David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for March, 2017

Uma triste face da realidade da indústria leiteira

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Assisti hoje mais um dos muitos vídeos disponíveis no YouTube sobre a realidade da grande indústria leiteira. Animais que morrem pouco a pouco para que as pessoas possam consumir laticínios. As vacas produzem leite em quantidades absurdas, ou seja, não naturais, e não raramente levam uma vida de sofrimento e privações até o dia de sua morte. Ademais, o bezerro vai morrer de qualquer modo, já que ele é irrelevante para o setor.

Vale a pena beber leite e consumir derivados a esse preço? Não creio. Por isso não compro nem consumo nada que tenha leite. De repente, pode aparecer alguém dizendo que isso não é uma realidade que se deve generalizar. Acredito que seja a realidade sim porque a maior parte das pessoas compra leite industrializado, o que significa que estamos falando de grandes produtores. Para atender a demanda, é preciso exigir muito dos animais, reduzindo expectativa de vida e consequentemente gerando sofrimento. Até porque nenhum animal é feliz produzindo leite para seres humanos.

Em síntese, esse tipo de situação só existe porque há uma grande demanda de leite e derivados. Se um animal é levado a viver dessa forma, isso acontece porque tem quem compre o resultado da exploração desse animal. Se possível, pense nisso quando for comprar leite, iogurte, queijo, etc. É apenas uma sugestão.

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Sobre a questão moral da exploração animal e as ostras

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Mesmo que ostras não sentissem dor, isso não significa que estão disponíveis à exploração (Foto: Reprodução)

Esses dias, testemunhei uma discussão sobre animais que hipoteticamente “não sentem dor”. Na minha opinião, a questão moral e ética da exploração animal não deve ter como parâmetro apenas o nível de dor que um animal é capaz de sentir.

Se há uma indesejada e desnecessária interferência humana, eu já vejo isso como errado. Não temos o direito de interferir na vida dos animais não humanos, a não ser que eles precisem de nós.

Essa tendência há equacionar tudo com base em quem sofre mais ou menos não deve ser a única referência quando falamos de direitos animais. Inclusive é por isso que muitos animais, principalmente marinhos, são subestimados.

Sobre moluscos, por exemplo, como ostras, já vi o filósofo australiano Peter Singer dizendo que tudo bem em comê-las, porque, segundo ele, elas não sentem dor. O que hoje em dia não é nem mesmo uma afirmação, mas sim uma opinião, já que não é possível confirmar isso.

Os pesquisadores Robyn Jean Crook e Edgar Walters, da Universidade Estadual de São Francisco e da Universidade do Texas, descobriram que ostras e mexilhões têm sistemas nervosos rudimentares e, por isso, parecem não usar opiáceos endógenos para inibir a dor, de acordo com o artigo “Nociceptive Behavior and Physiology of Molluscs: Animal Welfare Implications”.

A posição de Singer só reafirma a sua defesa utilitarista, o que nesse caso não representa o veganismo, já que o veganismo versa sobre a não exploração animal, e acho que é importante evitar excluir animais porque hipoteticamente eles não sentem dor ou parecem não reagir negativamente à intervenção humana. Animais não foram feitos para os nossos próprios fins. E acho que essa deveria ser a premissa de todos aqueles que são veganos ou vegetarianos por questões morais e éticas.

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Written by David Arioch

March 12th, 2017 at 7:45 pm

Peter Cushing, do cinema de terror para a Sociedade Vegetariana

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“Amo os animais, e quando estou no país [Inglaterra], sou um dedicado observador de pássaros”

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Peter Cushing na franquia “Frankenstein” (Foto: Reprodução)

O ator britânico Peter Cushing foi um dos maiores nomes do cinema de terror, além de um dos artistas mais celebrados da Hammer Films, produtora que lançou clássicos como “Dracula”, “The Mummy” e a franquia Frankenstein, iniciada com “The Revenge of Frankenstein”.

Cushing sempre contracenava com outros nomes de peso da arte cinematográfica, como Christopher Lee e Vincent Price. Embora interpretasse muitos personagens incomuns, enigmáticos e assustadores, Cushing era um sujeito bastante agradável, educado e que gostava tanto de animais que abdicou do consumo de carne na juventude.

“As pessoas olham para mim como se eu fosse algum tipo de monstro, mas não consigo entender o porquê. Em meus filmes macabros, fui um criador de monstros ou um destruidor de monstros, mas nunca um monstro. Na realidade, sou um camarada gentil. Nunca prejudiquei uma mosca. Amo os animais e, quando estou no campo, sou um dedicado observador de pássaros”, disse em entrevista publicada na ABC Film Review em novembro de 1964.

De acordo com informações do livro “Living Without Cruelty”, de Lorraine Kay, entre as comidas preferidas do ator britânico estavam torradas de pão integral com Olde English Marmalade. Em 1965, ele interpretou o inesquecível Dr. Who em “The Dr. Who and the  Daleks”. Em 1977, viveu o personagem Grand Moff Tarkin, comandante da “Estrela da Morte” no filme “Star Wars Episode IV: A New Hope”.

Em 1966, o ator britânico revelou novamente o seu incômodo em ser confundido com seus personagens, o que na realidade era uma consequência dele ter participado de muitos filmes de terror: “Fico terrivelmente cansado com as crianças do bairro dizendo: ‘Minha mãe diz que ela não gostaria de encontrá-lo em um beco escuro.’”

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Cushing como o professor Van Helsing (Foto: Reprodução)

Em 1971, Peter Cushing perdeu sua esposa Violet Helene Beck, o que provavelmente foi a maior perda de sua vida, deixando-o inconsolável. Em 1982, foi diagnosticado com câncer de próstata, mas optou por não fazer nenhum tratamento agressivo. Em 1987, o ator recebeu um convite para assumir a função de patrono da Vegetarian Society (Sociedade Vegetariana), sediada em Manchester, na Inglaterra. Assumiu o cargo orgulhosamente até 11 de agosto de 1994, quando faleceu aos 81 anos.

