David Arioch – Jornalismo Cultural

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Reminiscências de um suicida

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As imagens persistem como se a altivez da morte me espreitasse a vida mais do que nunca

"Sinto-me como a tela de uma arte despojada de seus valores morbidamente conceituais" (Pintura: Rudolf Brink)

“Sinto-me como a tela de uma arte despojada de seus valores morbidamente conceituais” (Pintura: Rudolf Brink)

As reminiscências ecoam na minha mente como bruscos flashes do que vivi. Lembro dos momentos de corriqueira harmonia, mas que me foram plenos como o infinito. Os cães correndo pela casa ao encontro de um abraço humano amortecido por pelos grossos e brancos. O aroma vindo da cozinha e deslizando como ondas radiantes ao encontro de minhas narinas que o absorviam com um suave suspiro a olhos fechados.

Sinto como se fosse hoje os dissabores das discussões durante as viagens, mas que sempre terminavam num resplandecente ar de calmaria e reflexão. Época em que os sorrisos eram mais preciosos que a matéria-prima de qualquer ourivesaria. Ao momento que a representação dos sons, imagens e fragrâncias vão me confortando, sinto a pontada que me sorve a existência. Minhas têmporas dilatam a cada imagem do passado, como se a dor rogasse pelas simples, mas representativas alegrias.

Percebo meus lábios secos que um dia já foram úmidos e corados como morangos frescos e silvestres. O abstêmio azedo em minha boca sorvendo um entorpecente filete de sangue. Sangue formador de pequenos traços que fomentam uma abstração do vermelho; obra de fazer inveja a Tristan Tzara. Decidido por uma ignóbil saída, abracei as mãos da finitude, esta que me fora apresentada como um doce caminho percorrido por quem tropeçou no abismo das inverdades.

A pólvora fora uma das grandes invenções da humanidade, e talvez sem a qual eu não tivesse decidido por evitar o futuro da lúdica realidade. A bala que se aloja em minha cabeça gera aflição enquanto forma uma pequena cascata à sua volta. O sangue derrama-se como uma pequenina bica de mina ao mesmo tempo em que se confunde com as inquilinas lágrimas de meus olhos. Como a relação do pequeno riacho com a sua nascente (essa que preconiza o fim das ilusões em chão). O salgado orvalho transparente em ablução com o doce vermelho (segundo os falsos princípios da vida).

Apresento-me imóvel e relativamente lúcido a derrocada do meu mundo paralelo, ao tempo que pressinto a lugubridade do meu final se aproximando da emancipação da carne. As imagens persistem em meu espólio mental como se a altivez da morte me espreitasse a vida mais do que nunca. Sinto-me como a tela de uma arte despojada de seus valores morbidamente conceituais.

O universo paradoxal me deixa a melindrar entre o falso puritanismo e a misantropia, como se a minha existência fosse desvanecendo numa macabra, mas pueril e complacente liturgia. Tornei-me um todo poderoso, senhor da própria morte, que antes do meu último suspiro deixei levar com o sangue toda uma enganosa virtuosidade ideológica. Mas, previamente ao mortiço, antes do meu consciente estardalhaço, consenti uma reflexão que me acalmou as células, o fato de que o mundo em que vivi era tanto de Odin como de Fenrir.

A crônica acima, a minha primeira publicada em um jornal, foi escrita em 2004.

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Written by David Arioch

August 15th, 2015 at 6:45 pm

Quando Alex Kidd nos inspirou a viver

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“Por um momento, quis ser admirado por explodir tijolos e saltar sobre balões vermelhos”

"Pensamos em prender Pozinho no guarda-roupa para jogarmos Alex Kidd por algumas horas" (Foto: Reprodução)

“Pensei em prendermos Pozinho no guarda-roupa para jogarmos Alex Kidd por algumas horas” (Foto: Reprodução)

A primeira vez que joguei videogame foi em 1988, quando meus pais trouxeram para casa um Atari 2600. O ligávamos em uma TV com caixa de madeira de 21 polegadas. Eu achava o controle engraçado porque me lembrava o estribo de uma bicicleta na posição vertical. No dia do teste, minha empolgação era tão grande que eu não conseguia parar de sorrir. Parecia o Animal do desenho animado Muppet Babies. Também tive uma repentina crise de comichão que só desapareceu depois de 30 minutos jogando Enduro. Para mim, aqueles carrinhos que mais se assemelhavam com aranhas deformadas representavam a mais fidedigna perfeição. “Olha, Douglas! Legal demais, né? Tem até disputa na neve”, comentava com meu irmão mais velho.

Depois de Enduro, conhecemos uma infinidade de outros jogos, como River Raid, H.E.R.O, Keystone Kapers, Space Invaders, Pac-Man, Pitfall, Boxing, Ice Hockey, Freeway, Sneak ‘n Peek, Spider-Man, Adventure, Donkey Kong, Skiing e Mario Bros. O que facilitava o acesso eram os cartuchos multijogos. A maior diferença de se jogar Atari quando o videogame ainda estava no auge era a oportunidade de ver as reações de crianças, adolescentes e adultos. Não era difícil testemunhar pessoas chorando de alegria ao jogar pela primeira vez. O videogame também funcionava como um tipo peculiar de “medidor de solidariedade”. Ou seja, você podia perceber facilmente quem eram seus amigos, colegas e conhecidos mais egoístas. Alguns chegavam a chamar vizinhos apenas para assistir aos jogos, sem oferecer qualquer possibilidade dos convidados encostarem as mãos em um controle.

Participei de um episódio assim na casa do garoto mais rico do meu bairro em 1989. Detentor de um Master System novinho, ele fez questão de chamar a minha atenção e a de mais outras seis crianças. Na tarde daquele dia, brincávamos de esconde-esconde nas imediações de um terreno baldio perto da minha casa, na Rua Pernambuco, em Paranavaí. “Olha, meu pai trouxe pra mim dos Estados Unidos o melhor videogame do mundo. É um Master System. Hum…aposto que nunca ouviram falar dele, né? É muito, muito melhor do que o seu Atari. Quem quiser pode ir lá em casa daqui meia hora que vou mostrar como ele é perfeito”, disse o menino. Imediatamente, sem se despedir, virou as costas e foi embora.

Na hora, nem me importei com o tratamento dado pelo garoto. Ignorei a sua altivez, arrogância e pedantismo. Me preocupei apenas com as palavras Master System. A princípio, o resto foi descartado como se eu jamais tivesse ouvido qualquer outra frase saída de sua boca descarnada. Aquele nome mexeu tanto com a nossa imaginação que paramos de brincar de esconde-esconde. Sentamos no meio-fio e comentei em tom de contemplação: “Master System parece um nome bonito, né? Maaa…sss…teer…Syyysss….teeem. Aaaah, mas será que existe coisa melhor que Atari? Atari é Atari!” Na nossa turma de jovens de quatro a sete anos, todo mundo concordou. Alguns balançaram a cabeça e outros emitiram apenas um monossilábico “aham” seguido por risos. Chegada a hora, fomos até a casa do “Pozinho”, um apelido oculto que atribuímos àquele garoto que vivia no palacete branco da esquina. Como passamos boa parte da tarde brincando de esconde-esconde, escalando árvores e atirando com pistolas de água, não estávamos bem limpos.

Quando chegamos à esquina, do alto de seu quarto, contíguo a uma sacada romanesca, Pozinho nos observou com um olhar displicente e sobranceiro. Talvez nos enxergasse como formigas obreiras que estavam ali para cultuá-lo, levá-lo ao êxtase com nossa inferioridade reafirmada na falta de acesso a um videogame, um objeto de desejo recém-despertado em nós por ele mesmo, na gana de tentar ferir nossos sentimentos. Sim, lá em cima estava uma criança de seis anos, mas com anseios perniciosos tão sobressaltados que despertava admiração até em adolescentes celerados. Assim que Pozinho se afastou da janela, fiquei na ponta dos pés para acionar o interfone. Martinha, uma senhora negra, alta, simpática e de pele reluzente que trabalhava como empregada doméstica na casa há mais de 20 anos, destravou o portão. Quando coloquei meus pés sobre um tapete felpudo dourado que ornava o antepasso da sala, percebi como meu tênis chinesinho branco estava demasiado sujo.

