David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for April, 2017

Imagine passar a sua vida toda confinado

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Chegando, quem sabe, a perder a noção do que existe fora das grades que afunilam seu mundo (Foto: Reprodução)

Imagine passar a sua vida toda confinado, chegando, quem sabe, a perder a noção do que existe fora das grades que afunilam seu mundo; sem poder sentir o aroma de nada que não seja sua ração e suas próprias fezes. Aos poucos, você se torna incapaz de distinguir importantes elementos da realidade. Talvez, dependendo do nível de estresse e do tipo de ambiente, você comece a comer as suas próprias fezes confundidas com ração.

O som de seus companheiros que não voltam mais. Eles resistem quando são agarrados, mas logo são imobilizados – mesmo que isso custe penas voando e asas dilacerando. Há um tipo de esperança que persiste, mas não em todos. Os mais sensíveis enlouquecem mais rápido em meio à agitação; começam a se estranhar e tentam se bicar porque já não sabem quem são.

Aves que não se veem mais como semelhantes e pouco agem como aves, sintoma de uma degradação tradicional que usurpa do mais frágil o direito ao que seria de fato uma vida normal. Dentro de um caminhão, o colocam dentro de uma caixa minúscula. Sem espaço para movimentar naturalmente as asas, se encolhe num canto e assiste, entre grades de plástico, carros ultrapassando, caminhões encostando, pessoas falando.

Quantas vidas existem lá fora, mas nenhuma delas é como a sua. Te penduram, te atordoam e te sangram por três minutos. Sua existência se esvai com o vermelho que escorre pelo chão. Seu sangue, símbolo-mor da sua vitalidade sem unção, é tratado como imundície. Alguém deve limpar. Não existe velório. Só escaldagem, depenagem e evisceração; e mutilação, gotejamento e resfriamento. Mais tarde, te embalam e te enviam para um açougue. Alguém há sempre de comer. Quanto vale sua morte? R$ 4,50 o quilo, mais ou menos.

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Caso queira se surpreender…

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Caso queira se surpreender, anote suas reflexões e volte a lê-las daqui a um ano. Suspeito que você não vai poder dizer que não mudou em nada ou que não evoluiu em nenhum nível. Claro, se esta for sua vontade.

Written by David Arioch

April 9th, 2017 at 10:53 pm

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Sete pãezinhos e um fujão

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Peço sete pães e aguardo a atendente selecioná-los na sua rotineira cordialidade (Foto: Reprodução)

Na padaria do mercado, peço sete pães e aguardo a atendente selecioná-los na sua rotineira cordialidade. De repente, escuto um som fofo e morredouro na sua sutilidade – do tipo “ploft” suave. O pãozinho agoniza no chão. Gerado há pouco tempo, já não tem mais razão de ser, caído sem chance de se restabelecer. Posso ver nos olhos da atendente que ela discorda. Me observa de soslaio, esperando apenas uma distração e, quem sabe, numa plena desatenção, uma oportunidade de enfiar no saco o “pãozinho sujo”, privado da própria vocação.

Não tiro os olhos dela. Ela reage virando as costas para mim, e manipula o saco de pão com uma astúcia que parece sem fim. Não desiste! E meus olhos continuam mirando-a. Escuta meus passos. Sei disso porque vejo suas orelhas vibrando e seus olhos titubeando. Estamos mais próximos do que antes. E minha sombra desarmoniza suas intenções. Ela disfarça por mais um ou outro segundo, sorri em minha direção, e encosta o pãozinho na parte externa do saco marrom.

Há um ou dois minutos, ele era igual aos outros. Ninguém pode negar, mas foi maculado, e aos seus irmãos já não pode se juntar. Que assim seja feita a justiça do alimento! Juro que por um segundo vi um traço que parecia um sorriso. Um pão sorrindo? Impossível! Ou não? A moça da padaria me entrega o saco de pão quente. Ruborizada, me dá um último sorriso, sem velar o ar de derrota.

Quando abro o saco, e, descuidado, inalo a fumaça que me esbraseia o salão, vejo sete irmãozinhos parifomes repousando. Do outro lado, o pãozinho fujão se esconde de baixo de um segundo balcão, e desaparece em um buraco do tamanho de minha mão.