“Um vegetariano apaixonado a maior parte de sua vida. Peter Cushing será lembrado como um homem de fala mansa e gentil. Ele amava os animais selvagens e era um dedicado ornitologista. Quando sua esposa faleceu em 1971, ele sentiu que sua vida também acabou. Sua autobiografia, publicada somente 15 anos depois, não faz menção à sua vida após a morte de Helena. Em 11 de agosto de 1994, depois de uma longa doença que ele carregou com característica dignidade, ele se juntou a ela. Seus amigos vão sentir falta de seu deslumbrante intelecto e sagacidade. Sua vida, pela qual damos graça, é um bom testemunho do vegetarianismo. Estamos orgulhosos de ter Peter Cushing como nosso patrono”, publicou a Vegetarian Society no jornal “The Vegetarian” em 1994.

Saiba Mais

Peter Cushing nasceu em 26 de maio de 1913 em Kenley, Surrey, na Inglaterra.

Em 2016, 22 anos após sua morte, Cushing apareceu em “Rogue One: A Star Wars Story”, novamente como Grand Moff Tarkin, por meio do uso de CGI.

Sua carreira como ator começou em 1939 e terminou em 1986.

A Vegetarian Society é a entidade vegetariana mais antiga ainda em atividade. Ela foi fundada em 30 de setembro de 1847.

Referências

Gullo, Christopher. In All Sincerity, Peter Cushing. XLIBRIS (2004).

Kay, Lorraine. Living Without Cruelty. Sidgwick & Jackson Ltd; 1st edition (1990).

http://web.archive.org/web/19981205075607/www.vegsoc.org/HQdata/cushing.html

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Caroline Earle White, uma pioneira da proteção animal

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“Não há dúvida de que sua verdadeira vocação era ajudar os negligenciados, os sem voz: os animais”

Caroline Earle White

Caroline Earle White fundou a Women’s Humane Society em 1869 (Foto: Women’s Humane Society)

Criada em uma família de abolicionistas e sufragistas, Caroline Earle White é um dos nomes mais importantes da história da proteção animal nos Estados Unidos. Em 1869, depois de ter o seu pedido negado para ocupar uma posição de liderança na Pennsylvania Society for the Prevention of Cruelty to Animals (Sociedade da Pensilvânia pela Prevenção da Crueldade aos Animais), e simplesmente por ser mulher, ela fundou a sua própria entidade, Depois criou o primeiro abrigo para animais dos Estados Unidos e a primeira sociedade anti-vivissecção. Em síntese, a sua história é marcada por muita luta e adversidades.

Nascida na Filadélfia, no estado da Pensilvânia em 1833, Caroline Earle White era filha de Thomas Earle e Mary Hussey. Dedicado à causa abolicionista, seu pai era advogado e representava tanto afro-americanos livres quanto fugitivos. Sua mãe, além de abolicionista, também era sufragista. Educada em Nantucket, em Massachusetts, onde estudou astronomia e diversos idiomas, Caroline se interessou ainda muito jovem por questões sociais e humanitárias.

Aos 33 anos, ela se tornou co-fundadora da Pennsylvania Society for the Prevention of Cruelty to Animals (PSPCA), que iniciou suas atividades em 1866. Porém, quando soube que por ser mulher não poderia ocupar nenhuma posição de destaque na entidade, ela optou por se afastar e criou em 14 de abril de 1869 a Women’s Pennsylvania Society for the Prevention of Cruelty to Animals (Sociedade das Mulheres da Pensilvânia pela Prevenção da Crueldade aos Animais).

Segundo informações da Women’s Humane Society, a entidade criada por Caroline White, e guiada por um conselho administrativo formado somente por mulheres, se tornou uma força na comunidade humanitária. Em 1912, a organização abriu um pequeno abrigo para animais abandonados, dando a eles uma chance de ter um novo lar.

O novo abrigo oferecia o primeiro programa de adoção de animais do país, e foi um grande sucesso porque atendeu uma importante necessidade da comunidade. Até então, os animais que viviam nas ruas sofriam muito, porque havia uma política “higienista” nos Estados Unidos que permitia que eles fossem mortos.

“Há muitas pessoas que, quando lhes pedimos para se juntarem a nós, dizem que preferem trabalhar para os seres humanos. Mas nós não estamos trabalhando para os seres humanos? Nós não estamos nos esforçando constantemente para fazer homens e mulheres mais humanos e dispostos a todos os sentimentos de bondade e a ensinar as crianças a serem gentis e misericordiosas?”, disse Caroline Earle White em declaração histórica que pode ser lida no site da Women’s Humane Society, dos Estados Unidos.

Circa 1911 - Caroline Earle White and the women of the WPSPCA…

Protesto contra a crueldade animal liderado por Caroline em 1911 (Foto: Women’s Humane Society)

Após fundar a American Anti-Vivisection Society (Sociedade Americana Anti-Vivissecção) em 1883, como forma de combater a vivissecção, ou seja, operações feitas em animais vivos com o objetivo de realizar estudo ou experimentação, ela começou a produzir e distribuir folhetos com a intenção de chamar a atenção para a inadmissível violência praticada contra os animais.

Em 1893, na Feira Mundial de Chicago, ela distribuiu milhões de panfletos explicando que os animais usados nesses experimentos eram inclusive roubados. A ideia de que poderia ser errado matar animais mesmo com o propósito de obter alimentos desfrutou de uma proeminência considerável, observou Carol Helstosk na página 184 do livro “The Routledge History of Food”, publicado em 2014.

À época, o vegetarianismo começou a ser promovido em todo o país porque os defensores e simpatizantes da causa animal entenderam que não seria possível lutar pelos direitos animais enquanto se alimentavam de animais. Caroline White adotou o vegetarianismo na década de 1890, assim como sua colaboradora Mary F. Lovell, a escritora e anti-vivisseccionista Cynthia Fairchild-Allen e a fundadora da Boston Animal Rescue League, Anna Harris Smith, o que ajudou a fortalecer ainda mais o discurso contra a exploração animal.

