David Arioch – Jornalismo Cultural

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O covarde assassinato de Alcides de Sordi

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Jovem idealista foi morto na entrada da delegacia com a conivência da polícia

Capitão Telmo assumiu autoria do assassinato de Alcides de Sordi (Foto: Reprodução)

Em 1947, o jovem Alcides de Sordi ficou conhecido em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, como defensor dos interesses dos mais pobres. No ano seguinte, por representar uma ameaça aos mais abastados, foi assassinado dentro da delegacia com a conivência das autoridades.

Paranavaí ainda era distrito de Mandaguari quando houve um dos crimes mais polêmicos da história local, jamais esquecido pelos pioneiros: o homicídio de Alcides de Sordi, de 21 anos, membro da União Democrática Nacional (UDN). Alcides começou a chamar a atenção na colônia por ter uma participação política bastante ativa.

Naquele tempo, Paranavaí era administrada pelo marceneiro Hugo Doubek que depois foi transferido para Curitiba. “Na oportunidade, o Capitão Telmo Ribeiro decidiu colocar o João Carraro para assumir a inspetoria de terras”, lembrou o ex-prefeito Ulisses Faria Bandeira.

A partir daí, nasceu uma animosidade entre o capitão Telmo, membro do Partido Social Democrático (PSD), e o grupo político de Alcides que não concordava com a substituição, tanto é que realizaram um abaixo-assinado e colheram mais de cem assinaturas para tirar o novo inspetor do cargo.

A iniciativa surgiu quando Alcides de Sordi descobriu que Carraro estava dando terras de uma área conhecida como Água Nova para amigos do governador Moisés Lupion, com a conivência do engenheiro Alberto Gineste. João Carraro não aguentou a pressão e deixou a função pouco tempo depois.

Alcides aproveitou a oportunidade para entrar em contato com Hugo Doubek, o convencendo a reassumir o cargo em Paranavaí. Ao retornar de viagem, Telmo Ribeiro soube do acontecido. “Ele fez uma promessa de passar uma bala na cabeça do Alcides. Com medo, muita gente foi embora daqui”, relatou o pioneiro mineiro Arlindo Francisco Borges.

A polêmica sobre quem assumiria em definitivo o cargo de administrador do distrito durou mais de um mês, até que Doubek decidiu voltar para Curitiba. Então Alcides de Sordi fez um convite a Faria Bandeira para comandar a inspetoria. Ulisses Faria hesitou, mas depois aceitou. “Aqui dava medo porque o povo andava de carabina de dia e de noite”, revelou o pioneiro paraibano Cincinato Cassiano Silva.

Após alguns meses, a situação parecia normalizada e ninguém mais comentava sobre o conflito político. À época, Telmo Ribeiro, que representava o Governo do Paraná na colônia, teria tentado elevar o preço dos títulos de terras. “O alqueire custava 80 mil réis e ele quis aumentar para 500 mil. O Alcides achou que era muito dinheiro para o pessoal daqui, pois a maioria era pobre”, assinalou o pioneiro paulista João da Silva Franco, complementando que grande parte dos moradores de Paranavaí tinha condições de pagar no máximo 150 mil réis por alqueire. Indignado, de Sordi viajou até Curitiba para registrar uma queixa formal contra o capitão Telmo.

Telmo Ribeiro assume autoria do homicídio

No dia 12 de outubro de 1948, poucos dias depois de retornar de viagem, quando estava em casa plantando feijão, Alcides de Sordi recebeu um convite para ir até a delegacia conversar com o sargento Marcelino, a maior autoridade policial da colônia. “Falaram a ele que o sargento faria uma viagem e precisava que ele o substituísse por um tempo”, frisou João Franco.

Naquele dia, Cincinato Cassiano foi levar comida para o cunhado que estava trabalhando em uma chácara. No caminho, encontrou Alcides indo ao encontro do sargento. “Houve uma discussão na delegacia e quando o de Sordi estava saindo meteram-lhe uma bala pela nuca que varou pela testa”, enfatizou Arlindo Borges, acrescentando que a morte foi instantânea. Outros pioneiros dizem que o rapaz levou sete tiros e logo após o acontecido Telmo Ribeiro, Oscar Camargo e o engenheiro Alberto Gineste fugiram em um automóvel e se esconderam na Fazenda Tabajara, nas imediações de Guairaçá.

