David Arioch – Jornalismo Cultural

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Uma luz estranha

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Notei uma luz estranha, como se estivesse me seguindo

À noite, saindo da academia, notei uma luz estranha, como se estivesse me seguindo; projetando-se rasteira, em direção às minhas pernas. Quando olhei para trás, vi um cachorro com uma lanterninha na cabeça.

 

 





Written by David Arioch

May 17th, 2017 at 1:06 am

Carl Sagan contra a exploração animal

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 “É indecente de nossa parte afirmarmos que só os seres humanos podem sofrer”

“Se há vida, então acredito que não devemos fazer nada para perturbar essa vida” (Foto: Cosmos)

O astrofísico Carl Sagan, também conhecido como o “astrônomo do povo”, se tornou um dos cientistas mais respeitados do século 20. Com centenas de publicações científicas e mais de 20 livros lançados, Sagan conquistou popularidade mundial após o lançamento da série “Cosmos”, escrita por ele em parceria com a esposa Ann Druyan e Steven Soter. O programa baseado em 13 episódios ajudou a ampliar o interesse pela ciência e pela espiritualidade sem viés religioso.

E foi exatamente por causa da preocupação com o lugar do ser humano no universo, e o reconhecimento da nossa pequenez, que Sagan se tornou um crítico das ações humanas em detrimento de outros seres vivos. Uma de suas célebres frases foi eternizada no episódio “Blues for a Red Planet”, que foi ao ar em 26 de outubro de 1980. “Se há vida, então acredito que não devemos fazer nada para perturbar essa vida. Marte então, pertence aos marcianos, mesmo que eles sejam apenas micróbios”, recomendou.

Carl Sagan também condenava os experimentos feitos com animais. Provas dessa sua postura podem ser encontradas no livro “Shadows of Forgotten Ancestors”, publicado em parceria com a esposa Ann Druyan em 1992. Na obra, ele relata a triste realidade dos primatas explorados em prol da ciência”. Cita como exemplo um experimento em que macacos foram obrigados a puxar uma corrente para serem alimentados em um laboratório.

O problema é que essa mesma corrente eletrocutava outro macaco cuja agonia estava à vista, por intermédio de um espelho unidirecional. Se eles não a puxassem, ficariam com fome. Depois de aprender a usar as correntes, os macacos recusaram-se a fazer isso. No experimento, somente 13% dos animais a puxaram. Os outros 87% optaram pela fome.

Um macaco ficou sem comida por quase duas semanas para não ter que ferir o seu companheiro. Aqueles que tinham sido vítimas de choque elétrico em experiências anteriores estavam ainda menos dispostos a puxar a corrente. Carl Sagan e Ann Druyan então se perguntaram quantos seres humanos na mesma situação seriam tão altruístas.

Sagan apontou que os macacos usados no experimento, e que ainda assim se recusaram a provocar dor em outros seres vivos, nunca foram à escola dominical, nunca ouviram falar nos Dez Mandamentos, nunca se contorceram por causa de uma mera lição de educação cívica. Ainda assim, são exemplares em suas bases morais e sua corajosa resistência ao mal. “Entre esses macacos, pelo menos nesse caso, o heroísmo é a norma”, frisou.

Sagan: “[Os macacos] são exemplares em suas bases morais e sua corajosa resistência ao mal” (Foto:

Segundo o astrofísico, muitos de nós temos uma perturbadora predisposição a causar dor, e por uma recompensa muito menor do que a comida destinada a um macaco faminto submetido à privação durante um experimento. Para entender melhor o assunto, ele sugere que os leitores leiam o livro “Obedience to Authority: An Experimental Overview”, publicado por Stanley Milgram em 1974. “Na história humana há um número preciso de poucos cuja memória veneramos porque conscientemente se sacrificaram pelos outros. Para cada um deles, há multidões que nunca fizeram nada”, critica.