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Written by David Arioch

April 9th, 2017 at 12:49 am

Kupfer-Koberwitz: “Acredito que enquanto o homem torturar e matar animais, ele vai torturar e matar seres humanos também”

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Me recuso a comer animais porque não posso me nutrir a partir do sofrimento e da morte de outras criaturas

Em 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, o pacifista alemão Edgar Kupfer-Koberwitz foi classificado como um inimigo da Alemanha e enviado para um campo de concentração em Dachau, ao norte de Munique. Mesmo vivendo em situação degradante, ele se manteve fiel a sua filosofia de vida como vegetariano.

Quando recebia uma porção de carne, Kupfer dava aos seus companheiros prisioneiros, de acordo com informações do “Guide to the Edgar Kupfer-Koberwitz Dachau Diaries 1942-1945”, da Universidade de Chicago. Durante os anos em que esteve em Dachau, ele escreveu diariamente sobre a sua vida e suas impressões da realidade. Para Kupfer, o fato do ser humano negar humanidade a seus semelhantes e, assim agir de forma cruel, sempre foi determinante na legitimação da brutalidade contra os animais.

“Acredito que enquanto o homem torturar e matar animais, ele vai torturar e matar seres humanos também – e guerras serão travadas – pois o assassinato deve ser praticado e aprendido em uma pequena escala. Devemos tentar superar nossa própria pequena crueldade irrefletida, evitá-la e aboli-la”, escreveu em seu diário que deu origem ao livro “Dachauer Tagebücher Die Aufzeichnungen des Häftlings 2481”, publicado em Munique em 1997, baseado em suas memórias e reflexões.

Segundo informações da Biblioteca da Universidade de Chicago, depois de conseguir um trabalho como balconista em uma loja do campo de concentração, Edgar Kupfer-Koberwitz começou o seu próprio diário em pequenos pedaços de papel. A princípio, ele relatava principalmente os incidentes da vida em Dachau.

Para não ser flagrado e punido, ele escondia suas folhas entre outros papéis. Até que mais tarde, preocupado em perder tudo que tinha escrito, tomou a decisão de enterrar seus diários. Ainda assim, foi impossível preservar todas as folhas porque algumas foram danificadas pelo contato com a água.

“Me recuso a comer animais porque não posso me nutrir a partir do sofrimento e da morte de outras criaturas. Me recuso a fazê-lo, porque sofri tão dolorosamente que posso sentir as dores dos outros, lembrando meus próprios sofrimentos”, declarou em carta que faz parte do ensaio “Animais, Meus Irmãos”, que integra seus diários preservados pela Universidade de Chicago.

A passagem foi escrita quando, após contrair tifo, o pacifista alemão estava em um barracão que funcionava como hospital. Mesmo doente e receando a própria morte, ele conseguiu sobreviver, ao contrário de outros 12 mil prisioneiros que sucumbiram em decorrência de doenças ao longo de quatro meses e meio.

“Me sinto feliz, ninguém me persegue; por que devo perseguir outros seres ou fazer com que sejam perseguidos? Não sou prisioneiro, sou livre; por que eu faria com que outras criaturas fossem feitas prisioneiras e jogadas na prisão? Ninguém me prejudica; por que eu deveria prejudicar outras criaturas e fazê-las sofrer?”, ponderou Kupfer.

Edgar Kupfer-Koberwitz foi libertado pelas Forças Armadas dos Estados Unidos em 29 de abril de 1945, assim como outros mais de 67 mil prisioneiros. Quando se deu conta de que estava realmente livre para continuar a sua vida, ele declarou: “O dia acabou, celebrarei este 29 de abril de 1945 pelo resto da minha vida como o meu segundo aniversário, como o dia que me deu novamente a vida.”

Conforme o “Guide to the Edgar Kupfer-Koberwitz Dachau Diaries 1942-1945”, durante a Segunda Guerra Mundial, Adolf Hitler proibiu que todas as organizações vegetarianas continuassem ativas em territórios ocupados pela Alemanha. Também ordenou a prisão de seus líderes. Tal iniciativa foi colocada em prática porque o vegetarianismo organizado era visto como uma ameaça, por se aproximar dos mesmos ideais das organizações pacifistas que o Führer desprezava.