Os cadarços encardidos me deixaram constrangido ao ver tudo brilhando no interior daquele cômodo. Um aroma suave e cítrico, simbolizando a mais devotada das limpezas domésticas, amplificava o meu pré-remorso. “Que vergonha! Ela limpou aqui agora”, pensei comigo mesmo. No canto, um vaso grande com lírios-da-paz, uma das plantas preferidas da minha mãe, realçava ainda mais o perfume do ambiente. Ao ver minha hesitação, Martinha disse que não tinha problema nenhum. “Entre, menino! Não vão ser seus pés miúdos e menores que a palma da minha mão que vão atrapalhar o meu trabalho. Pode ficar sossegado!”, garantiu ela com um sorriso tão confortável que fez sucumbir o meu mal-estar.  Na mesma esteira, seguiram-me as outras crianças. Martinha então nos levou até o quarto de jogos do Pozinho, situado no terceiro piso.

Éramos como os sete anões seguindo os comandos de Martinha, a nossa laboriosa Branca de Neve nos guiando aos aposentos da Rainha Grimhilde. Antes de abrir a porta e se despedir, ela recomendou que ignorássemos o jeito grosseiro e a metidez do juvenil patrão. Assim que entramos, Pozinho nos deu uma olhadela e comentou: “Todos vocês vieram? Certo! Só não fiquem muito perto de mim nem da TV porque preciso de espaço pra me concentrar.” Olhamos uns aos outros e seguramos o riso com as mãos, ignorando nossas unhas com resíduos de terra e de cascas de árvore. Sem perceber nossa reação, o garoto ligou o videogame e se acomodou em uma confortável poltrona inclinável que trazia uma etiqueta com a bandeira dos Estados Unidos. Ao alcance de sua mão direita, havia uma bandeja com Dadinho, Ice Pop, balas Fizz, pirulitos do Zorro, 7 Up e Sukita.

Ensaiando uma centelha de educação, sugeriu que sentássemos onde quiséssemos. Não havia lugar para todo mundo, então fomos todos para o chão. Em poucos minutos, nos mostrou Alex Kidd, um jogo de plataforma em que um garoto orelhudo destrói pedras com os punhos. Nossos olhos brilhavam ao ver tantas cores em um game. O que era aquilo? Quem era aquele herói cabeçudo serpenteando por bosques e cavernas? Pensei que estivesse sonhando. Quis morar naquele quarto para sempre. Não! Por um momento, quis viver dentro do jogo, sendo admirado por explodir tijolos e saltar sobre balões vermelhos. Como o jogo estava em inglês, Pozinho fez questão de dizer sem base alguma que ele entendia tudo e nós não entendíamos nada.

O ignoramos e trocamos olhares maliciosos. Nos comunicamos muito bem sem precisar abrir a boca. Havia um desejo unânime, não verbalizado, de tapar a boca de Pozinho com esparadrapo e trancá-lo dentro do guarda-roupa. Jogaríamos Alex Kidd por algumas horas e então o soltaríamos. Sim, na teoria parecia plausível. Só que a realidade era muito diferente. Não tínhamos coragem, nem achávamos aceitável fazer algo assim. Fabiano e Mariana, dois da nossa turma, não resistiram, se levantaram e pediram para jogar. Pozinho desdenhosamente declinou a proposta com um olhar de desprezo seguido por uma careta de nojo. A negativa os emocionou sobremaneira que ao longe se podia notar a transparência e o aspecto orvalhado de seus olhos. “Rá! Até parece! Chamei aqui só pra vocês passarem vontade mesmo. Agora podem sair daqui. Tchau!”, declarou sem velar o sorriso sardônico e a intenção capciosa.

Nos levantamos, abrimos a porta e descemos os degraus. Olhei para trás e mais uma vez ele estava nos observando. Se regozijava com a nossa pequenez, já que a sua anormal baixa estatura para alguém de seis anos não permitia tal comportamento tão empertigado quando estávamos de pé diante dele e sobre o mesmo piso. Para quebrantar sua satisfação, acenei, sorri e agradeci o convite. Lá embaixo, a iluminada Martinha nos aguardava com doces e refrigerantes. “Olha o que separei pra vocês. Coloquem em seus bolsos ou escondam em suas roupas e vão com Deus”, sugeriu numa despedida afetuosa. De volta ao meio-fio, entre goles de Soda Limonada, dividimos sorvete fura bolo, arrozinho em flocos, azedinho de morango e balas. Ao escurecer, fomos para casa. No dia seguinte, eu soube que três amigos adoeceram de tanta vontade de jogar Alex Kidd no Master System. Ficaram febris e passaram dias sem consumir alimento sólido.

Irritado, me senti tentado a retornar à casa de Pozinho para destruir o seu videogame a marteladas. Consegui me controlar e também evitei de contar a algum adulto o que aconteceu. Ninguém da nossa turma relatou nada. Uma semana depois, já não nos importávamos muito com o Master System. Continuamos jogando Atari, realizando pequenos torneios de jogos de corrida e luta. Quando enjoávamos, saíamos para escalar árvores, colher frutas ou brincar de esconde-esconde, pega-pega e “balança, caixão”. Em frente à Sanepar, subíamos em um muro alto que permitia uma visão privilegiada da baixada do Jardim Paulista, onde mais tarde desceríamos com carrinhos de rolimã.

Azul e límpido ou enuviado e chovediço, o céu nunca nos mostrou limites, assim como as sibipirunas, os ipês, as sete-copas e os jamelões que se refaziam conforme as estações do ano. Os muros e as escadas cada vez maiores também reconduziam nossas aventuras. As novas construções instigavam nossas visitas tanto quanto as casas e os barracões abandonados. Cães de diversos tamanhos ainda nos perseguiam, não por maldade, mas porque no dia a dia eles eram personagens dos jogos de plataforma que eram nossas vidas. No final de 1989, Pozinho ainda me observava ao longe. Tentando me provocar, um dia balançou o controle retangular do Master System para fora da sacada do seu quarto. O cumprimentei e sorri brevemente. Não, não quis ser irônico. Senti pena e compaixão ao ter certeza de que enquanto ele simulava ser um personagem aventureiro de um videogame, nós éramos felizes por sermos os Alex Kidd do mundo real.

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A minha primeira vez no caldeirão do inferno

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Imaginei o mais tenebroso e abissal dos cenários, com chamas flamejantes ao fundo

Meu irmão e eu no interior do caldeirão do inferno (Foto: Arquivo Pessoal)

Meu irmão e eu no interior do caldeirão do inferno (Foto: Arquivo Pessoal)

Meu pai gostava muito de viajar. Depois que se aposentou então a frequência aumentou consideravelmente. Às vezes, levantava de madrugada e acordava todo mundo. Pedia para arrumar as malas e avisava que partiríamos em uma hora. Era divertido viajar sem planejamento, até porque quando ele avisava com bastante antecedência eu e meu irmão Douglas ficávamos agitados e ansiosos. Ou seja, não dormíamos.

Amante da cultura paranaense, meu pai tinha predileção por mostrar como o estado onde nascemos possui muitas riquezas que passam despercebidas por tanta gente. Foi assim que conheci o Paraná de Norte a Sul quando criança. Ele enaltecia a simplicidade, as coisas da terra e o teor sereno das pessoas do campo, dos vilarejos e das pequenas formações citadinas, lugares alheios ao tempo, onde tudo parecia transcorrer sem pressa. No caminho, cantávamos canções escoteiras como “A Velha A Fiar”, “A Árvore da Montanha” e “La Bela Polenta”. Meu pai dirigia com tranquilidade enquanto desafiava eu e meu irmão a ler primeiro o que estava escrito nas placas, outdoors e letreiros que encontrávamos em cada trajeto.

