Archive for January, 2017
Veganismo e musculação, um pouco da minha história
Comecei a abandonar a carne em 2012, mas ocasionalmente eu ainda comia alguma coisa nem que fosse uma vez por mês (como cito na minha crônica/conto “O Chamado dos Animais”), inclusive por anos eu tive um blog de culinária maromba com centenas de receitas. Era um blog praticamente ovolactovegetariano, e acabei abandonando também porque foi perdendo o sentido para mim, mesmo depois de tanto tempo dedicado. Eu não me via nem como vegetariano, apenas como alguém que não queria mais comer carne. Foi uma mudança interna mesmo, e que só comecei a entender depois.
Vivi dessa forma, tendo laticínios e ovos como minhas principais fontes de proteínas até 2015, quando me tornei vegetariano e logo em seguida vegano. Foi diferente para mim, não nego, porque eu tinha uma alimentação com alta ingestão de proteínas, e quase todas as minhas receitas eram baseadas nesses ingredientes. E quem pratica musculação há muito tempo, sabe como somos bombardeados com essa ideia de que sem proteínas de origem animal, você já era.
Ainda assim, não me importei, porque não me tornei vegano pensando em mim, mas sim nos animais. Continuei treinando. Em 2016, segui minha rotina na academia, mas sem objetivo definido. Queria só levantar peso por prazer, então acabou por ser uma prática mais terapêutica e de manutenção de massa muscular. Não tive nenhuma grande perda nesse sentido porque me tornei vegano. Apenas achei melhor deixar as coisas acontecerem naturalmente. Não me preocupei muito com proteínas e com outras coisas que me apeteciam quando eu ainda consumia ovos e laticínios. Também não perdi força nem disposição. Só senti alguns pequenos desconfortos nas articulações, mas por motivos bem específicos.
Hoje, além de ter certeza que escolhi o melhor caminho, não recomendo a alimentação com ingredientes de origem animal. Sei que tenho capacidade de alcançar inclusive objetivos estéticos diferenciados com a alimentação vegana, mesmo depois de dez anos de musculação.
Em 2017, pretendo transformar meu corpo em um laboratório natural (já que não uso esteroides anabolizantes) para provar como o veganismo pode ser ainda mais transformador e alentador para quem, assim como eu, gosta de musculação. E, claro, para além dos aspectos morais e éticos do não consumo de ingredientes de origem animal. Ou seja, além de muitos novos textos, acredito que vem aí mais hipertrofia e mais qualidade muscular.
Por que não me alimento de animais?

“Acredito verdadeiramente que todo o estresse e os medos do animal são transferidos para aquilo que comemos” (Foto: Reprodução)
Há algum tempo, me perguntaram por que não me alimento de animais. Respondi o seguinte:
Não acho uma boa ideia me alimentar de animais porque, por mais duro que isso pareça, significa se alimentar de morte, sofrimento ou privação. Infelizmente, esse é o preço que pagamos ao ingerir carnes, ovos, laticínios e outros produtos de origem animal. Ninguém vive ou morre feliz ou satisfeito nesse sistema, por melhores que sejam os cuidados. Uma pessoa pode alegar que um bicho teve uma morte indolor, ok, mas você acha que enquanto viveu ele foi feliz em privação?
Não creio, e acredito que todo o estresse e os medos do animal são transferidos para aquilo que comemos, logo não vejo como isso pode ser positivo. Infelizmente, a realidade é que comer carne significa ingerir morte. Afinal, come-se os restos de alguém e aquilo passa a subsistir dentro de você, mesmo que temporariamente. Muitas pessoas sentem nojo do abutre ou do urubu quando testemunham eles comendo carniça. Mas é preciso ser honesto – aquele é o instinto deles.