“Agora quase todos concordam que os animais inferiores têm certos direitos, tão inalienáveis como os do homem para a vida, a liberdade e a busca da felicidade”, frisou Caroline Earle em citação escrita em um relatório ao Conselho Administrativo da WPSPCA, reproduzida no boletim informativo “The Guardian”, da Women’s Humane Society, em outubro de 2014.

Apesar da sua referência aos animais como “inferiores”, é importante entender que Caroline não via os animais exatamente dessa forma. Talvez ela não tenha usado palavras mais auspiciosas por causa do contexto da época, já que se tratava de uma realidade do século 19. Como ativista, ela também escrevia sobre direitos animais e fez o possível para minimizar o sofrimento dos animais usados principalmente como meio de transporte, que eram vítimas constantes de maus-tratos, assim como cães e gatos.

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Cavalos estavam entre os animais que despertavam sua preocupação (Foto: Women’s Humane Society)

Caroline Earle White garantiu a instalação de fontes de água para cavalos em locais públicos. Em 1909, inauguraram a Caroline Earle White Dispensary, uma clínica que oferecia serviços veterinários gratuitos para equinos e animais menores. Após alguns anos lidando com sérios problemas de saúde, a ativista dos direitos animais faleceu em 7 de setembro de 1916 em Nantucket, Massachussets. “Ela era uma grande mulher com o coração de uma pequena criança. Suas obras a louvam; as milhões de criaturas de Deus que ela salvou do sofrimento cantam em seu louvor”, escreveu a sua sobrinha e poeta Florence Earle Coates.

Apesar da sua morte, as instituições criadas por Caroline continuam na ativa até hoje. Exemplos são a Women’s Pennsylvania Society for the Prevention of Cruelty to Animals, que adotou o nome de Women’s Humane Society em 1988, e a American Anti-Vivisection Society. Segundo a escritora Diane L. Beers, autora do livro “For the Prevention of Cruely: The History and Legacy of Animal Rights Activism in the United States”, Caroline Earle White foi uma pioneira do chamado “feminismo social”.

Ela lutou para que as mulheres tivessem a oportunidade de desempenhar importantes papéis na sociedade, particularmente como fundadoras e líderes de organizações sem fins lucrativos. “Mas não há dúvida de que sua verdadeira vocação em vida era ajudar os negligenciados, os sem voz: os animais. Ela não era apenas prática e inovadora em suas campanhas, mas uma firme e implacável oponente para aqueles que prejudicavam os animais”, definiu Diane L. Beers.

Referências

Beers, Dianne. For the Prevention of Cruelty: The History and Legacy of Animal Rights Activism in the United States. Ohio. Ohio University Press (2006).

Hawthorne, Mark. A Vegan Ethic: Embracing a Life of Compassion Toward All. Changemakers Books (2016).

Mrs. Caroline Earle White, Reformer. Records of the American Catholic Historical Society of Philadephia. Volume 33. Março de 1922 (Página 52).

https://www.womenshumanesociety.org/sites/default/files/5109%20WHS%206%20page_web-10-20-2014.pdf

https://womenshumanesociety.org/history

http://www.museumofanimals.org/caroline-earle-white/3788770

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Donald Watson: “Podemos ver claramente que a nossa civilização atual foi construída sobre a exploração animal”

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“O maior erro do homem é tentar transformar-se em carnívoro, contrariando a lei natural”

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Donald Watson tornou-se vegetariano aos 14 anos, em 1924 (Foto: Vegan Society)

Não é possível dizer até que ponto o carpinteiro britânico Donald Watson é conhecido no mundo todo. Na realidade, nem ele tinha ideia se muitas pessoas sabiam ou não quem ele realmente era, até porque nunca se importou tanto em receber qualquer crédito. No entanto, verdade seja dita, Watson foi o responsável pela criação do termo “vegan” e pela fundação da Vegan Society, entidade que definiria os objetivos do veganismo a partir da década de 1940.

Donald Watson nasceu em Mexborough, South Yorkshire, em 2 de setembro de 1910. Sempre que concedia alguma entrevista, ele fazia questão de dizer que as primeiras lembranças de sua infância remetiam às férias na fazenda do seu tio George. “Todos ‘davam’ algo: o cavalo puxava o arado, as vacas ‘davam’ leite, as galinhas ‘davam’ ovos e o galo era um útil ‘despertador’.  As ovelhas ‘davam’ lã, mas elas pareciam criaturas tão amigáveis – sempre contentes em me ver. Então chegou o dia em que um dos porcos foi morto. Ainda tenho lembranças vívidas de todo o processo – incluindo os gritos, é claro”, relatou a George D. Rodger, autor do livro “Vegan Passport”, em 15 de dezembro de 2002.

Watson ficou chocado quando viu que seu tio George, a quem tinha em alta estima, fazia parte da equipe de abate. Aquele cenário bucólico que marcou sua infância passou a ser visto por ele como um corredor da morte, onde criaturas inocentes eram executadas quando suas vidas já não tinham valor para os seres humanos. E diante desse sentimento, Donald sentiu-se sozinho porque seus pais, avós, 22 tios e tias, seus 16 primos, professoras e até o vigário reconheciam aquela prática como “natural”.

“Eu tinha 14 anos [quando me tornei vegetariano]. Fiz uma resolução de Ano Novo de não comer carne ou peixe novamente [em 1924]. Eu não conhecia outro vegetariano na cidade onde eu vivia. Em pouco tempo, meu irmão e minha irmã tornaram-se vegetarianos. Eu me sentia bem. Nós não fumávamos nem consumíamos álcool também”, disse em entrevista a Joe Connelly, da Veg News, em 1995.

