David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Vegetarianismo/Veganismo’ Category

De que adianta criticar a Bancada Ruralista enquanto você a financia?

without comments

Foto: TV Tribuna/Reprodução

De que adianta uma pessoa criticar as mazelas da Bancada Ruralista e neste momento, diante da situação dos mais de 25 mil bois sofrendo em Santos, simplesmente não se importar? De que adianta você apontar o dedo para ruralistas que exploram mão de obra barata, humana e não humana, se você consome os produtos deles, logo financia o jogo político deles.

Você já pensou que esses caras que comandam a política brasileira, e não abrem espaço para o verdadeiro exercício da democracia, costumam injetar muita grana em suas campanhas, certo? E de onde você acha que vem esse dinheiro? Costumeiramente, de produtos que eles vendem e que compramos na nossa inocência ou ignorância. E muitos desses produtos já foram vidas. Ou seja, animais.

Então, sim, consumir produtos de origem animal muitas vezes significa de fato um aval para que esses sujeitos continuem se perpetuando no poder. Que tal começar a boicotar esses caras? Não apenas politicamente, mas economicamente. Se informe, não seja ignorante. É preciso fazer um mapeamento idôneo a respeito da vinculação econômica desses políticos.

Quais entidades e empresas eles representam ou possuem, de fato; que tipo de produto eles comercializam, entre outras coisas. Esse tipo de informação precisa ser disseminada com urgência. Necessitamos de um trabalho de boicote em proporções jamais vistas antes.





 

Um vegano subnutrido

without comments

Eu hoje de manhã, um vegano subnutrido. Atualmente estou em fase de queima de graxa, o que significa que estou seguindo uma dieta hipocalórica. Nessa fase, ao contrário do que muitos pensam, não corto carbos, apenas diminuo volumes e quantidade de refeições. Passo a fazer quatro refeições em vez de cinco ou seis. E mantenho um jejum de no mínimo 12 horas diárias. Ah, mas como você consegue perder gordura sendo vegano, já que vegano parece que só come carbo?

Não, isso não é verdade, basta consumir na proporção adequada ao seu peso corporal, e claro, sem negligenciar proteínas e lipídios. Proteínas vegetais? Sim, isso mesmo, nada de origem animal! Você está perdendo peso? Sim, claro, não há como queimar graxa sem perder peso. Não existe isso de substituir gordura por músculo, então é normal que as pessoas notem isso, principalmente no meu caso que não uso esteroides. Você faz aeróbico? Não, não tenho feito nenhum, só musculação.

Você está perdendo gordura em quais partes do corpo? Nele todo. Nosso organismo não escolhe onde queimar gordura, então isso acontece de forma geral. Por isso não acredito na tal da perda de gordura localizada de forma natural. E como você se alimenta? Todas as minhas refeições atualmente têm carbos e proteínas, e em alguns momentos do dia boas fontes de gorduras/lipídios. Você se sente menos disposto nessa fase?

Não, mas como estou comendo bem menos normalmente sou mais cuidadoso no treino porque o risco de lesões pode aumentar nessa fase hipocalórica, então não é bom forçar muito as articulações. Porém, sinto sim um pouquinho de perda de força, o que é natural em decorrência da alimentação. Mas nada que me incomode. Você está usando algum termogênico? Não, nada.

Minha base é só alimentação e treino. E meu treino é praticamente o mesmo também. Minha prioridade é a exaustão. Mesmo sendo vegano e não usando qualquer e esteroide ou recurso farmacológico, não vejo impossibilidade em alcançar qualquer objetivo em relação a isso. Tenho vontade o suficiente, e isso me basta, independente do que os outros pensam.

