Archive for the ‘Personagens’ Category
Tito o malabarista
“Antes ficava muito triste quando viravam o rosto, fingiam que não me viam”
Um dia, aguardando o sinal verde de um semáforo da Rua Manoel Ribas, no centro de Paranavaí, vi um rapaz agachado na esquina, ajeitando suas bolinhas de malabares dentro de uma mochila. Curioso, estacionei o carro e me aproximei. Sorrindo, ajeitou o boné e me cumprimentou cordialmente, mostrando, sem dizer mais nada, os pulcros desenhos que fez em quatro das seis bolinhas. Tive a impressão de que representavam fases de uma vida. E ele confirmou minha suspeita.
A bolinha número um reproduzia um momento marcante dos seus tempos de bebê, quando era assistido pelo pai enquanto a mãe o embalava nos braços. A bolinha número dois trazia uma imagem dele ainda criança sentado na areia de um parquinho brincando com um caminhãozinho e sendo observado pela mãe.
A bolinha número três o mostrava no início da adolescência, lendo sozinho, sentado no canto de um quarto. E a bolinha número quatro destacava sua partida com uma mochila nas costas, olhando para trás, onde não havia ninguém de quem se despedir. Intrigado, perguntei porque as outras duas bolinhas não tinham desenhos. “É que ainda me vejo na bolinha número quatro. Aquele sou eu hoje”, comentou com um sorriso vaporoso e contraposto ao olhar levemente melancólico.
Tito, sem nome composto ou sobrenome – prefere assim, tem como lar todo lugar e lugar nenhum. Deixou a terra natal no início da adolescência, quando sua mãe morreu de câncer. O pai partiu antes, vítima de um ataque cardíaco. Mora por aí, onde encontra um lugar para dormir. Artista de rua, perambula com a única missão de levar diversão. “É bom demais ver alguém admirando e elogiando seu trabalho. Triste é quando me perguntam se quero um emprego de verdade. Isso machuca. Não sou vagabundo!”, lamentou sensibilizado, acrescentando que tem graduação em artes cênicas.
Magrinho, com a pele bastante queimada pela exposição solar, e cabelos e olhos pretos como erva-moura, Tito nasceu prematuro, aos seis meses. Seus órgãos não se desenvolveram completamente e todo ano ele passa meses internado para fazer tratamento. “Meu coração é diferente do coração de uma pessoa normal. Posso morrer hoje ou amanhã. Por isso vivo cada dia como se fosse o último”, revelou com olhar ensimesmado.
De carona, Tito já viajou para mais de dez países e percorreu todas as regiões do brasil. A sua maior alegria em fazer malabarismo com os mais diferentes objetos é o prazer de ter os olhos voltados para si mesmo por poucos minutos. “É assim que sinto que estou vivo, que existo. Antes ficava muito triste quando viravam o rosto, mantinham os vidros do carro fechados, fingiam que não me viam. Hoje o reconhecimento de poucas pessoas em cada sinaleiro já faz o meu trabalho valer a pena”, declarou.
Por causa dos problemas de saúde, Tito não pensa em casar ou ter filhos. O rapaz demonstra que o medo de se envolver emocionalmente com alguém pode ser maior do que o seu temor perante a morte. “Tudo seria mais doloroso se eu tivesse uma companheira. Seria uma pessoa a mais para sofrer comigo. Juro que não queria morrer, mas isso não depende da minha vontade. Como tenho esses problemas, só me resta seguir na esperança de que eu não deixe de existir antes de desenhar novas fases da minha vida nas minhas últimas bolinhas brancas”, desabafou.
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Um caso de amor ao artesanato
Há quase 60 anos, Leonor Delgado encontrou no artesanato uma grande fonte de prazer
A professora Leonor Patuci Delgado tem uma relação de amor com o artesanato que se aproxima dos 60 anos. Tudo começou na infância, quando descobriu o prazer de trabalhar com crochê, tricô e, mais tarde, biscuit e decoupage.
A artesã Leonor Delgado já produziu milhares de peças. São principalmente obras de porcelana fria e decoupage que estão espalhadas pelo Paraná, São Paulo, Santa Catarina e Estados Unidos. “Já fui professora e comerciante, mas hoje me dedico 100% a esse trabalho”, afirma Leonor enquanto sorri e aponta centenas de obras bem dispostas em um grande expositor.
O perfeccionismo de Leonor está embutido em cada uma das peças, independente do tamanho e dos materiais usados. “O biscuit é o que mais gosto de fazer, mesmo que demore mais. É algo que me acalma e me dá muito prazer”, garante a artesã que encara a atividade não apenas como um costume diário, mas um fazer artístico que a cada dia dá novo fôlego a sua vida.
De acordo com Leonor, pioneira do biscuit em Paranavaí, todo artista deve ter um estilo próprio, mas a máxima é sempre a busca pela perfeição, algo que pode até mesmo partir do uso das cores que devem estar sempre vinculadas ao tema. “Gosto de produzir obras relacionadas ao universo infantil. Por isso, adoro criar bonecas, portas de maternidade, porta-fraldas, abajures, lixeiras, potes, saboneteiras e quadros”, acrescenta.
Os trabalhos mais demorados da artista são os quadros com biscuit em alto relevo, porque exigem um bom tempo para a criação dos personagens. “Tenho de fazer a cabecinha, pintar os olhinhos, enfim, tudo é feito aos poucos”, conta. O interesse pelo artesanato surgiu quando Leonor ainda era uma garotinha que se divertia criando bonequinhas com bucha vegetal, caminhõezinhos com latas de óleo e vaquinhas com maxixe.
“Aos 10 anos, aprendi macramé [técnica de dar nós em cordas ou cordões], crochê, tricô e bordado a máquina. Foi algo natural porque todo mundo na minha família tem alguma relação com o artesanato”, declara a artista que também faz fusão de decoupage com biscuit.
Com a experiência adquirida ao longo de décadas, a artesã Leonor Delgado decidiu dar aulas. “Ensino biscuit e decoupage para turmas pequenas, com no máximo cinco pessoas. A faixa etária é bem diversificada, desde alunas de nove anos até 60”, reitera. Para se ter boas noções de porcelana fria, por exemplo, é preciso dedicação de quatro a cinco meses. As despesas com o curso variam.
“Mas nem tudo precisa ser comprado. Podemos usar qualquer coisa que tenha uma boa forma geométrica, como tampinhas, tubos de PVC, toalhinhas de plástico, pedaços de tapete de carro, latas e frascos de vidro”, exemplifica. Se tratando de biscuit, há uma infinidade de objetos que em vez de irem para o lixo podem ser transformados em belas peças de apreciação, sejam funcionais ou decorativas.
Saiba mais
Tudo que é produzido pela artesã Leonor Patuci Delgado é feito sob encomenda. Os pedidos mais comuns são voltados para nascimentos de bebês, aniversários, casamentos e batismos.
Serviço
Interessados podem entrar em contato com a artesã ligando para (44) 3423-2777 ou (44) 9104-1502.
Zaguinha, o Rei das Embaixadinhas
Manoel da Silva renasceu aos 44 anos, quando trocou a picareta por uma bola de futebol
Em 1999, o esportista Manoel da Silva, conhecido como Zaguinha, ganhou o título de Rei das Embaixadinhas ao participar de um programa televisivo em que desafiava os telespectadores – venceu todos. Desde então o reconhecimento lhe garante sobreviver daquilo que melhor sabe fazer.
O carismático Zaguinha ganhou visibilidade pela primeira vez em 1999, quando foi protagonista do Programa Esporte Espetacular, da Rede Globo. “Eu estava fazendo embaixadas em Tupã, interior de São Paulo, e um repórter me ligou. Perguntou se eu tinha interesse em participar do programa. Aceitei na hora”, conta.
Convidado para desafiar praticantes de embaixadinhas de todo o Brasil, o atleta não precisou se esforçar demais para faturar o título de rei. “Venci os oito melhores, selecionados pelo programa. Tive que fazer embaixadinhas até na Praça dos Três Poderes, em Brasília. Mas valeu a pena e muito. Foi depois dessa aparição que consegui patrocínio de uma grande empresa de artigos esportivos”, declara Zaguinha que participou do Esporte Espetacular por 14 domingos consecutivos.
O talento e a dedicação do atleta trouxeram oportunidades inesperadas, como conhecer mais de 20 estados brasileiros e, também, viajar de avião pela primeira vez. Zaguinha é reconhecido internacionalmente, tanto que foi tema de uma reportagem da rede de televisão estadunidense Cable News Network (CNN). “Isso foi em 2000. Me levaram para fazer um trabalho de oito dias em escolinhas de futebol. Até participei de uma feira de esportes em Nova York”, reitera o atleta que se apresentou na Argentina e no Paraguai durante a Copa América de 1999.
O maior orgulho de Zaguinha são as inúmeras façanhas, entre as quais embaixadinhas com bola de futebol americano e abacaxi. “Já fiz 550 com uma bolinha de dois milímetros. Faço com qualquer tipo de esfera, desde que o peso não ultrapasse dois quilos e meio”, enfatiza. Quando participou do Programa do Jô, lhe deram um sabonete molhado. O atleta admite que foi difícil manter o equilíbrio, contudo não passou vergonha; fez cinco embaixadinhas.
O esportista sempre fica feliz ao ser desafiado, mas a satisfação surge apenas no fim, quando o resultado é positivo. “Já fiz muitas embaixadas atravessando a Avenida Paulista, subindo as escadas de uma igreja em Aparecida e, também, sobre o parapeito de um prédio de 15 andares. Nesse desafio tive medo porque não gosto de lugares altos”, revela.
Zaguinha diz que se sente realizado por levar diversão e informação a tantas pessoas. “Minhas apresentações duram em média 30 minutos, só que sempre dedico algum tempo para falar sobre educação e drogas”, pondera.