Quando saiu da escola aos 15 anos, se tornou aprendiz de carpinteiro de um de seus tios, até que aos 21 anos viu a Inglaterra amargar as consequências da Grande Depressão, considerada a maior recessão econômica do século 20. À época, Watson descobriu que ele poderia atuar como professor de carpintaria, bastando apenas ser aprovado em um exame de qualificação da City and Guilds, sediada em Londres. “Gostei tanto do trabalho que nunca tentei obter qualquer tipo de promoção”, informou.

Depois de tornar-se professor aos 20 anos, ele deu aulas em Leicester e ingressou na Leicester Vegetarian Society. Um amigo permitiu que Watson usasse um de seus terrenos para fazer uma horta, até que conseguiu um emprego em Keswick, além de uma casa com um acre de jardim – um sonho tornado realidade. “[Como já fazia naquela época] Meus baldes de compostos estão [sempre] cheios de todos os tipos de ervas daninhas, mudas de relva, resíduos vegetais de jardim e folhas mortas – não há estrume animal. A propósito, toda minha escavação é feita com garfo, não uma pá, porque quero preservar as minhocas”, declarou a George D. Rodger em 2002.

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Donald e Dorothy Watson, pioneiros do veganismo (Foto: Vegan Society)

Depois de lecionar carpintaria por três anos, fixou residência em Cúmbria, no Norte da Inglaterra. Donald Watson se casou com Dorothy, uma jovem gaulesa que o ensinou um ditado que faria toda a diferença em sua vida: “Quando todo mundo estiver correndo, fique parado.” E foi o que ele fez. “Há tantas pessoas correndo para o que eu vejo como um suicídio, seguindo hábitos perigosos. Sempre acreditei que o maior erro do homem é tentar transformar-se em carnívoro, contrariando a lei natural”, criticou.

Em agosto de 1944, Watson reuniu cinco vegetarianos estritos, incluindo sua esposa Dorothy, no Attic Club, em High Holborn, Londres, para discutir sobre a criação da Vegan Society, uma entidade fundada em novembro do mesmo ano e que teria como objetivo defender e divulgar uma filosofia de vida totalmente contrária à exploração animal. Watson se incomodava com o fato de que muitos vegetarianos da época se alimentavam de ovos e laticínios.

A sua iniciativa gerou controvérsias. Inclusive algumas pessoas declararam à época que não acreditavam que ele sobreviveria seguindo o que eles consideravam uma “dieta tão restrita”. No editorial da primeira edição do boletim informativo “Vegan News”, editado pela Vegan Society, ele escreveu:

“Podemos ver claramente que a nossa civilização atual foi construída sobre a exploração animal, assim como as civilizações passadas foram construídas sobre a exploração de escravos, e acreditamos que o destino espiritual do homem é tal que, com o tempo, ele verá com horror a ideia de que homens foram alimentados com produtos baseados nos corpos dos animais.”

Watson dizia que caso ele não tivesse fundado a Vegan Society, provavelmente outra pessoa teria feito isso, embora talvez com um nome diferente. Mesmo tendo boas expectativas em relação ao veganismo, o professor de carpintaria não chegou a imaginar que um dia quase todos os dicionários do mundo incluiriam a palavra “vegan”, uma versão reduzida de “vegetarian”. “Ela tornou-se parte da nossa linguagem”, comemorou em entrevista a George D. Rodger em 2002.

Questionado em 1995 pelo editor Joe Connelly, da Veg News, sobre a inspiração para o termo “vegan”, Donald Watson sorriu e brincou que foi um “fio de inspiração que veio do ar e se chocou contra ele”. “Pensei bem, VEE-gan, isso é uma palavra forte. A única crítica que recebi foi de um sujeito proeminente no movimento vegetariano – Jon Wynne-Tyson [escritor e ativista]. Ele dizia que não gostava porque soava como se fosse [uma referência à] habitantes de outro planeta”, relatou.

Para Watson, a sua maior realização foi ter o privilégio de ter servido como um instrumento no início de um grande movimento que, segundo ele, deu mostras de que tem condições de mudar o curso das coisas para a humanidade, permitindo que os seres humanos tenham maiores chances de sobrevivência e possam viver por muito mais tempo.

“Watson expandiu sua filosofia de se opor a qualquer dano às criaturas vivas. Um pacifista comprometido ao longo de sua vida, Watson registrou sua objeção consciente à Segunda Guerra Mundial”, escreveu Jenny Booth no TheTimes, de Londres, em 8 de dezembro de 2005. Seu irmão e sua irmã também tornaram-se veganos e se manifestaram contra a guerra.

Embora nunca tivesse sido profundamente religioso, o fundador da Vegan Society se considerava agnóstico, e defendia que se Jesus Cristo era um essênio, como afirmam alguns teólogos, ele era vegano. “Se ele estivesse vivo hoje, seria um propagandista vegano, espalhando a mensagem da compaixão”, declarou a George D. Rodger.

Donald Watson, viveu os seus últimos anos de vida em Cúmbria, atuando como guia turístico e dedicando-se à produção de vegetais orgânicos, segundo informações do artigo “Donald Watson – Founder of veganism and the Vegan Society”, de Phil Davison, publicado em 24 de novembro de 2005. “Inevitavelmente, suponho que, nos próximos dez anos, não poderei acordar. E então? Haverá um funeral, um punhado de pessoas e, como [George Bernard] Shaw previu para o seu próprio funeral, haverá os espíritos de todos os animais que nunca comi. Nesse caso, será um grande funeral”, inferiu. Donald Watson faleceu aos 95 anos em 16 de novembro de 2005.

Referências

https://www.vegansociety.com/sites/default/files/DW_Interview_2002_Unabridged_Transcript.pdf

http://vegnews.com/articles/page.do?pageId=866&catId=5

http://ukveggie.com/vegan_news

Davison, Phil. Donald Watson – Founder of veganism and the Vegan Society. The Independent. Londres (24 de novembro de 2005).

Booth, Jenny. Donald Watson. The Times. Londres (8 de dezembro de 2005).