Especula-se que pouco antes do crime tenham pressionado Alcides para não se envolver mais com política. Além de Ribeiro, Camargo e Gineste, estavam José Francisco, o sargento Marcelino, os soldados Olívio e Francisco e o paraguaio Marciano. Há suspeitas de que Frutuoso Joaquim de Salles, o baixinho Idalécio e outros pioneiros não identificados estavam no local do assassinato. “Tudo foi preparado e quem estava lá sabia o que iria acontecer”, informou Franco. Mesmo após o assassinato, nenhuma das testemunhas saiu em defesa de Alcides.

Parte da população soube do crime durante cerimônia de crisma (Foto: Reprodução)

Naquele dia, o bispo de Jacarezinho, Dom Geraldo de Proença Sigaud, estava realizando uma cerimônia de crisma em Paranavaí. Durante a solenidade muita gente chorou pela morte do rapaz. Todos aqueles que eram do grupo político de Alcides de Sordi deixaram Paranavaí dias depois. “Quase cem pessoas foram embora, largando sítio e até família”, lembrou Borges.

O capitão Telmo Ribeiro assumiu a autoria do assassinato. Em primeira instância, foi condenado a doze anos de reclusão. Recorreu e foi absolvido em 10 de março de 1950. Ribeiro trabalhava para o governo paranaense e tinha grande influência política. Esperto e carismático, o capitão cultivava amizade com o ex-interventor federal Manoel Ribas e com o governador Moisés Lupion. “O Telmo assumiu, mas quem deu o primeiro tiro foi o engenheiro Alberto Gineste que viveu em Paranavaí até morrer de desgosto”, testemunhou João da Silva.

Franco lembrou que muita gente queria se juntar para matar Ribeiro. João de Sordi, pai de Alcides, não concordou. Disse que entregava a Deus porque acreditava que ele faria justiça. De acordo com a pioneira fluminense Palmira Gonçalves Egger, homens armados percorreram a colônia o dia todo ao longo de 20 dias após o acontecido. Alguns pioneiros afirmaram que eram membros de um grupo conhecido como “Capa Preta” que simpatizava com Alcides de Sordi. “Isso assombrou a cidade”, ressaltou Palmira. Mais tarde, o fato fez com que Telmo Ribeiro se afastasse da política.

Saiba Mais

Em 1950, segundo relatos de pioneiros, o advogado Accioly Filho, deputado estadual pelo PSD, que representou o réu Telmo Ribeiro, expediu um boletim com as palavras: “…e assim senhores do Conselho de Sentença, em nome do Partido Social Democrático, eu vos peço que absolvam este nosso correligionário que se acha no banco dos réus, porque ele, embora seja um criminoso, é do governo.”

Curiosidade

Alcides de Sordi era filho do casal João de Sordi e Angela Locatelli de Sordi, de São José do Rio Pardo, interior paulista, que se mudaram para Paranavaí em 1947. O casal veio com o mesmo objetivo de outros pioneiros, proporcionar melhor qualidade de vida aos cinco filhos. Na colônia, o primeiro negócio da família foi a instalação de uma máquina beneficiadora de arroz.

Frases dos pioneiros sobre Alcides de Sordi

Enéias Tirapeli

“Coitado do rapaz, estava plantando feijão e mandaram chamar ele lá. Foi o maior tiroteio. Ele caiu morto perto da porta da cadeia. Foi por causa de política, ele era um rapaz muito bom.”

João da Silva Franco

“Alcides de Sordi era um rapaz muito bom, solteiro, humilde e inocente. O povo contava que achavam o Alcides competente para ser o administrador geral da colônia.”

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Quando a Brasileira entrou em decadência

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Na década de 1930, o progresso de Paranavaí foi comprometido pelo esvaziamento populacional

Tourinho retomou áreas da Brasileira para o Estado (Foto: Reprodução)

Decreto criado pelo Governo do Paraná em 1931, limitando a quantidade de terras a 200 hectares por pessoa ou família, desestimulou colonizadores a ficarem na Fazenda Brasileira, atual Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Alguns deixaram o povoado quando souberam que a colonização seria supervisionada pelo governo estadual. Para os oportunistas, era algo que poderia comprometer a exploração da mão de obra barata. Por isso, vários contratantes convenceram muitos colonos a partirem. A consequência foi o esvaziamento populacional.

Em 8 de abril de 1931, o interventor e general Mário Tourinho, ciente da onda de crimes na Fazenda Brasileira, assinou decreto retomando as terras da localidade para o Estado e autorizando o início dos loteamentos da então futura Paranavaí. Por essa atitude há quem responsabilize Tourinho pelo início da decadência da Brasileira, já que as terras sob controle do governo estadual trouxeram a Paranavaí uma enorme burocracia. Pioneiros afirmam que a morosidade para se conseguir um terreno fez muitos moradores irem embora para outros povoados, locais onde o acesso à terra era mais fácil.