A passionalidade e a autoridade na crítica à exploração animal

without comments

Normalmente não é fácil para um vegetariano ou vegano lidar com situações em que as pessoas realmente demonstram pouco interesse em mudar seus hábitos que envolvem a exploração de animais (Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals)

Normalmente não é fácil para um vegetariano ou vegano lidar com situações em que as pessoas realmente demonstram pouco interesse em mudar seus hábitos que envolvem a exploração de animais. Até mesmo simples atos como o de socializar podem parecer não tão auspiciosos quando você sabe que terá de testemunhar pessoas consumindo alimentos que até pouco tempo atrás eram partes de um animal que caminhava, respirava, se alimentava e dormia – e até mais relevante do que isso, tinha sentimentos, anseio de não morrer precocemente.

Realmente não é fácil reconhecer que existe uma desarmonia entre o que você deseja para o mundo e o que o outro deseja, quando este não considera, de fato, que os animais não merecem morrer para serem reduzidos a alimentos e outros produtos. Claro, alguém pode dizer: “Tenho dó dos animais”. Mas se essa pessoa se alimenta deles, há uma evidente inconsonância entre o que ela pensa e faz.

Então para não refletir a respeito de algo que não lhes agrada é comum as pessoas recorrerem aos mais diferentes tipos de escusas e camuflagens da realidade. Sem dúvida, isso conta com o grande contributo da indústria que oferece todo o suporte necessário nessa jornada que perpetua a desconsideração à contumaz coisificação ou objetificação animal. Quero dizer, a indústria te ajudar a não se preocupar com os animais, porque ela te diz o que deve ser considerado e desconsiderado. E isso acontece de forma muito simples – trabalhando e perpetuando a crença de que o “benefício vale o sacrifício”.

Isso é parte majoritária da realidade em que vivemos, historicamente e culturalmente. Por mais que a indústria que comercializa produtos de origem animal venda ilusões, produtos imersos em realidades (des)conhecidas e negligenciadas que proporcionam prazeres efêmeros, as pessoas, principalmente adultos, compram essa ideia porque elas não apenas aceitam essa ilusão como a aprovam e a apreciam. Afinal, foram criadas nesse contexto.

Sim, a maioria dos adultos sabe que ninguém, nem mesmo um animal não humano, morre feliz por uma intervenção alheia à sua própria vontade, mas se as pessoas acreditam que uma morte não foi tão dolorosa há uma tendência ádvena de crer que “os fins justificam os meios”. E quando lidamos com essa consciência, acredito, e aqui simplesmente expresso a minha opinião, que a passionalidade e o exercício de autoridade podem dificultar ou até minar a conscientização quando não pesamos nossos discursos e ações.

De fato, a humanidade é despótica com os animais não humanos. Seria muito melhor se as pessoas entendessem que se alimentar de criaturas sencientes é sempre resultado de uma imposição legitimada, de uma ausência de escolha que não oferecemos ao outro por considerá-lo inferior e submetê-lo ao nosso jugo constante. Porém, tenho a consciência de que se tenho uma perspectiva vegana em relação ao valor da vida animal, não posso rejeitar o fato de que muitos outros não a têm, e esses outros são a maioria; e é com esses que devo dialogar caso eu queira uma mudança realmente significativa.

Nenhuma transformação coletiva, por mais claros que sejam seus benefícios, é alcançada sem que para isso seja necessário mudar a mente das pessoas. Por isso, defendo a posição de que compartilhar sensibilidade, conhecimento e argumentar de forma ponderada sobre a exploração animal, sem os arroubos negativos da passionalidade, é o melhor caminho. Até mesmo diante de piadinhas infames, quando alguém age de forma a subverter a expectativa do interlocutor, o surpreendendo ao não reagir em nível equiparável de vazia provocação, há uma maior possibilidade de consideração em relação ao que foi expressado. Ou será que ser ofensivo seja melhor? Não creio.