Em relação a isso, a diferença entre nós e eles é que eles precisam essencialmente da carne. Ao contrário de nós, eles a comem do jeito que ela é, enquanto nós mascaramos o sabor da carne crua para torná-la palatável. Para isso, recorremos a uma grande diversidade de temperos, ou seja, ingredientes de origem vegetal, que fazem a carne até mesmo não parecer “tão carne”. Fora o fato de que quando cito esses animais não humanos, estou falando de seres que comem para viver, não vivem para comer como muitos seres humanos.
Reflexões sobre o consumo de carne

Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Pecuária (FAO), é preciso 15.400 litros de água para cada quilo de carne (Foto: We Animals/Jo-Anne McArthur)
Antes do surgimento da civilização, o ser humano caçava porque ele realmente acreditava que precisava disso para sobreviver. Hoje, há quem diga que essa alimentação era o segredo da força e da condição física humana da época, algo que se perdeu com o surgimento da agricultura.
Porém, não é correto dizer que ele era forte e resistente simplesmente porque comia carne, desconsiderando que ele se colocava em movimento durante as caçadas, e para ter um bom desempenho dependia primariamente de bons carboidratos, glicogênio, estoque de energia.
Ao contrário do que muitos dizem, o surgimento da agricultura não deixou o ser humano doente. O que o deixou doente foi o sedentarismo intensificado após a Revolução Industrial, quando a atenção voltou-se timidamente para as más consequências da má alimentação na modernidade.
Para piorar, na hipermodernidade, como o acesso à carne foi facilitado, o ser humano se entregou ao consumo excessivo. Naturalmente, que ele julgava um benefício e um avanço, se tornou um mal para ele mesmo. Uma prova? Dê uma olhada nos carrinhos à sua volta nos açougues dos mercados. Sempre há inúmeros abarrotados de carne.
Diariamente, as pessoas continuam criando pretextos para consumir dezenas de quilos de carne. Uso como exemplo um hipotético churrasco entre amigos. Eles compraram 20 quilos de carne para consumir em uma noite. Para a produção dessa carne, são necessários 308 mil litros de água, levando em conta que, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Pecuária (FAO), é preciso 15.400 litros de água para cada quilo de carne. Essa é a quantidade envolvida em todas as etapas do processo de produção industrial.
Quantas horas as pessoas levam para comê-la? Tenho certeza de que não muitas. Ainda assim, não raramente essas pessoas reclamam das mudanças no meio ambiente, ignorando a contribuição do consumo de carne nesse processo; o desflorestamento para formação de pasto e produção vegetal destinada à alimentação de animais de criação.
Com o alto consumo de carne, a produção tem se tornado cada vez mais insustentável. Nesse ritmo, vamos testemunhar perdas cada vez mais acentuadas de vegetação. Como isso pode não ser preocupante? Outro fato a se considerar é que se nossos ancestrais consumiam carne, eles o faziam por não ter escolha, comiam para sobreviver, e isso incluía tudo que estava ao seu alcance. Sendo assim, não é um bom argumento alguém dizer hoje que come carne porque seus antepassados também comiam. Nossos ancestrais faziam várias coisas erradas, nem por isso reproduzimos outros de seus hábitos.
Além disso, eles não tinham o entendimento e o acesso às informações que temos hoje, o que também acaba por ser um grande diferencial, inclusive derrubando mitos sobre a necessidade do ser humano precisar de proteínas de origem animal para sobreviver. Afinal, veganos e vegetarianos não existiriam se isso fosse verdade.
Guy Endore, autor de “O Lobisomem de Paris”, era vegetariano
Endore se tornou vegetariano nos tempos de estudante
O escritor estadunidense Guy Endore, importante nome da literatura gótica e de horror do século 20, mais conhecido pelo clássico “O Lobisomem de Paris”, publicado em 1933. A obra conta a história de um estadunidense que desenvolve uma pesquisa de doutorado em Paris. Durante a sua estadia, ele encontra um manuscrito recuperado por alguns catadores de lixo.