Atleta teve vida difícil no Noroeste do Paraná
Manoel da Silva, conhecido como Zaguinha, nasceu em Murici, no interior de Alagoas, e se mudou para Loanda, no Noroeste do Paraná, quanto tinha nove anos. “Como saí do nordeste muito novo, me considero tanto nordestino quanto paranaense”, afirma o esportista que teve uma vida muito difícil.
Na década de 1960, o jovem Manoel começou a trabalhar na área rural derrubando árvores para o plantio de amendoim, algodão e mamona. “Sinto saudade das coisas boas, mas foi um tempo de muitas dificuldades”, frisa Zaguinha que se distrai mirando o horizonte. De repente, começa a lacrimejar ao se recordar da esposa falecida em 1981.
Em Loanda, depois de reunir um bom dinheiro, o atleta abriu um bar, onde impressionava os fregueses fazendo embaixadinhas com bolas de sinuca. Com o tempo o negócio deixou de ser lucrativo e Manoel decidiu participar de um concurso público municipal.
“Passei e ganhei uma picareta, uma chibanca [machadinho], uma enxada e uma pá. Meu trabalho era fazer valetas para esgoto. Ganhava um salário mínimo, ou seja, trabalhava demais e recebia pouco”, avalia Zaguinha. Logo que encerrava o expediente, Manoel da Silva ia pra casa treinar.
O apreço pelas embaixadinhas surgiu na infância, quando o esportista e seus cinco irmãos brincavam com bolinhas de meia. “Era comum também matarem porco e a gente tirar a bexiga do animal pra enchê-la com ar. Era a nossa bola, a maior alegria da minha infância”, relata Zaguinha que na década de 1990 decidiu transformar o sonho em realidade ao se mudar para São Paulo.
Estadunidense impulsionou a carreira do esportista
Em São Paulo, Zaguinha adotou o Viaduto do Chá como local de treino porque sabia que a área era bastante frequentada pela mídia. Com a intenção de atrair a atenção para si, sempre fazia embaixadinhas quando via uma máquina fotográfica ou filmadora. “Estava sempre próximo da imprensa, mas sem exageros”, assegura.
Zaguinha passou três anos fazendo shows na rua. Tudo mudou em 1999, aos 47 anos, quando um empresário estadunidense que assistiu a uma apresentação de Zaguinha pela TV a cabo acreditou no trabalho do esportista. “Gostou do que viu no Esporte Espetacular. Quando veio pra cá buscar produtos esportivos de uma grande empresa ele sugeriu que me contratassem. Naquele mesmo mês, comecei a receber para fazer embaixadas”, reitera sorrindo.
Na rua, o atleta sempre é reconhecido pelo traje – uma camisa da seleção brasileira e uma bola que ele carrega dentro de uma pequena rede pendurada no braço. “Onde me vê, o pessoal já sabe quem eu sou e pede pra fazer embaixadinhas”, comemora o atleta.
Saiba mais
Zaguinha já fez mais de 80 mil embaixadinhas em oito horas.
Zaguinha nasceu no dia 1º de março de 1952.
Sabrina, o nascimento de uma mulher
Sorriu como nunca e notou no próprio olhar um brilho diferenciado, de alguém redescobrindo o mundo

“A Alana que tem a mesma idade que eu me ajudou muito. Ela que me batizou com o nome de Sabrina” (Foto: Arquivo Pessoal)
Sabrina tinha 16 anos quando experimentou pela primeira vez um vestido. Se sentiu bonita e realizada diante de um espelho que mostrava não apenas o seu reflexo, mas quem ela realmente era no seu íntimo até então velado. Sorriu como nunca e notou no próprio olhar um brilho diferenciado, de alguém redescobrindo o mundo que lhe parecia negado pela possibilidade de viver uma das mais pungentes formas de preconceito – a homofobia.
Com a mesma idade, começou a fazer programas escondida da mãe. Muitos clientes procuravam sexo enquanto outros pagavam apenas pela companhia. Se aconchegavam em seus braços, conversavam, desabafavam, choravam ou simplesmente se extasiavam com um pouco de calor humano. Outros iam além nos pedidos mais inusitados. “Teve um cara uma vez que pediu pra eu penetrar um pepino na bunda dele”, conta rindo.
Quando Sabrina completou 18 anos, a mãe descobriu tudo. Então a jovem explicou que fazer programas é uma forma de trabalho, justificando que quer alcançar seus objetivos o mais rápido possível para futuramente ter uma vida normal. “Tive experiências muito boas com clientes, mas também algumas estranhas, como ser paga para assistir a pessoa ficar se drogando. Ofereciam pra mim, só que nunca gostei disso”, diz.
Com 1,80m, 60 quilos, pele oliva, cabelos longos e bem alinhados, um rosto fino cuidadosamente maquiado e expressivos olhos pretos, Sabrina chama atenção por onde passa e não nega as transformações que viveu nos últimos anos para ser quem é hoje. “Tenho três litros de silicone no bumbum e nas pernas. Sou uma garota em fase, com seios pequenos. Em breve vou colocar uma prótese de silicone”, garante sem esconder a empolgação seguida por um riso fácil.
Em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, Sabrina integra uma irmandade de 15 jovens que fazem programas. Sempre que necessário, uma protege a outra, principalmente quando aguardam clientes em algumas das esquinas mais movimentadas da cidade. “Tenho amigas que ainda continuam na rua, mas eu já não faço isso com frequência”, informa a jovem que tinha como ponto um dos cruzamentos da Avenida Distrito Federal.
Com clientes fixos, que atende ocasionalmente, e perfis em mídias sociais como Tinder e Badoo, Sabrina não vê necessidade de tanta exposição nas ruas para conseguir dinheiro. “Estou há quatro anos nesta vida. Também fiz programas ao longo de quatro meses em Ponta Grossa [no Centro Oriental do Paraná] por indicação de amigas que me falaram muito bem de lá. Foi ótimo! Conheci várias meninas”, narra com tom de voz vibrante.
Quando não está trabalhando, Sabrina leva uma vida bem tranquila e caseira. Desinteressada em festas e baladas, prefere assistir TV, limpar a casa da mãe, conversar com familiares ou bater papo pelo Whatsapp. “Sim, penso em casar e ter filhos depois que estiver totalmente feita”, confidencia Sabrina que nasceu homem, porém nunca se sentiu como um.
Desde criança já gostava de “coisas de mulher”, só que por receio de sofrer com a homofobia se obrigava a reprimir seus anseios para atender convenções sociais. “Nunca me vi como homem e nunca gostei de nada de homem. Resolvi me assumir pra todo mundo no ano passado, com 19 anos. Estou lutando para ter o que não tenho, o que quero. Odeio a minha parte masculina”, desabafa.
O reconhecimento da identidade feminina veio acompanhado de uma cerimônia realizada pelas amigas da jovem. “A Alana que tem a mesma idade que eu me ajudou muito. Ela que me batizou com o nome de Sabrina. O batismo foi uma forma de simbolizar o carinho dela por mim, de dizer que sempre posso contar com ela”, enfatiza.
Se assumindo como transexual, a jovem começou na mesma época a pesquisar sobre terapia de reposição hormonal e cirurgia de redesignação sexual (CRS). “Nunca me vi como travesti e meu desejo é ser tratada como mulher. Para alcançar meu objetivo, comecei consumindo hormônios como Climene, Mesigyna e Perlutan. Ah! Estou feliz porque em fevereiro vou pra outra cidade aumentar meus seios”, comemora.
Sabrina também tem planos de fazer cirurgia plástica no nariz, com a intenção de afiná-lo e diminuí-lo, e concluir a cirurgia de mudança de sexo antes dos 25 anos. “Quem é trans não é feliz do jeito que nasceu e corre atrás do que quer. Eu mesma tenho certeza do que quero. Ainda não me sinto bem do jeito que sou. Não estou satisfeita”, confessa.
“Olha o veado! Olha o veado!”, grita ocasionalmente algum encrenqueiro em tom de deboche quando vê Sabrina. Ela simplesmente ignora – continua em silêncio e desvia o olhar. Sem se importar com a opinião alheia, desconsidera qualquer piada ou ofensa. “Até hoje o máximo que fizeram foi provocar, xingar e caçoar. Graças a Deus, ninguém foi além disso”, garante.
Por outro lado, na contramão da homofobia, a jovem passou por muitas situações que fazem da sua vida uma gratificante jornada, principalmente quando circula por algum lugar e as pessoas observam com bons olhos a sua transformação.
“Tem gente que faz você se sentir bonita só com o olhar. Recebo muitos elogios, e assim vou me sentindo uma garota mais realizada. Passei a maior parte da minha vida sem saber o que é ser desejada e isso mudou. Você se sente bem consigo mesma quando começa um relacionamento e vê que um cara gosta de você pelo que você é”, afirma sorrindo.
“Não sinto desejo por mulher”
Sabrina sempre teve o apoio da mãe que lidou muito bem com a situação quando soube da homossexualidade do filho – antes de se tornar transexual. “Ela só ficou muito preocupada com a parte de transgênero. Tinha medo da reação do povo, sabe? Como a sociedade iria reagir. Fui sincera e falei que era assim que me sentia bem e iria ser feliz. Então ela acabou entendendo. Hoje minha família me aceita como sou”, conta a jovem de Paranavaí, onde vive desde que nasceu.
O que endossa a identidade sexual de Sabrina é o fato de que ela nunca se interessou por mulheres. “Nunca aconteceu. Não sinto tesão, desejo ou atração. Não sinto nada por mulher. Sempre gostei de homem. Só que pra gente namorar é complicado. Não é fácil pra pessoa assumir isso e tive várias decepções, desentendimentos, mas a gente consegue levar”, pondera.
