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Quando levo pessoas de outras realidades para a Vila Alta
Quando levo pessoas de outras realidades para a Vila Alta, na periferia de Paranavaí, consigo ver o receio em seus olhos. É um medo que também vem do estranhamento em não perceber que aquela realidade só existe porque não apenas os governantes e legisladores são passivos, mas também nós mesmos.
O homem e o cão faminto
No caminho para o veterinário, encontrei um cãozinho roçando o focinho já sujo em uma sacola rasgada de lixo rente ao meio-fio da Rua John Kennedy. Ao lado, restos de alimentos de outras duas sacolas estavam esparramados pela galeria. Perto do animalzinho acastanhado e sujo, um homem gritava e ameaçava golpeá-lo com o cabo de uma vassoura.
— Suma daí, seu lazarento!
— Era só o que faltava. Arrastou todo o lixo. É um filho da…
Vendo a cena, encostei o carro, desci e caminhei até o homem.
— Boa tarde. Tudo bem com o senhor?
— Não tem nada bem aqui. Esse cachorro arrastou todo o lixo. Olhe essa porcaria toda. Vou ter que limpar essa bagunça. Desg….
— O senhor não precisa se preocupar porque eu limpo tudo.
O homem ficou em silêncio me observando.
— Como é?
— Eu limpo a bagunça do cachorro.
— E por que você faria isso?
— Sim. Farei isso para o cachorro não apanhar do senhor.
Silêncio novamente.
— Eu não iria bater nele — explicou visivelmente constrangido, com um sorriso amarelecido.
— Isso é muito bom, senhor. Porque eu realmente não gostaria de apanhar se estivesse faminto e de repente fosse obrigado a mexer no lixo de alguém. É triste, não? Tantos animais abandonados e desejando apenas um pouco de comida para não morrer de fome. Animais como esse não escolheram nascer, mas nem por isso desejam ou merecem sofrer. O senhor concorda?
— Hum…
— É…acho que talvez você tenha razão – respondeu coçando a cabeça.
— O senhor já viu esse cachorrinho por aqui?
— Não.
— Sabe se ele tem casa?
— Não tenho a mínima ideia.
— Essa vida de cão não é fácil, né?
Silêncio.
— Ah, tenho um pouco de comida pronta lá dentro. Acho que não tem problema dar um pouco pra ele.
— Muito gentil de sua parte.
— Que nada. Faço o que posso — comentou sorrindo.
— Não tenho dúvida de que já é mais do que muitos fariam.
— Você acha?
— Sim…
— Pensando bem, acho que posso cuidar dele hoje.
— Sabe, filho, meu irmão tem uma chácara na saída da cidade e acho que pode ser um bom lugar pra um cachorrinho agitado como esse.
— Sério?
— Ah, é sim. É um lugar muito bonito e espaçoso.
— Isso seria muito legal. O senhor vai fazer uma baita diferença na vida dele. Pode ter certeza.
— É…não custa ajudar de vez em quando.
— Se precisar de mim, moro algumas quadras acima, quase em frente ao Corpo de Bombeiros.
— Sei onde é. Já o vi.
— Bom saber. Muito obrigado.
— Disponha.
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A vaca e o bezerro
Na estrada, vi um bezerro brincando com uma vaca perto da mangueira. Desci do carro e observei os dois por alguns minutos. A forma como aquele animal observava com satisfação o seu filhote, em nada difere da ternura com que uma mãe humana observa o seu filho. E o bezerro, feliz em contato com a mãe, tentava dar pulinhos intervalados.
“Cara, não consigo gostar de comida vegana”
— Cara, não consigo gostar de comida vegana.
— Sério mesmo?
— É sim…é muito estranha. Acho que não é pra mim…
— Por quê?
— Muita privação. Não consigo viver sem ter uma alimentação bem diversificada.
— Então vamos tirar esse arroz, feijão, tomate seco, palmito, couve, brócolis, ervilhas e cabotiá do seu prato. E também esse suco de laranja puro. E deixemos você só com a carne. Que tal?
— Por quê?
— Porque isso é alimentação vegana, e você acabou de falar que não gosta disso.
— Não, cara. Isso é comida normal, de quem come carne.