“Ninguém me mata. Por que devo ferir ou matar outras criaturas, ou fazer com que sejam feridas ou mortas para o meu prazer e conveniência? Não é natural que eu não cause dor em outras criaturas que, eu espero e temo, nunca causarão em mim? Não seria injusto fazer tais coisas sem outra finalidade senão gozar deste insignificante prazer físico à custa do sofrimento dos outros, da morte de outros?”, interpelou o pacifista alemão em seu diário.

A vida de um pacifista alemão

Edgar Kupfer-Koberwitz nasceu na cidade de Koberwitz, na Alemanha, em 24 de abril de 1906 e estudou em Bonn, Regensburg e Stuttgart. Após o divórcio de seus pais, ele deixou a escola para ajudar sua mãe e sua irmã. Trabalhou em fábricas, lojas e bancos. Como consequência de uma desilusão amorosa, foi para a Itália em 1925.

Entre idas e vindas até 1940, trabalhou em jornais, agências de viagens e também como modelo para um escultor. Após a sua libertação, ele viveu nos Estados Unidos até o início dos anos 1950. E depois, se mudou para a Sardenha. Decidiu viver definitivamente na Alemanha a partir de 1984. Ele faleceu em Stuttgart, na Alemanha, em 7 de julho de 1991.

A autenticidade de seus diários foi confirmada pelos agentes do Corpo de Contra-Inteligência (CIC), e também por testemunhas. Ele criou e distribuiu um questionário entre ex-prisioneiros, assim reunindo declarações sobre seu comportamento no acampamento e sobre sua confiabilidade. Os relatos nos diários de Edgar Kupfer, doados à Universidade de Chicago em 1º de abril de 1954, foram publicados de forma fragmentada pela primeira vez no semanário do parlamento alemão “Aus Politik und Zeitgeschichte”, sob o título “Als Häftling in Dachau”.

Saiba Mais

“Die Tierbrüder − eine Betrachtung zum ethischen Leben“, ou “Os Irmãos Animais – Uma Consideração da Vida Ética”,  ensaio que ele escreveu sobre vegetarianismo, foi publicado na íntegra no livro “Radical Vegetarianism”, de Mark Mathew Braunstein, em 1981.

Referências

https://www.lib.uchicago.edu/e/scrc/findingaids/view.php?eadid=ICU.SPCL.KOBERWITZ

http://neveragain.org.il/articles/animals-my-brethren-edgar-kupfer-koberwitz/

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A realidade, o leitãozinho e a “exceção”

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Evidente sofrimento animal na indústria da carne (Foto: A Beating Heart)

Realidade da indústria da exploração animal. Alguém pode dizer que o caso do leitãozinho da foto é exceção. Não creio, mas se for para considerar tal ponto de vista, penso da seguinte maneira:

Foi a partir das “exceções” que começamos a ser condescendentes com algumas das práticas mais nefastas perpetuadas pela humanidade. Prefiro não consumir para não ser conivente com a “exceção”, se esse for o argumento de quem vê imagens como essa como “exageradas”. Foto do projeto A Beating Heart.

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Written by David Arioch

April 8th, 2017 at 12:49 am

George Harrison: “A coisa que me repeliu em relação a comer carne foi a ideia de matar animais”

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“A carne é uma das piores coisas que qualquer um pode comer”

George Harrison parou de consumir carne em 1965 (Foto: Reprodução)

Conhecido como “O Beatle Calado”, o britânico George Harrison, que fez história com os Beatles de 1960 a 1970, foi o primeiro dos Garotos de Liverpool a aderir ao vegetarianismo. Em 1965, depois de ler um livro que ganhou de um amigo, e que fala sobre a desumana indústria do abate de bezerros, Harrison decidiu começar banindo o consumo de qualquer tipo de carne da sua alimentação.

O que é inclusive uma grande revelação, levando em conta que muita gente achava e ainda acha que ele optou por não se alimentar de animais basicamente por um viés religioso, por ter se encontrado no hinduísmo. Essas informações estão na autobiografia “Wonderful Tonight”, de Pattie Boyd, lançada em 2008. Pattie, que também era vegetariana, foi casada com o guitarrista dos Beatles de 1966 a 1977.