A jovem que se define como simpática, extrovertida e ao mesmo tempo estressada e casca grossa admite que hoje é mais reservada porque foi muito magoada. “Sou fácil de se lidar. Só não gosto mais de mostrar demais meus sentimentos. Me dou bem com todo mundo, nunca fui de briga. Não gosto disso. E não nego que às vezes me acho um pouquinho. Isso acontece porque gosto de me sentir bonita”, revela com uma voz bem feminina e descontraída, seguida por um riso efusivo.
Sobre homens, Sabrina diz que o mais importante é o jeito do cara. Ser educado, simpático e carinhoso está entre os predicados de maior relevância. “Não ligo muito pra sexo. A maioria dos homens liga. Acho que legal mesmo é o cara saber tratar uma pessoa. E claro que se ele te trata bem, ele vai ser bem tratado”, argumenta, numa referência incidental da ética da reciprocidade, também conhecida como regra de ouro.
Depois de abandonar o colégio no ensino médio, Sabrina pretende voltar a estudar em 2017. No entanto, reclama que os colégios de Paranavaí não estão preparados para receber jovens na mesma situação que ela. “Eles evitam falar disso nas escolas. O preconceito sempre existe. Nunca tive problemas porque sempre ignorei quem tentava me ofender. Seria bom ter algum tipo de orientação nesse sentido. Ser homossexual não é opção, não é nenhum bicho de sete cabeças. Você nasce assim e não pede mais do que compreensão e respeito”, defende.
Frases de Sabrina
“Há jovens de Paranavaí se prostituindo em muitas cidades e estados do Brasil”
“Para quem é travesti ou trans, a parte de apoio é muito difícil. Seria bom se isso mudasse”
“Acho que temos uma boa união entre transgêneros em Paranavaí. Nos vemos como iguais. Isso faz a gente se sentir mais segura”
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Mirão, um antigo caso de amor ao esporte
Valdomiro Pereira, o homem que dedicou a maior parte da vida ao esporte de Paranavaí

Mirão: “Era uma vida difícil. A gente acabava formando time pra jogar fora e repartir o dinheiro” (Foto: David Arioch)
Em comemoração ao aniversário de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, celebrado no dia 14 de dezembro, nada mais justo que homenagear um dos homens mais importantes do futebol e do futsal de Paranavaí. Valdomiro Pereira, mais conhecido como Mirão, começou a sua história no esporte local em 1960, pouco antes de completar 20 anos.
Para conversar sobre o assunto, Mirão diz que não é preciso agendar horário. “É só chegar”, avisa, me convidando para ir até a sua casa na esquina da Rua Maria Anchieta de Morais. Lá, encontro o pacato e hoje aposentado desportista sentado em uma “cadeira de área”, observando a movimentação tranquila da manhã na Rua do Aeroporto, principal via de acesso ao Jardim Ipê.
Com voz remansosa, o icônico Mirão me cumprimenta e coloca em cima da cadeira uma coleção de publicações sobre a sua trajetória. Em 1955, quando chegou a Paranavaí vindo de São Paulo, um fato lhe chamou a atenção. O Atlético Clube Paranavaí trazia na sua formação seis ou sete titulares paraguaios. “Era interessante isso. Um time do interior do Paraná que tinha mais jogadores estrangeiros do que brasileiros. E eram todos muito bons. Jogavam por amor ao esporte”, afirma.
Em 1959, o desportista fez amizade com os jogadores e a diretoria do ACP. Segundo Mirão, era o tempo dos paraguaios. “Comecei a treinar com eles, mas eu era muito ruim e o Seu Ferreira, um senhor que realizava bingos para arrecadar recursos para o clube, me convidou para ser massagista”, narra. Quando explicou que não entendia nada da profissão, Seu Ferreira argumentou que “tudo se aprende na vida”. “Deixa eu ver sua mão. Sim! Como pensei! Quem tem mão grande serve pra ser massagista”, comentou Ferreira, se valendo de uma crença popular.
À época, Mirão desempenhava qualquer atividade em benefício do clube. Fazia cobranças, ajudava na secretaria e na venda de cartelas. Foi assim até 1976, quando proibiram a realização de bingos. “Lembro que em 1960 fomos disputar o campeonato em Apucarana porque o nosso campo era com cerquinha e a Federação Paranaense de Futebol não aceitava. Então o time treinava no Estádio Natal Francisco [atual Praça dos Pioneiros] e jogava em Apucarana. Daqui a Maringá a estrada era de terra. Imagine só a dificuldade”, relata.
Naquele tempo, como os jogadores e os funcionários do ACP recebiam apenas por quatro ou cinco meses, o jeito era improvisar. “Era uma vida difícil. A gente acabava formando time pra jogar fora e repartir o dinheiro. Alguns conseguiam bons contratos, só que não era fácil. Só uma ou duas firmas colaboravam com o clube e nunca teve isso de alguém se oferecer para pagar um atleta por conta própria”, desabafa.
Nos anos 1960, o que ajudava o atlético a se manter na ativa era o fato de que alguns atletas de Paranavaí jogavam de graça. “Um exemplo era o Lauro Machado. Ele e mais alguns outros trabalhavam em outras áreas porque sabiam que era impossível viver do clube”, confidencia Mirão que considera o ACP de 1960 como um dos melhores de todos os tempos, assim como o de 1968 que conquistou uma vaga na primeira divisão do Campeonato Paranaense. O desportista se queixa apenas que a equipe já era formada em cima da hora, dificilmente se preparando com dois ou três meses de antecedência. “Uma vez contratamos 10 jogadores de um time faltando apenas alguns dias para o campeonato. Infelizmente em cidade pequena é assim, o futebol funciona aos empurrões”, lamenta.
De acordo com Mirão, inesquecíveis eram as partidas no Estádio Natal Francisco, onde a torcida lotava as arquibancadas de madeira com capacidade para até 10 mil pessoas. “Eu morava no estádio quando era solteiro porque o treino começava às 6h. Alguns jogadores também viviam lá, já que o clube não tinha condições de pagar hospedagem em hotel. Nosso campo somava 110 metros de comprimento e 80 metros de largura. O pessoal era tão fanático por futebol que onde o clube ia a torcida ia atrás”, revela.
Em 1970, a situação financeira do time não era das melhores, tanto que o ACP foi disputar uma partida em Nova Esperança e tiveram de entrar em campo com apenas 10 jogadores porque nem todos atletas estavam registrados. “Ainda assim ganhamos de um a zero. Era muito bom. Participávamos de amistosos em todo o Paraná, além de Presidente Prudente, Marília e cidades de Santa Catarina e Mato Grosso do Sul. Nossa rivalidade maior era com Maringá e Mandaguaçu. Time de fora quase nunca ganhava aqui porque o campo do Natal Francisco era muito grande, uma das nossas armas”, enfatiza Mirão.
Na esteira da falta de recursos, o atlético desde o início contava com trabalho voluntário, principalmente de médico e fisioterapeuta. O time levou alguns anos para conseguir contratar um preparador de goleiros, garantindo mais profissionalismo ao clube. “Se precisasse de alguém pra ir lá na segunda-feira arrancar grama, eu e o Paulinho íamos. Fazíamos o mesmo empenho se fosse necessário ficar com atleta em hotel na véspera do jogo pra fazer massagem. O time ficava em primeiro lugar nas nossas vidas”, declara.
Embora não ganhasse nada para ajudar, o desportista estava sempre disponível ao ACP no período da tarde, quando o treinamento era intensificado. “Uma das minhas recompensas foi pisar duas vezes no Maracanã. Jogamos lá contra o Madureira e o Olaria. Ganhamos um jogo e perdemos o outro. Depois aproveitamos pra assistir uma partida do Atlético Mineiro contra o Flamengo e outra do Fluminense contra a Portuguesa. Nunca imaginei que isso aconteceria”, rememora Mirão emocionado.
O que também motivava Mirão a continuar ajudando o ACP era a solidariedade dos atletas. Nos anos 1960, alguns chegavam a dividir tudo que recebiam com Mirão e Paulinho. “Tínhamos um grande meia-esquerda que foi para o Corinthians. O apelido dele era Paraná. Não ficava com nada do que recebia. Tinha uma situação financeira boa e se preocupava porque via que a gente ganhava uma mixaria. Se tenho alguma coisa hoje foi graças aos conselhos do Paraná, um cara que se preocupava com os menos favorecidos”, pontua.
O desportista não esconde a satisfação ao se recordar das conversas com o icônico Natal Francisco, fundador do Atlético Clube Paranavaí. “Era um velhinho muito bom que construiu o estádio com as próprias mãos. O filho dele, Tonico, jogava bem no ACP. Uma pena que em 1983 mudaram o estádio para o [distrito de] Sumaré. Os jogos eram muito bons, só que a torcida parou de acompanhar tanto o time. Nunca mais foi a mesma coisa”, reclama.
Para o desportista, quem também se tornou um dos nomes mais importantes do clube foi o jogador Chico Venâncio, o Biga, que à época chegou em Paranavaí sem grandes pretensões. “Ele veio pra jogar pelo Atlético e acabou virando treinador. Na realidade o Biga era mais que treinador, era o pai de todo mundo. Gostou tanto de Paranavaí que viveu aqui até os seus últimos dias”, defende. Pela dedicação ao esporte, Mirão recebeu em 2006 uma homenagem da diretoria do Atlético Clube Paranavaí e outra do Rotary Fazenda Brasileira. Além disso, o prêmio maior do Campeonato Amador de Futebol da Liga de Paranavaí leva o nome de Troféu Valdomiro Pereira.
O jogo mais marcante do Vermelhinho
Para Mirão, o jogo mais marcante da história do Atlético Clube Paranavaí foi contra o Atlético Paranaense em 1968. O ACP venceu por 2 a 1, com dois gols de Aluísio, um jogador do São Paulo que veio a Paranavaí por empréstimo.