Curioso, eu tentava observar tudo à minha volta, mas ocasionalmente sentia náuseas. Em algumas situações consegui evitar o pior ao abrir a janela, colocar o rosto para fora, fechar os olhos e absorver o aroma da relva amplificado pelo vento. Quando não resolvia, o jeito era parar o carro. Eu descia pálido e estonteado. Assim que vomitava, me sentia revigorado em poucos minutos. Percebia até a temperatura corporal retornando ao estado normal. Para me animar, meu pai e minha mãe contavam histórias dos lugares por onde passávamos, o que me fazia sonhar acordado, imerso num universo pessoal mais próximo da fantasia do que da realidade.

Na minha primeira visita as Furnas, no Parque Estadual de Vila Velha, em Ponta Grossa, eu tinha nove anos quando me disseram que iríamos aos “caldeirões do inferno”. Criança que era, e com uma perspectiva de desenho animado, imaginei o mais tenebroso e abissal dos cenários, com chamas flamejantes ao fundo, onde o diabo aguardava um deslize para arrastar crianças desobedientes até as profundezas do desconhecido. Sem dizer nada a ninguém, comecei a pensar em tudo que fiz de ruim naquele ano e me perguntei: “Será? Será que existe algum motivo pra eu ir pro inferno agora que ele tá tão perto de mim?”

Logo lembrei das vezes em que fiquei de castigo na escola por mau comportamento, do dia em que não obedeci minha mãe e tomei banho de chuva. Claro, também de quando comi escondido doces que não eram meus. “Será que o capeta sabe que peguei umas figurinhas do álbum do Campeonato Brasileiro do meu irmão? E aquele dia que faltei na catequese? Tô lascado se hoje for o dia do acerto de contas”, refleti enquanto sentia um gosto de fel na ponta da língua.

Quando entrei receoso, e a passos leves e curtos no elevador panorâmico da Furna 1, percebi uma abrupta revoada de morcegos. Ouvi um guia contando a um visitante que um dia uma noiva cometeu suicídio, saltando lá de cima. Eu que pouco entendia sobre o significado da morte me recordei de um episódio da série Contos da Cripta que assisti escondido dos meus pais. Pensei na possibilidade da mulher reaparecer por aquelas bandas, quem sabe até emergindo das águas caliginosas da lagoa para me levar com ela a contragosto. Pelo menos fiquei mais aliviado quando vi de longe que não havia fogo nem diabo.

Conforme o elevador descia, me senti mais minúsculo e curioso diante daquela enorme e profunda cratera onde uma vegetação primitiva e predominantemente rasteira adornava o cenário. Notei também no entorno algumas lâminas rochosas pontiagudas e assimilei com a matéria-prima do caricato tridente do capeta. Lá embaixo, caminhei sobre a plataforma de madeira, tentando identificar o que havia sob a água. Divaguei, aventando a possibilidade da Furna abrigar algum animal tipo o Monstro do Lago Ness. “E se isso aqui quebrar e a gente cair na lagoa?”, uma reflexão constante cada vez que eu observava a pequena distância entre as águas turvas e os meus pés.

Meu pai se aproximou e disse que o local era território de peixes cegos e albinos, então imaginei como seria viver em um ambiente como aquele – um mundo pequeno e escuro, uma masmorra fluvial, onde animais eram punidos por motivos secretos, condenados à infelicidade até os seus últimos dias. Não! Eu poderia estar errado. Por que pensar no pior? Talvez existissem muitas belezas no fundo daquele caldeirão, coisas tão belas que jamais poderiam ser vistas, mas apenas ouvidas e sentidas, aguçando somente a imaginação. Quem garante que o meu mundo não poderia ser mais limitado do que o deles?

Naquela época, eu tinha lido “Vinte Mil Léguas Submarinas”, de Júlio Verne, o que me influenciou a julgar num rompante de ingenuidade e pessoalidade que houvesse uma maneira de saber se aqueles peixes que viviam nas Furnas eram felizes. Me agachei vagarosamente e com muito esforço fiz um círculo na água com o miúdo dedo indicador da mão direita, o suficiente para emitir uma vibração diferente daquela com a qual os animais da Furna 1 estavam acostumados. Menos de um minuto depois, três peixes pequenos se aproximaram da superfície. Após o contato de breves segundos, mergulharam nas profundezas, numa sequência que parecia ensaiada.

Para qualquer outra pessoa quem sabe não significasse nada, mas pra mim, no meu universo peculiar de criança com nove anos, era um sinal de que a vida naquele lugar não era hostil. Interpretei que aqueles peixes ainda não tinham motivos para desgostarem do ser humano, ainda um visitante, não um invasor. “É, acho que ainda são felizes”, concluí com um sorriso enviesado e a fé cândida de que aquele lugar que me pareceu tão aterrorizante em um primeiro momento era belo, harmonioso, justo e cabalístico à sua maneira.

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A sorte e o azar de dois irmãos

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O bicho saltou como um João do Pulo canino e correu em nossa direção

Eu e meu irmão quando nos envolvemos em muitas confusões (Foto: Acervo Familiar)

Eu e meu irmão quando nos envolvíamos em muitas confusões (Foto: Acervo Familiar)

A pequena diferença de idade entre mim e meu irmão mais velho, Douglas, permitiu que até certo momento da vida partilhássemos experiências, brinquedos e amigos. Mas desde o princípio começamos a desenvolver necessidades e traços de personalidade bem específicos. Enquanto eu mamava o suficiente, meu irmão mamava gulosamente. Eu era ansioso, meu irmão era calmo. Eu gostava de vermelho e ele preferia preto.

Ainda assim éramos inseparáveis na infância. E isso começou muito cedo, quando eu era bebê e minha mãe levava eu e meu irmão para passear. Claro, eu ia deitado no conforto do carrinho e o Douglas ia atrás, apoiado em um estribo. Quando minha mãe não estava olhando, ele puxava meus cabelos. A ideia de eu ainda ser um bebê e ter mais cabelos o irritava, fora o fato de que eu nunca precisava caminhar. No fundo, acho que ele me via como um pequeno mentiroso que fingia não saber andar para não dividir o espaço no interior do carrinho.

Como fazíamos praticamente tudo juntos, naturalmente nos tornamos amigos das mesmas pessoas. Por volta dos meus sete anos, o nosso grande companheiro era um garotinho agitado chamado Fabiano, filho da dona Maria Bortolotto, a proprietária de um bar que ficava na Avenida Distrito Federal, em frente ao Posto Atlantic, em Paranavaí. Ela tinha pulso firme com os adultos, tanto que deixava embaixo do balcão um taco de beisebol com a palavra “juízo” gravada em caixa alta, o que impedia brigas e afastava bêbados. Com as crianças o tratamento era diferente. Dava paçoca, paçoca e paçoca. Quero dizer, muita paçoca dos mais diferentes tipos, o que aplacava e depois amplificava a minha ansiedade.

Em 1992, brincávamos em obras abandonadas. Eu aproveitava os buracos nas paredes para escalar. Quando havia montanhas de areia lavada em torno do imóvel, subia no ponto mais alto e saltava afundando até metade do corpo. Fingia que estava em um poço de areia movediça e simulava pedir ajuda. Cada dia era uma aventura diferente. Às vezes não queríamos ir muito longe e ficávamos ao lado de casa, no depósito de pedras da minha mãe.

Lá, eu escalava uma árvore sete-copas e, aproveitando as sombras das folhas, sentava e comia com muita satisfação as suas castanhas amarelas e azedinhas. “Você é doido? Isso é comida de morcego!”, provocava Fabiano enquanto ria e se balançava sobre os galhos de uma amendoeira-da-praia. No entorno das árvores havia grandes montes de pedras portuguesas pretas, brancas, amarelas e vermelhas. Também saltávamos sobre as pedras, numa corrida maluca para ver quem conseguia se manter de pé por mais tempo. Paulinho, um rapaz contratado por minha mãe para cortar as pedras, só observava e nos repreendia, gritando e acenando de longe com uma luva grossa feita artesanalmente com borracha de pneu de caminhão.