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Written by David Arioch

March 8th, 2017 at 8:53 pm

Asenath Nicholson, a professora que defendeu uma alimentação livre da exploração animal no século 19

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Andrew Smith: “O veganismo em Nova York remete a 1833, quando Asenath Nicholson publicou o primeiro livro de receitas ‘veg(etari)anas”

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Um dos raros registros da imagem de Asenath Nicholson

É injusto falar da história do vegetarianismo nos Estados Unidos sem citar Asenath Nicholson, uma professora abolicionista que no século 19 já defendia uma alimentação livre da exploração animal. Ela foi a autora de “Nature’s Own Book”, um dos primeiros livros publicados com receitas vegetarianas, administrou uma pensão “vegana” e viajou para a Irlanda nos tempos da Grande Fome, onde passou anos alimentando os famintos com refeições vegetarianas.

De acordo com a biografia “Compassionate Stranger: Asenath Nicholson and the Great Irish Famine”, de Maureen O’Rourke Murphy, Asenath nasceu como Asenath Hatch em Chelsea, Vermont, em 24 de fevereiro de 1792. Filha dos colonos Michael e Martha Hatch, se tornou professora em sua cidade natal e em 1830 migrou para Nova York, onde abriu uma pequena escola e se casou com o comerciante Norman Nicholson, com quem dividia o interesse pela filantropia e pelas reformas sociais.

Mais tarde, o casal conheceu o pioneiro vegetariano e ministro presbiteriano Sylvester Graham, famoso pela criação da farinha graham e dos biscoitos graham crackers. À época, Graham era mais conhecido por advogar que a boa vida moral dependia também da não exploração animal, abstinência, disciplina alimentar, higiene e exercícios regulares.

Asenath, que frequentemente assistia suas palestras, acabou influenciada pelo ministro presbiteriano, e então começou a trilhar o seu próprio caminho, embora sempre que necessário fazia referências ao bom amigo Sylvester Graham. “O veganismo em Nova York remete a 1833, quando Asenath Nicholson publicou o primeiro livro de receitas ‘veg(etari)anas’, em colaboração com Sylvester Graham. [Porém] O livro ‘Nature’s Own’ traz algumas receitas com leite [o que pode ter sido incluído por intervenção de terceiros], escreveu Andrew F. Smith na página 617 do livro “Savoring Gotham: A Food Lover’s Company to New York City”, de 2015.

O que levanta tal suspeita é que tanto Asenath quanto Graham eram contra o consumo de laticínios, inclusive no mesmo livro, que traz cerca de dez páginas de receitas, ela declara que uma boa alimentação deve ser baseada apenas em bom pão, água pura, frutas maduras e vegetais. Ademais, apresenta testemunhos e relatos autobiográficos. “São minha carne e exclusivamente a minha bebida. Em 1837, Graham começou o seu primeiro jornal ‘vegano’ intitulado ‘The Journal of Health and Longevity’, que foi distribuído em Nova York”, escreveu Smith.

A professora Nicholson defendia um estilo de vida simples com dieta simples, atividades físicas e jejuns ocasionais. Ela incentivava a prática de se tomar banhos frios diariamente e um banho morno por semana. Também alertava para a importância da limpeza doméstica, alegando que “uma cozinha suja era como um coração sujo”. Suas qualidades a colocaram à frente daquela que é considerada uma das primeiras hospedarias “veganas” dos Estados Unidos; uma pensão em Five Points, um bairro da baixa Manhattan, em Nova York, que era habitado por pobres imigrantes, mas principalmente irlandeses e negros.

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Asenath assistiu algumas palestras do pioneiro vegetariano Sylvester Graham (Arte: Library of Congress, Washington, D.C.)

Oferecendo quartos confortáveis a preços baixos e comida vegetariana de boa qualidade, a pensão aberta em 1832 prosperou, tanto que no ano seguinte os Nicholson abriram outra no número 79 da Cedar Street, na esquina com a Nassau Street. Mesmo abandonada pelo marido em 1838, quando Norman desapareceu sem deixar qualquer recado, Asenath Nicholson não esmoreceu e seguiu trabalhando. Ela nunca mais teria notícias dele, supostamente falecido em 1841, de acordo com informações da escritora e pesquisadora Maureen Murphy.

Além de uma mesa servida prodigiosamente com os melhores vegetais e frutas, ela não oferecia nada de origem animal, pois Asenath não via sentido na morte de animais para servir de alimento aos seres humanos, assim como também era contra a escravidão dos negros e de qualquer outro povo em situação de subjugação. A alimentação na pensão excluía também qualquer tipo de estimulante. E essa defesa de um estilo de vida que hoje seria chamado de veganismo foi a bandeira de uma mulher em uma época que ainda não existia nem o termo vegetarianismo, criado na Inglaterra por volta de 1840, segundo informações da página 534 da obra “The Oxford Encyclopedia of Food and Drink in America – Volume 2”, editada por Andrew Smith.

Em 1840, John Burdell e William Alcott se juntaram a Sylvester Graham e Asenath Nicholson na promoção de um estilo de vida mais saudável e livre da exploração animal. Mesmo com esse empenho, nunca tiveram pressa em formar uma sociedade organizada e com objetivos mais específicos, tanto que   somente em 1850 foi realizada a reunião inaugural da Sociedade Vegetariana Americana, no Clinton Hall, na New York Mercantile Library. Nesse ínterim, Asenath já tinha convertido um sem-número de pessoas ao vegetarianismo, ao longo de quase 20 anos; entre eles, inclusive pessoas bem pobres.

Em 1844, viajou para a Irlanda, preocupada com o que se tornaria a Grande Fome, uma das maiores tragédias daquele país, e que atingiu principalmente as famílias mais carentes. A experiência a motivou a escrever os livros “Welcome to the Stranger” e ‘Annals of the Famine in Ireland”, lançados em 1847 e 1851. As duas obras trazem relatos surpreendentes de uma mulher aguerrida, que participou de um triste evento que matou aproximadamente um milhão de irlandeses até 1849 e obrigou mais de um milhão a abandonarem o país.