— E o que você acha que veganos comem?
— Não sei. Coisas estranhas, incomuns.
— Não, meu camarada. Veganos comem tudo aquilo que não envolve ingredientes de origem animal. Na nossa alimentação as possibilidades de variedade são imensas. Basta pensar da seguinte maneira – se uma pessoa não se alimenta de animais, o que resta? Uma infinidade de sabores. Agora me diga o que você consome no café da manhã.
— Aveia, banana, whey protein, cacau em pó…
— Substitua o whey protein por proteína vegetal e temos uma refeição para veganos.
— É?
— Sim, sem dúvida alguma.
— O que você come depois?
— Lá pelas nove e meia, normalmente como pão integral com queijo ou com ovo, e tomo um copo de leite.
— Entendi. Você pode manter o pão integral, caso ele não tenha nada de origem animal. Mas substitua o queijo por pasta de amendoim, ou, se preferir, por tofu ou outro tipo de queijo vegetal, que podem ser inclusive preparados em casa. Posso ensinar como fazer isso gastando o mínimo possível. Também troque o leite de vaca por leite vegetal. Isso é alimentação vegana.
— Me parece mais simples do que imaginei.
— Pois é…
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Plotino: “Os animais têm sentimentos, portanto sentem prazer e dor”
Plotino se recusava a consumir medicamentos com ingredientes de origem animal
Mestre de Porfírio, seu discípulo que escreveu “Da Abstinência do Alimento Animal”, considerada por inúmeros pesquisadores como a obra mais importante da Grécia Antiga sobre a abstenção do consumo de animais, Plotino foi um filósofo neoplatônico que melhor assimilou e aperfeiçoou não apenas os ensinamentos de Platão, mas também de Pitágoras e Plutarco, autor de “Do Consumo da Carne”, outra obra igualmente relevante na discussão sobre o tema.
Um asceta moderado, Plotino ficou famoso pela autoria das “Enéadas”, obra fundamental da filosofia ocidental que reúne 54 tratados em seis capítulos. Compilada e editada por Porfírio no ano de 270, as “Enéadas” são baseadas principalmente no conteúdo de palestras e debates de Plotino com seus alunos ao longo de 17 anos.
O filósofo neoplatônico estudou em Alexandria e na Pérsia antes de se mudar para Roma, onde fundou a sua própria escola. No livro “Sins of the Flesh: A History of Ethical Vegetarian Thought”, o pesquisador Rod Preece afirma que Plotino, que provavelmente era de origem romana e nasceu no Egito, foi protovegetariano a maior parte de sua vida. Defensor do ascetismo moderado, Plotino começou a se questionar sobre os hábitos alimentares da época que, segundo ele, tinham grande influência sobre o comportamento e a personalidade humana, incluindo sua relação com a vida e o mundo.
Nas “Enéadas”, ele declara que os animais têm sentimentos, portanto sentem prazer e dor. Na perspectiva de Plotino, a dor é a aisthesis, a percepção do corpo despojado. Ele usa o conceito de pathos como representação da empatia, do sentimento e da ligação afetiva quando diz que, conscientes, somos sensibilizados diante de uma situação em que a vítima morre ou sofre desnecessariamente; como é o caso dos animais não humanos há muito explorados. Quem também defende a ideia de que Plotino foi um importante nome na discussão do que se tornaria o vegetarianismo ético é o pesquisador Gordson Lindsay Campbell, editor de “The Oxford Handbook of Animals in Classical Thought and Life”.
“Embora não haja provas conclusivas, o estrito ascetismo de Plotino provavelmente incluiu o vegetarianismo, mesmo que o seu biógrafo, Porfírio, não tenha conseguido escrever por Plotino em relação ao assunto”, registrou Preece. Apesar disso, o que reforça a ideia de que Plotino realmente se voltava para a questão do que futuramente seria os direitos animais era a sua recusa em consumir medicamentos com ingredientes de origem animal, conforme informações do livro “Sins of the Flesh: A History of Ethical Vegetarian Thought”.