A diversão era garantida, mas como o risco era grande a atenção tinha que ser redobrada. Uma vez, e por azar, meu irmão deu um passo em falso e caiu com a palma da mão sobre uma pedra pontiaguda branca. Enquanto o sangue escorria pelo monte, corri até em casa e avisei minha mãe. Após estancar o ferimento com gaze e esparadrapo, o levamos até o Pronto Socorro Municipal, onde ele recebeu alguns pontos na mão.

Para acalmá-lo, o lembrei de um episódio em 1991, quando estávamos em Inajá, a pouco mais de 60 quilômetros de Paranavaí. Naquele dia, minha mãe organizou uma festa para os funcionários que trabalharam na construção da Praça Central. Aproveitando a distração de nossos pais, eu, Douglas e uma amiga chamada Bianca pegamos algumas garrafas de cerveja e nos escondemos em cima de uma árvore. Depois do primeiro gole, me perguntei como uma bebida poderia ser tão ruim.

“Toma mais! Falam que é assim mesmo, o gosto demora pra ficar bom”, sugeriu Bianca. Acenei a cabeça em concordância e continuei tomando no gargalo. Antes do sabor melhorar, eu já estava embriagado. Fiquei tão zonzo que esqueci da árvore. Só tive uma breve retomada de consciência ao me ver em pé no chão. Sem entender como não caí sentado ou deitado, continuei segurando a garrafa com uma mão. Minhas pernas tremularam quando minha mãe me pegou pela orelha e me levou para o carro, onde passei horas deitado e confuso. Foi a minha primeira e última experiência com a embriaguez. Meu irmão que também consumiu cerveja saiu ileso do episódio, o que justificou os seus risos diante da lembrança após ter a mão suturada.

Dias depois, logo que a mão do Douglas cicatrizou e nossos pais viajaram para São Paulo, decidimos subir no telhado de uma residência vizinha que estava abandonada. O objetivo era colher drupas de santa-bárbara, que chamávamos de bolinha, para usar como munição nas nossas brincadeiras no quintal. Então começamos a balançar os galhos da árvore e de repente o telhado se rompeu. Eu, meu irmão e Fabiano caímos diretamente no chão da cozinha da casa.

Fabiano saiu ileso. Apenas mordi a língua e observei assustado um garrafão de cinco litros de vinho ao meu lado. Douglas não contou com a mesma sorte. Quebrou o braço e teve de ser levado pela minha tia Paula até a Santa Casa. Ao ser avisada, minha mãe se desesperou e voltou para casa. Apesar do braço engessado e das piadas dos amigos, ele não pareceu tão incomodado.

Na semana seguinte, em uma manhã de sábado, o tio Celso passou em casa para nos levar ao sítio. Em frente à Sanepar, a porta da caminhonete abriu e o Douglas caiu na rua. Com o braço engessado, saiu rolando rente ao meio-fio e gritando: “Espera eu, espera eu. Tô aqui!” Preocupado, Celso parou bruscamente o veículo e correu para socorrê-lo. Apesar das escoriações, das roupas rasgadas e do susto, meu irmão ficou bem.

Meses depois, saímos para brincar com meu primo Wilton. No caminho, assim que vimos um pé de manga em um terreno baldio, entramos e começamos a arremessar pedras para derrubar as frutas mais bonitas e saudáveis. Ao lado, na casa vizinha, um enorme pastor alemão não parava de latir, saltar e mostrar os dentes. Apesar do olhar ameaçador, não vi motivo para temê-lo, até porque o muro era muito alto, tão alto que nunca vi um cachorro saltar daquela altura.

De repente, quando derrubamos a terceira e mais carnosa das mangas, o bicho saltou como um João do Pulo canino e correu em nossa direção. Num reflexo que julgo até hoje como sobrenatural, subi na árvore com a agilidade de um leopardo. Meu irmão e meu primo não tiveram a mesma sorte, principalmente o Wilton que ganhou uma cicatriz permanente na perna. Até hoje acredito que o tal pastor alemão deu inúmeros saltos menores para nos encher de confiança, zombar de nossas limitações. Talvez aqueles dentes arreganhados fossem risos satíricos, aguardando o momento em que cada um estivesse empunhando uma manga.

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Written by David Arioch

July 12th, 2015 at 12:27 pm

Inocência e peraltices na Escola São Vicente de Paulo

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Foi numa dessas brincadeiras que um dia caí sobre o maior e mais bonito vaso branco da escola

Eu vestido de soldadinho na quadra da escola nos tempos de traquinagens (Foto: Acervo Familiar)

Eu vestido de soldadinho na quadra da escola nos tempos de traquinagens (Foto: Acervo Familiar)

Ser criança em uma escola católica até o início dos anos 1990 era bem diferente de hoje. Naquele tempo, os professores realmente puniam os alunos, não com violência, mas com castigo. Apesar disso, tínhamos liberdade para fazer muitas coisas antes das aulas e durante o recreio. Porém, se abusasse, era preciso se preparar para as consequências.

Agitado que era no primário, o período mais meninil da minha vida, sempre que chegava à Escola Vicentina São Vicente de Paulo, na Rua Getúlio Vargas, uma das mais movimentadas de Paranavaí, eu jogava a mochila e saía derrapando pelo piso liso que começava onde terminava a escadaria da entrada. Eu não gostava de usar tênis antiderrapante porque isso acabava com a diversão. Melhor ainda era chegar mais cedo na escola e contar com a ajuda de um amigo. Assim um agachava e o outro o impulsionava. Um empurrão de poucos metros era o suficiente para atravessar todo o pátio.

E foi numa dessas brincadeiras que um dia caí sobre o maior e mais bonito vaso branco da escola. Quando a orientadora viu o estrago, veio em minha direção. Sem pensar muito, corri de um lado para o outro enquanto ela tentava me pegar. A deixei no vácuo algumas vezes até vê-la resfolegando, já cansada e com uma das mãos apoiadas no abdômen. A plateia de estudantes de 6 a 10 anos gargalhava conforme eu sorria e ziguezagueava. Na realidade, sentia um frio na barriga e um temor indizível de ser severamente castigado. Mesmo assim enfrentei meu destino e me entreguei à punição.

Temia que me colocassem ajoelhado sobre milhos graúdos ou tampinhas de garrafa. Imaginava as bordas de alumínio penetrando minha pele e querendo invadir minha carne. Sentia gastura só de pensar em quantas horas passaria de joelhos. Por sorte, fiquei apenas preso na sala da orientadora até a minha mãe chegar. Ou seja, a punição seria dada por ela. Em casa, depois de algumas cintadas em que eu fingia muito mais dor que a minha mãe infligia, precisava apenas de poucas horas para ficar novo em folha e pronto para a próxima aventura. Melhor ainda quando ela transmitia a responsabilidade ao meu pai. Daí era só deitar e fingir enquanto a cama apanhava, uma coitada que não tinha nada a ver com as minhas traquinagens. O segredo da boa ludibriada estava na sincronia.

Na sala de aula eu também tomava parte na bagunça. A verdade é que muitas vezes fui o autor da algazarra, uma desordem ingênua que envolvia piadas, armadilhas, brincadeiras e jogos com papel e caneta. Por essas e outras, a irmã Angelina, minha professora, me colocava atrás da porta com o rosto mirando a parede. Quando ela não via, eu virava e fazia alguma micagem. Ia para o castigo sorridente, como se ganhasse um prêmio, sem entender o que aquilo representava no ideário adulto. Ocasionalmente era deixado de costas para o quadro e sem poder falar nada quando a professora apresentava um conteúdo novo. De vez em quando era obrigado a colocar a minha carteira escolar ao lado da mesa da irmã Angelina.

