Archive for November, 2012
A ode à natureza de Leaves of Grass
Obra é considerada a mais emblemática de Walt Whitman
Em 4 de julho de 1855, o poeta humanista estadunidense Walt Whiman publicou “Leaves of Grass”, ou “Folhas de Relva”, um livro muito barato (é possível encontrar até por menos de R$ 20), considerando a sua grandiosidade reflexiva. Logo na primeira leitura faz qualquer pessoa se questionar sobre o desespero da humanidade em meio ao consumismo e materialismo, embora não seja algo tão direto ou explícito.
É uma obra transcendental que mergulha no simbolismo para construir alegorias que de forma sorrateira ou até arrebatadora subtraem o ser humano de sua leniência, torpor e preguiça existencial – aqui me refiro ao viver para além de si mesmo e do próprio bolso. No livro, não há moralidade, assim como não há imoralidade, o próprio título faz menção a uma relva que incorporada na natureza carrega também a essência e o espírito dos humanos e dos animais.
Em Leaves of Grass, Whitman exalta a vida em todas as suas formas, ressaltando que a poesia já nasce embutida não apenas na natureza, mas também no ser humano, embora interpreto que nos dias atuais, com o emergir do individualismo, não seja nada difícil encontrar quem negue o tempo todo a si mesmo o direito à existência poética e harmoniosa. Em um mundo caótico e intolerante, de grande desenvolvimento de males psicológicos, ler Walt Whitman é mais salutar que um medicamento, com o bônus de que não há colaterais negativos.
Abaixo cito um fragmento do meu exemplar de Leaves of Grass:
“Ame a terra, o sol e os animais. Despreze as riquezas, dê esmolas a todos aqueles que lhe pedem. Levante-se para o burro e também para o louco. Dedique também sua renda e trabalho aos outros. Odeie tiranos e não discuta sobre religião. Tenha paciência e indulgência para com o povo e sempre tire o chapéu para conhecidos ou desconhecidos. Leia estas folhas ao ar livre em cada estação de cada ano da sua vida e reexamine tudo o que foi dito na escola, igreja, livro ou qualquer outro lugar. Rejeite tudo aquilo que ofende a sua alma e carne e será um grande poema. Terá uma fluência mais rica não apenas em palavras, mas nas linhas silenciosas de seus lábios e rosto, e ainda entre os cílios de seus olhos e cada movimento e articulação do seu corpo.”
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
Lindolfo Collor e a Revolução de 1930
O gaúcho Lindolfo Boeckel Collor, avô de Fernando Collor de Mello, foi um político de distinta envergadura moral, participante da Revolução de 1930, evento que teve consequências drásticas para Paranavaí, então Vila Montoya, no Noroeste do Paraná.
Em 1930, toda a população de Montoya teve de partir porque a concessão de terras da região concedida à Companhia Braviaco foi revogada. O empresário e jornalista baiano Geraldo Rocha, proprietário do Jornal A Noite, sediado no Rio de Janeiro, e seu amigo e sócio Landulpho Alves, um homem que mais tarde teria importância fundamental na criação da Petrobrás, apoiaram Júlio Prestes.
Então veio a represália, e a região pagou o preço graças ao Governo Provisório de Getúlio Vargas. Lindolfo Collor recebeu das mãos do presidente Vargas um documento que permitia a exploração de toda a nossa região um dia chamada de Fazenda Ivaí.
Boeckel Collor poderia ter lucrado muito explorando Paranavaí, assim como outros políticos fizeram, já que naquele tempo a ex-Vila Montoya somava uma área imensa, chegando a fronteira com Mato Grosso, atual Mato Grosso do Sul, e São Paulo. Porém, idealista como era, teve um sério conflito com Getúlio Vargas e abriu mão do cargo no alto escalão do Governo Provisório.
Lutou pela deposição de Vargas, mas, assim como outros, foi enganado pelo próprio amigo e interventor gaúcho Flores da Cunha que se aliou ao Governo Getuliano. Em 1931, traído e vivendo na Riviera Argentina com alguns companheiros, Lindolfo Boeckel narrou toda a conspiração em uma publicação que em 15 de outubro de 1932 ganhou as ruas sob o título de “Manifesto ao Rio Grande do Sul, a São Paulo e à Nação”.
Quinta da Regaleira e a Divina Comédia

Andares que fazem referência aos círculos do inferno, paraíso e purgatório de Dante Alighieri (Foto: Sagrario Gallego)
A Quinta da Regaleira, em Sintra, Portugal, tem como grande atrativo um túnel subterrâneo concluído em 1910. O local conta com uma escada em espiral sustentada por colunas esculpidas até o fundo de um poço ligado a algumas cavernas labirínticas que levam a um jardim aterrador ladeado por um lago.
Os nove andares da quinta foram construídos em referência aos nove círculos do inferno, paraíso e purgatório da obra Divina Comédia, do escritor italiano Dante Alighieri. A arquitetura remete aos estilos gótico, romano, renascentista e manuelino.