Outros defendem que o decreto afastou muitos colonizadores porque estes viviam da exploração dos colonos nordestinos, vistos como mão de obra barata pelos pioneiros do Sul e Sudeste. “A informação de que o governo acompanharia de perto tudo que acontecia na colônia intimidou muita gente”, relata o pioneiro cearense João Mariano. Alguns proprietários rurais tentaram convencer os colonos a irem embora com eles, fazendo promessas de melhor remuneração e também de boas condições de trabalho.

A situação era tão ruim que muitos colonos trabalhavam apenas para comer e ainda assim ficavam endividados. “Quando o sujeito ia até a venda acertar as contas era informado que estava em débito, então além de não ter condições de viver com dignidade, ele não podia ir embora porque corria risco, já que estava devendo. O patrão sempre dava um jeito de endividar o empregado”, relata Mariano.

Manoel Ribas (ao centro) veio para a Brasileira em 1933

Em 1933, o interventor Manoel Ribas visitou a Fazenda Brasileira. Naquele tempo, o acesso ao povoado só era possível por uma estrada que findava no Rio Paranapanema. Para facilitar o contato com as outras colônias e cidades do Paraná, além de diminuir a influência paulista na localidade, Ribas pediu que o engenheiro Francisco Natel de Camargo iniciasse a abertura de uma nova estrada que começava em Arapongas, no Norte Central Paranaense.

Mesmo assim, nada impediu que a Brasileira sofresse um esvaziamento populacional, o que também comprometeu o progresso local. De um total de aproximadamente seis mil habitantes que viviam aqui em 1930, não restaram nem 500 para dar conta dos mil alqueires de pés de café.

Período obscuro perdurou até 1944

A falta de mão de obra estimulou outros a irem embora, e logo parte do cafezal foi coberto pelo mato. Aqueles que continuaram aqui aproveitavam para colher o que podiam. Transportavam até Presidente Prudente, onde o produto era comercializado. Muitos cafeeiros foram plantados onde estão localizados o Cemitério Municipal (ao lado do Colégio Unidade Polo), Colégio Estadual de Paranavaí (CEP) e Jardim Ipê.

À época, havia centenas de casas no Jardim Ouro Branco, mas muitas foram abandonadas com o passar dos anos. A situação piorou com o início da Segunda Guerra Mundial e as sanções que o Governo do Paraná impôs às colônias, inclusive com relação ao transporte de pessoas, cargas e animais.

Estrada Boiadeira ligava o povoado ao resto do Paraná

Em 1939, o capitão Telmo Ribeiro, que chegou ao povoado por intermédio do interventor Manoel Ribas, tentou atrair migrantes para a Fazenda Brasileira. A estratégia do capitão foi ordenar a manutenção da estrada aberta por Camargo. O resultado não foi o esperado. Apesar disso, o caminho se tornou atrativo para moradores de Guarapuava e Campo Mourão que percorriam longas distâncias a procura de gado abandonado.

Aqui foram arrebanhados centenas de animais, o que justifica o nome “Estrada Boiadeira”. Tudo isso aconteceu quando Paranavaí contava com mais de 300 alqueires só de pastagens, por onde o gado circulava com total liberdade. Em 1943, dez anos depois do Estado assumir a Inspetoria de Terras, não havia mais que 80 casas na Brasileira e o total de habitantes mal chegava a 500. Foi um período obscuro e de pouca produtividade que perdurou até 1944.

Ninguém podia deixar a Fazenda Brasileira

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Quem abandonava o povoado era assassinado a tiros às margens do Paranapanema

Paranapanema, cenário de muitos crimes nos tempos da colonização (Foto: Reprodução)

Na década de 1930, a Fazenda Brasileira, atual Paranavaí, no Noroeste do Paraná, era conhecida como terra sem lei. Os migrantes que vinham para cá em busca de melhores condições de vida não podiam abandonar o povoado. Quem se arriscava a fugir era assassinado a tiros às margens do Rio Paranapanema, com a conivência dos colonizadores.

A história da colonização de Paranavaí é marcada por muita luta e perseverança, principalmente dos colonos. No entanto, o que a maioria da população desconhece até hoje é que em 1930 as regras já eram ditadas por colonizadores e jagunços que se colocavam acima da lei.

