David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Author Archive

RZA: “Estou vivo, minha carne está viva. Por que então dedico minha vida a comer algo que está morto?”

without comments

21rza1_span-superjumbo

“A partir daquele dia, comecei a comer para viver, não para morrer” (Foto: Reprodução)

Parei de consumir carne vermelha em 1995. Depois, bani peixe e frango do meu prato. Me senti como um idiota. Eu seria capaz de ter ideias de como substituir a carne morta?

Então pensei comigo mesmo: ‘Estou vivo, minha carne está viva. Por que então dedico minha vida a comer algo que está morto? A partir daquele dia, comecei a comer para viver, não para morrer.”

Excerto do livro “The Tao of Wu”, de autoria de RZA, fundador do Wu Tang Clan, um dos maiores grupos de hip-hop dos Estados Unidos. RZA é vegano e atua em defesa dos direitos animais.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Written by David Arioch

December 27th, 2016 at 4:27 pm

Kundera: “Ninguém pode ter a certeza absoluta que Deus realmente queria que o homem reinasse sobre todas as outras criaturas”

without comments

AFP/Getty Images

“É claro que Gênesis é obra do homem e não do cavalo” (Foto: AFP/Getty Images)

Logo no começo de Gênesis está escrito que Deus criou o homem para que ele reinasse sobre os pássaros, os peixes e o gado. É claro que Gênesis é obra do homem e não do cavalo. Ninguém pode ter a certeza absoluta que Deus realmente queria que o homem reinasse sobre todas as outras criaturas.

O mais provável é que o homem o tenha inventado para santificar o seu poder sobre a vaca e o cavalo, poder esse que ele usurpara. Sim, porque, na verdade, o direito de matar um veado ou uma vaca é a única coisa que a humanidade, no seu conjunto, nunca contestou, mesmo durante as guerras mais sangrentas.

É um direito que só nos parece natural porque quem está no topo da hierarquia somos nós. Bastava que entrasse mais outro parceiro no jogo, por exemplo um visitante vindo de outro planeta cujo Deus tivesse dito ‘Tu reinarás sobre as criaturas de todas as outras estrelas’, para que todas a evidência do Gênesis ficasse logo posta em questão.

Talvez depois de um marciano o ter atrelado a uma charrua ou enquanto estivesse a assar no espeto de um habitante da Via Láctea, o homem se lembrasse das costeletas de vitela que costumava comer e apresentasse (tarde demais) as suas desculpas à vaca.”

A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera. Página 96, publicado em 1984.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Written by David Arioch

December 27th, 2016 at 1:54 pm

Wagner: “O grito pavoroso do animal e os lamentáveis e mais fracos sons queixosos de terror me paralisaram e transfixaram minha alma”

without comments

p01bqlvq

Richard Wagner: “É terrível perceber como nossas vidas, como um todo, permanecem viciadas no prazer”

Recentemente, enquanto eu estava na rua, meus olhos foram surpreendidos por uma cena em uma loja. Sem pensar, observei as mercadorias empilhadas e a limpeza, quando tomei consciência de um homem puxando uma galinha de dentro de uma gaiola. No mesmo instante, outro homem colocou sua mão dentro de outra gaiola e simplesmente arrancou a cabeça de uma galinha ainda viva.

O grito pavoroso do animal e os lamentáveis e mais fracos sons queixosos de terror me paralisaram e transfixaram minha alma. Desde então, sou incapaz de me livrar dessa impressão. É terrível perceber como nossas vidas, como um todo, permanecem viciadas no prazer, um prazer que repousa em um poço sem fundo da cruel miséria humana. Desde então, minha sensibilidade aumentou.

Tenho observado a maneira como sou empurrado em direção à empatia pela miséria; uma força que me inspira simpatia e me toca profundamente na medida em que desperta em mim um sentimento de quem reconhece o sofrimento de um companheiro. E vejo nesse sentimento o crescimento do meu ser moral e, presumivelmente, essa é a fonte da minha arte.

Richard Wagner, um dos compositores mais importantes do romantismo alemão em carta a Mathilde Wesendonck. Página 47 do livro Richard Wagner, Letters to Mathilde Wesendonck, publicado em 1905. Tristão e Isolda e O Anel dos Nibelungos são duas das suas obras mais populares.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Tolstói: “O porco gritava de um modo desesperado, com gritos que pareciam humanos”

without comments

tolstoi

“Um homem cravou-lhe a faca na garganta. Os grunhidos do porco foram mais fortes e agudos” (Foto: Reprodução)

Entramos numa aldeia, e vimos, com perdão seja dito, um porco engordado, branco rosado, que pegaram em uma casa para matá-lo. O porco gritava de um modo desesperado, com gritos que pareciam humanos. No momento preciso que passávamos por ali, começaram a degolá-lo.

Um homem cravou-lhe a faca na garganta. Os grunhidos do porco foram mais fortes e agudos; o animal escapou, mas o seu sangue escorria. Sou míope, e não vi todos os detalhes da cena: vi unicamente um corpo rosado como o de um homem e ouvi os grunhidos desesperados. O carroceiro observava tudo aquilo sem afastar a vista. Pegaram de volta o porco, o derrubaram e o submeteram.