A Casa da Pedra, uma adaptação ao natural
Situada na Serra de Fafe, em Portugal, a Casa da Pedra preserva na parte interior o mesmo estilo rústico do exterior. Lá dentro, há somente alguns móveis pequenos e velas que recriam uma atmosfera digna de outros tempos.
A casa construída a partir de quatro pedras enormes levou dois anos para ser concluída. Para o acabamento, o pai de Vitor Rodrigues, idealizador da Casa da Pedra, utilizou pedregulhos semelhantes às rochas originais.
O mais interessante é que a residência foi concebida se adaptando às formas rochosas, ou seja, nada foi quebrado. No piso inferior, há sala e cozinha. Já no superior, estão os três quartos e um banheiro.
Tudo foi construído aproveitando com precisão o espaço entre as pedras.Infelizmente, quando a Casa da Pedra se tornou popular, o local começou a atrair intrusos e ladrões. Há pouco tempo, furtaram até telhas da propriedade.
A Lenda do Mindinho, segundo o Kaingang Paranaense
Um dia, quando aconteceu um grande dilúvio, um homem salvou-se trepando numa palmeira jerivá. Enquanto as pontas dos seus pés pendiam na água, ele se dispôs a comer as frutas. Logo os dourados vieram para apanhar os caroços, mas por engano morderam os dedos do pé do homem. Por isso, temos um dedo do pé bem menor que os demais.
Referência: Iandé, Casa das Culturas Indígenas
Hermann Hesse se correspondia com mais de seis mil leitores
Embora ostracista, o escritor alemão Hermann Hesse, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1946, se correspondia com pessoas do mundo todo. Às vezes, mais de 1/3 do seu dia era dedicado a responder cartas. Ao longo da vida, recebeu mais de 20 mil correspondências de mais de seis mil remetentes de 100 países, segundo o Arquivo Suíço de Literatura. Todas foram respondidas por Hesse que curiosamente não gostava de visitas. O escritor é famoso por obras que se tornaram clássicos da literatura mundial, como “Demian”, “Sidarta”, “O Lobo da Estepe”, “Narciso e Goldmund” e “O Jogo das Contas de Vidro”.
A miséria dos Breaker Boys
Pensilvânia – Em 1910, a escravidão infantil não se limitava mais ao campo. Esta foto de Lewis Hine é um dos primeiros registros históricos da exploração de menores. Na imagem, aparecem os “Breaker Boys”, crianças e adolescentes que trabalhavam o dia todo separando o carvão da ardósia para as indústrias.
O linchamento de dois jovens negros em 1930
Foto do crime foi transformada em cartão postal
Em 7 de agosto de 1930, um adolescente branco de Marion, Indiana, nos Estados Unidos, acusou Shipp Thomas e Abram Smith, dois jovens negros, de terem estuprado a sua namorada. A falsa acusação foi o suficiente para gerar uma comoção que reuniu 10 mil homens brancos armados com marretas em frente a delegacia do condado.
Depois de tirarem os rapazes da prisão, os espancaram e os enforcaram com a conivência da polícia. Por sorte, um terceiro rapaz negro, James Cameron, escapou de ser assassinado porque o tio da moça insistiu na afirmação de que ele era inocente.
À época, as fotos de linchamentos de negros eram transformadas em cartões postais com a intenção de mostrar o “orgulho da supremacia branca”. A imagem do fotógrafo Lawrence Beitler vendeu milhares de cópias, tanto que ele passou dez dias sem dormir para reproduzi-las. Mais tarde, as fotos de violência contra negros tiveram efeito reverso. As cenas de tortura e mutilação irritaram muito mais do que agradaram; despertaram medo até na população branca.
Era um crime tão comum naquele tempo que ganhou um novo termo: “Judge Lynch”. A foto da morte de Thomas e Smith, que mostra apenas um linchamento dentre os mais de cinco mil documentados até o final dos anos 1960, tornou-se icônica, tanto que surgiram poemas, livros e canções baseados na imagem. Um exemplo é o poema “Strange Fruit”, do poeta judeu Abel Meeropol, transformado em música por Billie Holiday. Outro clássico é “Desolation Row”, de Bob Dylan, que será eternamente lembrada pelo trecho “Eles estão vendendo cartões postais do enforcamento”.
São informações que se tornaram públicas somente em 1982, quando o sobrevivente James Cameron, o terceiro jovem que escapou do enforcamento, publicou o livro “A Time of Terror: A Survivor’s Story”.
Referência
Cameron, James. A Time of Terror: A Survivor’s Story, 1994. Black Classic Press.
O último judeu de Vinnytsia

Soldado da Einsatzgruppen D. prestes a assassinar o último judeu de Vinnytsia (Arquivo: Holocaust Research)
Erwin Bingel: “Parecia uma convocação inofensiva”
Em setembro de 1941, o tenente Erwin Bingel, oficial da Wehrmacht, chegou a Vinnytsia, no Sul da Ucrânia, para ajudar o comandante do Distrito de Uman. Líder da Einsatzgruppen D., Bingel sabia que estavam cavando uma quantidade absurda de valas por quase toda a área do aeródromo.