Harrison se tornou tão contrário ao consumo de animais que, em hipótese alguma, permitia que alguém entrasse em sua casa com qualquer tipo de carne. Em entrevista a David Wigg, do Apple Offices, de Londres, em 8 de outubro de 1969, ele foi questionado sobre isso. “A carne é uma das piores coisas que qualquer um pode comer”, declarou e acrescentou que o vegetarianismo não era uma fase, mas sim algo em que ele realmente acreditava.

No Livro “The Beatles Anthology”, lançado em 2000, há citações em que George Harrison também fala da importância que o livro “The Complete Illustrated Book of Yoga”, de Swami Vishnu Devananda, publicado em 1959, teve em sua vida. Porém, ele deixa claro que o vegetarianismo surgiu em sua vida antes do hinduísmo. “Li seu livro depois que me tornei vegetariano. A coisa que me repeliu em relação a comer carne foi a ideia de matar animais”, revelou.

Harrison também comentou que todas as doenças humanas vêm de uma dieta não natural, o que segundo ele, inclui o consumo de alimentos de origem animal. De acordo com o artigo “Beatle George Harrison’s Formula for Spiritual Health”, de Joshua M. Greene, Harrison era vegetariano porque sentia que era contraditório honrar a vida em muitas formas e ainda contribuir com o abate de animais.

O vegetarianismo de Harrison era tanto moral quanto espiritual (Foto: Reprodução)

“Seu prato favorito era Dahl, uma sopa de lentilha que, quando misturada com arroz, forma uma proteína perfeita e um substituto ideal da carne”, escreveu. O vegetarianismo de Harrison era tanto moral quanto espiritual. E para além de uma vida de excessos se tratando do consumo de drogas como cocaína e LSD, ele também buscava ser uma pessoa realmente saudável, embora tivesse dificuldade em abandonar principalmente o álcool e o cigarro.

E foi a inclinação de George Harrison pelo vegetarianismo que o levou ao hinduísmo e mais tarde permitiu que ele estreitasse sua relação com músicos indianos como Ravi Shankar, e gurus como Maharishi Mahesh, fundador da meditação transcendental. Sendo assim, há quem atribua a Harrison o estreitamento das relações musicais entre Ocidente e Oriente, já que a partir daí muitos artistas se interessaram em fazer parceria com músicos indianos, popularizando o uso de sitar no Ocidente.

George Harrison, que teve uma carreira solo exemplar, com o lançamento de 12 álbuns entre os anos de 1968 e 2002, também é considerado o responsável pela popularização do Movimento Hare Krishna no Ocidente. Ao longo de sua vida, ele foi um dos grandes colaboradores da International Society for Krishna Consciousness, conforme informações da edição de 30 de novembro de 2002 do Daily Telegraph.

Saiba Mais

George Harrison nasceu em Liverpool em 25 de fevereiro de 1943 e faleceu em Los Angeles, nos Estados Unidos, em decorrência de câncer de pulmão em 29 de novembro de 2001. Em 2002, o seu filho Dhani, lançou o último álbum de George Harrison – “Brainwashed”.

O seu álbum “Wonderwall Music”, que faz parte da trilha sonora do filme “Wonderwall”, inspirou a banda Oasis a compor uma música homônima que se tornou um de seus maiores sucessos.

Referências

http://www.yogachicago.com/jan06/harrison.shtml

http://www.neatorama.com/2011/11/29/a-few-things-you-might-not-know-about-george-harrison/

http://www.beatlesinterviews.org/db1969.1008.beatles.html

http://surrealist.org/prayforpeace/harrison.html

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O que a Vegan Society diz sobre o veganismo

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A Vegan Society é a entidade que criou o veganismo como filosofia de vida em 1944

A definição do veganismo foi proposta por Leslie J. Cross em 1949 (Arte: Vegan Society

A Vegan Society é a entidade que, por iniciativa do marceneiro inglês Donald Watson, criou o termo “vegan” em 1944 e definiu o veganismo como filosofia de vida. Atualmente há muitas controvérsias envolvendo o que faz parte ou não do veganismo, mas algumas delas surgem normalmente por interpretações equivocadas ou pessoais do que é ser vegano, e também pela tentativa ou interesse de vincular bandeiras ideológicas com as quais nem todos os veganos concordam.

