O Lobisomem de Paris”, era vegetariano

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Endore se tornou vegetariano nos tempos de estudante

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“Todos os dias pela manhã, ele saltava da cama e meditava por 30 minutos” (Foto: Reprodução)

O escritor estadunidense Guy Endore, importante nome da literatura gótica e de horror do século 20, mais conhecido pelo clássico “O Lobisomem de Paris”, publicado em 1933. A obra conta a história de um estadunidense que desenvolve uma pesquisa de doutorado em Paris. Durante a sua estadia, ele encontra um manuscrito recuperado por alguns catadores de lixo.

São 34 folhas escritas em francês, sobre uma defesa não solicitada pelo sargento Bertrand Caillet em uma corte marcial em 1871. Bertrand, que se torna um pária, nasceu do estupro cometido pelo Padre Pitamond contra uma adolescente. Em sua juventude, ele começa a ter desejos sexuais estranhos e sádicos que se manifestam em seus sonhos. Quando dorme, ele se vê como um lobo e tudo parece tão real que Caillet começa a entrar em conflito consigo mesmo, viajando pela França pré-revolucionária, na tentativa de acalmar seus próprios instintos.

Endore que era vegetariano imprimiu um pouco de pessoalidade ao personagem, como pode ser percebido na página 13 do livro “O Lobisomem de Paris”:

“Mas quando ele chegou, a primeira coisa que o atingiu foi o cheiro de carne assada. Maldita seja a carne. Ele se livrou dela a lançando dentro de uma fossa. Sim, exatamente isso. Com a carne no fundo da fossa, todos os seus pensamentos sobre ela foram afastados. Fora de alcance, fora da mente.”

Autor da biografia “The Many Lives of Guy Endore”, Chris Mikul conta que Endore era uma massa de contradições, principalmente levando em conta o quanto o escritor de horror era um sujeito sensível e dado a sutilezas, o que contrastava com suas obras.

“Seu amigo Alexander Woollcott, famoso crítico do New Yorker, o chamava de ‘Weremouse’. Endore se tornou vegetariano nos tempos de estudante. Também era praticante de ioga e aparentava ser muito mais jovem do que realmente era”, declarou Mikul.

Todos os dias pela manhã, ele saltava da cama e meditava por 30 minutos. Mais tarde, repetia o mesmo exercício Embora judeu, guardava uma Bíblia junto à cama e frequentemente a lia, e tinha grande interesse em misticismo, principalmente teosofia, segundo o biógrafo.

Outro estudioso da vida de Guy Endore é o professor Robert McKay, da Universidade de Sheffield, na Inglaterra, autor do trabalho “The Were-Wolf Hunger of Capital”. “’O Lobisomem de Paris’” é um romance sensacional sobre licantropia que tem como cenário a Comuna de 1871 [ou Comuna de Paris, primeiro governo operário da história], escrita e publicada […] pelo vegetariano Guy Endore. O foco do romance no consumo levanta questões pertinentes sobre as políticas da alimentação”, comenta McKay.

“O Lobisomem de Paris” é uma obra que, para além da literatura gótica e de terror, leva o leitor a refletir sobre as implicações do consumo de carne, tanto para os seres humanos quanto para os animais.

Saiba Mais

“O Lobisomem de Paris” inspirou o surgimento de muitos filmes, entre os quais “O Lobisomem de Londres”, de 1935; “O Lobisomem”, de 1941; “A Maldição do Lobisomem”, de 1961, considerado um dos grandes clássicos do cinema de horror; e “A Lenda do Lobisomem”, de 1975.

Referência

Endore, Guy. The Werewolf of Paris. Pocket Books (1993).

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Coetzee: “É mais fácil bloquear nossas simpatias enquanto torcemos o pescoço do frango que vamos comer”

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Um vencedor do Nobel de Literatura preocupado em mudar as mentes e os corações das pessoas em relação aos animais

Coetzee: “Eles mencionam que o herói do romance se envolve com os defensores dos direitos animais, e ficam nisso”

O escritor sul-africano J.M. Coetzee, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2003, é conhecido como um homem tímido e recluso, que não gosta de dar entrevistas desde 1974, quando iniciou sua carreira literária. Porém, para veículos que atuam em defesa dos direitos animais, ele sempre se mostrou mais receptivo e disposto a fazer concessões.

