David Arioch – Jornalismo Cultural

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Tom Worby, morto aos 15 anos em uma ação contra caçadas

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Tom morreu nos braços da namorada e ninguém foi responsabilizado pelo que aconteceu (Arte: Labour Animal Rights Group)

Hoje completa 25 anos que Tom Worby, de Milton Keynes, foi morto aos 15 anos, quando se juntou a um grupo de 40 sabotadores de caçadas em Low Farm, perto de Gravesley, no Condado de Cambridge, na Inglaterra. Aquela foi a primeira e a última vez de Tom em um ato contra caçadas. O que começou como uma ação aparentemente normal terminou em uma tragédia.

No dia 3 de abril de 1993, Tom e a namorada se juntaram a um grupo de pessoas que não concordavam com a crueldade da caça à raposa. Por isso, foram até a Low Farm, onde um grupo se preparava para a matança de raposas. No local, quando os caçadores viram os sabotadores, gritaram algumas palavras ameaçadoras e desapareceram floresta adentro.

Depois os caçadores retornaram em maior número e começaram a discutir com os sabotadores. Logo um policial chegou, conversou com os caçadores e caminhou até os sabotadores. Disse que eles eram invasores e que deveriam partir. Então eles justificaram que não havia nenhuma invasão, já que eles estavam apenas sentados diante do sol e da estrada, sem infringir nenhuma lei.

O policial reconheceu que não havia nada a ser feito, e explicou aos caçadores que não estava disposto a colocar mais recursos na operação. Os caçadores novamente se afastaram dos sabotadores. Ninguém sabia o que eles estavam planejando. Mais tarde, um dos líderes justificaria que eles decidiram interromper a caçada e pediu que um dos caçadores, Anthony Ball, guardasse suas coisas.

Segundo informações do artigo “How Tom Worby, a hunt sab, was killed” publicado pela Netcu Watch em 2008, o senhor Ball era conhecido como um homem bastante imprevisível, e que ficava agressivo com muita facilidade. Semanas antes, com o apoio de outros caçadores, ele desceu de um cavalo e atacou a pé um grupo de sabotadores.

Um dos jovens envolvidos na ação foi deixado inconsciente após ser atingido na cabeça por uma caçadora que era a proprietária da Low Farm. O senhor Ball também foi apontado como o autor de uma série de tentativas de atropelamentos contra sabotadores de caçadas. “Contamos 27 incidentes para os quais temos vídeos e provas fotográficas do senhor Ball usando violência contra sabotadores”, garantiu um dos sabotadores no artigo da Netcu.

No dia 3 de abril de 1993, enquanto o senhor Ball colocava os cães na van e os cavalos no trailer de reboque, os outros caçadores bebiam e conversavam. Então Ball entrou na van com o filho Christopher Ball, o principal terrierman da caçada, e seguiram em direção à estrada.

Os sabotadores ficarem atentos diante da cena. A menos de 500 metros da van, aventaram duas possibilidades – os caçadores estavam realmente desistindo ou apenas mudando de lugar para recomeçar a caçada. No caminho de volta à estrada, os sabotadores se dividiram. Havia uma massa principal de sabotadores mais atrás, um grupo menor e outros dois sabotadores em pontos estratégicos.

Quando a van alcançou o primeiro grupo principal de sabotadores, eles continuaram na estrada porque acharam uma boa ideia atrasar os caçadores, caso a intenção deles fosse retomar a caçada. Inclusive alguns sabotadores sentaram-se na estrada, na tentativa de bloquear a passagem do veículo.

No entanto, a van do senhor Ball fez o seu próprio caminho entre os sabotadores – em um ritmo lento e constante. As pessoas sentadas levantaram-se no último segundo, porque Anthony Ball não deu qualquer indicativo de que pararia. Não houve nenhum tipo de violência ou ameaça por parte dos sabotadores. O objetivo era um só – atrasar a van.

Depois de algum tempo, a van passou pelo grupo de sabotadores e acelerou bem rápido, aproximando-se de outro grupo de sabotadores. A estrada estreitava-se naquele ponto, com uma vala íngreme à direita, uma pequena cerca de 30 centímetros de altura e uma densa sebe à esquerda. No volante, o senhor Ball acelerou mais e mais, e seguiu diretamente para o segundo grupo de sabotadores que nem sequer tentou atrasá-los, segundo informações da Netcu.

Tão logo os sabotadores perceberam que o homem não reduziria a velocidade, eles pularam para o lado esquerdo na vala à direita. Apenas Tom Worby não conseguiu fazer isso, por causa da distância. Ele só teve tempo de dar um passo para o lado, em direção única, onde poderia pisar entre a sebe e a van. Porém, basicamente não restou nenhum espaço porque a van era muito larga.

Tom Worby foi pego pelo retrovisor esquerdo e arrastado com o veículo por uns 50 metros. Ele gritava muito e batia contra a porta da van, até que perdeu o controle e escorregou. Tom recuou, mas caiu para a frente sob a roda traseira esquerda. Era possível ver o veículo levantar um pouco quando passou por cima de sua cabeça.

A van de caça dirigida por Anthony Ball não parou. Ganhou ainda mais velocidade e passou por dois sabotadores na estrada, que ficaram tão chocados com o que aconteceu que não conseguiram se mover. A van voltou diretamente para os canis, onde muitos policiais chegaram rapidamente para proteger o senhor Ball.