“Busquei ele em São José do Rio Preto e depois tive que ir até São Paulo preparar a documentação na Confederação Brasileira de Futebol [CBF]. De lá, fui pra Curitiba entregar em mãos na Federação Paranaense de Futebol [FPF]. Até recebemos dinheiro do Coritiba pela vitória”, confidencia Mirão às gargalhadas.
Aluísio era um dos maiores jogadores da época. No entanto, seu salário era tão caro que conseguiram mantê-lo em Paranavaí somente por um ano. “Tinha mais de 100 pares de sapatos e mais de 100 camisas. Falou que jogaria pra nós, mas não aceitava ficar em república. Reunimos vários apoiadores pra pagar o salário dele”, garante.
Lacerdinha completa 40 anos
O desportista Valdomiro Pereira, o Mirão, que ajudou na construção do Ginásio de Esportes Antônio Lacerda Braga (Lacerdinha), fundado no dia 14 de dezembro de 1975, se recorda com saudosismo dos primeiros jogos há quase 40 anos. “A primeira disputa foi de handebol, nosso cartão de visita. Valeu a pena toda aquela correria, gente trabalhando 24 horas por dia. A prefeitura fez tudo no ‘grito’ e o ginásio ficou pronto em 100 dias. Tivemos o suporte do 8º Batalhão de Polícia Militar. Foi tudo muito bem organizado. Não dá nem pra acreditar que tínhamos ali o Colégio Marins [Alves de Camargo] e depois o [Colégio] Newton Guimarães”, comenta.
No mesmo ano, Mirão foi convidado pelo jornalista Saul Bogoni para coordenar em Paranavaí os Jogos Abertos do Paraná. À época, a cidade tinha uma das melhores seleções de handebol feminino do estado. “Fomos campeões estaduais em 1974 e em 1975. Em Paranavaí, era um esporte até mais popular que o futsal. Fiquei muito feliz em organizar os jogos porque Paranavaí chegou nas finais em quase todas as modalidades. Naquele tempo, só não conseguíamos superar cidades como Londrina e Curitiba. Ficamos em terceiro lugar no geral”, relata e acrescenta que Paranavaí foi a primeira cidade do Paraná a ter os jogos abertos transmitidos pela televisão. A cobertura da TV Tibagi mostrou o desempenho de atletas de 68 cidades.
O melhor time de futsal de Paranavaí
Com a experiência de quem acompanhou a evolução do esporte no Noroeste do Paraná, Mirão defende que o Demafra foi o melhor time de futsal de Paranavaí. “Era um time com boas condições financeiras, dava emprego para jogadores, mas tinha que ser bom. Ninguém passava dificuldade trabalhando para o Demafra. E tinha uma tática interessante que era misturar jogadores de campo e de salão. Não esqueço quando fomos campeões da Taça Tigre em Joinville [Santa Catarina], desbancando grandes equipes de todo o Brasil”, diz Mirão.
Na sequência, o desportista aponta o São Lucas como um bom clube, citando o desempenho da equipe em 2011, quando obteve o segundo lugar no Campeonato Paranaense de Futsal. Em 2006, a equipe ficou em quinto lugar. O clube também traz no currículo conquistas como o vice-campeonato da Taça Paraná em 1982 e o terceiro lugar em 1991. “Gostei muito do time que o São Lucas montou em 1994. É uma pena que não temos condições de segurar bons atletas”, lamenta.
“A sede da Liga de Paranavaí era dentro da minha Brasília”
No final dos anos 1970, quando tinha um escritório no Ginásio Lacerdinha, o chefe de transportes da Secretaria de Educação da Prefeitura de Paranavaí, Mirão, percebeu que a garotada tinha o costume de invadir o local para praticar vandalismo.
Em vez de repreendê-los ou chamar a polícia, ele usou uma tática diferente. Convidou a molecada a formar times e disponibilizou a eles uma hora diária de uso gratuito do ginásio. “Vou dar a vocês uma missão. Vocês podem jogar aqui, mas em troca peço que cuidem do ginásio. Não deixem ninguém fazer nada de errado aqui, tudo bem?” À época surgiram dois novos times em Paranavaí: o Time dos Engraxates e o Time dos Moradores de Rua.
Naquele tempo, a quadra do Lacerdinha era considerada a melhor do Paraná e Mirão se empenhava para evitar que alguém comprometesse essa imagem. “Eu e o zelador da época não deixávamos ninguém entrar na quadra usando kichute ou sapato. Eu fazia amizade com todo mundo, tanto que nunca mais nenhum garoto jogou pedra no ginásio”, garante. Uma vez Mirão levou ao Lacerdinha o célebre lutador Ted Boy Marino, atraindo um público de milhares de pessoas.
“A sede da Liga de Paranavaí era dentro da minha Brasília. Eu organizava o campeonato e os jogos. Fundei e fui presidente por 26 anos, inclusive hoje ela tem uma sala com meu nome – Valdomiro Pereira”, destaca em tom de orgulho. O desportista foi mesário por muitos anos, tanto no futebol de campo quanto de salão. Como trabalhava para a prefeitura de Paranavaí, muitas vezes atuava na arbitragem em finais de semana e feriados sem receber nada.
“Às vezes ligava gente de Curitiba para a prefeitura pedindo minha liberação para que eu fosse pra lá apitar em algum campeonato juvenil. Era bom porque entrava um bom dinheiro. Nos Jogos Abertos, por exemplo, eu ganhava em um mês o que equivalia a seis meses de salário na prefeitura”, segreda. Outro ponto positivo é que Mirão se divertia bastante. Encarava o trabalho como uma oportunidade de viajar e conhecer outros lugares.
Era um contraponto na rotina atribulada como chefe de transportes. Em Paranavaí, Mirão se responsabilizava pelos 14 ônibus da prefeitura usados no transporte de estudantes. “Tinha de ficar disponível das 4h às 23h. Se desse algo errado, saía com o mecânico atrás do ônibus. A gente cobria uma área de 900 quilômetros de estradas. Muitas vezes vim pra casa dormir lá pelas 11 horas da noite”, ressalta.
Frases de Valdomiro Pereira, o Mirão
“Temos o mau hábito de vender jogadores por preços muito baixos. Os atletas costumam sair daqui quase de graça. Só me lembro de uma exceção em 1968, quando vendemos o Didi para a Portuguesa. Foi uma negociação um pouco mais justa.”
“O São Paulo veio jogar aqui em 1959 e em 1965 foi a vez do Corinthians. Não esqueço também que o Ferroviária, de Araraquara já disputou um torneio em Paranavaí, assim como o Prudentina, de Presidente Prudente. Foi uma época inesquecível.”
“Com 16 anos eu jogava no time do Mário de Souza. Tinha bons jogadores. Aí fomos jogar contra o ACP e perdemos. Então decidimos acabar com o time.”
“Uma vez o treinador Muca encheu uma Kombi com jogadores de um time de Lins [no interior paulista] e trouxe pra cá porque o campeonato estava prestes a começar e o Atlético não tinha jogadores.”
“Sempre ajudei todos os esportes de Paranavaí. Não priorizava mais um ou outro. Só diminui o ritmo quando me aposentei depois de 32 anos trabalhando na prefeitura.”
Uma vida dedicada ao próximo
Na infância, Rosinha percorria até 20 quilômetros a pé com o pai para rezar pelos enfermos

Dona Rosinha: “Desde que nasci meu pai já orava pelos outros e fazia caridade. Vem de geração em geração” (Foto: David Arioch)
Chego na casa de Dona Rosinha no Jardim Ipê, como é mais conhecida Rosa Ferreira dos Santos, e o seu marido, o vigilante Cido Dias dos Santos, pede que eu entre. Sem cerimônia, diz que ela já está me aguardando. Quando me vê, a dona de casa exibe um sorriso largo e singelo e me convida para sentar em um sofá na sala.
Miudinha e ansiosa pela entrevista, Rosinha tem uma rara força e resistência, o que ela atribui à fé religiosa. Procurada toda semana por pessoas que desejam algum tipo de graça, a dona de casa diz que não é benzedeira, mas sim rezadora. “O povo chega aqui e pede pra eu rezar. Meu trabalho pra ajudar quem precisa é baseado em três orações: ‘Pai Nosso’, ‘Creio em Deus-Pai’ e ‘Salve Rainha’. São as mais fortes pra gente”, afirma.
Além de orações, muitos são atraídos pelos seus remédios caseiros para dores nas costas, gripe e bronquite, feitos há 16 e 20 anos. “Quando acontece de não vir quase ninguém numa semana eu já fico preocupada, me perguntando se minha oração ainda está ajudando. Mas depois o número de visitas aumenta e fico feliz”, comenta com simplicidade.
A cultura da oração entrou na família de Rosinha com os bisavós e desde então a família segue a tradição de ajudar quem precisa, independente de classe social. “Desde que nasci meu pai já orava pelos outros e fazia caridade. Vem de geração em geração. As pessoas me procuram bastante por motivos de doença e também pra passar em algum tipo de concurso. Muita gente já me ligou agradecendo depois. Só não sei é a minha fé que é mais forte ou a fé deles em mim”, declara sorrindo.
Ainda criança, e vivendo em um cenário que lembra a atmosfera mística do filme “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte, Rosinha e os sete irmãos acompanhavam o pai em caminhadas de até 20 quilômetros para levar orações àqueles que já não podiam frequentar uma igreja, principalmente por problemas de saúde. Quando chegavam ao local, o pai e os filhos rodeavam o enfermo e oravam por horas.
“Ele era rezador de terço igual eu sou agora. Foi a herança que me deixou. Lembro que íamos tão longe que às vezes até dormíamos na beira da estrada. Meu pai e os filhos mais velhos carregavam os menores nas costas. Nunca foi homem de sair e deixar a família abandonada em casa”, destaca.