Um exemplo é uma rara entrevista, intitulada “Animals, Humans, Cruelty and Literature”, publicada em maio de 2004 na revista Satya, fundada em 1994, no Brooklyn, em Nova York. A matéria, baseada na entrevista que o jornalista Henrik Engström realizou com Coetzee por e-mail, veio a público pela primeira vez no jornal sueco Djurens Rätt. Mesmo após a entrevista, o jornal que aborda os direitos animais conseguiu manter contato com o escritor sul-africano ao longo de um ano.

O que diferencia Coetzee de muitos outros atores que abordam a questão animalista é que ele não qualifica o amor e a compaixão pelos animais como imprescindíveis na causa animal. Para o escritor, o mais importante é que os seres humanos reconheçam que não existe justiça quando matamos animais para transformá-los em comida ou produtos, independente de espécie. Ou seja, a exploração animal é inaceitável do ponto de vista moral e ético.

E foi por causa dessa visão que ele recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. A sua indicação veio logo após o lançamento do livro “Elizabeth Costello”, de 2003, em que ele dedica dois capítulos a discutir a relação dos seres humanos com os animais. “Os animais estão na minha ficção ocupando um papel subsidiário, em parte, porque eles realmente ocupam um papel meramente subsidiário em nossas vidas. E em parte, porque não é possível escrever sobre a vida dos animais com a devida complexidade”, justificou.

Questionado se ele acredita que a indicação do seu livro ter sido feita justamente pela abordagem da questão animalista, Coetzee admitiu que um único livro não é capaz de mudar o mundo em relação a isso, mas talvez tenha um pequeno impacto. Embora “The Lives of Animals” e “Elizabeth Costello” tenham se popularizado nesse aspecto, a discussão em torno dos direitos animais na literatura do sul-africano começou com o romance “Desonra”, em que os animais ocupam papel consideravelmente proeminente, principalmente quando ele decide realizar trabalho voluntário em um local onde cuidam de animais enfermos e abandonados.

E o que decepcionou Coetzee à época foi o fato de que as editoras ignoraram o papel dos animais em seu livro. “Eles mencionam que o herói do romance se envolve com os defensores dos direitos animais, e ficam nisso. Os personagens refletem a forma como os animais são tratados no mundo em que vivemos, como existências insignificantes que só reconhecemos quando suas vidas cruzam as nossas”, lamentou a Engström.

Coetzee é um escritor que não prioriza a conquista de direitos legais para os animais. Sua maior preocupação é mudar as mentes e os corações das pessoas em relação aos animais. “O mais importante de todos os direitos, é o direito à vida. Não posso prever que um dia os animais terão esse direito em forma de lei. Então o que podemos fazer é mostrar para o maior número de pessoas o custo psíquico e espiritual da forma como tratamos os animais, e assim talvez mudar nossos corações”, enfatizou.

O escritor não qualifica os seres humanos como naturalmente cruéis. Ele exemplifica o fato de que para sermos cruéis teríamos que fechar sempre os nossos corações para o sofrimento do outro. “É inerentemente mais fácil bloquear nossas simpatias enquanto torcemos o pescoço do frango que vamos comer do que anular nossas simpatias pelo homem que vamos enviar para a cadeira elétrica. […] Evoluímos nossos mecanismos psíquicos, sociais e filosóficos para lidar com a matança de aves. Por razões complexas, usamos os mesmos mecanismos para permitir a matança de seres humanos somente em tempos de guerra”, avaliou.

Segundo J.M. Coetzee, um erro que cometemos com muita frequência é o de não perceber que o modo de consciência das espécies não humanas é bem diferente da consciência humana. Acredita-se que o ser humano é capaz de habitar a consciência de um animal, enquanto que por meio da faculdade da simpatia é possível para o ser humano saber como é ser alguém. “Os escritores são reputados por possuir fortemente esta qualidade particular. Se é de fato, ou pelo menos muito difícil habitar a consciência de um animal, então ao escrever sobre os animais, há uma tentação de projetar sobre eles pensamentos e sentimentos que podem pertencer somente à nossa própria mente humana e coração”, ponderou.