Os sabotadores correram até Tom Worby e tentaram socorrê-lo. Suas orelhas e nariz sangravam, mas o garoto ainda estava consciente. Eles gritaram desesperadamente por ajuda. Alguns caçadores riram e celebraram como se aquilo fosse uma vitória para eles. Inclusive ameaçaram os sabotadores que expressaram a urgência de se conseguir uma ambulância. Eventualmente um policial foi avisado e solicitou ajuda. Tom morreu nos braços da namorada e ninguém foi responsabilizado pelo que aconteceu.

Saiba Mais

Grupos anti-caçadas normalmente são grupos pacíficos que usam de táticas como buzinas, apitos e dispositivos eletrônicos para confundir cães de caça. Também criam falsas trilhas e usam de recursos que chamam a atenção dos animais que serão caçados, para que eles possam se antecipar diante da ação dos caçadores.

Referência

Netcu Watch. How Tom Worby, a hunt sab, was killed (2008).





Canadá vai sediar o primeiro festival internacional de cinema vegano

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As inscrições do festival se encerram no dia 31 de julho

Estão abertas as inscrições do Ottawa International Vegan Film Festival, que vai ocorrer no Mayfair Theatre, em Ottawa, no Canadá, no dia 14 de outubro. Realizado anualmente, o festival, que segue os moldes dos festivais mais tradicionais, vai ser o primeiro do gênero no mundo. Então se você tem pelo menos um filme de curta-metragem com temática vegana e legendas em inglês não perca a oportunidade de participar e motivar mais pessoas a respeitarem os animais independente de espécie.

De acordo com o organizador Shawn Stratton, sem dúvida, o objetivo é usar o festival para inspirar mais pessoas a adotarem o estilo de vida vegano, e também a motivar aqueles que já estão trilhando esse caminho. Além, claro, de inspirar mais cineastas e veganos a abordaram por meio de obras audiovisuais questões que envolvem a exploração e o respeito aos animais. “Estamos dando a eles uma oportunidade de exibir seus filmes para mais pessoas”, explica Stratton.

Os filmes de curta e longa-metragem podem ser inscritos nas categorias “defesa dos animais”, “estilo de vida’, “saúde e nutrição” e “proteção ambiental”. Os melhores filmes de cada categoria serão premiados. Também haverá premiação por voto popular. Segundo o coordenador do Ottawa Vegan Film Festival, seria muito bom se os participantes enviassem filmes com histórias autênticas que oferecem um senso de esperança em relação ao futuro dos animais. Parte do lucro do festival vai ser destinado a instituições de caridade. Todo o processo é feito online e as inscrições se encerram no dia 31 de julho. Para mais informações, acesse o site do Ottawa International Vegan Film Festival.

 





Vidas não valem nada

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Foto: Reprodução

Vidas não valem nada, concluí quando saí do matadouro após uma visita no mês passado. O magarefe posicionou a pistola contra a cabeça de um boi dócil e disparou. Um tiro absterso e silente. O dardo penetrou o crânio do animal e o fez deitar no chão. Barulho intenso. Tive a impressão de que algo estava explodindo. E não estava? O mundo de um animal que naquela tarde não imaginava que não veria a noite ou um novo dia. Não chorava feito criança, embora corpulento e desgracioso tremia como um recém-nascido – (in)voluntariamente, batendo de um lado para o outro dentro de uma caixa de tijolos. Morto? Sim ou não, depende de quem vê. O magarefe não viu os olhos embaciados do boi. Não, aquilo era perigoso. Limpou a pistola, sem prestar atenção no bicho e ajeitou os fones de ouvido por baixo do abafador:

 
Você trabalha faz tempo aqui? — perguntei.
— Pouco mais de um ano.
— Por que você usa fones?
— Não quero ouvir o que não me agrada.
— E o que seria isso?
— A queixa desse animal.
— É possível ouvir mesmo com o abafador?
— É…o que a gente vê a gente ouve. Não precisa de falar.
— Isso acontece sempre?
— Não…
— A última vez faz muito tempo?
— Tem mês.
— O que aconteceu?
— Comecei a usar fone de ouvido.
A música sertaneja amortecia a realidade, e o rapaz, a serviço de quem pode, dissimulava a brutalidade.





Historicamente, a luta pelos direitos animais sempre foi feita por pessoas sensíveis e racionais

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Henry Salt, pioneiro da perspectiva moderna na luta pelos direitos animais (Foto: Reprodução)

Historicamente, a luta pelos direitos animais sempre foi feita por pessoas sensíveis e racionais; e com uma compreensão da realidade muito além do seu tempo. Não interessa em que período. A história está cheia desses exemplos. Na realidade, antes mesmo da concepção moderna dos direitos animais fundamentada no trabalho de Henry Salt, da Liga Humanitária inglesa, esses ideais de respeito à vida independente de espécie já vinham sendo moldados ao longo dos séculos.

Antes da era cristã e da formatação do antropocentrismo, já encontrávamos pessoas indo na contramão dessa displicência em torno da objetificação animal que ganhou proporções piramidais após a Revolução Industrial. Encaro essas pessoas como observadores e visionários dos desdobramentos de uma nociva realidade concreta. Hoje temos o privilégio de ter um bom número, claro que embora não o suficiente, de pessoas com quem podemos compartilhar francamente nossas ideias.

Agora imagine a realidade dessas pessoas no tempo em que viveram. Menos do que loucos e tolos não eram considerados ostensivamente por muitos. Não são raros os exemplos daqueles que foram desrespeitados e sofreram perseguições exaustivamente, sendo empurrados à marginalização; ainda assim não desistiram. Valeu a pena? Não tenho dúvida, porque os exemplos e os ideais contemporâneos não se fizeram sozinhos.