Em “Shadows of Forgotten Ancestors”, Sagan aponta que a humanidade se tornou cada vez mais insensível em relação aos animais, e não somente no campo da pesquisa científica, mas em todas as esferas, inclusive reduzindo-os à comida, vestuário e outros tipos de produtos:

“Os seres humanos – que escravizam, castram, fazem experimentos e retalham outros animais – têm uma tendência compreensível de fingir que os animais não sentem dor. Uma distinção entre seres humanos e animais é essencial se quisermos subjugá-los à nossa vontade, usá-lo, comê-los – sem qualquer inquietação no que tange à culpa ou arrependimento. É indecente de nossa parte, que muitas vezes nos comportamos de forma tão insensível em relação a outros animais, afirmarmos que só os seres humanos podem sofrer. O comportamento de outros animais torna essas pretensões enganosas. Eles são muito parecidos com nós.”

Carl Sagan dizia também que nossas simpatias morais não se encontram com os cientistas, mas com os não humanos, que enquanto vítimas de experimentos demonstram uma santa vontade de fazer sacrifícios para salvar os outros – em referência aos animais que se recusam a toma parte em experiências que causem dor aos seus semelhantes.

Saiba Mais

Carl Sagan nasceu em 9 de novembro de 1934 em Nova York e faleceu em Seattle em 20 de dezembro de 1996 em decorrência de pneumonia.

Sagan era defensor do ceticismo e promoveu a busca por inteligência extraterrestre. Foi pioneiro nos estudos do efeito estufa e da exobiologia. Fez carreira como professor da Universidade Cornell e em 1978 ganhou um Prêmio Pulitzer pela autoria de “The Dragons of Eden”. O seu romance “Contact” foi adaptado paro o cinema em 1997, sob direção de Robert Zemeckis.

Referências

Cosmos: A Personal Voyage: Blues For a Red Planet (PBS). Carl Sagan, Ann Druyan e Steven Soter. Gregory Andorfer Rob McCain. Veiculado originalmente em 26 de outubro de 1980.

Sagan, Carl; Druyan, Ann. Shadows of Forgotten Ancestors. Ballantine Books. Edição: Reprint (1993).

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Quando se fala em amor…

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Arte: Leonid Afremov

Quando se fala em amor, naturalmente as pessoas o associam à ideia do amor longevo, ignorando que amores curtos podem ser tão ou até mais marcantes. Há amores curtos que deixam marcas indeléveis, que naturalmente já não existem enquanto relação, mas que podem sobreviver como tatuagem no coração.





Written by David Arioch

May 16th, 2017 at 3:44 am

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Algo não precisa ser ilegal para ser errado

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A Criminal Case, de Honoré Daumier

A materialização imaginativa do crime muitas vezes impede as pessoas de cometerem delitos não porque é errado, mas porque elas têm receio da punição. Justo é quando se reconhece que algo é errado independente de ser considerado ou não ilegal; quando as pessoas mostram com ações que mesmo que algo não seja considerado um crime, ainda assim elas jamais o fariam.

 





Written by David Arioch

May 16th, 2017 at 3:26 am

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O castelo pula-pula

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Na festa de aniversário da minha sobrinha, a criançada quase destruiu um castelo pula-pula (Foto: Menegazzo)

Na festa de aniversário da minha sobrinha, a criançada quase destruiu um castelo pula-pula. Então alguém achou que seria uma boa me chamar para impedir que o castelo esvaziasse completamente, caindo murcho sobre o gramado.

Enquanto eu tentava resolver o problema, uma das crianças puxou minha barba e gritou: É de verdade! É de verdade! É barba mesmo! As outras vieram ver, também querendo colocar a mão. Uma delas pulou de cima do castelo e quase caiu em cima das minhas costas.

Outras duas correram em torno de mim e gritaram: “Vai explodir! Vai explodir!” Naquele momento, não sei se falavam de mim ou do pula-pula, aí depende da malícia e da inocência.