Preece afirma que vários seguidores de Plotino não eram apenas vegetarianos, mas inclusive vegetarianos éticos. E o argumento fundamentado nas ideias do filósofo neoplatônico, e que teve continuidade com Porfírio, é de que o ser humano precisava mudar a sua relação com os animais e se libertar das calamidades do corpo. Assim, é justo dizer que os ensinamentos de Plotino influenciaram Porfírio a escrever “Da Abstinência do Alimento Animal”, obra também influenciada por Pitágoras, sobre quem o discípulo de Plotino escreveu uma biografia.
Em “Vegetarianism – A History”, Jon Gregerson diz que para Plotino a única forma da humanidade alcançar a realidade suprema seria tratando todos os animais com respeito e compaixão. Ou seja, reconhecendo primordialmente o direito à vida, sem os prejuízos da exploração humana. “Porfírio deu continuidade ao trabalho de Plotino, apresentando evidências observacionais e históricas em defesa do vegetarianismo e da racionalidade dos animais”, enfatizou Nathan Morgan, autor de “The Hidden History of Greco-Roman Vegetarianism”. Influenciado por Plotino, Porfírio qualificou o consumo de carne como um encorajador da violência. Ademais, apresentou ideias antes defendidas pelo seu mestre neoplatônico de que os animais têm capacidade de raciocínio. Assim sendo, não faltam razões para estender a justiça a eles.
Kerry S. Walters e Lisa Portmess, autores de “Religious Vegetarianism: From Hesiod to the Dalai Lama”, apontam Plotino como o responsável pela consciência vegetariana de Porfírio, que também se inspirava em Pitágoras e Empedócles. A obra “Da Abstinência do Alimento Animal”, do filósofo neoplatônico foi uma reação argumentativa ao abandono do filósofo Firmus Castricius, que deixou a Escola de Plotino para renunciar à dieta vegetariana e se juntar aos cristãos.
Do livro 1 ao livro 4 de “Da Abstinência do Alimento Animal”, Porfírio defendendo o estilo de vida apregoado pela Escola de Plotino, assinala que o consumo de carne é intemperante, logo incompatível com a vida filosófica. Ele argumenta que o sacrifício de animais é ímpio, que os animais merecem um tratamento justo e que os sábios do passado condenavam o consumo de carne.
Embora o mestre de Plotino não tenha falado abertamente do vegetarianismo na obra “A República”, tudo leva a crer que Platão via com bons olhos a abstenção do consumo de carne. Prova disso é o fato de que muitos neoplatônicos se identificavam com uma vida livre do consumo de carne. “Publicamente, sua dieta era aceitável como parte do verdadeiro ascetismo. Portanto, não atraiu controvérsia”, pontuou Colin Spencer em “The Heretic’s Feast: A History of Vegetarianism”.
Outro fato revelador é que no século 3 Plotino conseguiu aprovação e apoio do Imperador Galiano para construir o que poderia ter sido a primeira cidade vegetariana ocidental, e que teria como referência a República de Platão. O seu nome seria Platonópolis. Mas o sonho de Plotino esbarrou no Senado, que vetou a sua proposta. Apesar disso, seu trabalho teve continuidade com Porfírio e outros filósofos que mais tarde influenciaram o vegetarianismo ético e a discussão em torno do que daria origem aos direitos animais.
Referências
Plotino. The Enneads: Abridged Edition. Penguin Classic (1991).
Porfírio. Gillian Clark. On Abstinence from Killing Animals (Ancient Commentators on Aristotle). Bristol Classical Press; Reprint Edition (2014).
Spencer, Colin. The Heretic’s Feast: A History of Vegetarianism. UPNE. First Edition (1995).
Preece, Rod. Sins of the Flesh: A History of Ethical Vegetarian Thought. Páginas 112-113. UBC Press (2017).
Gregerson, Jon. Vegetarianism, a History. Jain Publishing Company (1995).
Walters, Kerry; Lisa Portmess. Religious Vegetarianism: From Hesiod to the Dalai Lama. State University of New York Press (2001).
Campbell, Gordon Lindsay. The Oxford Handbook of Animals in Classical Thought and Life (Oxford Handbooks). Oxford University Press; First Edition (2014).