Artistas se unem e lançam coleção de contos infantis veganos

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São seis livros em que os protagonistas são animais regularmente explorados e mortos para fins humanos

Livros estão à venda na lojinha do projeto PAZ (Imagens: Divulgação)

Desde 2014, Marcya Harco, Paulo Roberto Drummond e Daniela Benite realizam ações de artivismo em defesa dos animais. E foi com essa motivação que recentemente publicaram a coleção de livros “PAZ – Pessoas e Animais, AmiZades Legais”, que apresenta às crianças alguns contos com histórias de animais comumente explorados. De acordo com o trio que compõe o projeto PAZ, sediado em São Paulo e que dá nome à coleção, eles tiveram a preocupação em apresentar cada história de maneira delicada e lúdica. Nos seis livros, intitulados “Vera”, George”, “Márcia”, “Gary”, “Jill” e “Ismael”, os protagonistas, que são animais, almejam sempre a liberdade e uma vida justa.

Um diferencial da coleção, e que ajuda a fortalecer a mensagem de que os leitores têm bons motivos para incluir também os animais explorados para consumo em seu círculo moral, é que em cada conto há um ser humano com um olhar sensível em relação aos animais lutando para salvá-los de qualquer exploração. Para entender melhor a proposta do projeto, entrevistei Marcya, Paulo e Daniela sobre a coleção e a sua receptividade, além da importância da literatura infantil e projetos futuros, dentre outros assuntos. Confira:

Sei que os livros da coleção “PAZ – Pessoas e Animais, AmiZades Legais” são voltados principalmente ao público infantil, mas há uma faixa etária específica a quem essas obras são direcionadas?

Todos os contos são ilustrados e sugeridos para crianças a partir dos 3 anos​, com leitura compartilhada. Depois de alfabetizadas, são indicados para até 10 anos ou mais, dependendo de como tocam cada pessoa. No entanto, pessoas de todas as faixas etárias têm se interessado e adquirido os livros.

Como foi a ideia de dar nomes únicos de personagens a cada um dos livros?

Cada título leva nome de um animal que é personagem principal e tem a sua história de vida retratada. Sempre acreditamos que o animal incluído na comunidade moral teria o seu espaço como pessoa respeitado, com todos os direitos. Então é assim que o vemos. Nós já o incluímos e assim o tratamos. O nome corresponde à sua identidade como pessoa. Essa questão do nome é muito significativa. Conhecemos há muitos anos um fazendeiro que criava algumas vacas. Ele se afeiçoou mais a uma delas e deu-lhe um nome como pessoa. Depois ele teve muita dificuldade em permitir que ela fosse assassinada para consumo. Era visível a crise de consciência diante da possibilidade de morte da nova amiga.

Cada livro traz um conto diferente, o que significa uma história singular. Porém, há algo que une todas essas histórias como partes de uma mesma unidade?

​Sim, os protagonistas de ​cada história são animais regularmente explorados e mortos para fins humanos: Jiil, uma vaca; Ismael, um porco; Gary, um peixe; Márcia, uma galinha; George, um peru; e Vera, uma coelha. Nesse primeiro momento foi primordial considerar os animais criados e abatidos em grande escala. Outra questão é que há, em todos os contos, um ser humano, criança ou adulto, envolvido na salvação de cada animal herói do conto.

Há um caráter de importância em ler todos os livros para entender melhor cada história?

​ ​​O interessante em ler toda a coleção é possibilitar às crianças a construção de um olhar sensível para todos os animais. Ao leitor ou leitora com mais vivência, permite ampliar a percepção para a desconstrução de histórias de exploração animal consideradas “normais” em nossa sociedade. É importante esclarecer que a coleção PAZ tem um caráter lúdico e delicado, com uma linguagem extremamente acessível a todos e todas.

Como vocês veem a importância da literatura infantil contra a exploração animal?

​As obras literárias, as quais afastam a visão antropocêntrica do mundo, podem colaborar para a construção de conhecimento da criança, no sentido de sua formação, como pessoas críticas diante da atual condição dos animais e de todo o habitat de vida na Terra. O estímulo à empatia, ao afeto, à compaixão, e principalmente ao respeito e à consideração ética em relação aos animais não humanos são parâmetros para que a literatura infantil se torne uma ferramenta pedagógica primordial para o processo educativo de todas as crianças. Uma sociedade que maltrata animais, considerando-os como mercadoria e propriedade será sempre opressora e violenta, em facetas diversas, tanto com os animais não humanos quanto conosco, humanos.

Quais são os predicados de um bom livro para sensibilizar crianças em relação aos direitos animais?

​Primeiramente, afastar a perspectiva antropomórfica e zoomórfica sobre os animais não humanos​. Os personagens animais não estão para falarem das qualidades e dos defeitos humanos, mas retratarem suas próprias histórias e desejos, como sujeitos morais. Estimular a empatia, o respeito, a afetividade e a consideração pelos sentimentos dos animais. De preferência, livros de fácil manuseio e ilustrados.

Entre a idealização e a conclusão do livro foi preciso bastante tempo?

​A ideia surgiu em 2015. Em seguida, o Paulo Roberto Drummond iniciou a escrita dos contos, e em 2016 a Daniela Benite, começou o trabalho com as ilustrações. Em 2017, entramos com uma campanha de crowdfunding [financiamento coletivo] e ​ao final do ano enviamos o material para a gráfica.​

Houve alguma dificuldade nesse processo?