A causa da fome foi um terrível fungo que devastou as plantações de tubérculos na Irlanda. Sobre essa consequência nefasta, há historiadores que culparam os britânicos pela tragédia, já que à época os campos irlandeses estavam sob a hegemonia política da Grã-Bretanha. Mas independente de causas ou culpados, pessoas como Asenath Nicholson se esforçaram para fazer a diferença em meio ao caos. Do início ao fim da Grande Fome, a professora estadunidense dedicou incansavelmente todos os seus dias a preparar refeições vegetarianas para os famintos, e seguindo o mesmo padrão de qualidade de seu trabalho realizado em seu pensionato em Five Points.

Em “Compassionate Stranger: Asenath Nicholson and the Great Irish Famine”, a escritora Maureen Murphy, deixa claro que Asenath, que defendeu o vegetarianismo, se posicionou como abolicionista e dedicou sua vida aos desafortunados, merece muito mais reconhecimento na sociedade atual, que precisa se inspirar em exemplos como o dela, alguém que não teve medo de lutar contra o status quo em um período em que as mulheres normalmente eram relegadas à figuração ou personagens secundários de suas próprias vidas.

Referências

Nicholson, Asenath. Nature’s Own Book (1813). Forgotten Books (2015).

Smith, Andrew. Savoring Gotham: A Food Lover’s Companion to New York City. Oxford University Press (2015).

Smith, Andrew. The Oxford Encyclopedia of Food and Drink in America – Volume 2. Oxford University Press (2004).

Murphy, O’Rourke, Maureen. Compassionate Stranger: Asenath Nicholson and the Great Irish Famine. Syracuse University Press (2015).

http://www.irishtimes.com/culture/books/review-compassionate-stranger-asenath-nicholson-and-the-great-irish-famine-by-maureen-o-rourke-murphy-1.2385552

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Ian Mackaye: “Nossa sociedade está centrada em torno do consumo de carne, e nossa sociedade é uma droga”

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“Por que não ser vegetariano? Posso dar pelo menos 10 razões para ser vegetariano”

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Ian MacKaye: “Me tornei vegetariano em 1984, e um punk rocker em 1979” (Foto: Dischord Records)

Ian Mackaye, um dos nomes mais importantes da história do hardcore, e que esteve à frente das bandas Minor Threat e Fugazi, tornou-se vegano em 1990, e desde então concedeu inúmeras entrevistas falando um pouco sobre suas motivações em não consumir nada de origem animal.

“Me tornei vegetariano em 1984, e um punk rocker em 1979. Mas acredito absolutamente que o meu interesse na contracultura, no underground, me levou eventualmente a aplicar o mesmo tipo de pensamento crítico em tudo que eu fazia. Quando as pessoas me perguntam sobre minha dieta, ‘Por que você não come carne?’ A resposta sempre é: “Por que não? Por que eu deveria?’ Posso pensar em centenas de razões pelas quais eu não comeria um pedaço de carne, assim como não comeria um pedaço de merda”, disse MacKaye em entrevista publicada na Satya Mag em agosto de 2006.

A resposta do músico tornou-se bastante usual, e até mesmo uma forma eficaz de mostrar as pessoas o quanto elas estão imersas na própria conveniência quando estranham alguém que diz ter optado pelo vegetarianismo ou veganismo. No documentário “Edge”, lançado em 2009, e que fala sobre a cultura straight edge, que tem MacKaye como um dos seus principais ícones, ele explica que não raramente as pessoas o perguntam: “Por que ser vegetariano?”

E a reação dele não poderia ser diferente: “Por que não ser vegetariano? Posso dar pelo menos 10 razões para ser vegetariano.” Não raramente, alguém rebate que não é possível obter certas vitaminas sendo vegetariano, o que costuma levá-lo aos risos, já que, segundo o músico a maioria das pessoas que fazem esse questionamento não dão a mínima para as vitaminas. “A razão pela qual a maior parte das pessoas não é vegetariana é porque é conveniente. Elas são criadas em uma sociedade que é tão fácil não ser vegetariano. É apenas isso. Mas eu posso pensar em muitas razões pela qual eu devo ser. É tão natural, é uma extensão natural do processo pelo qual a vida deve ser vivida”, argumentou.

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Mackaye, importante nome da história do hardcore (Foto: Dischord Records)

Na metade dos anos 1980, depois do primeiro ano sem consumir carnes, como MacKaye tinha um desvio de septo, ele baniu todos os derivados de leite da sua alimentação, o que também facilitou mais tarde sua transição para o veganismo. Ademais, para quem não se importa com a crueldade contra os animais, o músico declarou que há outros pontos a se considerar, como por exemplo o fato de que os seres humanos não têm o hábito de consumir carne porque a consideram saudável. “Então por que continuar comendo essa porcaria? Comida vegana é deliciosa e saudável”, enfatizou em entrevista à Bianca, do Vegan Crunk, no Memphis Brooks Museum of Art, publicada em 16 de setembro de 2010.

A Jeff Jetton, do NYC Brightest Young Things, ele contou que há pessoas que agem de foram estranha quando o convidam para jantar e ficam sabendo que ele é vegano. “Não sinto falta de nada da minha antiga dieta [antes de tornar-se vegano]. É bom ter a sensação de que eu tenho total controle sobre a minha vida”, comentou em entrevista ao fanzine alemão Ox em agosto/setembro de 2010.

Para Ian MacKaye, que não gosta tanto de falar sobre veganismo em entrevistas porque não gosta de ser mal interpretado, tudo na vida é uma ação política. “Para mim, o que eu como ou o que não como, com certeza é algo político. Nossa sociedade está centrada em torno do consumo de carne, e nossa sociedade é uma droga”, lamentou à Satya Mag e ao Vegan Crunk.

Saiba Mais

Ian MacKaye nasceu em 16 de abril de 1962 em Washington, DC, nos Estados Unidos. Seus primeiros registros fonográficos foram lançados em 1981.