São 34 folhas escritas em francês, sobre uma defesa não solicitada pelo sargento Bertrand Caillet em uma corte marcial em 1871. Bertrand, que se torna um pária, nasceu do estupro cometido pelo Padre Pitamond contra uma adolescente. Em sua juventude, ele começa a ter desejos sexuais estranhos e sádicos que se manifestam em seus sonhos. Quando dorme, ele se vê como um lobo e tudo parece tão real que Caillet começa a entrar em conflito consigo mesmo, viajando pela França pré-revolucionária, na tentativa de acalmar seus próprios instintos.
Endore que era vegetariano imprimiu um pouco de pessoalidade ao personagem, como pode ser percebido na página 13 do livro “O Lobisomem de Paris”:
“Mas quando ele chegou, a primeira coisa que o atingiu foi o cheiro de carne assada. Maldita seja a carne. Ele se livrou dela a lançando dentro de uma fossa. Sim, exatamente isso. Com a carne no fundo da fossa, todos os seus pensamentos sobre ela foram afastados. Fora de alcance, fora da mente.”
Autor da biografia “The Many Lives of Guy Endore”, Chris Mikul conta que Endore era uma massa de contradições, principalmente levando em conta o quanto o escritor de horror era um sujeito sensível e dado a sutilezas, o que contrastava com suas obras.
“Seu amigo Alexander Woollcott, famoso crítico do New Yorker, o chamava de ‘Weremouse’. Endore se tornou vegetariano nos tempos de estudante. Também era praticante de ioga e aparentava ser muito mais jovem do que realmente era”, declarou Mikul.
Todos os dias pela manhã, ele saltava da cama e meditava por 30 minutos. Mais tarde, repetia o mesmo exercício Embora judeu, guardava uma Bíblia junto à cama e frequentemente a lia, e tinha grande interesse em misticismo, principalmente teosofia, segundo o biógrafo.
Outro estudioso da vida de Guy Endore é o professor Robert McKay, da Universidade de Sheffield, na Inglaterra, autor do trabalho “The Were-Wolf Hunger of Capital”. “’O Lobisomem de Paris’” é um romance sensacional sobre licantropia que tem como cenário a Comuna de 1871 [ou Comuna de Paris, primeiro governo operário da história], escrita e publicada […] pelo vegetariano Guy Endore. O foco do romance no consumo levanta questões pertinentes sobre as políticas da alimentação”, comenta McKay.
“O Lobisomem de Paris” é uma obra que, para além da literatura gótica e de terror, leva o leitor a refletir sobre as implicações do consumo de carne, tanto para os seres humanos quanto para os animais.
Saiba Mais
“O Lobisomem de Paris” inspirou o surgimento de muitos filmes, entre os quais “O Lobisomem de Londres”, de 1935; “O Lobisomem”, de 1941; “A Maldição do Lobisomem”, de 1961, considerado um dos grandes clássicos do cinema de horror; e “A Lenda do Lobisomem”, de 1975.
Referência
Endore, Guy. The Werewolf of Paris. Pocket Books (1993).
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Clive Barker: “Perdi mais amigos por ser vegetariano do que por ser gay”
Barker é autor de clássicos como “Hellraiser”, “Candyman” e da série “Livros de Sangue”

No filme “Midnight Meat Train”, Barker faz críticas ao consumo de carne e à violência contra os animais (Foto: Reprodução)
No dia 23 de fevereiro de 2012, o escritor e cineasta inglês Clive Barker, autor de clássicos como “Hellraiser”, “Candyman” e da série “Livros de Sangue”, publicada inclusive no Brasil, fez uma declaração no Twitter sobre como as pessoas do seu círculo social reagiram quando ele decidiu tornar-se vegetariano: “Perdi mais amigos por ser vegetariano do que por ser gay.”
Em 1997, quando divulgou em seu site as atividades realizadas ao longo do ano, a Peta, organização em defesa dos direitos animais, destacou que entre as sugestões estava uma proposição de Clive Barker. Ele sugeriu que os jornais colocassem notícias de caça e pesca nas sessões de obituários, de acordo com informações da página 57 do livro “Women and Guns: Politics and the Culture of Firearms in America”, de Deborah Homsher, lançado em 2001.