Era um alívio quando ouvia o sinal do recreio. Saía ligeiro com a minha lancheira do Rambo, já ansiando por pão com Amendocrem que minha mãe me permitia comer em dias bem específicos. Às vezes comprava salgado e sodinha ou comia o tradicional pão preparado pelas freiras. Depois do lanche, eu ficava em frente ao mini palco da quadra esportiva. Lá, no horário de sempre, alguém arremessava a sobremesa: dezenas de balas de cores, tipos e marcas diferentes. Cada guloseima que voava era acompanhada de gritos, saltos, empurrões e uma onda de mãos pequenas.

Antes do recreio chegar ao fim, eu encostava as costas no muro da quadra e os pés no tronco de uma árvore a meio metro de distância. Então subia o máximo que podia, o que era proibido. Mas a alegria de simular um gigante naquela altura, enxergar tantas coisas à minha volta, inclusive quem passava em frente a escola, fazia o risco valer a pena. No entanto a alegria da entrada nem sempre era partilhada na saída. Quando chovia, me arrependia de usar calçado de sola lisa para deslizar pelo pátio. A pé, eu percorria com pernas curtas um trajeto que incluía passar em frente à Panificadora Pão de Açúcar, Bar Ginasial, Mercado Minibox e Sorveteria Cremone, todos na Avenida Distrito Federal.

Sentia um misto de alegria e arrependimento porque me via obrigado a brincar de escorregar sem querer. Tentava ser cuidadoso enquanto me distraía observando a movimentação de pessoas nas ruas e o som da água em atrito com o guarda-chuva desproporcional à minha estatura. Eu não gostava de me proteger do salseiro. Achava que isso era coisa de adulto e que a chuva me daria algum tipo de poder quando tocasse meu corpo. Bom, assim eu acreditava sempre que desviava rapidamente o guarda-chuva e inclinava a cabeça para trás.

Um dia, depois de abrir a boca e experimentar o gosto da chuva, me questionei como poderia ser tão parecido com a água benta. Logo me recordei da vez em que visitei a Paróquia São Sebastião com a turma da catequese e bebi água benta da caldeirinha. “Por que você fez isso? Você vai pro inferno!”, disse meu amigo Toninho. Sorri acanhadamente e falei que não iria. Passei os cinco dias seguintes com medo do chão do meu quarto se abrir e me arrastar para as profundezas do inferno enquanto eu dormia. Cheguei até a me amarrar na cama com um lençol em uma madrugada.

Quando a lembrança se desvaneceu, lembrei da bronca ou surra que levaria da minha mãe se chegasse em casa ensopado. Eu poderia dizer que um carro jogou água em cima de mim, mas ela não acreditaria. Perita no assunto, reconheceria se a água veio diretamente do céu. Achei melhor não arriscar, mesmo que meus pensamentos se voltassem para um filme que assisti com meu pai na época. O sujeito parecia tão feliz cantando e dançando na chuva que eu não entendia porque aquele era o único adulto do mundo com espírito de criança. Concluí que talvez fosse tipo um Peter Pan.

Assim que me aproximei do cruzamento da Avenida Distrito Federal com a Rua Pernambuco, decidi me arriscar. Fechei o guarda-chuva e deixei a água cair sobre mim numa torrente expurgadora. Não estava gelada nem fria. Também percebi o céu clareando e algumas poças d’água invadidas por fragmentos de arco-íris que surgiam por todo o caminho. Fiquei feliz e encharcado nos primeiros minutos. Só senti a mochila pesada e os pés enrugados quando atravessei uma rua próxima da Sanepar.

Em frente de casa, respirei fundo e abri o portão. Fui recepcionado por Pretinha e Mussum – conhecido como Rabo de Biscoito, dois cãezinhos mestiços. Quando olhei pela janela, minha mãe lançou um olhar de reprovação. Então refleti: “Será que é dia de cinta?” Sorri com os lábios molhados e ouvi silenciosamente sua reprimenda. Quando se calou, repliquei, tentando fugir das cintadas: “Se o paraíso fica no céu por que a gente não pode ser divertir com aquilo que cai da beirada? Ué, chuva tem até gosto de água benta!”

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Eu, a musculação e o preconceito

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“Os músculos sempre vão demandar menos do que o cérebro. O seu corpo agradece se você dedicar uma hora do seu dia. Já o cérebro não se satisfaz com tão pouco”

"As pessoas tendem a achar que se você gosta de musculação é porque você tem tempo de sobra" (Foto: Arquivo Pessoal)

“As pessoas tendem a achar que se você gosta de musculação é porque você tem tempo de sobra” (Foto: Arquivo Pessoal)

Sou jornalista e já enfrentei inúmeras situações de preconceito por gostar de musculação, por gostar de me alimentar bem. Já ouvi várias vezes pessoas dizendo que jornalista é o sujeito sedentário que tem uma rotina baseada em junk food, cigarro, álcool, litros de café e muita insônia.

Nunca me enquadrei nesse obsoleto estereótipo e sei que há muitos outros jornalistas que também não. As pessoas tendem a achar que se você gosta de musculação é porque você tem tempo de sobra, é uma pessoa à toa, que fica mais tempo na academia do que em casa ou no trabalho. Não, isso não é verdade e eu posso afirmar por experiência própria, já que passo a maior parte do dia produzindo, pensando, lendo e ouvindo pessoas, o que tem tudo a ver com a minha atividade profissional.

“Cuidado pra não ficar brocha!”, dizem alguns num tom de brincadeira que vela um anseio pela ofensa. A verdade é que o preconceito é sempre recorrente. Há aproximadamente dois anos, me encontrei com um camarada em um conselho de discussões sociais. Quando me viu, ele disse: “Nossa, Arioch! Tá bem maior, hein? Pelo jeito está dando mais prioridade para os músculos do que para o cérebro. Então comentei: “Não, pode ficar tranquilo. Os músculos sempre vão demandar menos do que o cérebro. O seu corpo agradece se você dedicar uma hora do seu dia. Já o cérebro não se satisfaz com tão pouco.”

Passei por outras situações parecidas, até piores. Tem gente que até se afasta de você por causa disso. Há quem ache estranho você gostar tanto de musculação sendo que profissionalmente atua numa área que não tem nada a ver com atividade física. Claro que não há o menor sentido em pensarem assim, mas é o que acontece. Inclusive há alguns anos fui ofendido por postar fotos da minha evolução no Facebook, o que revela um nível excruciante de intolerância.

Muita gente tem dificuldade em entender que isso é uma forma até de estimular quem não pratica atividades físicas ou de incentivar amigos que estão começando. Todos os dias percebo como as pessoas são capazes de odiar ou desprezar alguém por gostar de alimentação saudável e atividades físicas. Sei que há pessoas que exageram nesse aspecto, só que não é justo fazer generalizações. Eu, por exemplo, nunca tive o hábito de criticar ninguém por suas preferências alimentares ou desinteresse por musculação.

Na realidade, não vejo sentido em tocar no assunto com quem não gosta de nada disso. As pessoas merecem a liberdade de escolher o que querem fazer. Mas claro que sempre tentei ajudar ou recomendar profissionais para todos que vieram até hoje conversar comigo sobre o assunto, até porque me recordo como eu era desinformado quando ingressei numa academia há mais de oito anos.

Ainda assim, me identifiquei tanto que frequento o mesmo ambiente até hoje. De segunda à sexta, dedico pelo menos uma hora do meu dia à musculação, o que não é muito se levarmos em conta que o dia tem 24 horas. A nossa condição física exige isso, já que fomos feitos para o movimento.

Mudei de horário algumas vezes por necessidade. Já treinei 5h30 da manhã. Naquela época o instrutor me entregava as chaves para eu abrir a academia. Foi assim durante pelo menos três anos. Hoje treino no final da tarde, horário que sempre que posso sigo liturgicamente há cinco anos. Quando necessário, também dou um jeito de ir em outro horário. Com o tempo, comprei algumas anilhas, barras e halteres para quebrar o galho de vez em quando.

Musculação pra mim nunca foi tortura ou sacrifício. Um dia ouvi uma instrutora ao meu lado na academia falando para um rapaz que odiar musculação é normal, já que ninguém gosta, apenas faz porque precisa. Não, isso também não é verdade. Amo me movimentar e levantar pesos, por mais que isso possa parecer estranho para muita gente. É muito prazeroso.