Quando cessaram seus gritos, o carroceiro lançou um profundo suspiro:

— Como pode Deus permitir isso?

Tal exclamação demonstra o profundo asco que inspira ao homem a matança. Mas o exemplo, o costume da voracidade, a afirmação de que Deus admite tais coisas, fazem com que os homens percam por completa esse sentimento natural.

Liev Tolstói, O Primeiro Passo, página 20, publicado originalmente em 1883, como prefácio de A Ética da Dieta, de Howard Williams.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Drnovšek: “Comemos carne porque infelizmente fomos criados dessa forma”

without comments

Slovenija,Brdo pri Kranju,26.04.2007,Predsednik drzave je na dvorcu Brdo sprejel ciprskega predsednika Tasosa Papadopulosa.Foto:Matej Druznik/DELO

“Me tornei vegetariano há anos e depois aderi ao veganismo (Foto: Matej Druznik/Delo)

“Comemos carne porque infelizmente fomos criados dessa forma. Mas me tornei vegetariano há anos e depois aderi ao veganismo. Temos grande quantidade de opções, alimentos vegetais bem variados que são o suficiente para nossas necessidades. Dei esse passo seguindo um forte sentimento pessoal. Algumas pessoas acreditam que a alimentação vegana é limitada ou sem graça, e claro que isso não é verdade. Ela pode ser bem diversificada.”

Janez Drnovšek, ex-presidente da Eslovênia em entrevista à Revista Liberation of Animals, edição de janeiro de 2006, editada pela Sociedade pela Libertação e Direitos Animais da Eslovênia. Drnovšek é apontado como o principal responsável pelo progresso da Eslovênia a partir de 1992, após o fim da Iugoslávia.

Graças ao seu trabalho, o país entrou para a lista de nações com maiores índices de desenvolvimento humano do mundo. Além de projetos bem-sucedidos de reconstrução econômica, Janez Drnovšek fundou o Movimento para Justiça e Desenvolvimento Social da Eslovênia. Com uma proposta de fortalecer a consciência humanitária, englobando também a defesa dos direitos animais, ele obteve grande aprovação por parte dos eslovenos.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Written by David Arioch

December 27th, 2016 at 12:56 pm

Quando um garoto assume o papel de um porco no matadouro

without comments

19553383

Em pig, o objetivo do escritor é mostrar como a violência humana é legitimada

Lexington, um jovem que cresceu como vegetariano estrito, vai a um restaurante e experimenta um prato baseado em repolho e carne de porco. Ele nunca tinha comido aquilo e fica maravilhado com a experiência, tanto que decide descobrir a origem da carne. Então viaja até um matadouro, onde assiste o sofrimento dos porcos preparados para o abate.

O primeiro porco é mantido imóvel por meio de uma corrente que envolve seus pés. E essa corrente é presa a um cabo que se move para cima e para baixo. Logo o porco é arrastado enquanto emite grunhidos desesperados ao longo da linha de abate. Apesar da crueldade, Lexington acha o processo fascinante, enquanto os funcionários da linha de produção se mostram entediados.

De repente, por um descuido, uma das pernas do rapaz fica presa a uma corrente e ele é arrastado por um cabo. Os funcionários não se importam, indiferentes ao processo que se repete diariamente. A descrição do que acontece com Lexington é extremamente gráfica e contempla todo o processo de abate. A única diferença é que há um humano no lugar de um porco.

E o maior apelo da história subsiste na associação que o escritor Roald Dahl faz entre suínos e humanos. Sua abordagem vai ao encontro da ciência, que qualifica os porcos como animais inteligentes. Porém, a diferença mais significativa está na incapacidade de terem pensamentos abstratos, serem esperançosos ou recorrerem a Deus. E por isso sua dor é mais avassaladora do que a humana, segundo a própria obra.

Sobre Pig, obra do britânico Roald Dahl publicada em 1960. Ao escrevê-la, o objetivo do escritor era mostrar como a violência humana é legitimada, aceita como parte de um “processo natural”.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Written by David Arioch

December 26th, 2016 at 7:54 pm

A Perdigão e as controvérsias do Chester

without comments

content_chester_vivo

Suposta foto de uma produção de Chester ainda muito jovens (Foto: Perdigão)

Leiam o que a Perdigão diz quando questionada sobre a origem do Chester, o frango geneticamente modificado: “Chester é um animal, mas não é uma espécie diferente de ave, como o peru ou o avestruz, por exemplo. É a mesma espécie que o frango convencional.”

Para se ter uma ideia, um frango convencional pesa em média de 1,8 a 2,5 quilos. O Chester pesa pelo menos quatro quilos. Sendo assim, como achar normal o tamanho do Chester? Imagine o esforço que essa ave tem de fazer para se locomover.

Segundo a Perdigão, não tem sentido a aplicação de hormônios sintéticos no Chester porque as aves são abatidas antes do tempo necessário para que as substâncias comecem a fazer efeito. Por outro lado, o animal chega a quatro quilos em 42 dias. Ou seja, o dobro de um frango convencional. Em contato com a Perdigão, quando alguém pede fotos reais do Chester ainda vivo, eles dizem o seguinte: “Não dispomos de imagens desta ave em granja e/ou linha de produção.”