​Muita. Não tínhamos verba. Então foi uma luta insana, dia e noite, ​trabalhando na campanha de crowdfunding. A Marcya Harco teve um problema de saúde e precisou ser internada durante um mês, em razão de uma hérnia de disco extrusa. Nesse tempo, apesar da dificuldade em se locomover, ela levou o seu notebook e realizou a diagramação dos livros no hospital mesmo. Ao final, não arrecadamos o que pretendíamos, mas conseguimos produzir uma quantidade modesta da coleção.

Como tem sido a receptividade?

​Incrível! Modéstia à parte, as pessoas que adquiriram os livros têm elogiado muito as histórias, as ilustrações e o projeto em si. Comentam sobre a boa receptividade e o encantamento das crianças pelos contos. Estamos muito felizes por isso.

Os livros já têm sido utilizados em escolas?

Tivemos uma reunião em São Paulo com os dirigentes ​da primeira escola vegana do Brasil, a Nativa Escola, localizada em João Pessoa [Paraíba]. A escola vai adotar a coleção PAZ como material pedagógico ​para crianças do ensino infantil e fundamental I. Algumas professoras da rede pública, que apoiam o veganismo, adquiriram os livros para leitura em sala de aula.

Vocês têm maior predileção por algum dos contos em específico?

Não temos um livro predileto. São histórias lúdicas, às vezes poéticas, de aventuras, de personagens, animais e pessoas [crianças e adultos], que lutam para um mundo ético, sem violência, sem escravidão, com paz, compaixão e libertação para todos. Cada livro tem um valor intrínseco.

Consideram difícil a publicação de livros com temática vegana no Brasil?

​ ​​Olha, como fizemos um projeto autônomo, não pesquisamos muito essa questão. Mas imaginamos que não deva ser muito fácil ainda. A ideia da coleção surgiu dentro de um projeto que estávamos iniciando, que é o projeto PAZ – Pessoas e Animais, AmiZades Legais. Ela nasceu como primeira realização desse projeto, que tem o objetivo de fomentar e reverberar ações que difundam as inter-relações positivas, que já existem pelo mundo, entre pessoas humanas e pessoas animais. Isso no foco, principalmente, dos animais que são violentamente explorados. Queremos dizer: “Olha, você ainda come o porco, mas veja esse porco aqui. Ele tem um amigo humano que respeita a sua vida e o seu modo de ser.” Acreditamos que ações como essa também possam colaborar no convencimento, no esclarecimento, já que, se formos pensar em Kant, o veganismo não poderia ser uma espécie de adeus a menoridade do indivíduo? ​

Há previsão de novas parcerias e publicação de mais livros?

Estamos em busca de parceiros para uma nova edição da coleção atual. Também estamos planejando uma outra coleção de livros para mais adiante. Já nos sugeriram procurar editoras, mas aí a coleção, de cuja venda queremos gerar recurso para financiar outras atividades do projeto PAZ, deixará de oferecer essa oportunidade. Uma vez que só conseguiríamos receber 10% do que for arrecadado. Por isso, estamos pensando em uma forma de produzir, por exemplo, uma tiragem de mil exemplares da coleção. Dessas mil coleções, uma boa parte seria distribuída para as crianças, ONGs, instituições e escolas de baixa renda, e a outra parte fomentaria outras ações do PAZ.

Falem um pouco também do trabalho de vocês com a arte como instrumento de reflexão sobre o respeito à vida animal não humana. Sei que, para além da literatura, vocês também trabalham com teatro e intervenções artísticas voltadas para essa conscientização.

​A arte é uma expressão sensível e habilidosa de uma experiência estética, que por via sensorial, altera a percepção ao nosso redor, provocando a desautomatização do cotidiano. O ato artístico não deve ser apenas uma informação. É necessário que se proponha uma experiência ou vivência. A obra artística deve tocar as pessoas no campo da sensibilidade, estimulando-as a se colocarem diante da sociedade de forma mais ativa, consciente e crítica. Mas, como podemos fazer uma arte em que o espectador passe do papel de contemplador passivo para ativo? É preciso que a arte proporcione uma experiência. Sem experiência, não há sensibilização nem reflexão e​ muito menos​ incitará ​uma ​transformação.

Por isso, desde 2014 realizamos ações de artivismo em defesa dos animais. Trabalhamos com teatro e frequentemente realizamos atividades artísticas dirigidas às crianças, por meio de apresentações teatrais e oficinas pedagógicas​. Pensamos que uma educação consciente, a qual​ prioriza o respeito pela v​ida, seja​ a base para proporcionar um mundo de paz. Buscamos realizar ações de artivismo (arte + ativismo) por meio de linguagens diversas, como cenas teatrais, performances visuais, poesia, narração de histórias, literatura, entre outras. Nossas ações artísticas têm como objetivo propor experiências que possibilitem o despertar da empatia e da consciência afetiva das pessoas, com o intuito de impulsionar ações que modifiquem a​ ​atual ​realidade especista, violenta​​ e absurdamente injusta, as quais os animais não humanos são subjugados e agredidos​. Transformações no âmbito do veganismo, visto que este é o único caminho real em direção a libertação e reconhecimento dos animais não humanos como seres morais e de direitos. Para tanto, as experiências e fruições artísticas têm que ser significativas.