Coetzee crê que somos sempre tentados a procurar nos animais o que desperta com mais facilidade nossa simpatia ou empatia, na tentativa de favorecer espécies animais que, por uma razão ou outra, nos parecem quase humanas em seus processos mentais e emocionais. “Assim os cães são tratados como quase humanos, enquanto os répteis são tratados como completamente estranhos”, citou em referência ao especismo, conduta humana que legitima a exploração animal.

Sem animais de estimação em casa, o escritor se contenta em dizer que “considera” ter uma relação pessoal com pássaros e sapos que visitam sua propriedade. “Mas não creio por um minuto que eles acham que têm relações pessoais comigo. Sim, sou vegetariano. Acho que a ideia de encher a minha garganta com fragmentos de cadáveres é extremamente repulsiva, e fico surpreso por tantas pessoas fazerem isso todos os dias”, confidenciou.

Referência

Engström, Henrik. Satya Mag. Animals, Humans, Cruelty and Literature – A Rare Interview with J.M. Coetzee (2004).

http://www.satyamag.com/may04/coetzee.html

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Tolstói: “Às vezes, o açougueiro não acertava direito o golpe e o boi resistia e mugia enquanto jorrava sangue”

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“Ninguém se importava se era uma boa ou má ação matar aqueles bois”

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Tolstói: ““A bacia enchia rapidamente, mas o boi estava vivo e continuava golpeando o ar com os casco” (Foto: Reprodução)

Em um dia quente de julho, uma sexta-feira, o escritor Liev Tolstói visitou mais um matadouro em Tula, ao sul de Moscou. Sentiu um odor de sangue ainda mais intenso do que da última vez. O trabalho dos açougueiros prosseguia, e ele observava o pátio cheio de gado. Também havia animais nos galpões adjacentes ao prédio central.  Carretas e mais carretas carregadas de bois, vacas e bezerros chegavam ao matadouro.

Em alguns carros puxados por cavalos, ele viu bezerros vivos empilhados com as patas para cima. Os veículos se aproximavam do matadouro e descarregavam. “Havia ainda outros carros com bois mortos, cujas patas se moviam conforme as sacudidas do veículo. Mostravam suas cabeças inertes, seus pulmões vermelhos e o fígado marrom. Todos saíam do matadouro. Junto à cerca, havia cavalos montados, que pertenciam aos fazendeiros. Estes, com suas longas blusas e de chicote à mão, iam e vinham pelo pátio, ou marcavam com alcatrão o gado que lhes pertencia”, escreveu Tolstói.

Depois de negociar o preço, os fazendeiros vigiavam o transporte do gado do pátio até o galpão, e de lá até o prédio. Todos pareciam preocupados por causa das negociações. Ninguém se importava se era uma boa ou má ação matar aqueles bois. Se importavam tanto com isso quanto com a composição química do sangue que escorria pelo chão”, lamentou o escritor russo.

Não havia nenhum açougueiro no pátio. Todos trabalhavam.  Ao final do dia, tinham matado pelo menos cem bois. Tolstói entrou no prédio central e ficou junto à porta. Ele não poderia entrar porque não havia espaço. Enquanto o gado se amontoava, o sangue gotejava do teto, espirrando nos açougueiros. “Se eu tivesse entrado, também mancharia minha roupa”, enfatizou.

O escritor russo testemunhou um dos homens derrubando um boi enquanto outro animal deslizava por uma das pistas. No mesmo local, um boi com as patas brancas já não agonizava. Morto, era esfolado por um açougueiro. Pela porta oposta, passava um boi vermelho e gordo. Ele resistia enquanto o arrastavam. Mal chegou à entrada, e um açougueiro o golpeou no pescoço com um machado.