No ano em que Getúlio Vargas assumiu como presidente do Brasil, o Paraná ainda preservava 87% de vegetação primitiva. O novo governo federal tinha grande interesse na quase inabitada Vila Montoya, no Noroeste, que pertencia a Tibagi, no Centro Oriental Paranaense. A área então, que era da Companhia Brasileira de Viação e Comércio (Braviaco), foi repassada ao jornalista e político gaúcho Lindolfo Collor (avô do ex-presidente Fernando Collor de Mello), um dos participantes da Revolução de 1930.

No mesmo ano, foram trazidas à Brasileira cerca de 1,2 mil famílias de migrantes, principalmente do Sudeste e Nordeste, para trabalharem na lavoura de café sob regime de colonato. Naquele tempo, já vivia aqui, desde 1929, época do Distrito de Montoya, o falecido pioneiro pernambucano Frutuoso Joaquim de Sales, das primeiras levas de migrantes trazidos pelo engenheiro agrônomo baiano Joaquim Rocha Medeiros.

Frutuoso Sales vivenciou período mais obscuro da história local (Foto: Reprodução)

Sales é sempre apontado como o pioneiro que vivenciou o período mais obscuro da história de Paranavaí, embora sempre evitasse falar a respeito. Preferia assuntos maleáveis, os mais simples e triviais. “Em 1930, ele era o responsável pelo transporte de café, sabia de muitas coisas, mas para não comprometer a si mesmo e a terceiros sempre fugia de temas polêmicos, principalmente quando alguém perguntava sobre os crimes do passado”, declara o pioneiro mineiro Sátiro Dias de Melo que foi muito amigo de Frutuoso.

No ano em que Sales era responsável pelas cargas que entravam e saíam da Fazenda Brasileira, inúmeras famílias insatisfeitas com as condições de trabalho decidiram partir. Com o consentimento do contratante, os colonos recebiam os vencimentos, recolhiam os pertences e eram acompanhados até as margens do Rio Paranapanema, de onde sempre partia alguma balsa com destino ao Estado de São Paulo.

Antes da travessia, colonos e familiares eram assassinados a tiros por jagunços que trabalhavam para os colonizadores. Alguns eram mortos às margens do rio, já outros, abatidos quando estavam de costas, durante a travessia. Segundo relatos de pioneiros, os capangas abriam os corpos das vítimas, extraíam todas as vísceras, enchiam de pedras, costuravam e jogavam no Paranapanema, conhecido pelo enorme cardume de piranhas. As histórias sobre os crimes praticados contra os colonos impediram que muita gente fosse embora da Fazenda Brasileira. Os fatos disseminavam terror e medo.

A morte à espreita no Rio Paranapanema

De vez em quando, alguns migrantes, mesmo cientes do risco, preferiam se aventurar na fuga, o que dá uma ideia da dimensão do padrão de vida subumano imposto aos colonos na Fazenda Brasileira. O pioneiro Natal Francisco viu isso de perto quando deixou Presidente Prudente, em São Paulo, para conhecer o Noroeste do Paraná. Acompanhado pelo irmão José Francisco, guiou um Ford movido a gasogênio até o Porto Ceará, às margens do Rio Paranapanema.

Lá, perguntaram ao balseiro sobre a Brasileira. O rapaz os alertou que deveriam deixar o veículo, caso não quisessem perdê-lo. “Disse também que a gente corria risco de morte vindo pra cá”, informou Natal Francisco em entrevista concedida ao escritor Paulo Marcelo Soares Silva, publicada no livro História de Paranavaí, lançado em 1988. Muitos migrantes chegavam à Fazenda Brasileira partindo de uma estrada que ligava Presidente Prudente, Porto Ceará, Povoado de Cristo Rei, Gleba-1, Piracema e Porto São José.

Depois de oito dias na Brasileira, os irmãos Francisco estavam retornando ao Porto Ceará quando ouviram o som de um acordeão. Surpresos, mas curiosos, adentraram a mata. Antes que vissem qualquer coisa, uma mulher gritou. “Pelo amor de Deus, não mata nóis. Tamo fugindo, mas tamo quase morto.” Mesmo assustados, Natal e o irmão ligaram as lanternas para ver se tinha mais alguém ali. O marido da moça estava caído no chão com a roupa rasgada e uma sanfona sobre o peito todo ensanguentado.

O casal de colonos enganou os jagunços e fugiu da Fazenda Brasileira. Às margens do Rio Paranapanema, improvisaram uma jangada para navegar até o Porto Ceará. Enquanto isso, alguns capangas chegaram até a beira do rio. De lá, atiraram e acertaram o rapaz que sobreviveu com a ajuda dos irmãos Francisco.