Os seis livros veganos que compõem a coleção estão à venda na lojinha do Projeto PAZ:

http://pazpessoaseanimais.com/#!lojinha

Você também pode acompanhá-los no Facebook:

https://www.facebook.com/pazpessoaseanimais/





Alguns motivos para repensar o consumo de laticínios

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O que acontece com as vacas quando cai a produção leiteira? Elas são enviadas para o matadouro (Foto: Reprodução)

Em qualquer vídeo publicado na internet sobre a exploração de vacas na indústria leiteira, mostrando as consequências para a saúde do animal, aparecem pessoas que vivem dessa exploração tentando desqualificar o que foi mostrado.

Tudo bem, e o que acontece com as vacas quando cai a produção leiteira? Elas são enviadas para o matadouro. Ou seja, são mortas, e reduzidas à carne assim como o boi. Não é à toa que o Gary Francione diz que vê mais sofrimento em um copo de leite do que em um pedaço de carne. Afinal, elas passam por dois tipos de exploração.

Não creio que seja coerente usar o discurso da Mimosa, do gibi do Chico Bento. Afinal, a indústria trabalha com prazos, e esses prazos não levam em conta as necessidades do animal que estão além da produção, como específicos fatores emocionais e psicológicos que costumam ser voláteis.

É intrigante notar que depois de ser explorada diariamente para a extração de leite (o que inclusive gera um desgaste à saúde do animal), o “produtor” ainda retribui a cortesia enviando a vaca para a morte. Estou errado? Me mostre uma vaca leiteira que “morreu de velhice” ou quando deixou de produzir passou a ser tratada como um “membro da família”.

Vamos dizer que hipoteticamente a vaca seja bem tratada. E o que é feito com o bezerro macho, considerado descartável pela indústria leiteira? Não conheço produtores de leite que criam bezerros machos, até porque não têm utilidade para eles. Então o destino comum é a morte. E claro, a vaca fica extremamente estressada quando é separada do filho, que na maioria das vezes não volta a reencontrar. Não seria esta uma reação natural de mãe? Que direito temos de intervir nisso? E olhe que nem discorri sobre os nose flaps, usados para forçar o desmame dos bezerros.

Ademais, as doenças modernas desenvolvidas em vacas leiteiras estão intrinsecamente ligadas ao sistema de produção, ou seja, de exploração. Logo na minha opinião isso prova que não existe nada de natural nessa prática. Condiciona-se um animal a viver como se fosse isento de vontades e anseios básicos e complexos, ou seja, como uma máquina de produção.





Written by David Arioch

March 29th, 2018 at 1:09 am

Será que o bacalhau sofre antes de morrer? Com certeza!

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Foto: The New York Times

Um animal que costuma ser consumido no feriado da Sexta-Feira Santa e na Páscoa é o bacalhau, que por ser um peixe é subestimado enquanto ser senciente. Afinal, será que ele sofre antes de morrer? Com certeza! Assim como outros peixes, o bacalhau agoniza fora da água e morre asfixiado. E claro, ele não se entrega de bom gosto. O peixe luta pela vida o máximo que pode, assim como qualquer um de nós faríamos na iminência da morte.

A espécie mais tradicional de bacalhau, o bacalhau-do-atlântico ou gadus morhua, tem uma expectativa de vida de 25 anos. Porém, devido à intervenção humana, dificilmente ele passa dos primeiros anos de vida. Depois de capturado, se estiver dentro do peso almejado, o bacalhau é degolado e tem sua barriga aberta. Após a retirada das vísceras e guelras, o animal é decapitado.

Então o abrem ao meio, retiram parte da espinha dorsal, o lavam e o cobrem com sal antes de expô-lo ao sol. Depois de passar por uma desidratação de mais de 50%, o peixe é comercializado e consumido. Embora cientistas não possam dar uma resposta definitiva sobre os níveis de consciência dos peixes, tudo indica que, além da senciência semelhante a dos mamíferos, o bacalhau tem uma singular sofisticação comportamental e cognitiva.

Mas, claro, são fatores pouco divulgados e costumeiramente ignorados. O bacalhau costuma ser visto apenas como uma “iguaria” a ser servida frita, assada, cozida ou grelhada, e sempre em pedaços, sem qualquer enfática associação com um animal. A maior prova disso é que a maioria das pessoas que consome o bacalhau não sabe citar quais espécies marinhas que deram-lhe origem.

A maioria também desconhece o fato de que o gadus morhua, o melanogrammus, o micromesistius e o pollachius, espécies identificadas como “bacalhau” estão na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN). Ou seja, consumir bacalhau é também uma forma de aproximar essas espécies da extinção.

Isso não é fato recente. Segundo a revista científica The Canadian Journal of Fisheries and Aquatic Sciences, as populações de bacalhau começaram a entrar em colapso na década de 1990. Outro ponto crítico é que há muito tempo o bacalhau é capturado e condicionado a viver em cativeiro por até dois anos, ou seja, distante do seu habitat, simplesmente engordando até o momento do abate.

No artigo “Fish Intelligence, Sentience and Ethics”, publicado na revista Animal Cognition, o professor Cullum Brown, do Departamento de Ciências Biológicas da Macquarie University, em Sidney, na Austrália, escreveu que peixes como o bacalhau têm suas próprias tradições, inteligência sofisticada e capacidade de cooperação e reconciliação, além de facilidade em reconhecer uns aos outros.