Caiu pesadamente no chão, voltou-se de lado e moveu convulsivamente as patas e o rabo. Logo outro açougueiro se lançou sobre ele, pegou-lhe pelos chifres, e fez com que sua cabeça ficasse rente ao chão para que outro açougueiro o degolasse. Pela ferida aberta, o sangue vermelho escuro brotava como de uma fonte, e um menino sujo de sangue o recolhia com uma bacia de metal. Apesar de tudo, o boi se esforçava para não morrer. Não parava de se mover, sacudindo a cabeça e agitando involuntariamente as patas.

“A bacia enchia rapidamente, mas o boi estava vivo e continuava golpeando o ar com os cascos, o que obrigava os açougueiros a afastarem-se. Tão logo a bacia encheu, o rapaz a colocou na cabeça e a levou para a fábrica de albumina, enquanto outro menino trouxe outra bacia”, registrou Tolstói.

O boi esperneava desesperadamente. Quando cessou de correr o sangue, o açougueiro levantou a cabeça do boi e começou a esfolá-lo. O animal não tinha morrido. “Tinha a cabeça já esfolada e vermelha, com veias brancas. Sua pele pendia dos dois lados, e o boi não cessava de mover-se. Outro açougueiro pegou o boi por uma pata, a quebrou e a cortou: o ventre e as outras pernas continuavam estremecendo convulsivamente”, testemunhou o escritor russo.

Sem demora, alguns homens lhe cortaram os membros restantes e os lançaram em um monte, onde já havia muitos membros de animais. Depois arrastaram o boi, já sem vida, até a polia e o penduraram. Da mesma forma, morreram outros três bois. Todos passaram pelo mesmo processo; cortaram suas cabeças, cujas línguas pendiam entre os dentes. Às vezes, o açougueiro não acertava direito o golpe e o boi resistia e mugia enquanto jorrava sangue. Se esforçava para escapar de suas mãos. Sem chance, o arrastavam ao centro do prédio e o golpeavam até cair.

“De perto, vi repetir a mesma operação, e de que maneira se obrigava os animais a entrar. Cada vez que pegavam um boi do galpão e o arrastavam por meio de uma corda amarrada aos chifres, o animal, farejando sangue, resistia, mugia e retrocedia. Dois homens não conseguiram arrastá-lo à força. Então um dos açougueiros se aproximou, pegou o boi pelo rabo, o torceu e rompeu-lhe uma vértebra. O animal avançou temeroso. Quando terminaram de matar os bois de um pecuarista, deram início ao abate dos animais de outro”, confidenciou o escritor russo Liev Tolstói.

Referência

Tolstói, Liev. O Primeiro Passo (1892).

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Cortázar: “Acontece o contrário com os animais. Eles me fascinam. O mundo dos insetos…dos mamíferos”

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Cortázar: “Descobrir pouco a pouco afinidades e similaridades…Acho que o gato é o meu animal totêmico e eles sabem disso” (Foto: Reprodução)

Um dos maiores nomes da literatura latino-americana, o escritor argentino Julio Cortázar, homem que chegou a um momento da vida em que deixou de surpreender-se com a humanidade e o mundo, teve muitas conversas com o seu amigo Ernesto González Bermejo.

Mais tarde, esses registros deram origem ao livro “Conversaciones con Cortázar”, publicado originalmente em 1978, seis anos antes da morte de Cortázar. No Brasil, a obra foi lançada em 2002, por iniciativa da Editora Jorge Zahar, sediada no Rio de Janeiro. Dentre os assuntos jamais abordados com franqueza em outra entrevista está o seu amor pelos animais, registrado nas páginas 46 e 47:

“Sempre fui, desde criança, profundamente indiferente ao reino vegetal: nunca distingui muito bem um eucalipto de uma bananeira; gosto das flores, mas não me ocuparia em ter um jardim. Acontece o contrário com os animais. Eles me fascinam.

O mundo dos insetos…dos mamíferos. Descobrir pouco a pouco afinidades e similaridades…Acho que o gato é o meu animal totêmico e eles sabem disso, como pude comprovar muitas vezes ao chegar à casa de amigos que têm cães e gatos. Os cães me tratam com indiferença, mas os gatos me abordam logo na chegada.