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Written by David Arioch

May 14th, 2017 at 11:21 pm

Um presente para a mamãe

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” Será que digo que sou jornalista? Provavelmente ela vai me expulsar da loja… ” (Foto: Luxury Safes)

Saí para comprar um presente para a minha mãe. Fui até uma joalheria, e enquanto eu olhava alguns brincos e colares, uma moça se aproximou e perguntou se eu precisava de ajuda.

— Por enquanto, não…

— Se precisar, estarei aqui ao lado, tudo bem?

— Ah sim. Muito obrigado!

Enquanto eu analisava um belo anel que parecia forjado por um nibelungo, uma mulher pediu que a vendedora me levasse até ela.

— Por gentileza, o senhor pode me acompanhar?

Mesmo sem entender nada, acenei positivamente com a cabeça. “O que será isso, hein?”, pensei.

Diante de um longo balcão acastanhado, uma mulher muito bonita, com pouca maquiagem, e em um longo vestido preto, sorriu e me cumprimentou.

— O senhor não precisa se contentar com as nossas peças mais baratas. Temos algo realmente especial.

— É? — falei, mas ponderei: “E por que eu não me contentaria com as peças mais baratas? E que para mim pareciam bem caras…”

— Sim. Temos uma sala especial para atender pessoas como você. “Não entendi. Pessoas como você? Que tipo de pessoa eu sou?”

— É?

— Sim…me acompanhe, por favor.

Percorremos um corredor à direita do caixa, ela acionou uma senha e uma porta blindada, que mais parecia um cofre, abriu. Entramos.

— Acredito que tudo esteja à sua altura.

— Como assim à minha altura? Será que essa mulher não está me confundindo com outra pessoa? — refleti.

A peça mais barata naquela sala era um par de brincos de R$ 22 mil. Mas ela fazia questão de me mostrar colares que custavam até R$ 120 mil. Talvez fossem feitos de alguma coisa mais valiosa do que vidas? Ela sorria copiosamente, como se acreditasse que eu não sairia de lá sem comprar nada.

— Será que digo que sou jornalista? Provavelmente ela vai me expulsar da loja… — inferi silenciosamente.

— A senhora tem peças realmente bonitas, o problema é que estou bem distante de comprar o par de brincos “mais barato”.

Pensei em quantas crianças famintas poderiam ser alimentadas com o dinheiro a ser pago por aqueles brincos, anéis e colares. Bom, não cabe a mim dizer o que cada um deve ou não fazer com o seu dinheiro. Além disso, a verdade é que estamos todos no mesmo lugar, mas nem por isso fazemos parte do mesmo mundo.

— Não seja modesto….sei que o senhor é rico.

— Como? Até parece. Não entendi.

— Conheci seu pai, parte da sua família…

— Acho que não, hein…

— Conheci sim…não seja assim…

— Certo. Agradeço a confiança em me trazer aqui, mas preciso ir embora…

— Rápido assim? Não vai levar nada? Nem uns fios de ouro para adornar a sua barba?

— Não tenho como levar nada desta sala, senhora. E me desculpe, mas sofro de claustrofobia. Devo dizer que este ambiente não ajuda.

Ela estava bloqueando a saída, e quando percebeu o meu estado de descontentamento, abriu passagem. Atravessei a loja rapidamente, e na saída um homem tocou em meu ombro e indagou:

— Você não é filho do Salim Murat Mesut?

 

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Written by David Arioch

May 14th, 2017 at 11:15 pm

Que tudo que você não fala ganha vida “na sua cara”

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Berlin Wall East Side Gallery

Quando eu era criança, acredito que por volta dos oito anos, um dia a professora, uma freira, me chamou diante da turma na Escola São Vicente de Paulo e perguntou o que mais gosto de fazer:

— Gosto de escrever.
— O que você escreve, David?
— Histórias…
— Que tipo de histórias?
— Das coisas que vejo na rua, na “cara das pessoas”…
— Como assim na “cara das pessoas”?
— É que a “cara das pessoas” é feita de histórias.
— De que tipo?
— Do tipo que elas não querem contar. Então eu imagino o que é e escrevo…
— Mas isso não é ser mentiroso?
— Não…
— Me explique melhor…
— Se você prestar atenção, muitas vezes a “cara das pessoas” diz aquilo que elas não querem contar.
— E o que elas não querem contar?
— Acho que muita coisa. Meu avô fala que trazemos “na cara” as histórias que não contamos.
— E o que isso significa pra você?
— Que tudo que você não fala ganha vida “na sua cara”.