Walters, Kerry; Lisa Portmess. Ethical Vegetarianism: From Pythagoras to Peter Singer. State University of New York Press; Reprint Edition (1999).
http://advocacy.britannica.com/blog/advocacy/2010/08/the-hidden-history-of-greco-roman-vegetarianism/
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Mate Coma
“Que demais esse lugar. Dizem que os lanches deles são os melhores da região”
Inauguraram uma lanchonete fora da cidade. Mate Coma. Ioan e Colomano percorreram pouco mais de 15 quilômetros até chegarem ao local. Boa vegetação nativa nos entornos, arborismo, tirolesa, frescor; cães, gatos e coelhos brincando às margens de uma lagoa.
— Que demais esse lugar! – disse Ioan.
— Show mesmo! Não conhecia isso aqui – comentou Colomano.
— Dizem que os lanches deles são os melhores da região.
— Também fiquei sabendo disso. Veremos se é verdade.
Lá dentro, a iluminação não era das melhores. Intencional. Os fregueses comiam como se não houvesse amanhã. Normal. Ian e Colomano foram ignorados. Ninguém se importava com quem entrava ou saía. Sem piscar, um homem com um lanche desmesurado entre as mãos o devorava; vez ou outra, roçando a língua pela carne malpassada.
— Delícia! – monologou, ignorando as pessoas à sua volta.
— Tem sangue na roupa daquele homem, e não é pouco. Será que ele sabe disso?
— Não tenho a mínima ideia. Seria uma boa avisá-lo?
— Pode ser.
Ioan se aproximou, cutucou o ombro do homenzarrão e ouviu um grunhido.
— Senhor, com licença, me perdoe a intromissão, mas só quero avisar que tem sangue na sua roupa.
— É?
— Sim…
Nenhuma palavra, risos, bafo quente. O homem virou as costas e continuou mastigando.
— Parece que as pessoas aqui só querem comer. Nada mais importa.
— Bom, isso aqui é uma lanchonete, não é mesmo? — ironizou Colomano.
— Pois é…
Diante de uma mesa, Ioan pegou o cardápio. Grande variedade de carnes. De cavalo a jacaré. Na última página, um aviso – “Conseguimos qualquer tipo de carne, independente de espécie.”
— Isso é interessante — concluiu Colomano.
Ao lado da descrição de cada lanche havia sugestões de abate, de como garantir que as partes mais nobres da carne não sejam maculadas durante e após a execução de cada animal.
— O que significa isso? E essas ilustrações de abate? Isso é realmente estranho — reclamou Ioan.
— Será? Acho que não. Me parece algo bem honesto, diferente do que vemos por aí.
— Sei lá, cara! Isso parece demais pra minha cabeça.
Em uma vitrola perto do balcão tocava “Everybody Hurts”, do REM, enquanto os fregueses comiam. “When you’re sure you’ve had enough of this life…Hang on.”
— Boa noite. Sejam bem-vindos ao Mate Coma. O que vocês desejam?
— Falaram que é possível comer à vontade e de graça neste lugar. Não vou negar que foi isso que trouxe a gente aqui.
— Ah sim! Esplêndido! Já sabem como funciona?
— Não… – responderam ao mesmo tempo.
— Pois bem! O que vocês vão querer?
— É simples assim? – questionou Ioan.
— Esse é o primeiro passo – respondeu o garçom.
— Ah…ok.
— Quero um X-Vitela. Ele vem mesmo com 300 gramas de carne?
— Sim, na opção tradicional, mas nessa modalidade que vocês querem a quantidade de carne é ilimitada.
— Uau! Que maravilha! — comemorou Ioan.
— E você, Colomano?
— Quero algo mais usual. Um X-Filé Mignon vai bem.
— Podem me acompanhar?
— Tudo bem.
Atravessaram a cozinha e caminharam até um galpão bem iluminado com dezenas de divisórias. Grilhões, correntes, caixas, gaiolas, carretilhas, roldanas, torneiras, pias, facas, marretas, sangue fresco e riscos no chão. Não. Nenhuma alucinação.
— Que gritos e gemidos são esses? – perguntou Ioan.
— É o grito da comida, meu senhor, simplesmente o grito da comida. Não se preocupe.