“O nível de complexidade mental deles está no mesmo nível de outros vertebrados, e há evidências de que eles podem sentir dor de maneira semelhante aos seres humanos”, registrou. Será que não deveríamos incluí-lo no nosso círculo moral? Ou seja, não faltam motivos para reconhecer que o bacalhau, assim como outros peixes, também deveria ter direito à vida e não merece ser reduzido a alimento.





 

Os perigos do projeto de lei do deputado Valdir Colatto que quer liberar a caça e o comércio de animais silvestres no Brasil

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Desconsiderando o impacto na vida selvagem, Valdir Colatto quer transformar a caça em um negócio lucrativo (Fotos: Reprodução)

Em 2016, o deputado federal Valdir Colatto (PMDB-SC), da Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), também conhecida como bancada ruralista, apresentou o projeto de lei nº 6.268, que dispõe sobre a política nacional de fauna. Em síntese, o projeto, que já foi rejeitado pelo relator e presidente da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CMADS), deputado federal Nilto Tatto (PT-SP), ainda busca relaxamento das leis ambientais brasileiras.

Sem dúvida, a tentativa de flexibilização representa um claro retrocesso se considerarmos que prevê até mesmo a alteração no Código de Caça brasileiro, editado em 1967, proibindo a caça em todo o território nacional por entender que a realidade brasileira não perpassa pela necessidade de caça de animais silvestres. Porém, Colatto alega que hoje em dia a proximidade de animais silvestres com o meio rural coloca em risco pessoas, propriedades e rebanhos, o que na sua perspectiva justifica a liberação da caça.

Talvez seja válido perguntar, como em 2018 os animais silvestres podem ser vistos como uma ameaça que já não representavam em 1967? Principalmente se considerarmos que da década de 1960 até a atualidade houve uma redução, não um aumento da fauna brasileira.  Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o Brasil conta com 1051 espécies da fauna avaliadas como ameaçadas de extinção.

Outro fato a se ponderar é que animais silvestres, apontados como uma ameaça pelo deputado federal Valdir Colatto, normalmente só invadem propriedades por dois fatores – perda de habitat e fome, e tanto a perda de habitat quanto a fome estão associadas ao desmatamento. Afinal, nenhum animal deixa a natureza selvagem por espontânea vontade. Logo se os animais silvestres se tornam uma ameaça, isto acontece simplesmente em decorrência da má intervenção humana visando a lucratividade.

Um exemplo dessa má intervenção foi denunciado pelo vídeo “Eu Sou Mudança – Consumo Consciente”, lançado pelo Google em julho do ano passado, revelando que mais de 750 mil quilômetros quadrados de floresta foram destruídos somente na Amazônia e, desse total, dois terços transformados em pasto, o equivalente ao tamanho da Espanha.

Mas então Colatto e seus asseclas podem alegar que a liberação da caça atende aos interesses ambientais de conservacionismo, ou seja, manutenção da vida selvagem. Tudo bem. Vamos considerar que a proposta realmente seja essa. Em um país como o Brasil, onde a fiscalização da fauna e da flora sempre foi crítica, limitada e excludente, como isso funcionaria na prática? Quais os instrumentos que seriam usados para coibir, por exemplo, o tráfico de animais silvestres em um país com a caça liberada e marcado por corrupção e flexibilização legal baseada no pagamento de propinas? O projeto, que já é inconsistente em essência, não apresenta nenhum tipo de solução para questões como essa.

No tocante ao chamado “plano de manejo”, o PL é permissivo em relação à comercialização de animais caçados e capturados na natureza. Também abre um precedente para que animais selvagens sejam mortos em unidades de conservação de proteção integral, mas remanejados para outras áreas e comercializados com documentações que omitem informações sobre a verdadeira origem dos animais – assim não se enquadrando como crime, já que animais poderão ser mortos livremente dependendo da declaração de origem. Afinal, qual órgão será capaz de coibir isso em tempo hábil? Com quais recursos? Já que o projeto tem abrangência nacional.

O biólogo João de Deus Medeiros, doutor em botânica, professor e chefe do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Santa Cantarina (UFSC), aponta que o projeto de lei de Colatto concede licença para utilização, perseguição, aprisionamento, manutenção, caça, abate, pesca, captura, coleta, exposição, transporte e comércio de animais da fauna silvestre, além de permitir modificar, danificar ou destruir ninhos, abrigos ou criadouros naturais, ou realizar qualquer atividade que impeça a reprodução de animais da fauna silvestre. Além disso, propõe o uso de cães para caçar em Unidades de Conservação (UCs). Ou seja, locais que por excelência deveriam garantir a segurança e o bem-estar desses animais.

Para muito além da questão “conservacionista”, e de “proteção à vida e à propriedade”, Colatto também defende que a caça pode se tornar uma fonte de renda, o que coloca os animais silvestres em uma situação ainda mais crítica de vulnerabilidade e incentivo à violência contra outras espécies de animais. O IBGE condena tal prática, informando que a diversidade da fauna brasileira tem levado à falsa ideia de abundância, o que costuma levar à destruição. O órgão argumenta que entre as principais causas da redução da fauna brasileira estão a perseguição de espécies de animais para fins comerciais (ornamento, lazer e consumo); destruição do habitat provocado pelo crescimento desordenado do país; poluição do ar e dos rios pelo uso de defensivos agrícolas e outras substâncias químicas; e, claro, o desmatamento.