Curiosidade

Em abril de 1931, quando o interventor e general Mário Tourinho retomou as terras do Noroeste para o Governo do Estado do Paraná, o interventor estabeleceu por decreto que nenhuma pessoa ou família poderia ter títulos de propriedade que ultrapassassem 200 hectares, iniciando assim uma nova ordem na Fazenda Brasileira.

A arte de transformar o trivial em extraordinário

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Artista plástico usa pedras e pedaços de madeira descartados como matéria-prima

Barbosa com escultura criada em homenagem a filha e a neta (Crédito: David Arioch)

“Se você prestar atenção, a madeira sempre olha pra gente” (Foto: David Arioch

O talento para as artes plásticas, Antonio de Menezes Barbosa descobriu décadas atrás, quando recriou símbolos do pioneirismo em Paranavaí. Após um longo hiato, retomou a atividade há dois anos, período em que já transformou pedras e pedaços de madeira descartados em obras de contemplação.

“Comecei trabalhando a madeira, fazendo miniaturas de traçador, marreta e rastelo. Achei interessante”, conta o ex-caminhoneiro Antonio de Menezes Barbosa, citando as primeiras obras carregadas de nostalgia. Barbosa e o pai derrubaram muitas árvores usando traçador durante a colonização de Paranavaí.

Desde a primeira experiência como artista, se passaram mais de 30 anos. A profissão de caminhoneiro o afastou das artes plásticas até julho de 2007. “Eu estava em uma praia ao lado do Porto de Savona, a 43 quilômetros de Gênova, na Itália. Comecei a recolher pedrinhas que a água do mar trazia até as margens. Então as usei para criar uma réplica do Pão-de-Açúcar e outra de um navio. Foi o retorno”, lembra Barbosa.

Já no final de 2008, Menezes trabalhava em Maringá quando se deparou com uma peça de madeira que seria incinerada. O então caminhoneiro ofereceu um pedaço de lenha ao proprietário em troca da peça. A sensibilidade de Barbosa o fez enxergar na pequena bacia de madeira a idealização de uma barriga feminina.

Artista com obra criada a partir de pedaços de seis tipos de madeira (Foto: David Arioch)

Artista e obra criada a partir de pedaços de seis tipos de madeira (Foto: David Arioch)

Com pequenos pedaços de seis tipos de madeira encontrados ocasionalmente, o artista criou uma mulher grávida em três meses. “Usei morcegueira, ipê, pau-brasil, eucalipto, sibipiruna e mais outra espécie. Durante o período de produção, dediquei uma hora a uma hora e meia por dia”, afirma Menezes. A diversidade dos tipos de madeira usadas pelo artista remete a uma simbologia da natureza heterogênea da mulher brasileira, conhecida pela miscigenação.

Algumas das peças, Barbosa precisa lapidar para chegar a forma ideal. Outras, como que por um advento divino, parecem existir para serem encontradas pelo artista que vê beleza e perfeição naquilo que muitos consideram trivial. “Usei folhas de ipê para fazer as lentes dos óculos da mulher grávida”, justifica.

A profusão da sensibilidade artística de Antonio de Menezes Barbosa também é percebida em simples, mas poéticas frases como: “Se você prestar atenção, a madeira sempre olha pra gente.” Independente da interpretação, é inegável que a árvore um dia ceifada transcende, como se ganhasse uma nova vida, sob a criatividade de Barbosa. Exemplo disso é a escultura da personagem feminina que segura uma lamparina. “É pra iluminar os homens. Eles precisam de muita luz”, declara. Com um sorriso bucólico, diz não se considerar artista, mas um catador de galhos e pedras.

“Pedras e galhos sempre dão o formato de alguma coisa”

O ex-caminhoneiro Antonio de Menezes Barbosa encara a criação de esculturas como um passatempo. “Provavelmente vou me dedicar mais quando me aposentar, quem sabe ainda este ano”, informa o artista. Barbosa coleciona pedras do Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Tocantins, Pará e Rondônia. “Pedras e galhos sempre dão o formato de alguma coisa. Não desperdiço nada”, declara.

Menezes, que também faz esculturas em arame, já homenageou a filha e a neta, professora e estudante de música, ao criar uma personagem feminina tocando um violino. “Aproveitei até a semente do pau-brasil pra fazer o instrumento”, enfatiza, acrescentando que a peça foi totalmente idealizada antes de começar a criá-la.

A próxima obra de Barbosa será o homem fatiado, talvez a criação de caráter mais subjetivo. “Também quero fazer um médico segurando uma garotinha recém-nascida”, adianta. Com olhos marejados, Antonio de Menezes mostra algumas preciosidades da Segunda Guerra Mundial. São restos de porcelana e azulejos de banheiro que ele guarda como se fossem tesouro, pequenos fragmentos que remetem a um bombardeio em Milão, na Itália.