O relato remete aos anos 1960 e início dos anos 1970, quando a família de Rosinha vivia em cidades como São Jorge do Patrocínio, Pérola, Altônia e Rondon, nas regiões de Umuarama e Cianorte. “Morávamos em um canto, daí passava um tempo e a gente mudava, até que ficamos na residência do meu tio em São Jorge do Patrocínio. Depois arrumamos uma casa e começamos a trabalhar como boia-fria nos cafezais. O serviço mais perto exigia pelo menos quatro quilômetros de caminhada”, conta.
Após o falecimento do pai, há quase 20 anos, Rosinha continuou a tradição familiar, inclusive o trabalho de aplicar injeções em enfermos, algo que aprendeu na juventude, numa época de grande carência médica. “Quando um doente não pode sair de casa e a ajuda não chega, as pessoas me procuram. Faço exatamente como meu pai me ensinou”, justifica.
A dona de casa defende que o mais importante é fazer o bem aos outros sem esperar nada em troca. “Nem poderia ser diferente. Já alcancei tantas graças que só tenho a agradecer. Não me vejo no direito de cobrar nada de ninguém”, afirma. De acordo com a zeladora Maria Ruth Serrano, Rosinha é uma mulher atenciosa e batalhadora que possui muita força. “O trabalho dela é maravilhoso. Tá sempre preocupada com o próximo”, garante Ruth que a conhece há mais de 30 anos.
Segundo o marido Cido, o que também reafirma a solidariedade da esposa é o fato de nunca terem morado sozinhos. “Ela sempre trouxe alguém pra gente cuidar. Alguns eram parentes e outros não. Quase todos os irmãos dela já moraram com nós. Hoje cuidamos do meu pai. Torço para que ela nunca precise parar de fazer esse trabalho porque sei que é a maior satisfação da vida dela”, argumenta o vigilante.
“Nunca gostei de ficar à toa em casa”
Nascida em Salinas, no Norte de Minas Gerais, Dona Rosinha adotou Paranavaí como lar há 37 anos. “Já fiz de tudo na minha vida. Até trabalhei de doméstica e não me adaptei, retornando pra roça de café. Agora faço apenas trabalhinhos como confecção de rosários e crochê”, explica e acrescenta que atualmente a renda familiar é baseada no salário do marido e do filho.
A dona de casa, acostumada a realizar serviços manuais, foi obrigada a parar de trabalhar após o implante de um marca-passo. “Ninguém dá serviço para alguém nessa condição. Não sou aposentada. Já tentei três vezes e não consegui, nem mesmo pelo INSS. Por que os ricos se aposentam e eu não? Tem muita gente por aí aposentada sem necessidade”, desabafa.
A casa onde vive há dois anos no Jardim Ipê, e perto de uma igreja, foi conquistada com muito sacrifício, assim como praticamente tudo na vida de Rosinha. “Me empenhei para que meus filhos estudassem e hoje me orgulho de saber que se formaram na faculdade. Quando eram crianças, eu até trabalhava na escola pra garantir uma boa educação pra eles”, revela.

“Me empenhei para que meus filhos estudassem e hoje me orgulho de saber que se formaram na faculdade” (Foto: David Arioch)
Por mais de dois anos, a rezadora fez trabalho voluntário na Santa Casa de Paranavaí. Assim que terminava os afazeres domésticos, ia até o hospital, onde dava banho e trocava as roupas dos enfermos. “Nunca gostei de ficar à toa em casa. Por isso passava horas na Santa Casa, ajudando principalmente aqueles que não recebiam visitas de parentes”, garante.
Com a proximidade do Natal, Dona Rosinha explica que está preparando um presépio feito de jornal dobrado, em forma de torre. Seguindo uma velha tradição, em vez de pintá-lo com tinta, ela vai colori-lo com carvão molhado. “Fazemos isso todos os anos e atrai muita gente. As pessoas pedem muitas orações, até quem não pode vir faz o pedido por telefone”, confidencia.
“Não tinha quase comida, só um pouquinho de arroz e feijão cru”
Aos 20 anos, quando trabalhava como boia-fria, Rosinha, acompanhada do pai e dos irmãos, percorria a pé 15 quilômetros de estrada de terra para chegar ao cafezal. Saía de casa às 5h, antes do galo cantar, quando a escuridão ainda tomava conta do lugar. “Um dia a gente tava em casa se preparando pro trabalho e não tinha quase comida, só um pouquinho de arroz e feijão cru. Minha mãe olhou nas panelas e ficou preocupada”, conta. Então sugeriu ao marido que pedisse um pouco de mandioca para o patrão, senão teriam de passar fome no dia seguinte.
No mesmo dia, às 9h, uma vizinha bateu na porta da casa de Dona Joana, mãe de Rosinha, e reclamou que seus três filhos estavam sem comer há três dias. Sensibilizada, Joana deu metade do arroz e do feijão cru já insuficiente para alimentar a própria família. Por volta do meio-dia, uma mulher desceu de um automóvel em frente à casa de Rosinha e bateu palmas, surpreendendo Dona Joana. “Naquele tempo era difícil ver carro em São Jorge do Patrocínio. Ela chamou minha mãe e mostrou um saco de estopa enorme cheio de alimentos. Tinha tanta coisa que a gente nem sabia o que era. Pra gente era comida de rico”, lembra Rosinha rindo e chorando.
Um homem que acompanhava a mulher posicionou o saco ao lado do pequeno portão da casa dos pais de Rosinha. No mesmo instante, o mais novo dos oito filhos de Dona Joana começou a chorar. Ela se desculpou e foi ver o que aconteceu com a criança. Quando retornou, a mulher não estava mais lá, nem o homem e o carro que a trouxe. “Minha mãe ficou desesperada. Queria agradecer de qualquer jeito. Ela correu toda a vizinhança tentando saber o paradeiro da mulher. Todos os vizinhos falaram a mesma coisa, que não viram carro nenhum passar por aquelas bandas naquela manhã. Então minha mãe chorou, se sentindo abençoada por Deus”, narra com olhos marejados.
Solidária, Dona Joana retirou apenas o essencial do saco de estopa e dividiu o restante com quatro famílias de boias-frias. O dia foi tão especial que até a jornada de trabalho dos que foram para o campo acabou mais cedo. “A gente sempre chegava em casa à noite, lá pelas nove horas, porque demorava pra arruar o café, mas naquele dia vimos o Sol desaparecer através da nossa janela”, relata Rosinha chorando.
“Senti mãos me pegando e me levantando”
Numa noite, Dona Rosinha sentiu tontura e não conseguiu dormir. Preocupados, o marido e os filhos a levaram para o Pronto Atendimento Municipal (PA), onde recebeu um pouco de soro intravenoso. Às 6h, a dona de casa deveria ir Arapongas, no Norte Central do Paraná, trocar o marca-passo que parou de funcionar, mas ninguém a chamou. Assim que levantou e olhou pela janela, já estava tudo claro lá fora. Então Rosinha deitou com os olhos fechados debaixo de uma lâmpada, pedindo a Deus que não deixasse nada de ruim acontecer com ela. “Senti mãos me pegando e me levantando. Fiquei com os olhos fechados porque não tive vontade de abrir. Quando fui colocada novamente na cama, abri os olhos e não tinha ninguém ao meu lado, como se ninguém tivesse entrado no quarto”, conta.
Depois a dona de casa se levantou e lembrou a enfermeira de que ela precisava ir a Arapongas trocar o marca-passo. “Veio uma equipe grande me ajudar. Na ambulância, durante toda a viagem, senti como se as mesmas mãos que não vi continuassem acariciando o lugar onde o marca-passo que não funcionava mais estava instalado. Sentia tudo, mas não via nada”, garante.
Após receber anestesia, Rosinha ficou sabendo que não havia condições de recuperar seu marca-passo, sendo necessário fazer a substituição. “Foi preciso fazer uma outra cirurgia de última hora pra trocar o marca-passo. A operação acabou tão rápido que até a equipe médica se surpreendeu. E eu ainda sentia aquela mão desconhecida no marca-passo”, assegura.
Ao final da cirurgia, a dona de casa foi avisada que precisaria de dois ou três dias de repouso para conseguir andar novamente. Surpreendendo todos, Rosinha levantou na manhã seguinte, andando por todo o quarto e se oferecendo para ajudar os pacientes deitados nas camas mais próximas. “O médico disse que nunca viu uma recuperação tão rápida. Dias atrás também tive um princípio de [acidente vascular cerebral] AVC, só que logo ficou tudo bem”, comemora com voz remansosa.
Frases de Dona Rosinha
“Seguindo as lições de meu pai e minha mãe, não consigo passar um dia sem ajudar alguém”
“Quando eu era criança, uma moça que era nossa vizinha tentou se matar. Ela tomou veneno cinco vezes e chegou até a beber soda e não morreu. Se não for a hora, não adianta insistir”
“Qualquer pessoa que aparece aqui pra eu cuidar, eu cuido, porque Deus me deu esse dom e eu sigo em frente”
Saiba Mais
Dona Rosinha, que também é procurada por pessoas de outras cidades e regiões, mora no Paraná há 53 anos. Quem quiser entrar em contato com ela, pode ligar para (44) 3045-7819.
Jessé, um homem motivado pela simplicidade
Perambulando pelas ruas de Paranavaí, o andarilho já evitou furtos e roubos
Dias atrás, passando pela Rua Pernambuco no início da noite, vi um rapaz com uma réplica de uma cobra de mais de dois metros enrolada no pescoço. Sorridente, se apresentou como Jessé Piedade, de 39 anos, e explicou que a confeccionou usando apenas um pedaço de pano, espuma, agulha e linha. Intrigado, sugeri marcarmos um dia para que me contasse sua história.
Numa quinta-feira, por volta das 16h, a secretária da Casa da Cultura Carlos Drummond de Andrade, Elza Pavão, me liga avisando que Jessé está me esperando. Assim que chego lá, o encontro apreensivo e sentado diante de um pé de jaca. Quando tiro o gravador do bolso, ele pergunta: “Ué, mas você vai gravar mesmo? Vai sair uma reportagem comigo?”, questiona com olhos intumescidos.