Para quem não conhece o projeto de lei nº 6.268/2016, é importante saber que o texto discorre sobre a implantação de criadouros comerciais, áreas dotadas de instalações para o manejo e a criação de espécies da fauna silvestre com fins econômicos e industriais. De acordo com o IBGE, diariamente o Brasil mata mais de 16 milhões de frangos, mais de 118 mil porcos e mais de 84 mil bovinos. Será que já não matamos animais demais? E isso apenas citando três espécies de animais domesticados e criados com fins comerciais. O projeto ainda permite a instalação de criadouros científicos, ou seja, a exploração de animais silvestres em pesquisas científicas em universidades e centros de pesquisa. Essa é outra medida que é vista como um retrocesso, levando em conta que hoje em dia discute-se no mundo todo o banimento do uso de animais em pesquisas, já que além de ser uma prática desnecessária, considerando outros meios de obter inclusive melhores resultados sem usar animais, é evidentemente cruel.

Em síntese, o PL defende que a caça de animais silvestres pode ser colocada em prática com diversas finalidades, como alimentação, entretenimento, defesa e fins comercias. Também visa autorizar importação e exportação de animais, e permite que zoológicos possam comercializá-los. Ademais, o projeto defende a anulação do agravamento de até o triplo da pena de detenção de seis meses a um ano para quem matar, perseguir, caçar, apanhar ou utilizar animais sem licença, o que impacta diretamente na lei 9.605/98, que versa sobre crimes ambientais.

Autor do projeto que pode acarretar graves e trágicas consequências para os animais silvestres, o deputado federal Valdir Colatto (PMDB-SC), ligado à Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), é autor de oito projetos contra os direitos indígenas, segundo a República dos Ruralistas, além de apoiar pautas de outros parlamentares que convergem para a redução desses direitos. “É um dos autores da PLP 227/2012 [demarcação de terras indígenas], membro da comissão especial da PEC 215/2000 [demarcação de terras indígenas] e votou a favor da alteração do Código Florestal [favorecendo o desmatamento]”, informa a República dos Ruralistas. No ano passado, Colatto ganhou os holofotes por cobrar do presidente Michel Temer a liberação de plantio em terras indígenas.

O biólogo João de Deus Medeiros, doutor em botânica, professor e chefe do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Santa Cantarina (UFSC), critica que Valdir Colatto, que é técnico agrícola, engenheiro agrônomo e coordenador da Comissão de Direitos de Propriedade, se intitula um defensor da natureza, mas sempre coloca os interesses do homem em primeiro lugar; e uma prova disso é esse projeto que impacta negativamente na vida selvagem.

Em 2015, três etnias indígenas de Santa Catarina, os Xokleng Laklãnõ, Kaigang e Guarani, repudiaram as declarações de Colatto afirmando que os índios catarinenses eram favoráveis à PEC 215. “Isso é uma mentira! Esse senhor não representa a nenhum de nós”, registraram os índios em uma carta aberta publicada no site da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).  Mesmo com a contrariedade, o projeto de demarcação de terras indígenas defendido por Colatto e pela bancada ruralista foi aprovado.

Em relação à vulnerabilidade de animais silvestres diante de um projeto que visa ampliar a objetificação ou a coisificação animal, talvez seja válida uma reflexão compartilhada pelo professor de história israelense Yuval Noah Harari no artigo “Industrial farming is one of the worst crimes in history” no jornal britânico The Guardian. Harari é autor do best-seller “Sapiens: Uma Breve História da Humanidade”, lançado oficialmente em 2014:

“A marcha do progresso humano está repleta de animais mortos. Há dezenas de milhares de anos, nossos antepassados da idade da pedra já eram responsáveis por uma série de desastres ecológicos. Quando os primeiros humanos chegaram à Austrália há cerca de 45 mil anos, eles rapidamente promoveram a extinção de 90% dos grandes animais. Esse foi o primeiro impacto significativo que o Homo sapiens teve no ecossistema do planeta. E não foi o último. Cerca de 15 mil anos atrás os humanos colonizaram a América, eliminando cerca de 75% dos mamíferos. Numerosas outras espécies desapareceram da África, da Eurásia e das miríades de ilhas ao redor de suas costas.”





 

Sobre o sofrimento de animais selvagens em armadilhas II

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Foto: Reprodução

Na primeira hora em que um animal selvagem é preso em uma armadilha, não raramente o desespero faz com que ele comece a mastigar os seus próprios membros na tentativa de se livrar da situação. Isto porque a dor é tão visceral que ele é capaz de qualquer coisa para tentar sobreviver, mesmo que os ferimentos posteriores também possam causar-lhe a morte caso ele não receba nenhum tipo de ajuda.

Referência

Animal Ethics in Animal Research, livro de autoria de Helena Röcklinsberg e publicado em outubro de 2017 pela Editora da Universidade de Cambridge.





 

Quando Tom Regan pediu ao Papa Francisco para falar sobre a crueldade contra os animais

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Tom Regan pediu ao Papa Francisco para intervir em favor dos animais em 2014 (Fotos: Reprodução)

Falecido no dia 17 de fevereiro de 2017, Tom Regan, um dos mais proeminentes filósofos na luta pelos direitos animais, publicou uma carta aberta em novembro de 2014 pedindo ao Papa Francisco para falar sobre a crueldade contra os animais:

Santo Padre, todos os cristãos imploram a você: fale sobre a crueldade contra as criaturas de Deus, anualmente é negado a bilhões os desígnios de Deus, e eles não são tratados nem com a misericórdia de Cristo nem com a compaixão de Deus.