O dia em que a água acabou

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Em 1957, Joaquim Pereira Briso abasteceu Terra Rica com água de um poço particular

Moradores exibem como troféu a água trazida do centro de Terra Rica (Crédito: Reprodução)

Moradores exibem como troféu a água trazida do centro de Terra Rica (Foto: Reprodução)

Em 1956, durante a colonização, a população de Terra Rica, no Noroeste do Paraná, enfrentou muitas dificuldades envolvendo saneamento básico. Mas o diferencial veio no ano seguinte, quando uma eventualidade fez um serrador se tornar o principal fornecedor de água da cidade.

De acordo com o pioneiro Antônio Carlos Lage, ex-vice-prefeito e ex vereador, a população de Terra Rica enfrentou problemas com o abastecimento de água de janeiro de 1957 a 1970. À época, o município ainda não tinha sistema de saneamento. “A gente tinha que buscar água em um caminhão pipa que ficava parado no centro”, conta Lage.

Segundo o pesquisador Edson Paulo Calírio, a situação era tão complicada que muitos moradores perdiam horas do dia carregando grandes baldes até a região central, onde os enchiam com água e, mesmo muito pesados, percorriam quilômetros até chegar em casa. Naquele tempo, o déficit era tão grande que as famílias se reuniam para decidir se a água seria usada para lavar roupa ou louça.

Centro da cidade na época da chegada de Joaquim Briso (Crédito: Reprodução)

Centro da cidade na época da chegada de Joaquim Briso (Foto: Reprodução)

Tudo ficou mais difícil em 1957, quando, certo dia, os moradores foram até o centro da cidade e não encontraram água. O problema se tornou calamidade ao saberem que, por uma eventualidade, ficariam sem o caminhão pipa por tempo indeterminado. O veículo era o único meio para transportar a água do rio até o cidade. “Terra Rica foi fundada por pessoas pobres e humildes. Então naquele tempo era difícil encontrar alguém com condições financeiras para fazer um poço”, relata o pioneiro Joaquim Luiz Pereira Briso.

Naquele ano, Briso era o único morador de Terra Rica que tinha um poço. Segundo ele, não como um artifício de luxo, mas de necessidade, pois constantemente precisava de água no trabalho. “Eu tinha uma serraria, e o poço foi feito ali mesmo pra abastecer a minha máquina a vapor. Mas quando soube do problema, resolvi ajudar. No mesmo dia, o pessoal foi lá buscar água. Alguns iam a pé, outros iam de carroça”, lembra Joaquim Briso emocionado.

O pioneiro passou dias sem dormir ajudando a população a tirar água do poço que tinha pouco mais de 50 metros de profundidade. Segundo Antônio Lage, era uma época de muita solidariedade. “As pessoas naturalmente tinham muito calor humano para dar”, salienta o ex-vice-prefeito em tom calmo e reflexivo.

No início da década de 1960, as primeiras torneiras foram instaladas no centro de Terra Rica. Porém, Edson Calírio reitera que a água ainda era limitada. “Agora a gente vê a recompensa. Não dependemos diretamente do governo estadual. Temos uma autarquia municipal que oferece água e rede de esgoto para toda a população. Além disso, a nossa água atualmente é a mais barata do Paraná”, assegura o pesquisador.

“Viajava porque era obrigado”

O pioneiro Joaquim Luiz Pereira Briso chegou a Terra Rica em 1956, já com a intenção de construir uma serraria. “Dava para contar nos dedos das mãos quantas casas tinha aqui”, afirma Briso que descobriu a cidade por acaso.

Durante uma viagem, deixando a cidade natal de Paraguaçu Paulista, em São Paulo, Joaquim Briso atravessou a fronteira com o Paraná e chegou ao Porto São José. Viajou motivado pela curiosidade. “Tinha só um boteco montado aqui. O resto, era só mata, daqui até Nova Londrina”, explica.

Surpreso pela quantidade exorbitante de terras devolutas, o pioneiro não pensou duas vezes e decidiu começar uma nova vida no Paraná.  Retornou a Paraguaçu Paulista para avisar os familiares e se mudou para Terra Rica.

A motivação foi determinante para aguentar uma nova viagem de 14 horas dentro de um jipe. “Não existia nem estrada, só carreador. Então viajar naquele tempo era visto como coisa de aventureiro”, conta o pioneiro. Joaquim Luiz tinha pouco ou nenhum prazer durante as viagens, já que toda vez corria o risco do veículo atolar. Segundo o pioneiro, era muito comum encontrar caminhões e carros abandonados pelo caminho.