Quando falamos com alguém sobre a exploração animal, talvez seja interessante conjecturar previamente a reação do outro. Uma reflexão que considero válida é a seguinte: “Se alguém estivesse falando comigo dessa forma, e eu não tivesse a consciência que tenho, será que eu refletiria sobre isso?” A transformação depende dos meios que usamos para alcançar a consciência do outro, e se isso é eficaz. Não importa se tenho a maior vontade do mundo em relação à libertação dos não humanos explorados e reduzidos a alimentos e outros produtos, porque não é unicamente dessa vontade que depende a conscientização humana em relação à exploração animal.

Acredito que preciso sempre ter em mente que se a minha intenção é conscientizar ou sensibilizar quem não vê nada de errado com a exploração animal, devo mostrar um caminho que o leve a aquiescer, a entender por que é importante a abstenção de alimentos e produtos de origem animal. E esse caminho é variável, porque seres humanos não são sensibilizados ou conscientizados pelos mesmos motivos. Até porque pessoas têm suas individualidades, bagagens culturais, histórias de vida, e predisposição ou não a enxergarem os animais como sujeitos de uma vida.

Por tais razões, acho importante ser prudente, provocativo em algumas circunstâncias específicas, porém não ofensivo; o que significa que demando constante controle sobre a passionalidade, os meus impulsos, não permitindo que tenham controle sobre mim. É fácil? Não, porque tudo que diz respeito aos animais objetificados e à nossa impossibilidade de garantirmos que eles vivam sem sofrimento nos toca à sensibilidade e evidencia a nossa impotência em níveis diversos.

No entanto, vale a pena ofender pessoas ou usar termos que façam com que acreditem que há um mundo segregado entre veganos e vegetarianos e não veganos e não vegetarianos? Como isso pode estimulá-las à reflexão? Claro que seres humanos estão em níveis dissemelhantes ou díspares de conscientização, sensibilidade e renúncia, o que significa que há muito a ser estudado e trabalhado. Também reconheço que nem sempre nossas palavras, por melhores que sejam ou mais bem fundamentadas, vão promover qualquer mudança. Mas creio que menos ainda colherão bons resultados aquelas que, como em um exercício de autoridade, estão carregadas de ofensas e vulnerabilidade; e fragilizadas em seus próprios argumentos. Afinal, derramar-se em emoção também pode ser uma forma de negar-se à razão.





 

“Se ele busca uma vida boa, de forma séria e sincera, a primeira coisa de que o homem se absterá será sempre o consumo de alimentos de origem animal”

without comments

“Se ele busca uma vida boa, de forma séria e sincera, a primeira coisa de que o homem se absterá será sempre o consumo de alimentos de origem animal, porque, sem falar no estímulo às paixões provocado por esse tipo de alimento, seu consumo é verdadeiramente imoral, já que exige um ato contrário ao nosso senso moral; o assassinato, provocado apenas pela avareza e pelo desejo de gulodices.”

Tolstói em “O Primeiro Passo”, publicado em 1892.

Written by David Arioch

February 2nd, 2018 at 12:01 am

“Eu Não Como Ninguém!”, o primeiro livro de receitas vegetarianas publicado na Rússia em 1913

without comments

“Eu Não Como Ninguém!”, primeiro livro de receitas vegetarianas publicado na Rússia em 1913 por Olga Zelenkova. Proibido durante o regime soviético e relançado em 1991, o livro reúne 1,5 mil receitas. A segunda versão traz também artigos publicados em jornais e assinados por Liev Tolstói, Aleksandr Zelenkov, Aleksandr Iasinovski e Natalia Nordman-Severova.





 

Andrey Beketov e a abstenção do consumo de animais

without comments

Beketov publicou o livro “A Dieta Humana no Presente e no Futuro” em 1891

Em 1891, o cientista russo e reitor da Universidade de São Petersburgo Andrey Beketov publicou o livro “A Dieta Humana no Presente e no Futuro”. Na obra, ele apresenta razões morais e psicológicas sobre o porquê seres humanos na sua progressão de um estado primitivo para um estado verdadeiramente civilizado devem se abster do consumo de animais.