Ao entrar em mais um ano de seu papado, todos os cristãos oram com fervor e esperançosamente por sua boa saúde e coragem em nome da justiça, misericórdia e paz – tanto na igreja quanto no mundo. Como alguém que compartilha seu compromisso de justiça com todas as criaturas de Deus, fiquei encantado com a sua escolha de nome: Francisco.

De todas as virtudes que o seu homônimo possuía, nenhuma é mais sinônimo de seu nome do que o seu amor pelos animais. Ele os chamava de “irmãos” e “irmãs”, e era famoso por pregar aos pássaros – e até mesmo aos peixes! Em uma ocasião, ele assumiu a responsabilidade de persuadir um lobo a parar de atacar os agricultores locais se eles concordassem em alimentá-lo. Transformar um carnívoro em um vegano? Nada representa melhor o poder de São Francisco.

Como São Francisco acha que seus irmãos e irmãs de pelos, penas e barbatanas devem ser tratados? Ele deve ter acreditado que o que acontece com eles é importante para eles, independente de qualquer interesse humano. Por que ele pensaria nesses termos? Porque o que acontece com eles faz a diferença na qualidade e duração de suas vidas. Ou eles vivem uma vida longa e frutífera, o que São Francisco preferiria, ou eles sofreriam e morreriam prematuramente.

Naturalmente, Papa Francisco, você, como todos nós, certamente acredita que maus-tratos a qualquer uma das criaturas de Deus são contra a vontade de Deus. Se os animais têm direitos ou não, claramente merecem ser tratados com misericórdia, bondade, gratidão e simpatia, respeito e admiração. Quem em sã consciência pode ser contra o cuidado humano no tratamento das criaturas?

Bem, evidentemente isso depende. Considere alguns exemplos do que acontece com animais em laboratórios de pesquisa. Gatos, cães, primatas não humanos, e outros animais são afogados, sufocados e morrem de fome. Eles são queimados, submetidos à radiação e usados como “cobaias” em pesquisas militares. Seus olhos são removidos cirurgicamente e sua audição é destruída. Eles têm seus membros decepados e órgãos esmagados. Meios invasivos são usados para causar-lhes ataques cardíacos, úlceras e convulsões.

Eles são privados do sono, submetidos a choques elétricos e expostos a extremos de calor e frio. Cada um desses procedimentos e resultados está em conformidade com todas as leis federais em todos os lugares. Cada um está em conformidade com o que os inspetores federais consideram como “cuidado e tratamento humano.” Essa mesma ideologia se aplica a como os animais criados em fazenda são tratados. É um procedimento padrão fazer com que os bezerros “vitelos” passem a vida confinados individualmente em baias estreitas, tão estreitas que são incapazes de se virar.

As galinhas poedeiras vivem um ano ou mais em gaiolas do tamanho de um gaveteiro, são sete ou mais por gaiola, e depois disso são rotineiramente mantidas famintas por duas semanas para incentivar outro ciclo de produção de ovos. Porcas são alojadas por quatro ou cinco anos em barras cercadas individuais (“gaiolas de gestação”), pouco mais largas que seus corpos, onde são forçadas a dar à luz ninhada após ninhada. Até recentemente, devido ao susto da [doença da] “vaca louca”, o gado bovino e leiteiro, muito fraco para resistir, foi arrastado e enviado para o abate. Gansos e patos são alimentados à força com o equivalente a 30 libras [mais de 13 quilos] de comida por dia para aumentar o seu fígado para melhor atender a demanda por foie gras.

Todas essas condições e procedimentos demonstram a falta de compromisso da indústria com a misericórdia e gentileza, compaixão e simpatia. E o que a criação “humanitária” de peles ou armadilhas permite? Aqui estão alguns exemplos.  Em fábricas de peles, martas, chinchilas, guaxinins, linces, raposas e outros animais são confinados em gaiolas de tela metálica enquanto suas vidas durarem. As horas de vigília são gastas andando de um lado para o outro, ou balançando a cabeça, ou pulando para os lados de suas gaiolas, ou se mutilando, ou canibalizando seus companheiros de gaiola.

A morte é causada pela quebra de seus pescoços, ou por asfixia (usando dióxido de carbono ou monóxido de carbono), ou empurrando hastes elétricas em seus ânus para “fritá-los” de dentro para fora. Os animais presos em armadilhas instaladas na natureza levam uma média de 15 horas para morrer. As vítimas frequentemente mastigam os seus próprios membros na tentativa inócua de recuperar a sua liberdade. Apesar da óbvia crueldade, tudo isso é perfeitamente legal.

Santo Padre, todos os cristãos imploram a você: fale sobre a crueldade contra as criaturas de Deus, anualmente é negado a bilhões os desígnios de Deus, e eles não são tratados nem com a misericórdia de Cristo nem com a compaixão de Deus. Entre seus outros problemas e preocupações, por favor, honre São Francisco de Assis e o chamado do Catecismo levantando sua voz em nome dos outros animais de Deus.

Tom Regan foi professor de filosofia da Universidade Estadual da Carolina do Norte, onde lecionou por 34 anos. Conquistou prestígio internacional por sua produção prolífica voltada ao abolicionismo animal. Em 1983, publicou “The Case for Animal Rights”, que teve grande repercussão no contexto mundial dos direitos animais. Em 2006, Regan teve o seu livro “Empty Cages”, ou “Jaulas Vazias”, publicado no Brasil.

Tradução: David Arioch