Após a confirmação, o rapaz dá uma risada expansiva ao mesmo tempo em que as folhas longas e verdes da jaqueira se movem com a chegada de uma brisa pós-chuva. “Sou de São Paulo, capital. Comecei a trabalhar como motorista com 18 anos. Fiquei nesse serviço por 17 anos atendendo a um advogado. Fazia tudo que precisava, até que chegou um momento em que ele não teve mais condições de continuar me pagando. Apesar disso, sempre foi um excelente amigo. Era como um pai pra mim”, conta.
Perdido e desinteressado em continuar em São Paulo, Jessé se mudou para Paranavaí, no Noroeste do Paraná, há três anos, onde esteve várias vezes desde a década de 1990 com o ex-patrão. “Vim pra cá porque gostei daqui. Não tenho do que reclamar da cidade. O povo é muito humano. O que mais tenho aqui são amigos, inimigos não”, garante o paulistano com sotaque curitibano.
Com a carteira nacional de habilitação (CNH) vencida há mais de cinco anos, o rapaz não esconde o saudosismo da época em que dirigia até caminhão. O último emprego antes de vir ao Paraná foi no Hospital Regional de Itapetininga, no interior paulista, onde atuou como motorista, fiscal e vigia por dois anos e oito meses. Mas a vida de Jessé mudou anos antes. “Minha mulher tinha um boteco e virei um ‘chapéu velho’. Comecei a beber dentro do relacionamento e me entreguei ao alcoolismo após a separação em 2005. Ela não bebia. Só eu mesmo que fiquei assim”, confidencia.
Mais tarde, Jessé Piedade recebeu um convite para trabalhar com montagens de palco e de cenário de shows, chegando a coordenar equipes para atender a banda Capital Inicial e sertanejos como Daniel e Rio Negro e Solimões. “Todo mundo muito legal. Eu aparecia no local cinco dias antes do show e contratava pelo menos 15 peões pra realizar o serviço. A gente também fazia compras, decorava o camarim. Trabalhei com muitos artistas. Era freelance, né?”, declara.
Jessé atuou em Avaré, Itapetininga e Lençóis Paulistas, a serviço de grandes produtores de espetáculos como Marcos Mioto e Marcos Savian. “Sempre me pagaram certinho”, assegura o rapaz que não se esquece de quando achou no camarim uma bolsa preta com R$ 72 mil após um show em Avaré. “Estava chovendo muito naquela madrugada. Entrei lá pra fazer a limpeza e recolher as sobras de comida. Vi aquele monte de dinheiro e me deu até tremedeira. Em seguida, avisei a dupla Rio Negro e Solimões e eles passaram lá pra buscar. Meus companheiros queriam me matar. Me deram um valor lá e alguns agasalhos. Até se me dessem R$ 1 eu ficaria feliz. Não sou ganancioso”, revela com tranquilidade.
Lucrando R$ 4 mil por mês, Jessé gastava mais de um terço do que ganhava com bebidas. Sozinho, consumia uma garrafa de whisky por noite. Já sofrendo em decorrência de cólicas renais, quase morreu após uma convulsão. “No show do Fernando e Sorocaba tomei uns goles e dormi no ônibus. Como o palco era uma concha, deu um vento forte que quase derrubou tudo. O povo saiu me procurando. No outro dia cedo, achei whisky e continuei bebendo”, relata.

Rapaz mostra o terreno baldio onde viveu temporariamente perto do Clube dos Bancários (Foto: David Arioch)
Como os problemas foram se agravando, os produtores avisaram que o rapaz não poderia continuar sendo negligente no trabalho. Então Jessé abandonou a função, já que era impossível se manter sóbrio com tantas bebidas ao alcance das mãos. “Dava pra ganhar bem, o problema era que eu não tinha controle sobre mim e estava perdendo minha filha por causa disso”, justifica.
Depois de dois anos em Paranavaí, onde também trabalhou para um advogado que o ajudou bastante, Jessé começou a ir para o campo colher laranjas e ensacá-las para revender atrás do Posto Panorama, na Rua Maria Anchieta de Morais. “Até hoje faço isso quando surge alguma oportunidade. Tenho um parceiro que me chama, daí dividimos as despesas. Mas, cara, vou te falar uma coisa. No meio dos laranjais é comum encontrar cobra, só que eu não tenho medo. Na verdade, elas que têm que ter medo de mim”, brinca rindo.
Atualmente, Jessé se alimenta apenas uma vez por dia – no horário de almoço. Quando chove acaba passando fome por não ter coragem de pedir esmola. Além de catador e vendedor de laranjas, entrega panfletos e faz capina de terrenos. “Tenho enxada e rastelo. Sou pau pra toda obra. Queria ter um carrinho pra vender frutas como laranja, abacaxi, mexerica e limão. São mais fáceis de se comercializar”, comenta.
Em Paranavaí, Jessé conheceu o casal Dirce e Ailton que o ajudou conseguindo uma vaga em uma clínica para alcoólatras em Nova Aliança do Ivaí, administrada pelo frei Ivani Ribeiro Pinheiro. Após quase um mês de internamento, um dia o rapaz foi enviado a Paranavaí para passar por uma reavaliação médica ao lado da delegacia. “A perua me levou lá, daí o médico disse que eu estava com sérios problemas no fígado e na próstata. Fiquei nervoso e fugi. Saíram atrás de mim e me acharam na rua. Eu disse que não iria voltar porque não consigo ficar confinado. Apesar disso, sou muito grato a dona Dirce, uma pessoa muito boa que me ajudou demais”, admite.
Depois de algum tempo, Jessé tira do bolso várias cartelas de diazepam. Segundo o rapaz, é impossível dormir sem consumir o sedativo. Junto, tomava clonazepam (rivotril), mas interrompeu o uso porque o calmante tarja preta agravou os problemas no seu fígado. “Já perdi 18 quilos. Falam que tenho um tumor que dificulta a digestão, por isso vomito todo dia. Cara, hoje estou numa situação muito difícil”, reconhece levando as mãos à barriga saliente que contrasta com a magreza e o aspecto anêmico.
Durante a entrevista, sinto cheiro intenso de álcool e não resisto em perguntar se Jessé continua bebendo. O rapaz diz que consome apenas um copo cheio de vinho barato após o almoço. Levando em conta que começamos a conversar depois das 16h é difícil acreditar na resposta. “Tá certo! Vou falar a verdade. Quando fico nervoso tomo até um litro brincando. Só que juro que comecei a beber menos tem dois anos”, alega.
Jessé Piedade define a própria vida como complicada. Andando sempre sozinho, muitas vezes sai às ruas sem objetivo ou destino. Quando não consegue nenhum “bico” ou se cansa de perambular, fica na rodoviária sentado em um banco assistindo TV ou conversando com os amigos taxistas. “Sempre vivi sozinho. Eu, Deus e mais ninguém. Só que rodo essa cidade toda numa boa, conheço tudo. Tem dia que vou daqui até o Sumaré pra ver se tem carga pra carregar em algum posto. Agora estou morando na rua, cada dia durmo num lugar diferente”, enfatiza. Com a experiência de quem viveu na chácara de uma tia em São Paulo, o rapaz faz planos: “Ainda quero ter um sítio pra plantar hortaliças e vendê-las na cidade. Também sonho em estudar direito.”
Enquanto os desejos não se realizam, Jessé se orgulha de ações em benefício dos vizinhos, quando vivia em um barraco improvisado em um terreno baldio na Rua Miljutin Cogej, perto do Clube dos Bancários. “Teve um rapaz que invadiu a casa de uma vizinha e levou a bicicleta. Corri atrás dele e o derrubei. Ele fugiu sem a ‘magrela’. Também impedi o furto de materiais de construção na casa de outro vizinho que estava fazendo uma reforma”, narra e sorri quando as histórias são confirmadas pelo guarda do clube.
Quem vê Jessé na rua, sempre comunicativo e brincalhão, dificilmente percebe que ele sofre de depressão. Lidando com a doença há mais de cinco anos, o rapaz confessa que às vezes sente muita raiva. “Lembro de bastante gente que se aproximou de mim quando eu estava bem. Aí desapareceram quando fiquei mal. Tem dia que só penso em dar um tiro na minha própria cabeça”, desabafa.
Casal ajudou Jessé a enfrentar o alcoolismo
Dirce e o marido Ailton conheceram Jessé Piedade na Rodoviária de Paranavaí, na Avenida Heitor de Alencar Furtado, enquanto aguardavam o ônibus. À época, o rapaz explicou seu desejo de se livrar do alcoolismo.
“Ele estava em um estado de desamparo total. Então nos responsabilizamos em ajudar, inclusive conseguimos um lar temporário para o Billy, seu cachorro. Internamos o Jessé em Nova Aliança do Ivaí. Quando saiu, vimos que ele precisava de um lugar decente pra ficar e o colocamos em uma pensão. Só não ajudamos mais porque não tínhamos condições”, relata Dirce que qualifica Jessé como uma pessoa inteligente, educada e tranquila.
O rapaz só não ficou mais tempo internado porque a necessidade de liberdade “falou mais alto” do que a vontade de se tratar. “Até hoje acompanhamos a realidade do Jessé. Torcemos muito por ele”, garante Dirce que não vela as esperanças de vê-lo saudável.
Um artesão por acaso
Um dia, Jessé Piedade teve um sonho com uma cobra e quando acordou decidiu comprar linha de crochê, agulha e tecido pra criar uma, mesmo sem jamais ter costurado coisa alguma. “Encanei, mas a Sogra [nome da cobra] não ficou muito boa. Agora vou dar uma caprichada e fazer uma Anaconda”, relata rindo, acrescentando que a cabeça do animal foi pintada para proporcionar mais realismo. A princípio, a intenção era fazer uma cobra de 12 metros.