Além da banda de hardcore Minor Threat e da banda de pós-hardcore Fugazi, ele gravou com as bandas The Teen Idles, Skewbald/Grand Union, Egg Hunt, Embrace, Pailhead e The Evens.

Ele é co-fundador da conceituada gravadora independente Dischord Records, em Washington D.C..

Referências

https://brightestyoungthings.com/articles/ian-mackaye-interview

http://vegancrunk.blogspot.com.br/2010/09/high-on-ian-mackaye.html

http://www.ox-fanzine.de/web/itv/3799/interviews.212.html

http://www.satyamag.com/aug06/mackaye.html

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Protetora de animais precisa de ajuda para sobreviver e cuidar de 18 cães e gatos

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“Sempre gostei de animais. Deixo de comer, mas não posso deixar de alimentar os bichinhos”

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“Não me importo com a minha vida, mas sim com a deles” (Foto: David Arioch)

Na infância, Maria Elevandoski já demonstrava respeito e amor pelos animais. Enquanto outras crianças de sua idade tinham o hábito cruel de arremessar gatos contra a parede, ela recolhia animais mortos que encontrava pela vizinhança e os enterrava em terrenos baldios, onde realizava um pequeno funeral, chorava, orava por eles e marcava o local com uma pequena cruz feita de gravetos.

“Sempre gostei de animais. Deixo de comer, mas não posso deixar de alimentar os bichinhos. Não me importo com a minha vida, mas sim com a deles”, conta a moradora de uma casa alugada na Rua Antônio José da Silva, número 1666, em Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Enquanto fala da sua profunda relação com os animais, iniciada há mais de 40 anos, Maria se emociona por estar enfrentando um dos momentos mais difíceis de sua vida.

Prestes a ser despejada por não ter condições de pagar o aluguel da residência onde vive com 15 gatos e 3 cães, ela chora ao relatar que está desempregada há mais de cinco meses, tentando sobreviver fazendo “bicos” ocasionais como diarista. “A minha sorte é que me ajudaram com um pouco de ração. Mas ninguém pode me ajudar para sempre. Hoje à noite mesmo, não sei nem se terei o que comer”, comenta.

Com dois meses de aluguel atrasado, e devendo duas faturas de energia elétrica e duas de água, Maria ainda consegue sorrir quando os animais sob sua responsabilidade se aproximam miando ou abanando o rabo. Enquanto alguns deles brincam no fundo do imóvel, ela relata que sua casa foi saqueada há três meses, quando usuários de drogas furtaram inclusive um botijão de gás e toda a sua comida.

Durante a conversa, um dos cães, Raj, salta em meu colo e começa a lamber minha mão, mantendo seus olhos cobertos por uma longa franja preta. O cãozinho foi resgatado por Maria após a mãe dele ser atropelada por um motorista negligente. “Ele tentou mamar nas tetas dela mesmo depois que ela já estava morta. Nem percebeu o que aconteceu”, narra com olhos marejados.

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Animais sob tutela de Maria têm de 1 a 12 anos (Foto: David Arioch)

Os 18 animais que vivem com Maria Elevandoski têm de 1 a 12 anos. São animais que, assim como muitos outros cuidados por ela ao longo de mais de dez anos atuando como protetora de animais, foram resgatados da rua, trazidos do cemitério ou arremessados em seu quintal. “Aqui são todos castrados. Consegui uma boa ajuda”, comemora.

Sem se importar com bens materiais, ela vive com poucos móveis e apenas um eletrodoméstico – a geladeira. Um dia, depois de resgatar um gato abandonado, um chinês a abordou e disse que Maria deveria cuidar do animal até ele ficar gordo e depois comê-lo. “Me senti mal só de ouvir aquilo. Nunca teria coragem. Não como nem carne, e isso tem um bom tempo, desde que vi o sofrimento do gado dentro de um caminhão”, explica.

No ano passado, quando cuidava de 25 animais, ela entrou em depressão porque alguns cães e gatos sob sua guarda foram envenenados. “Tem dia que me sinto mal e penso em me matar. Não fiz isso ainda pelos animais, porque eles precisam de mim. Mas eu queria muito conseguir uma casinha ou um emprego. Aceito qualquer tipo de trabalho. Também preciso de mais ração para eles. Não sei o que fazer. Não tenho família aqui”, desabafa.

Saiba Mais

Quem puder contribuir com Maria Elevandoski, basta ligar para (44) 99807-8888 (Marcel) ou (44) 99916-0414 (Veridiana).

A residência da protetora de animais fica na rua atrás da Ibirapuera Móveis, ao lado da Rádio Skala.

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Written by David Arioch

March 6th, 2017 at 7:13 pm

Anchor: “Ter estupro e assassinato como premissa para ter comida sobre a mesa é absolutamente desnecessário”

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“Fazemos tudo que podemos em nossos shows para chamar a atenção para o veganismo”

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Fundada em Gotemburgo, na Suécia, em 2007, a banda de hardcore punk Anchor (Âncora), é formada somente por músicos suecos e noruegueses que seguem duas filosofias de vida – veganismo e straight edge. Ao longo dos anos, o grupo que já tocou na América do Sul com o Ratos de Porão, realizou ações em parceria com inúmeras organizações em defesa dos direitos animais, como a sueca Förbundet Djurens Rätt (Federação dos Direitos Animais).

“Fazemos tudo que podemos em nossos shows para chamar a atenção para o veganismo. Estou feliz por fazer parte desse movimento. Cada pequena coisa que podemos fazer para aumentar a conscientização significará algo para alguém em longo prazo. Há sempre jovens que não foram expostos a essas questões tanto quanto podemos imaginar. É fácil pensar que todo mundo tem entendimento dos direitos animais, mas infelizmente não é assim, mesmo em uma comunidade de pensamento progressivo como a nossa”, disse o vocalista Claes em entrevista publicada no The Grumpy Sailor em 16 de outubro de 2014.