 

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Written by David Arioch

May 14th, 2017 at 11:08 pm

Eu e Má (minha mãe)

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Acredito que as minhas melhores qualidades vêm dela

Eu e Má (minha mãe), sempre tivemos um relacionamento muito próximo. Acredito que as minhas melhores qualidades vêm dela. Quando meu pai faleceu em 1997, e eu e meus irmãos éramos praticamente crianças (o Juninho então era um bebê – tinha um ano), ela assumiu a responsabilidade de criar os três filhos sozinha. Antes, ela já havia criado suas duas irmãs.

Acredito que se escrevo hoje em dia, também devo isso à minha mãe, porque ninguém me incentivou mais a escrever do que ela. Sempre achei meu trabalho razoável ou simplesmente aceitável, e ela, que lê tudo que escrevo, sempre fez questão de dizer que não, que não existe nada de ordinário no que faço, e que devo sempre seguir em frente independente do que os outros pensem ou digam.

Written by David Arioch

May 14th, 2017 at 10:55 pm

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O gato que caiu no quintal

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De repente, um gato saltou o muro e caiu na minha frente (Foto: Reprodução)

De vez em quando, deito no quintal, sentindo a brisa no rosto, na barba; e reflito um pouco. Hoje, enquanto me distraía com algumas ideias, ouvi um barulho estranho entre os arbustos do quintal vizinho. De repente, um gato saltou o muro e caiu na minha frente, quase entre as minhas pernas. Sem que eu pudesse entender o que estava acontecendo, o bichano veio para cima de mim.

Me afastei, e ele continuou mostrando as garras, um olhar cabuloso e nada amistoso. Mesmo parecendo tão pequeno diante de mim, o gato insistiu em me cercar.

— Que mal pode acontecer? É só um gato pequeno – inferi.

Mas aquele gato pequeno saltou em minha direção e, se eu não o tivesse segurado no ar, talvez tivesse até mesmo furado um dos meus olhos. Enquanto se debatia, ele tentava atingir ou puxar a minha barba de alguma forma. Tudo bem. O mantive à distância segura do meu rosto e caminhei até a casa vizinha.

— Este gato é da senhorita? Ele pulou no quintal de casa – expliquei, o entregando nas mãos da vizinha.

— É sim. Me desculpe pelo transtorno, ela está assim porque doamos um dos gatinhos que nasceu há algumas semanas.

— Ah, entendi. Não tem problema — comentei sem graça.

A moça não conseguiu velar a vontade de rir. Constrangido, me despedi, ela agradeceu, e caminhei de volta para casa. A primeira coisa que fiz foi entrar no banheiro. Me observei no espelho e tentei entender como a minha barba parece um filhote de gata.

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Written by David Arioch

May 14th, 2017 at 10:32 pm

Não acredito que uma pessoa escreva sem pretensão

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Não acredito quando alguém diz que escreveu algo apenas para si mesmo (a não ser que seja um diário)

Não acredito que uma pessoa escreva sem pretensão de que alguém leia, ou sem pretensão de despertar algo. Mesmo um sujeito que escreve alguma coisa, e esconde dentro de uma gaveta, busca apenas um motivo para mostrar o que produziu. Senão bastaria jogar fora sem o menor remorso. Não acredito quando alguém diz que escreveu algo apenas para si mesmo (a não ser que seja um diário). Ou que não faz diferença se ninguém vai ler. No fundo ou na superfície, quem escreve quer ser lido.





Written by David Arioch

May 14th, 2017 at 10:22 pm

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