No entanto, Jessé achou que seria impossível circular com uma réplica tão grande. “Muita gente ficou com medo quando viu de longe essa que fiz. Teve criança correndo, chorando e pedindo pra tirar foto. Quando saio sem a cobra, até os mais velhos perguntam o que fiz com ela”, conta. Depois da primeira criação, o rapaz já recebeu um pedido para confeccionar uma cascavel. “Ela vai ter um guizo de verdade, de sete anos. A senhora que encomendou quer que eu o coloque. Ela perguntou quanto cobro pelo serviço e eu disse que faço de graça”, confidencia.
“Hoje eu tô com saudade do Billy”
“Hoje eu tô com saudade do Billy. Não acho mais ele”, diz o andarilho Jessé com um olhar baixo e uma expressão de tristeza, se referindo ao seu melhor amigo, um cãozinho mestiço de dois anos que ele tirou da sarjeta da Rodoviária de Paranavaí quando o animalzinho tinha dois meses. “Um guarda lá deu dois choques na boca do bichinho com um arma. Ele quase morreu. Então cuidei dele e a gente se apegou um ao outro”, narra.
A convivência entre os dois era tão harmoniosa que Billy acordava Jessé todos os dias às 5h30 para trabalhar. “Ele tomava o café dele numa padaria do Jardim Simone e voltava pra ver se eu tinha me levantado. Se eu não estivesse em pé, ele latia até eu pular do colchão”, lembra. Bem querido pela população do bairro, Billy ganhava café da manhã todos os dias e atendimento quinzenal em um pet shop. “Um dia eu fui lá e falei: ‘Engraçado, né? Vocês dão tudo pro cachorro, mas ninguém faz nada pro pai dele aqui’”, revela Jessé às gargalhadas.
O andarilho e o cãozinho não se afastavam nem quando o andarilho precisava ir ao mercado. Billy sempre esperava Jessé do lado de fora, deitado em um tapete. “Um dia ele sumiu e fiquei tão nervoso que me deu um febrão. Algum tempo depois, fui ao Ginásio Lacerdinha ver um jogo e de longe vi o Billy. Daí gritei: ‘Billy, Billy! Filho da puta!’ E ele se esticou todo e veio correndo pra cima de mim, berrando e rolando no chão”, destaca.
O reencontro durou pouco tempo. Billy sumiu no mesmo dia e reapareceu num domingo na feira livre da Rua Pará. Enquanto caminhava próximo a uma banca de alface, Jessé foi surpreendido por um salto de Billy. “No dia seguinte, saí pra vender laranja e ele sumiu outra vez. Me contaram que um motorista de um Corsa sedan prata pegou ele. Mas tenho certeza que quando eu sair pra entregar panfleto ele vai voltar na hora quando sentir meu cheiro”, acredita.
“Fiquei 20 dias sozinho no mato quando meu pai morreu”
Ao falar do passado, as melhores lembranças de Jessé Piedade remetem à infância, principalmente o relacionamento com o pai e o avô. “Meu avô era uma pessoa fantástica. Fiz datilografia com 11 anos e ele me deu uma máquina. Era daquela Olivetti pequena. Depois me deu bicicleta, mobilete. O dia mais feliz da minha vida foi quando pedi pra ir ao Play Center. Eles disseram não e fiquei chateado, mas depois me levaram. Isso foi em 1987. Só que infelizmente meu avô morreu por causa de um [acidente vascular cerebral] AVC”, informa.
Hoje, de todos os familiares, Jessé tem contato esporádico apenas com a filha e a irmã. Seu pai, que era pastor, faleceu minutos após um culto, quando estava dirigindo um automóvel, aguardando o sinal verde do semáforo. “Teve um infarto fulminante. Foi tão impactante que não me deixaram ver. Cara, tenho uma saudade do meu pai que você nem imagina”, confessa com olhos marejados. Quando recebeu a notícia, o rapaz sumiu de casa e ficou 20 dias sozinho, dormindo em barraca numa área de mata fechada.
“Mais tarde, minha mãe casou com uma pessoa que não gostava de mim e não tenho notícias dela há mais de dez anos”, assinala e acrescenta que apesar da distância tem um bom relacionamento com a filha Raíne Vitória, que mora em São Paulo, e com a ex-mulher. “Nos damos muito bem, só que minha filha briga muito comigo. Quer que eu mude de vida o mais rápido possível. Ela fez 15 anos no último dia 15 de novembro”, pontua sorridente.
Deusdete, o peão que se tornou exemplo de superação
“Posso dizer que os políticos mais atrapalharam do que ajudaram no crescimento de Paranavaí. É uma cidade marcada por mais injustiça do que justiça”

O pioneiro segurando a única mala que restou da época em que tinha uma fábrica de malas na Rua Santa Catarina (Foto: David Arioch)
Em 1952, aos 22 anos, o pioneiro Deusdete Ferreira de Cerqueira deixou Monte Alegre, na Bahia, e viajou de trem de Mundo Novo até a divisa com Minas Gerais, onde subiu em um caminhão pau de arara que parava em qualquer lugar onde alguém acenasse com a mão. Mais adiante, entrou em outro trem na divisa com São Paulo. “Em Ourinhos, peguei o ônibus e a mala errada. Desci com a bagagem de um companheiro. Quando cheguei em Paranavaí, entreguei a mala dele. Perdi tudo”, conta Deusdete às gargalhadas, acrescentando que as malas azuis de madeira foram feitas pelo próprio irmão.
Depois de nove dias de viagem, o pioneiro chegou a Paranavaí em 9 de julho de 1952. A ideia de sair da Bahia surgiu quando Cerqueira ficou sabendo que um irmão do seu cunhado estava morando em Paranavaí. “Viemos em cinco, incluindo meu irmão e outro parente. Parei na Pensão São João, em frente ao Posto Minas, onde fiquei uma semana. Lá estava hospedado um rapaz que era gerente da fazenda onde meu irmão e cunhado trabalhavam”, relata.
O homem que ficaria conhecido como Toninho do Cartório administrava uma fazenda em Itaúna do Sul, onde Deusdete começou a trabalhar como peão. Meses mais tarde, a inexperiência o deixou com as mãos tão feridas que teve de assumir o posto de cozinheiro nas incursões pela mata virgem da região. Depois de preparar a boia, tinha de levá-la para os peões.
O trabalho era tão difícil que poucos resistiam. “Até quem tinha uma vida ruim na cidade natal preferia voltar assim que recebia um dinheirinho, inclusive meu irmão. Eu quis vencer e sempre fui da opinião de ficar”, afirma. Um dia, Deusdete Ferreira percorreu três quilômetros de mata fechada para levar o café da tarde aos peões. Durante o trajeto, se deparou com uma peroba enorme caída no meio de um estreito carreador. Receoso, olhou para um lado e para o outro.
Ao longe, viu uma onça e ficou tão desesperado que gritou, jogou tudo no chão e saiu correndo. Quando chegou ao galpão, teve de aguentar as broncas do fiscal e dos peões. “E olha que onça não pegava ninguém cara a cara. Ela se escondia e atacava de surpresa”, comenta Deusdete rindo e lembrando que como peão trabalhou na abertura de muitas estradas de três a cinco quilômetros de extensão nas fazendas. Naquele tempo as ferramentas mais usadas eram o machado e o traçador.
Cerqueira também derrubou muitas árvores de cedro e canjerana usadas na construção de residências, tulhas e casinhas para manter a sustentação dos pés de café. O salário baixo não o esmorecia. Em pouco tempo foi promovido a subempreiteiro, responsável pela contratação e fiscalização do trabalho de 10 a 20 peões. “Buscava gente nas pensões de Paranavaí e levava pro mato. Fazia o trabalho de peão e ganhava um pouco mais pra cuidar do serviço da turma e cozinhar. O trabalho se estendia por até 12 horas”, enfatiza.

1960 – Deusdete e Raquel na primeira casa que compraram, situada na Rua Pernambuco (Foto: Arquivo Familiar)
Nos tempos da colonização de Paranavaí, eram poucos os que se arriscavam a trabalhar como subempreiteiro, já que havia peões brutos. Entre os mais valentes, a moda da época era o bigode com as pontas mirando os olhos. Armados e bravos, não gostavam de lidar com os teimosos, nome dado aos empreiteiros sem experiência profissional, como era o caso de Cerqueira.
Uma vez, trabalhando na Fazenda 5R, o patrão atrasou o pagamento e Deusdete teve de vender o próprio encerado para pagar os peões. “O cara poderia até te matar se você não pagasse. Então era preciso se virar”, explica o pioneiro que também complementava a renda comercializando leite, leite condensado e fumo.
A situação só melhorou quando Cerqueira recebeu uma proposta do proprietário da Pensão Jacobina, onde vivia há um bom tempo. Sem condições de assumir a derrubada de 200 alqueires de mata em uma propriedade em Mirador, que pertencia ao diretor da Mercedes-Benz, o homem ofereceu a Deusdete a oportunidade de coordenar metade do trabalho, desde que ele recebesse uma parte dos lucros.
Deu tudo certo e plantaram 200 mil pés de café. A força de vontade de Cerqueira era tão grande que quando faltava comida ele saía de Mirador a pé para fazer compras em Paranavaí. A vantagem era que o proprietário do armazém mandava entregar tudo de caminhão. “Tinha gente que derrubava o mato e deixava margens de quiçaça de pelo menos 10 alqueires, o que era um problema na hora do plantio de café. Nesses casos os fazendeiros geralmente dispensavam ou davam preferência para outras pessoas”, pontua.