Há pessoas que apenas são assim, gostam do que fazem e se sentem bem. Muitas outras não. Ouço muitas reclamações à minha volta o tempo todo na academia. Muita gente impõe limites a si mesmo. Quando os obstáculos não existem, as pessoas o criam, como forma de fuga. Respeito o direito de cada um de não gostar de musculação, até porque se você não se identificar com ela, ela também não vai se identificar com você.

Quando decidi praticar musculação, a primeira coisa que fiz foi não encará-la como algo distante da minha realidade. Para exemplificar, cito o fato de que fui diagnosticado com hérnia de disco antes de me matricular numa academia. Um ortopedista recomendou que eu não fizesse musculação. Contrariei suas indicações e comecei a treinar. Eu fazia todos os exercícios que qualquer pessoa completamente saudável faria. Com o tempo, minha coluna lombar se fortaleceu e até hoje tenho uma rotina baseada nos exercícios que mais exigem da lombar. Resumindo, meu treino é extremamente intenso, já que estou sempre me forçando ao limite, e me sinto mais saudável do que nunca.

Atividades físicas fazem uma grande diferença na minha vida, assim como uma boa alimentação. Eu não como bem porque preciso. Bom, na verdade eu preciso sim, mas não vejo como obrigação. É algo natural pra mim. Comecei a me interessar por nutrição há uns bons anos, quando me consultei com uma nutricionista que elaborou pra mim uma dieta ruim voltada para pessoas sedentárias. Ou seja, ela não entendia de nutrição esportiva. A partir daí, comecei a pesquisar sobre o assunto. Ingressei em fóruns de musculação e nutrição, fiz amizades com pessoas da área, comprei livros sobre o tema. Enfim, tentei adquirir conhecimento e me manter atualizado.

Após alguns anos, aprendi a conhecer minhas necessidades, por isso hoje minha dieta não é baseada em contagem de calorias. Levo em conta apenas quantidades e distribuição de macronutrientes, ou seja, carboidratos, proteínas e gorduras, sempre tendo como referencial meu peso corporal. Realmente não costumo comer bobagens. Pra mim, não é privação. Faz tanto tempo que tenho esse estilo de vida que não costumo sentir falta de consumir alimentos baseados em calorias vazias. E como meu foco nunca foi competir como fisiculturista, treino naturalmente, ou seja, sem o uso de esteroides anabolizantes.

Apesar disso, meu ano é dividido em duas fases. Uma de ganho de massa muscular e outra de queima de gordura. Só que evito deixar meu percentual de gordura realmente alto. Também acho viável dizer que não vejo suplemento como necessidade primária, mas gosto de proteína vegetal em pó, até porque também é uma boa para quem gosta de cozinhar, o que é o meu caso como mostra o meu blog vegaromba.com. Também acho interessante o consumo de um multivitamínico, claro, dentro das minhas necessidades.

Além de tudo que falei até agora, afirmo ainda que vejo a musculação como uma atividade terapêutica, uma boa forma de escape ou extravasamento para quem tem uma rotina com grande desgaste psicológico e emocional.

Written by David Arioch

June 7th, 2015 at 5:39 pm

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Uma noite no fliperama

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Frequentar a Play Time me garantia uma aula semanal de “experiência mundana”

Eu estava jogando Sunset Riders quando Graxinha me chamou a atenção (Foto: Reprodução)

Eu estava jogando Sunset Riders quando Graxinha me chamou a atenção (Foto: Reprodução)

Em 1993, meu pai levava eu e meu irmão mais velho, Douglas, uma vez por semana na Play Time, uma famosa casa de fliperamas situada na Rua Manoel Ribas, no centro de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Chegando ao local, um paraíso juvenil de mais de 20 máquinas do tipo arcade que mais lembrava o cenário de um filme teenager estadunidense dos anos 1980, ele falava para formarmos uma concha com as mãos e distribuía dez fichas para cada um. Enquanto jogávamos, nosso pai ficava ao lado, no Bar Toyokawa, mais conhecido como Bar do Kengo.

Eu era pequenino, tinha menos de dez anos e estudava na Escola Vicentina São Vicente de Paulo numa época em que as professoras, principalmente freiras, colocavam os alunos de castigo por mau comportamento. O meu mundo era tão minúsculo quanto eu fui na infância. Cheio de limites, me fazia ter uma visão bem canhestra da realidade, embora eu fosse muito curioso. Por isso o fliperama significava mais do que diversão baseada em jogos eletrônicos.

Foi nas idas noturnas à Play Time que conheci crianças da minha idade que já bebiam, fumavam e se drogavam. Tinham uma linguagem própria que fazia eu me sentir um pouco estrangeiro. Era um universo que me intrigava e ao mesmo tempo me amedrontava. Eu os via de longe e às vezes deixava de jogar apenas para observá-los. Encostavam suas caixas ao lado das máquinas e acompanhavam os jogadores com os olhos. Davam palpites na tentativa de ganhar a confiança, uma oportunidade e quem sabe até uma ficha.

Lembro quando um desses garotos se aproximou de mim. Era um engraxate de não mais que 12 anos. Eu estava entretido com um jogo de tiros com cowboys chamado Sunset Riders, um dos mais disputados do lugar. De repente, ele cutucou meu ombro e disse: “Ei, você pode me deixar jogar? Sou bom nisso. Passo fácil essa fase aí. Deixa, vai!” Acabei cedendo. Era um garoto negro, franzino, de cabeça raspada e com as unhas cheias de vestígios de graxa. Conforme ele jogava, eu prestava atenção em suas mãos e expressões faciais. Era melhor que eu. Jogava com muita vontade.

A impressão que tenho até hoje daquele momento é de que enquanto aquele garoto não vencia na vida ele merecia pelo menos vencer no jogo. E era o que acontecia. A verdade é que não o deixei jogar pensando se ele passaria de fase ou não. Tanto que depois comecei a dividir metade das minhas fichas com ele, independente do desempenho. Em troca, conheci um pouquinho do seu mundo numa permuta não declarada. Me contou que trabalhava das sete até as oito da noite – nem sempre recebia pelo serviço que prestava. Às vezes tinha que fugir para não apanhar dos clientes mais abusivos.

O chamavam de Graxinha e me recordo, numa reminiscência enuviada e parcial, quando revelou que nasceu e foi criado na Vila do Sossego, atual Vila Alta, na periferia de Paranavaí. “É um lugar pra lá do buracão. Moro do lado, numa barraca. Mas nem dá nada. Não vou pra casa sempre. Acostumei a dormir por aí, em banco de praça ou na rodoviária. Assim não preciso ir e voltar todo dia”, relatou. Ficou atônito, ou pelo menos fingiu, quando um dia me pediu um isqueiro e expliquei que não tenho. “Ué, você não fuma? Vai me dizer que também não bebe?”, questionou. Quando respondi sem jeito que não, Graxinha fez uma expressão mimética de surpresa, se calou por segundos e soltou uma gargalhada. Fiquei envergonhado. Só balancei a cabeça e dei um sorriso acanhado.

Desinibido, mas cuidadoso, circulava por Paranavaí só em turma. Dizia que era perigoso andar sozinho porque “de noite a vida do marginal vale menos do que durante o dia”, algo assim. O grupo era formado por sete ou oito engraxates, todos menores de idade. Meu pai conhecia cada um e sempre pagava algo para eles comerem e beberem. Acho que fazia muito mais do que isso. Com o tempo, me dei conta que meu pai, que um dia também foi engraxate, não me levava apenas para jogar, mas também para aprender mais sobre a vida e o mundo. O contato com esses garotos garantia isso. Era como uma aula semanal de “experiência mundana”.