Sendo assim, acho importante considerar o que a Vegan Society, pioneira e fundadora do veganismo como conhecemos hoje, diz sobre o que é ser vegano e o que é preciso ter em mente para adotar essa filosofia de vida. De acordo com a entidade, o veganismo é um estilo de vida que busca excluir, na medida do possível e praticável, todas as formas de exploração e crueldade contra os animais. Ou seja, veganos não são pessoas perfeitas, mas sim pessoas se empenhando em fazer alguma diferença.

A definição vai ao encontro da proposição feita por Leslie J. Cross em 1949. Ele sugeriu que a bandeira da Vegan Society deveria ser o princípio da emancipação dos animais subjugados pelos seres humanos. Ou seja, defender o fim do uso de animais como alimentos, commodities, atividades laborais, caça, vivissecção e as demais atividades que envolvem exploração animal.

Em 1979, a Vegan Society divulgou uma atualização dos objetivos do veganismo, citando que, além da alimentação e do vestuário livre da exploração animal, e da oposição aos produtos testados em animais, o veganismo também visa a promoção do desenvolvimento de alternativas que beneficiem humanos, animais e o meio ambiente – como vemos tantos veganos fazendo hoje em dia. A compaixão é apontada pela entidade como uma das principais razões pela escolha dessa filosofia de vida com viés moral e ético.

Outra informação a se considerar é que para a Vegan Society ninguém é mais ou menos vegano pelas suas preferências alimentares – seja “junk food” ou crudivorismo. O mais importante é não consumir alimentos de origem animal – todos os tipos de carnes (inclusive peixes, mariscos e insetos), além de laticínios, ovos e mel.

A compaixão é apontada pela entidade como uma das principais razões pela escolha dessa filosofia de vida (Foto: Animal Fair)

“Há uma versão de veganismo para todos os gostos”, declara a entidade. Além disso, a Vegan Society reconhece a alimentação vegana como dieta vegana, logo não é errado quando alguém fala em dieta vegana em vez de dieta vegetariana. O diferencial está no fato de que ser vegano não se resume à dieta. “Em termos dietéticos, denota a prática de dispensar todos os produtos derivados, total ou parcialmente, de animais”, registrou a entidade na seção de Memorandos e Artigos em 1979.

E embora alguém possa ver a exclusão de ingredientes de origem animal como um sacrifício, é importante ter mente que o veganismo abre um mundo de possibilidades alimentares. “Uma dieta vegana é rica em diversidade, e compreende todos os tipos de frutas, vegetais, castanhas, grãos, sementes, feijões e legumes – que podem ser preparados em infinitas combinações que assegurarão que você nunca fique entediado. Todos os seus alimentos, pizzas, bolos, podem ser adaptados para uma dieta vegana”, explica a Vegan Society.

Muitos acessórios, maquiagens e itens de limpeza e higiene pessoal costumam ser testados em animais, então a recomendação é que os veganos não comprem esses produtos. “Felizmente, hoje em dia existem alternativas acessíveis”, enfatiza a Vegan Society. Também é importante não dar suporte à exploração de animais em zoológicos, aquários e em corridas. Ou seja, não visite locais que usem animais como entretenimento. “Uma ótima alternativa é visitar e apoiar santuários que fornecem abrigo seguro e amoroso para animais resgatados”, sugere a entidade.

Outro assunto bastante discutido entre veganos diz respeito ao consumo de medicamentos. A Vegan Society não recomenda que ninguém evite remédios prescritos por médicos, argumentando que um vegano morto não é bom para ninguém: “O que você pode fazer é pedir ao seu médico ou farmacêutico para fornecer, se possível, um medicamento que não contenha produtos de origem animal como gelatina e lactose.”

Saiba Mais

A Vegan Society foi fundada em Birmingham, na Inglaterra, em novembro de 1944.

Considerações

Há quem diga que o veganismo já existia antes da Vegan Society, mas nisso creio que existe um equívoco. Há centenas, e até milhares de anos, tivemos pessoas e grupos que realmente eram contrários à exploração animal e contribuíram bastante para a discussão em torno do vegetarianismo e do que viria a ser o veganismo. Porém, os direitos animais como conhecemos hoje só começou a ser defendido nos moldes atuais com a Vegan Society.