Barker decidiu se tornar um membro da Peta por se identificar com as pautas contra a exploração de animais nas indústrias alimentícia, de vestuário e entretenimento. Considerado por Stephen King na década de 1990 como a face da literatura de horror do futuro, Barker produziu o filme “Midnight Meat Train”, lançado em 2008, em que critica o consumo de carne ao colocar seres humanos no lugar dos animais.
A obra baseada em seu conto homônimo de 1984, e publicada no primeiro volume da coleção “Livros de Sangue”, conta a história de Leon, um fotógrafo vegetariano, interpretado por Bradley Cooper, que trabalha registrando o que existe de mais obscuro na humanidade. Um dia, ele testemunha uma tentativa de abuso contra uma modelo em um trem. A moça desaparece e ele começa a suspeitar de um açougueiro que estava no mesmo vagão naquela noite.
Leon então descobre que os passageiros do trem são assassinados a marretadas para que suas carnes sirvam de alimento para alienígenas carnívoros. Tais ações criminosas remetem ao que fazemos diariamente com bois, cavalos, porcos e aves. “Midnight Meat Train” mostra por meio de cenas de extrema violência o quão brutal pode ser o abate com a mera finalidade de transformar cadáveres em alimento.
Em síntese, no filme de terror o trem onde a carne humana é selecionada nada mais é do que um matadouro móvel. Na história de Barker, ele explora a compulsão pelo consumo de carne e aborda como o meio tem grande influência sobre quem somos, o que pode ser percebido pelo espectador ou leitor ao final do conto ou do filme.
Saiba Mais
No Brasil, o filme “Midnight Meat Train” recebeu o nome “O Último Trem”.
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Agostinho da Silva: “Evito comer animal, coitado do bicho, que culpa tem ele que eu exista?”
Em 1990, o filósofo, poeta e ensaísta português Agostinho da Silva foi entrevistado por Herman José no programa “Conversas Vadias”, da Rádio e Televisão de Portugal (RTP), de Lisboa. Em um determinado momento, o apresentador perguntou a Agostinho como ele se alimentava, que tipo de cuidado ele tinha com a alimentação para ter chegado aos 84 anos em forma estupenda.
O filósofo deixou claro que não tinha nenhum cuidado em especial com a alimentação, simplesmente evitava comer animais. “Evito comer animal, coitado do bicho, que culpa tem ele que eu exista?”, declarou quando José o questionou sobre o motivo.
Outra curiosidade é que o pensador recusava que o chamassem de guru, visionário ou profeta. “Considero-me uma pessoa que tenta ser o mais simples possível, que deixa que a vida lhe traga os problemas que vai tentar resolver se puder. Mais nada”, respondeu a Herman José.
Vegetariano, Agostinho da Silva é tema da biografia “O Estranhíssimo Colosso”, de Antônio Cândido Franco, lançada em 2015 pela Quetzal Editores, de Portugal. Como bem observado pelo autor, Agostinho acreditava que os animais são nossos companheiros, não nossos escravos e vítimas.
O livro dividido em quatro segmentos aborda também o vegetarianismo do filósofo português que ficou famoso por andar indocumentado, prezar pela liberdade em suas mais variadas formas e dedicar sua vida a seguir na contramão da “normalidade”.
De acordo com Antônio Cândido, Agostinho da Silva se mudou para o Brasil em 1947, instalando-se em São Paulo e depois na Serra da Itatiaia, no Rio de Janeiro. Enquanto estudava entomologia, trabalhou no Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, e lecionou na Faculdade Fluminense de Filosofia (FFF). Entre os anos de 1952 e 1954, foi professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em João Pessoa.
Em parceria com o médico, historiador e escritor português Jaime Cortesão realizou um grande trabalho de pesquisa sobre a vida do diplomata brasileiro Alexandre de Gusmão. Agostinho continuou no Brasil até 1969, então retornou a Portugal, onde viveu até falecer em 3 de abril de 1994.