Se alguém fizer uma pesquisa de meus livros, vai descobrir uma grande percentagem de animais. Um animal se move fora do tempo – repete ao infinito os mesmos movimentos, e para quê? Por quê? Essas são noções humanas que não valem para um inseto. Dizemos que o animal trabalha, mas a noção de trabalho quem insere somos nós.”

Considerado o mestre do conto curto e da prosa poética, o escritor argentino Julio Cortázar ocupa a mesma posição de destaque na literatura mundial que o seu conterrâneo Jorge Luis Borges. Cortázar entrou para a história como um autor original que inovou na literatura ao se afastar da forma clássica de escrever.

Fugindo da linearidade, se destacou pela perene preocupação em se aprofundar no perfil psicológico de seus personagens, garantindo a eles autonomia e proporcionando ao leitor uma imersão numa criação espontânea que, identificada como realismo mágico, precede qualquer avaliação crítica.

Maior exemplo disso é o seu livro mais famoso. “Rayuela” ou “O Jogo da Amarelinha”, de 1963, que convida o espectador a fazer as mais diferentes interpretações da história surrealista de Horacio Oliveira, baseada em um monólogo interior.

Tolkien: “Esse povo derruba árvores e caça animais, portanto, não somos seus amigos”

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 (AP Photo)

Tolkien: “Dessa época em diante, não mais comeu carne nem matou nenhuma criatura viva” (AP Photo)

“Senhor – diziam – se tens poder sobre esses recém-chegados, faça com que voltem por onde vieram, ou que continuem seu caminho. Pois, nesta terra não desejamos que desconhecidos destruam a paz em que vivemos. E esse povo derruba árvores e caça animais, portanto, não somos seus amigos.

E, se não quiserem partir, nós os atormentaremos de todas as formas possíveis. Por mais quatro anos, Beren ainda vagou por Dorthonion, um proscrito solitário. Tornou-se, porém, amigo dos pássaros e dos outros animais, e eles o ajudavam, sem traí-lo. Dessa época em diante, não mais comeu carne nem matou nenhuma criatura viva.”

“O Silmarillion”, de J.R.R. Tolkien, páginas 139 e 161, publicado em 1977. A obra narra o início da Terra Média e de outras terras como Númenor, Valinor e Arda. O que pode despertar grande identificação no leitor é a rica e detalhada abordagem do mito da criação e seus seres folclóricos, comum nas histórias de tantas civilizações.

O livro também discorre sobre acontecimentos que se tornaram lendas nas eras posteriores, principalmente eventos envolvendo as primeiras casas de elfos, anões e homens. Embora a obra possa parecer fastidiosa em alguns aspectos, vale a pena para entender melhor livros como “O Senhor dos Anéis” e “O Hobbit”, até porque “O Silmarillion” se passa em um período que antecede esses dois livros.

Ademais, a singularidade de Tolkien aliada à fantasia e à autoralidade no desenvolvimento da linguagem dão a tônica do livro que discorre sobre a primeira grande batalha entre o Bem e o Mal.

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Written by David Arioch

December 28th, 2016 at 12:26 pm

H.G. Wells: “Agora não conseguimos suportar a ideia de matadouros”

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“No mundo da Utopia não há carne. Antes havia” (Foto: Reprodução)

“No mundo da Utopia, não há carne. Antes havia. Mas agora não conseguimos suportar a ideia de matadouros. E numa população em que todo mundo é culto e com um nível de aperfeiçoamento físico semelhante, é praticamente impossível encontrar alguém que vá talhar um boi ou um porco morto.

Nunca nos acostumamos com a questão higiênica do consumo de carne. Esse outro aspecto fez com que tomássemos uma decisão. Ainda consigo me lembrar, de quando era rapaz, do contentamento que o encerramento do último matadouro gerou.”

A Utopia Moderna (A Modern Utopia), página 174, de H.G. Wells, publicado em 1905. O escritor britânico também é autor de clássicos como A Guerra dos Mundos (The War of the Worlds), A Máquina do Tempo (The Time Machine) e A Ilha do Dr. Moreau (The Island of Dr. Moreau).

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