Referências

https://www.vegansociety.com/go-vegan/definition-veganism
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Written by David Arioch

April 6th, 2017 at 2:49 pm

Otep: “Progredimos como sociedade e não precisamos comer carne para sobreviver”

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“Esse animal é um ser senciente, eles entendem, têm consciência, não são um pacote de Doritos”

Otep: “Minha mudança na dieta foi um protesto pessoal contra a crueldade da indústria da carne” (Foto: Divulgação)

Otep Shamaya, vocalista da banda de metal alternativo Otep, que lançou sete álbuns entre os anos de 2002 e 2016, é conhecida por suas opiniões firmes e forte engajamento social. Em 2008, em entrevista para a organização Pessoas Pelo Tratamento Ético dos Animais (Peta), ela falou sobre sua transição para o vegetarianismo. “Minha mudança na dieta foi um protesto pessoal contra a crueldade da indústria da carne”, disse.

Em 13 de novembro de 2011, em entrevista publicada pelo Along Your Path, ela contou que não perdeu o interesse pelo gosto da carne, mas o preço a se pagar pelo consumo de alimentos de origem animal é muito caro. “Essas corporações gigantes torturam esses animais antes deles serem mortos para que se tornem o alimento que comemos, digerimos e excretamos uma hora depois – me parece sem sentido”, argumentou.

Ela relatou que não se sente confortável dando sequer um dólar para que indústrias que produzem produtos de origem animal cresçam enquanto animais assustados são subjugados, condicionados a levarem uma vida que pode significar privação, sofrimento e morte. “Esse animal é um ser senciente, eles entendem, têm consciência, não são um pacote de Doritos; é a realidade deles. […] Progredimos como sociedade e não precisamos comer carne para sobreviver”, criticou.

“Essas corporações gigantes torturam esses animais antes deles serem mortos para que se tornem o alimento que comemos” (Foto: Divulgação)

Em 15 de abril de 2016, o Otep lançou o álbum “Generation Doom”, baseado em 12 composições, e que tem entre os destaques a música “Zero” que foi lançada como single. A letra começa com a frase: “I don’t give a fuck”, ou seja, “Eu não dou a mínima”, que faz uma referência ao fato dela não se importar com críticas em relação à sua defesa do meio ambiente e dos animais.

“Conheço muita gente que fica na defensiva quando você fala sobre essas coisas abertamente. Sou uma vegana por uma questão moral. Isso é engraçado porque recebo mais mensagens de ódio por ser uma vegana do que por ser uma lésbica, então os tempos certamente mudaram”, declarou ao Song Facts em 6 de abril de 2015.

Em um trecho de “Zero”, Otep Shamaya grita: “Você me quer para salvar o seu mundo, enquanto seus pulmões ficam pretos, e os oceanos fervem, e você alimenta e cria este reino de merda.”  Ela também fala que enquanto o mundo está morrendo há pessoas reclamando sobre o que não podem comprar com dinheiro que não têm. “Então você vai vender sua alma para estar na última moda”, canta.

Em entrevista publicada no First Order Historians em 13 de novembro de 2015, Shamaya frisou que ela considera a mudança climática como a questão mais importante da humanidade na atualidade, ponderando que se no futuro não houver nenhum lugar habitável na Terra, não haverá espaço para discutir qualquer outra questão. A vocalista afirmou que devemos reconhecer o impacto esmagador que causamos ao nosso planeta e nos afastarmos dos combustíveis fósseis e de empresas destrutivas que lentamente nos envenenam.

““O simples ato de remover a carne da sua dieta não só salva vidas de animais, mas também vidas humanas” (Foto: Divulgação)

“Sei que algumas pessoas ainda lutam contra isso porque [a mudança climática] não está acontecendo apenas de uma vez ou o tempo todo, mas isso não significa que não esteja acontecendo. Há um velho adágio que diz que se você deixar cair uma rã em um pote de água fervente, ela pula imediatamente, mas se você aquecer lentamente a água, a rã permanecerá paralisada e ferverá até a morte. Você pode adivinhar em qual pote estamos?”, questionou.