Ou seja, no Brasil, a Perdigão cria misteriosamente uma ave reduzida à comida e que a maioria não sabe o que é, o que não raramente levanta suspeitas. Também me surpreende saber que o Chester, um frango geneticamente modificado, e que me parece que ninguém nunca viu nem na TV, a não ser depois de morto, é consumido no Brasil desde 1982. Até hoje, não há muitas informações sobre o sistema de produção dessa ave. E as poucas a que temos acesso são controversas.

Só para endossar o quão estranho tudo isso é, pergunte aos consumidores o que é exatamente um Chester, se eles já o viram em algum aviário e se são capazes de descrevê-lo. Na minha opinião, mais uma história sobre a qual as pessoas precisam receber muito mais informações do que aquelas disponibilizadas pela indústria.

Written by David Arioch

December 25th, 2016 at 6:37 pm

Estadão e a falta de bom senso sobre a problemática dos javalis

without comments

javali

Se o javali tornou-se uma praga, isso se deve à ineficiência do Ibama (Foto: Reprodução)

Li ontem no Estadão uma reportagem com um título bem infeliz: “Espécie invasora, javali é opção abundante e grátis na ceia de Natal”. Na matéria, um estudante de zootecnia se orgulha de sair para caçar animais silvestres com seu pai desde que tinha nove anos. Ou seja, uma criança praticava uma atividade ilegal no Brasil. Hoje, já adulto, admite isso no Estadão e está tudo bem.

Outro problema é que a reportagem se refere à caça como uma atividade prazerosa. “A diversão, no entanto, se apressa a dizer, é só consequência de um importante trabalho de controle da praga na agricultura.” Em primeiro lugar, um veículo de abrangência nacional que deveria promover a conscientização acaba por qualificar a caça como uma atividade divertida.

Em segundo lugar, se o javali tornou-se uma praga, isso se deve à ineficiência do Ibama, que é responsável pelo controle de reprodução de animais como javalis. Outro ponto a se considerar: se os javalis são uma praga, o que são os seres humanos gananciosos?

De acordo com a ONU, a Amazônia Brasileira, o lugar com a maior biodiversidade do planeta e que já perdeu 80% de sua área original, pode desaparecer nos próximos dez anos por causa da desenfreada produção de gado e soja. Quem é o invasor mesmo? Uma pena ver veículos de comunicação prestando um desserviço tão grande. E para piorar, ainda produzem uma matéria com título jocoso, instigando qualquer um a sair de casa com arma em punho para matar javalis.

Written by David Arioch

December 25th, 2016 at 2:04 pm

O homem e o carrinho

without comments

No mercado, vi um senhor fazendo um esforço hercúleo para empurrar um carrinho abarrotado de carne

No mercado, vi um senhor fazendo um esforço hercúleo para empurrar um carrinho abarrotado de carne. Havia tanta carne que por um momento ele parou de empurrá-lo. Em seguida, enxugou o líquido viscoso que escorria de um dos sacos de carne, lambuzando sua mão direita. Seu carrinho não era o único na mesma situação.

Antes que eu me afastasse, um de seus filhos se aproximou e o questionou se não havia carne demais no carrinho. Incomodado, o homem respondeu, num paradoxo ruidoso: “Carne é vida. Melhor sobrar do que faltar.” Por outro lado, ele sentia-se desconfortável porque uma de suas mãos estava grudenta. Sem velar a expressão de repulsa, na tentativa de limpá-la, ele acabou esfregando a mão em uma porção de belas laranjas.

Em menos de minuto, algumas testemunhas se aproximaram e viram as laranjas manchadas pelos glutinosos vestígios de carne. Então reclamaram: “Que sujeito nojento! Eu que não pego essas laranjas!” E partiram empurrando seus carrinhos cheios de peru, tender, pedaços de carne bovina e bandejas de presunto.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





“Esse é bom! Muçulmanos sabem!”

without comments

Fui ao mercado há pouco. Chegando lá, apertei o botão do alarme do carro e nada. Não funcionou. Então me dei conta que o pressionei com tanta força que o botão afundou. Tentando resolver a situação, notei algumas pessoas me observando por causa da minha barba. Não consegui evitar de pensar: “Agora, além de terrorista, vão achar que sou ladrão.”

Depois, no setor de hortifruti, comecei a analisar alguns pacotes de romãs. De repente, cinco haitianos se aproximaram e começaram a observá-los também. Enquanto eles conversavam em crioulo, eu seguia procurando as melhores porções.
Quando eu tirava a mão de um pacote, os haitianos faziam o mesmo.

Dois ou três minutos depois, peguei em definitivo um pacote. Então um deles fez o mesmo. Assim que me afastei, ouvi alguém dizendo algo como: “Sa a se bon. Mizilman an konnen!”, que significa: “Esse é bom! Muçulmanos sabem!”

Written by David Arioch

December 24th, 2016 at 7:35 pm