No mesmo período eu soube que muitos dos engraxates de Paranavaí que tinham essa faixa etária inalavam cola de sapateiro, tíner e benzina. Uns diziam espontaneamente que era o jeito de suportar a vida na rua ou o frio rigoroso que chegava no final de junho, ainda que pudesse afetar a mucosa do nariz. Ingenuamente outros se “fantasiavam” de adultos com um cigarro em uma mão e um copo de cerveja na outra. Na ausência de referências, eram precoces que viviam à sua maneira numa época em que crianças podiam tranquilamente comprar bebida alcoólica ou tabaco.

Apesar disso, sempre vi esses garotos como bastante amigáveis. Apenas tentavam sobreviver com o que conseguiam engraxando sapato até tarde da noite. Me pareciam destemidos, mesmo quando estavam agachados e cabisbaixos nas esquinas, armazenando suas ferramentas de trabalho dentro de caixas personalizadas com palavras aleatórias, frases e desenhos feitos à caneta. Na Play Time e em muitos outros estabelecimentos comerciais, alguns clientes os desprezavam tanto que os xingavam e iam embora quando eles chegavam. Os engraxates não gostavam de briga, então só ignoravam. Felizmente, o Eduardo, proprietário da casa de fliperamas, sempre os recebia com cordialidade e respeito.

Um dia, sem avisar ninguém, Graxinha desapareceu. A última vez que o vi ele estava sorrindo e acenando enquanto pegava carona no estribo de uma Caloi Cross branca como a cor do seu boné. Uns afirmam que foi embora de Paranavaí, outros comentam que o assassinaram. Quase 20 anos depois, conheci o lugar onde o jovem engraxate viveu. Não havia mais nada. No local, só um vazio, alguns restos mortais de cães e gatos, uma placa com um trecho do salmo 22, um pouco de lixo e um céu que parecia mais baixo e nebuloso do que em qualquer outra parte da cidade.

 





Vila Alta e a realidade da periferia

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Documentário mostra que a Vila Alta também é uma comunidade de pessoas honestas

Vila Alta aborda o preconceito sofrido pelos moradores do bairro (Imagem: Reprodução)

Documentário aborda o preconceito sofrido pelos moradores do bairro (Imagem: Reprodução)

Disponibilizei hoje no meu canal no YouTube o documentário “Vila Alta”, que faz parte da série Realidade da Periferia, composta por um filme de longa-metragem, um de média-metragem e um curta. É uma trilogia de documentários. Todos estão relacionados, tanto que há referências de cada obra nos três filmes.

Na semana que vem começo a produzir o curta-metragem “Ivan & Rose”, sobre as dificuldades e o cotidiano de um casal de catadores de recicláveis que vive com R$ 280 por mês. O filme fecha a trilogia iniciada com a obra “Oficina do Tio Lú”, lançada em fevereiro.

Mas voltando ao filme que lancei hoje, o documentário Vila Alta mostra que há mais de 30 anos os moradores mais pobres da área rural e de diversos bairros de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, foram obrigados a se mudar para um lixão no fim da Vila Operária. No local, mesmo sem energia elétrica e água encanada, eles montaram dezenas de barracos de lona para abrigar suas famílias.

Vivendo sob condições sub-humanas, ainda tiveram de conviver com o preconceito, a intolerância, a violência e a criminalidade. Socialmente invisível, a população do bairro, que um dia foi conhecido como Balão Mágico e Vila do Sossego, hoje sofre para se livrar de um estigma social que se perpetuou ao longo de décadas.

Em Paranavaí, os mais jovens crescem ouvindo histórias que reforçam o mito de que a Vila Alta é uma “terra de criminosos”, um lugar onde ninguém deve ir. Não é à toa que a maior parte da população da cidade não conhece o bairro.

O documentário destaca outra realidade pouco conhecida. Na contramão da sua fama, a Vila Alta também é uma comunidade de pessoas honestas, batalhadoras e sensíveis que mesmo privadas das necessidades básicas ainda lutam e sonham com um futuro mais digno.

Apresentado de forma crua, mas solene, Vila Alta é uma obra testemunhal em que os personagens dialogam livremente. Do início ao fim, para reforçar o caráter intimista, a câmera é apoiada sobre uma mão. Não há escapismo, tratamento de imagem, uso de microfone externo e neutralização do som ambiente. Até mesmo alguns ruídos são preservados, cumprindo o objetivo de retratar com fidelidade as particularidades de cada momento, assim como o universo de cada personagem.

Para quem quiser assistir ao filme na íntegra, segue o link:

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Casal tenta sobreviver com R$ 280 por mês

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Ivan e Rose moram em um dos poucos barracos que ainda restam na Vila Alta

A entrada do casebre é coberta por materiais recicláveis (Foto: David Arioch

A entrada do casebre é coberta por materiais recicláveis (Foto: David Arioch)

Nos anos 1970 e 1980, quem visitava a Vila do Sossego, atual Vila Alta, em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, se surpreendia com a quantidade de barracos de lona. Cada um, em média, abrigava quatro pessoas. Quando chovia, o desespero tomava conta. Todos tinham de passar a noite acordados e apoiados nas extremidades do barraco para evitar que ficassem descampados.

Com o tempo, o cenário mudou, e hoje o bairro tem poucas pessoas vivendo em situação de pobreza extrema, embora muitos ainda não ganhem o suficiente para viver com dignidade. “Antes a gente reclamava porque não tinha onde morar. Agora cada um pelo menos tem a sua casinha, mesmo que não seja boa”, diz a dona de casa Cristiane Santos França.

Circulando pelo bairro e conversando com os moradores, logo você é informado que muitas moradias só existem porque a comunidade se uniu para construí-las. Ainda assim, é um privilégio que não chegou a todos que vivem no bairro. O casal de catadores de recicláveis Rose Maria Santos e Ivan Cardoso Martins representa bem essa realidade.

Rose Santos: “É difícil porque a casa molha, né? E molha tudo” (Foto: David Arioch)

Rose Santos: “É difícil porque a casa molha, né? E molha tudo” (Foto: David Arioch)

Quem chega em frente ao terreno onde eles moram, nem imagina que ali existe uma “casa” de dois cômodos, com um banheiro improvisado no quintal. A entrada é coberta por materiais recicláveis, o único meio de subsistência de Rose e Ivan que dividem o espaço com cães e gatos, animais que recebem o mesmo tratamento de um filho.

Para entrar no casebre feito à base de materiais descartados na rua, preciso me abaixar para não bater a cabeça no batente fora de medida. O ambiente é escuro e pouco arejado. A luz entra somente por uma pequena janela que dependendo do horário do dia pode ser confundida com uma fresta. No interior do barraco, Rose sorri com timidez e me convida para sentar em uma poltrona bastante judiada, retirada próxima de uma sarjeta.

Nos cumprimentamos e ela me conta que é muito difícil viver nessa situação. Em uma olhadela, percebo que ali não existe nada que algum dia tenham comprado em uma loja. Está tudo muito desgastado. “É difícil porque a casa molha, né? E molha tudo. A gente não tem condições de fazer outra. Molha cozinha, quarto, pinga por tudo”, confidencia Rose visivelmente gripada e enxugando o rosto com um pedaço de pano.

Ivan Martins: “Quando a crise vem, parece que vou morrer. E pode ser que da próxima vez aconteça mesmo” (Foto: David Arioch)

Ivan Martins: “Quando a crise vem, parece que vou morrer. E pode ser que da próxima vez aconteça mesmo” (Foto: David Arioch)

Os móveis, que jamais seriam aproveitados por uma família de classe média, sofrem com a ação da chuva, se deteriorando rapidamente. Quando chove demais, a água arrasta a lama para dentro do casebre. A história se repete há 15 anos, desde que Rose e Ivan fizeram o barraco. “Tudo aqui foi feito por conta própria, juntando aos poucos”, enfatiza a catadora de recicláveis. Enquanto conversamos, escuto um gemido no quarto, cômodo que fica ao lado da sala-cozinha.

Lá, em meio a roupas velhas e objetos antigos, repousa o “Seu Ivan”, como é mais conhecido. Vítima de mal de Parkinson, passa por crises tão severas que há dias em que não consegue andar. Se obriga sempre a se apoiar em algo para evitar a queda, seja uma muleta, um andador ou o próprio carrinho de recicláveis.