De acordo com o professor Nuno Sotto Mayor Ferrão, Agostinho da Silva foi não apenas um intelectual, mas também um empreendedor, já que no Brasil ele se empenhou na criação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Universidade Nacional de Brasília (UNB). “Ele também criou centros de estudos que ampliaram a compreensão da importância da lusofonia”, enfatizou Ferrão.
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Coetzee: “É mais fácil bloquear nossas simpatias enquanto torcemos o pescoço do frango que vamos comer”
Um vencedor do Nobel de Literatura preocupado em mudar as mentes e os corações das pessoas em relação aos animais

Coetzee: “Eles mencionam que o herói do romance se envolve com os defensores dos direitos animais, e ficam nisso”
O escritor sul-africano J.M. Coetzee, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2003, é conhecido como um homem tímido e recluso, que não gosta de dar entrevistas desde 1974, quando iniciou sua carreira literária. Porém, para veículos que atuam em defesa dos direitos animais, ele sempre se mostrou mais receptivo e disposto a fazer concessões.
Um exemplo é uma rara entrevista, intitulada “Animals, Humans, Cruelty and Literature”, publicada em maio de 2004 na revista Satya, fundada em 1994, no Brooklyn, em Nova York. A matéria, baseada na entrevista que o jornalista Henrik Engström realizou com Coetzee por e-mail, veio a público pela primeira vez no jornal sueco Djurens Rätt. Mesmo após a entrevista, o jornal que aborda os direitos animais conseguiu manter contato com o escritor sul-africano ao longo de um ano.
O que diferencia Coetzee de muitos outros atores que abordam a questão animalista é que ele não qualifica o amor e a compaixão pelos animais como imprescindíveis na causa animal. Para o escritor, o mais importante é que os seres humanos reconheçam que não existe justiça quando matamos animais para transformá-los em comida ou produtos, independente de espécie. Ou seja, a exploração animal é inaceitável do ponto de vista moral e ético.
E foi por causa dessa visão que ele recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. A sua indicação veio logo após o lançamento do livro “Elizabeth Costello”, de 2003, em que ele dedica dois capítulos a discutir a relação dos seres humanos com os animais. “Os animais estão na minha ficção ocupando um papel subsidiário, em parte, porque eles realmente ocupam um papel meramente subsidiário em nossas vidas. E em parte, porque não é possível escrever sobre a vida dos animais com a devida complexidade”, justificou.
Questionado se ele acredita que a indicação do seu livro ter sido feita justamente pela abordagem da questão animalista, Coetzee admitiu que um único livro não é capaz de mudar o mundo em relação a isso, mas talvez tenha um pequeno impacto. Embora “The Lives of Animals” e “Elizabeth Costello” tenham se popularizado nesse aspecto, a discussão em torno dos direitos animais na literatura do sul-africano começou com o romance “Desonra”, em que os animais ocupam papel consideravelmente proeminente, principalmente quando ele decide realizar trabalho voluntário em um local onde cuidam de animais enfermos e abandonados.
E o que decepcionou Coetzee à época foi o fato de que as editoras ignoraram o papel dos animais em seu livro. “Eles mencionam que o herói do romance se envolve com os defensores dos direitos animais, e ficam nisso. Os personagens refletem a forma como os animais são tratados no mundo em que vivemos, como existências insignificantes que só reconhecemos quando suas vidas cruzam as nossas”, lamentou a Engström.
Coetzee é um escritor que não prioriza a conquista de direitos legais para os animais. Sua maior preocupação é mudar as mentes e os corações das pessoas em relação aos animais. “O mais importante de todos os direitos, é o direito à vida. Não posso prever que um dia os animais terão esse direito em forma de lei. Então o que podemos fazer é mostrar para o maior número de pessoas o custo psíquico e espiritual da forma como tratamos os animais, e assim talvez mudar nossos corações”, enfatizou.