“Viajava porque era obrigado. Tinha negócios em São Paulo e no Rio de Janeiro. Então pegar a estrada era uma luta. Saía daqui hoje para chegar a uma cidade próxima amanhã. Quando viajava, demorava uns dias pra voltar, cansava demais”, revela.

À época, os moradores de Terra Rica mantinham mais contato com Estados da região Sudeste do que do Sul. “Nossa ligação era com o Estado de São Paulo”, complementa Briso em referência aos primeiros pioneiros que eram paulistas.

Viagem a Paranavaí durava cinco horas

Até o final da década de 1950, uma viagem de Terra Rica a Paranavaí durava em média cinco horas. O pioneiro Antônio Carlos Lage é testemunha disso. Ele e o também pioneiro Joaquim Luiz Pereira Briso tinham negócios com o Banco Comercial, então quando precisavam vir a Paranavaí, iam até um boteco em frente a Estação Rodoviária de Terra Rica e convidavam mais pessoas para viajarem de graça.

Antônio Lage buscava pessoas em frente a Estação Rodoviária (Crédito: Reprodução)

Antônio Lage buscava pessoas em frente a Estação Rodoviária (Foto: Reprodução)

Mas a cortesia de vez em quando tinha um preço. Quando o jipe atolava, todo mundo tinha de descer e ajudar. “Eram 60 quilômetros. Hoje, um trajeto curtíssimo. Naquele tempo, por causa da precariedade da estrada, parecia que estávamos no fim do mundo”, avalia Lage que, acompanhando Joaquim Briso, chegou a Terra Rica em 1956.

Briso se recorda com clareza de outra desventura muito comum na década de 1950: o atraso na entrega de correspondências. Certa vez, a mãe de Joaquim Briso adoeceu e, como não havia serviço telefônico na região, a mulher do então serrador enviou um telegrama para informá-lo do acontecido.

A correspondência despachada de Paraguaçu Paulista, São Paulo, chegou em Terra Rica depois de 20 dias. “Fiquei aqui seis dias e depois decidi viajar para a minha terra. Quando cheguei lá, vi minha mãe doente. Fiquei uns dias lá e retornei. Passaram-se mais uns dias antes do telegrama chegar”, assinala Joaquim Luiz.

Frases de destaque – Antônio Carlos Lage

“Tudo faz parte do começo de uma cidade, mas ela não se faz logo com tudo, surge aos poucos.”

“Terra Rica é uma cidade onde um dava a mão ao outro, até por questão de necessidade.”

Saiba mais

Em 1965, Terra Rica chegou ao ápice da produção cafeeira: 400 mil sacas de café beneficiado.

A colonização de Terra Rica foi feita por pioneiros paulistas que vieram ao Paraná com a intenção de produzir café.

As derrubadas de mata começaram em 1949 e se intensificaram de 1950 a 1952.

A colonização de Terra Rica foi feita pela Sociedade Imobiliária do Noroeste do Paraná (Sinop).

Paranavaiense ou mandaguariense?

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População de Paranavaí teve de registrar os filhos em Mandaguari até 1952

Em 1950, Paranavaí ainda era distrito de Mandaguari (Foto: Toshikazu Takahashi)

Em 1950, Paranavaí ainda era distrito de Mandaguari (Foto: Toshikazu Takahashi)

Até 1952, muitos moradores de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, enfrentaram dificuldades para se casar e registrar os filhos. Naquele tempo, Paranavaí era apenas um distrito de Mandaguari e não tinha cartório próprio.

Os produtores rurais Gabriel e Francisca Schiroff, que chegaram a Paranavaí nessa época e fixaram residência em Graciosa, lembram com preciosismo as agruras de um tempo que a comunidade distrital se resumia a 50 famílias. “Tudo era muito difícil e Paranavaí ainda era distrito de Mandaguari. A situação só começou a melhorar no final de 1952, quando aqui virou cidade”, conta o pioneiro Gabriel Schiroff.

Até então, antes de Paranavaí tornar-se município em 14 de dezembro de 1952, era comum Mandaguari constar como cidade natal no registro de nascimento. Exemplo é o produtor rural Eugênio Vandresen, residente em Graciosa, que enfrentou uma situação inusitada por ter nascido naquele ano. “Quando fui servir o exército em Brasília, me perguntaram onde nasci. Então respondi Paranavaí, daí retrucaram que eu não sabia onde nasci, já que consta Mandaguari”, destaca Vandresen rindo. Outro problema apontado pela pioneira Francisca Schiroff era a inexistência de padre e igreja na “cidade”.