Shamaya defende que uma dieta vegetariana ajudaria muito a retardar as mudanças climáticas. Segundo ela, teríamos água mais limpa, ar mais limpo, mais comida em regiões atingidas pela fome e menos fazendas industriais degradando o solo e os rios.

“O simples ato de remover a carne da sua dieta não só salva vidas de animais, mas também vidas humanas. Peço a todos que vejam os documentários ‘Cowspiracy’, ‘Racing Extinction’ e ‘Earthlings’. Você não verá o mundo do mesmo jeito, eu prometo”, garantiu em entrevista ao First Order Historians. A vocalista do Otep admitiu em entrevista ao Sonic Cathedral em 2 de maio de 2016, que gostaria de ver o fim da agricultura animal, justificando que isso significaria viver em um mundo mais justo e igualitário.

Saiba Mais

Em 2014, Otep Shamaya foi uma das cinco artistas que fez a dublagem das criaturas do filme “Hobbit: Battle of the Five Armies”, de Peter Jackson.

Referências

https://alongyourpath.com/2011/07/02/interview-otep-shamaya/

http://www.soniccathedral.com/webzine/index.php?option=com_content&task=view&id=1309

http://www.songfacts.com/blog/interviews/otep_shamaya/

http://www.firstorderhistorians.com/2015/11/13/10-questions-with-otep-shamaya/

 

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Forças de Defesa de Israel oferecem refeições veganas a mais de 50 mil soldados

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A preocupação em atender as necessidades dos soldados veganos começou em 2014

(Foto: Dan Balilty / AP)

Depois que soldados veganos realizaram um protesto em Israel, alegando que não havia nada para eles comerem nos refeitórios – já que quase todos os pratos continham carne, ovos e laticínios, as Forças de Defesa de Israel decidiram oferecer refeições veganas.

Hoje, mais de 50 mil soldados têm a oportunidade de optar por uma refeição livre de ingredientes de origem animal – e tudo isso graças a uma demanda de pouco mais de 500 soldados. De acordo com nota divulgada pela FDI, Israel assumiu um sério compromisso de atender as necessidades individuais de cada combatente, tanto que dedicaram três anos de pesquisa para concluírem um cardápio considerado ideal – nutritivo e benéfico para todos.

A alimentação dos soldados veganos inclui húmus, tahine, feijão em molho de tomate, azeitonas verdes, ervilhas, cuscuz, hambúrgueres de lentilha, halva (um tipo de bolo muito popular no Oriente Médio) e frutas. A maior prioridade é oferecer boas quantidades de proteínas e ferro, o que segundo a FDI é determinante para garantir a força dos combatentes.

A preocupação em atender as necessidades dos soldados veganos começou em 2014, com a reivindicação de uniformes sem pele de animais e lã. Já as refeições veganas, começaram a ser incluídas timidamente no cardápio dos soldados em 2015. Hoje, qualquer um, vegano ou não, pode optar por uma alimentação livre de ingredientes de origem animal.

O fato de haver uma consistente demanda vegana nas Forças de Defesa não surpreende tanto quem avalia o cenário israelense atual. Em meio a uma população de pouco mais de oito milhões de habitantes, já é possível encontrar mais de 400 restaurantes em Israel com opções para veganos, de acordo com a revista The Tower. Esse crescimento se deve ao fato de que atualmente Israel tem cerca de 300 mil veganos, sendo considerado o país onde o veganismo mais cresce, segundo a Jewish Telegraphic Agency.

Referências

Israelis growing hungry for vegan diet

http://www.npr.org/sections/thesalt/2015/12/10/459212839/why-so-many-israeli-soldiers-are-going-vegan

How Israel Became the Global Center of Veganism

https://www.israel21c.org/israel-has-most-vegans-per-capita-and-the-trend-is-growing/

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Written by David Arioch

April 5th, 2017 at 12:19 pm

Al-Ma’arri e a tragédia na Síria

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Lendo sobre a tragédia na Síria, me recordei que no século XI o poeta sírio Al-Ma’arri já criticava o fundamentalismo religioso e defendia o direito à vida, inclusive se abstendo de se alimentar de animais. O tempo passou e as tragédias estão aí, reafirmando mais uma vez algo que um filósofo cego já temia e condenava no passado.

 

Written by David Arioch

April 5th, 2017 at 12:27 am

Posted in Reflexões

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