Pios, cacarejos, gorjeios, uivos, assobios, grunhidos, mugidos, latidos, miados, coachos, relinchos.
— Que barulheira! Isso aqui parece uma selva – comentou Colomano.
— Não exatamente. Apenas atendendo o gosto do freguês.
— Me acompanhem, por favor.
Atravessaram um corredor, barulho mais intenso, luzes amarelas, insetos agitados, nenhuma janela.
— Os senhores podem entrar aqui. Aguardem um momento.
O garçom fechou a cortina branca e os deixou sozinhos com um robusto boi acastanhado. Enquanto balançava a cabeça de um lado para o outro, o animal visivelmente dopado mugia com a cabeça escorada em um latão; um mugido sepulcral e fragilizado.
— O que está acontecendo aqui? – perguntou Ioan já exaltado.
— Vamos esperar – sugeriu calmamente Colomano.
O garçom retornou acompanhado de um peão empurrando um carrinho de mão. As rodas rangiam e as pernas do bezerro tremiam. Tiraram o animal de cima do carrinho e o colocaram no chão. Fraco demais para manter-se em pé.
— O que é isso? – questionou Ioan.
— O X-Vitela.
— Como?
— Isso mesmo!
Sem dizer mais nada, o garçom mostrou um mural com duas opções de execução — MARRETADA OU DEGOLA.
— Aqui no Mate Coma o senhor pode comer à vontade e sem pagar nada se matar o animal usado no recheio do seu lanche. O senhor pediu um X-Vitela e o seu amigo um X-Filé Mignon. Temos aqui um boi e um bezerro. Tudo é feito por nossa conta, menos o abate do animal. Quem deseja começar?
— Isso é loucura! Não posso matar um animal. Nem mesmo posso vê-lo morrer – esbravejou Ioan.
— Mas imagino que o senhor coma carne, não?
— Claro que sim, mas não tomo parte na morte do animal.
— Será?
— Que desaforo! Não vou ficar aqui sendo tratado com desrespeito.
— Acalme-se, Ioan! – sugeriu Colomano.
— O garçom tem razão. Se comemos, matamos, a única diferença é que não golpeamos.
— Você também? Pelo amor de Deus, Colomano! O que está acontecendo com você?
— Ora, nada! Apenas uma fagulha oportuna de sensatez.
— Quer saber? Mate você os dois. Perdi o apetite.
— Que assim seja, meu amigo.
Ioan atravessou o barracão a passos céleres e caminhou em direção à lanchonete. Sentou-se.
Resistente, o boi mugia entre as marretadas de Colomano. Foram 12 para entregar-se ao fim. O sangue escorria pelo piso. Fresco, grosso e escuro — o mousse da morte. Língua de fora, cabeça pesada, olhos vazios.
— Me desculpe, meu amigo, mas agora é a sua vez – falou segurando a cabeça do bezerro caramelo que tremia e se encolhia no canto com olhos vendados.
Um golpe certeiro na garganta o fez deitar e se debater com as patas moles até perecer. Expressão final de terror e desespero. O sangue não parava de jorrar, se misturando ao do boi recém-falecido. Eram como pai e filho, lado a lado, combinando carcaças.
— Parabéns! O senhor não fugiu. Realmente assumiu a responsabilidade — disse o garçom.
— Certo…Que seja! Vai demorar muito para os lanches ficarem prontos?
— Não muito. O senhor pode seguir esse corredor e virar à direita. A última porta é um banheiro. Pode se limpar ou se lavar lá.
— Ok. Obrigado…
Na lanchonete, Ioan não conteve as lágrimas enquanto assistia “Blackfish”, de Gabriela Cowperthwaite.
— Que história mais triste. Meu coração está com você, Tilikum – monologou esfregando as pontas dos dedos nos olhos.
— Sabia que você não iria embora. E aquela conversa de que perdeu o apetite? – indagou Colomano.
— Fiquei mal na hora, mas já passou – justificou Ioan.
— Ah sim. Então tá.
— Os lanches logo serão servidos, inclusive o seu. Vai querer ou não?
— Assim sim.
— Bueno! Bueno!
Quando o garçom retornou com o X-Filé Mignon e o X-Vitela, Ioan e Colomano ficaram extasiados com o que viram. Cada lanche tinha 12 camadas.