Então no dia 22, o alto comando ordenou que todos os judeus fossem reunidos para o recenseamento demográfico. Obviamente, todos compareceram. No início, houve um diálogo normal entre os prisioneiros e os nazistas, principalmente os homens da SS, responsáveis pelo trabalho direto. “Parecia uma convocação inofensiva, tanto que até mesmo eu me surpreendi e fiquei horrorizado com o que aconteceu nas horas seguintes”, admitiu o tenente da Wehrmacht.
Os nazistas ordenaram que os judeus entregassem todos os pertences, se despissem e avançassem alguns passos. A qualidade das joias mostrava que muitos eram ricos. Nus, os semitas foram obrigados a ficarem em frente as valas, independente de sexo. Em seguida, um grupo da Einsatzgruppen D se afastou até uma linha traçada ao chão e com pistolas automáticas atiraram com destreza e naturalidade.
Muitos caíram nas covas enquanto pás de cal eram arremessadas sobre os corpos ainda se debatendo. A estratégia visava evitar o contato físico direto com as vítimas. O processo de se despir e ficar em frente as valas se repetiu por um sem número de vezes. Alguns eram obrigados a assistir o extermínio dos familiares enquanto aguardavam a vez.
A foto que acompanha o texto mostra um soldado da famigerada Einsatzgruppen D prestes a assassinar o último judeu de Vinnytsia, a vítima número 28 mil. A fotografia foi encontrada décadas depois junto aos pertences de um soldado alemão que participou dos fuzilamentos dos dias 16 e 22 de setembro de 1941. Atualmente a história integra os registros do projeto Holocaust Research, fundado na Polônia.
Referência: Holocaust Research
Inferno sobre rodas na “América” pós-Guerra da Secessão
Série Hell On Wheels instiga discussão sobre a História dos EUA
Estou acompanhando a série estadunidense Hell On Wheels, da Endemol USA, exibida pela AMC, que se passa nos Estados Unidos de 1865 com um enredo muito interessante. Tem como foco a construção da primeira ferrovia transcontinental do país pela Union Pacific Railroad. Em meio à revolução industrial, são levantadas inúmeras controvérsias sobre a xenofobia e a segregação racial na “América Pós-Confederada” ou Pós-Guerra da Secessão, como preferirem.
Na série, o telespectador se depara com uma nação até então marcada pela defesa dos latifúndios, escravidão e benesses aristocráticas. A obra mostra também pontos conflitantes, como yankees agindo como dixies e vice-versa, dando uma ideia de que as diferenças entre os “estadunidenses civilizados” do Norte e do Sul na época não eram tão aberrantes quanto registra a História Oficial daquele país. Funcionários de companhias, camponeses, ex-escravos, ex-soldados, prostitutas, mercenários e aventureiros sintetizam a pequena, mas heterogênea aldeia social de Hell On Wheels, uma pequena colônia situada em território nativo.
Pra mim, das cenas mais emblemáticas da série até o momento, destaco a disputa entre um índio cheyenne e um trem. A derrota do nativo que disputa a corrida com a máquina sobre um cavalo é simbólica e marca o surgimento de um novo tempo que trouxe a modernidade ao preço do genocídio indígena.Outra cena interessante é o momento em que o personagem Elam Ferguson, interpretado pelo rapper Common, um ex-escravo negro, é preparado para ser enforcado por um grupo liderado pelo irlandês O’Toole. Instantes antes do início da execução, o homem revela à vítima: “Nós irlandeses somos os crioulos do Reino da Grã-Bretanha”, o que deixa subentendido que a questão racial em âmbito social já amargava uma intransigência quase hierárquica.
Em um dos episódios da primeira temporada, há um momento elementar em que o presidente da Union Pacific, Thomas Durant, e um senador afirmam que as terras que os índios habitam pertencem ao Governo dos EUA. O chefe cheyenne retruca: “Eles compraram? Trocaram por algo? Não? Então não pertence a eles”. É uma série muito boa em que o maniqueísmo confronta seu antagonismo e desnuda a natureza humana, suas qualidades, dúvidas e falhas, independente de etnia, raça e credo. Hell On Wheels, como o próprio nome diz é o Inferno, mas também tem momentos de Céu e Purgatório.
Uma das cenas mais marcantes que me recordo é do sétimo episódio da primeira temporada. É um diálogo entre o protagonista, ex-soldado confederado Cullen Bohannon, interpretado por Anson Mount, e Ferguson. Bohannon explica que quando os nortistas invadiram sua propriedade, deixando-a em chamas, ele foi procurar o filho no celeiro. O encontrou sobre o palheiro todo encolhido, abraçando os joelhos contra o peito, e com o corpo todo queimado envolvido por Bethel, a escrava negra que criou Bohannon. Estava tentando proteger o garotinho das chamas. Infelizmente, era tarde demais, e os dois corpos pareciam fundidos, como se fossem um. Foi quando o ex-soldado concluiu que na finitude todos são iguais.