Quando percebe a minha presença, Ivan se levanta de um colchão velho, sem roupa de cama, e com muito esforço consegue chegar até nós. Me cumprimenta, sorri e senta ao lado da mulher. Inicia a conversa informando que só não chove em cima do colchão porque conseguiram cobrir parte do casebre com um pedaço de lona doada. “Aí tem cada buracão de pedra que caiu. O madeiramento tá tudo budocando [embodocando]”, afirma.

Os itens no interior do barraco foram encontrados nas ruas de Paranavaí (Foto: David Arioch)

Os itens no interior do barraco foram encontrados nas ruas de Paranavaí (Foto: David Arioch)

“De vez em quando me dá uma tremedeira que nada segura. Não consigo manter nem o copo na mão”, declara com um olhar miúdo e um tom de voz calmo e pausado. Para minimizar o problema, o medicamento não pode faltar. Cardoso também sofre de hipertensão e tem enfisema pulmonar.

Com 61 anos, o homem foi castigado pelas precárias condições de vida. Quem o vê de perto, pensa que é bem mais velho. Mesmo doente, Ivan, assim como Rose, não pode parar de trabalhar. Juntos, eles saem todos os dias pouco antes das 8h e retornam só depois das 20h. São mais de 12 horas diárias de trabalho para lucrar 70 reais por semana, ou seja, 280 reais por mês.

“É o que a gente consegue quando não perde nenhum dia. Agora se ele ficar muito ruim, o ganho é menor”, garante Rose Santos. Entre uma tosse e outra, lembra que o marido sofreu dois infartos nos últimos oito anos. Nas ruas, nem todos respeitam o trabalho dos catadores de materiais recicláveis. Enquanto alguns contribuem, inclusive separando o material para o casal transportar, outros exigem que para recolhê-los é preciso levar também o lixo.

Seu Ivan se emociona quando se recorda da época em que carregava mais de 100 quilos no carrinho (Foto: David Arioch)

Seu Ivan se emociona quando se recorda da época em que carregava mais de 100 quilos no carrinho (Foto: David Arioch)

“Pegamos papelão, plástico, latinha, mas latinha rende pouco, né? Ferro também. O preço é de 10 centavos por quilo. Então tem que conseguir pelo menos 100 pra ganhar um dinheirinho”, explica Rose. Seu Ivan se emociona quando se recorda da época em que carregava mais de 100 quilos no carrinho. “Agora se você me chamar pra ir até o portão pegar dez quilos, não aguento porque não consigo levantar esse peso. Se colocar na cabeça, caio para o outro lado”, lamenta sem esconder a tristeza e o constrangimento. Com olhos marejados, revela que toma banho sentado ou com a ajuda de Rose.

Ivan Cardoso Martins trabalha desde a infância e até hoje não conseguiu se aposentar, seja por tempo de serviço ou pelas limitações impostas pela doença. Sem dia certo para aparecer, as crises podem acontecer com intervalo de dois dias ou até uma semana. “Quando vem, parece que vou morrer. E pode ser que da próxima vez aconteça mesmo”, comenta.

Ivan e Rose, que são facilmente vistos circulando pelas ruas centrais de Paranavaí, sonham em comprar materiais para construir dois ou três cômodos em frente ao barraco. “Se alguém pudesse ajudar, a gente ficaria muito feliz”, admite Ivan em declaração partilhada por Rose. Sem saneamento básico e energia elétrica, o casal parece alheio à realidade dos vizinhos e principalmente dos moradores do bairro ao lado, a Vila Operária.

O catador de recicláveis sofre de mal de Parkinson, enfisema pulmonar e hipertensão (Foto: David Arioch)

O catador de recicláveis também sofre de enfisema pulmonar e hipertensão (Foto: David Arioch)

Assim que agradeço a cordialidade e me despeço, Seu Ivan faz questão de me acompanhar até a entrada, se apoiando com muito esforço em um andador feito e doado pelo artista plástico Luiz Carlos Prates Lima. Apesar da vida de penúria e da invisibilidade social, o homem ainda preserva a sua fé e se despede com um gesto verbal de benevolência: “Muito obrigado pela visita. Vá com Deus, meu filho.”

Contribuição

Quem quiser contribuir com o casal, pode ligar para a Fundação Cultural de Paranavaí: (44) 3902-1128 ou (44) 9865-1391 e falar com Luiz Carlos.

“Com o artesanato, diminuí 90% do meu consumo de remédios”

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Vítima de bala perdida, Élcio Caetano aprendeu a lidar com a deficiência física por meio da arte

Caetano: "Gosto de trabalhar com produtos recicláveis e transformar o industrializado em artesanato" (Foto: David Arioch)

“Gosto de trabalhar com produtos recicláveis e transformar o industrializado em artesanato” (Foto: David Arioch)

Na próxima segunda-feira, às 23h35, completa dez anos que Élcio Caetano ficou paraplégico por causa de uma bala perdida. À época, passou mais de um mês tentando assimilar o que tinha acontecido. “Demorou pra cair a ficha e tive dificuldade em aceitar o fato de que nunca mais andaria”, diz o morador do Conjunto Dona Josefa, entre a Vila Operária e a Vila Alta, em Paranavaí, no Noroeste do Paraná.

Ainda em 2004, sem saber que rumo tomar, Caetano aceitou participar de um programa de terapia ocupacional por sugestão de uma vizinha. “Naquele estado, o ócio é perigoso porque a pessoa acaba tendo muitas ideias que não são saudáveis”, comenta Élcio que teve o primeiro contato com o artesanato em um curso para confecção de tapetes com saquinhos de leite. Foi amor à primeira experiência.

Quase dez anos depois, o que começou como uma terapia se transformou em um meio de sobrevivência. Hoje, Caetano é um especialista em aproveitamento e reutilização de materiais. “Gosto de trabalhar com produtos recicláveis e transformar o industrializado em artesanato”, comenta o artista que tem familiares e amigos que o incentivam. A irmã, por exemplo, costuma ir até a rua 25 de Março, em São Paulo, comprar acessórios e adereços para incrementar as peças de Élcio.

Outros parceiros são a Santa Casa de Paranavaí e Clínica Radiológica de Paranavaí que doam radiografias que o artista transforma em belas borboletas. “Também recebo contribuições de uma cooperativa de materiais recicláveis”, declara enquanto exibe algumas peças recém-confeccionadas e de alta qualidade. Élcio Caetano manipula dezenas de matérias-primas, criando peças únicas, tanto utilitárias quanto decorativas. “Faço vaso com cipó e arame, abajour com tampinhas de garrafa, além de coelho e cortina com garrafas pet”, enfatiza, embora tenha predileção pelo trabalho com sementes.

Faz quase dez anos que Élcio descobriu o talento para o artesanato (Foto: David Arioch)

Faz quase dez anos que Caetano descobriu o talento para o artesanato (Foto: David Arioch)

Com base na demanda, Élcio produz levando em conta as mudanças de clima e tempo. No frio, confecciona toucas, cachecóis, boinas e polainas. No calor, se dedica a fazer colares, pulseiras, arranjos de flores, cortinas e bolsas. “Tem muita gente que deveria experimentar uma atividade como essa. Dá uma satisfação imensa. Com o artesanato, diminuí 90% do meu consumo de remédios. E olha que quem tem paraplegia precisa tomar remédio até pra acordar, comer e dormir”, afirma, sem esconder a satisfação e a alegria de estar vivo e fazendo o que gosta.

Sobre a concorrência com produtos industrializados, o artista que trabalha até a hora de dormir não vê motivos para preocupação. “Existe espaço pra todo mundo. A vantagem do artesanato é que as peças são únicas. Uma nunca sai igual a outra. Então atrai quem busca um diferencial nesse sentido”, esclarece. Interessados em encomendar peças ou conhecer melhor o trabalho de Élcio Caetano, podem ligar para (44) 9725-2450.