— É sempre assim? Com 12 camadas?
— Não. É porque o senhor matou o boi com 12 marretadas.
— Isso foi criativo, devo admitir.
— Podemos comer sem tocar nesse assunto? — reclamou Ioan.
— Ok…ok..ok… — concordou Colomano.
Assim que deu a primeira mordida, Ioan cuspiu um pedaço de lanche no prato.
— Que nojo! Meu Deus do céu! O que tem errado neste lugar?
Colomano também sentiu um gosto estranho na boca e fez o mesmo.
— Garçom, amigo, venha aqui, por favor.
— Isso é extremamente nojento. Horrível! Estou com ânsia de vomito.
— O que houve, meus senhores?
— O que houve?
— Tem um fio de cabelo longo e castanho no meu lanche. Que repugnante!
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Reducetarianismo e consumo de produtos de origem animal
Existe uma polêmica sobre o chamado reducetarianismo, ou seja, prática alimentar em que as pessoas não eliminam, mas reduzem consideravelmente o consumo de produtos de origem animal.
Não vejo isso como algo negativo porque sei que todo mundo precisa começar de algum lugar. Muitas pessoas, por fatores diversos, têm formas particulares de encararem mudanças de hábitos, principalmente alimentares.
Claro, se uma pessoa visa saúde, mas ainda assim privilegia o paladar, pode ser que ela não passe disso. Mas, para quem vai por esse caminho por uma perspectiva também ética dos malefícios dos hábitos alimentares baseados na exploração animal, pode ser um importante passo para grandes mudanças.
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Nosso paladar é condicionável em proporção à nossa força de vontade
Nosso paladar é condicionável em proporção à nossa força de vontade. Se ela for pequena, há de revelar também o quanto são grandes as nossas fragilidades, e o quanto nos submetemos à nossa ausência de autocontrole. Se sou controlado pelo meu próprio paladar, também posso ser controlado por outros fatores. E tudo isso ajuda a criar uma ilusão de que temos o domínio de algo que na realidade tem o domínio de nós.
O policial e a criança
No mercado, vi uma cena que me chamou a atenção enquanto eu estava na fila do caixa rápido. Um policial militar escolhia alguns pães quando um garotinho, acompanhado do pai e da mãe começou a sorrir efusivamente. Consegui ver seus olhos cintilando mesmo eu não estando tão perto.
A mãe e o pai cumprimentaram o policial e falaram que a criança sempre teve grande admiração por policiais. Dava para ver no rosto do garotinho que a figura do policial para ele é a de um herói. Acanhado, mas lisonjeado, o rapaz fardado balançou a cabeça e disse poucas palavras. Nem precisaria dizer nada. A expressão compenetrada e sisuda de antes desapareceu com a chegada do menino.
O sorriso da criança o desarmou. E ele também começou a sorrir sem parar, olhando para a criança e vez ou outra mirando os pais com seus olhos encalistrados. O menininho pediu para dar um abraço no policial e ele concordou. Agachou e envolveu a criança nos braços por alguns segundos.
Mesmo depois que o casal e o filho partiram, o policial continuou sorridente, passou por mim sem conseguir velar o sorriso. Continuava tímido, translúcido, feliz e provavelmente agradecido por um presente inesperado que o impediu de retomar a expressão circunspecta.
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Sobre o novo comercial da Sadia

A realidade do peru e de outros animais mais tarde fatiados (ou não) e embalados, a Sadia e nenhuma outra indústria alimentícia faz questão de mostrar
Sobre o novo comercial da Sadia. Alegria, família, crianças sorrindo, abraços, confraternização, uma verdadeira lição de harmonia. Muito amor envolvido. Bandejas bonitas, rótulos bem elaborados, tudo para dissociar o que se come da realidade. E claro, um peru feliz divulgando a própria carne, como se estivesse se oferecendo para morrer. Como sempre, uma utopia que vela uma distopia. Afinal, a realidade do peru e de outros animais mais tarde fatiados (ou não) e embalados, a Sadia e nenhuma outra indústria alimentícia faz questão de mostrar.