Pais começaram a registrar os filhos em Paranavaí só em 1953 (Foto: Toshikazu Takahashi)

Pais começaram a registrar os filhos em Paranavaí só em 1953 (Foto: Toshikazu Takahashi)

Mesmo com a condição oficial de município, houve muitos casos de pais que, em função da distância até o cartório, registravam os filhos até meses depois. Para não pagar multa, mentiam para o cartorário, informando que a criança nasceu no dia em que o registro era feito. “Nasci em 7 de maio de 1956, mas na certidão de nascimento consta 20 de julho. Ou seja, meu pai me registrou mais de dois meses depois. Esse tipo de coisa acontecia principalmente com quem morava na zona rural”, exemplifica a empreiteira Maria Neuza Silva.

Situações inimagináveis na atualidade faziam parte do cotidiano de quem viveu em Paranavaí nos primeiros anos da década de 1950. Exemplo é o tio de Eugênio Vandresen que, acompanhado da noiva, saiu de Graciosa e foi até Mandaguari a pé para se casar. Depois de oficializado o matrimônio, retornaram para casa, onde parentes e amigos preparavam a festança. “Parece algo impossível, mas na época não era. Hoje, se alguém tiver de fazer isso, desiste de se casar”, comenta Gabriel Schiroff às gargalhadas, ressaltando a força de vontade dos habitantes da época.

Mas, segundo a pioneira Francisca, no final da década de 1950, a realidade de quem vivia em Graciosa ou na zona rural de Paranavaí mudou bastante. “A partir dessa época, a cidade começou a evoluir e tudo ficou mais fácil. Só quem viveu aquele período entende isso”, avalia.

À época, a população de Graciosa só deixava o distrito quando surgia alguma grande necessidade (Acervo: Ordem do Carmo)

À época, a população de Graciosa só deixava o distrito quando surgia alguma grande necessidade (Acervo: Ordem do Carmo)

Viagem tinha de valer a pena

Imagine um grupo de pessoas subindo sobre a carroceria do velho caminhão de uma serraria; único transporte acessível para chegar até a cidade. Logo depois de alguns minutos no carreador, o veículo apresenta um problema mecânico e todo mundo é obrigado a descer.

Ao redor, sentem apenas um forte cheiro de vegetação queimada; colonizadores estão ateando fogo no mato. Enquanto as chamas se alastram, a fumaça se conduz até o carreador. No horizonte, o ponto de referência para a cidade é perdido, restando apenas uma saída: contornar o trajeto da queimada.

A realidade descrita acima foi vivenciada inúmeras vezes por Francisca Schiroff e outros pioneiros de Graciosa, quando se aventuravam em sair do distrito para vir a Paranavaí. “Ninguém podia se dar ao luxo de ficar doente. Quando o caminhão da serraria não passava por aqui, a gente recorria ao meu cunhado que tinha um Ford 1950. Só chamávamos ele quando alguém realmente precisava de médico”, revela a pioneira.

“Vendia muito pão de fubá porque ainda não existia padaria”

A população de Graciosa só deixava o povoado quando surgia alguma necessidade primária. A mais comum era a aquisição de roupas. As compras eram feitas nas duas lojas que existiam na cidade. Uma de propriedade de Carlos Faber e a outra de Severino Colombelli.

Francisca Schiroff era exceção. Deixava Graciosa mesmo quando os carreadores estavam intransitáveis. Enquanto a maioria vinha a Paranavaí quatro vezes por ano, ela se aventurava pelo menos uma vez por mês. “Tudo que era feito no sítio, a gente levava para vender na cidade. Lembro que vendia muito pão de fubá porque ainda não existia padaria. O pessoal adorava broa de milho”, relata a pioneira sorrindo.

Nos anos 1950, de acordo com Gabriel Schiroff, os clientes gostavam muito de comprar banha de porco porque o óleo de cozinha ainda não era comercializado. “Era muito bom, principalmente para frituras”, enfatiza. O sucesso dos produtos rendeu fama aos produtores rurais de Graciosa. Tanto que quando alguma carroça do distrito chegava carregada de alimentos, a população da cidade a cercava. “Sabiam sempre qual o dia que estaríamos lá. Nem era preciso dizer”, complementa Francisca.

Curiosidade

Francisca Schiroff nasceu no Patrimônio de São José, em Santa Catarina. Como não havia cartório no local, foi registrada em uma cidade próxima – Braço do Norte.

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