 

Written by David Arioch

February 1st, 2018 at 5:39 pm

Chertkov: “A matança de animais não é mais uma forma natural de luta pela existência”

without comments

Chertkov por Ilya Repin

Em 1890, Vladimir Chertkov publicou um panfleto intitulado “Um Passatempo Maligno: Reflexões Sobre a Caça”. Chertkov argumenta que não é mais necessário, em termos de evolução, o ser humano ter que matar animais para se alimentar. “A matança de animais não é mais uma forma natural de luta pela existência, mas sim um retorno voluntário a um estado primitivo e bestial.” Segundo Chertkov, a caça instiga no ser humano civilizado instintos animais que a consciência humana superou há muito tempo.





 

Written by David Arioch

February 1st, 2018 at 5:35 pm

“Se a sua alimentação é vegetariana ou vegana, que seja, isso significa que você contribui para a destruição das plantas, cara!”

without comments

Arte: Did U Know Site

— Se a sua alimentação é vegetariana ou vegana, que seja, isso significa que você contribui para a destruição das plantas, cara! Eu pelo menos estou comendo só carne.

— Bom, vamos analisar com cuidado o que você disse. O impacto do consumo de vegetais é evidentemente menor do que o de consumo de alimentos de origem animal por um fator bem simples, e não é preciso citar nenhum dado específico. Enquanto eu me alimento diretamente de vegetais, você, que acabou de afirmar que não consome vegetais, o que acho pouco provável, se alimenta de animais que foram nutridos com vegetais. Sendo assim, em linhas gerais, não há como o seu impacto na natureza ser menor que o meu. Até porque sua alimentação depende essencialmente dessa “ponte nutricional”. Não desconsidere o fato de que bovinos são animais herbívoros. Agora vamos partir para uma outra reflexão. Um boi consome em média 14 quilos de comida e 60 litros de água por dia. Sinceramente? Não creio que estou em condições de competir com a “alimentação vegetariana” de um boi que vai servir de alimento para você e para outras pessoas. Então quando você diz que ‘destruo as plantas”, creio que há um equívoco aí, porque além do sofrimento desnecessário que o consumo de carne impõe aos animais, já que não há carne sem privação e morte, os seus hábitos demandam maior quantidade de vegetais no processo que principia com a produção e culmina no consumo. Logo, naturalmente, uma “destruição” muito superior de plantas.





 

Fazenda Tolstói em Joanesburgo

without comments

Foto: Tolstoy Farm

Quem for a Joanesburgo, na África do Sul, pode visitar a Fazenda Tolstói, fundada em 1910 por Mahatma Gandhi e Hermann Kallenbach. O espaço aberto à visitação era uma comunidade com fins educacionais e sociais, onde se difundia valores morais que incluíam a não violência, a importância da vida independente de espécie e o vegetarianismo.

Tolstói e Gandhi

without comments

Na foto inferior, Gandhi aparece na Fazenda Tolstói (Acervo: Tolstoy Farm)

Pouco tempo antes de falecer, Tolstói disse que preferia mais ser celebrado por suas obras voltadas à sua filosofia de vida e filosofia moral, o que incluía a sua defesa do vegetarianismo, do que pelos seus romances. Claro que o alcance de seu trabalho como romancista o levou muito mais longe em popularidade, mas de alguma forma a sua filosofia teve um impacto muito significativo. Exemplos?

“O Primeiro Passo”, de 1892, que deu origem às bases do vegetarianismo ético russo e a sua obra “O Reino de Deus está em vós”, de 1894, que traz uma abordagem espiritual não dogmática e que teve grande influência sobre a juventude de Gandhi, tanto que depois ele fundou nas imediações de Joanesburgo, na África do Sul, a Fazenda Tolstói. Gandhi, que foi influenciado pelos ensaios de não violência de Tolstói, que incluía animais humanos e não humanos, se considerava um tolstoiano. Esse é um dos assuntos que faz parte do meu longo artigo sobre a história de Tolstói com o vegetarianismo.