Entre os anos de 2008 e 2015, o Anchor lançou os álbuns “The Quiet Dance”, “First Year”, “Recovery” e “Distance & Devotion”. Este último conta com uma música intitulada “Hope Diest Last”, que fala sobre o estado atual do planeta e a luta por um lugar mais compassivo para todos viverem. “As primeiras linhas começaram como uma canção sobre a minha pequena Ebba. Mas depois de reescrevê-la inúmeras vezes, acabou ficando um pouco diferente”, informou.

Ebba é uma cachorrinha que Claes adotou em Málaga, na Espanha, quando estavam em turnê. A adoção foi feita por meio da organização SOS Animais, que costuma resgatar animais que vivem nas ruas. “Ela tinha uma história diferente. Veio de um criador que estava abusando de seus cães. Ela mal estava viva quando os voluntários a tiraram dele”, confidenciou ao Grumpy Sailor.

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Claes se recordou também que durante a Anchor South American Tour, eles viram um monte de cães abandonados. Em uma noite, em uma cidade do Sul do Chile, ele sentou-se diante de uma estrada com uma cadelinha em seu colo e notou em seus olhos que ela não queria que ele fosse embora. Como Claes não podia levá-la, ele chorou. “Tirei algumas fotos para me lembrar dela. Acho que foi quando decidi mudar minha vida e tomar conta de um cão”, revelou.

Com Ebba em casa, Claes viu sua rotina se transformar. Seus  dias se tornaram mais divertidos e a cadelinha levou tanta positividade para sua vida que ele se surpreendeu. “Trabalho em meu escritório e passo o tempo com ela ao meu lado. Saímos na natureza o máximo que podemos. Me sinto abençoado, não de forma religiosa, por tê-la em minha vida”, enfatizou.

Influenciado por bandas como Good Riddance, Entombed, Separation, 108 e Robyn, o Anchor pratica um som inovador e ao mesmo tempo fiel à velha escola do hardcore punk, inclusive ideologicamente. Questionado pelo DIY Conspiracy em publicação de 18 de janeiro de 2008 sobre a sua opinião em relação a jovens veganos e straight edge que compram produtos da Nike e da Coca-Cola, ele disse que isso não o agrada de modo algum, já que as duas, assim como outras multinacionais, representam o capitalismo global que contribui tanto para a exploração de vidas humanas quanto não humanas.

“Eu quero vê-las destruídas mais do que qualquer coisa. Mas eu também sei que o hardcore não é onde a revolução dará seus primeiros passos. Para muitas pessoas, é apenas música, é sobre assumir uma aparência em vez de ideias. Acho isso muito triste. Contudo, a única coisa que eu como indivíduo posso fazer é ser um exemplo positivo e inspirador, eu acho”, declarou.

Ao DIY Conspiracy, Claes explicou que o veganismo e os direitos animais são muito importantes, tanto para ele quanto para o Anchor, no entanto, eles preferem voltar seus esforços para que sejam reconhecidos sempre como uma força positiva. “Pode ser que nosso trabalho não seja nada se comparado ao que outras pessoas fazem pela libertação animal, mas eu sinto que é importante que a cena hardcore seja um lugar onde os jovens conheçam o veganismo e se envolvam com isso”, assinalou.

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De acordo com Claes, os integrantes do Anchor reconhecem a vida dos animais como sendo somente deles, o que é um motivo mais do que justo para não consumirem produtos de origem animal. “Se é um produto pago ou não, não tem qualquer relevância para nós. Acho muito triste quando as pessoas viram as costas para elementos positivos em suas vidas, como o veganismo e o straight edge. Acho que há um milhão de razões para ser vegano, e é algo que não pode ser negado. Para aqueles que ainda não são veganos ou vegetarianos, por favor, façam um favor e eduquem-se. Você ficará chocado e horrorizado com o que está acontecendo”, recomendou.

Uma vez, enquanto conversava com seu irmão sobre veganismo, Claes ponderou o quão insana é a realidade de ter a morte como parte da realidade diária. “Ter estupro e assassinato como premissa para ter comida sobre a mesa é absolutamente desnecessário”, criticou.

Ele se referiu aos animais que têm suas vidas interrompidas precocemente em matadouros; e também àqueles que são explorados a vida toda, tendo sua intimidade invadida e sua sexualidade banalizada e violada exaustivamente, como ocorre com as vacas condicionadas a atenderem a demanda dos laticínios. Claes lembrou ao DIY Conspiracy que nos anos 1990 a Suécia teve um dos cenários de libertação animal mais ativos da Europa, o que abriu caminho para mudanças positivas.

Referências

https://thegrumpysailor.com/2014/10/16/anchor-interview/

http://diyconspiracy.net/anchor/

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Written by David Arioch

March 5th, 2017 at 11:08 pm

Sobre animais como entretenimento

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A bear rides a bicycleUm animal não humano usado como entretenimento é explorado a maior parte de sua vida saudável, mas principalmente na juventude, e quando deixa de gerar grandes lucros ao “dono” é descartado como se fosse lixo. Na realidade, muitos são mortos ou abatidos, caso a carne, os ossos e a pele tenham um valor considerado atrativo pelo dono”.

Então qual é o problema em exigir que alguém que explorou tanto uma vida não humana custeie os últimos anos de vida de um animal em um santuário? Tenho certeza que as despesas seriam pequenas se levarmos em conta o tanto que esses animais geraram de lucro ao longo da vida. Afinal, todo animal não humano naturalmente vive para sobreviver, diferentemente do ser humano quando motivado pela ganância.

Então é óbvio que seria justa a obrigatoriedade de fundos de aposentadoria para animais. Na realidade, acredito inclusive que seja vergonhoso defensores dos direitos animais terem que lutar por isso, já que esse tipo de iniciativa deveria partir espontaneamente de quem explorou esses animais.

Tem que ser muito traiçoeiro para acariciar a cabeça de um animal, explorá-lo por anos e depois relegá-lo à morte como se não fosse nada. Na minha opinião, isso é uma faceta vil, que revela uma grande falha de caráter.

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Written by David Arioch

March 5th, 2017 at 8:07 pm