O escritor não qualifica os seres humanos como naturalmente cruéis. Ele exemplifica o fato de que para sermos cruéis teríamos que fechar sempre os nossos corações para o sofrimento do outro. “É inerentemente mais fácil bloquear nossas simpatias enquanto torcemos o pescoço do frango que vamos comer do que anular nossas simpatias pelo homem que vamos enviar para a cadeira elétrica. […] Evoluímos nossos mecanismos psíquicos, sociais e filosóficos para lidar com a matança de aves. Por razões complexas, usamos os mesmos mecanismos para permitir a matança de seres humanos somente em tempos de guerra”, avaliou.
Segundo J.M. Coetzee, um erro que cometemos com muita frequência é o de não perceber que o modo de consciência das espécies não humanas é bem diferente da consciência humana. Acredita-se que o ser humano é capaz de habitar a consciência de um animal, enquanto que por meio da faculdade da simpatia é possível para o ser humano saber como é ser alguém. “Os escritores são reputados por possuir fortemente esta qualidade particular. Se é de fato, ou pelo menos muito difícil habitar a consciência de um animal, então ao escrever sobre os animais, há uma tentação de projetar sobre eles pensamentos e sentimentos que podem pertencer somente à nossa própria mente humana e coração”, ponderou.
Coetzee crê que somos sempre tentados a procurar nos animais o que desperta com mais facilidade nossa simpatia ou empatia, na tentativa de favorecer espécies animais que, por uma razão ou outra, nos parecem quase humanas em seus processos mentais e emocionais. “Assim os cães são tratados como quase humanos, enquanto os répteis são tratados como completamente estranhos”, citou em referência ao especismo, conduta humana que legitima a exploração animal.
Sem animais de estimação em casa, o escritor se contenta em dizer que “considera” ter uma relação pessoal com pássaros e sapos que visitam sua propriedade. “Mas não creio por um minuto que eles acham que têm relações pessoais comigo. Sim, sou vegetariano. Acho que a ideia de encher a minha garganta com fragmentos de cadáveres é extremamente repulsiva, e fico surpreso por tantas pessoas fazerem isso todos os dias”, confidenciou.
Referência
Engström, Henrik. Satya Mag. Animals, Humans, Cruelty and Literature – A Rare Interview with J.M. Coetzee (2004).
http://www.satyamag.com/may04/coetzee.html
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Roberto, um homem de bem
Roberto teve um irmão que foi assaltado na BR-376 no ano passado. Irritado, não acionou a polícia. Preferiu descobrir quem era o autor, o localizou e o assassinou dentro de sua casa.
Roberto continuou andando armado, até que um dia embriagado, durante uma discussão no trânsito, deu dois tiros no peito do reclamante, que morreu no próprio local.
Quando questionado por que fez isso, Roberto disse apenas o seguinte: “Pra ele, eu estava errado por ter batido em seu carro, mas pra mim quem estava errado era ele que gritou comigo e me xingou. Então no calor do momento resolvi atirar.”
Na época da escola…
Na época da escola, lembro que nos levavam à fábrica da coca-cola, entre outras grandes indústrias que permitiam nossas visitas, mas sempre com um guia que romantizava tudo. Por que não nos levavam para conhecer a origem da carne, dos produtos lácteos e dos ovos? Matadouros, aviários, avícolas ou os bastidores da indústria leiteira… É uma pergunta retórica mesmo.
“Ela se interessou por você. Ela tem fetiche por jornalista”
Dias atrás, um amigo veio me falar que uma amiga dele quer muito me conhecer. Então questionei o motivo:
– Ah, cara! Ela se interessou por você. Ela tem fetiche por jornalista.
– Como assim?
– Como assim o quê?
– O que seria fetiche por jornalista?
– Sei lá, cara! Tá perguntando demais!
– Cara, pra ela ter fetiche por jornalista, ela precisa primeiro ter fetiche pela pobreza, porque uma coisa está associada à outra.