Quando o trabalho na mata durava meses, era normal o empreiteiro montar um barracão para vender alimentos aos peões, principalmente arroz, feijão, jabá e peixe. Deusdete percebeu que a maioria tinha o costume de comprar pinga, beber e abandonar a garrafa. Então ele as recolhia e levava para a cidade. “Eu percorria dois quilômetros a pé para trocar por garrafas cheias. Daí à noite, como eu sabia que os peões não tinham mais pinga pra beber durante o jogo de baralho, eu aparecia com as garrafas e vendia os copinhos de pinga”, garante.
Após as noitadas de bebida e jogatina, os peões se amontoavam em um barracão e dormiam sobre camas de palhas de milho e sacos que antes serviram para o armazenamento de carne seca. Quando esfriava, faziam fogueira, mas tinham o cuidado de isolá-la para evitar incêndio. Aos domingos, Deusdete lucrava de outra forma. Enquanto os demais relaxavam ou jogavam, ele ia até uma mina, onde lavava as roupas dos peões sobre uma pedra. Só entregava à noite. “Como fazia frio, ninguém reclamava e pagava certinho”, assegura.
Em 1958, Cerqueira deixou o trabalho na mata e usou as economias para comprar o Bar Continental, um dos pontos preferidos da população mais humilde de Paranavaí. O estabelecimento antes pertencia a uma família italiana que veio do Rio de Janeiro. No local o movimento era constante. Além do espaço amplo e das dez mesas de sinuca, a freguesia era atraída por cerveja, whisky, gim, Fogo Paulista, Cinzano, conhaque de alcatrão São João da Barra, cachaça Jurubeba, pinga Tatuzinho, refrigerantes Garoto, cigarros e charutos. “Eu vendia dois tipos de cerveja. Só que tinha uma que ninguém queria, então quando todo mundo ficava bêbado eu tirava o rótulo da cerveja boa e colocava na outra. Aí bebiam do mesmo jeito”, confidencia gargalhando.
Anos depois, Deusdete viveu uma situação constrangedora. Um dia houve briga e troca de tiros em um bar ao lado do Bar Continental e o chamaram na delegacia para se explicar sobre o acontecido. “Falei que não foi no meu bar e ainda provei. Não deram a mínima para o que falei porque a confusão tinha acontecido em um local frequentado pelos ricos e poderosos de Paranavaí. Queriam me culpar, já que eu não era ninguém na cidade”, reclama.
Com a experiência de quem se tornou comerciante na Bahia quando era criança, Deusdete ganhou dinheiro o suficiente para comprar uma casa na Rua Pernambuco e investir em pequenas propriedades rurais. “Adquiri uma chácara de um português atrás do 8º Batalhão da Polícia Militar. Depois vendi e comprei cinco alqueires do pioneiro Severino Colombelli perto da Fafipa [Faculdade Estadual de Educação, Ciências e Letras de Paranavaí]”, assinala.
Cerqueira viu uma boa oportunidade quando o governo começou a pagar para que os produtores rurais cortassem seus pés de café. Numa época em que as terras eram desvalorizadas, Deusdete comprou propriedades cheias de café, derrubou os cafezais e, seguindo a determinação governamental, plantou outra cultura por dois anos. “Quando ficava pronta, eu vendia pro vizinho. Fui indo, comprando e vendendo, até que consegui adquirir uma área de mais de 35 alqueires. Vendi também e comprei outra na Água da Cobra, perto do finado Luiz Lorenzetti”, cita.
Mais tarde, com a ajuda de Raul Piccinin, comprou uma fazenda de café de pouco mais de 100 alqueires em Santa Isabel do Ivaí. O imóvel pertencia a um senhor árabe de Londrina, conhecido como “Seu Nagibe”. Em 1965, Deusdete vendeu o Bar Continental, adquirido com o dinheiro que ganhou trabalhando na fazenda em Mirador. “Não cheguei e comprei. Continuei trabalhando até quitar o valor total. Falava-se em reserva de domínio. Depois vendi a minha metade do bar para um sócio”, revela e informa que o bar abria às 8h e fechava por volta da 1h.
Mais tarde, investiu em uma fábrica de malas de duratex na Rua Santa Catarina, no cruzamento com a Rua Souza Naves. Além de 10 funcionários, tinha também um caminhão. Deusdete vendia tantas malas que precisava viajar de avião com frequência para São Paulo, onde buscava matéria-prima na indústria de Paulo Maluf.
Em melhores condições financeiras, o pioneiro adquiriu a Fazenda Nova Marília, com 120 mil pés de café, de um fazendeiro árabe chamado Ney Jorge. Aproveitou que os bancos estavam oferecendo financiamento com juros baixos e investiu.
Deusdete e Raquel se casaram após um mês de namoro
Em 1960, depois de oito anos em Paranavaí, Deusdete Ferreira de Cerqueira foi para a Bahia rever a família. Desembarcou de avião em Feira de Santana e subiu em um caminhão pau de arara com destino a Angico, onde na infância já costumava participar da feira, vendendo galinha, fumo de corda, rapadura, leitoa e banana. “Vi uma mocinha e gostei muito dela. Fiquei na casa do primo João Soares e ela parava lá porque tinha comércio também. Então deu certo da gente namorar. Antes falei com a família dela. A mãe aceitou, até porque o pai da Raquel era afilhado do meu avô e nossas famílias moravam perto. Mas exigiu que eu ficasse lá. Eu disse que não porque estava recomeçando a vida no Paraná”, narra.
Após um mês de namoro, o vínculo de confiança entre os dois era tão forte que decidiram se casar na Bahia com a bênção das duas famílias. Deusdete tinha 30 anos e Raquel Reis, a primeira de uma família de 14 irmãos a sair da Bahia, tinha 18. “Vim pra um lugar completamente diferente, mas não foi muito difícil. Senti muita saudade da família. Fui me adaptando, construindo a vida, fazendo amizades. Gosto de Paranavaí. Lá eu morei 18 anos e aqui 55 anos, então aqui é a minha cidade. Meus filhos nasceram aqui e pretendo ficar aqui por toda a vida”, diz Raquel Reis de Cerqueira.
Deusdete declara que não seria quem é hoje se não fosse a companhia de Raquel. Segundo o pioneiro, a esposa só merece elogios. “O casamento me ajudou demais. Minha mulher me acompanhou desde o começo. Sofreu muito quando tínhamos filhos pequenos e íamos de um lugar para o outro na tentativa de melhorar de vida”, analisa.
“Única coisa que me deu prejuízo foi a política”
Ao receber o convite dos amigos para ser candidato a prefeito de Paranavaí em 2000, Deudete Ferreira de Cerqueira aceitou porque tinha o sonho de ver Paranavaí retomar o caminho do desenvolvimento que rendeu tanta popularidade ao município até o final da década de 1960. “Única coisa que me deu prejuízo foi a política. Você não vence uma eleição se não gastar. Banquei tudo do meu bolso. Gastei demais. É claro que ganhando R$ 4 mil por mês eu nunca iria recuperar isso”, admite.
Porém, o que desanimou mais Deusdete não foram os gastos com a campanha, mas sim o que veio depois. Sem grandes apoiadores, sentiu o peso da influência dos grupos políticos mais representativos de Paranavaí. Um deles interviu para que o município não recebesse recursos dos governos estadual e federal. “Paranavaí tinha R$ 3,5 milhões para receber. E só consegui fazer esse dinheiro chegar depois de muito tempo. Eu não tinha apoio. Dei R$ 1 milhão para a Santa Casa de Paranavaí e sobrou R$ 2,5 milhões. Foi o único recurso que recebi na minha gestão”, desabafa, acrescentando que a cidade tem uma história política marcada pela malandragem de grupos que agem como mafiosos.
A preocupação maior não era o futuro da cidade, mas sim atrapalhar o trabalho do poder público municipal. “Meu apoio era a minha família e o povo que acreditava em mim. Muita gente me defendeu, mas minha família sofreu muito por causa da exposição”, afirma Deusdete e revela que os opositores só não conseguiram prejudicar sua imagem porque ele não devia nada a ninguém. De 2001 a 2004, o então prefeito teve de trabalhar no limite, contando principalmente com recursos municipais.
“Não fiz tudo que gostaria porque não havia muito dinheiro, mas pelo menos deixei para a população algumas escolas novas, reformei praças, ruas, avenidas, investi um pouco em saúde e nos pequenos empresários. Tenho orgulho de ter ajudado na criação de uma cooperativa de costura para mais de 600 donas de casa. O resultado foi bom, mas quando saí acabaram com a cooperativa”, lamenta.
Cerqueira relata que deu continuidade a vários projetos do prefeito anterior. No entanto, desabafa que desde que Paranavaí surgiu a cidade é castigada pela inveja entre prefeitos. É rara a preocupação de não sacrificar o progresso em benefício próprio. “Por que Paranavaí não cresceu tanto quanto os outros municípios? Tínhamos tudo nas mãos, mas aqueles que têm o poder sempre fizeram o possível para que a cidade ficasse para trás. Sabe por quê? Porque eles se beneficiam disso”, enfatiza.
Mesmo quando era prefeito, Deusdete Cerqueira teve de enfrentar o preconceito. Ouvia ofensas até nos corredores da prefeitura. “Sofri muito por causa da minha cor e por ter pouco estudo. Nunca deixei de passar por essa situação. Só que enfrentei tudo de cabeça erguida, ignorando quem me agredia. Não me arrependi de ser prefeito, mas o resultado não foi o esperado. Posso dizer que os políticos mais atrapalharam do que ajudaram no crescimento de Paranavaí. É uma cidade marcada por mais injustiça do que justiça”, avalia.
Saiba Mais
Deusdete Ferreira de Cerqueira nasceu no dia 13 de março de 1930.
Frases do pioneiro e ex-prefeito Deusdete Ferreira de Cerqueira
“Tudo que tenho eu devo a Paranavaí.”
“Prefeitura foi feita para ser tocada como uma empresa, um comércio. Não pode ser administrada com base na politicagem.”
“Peguei a prefeitura com uma dívida de R$ 2,7 milhões. Paguei tudo e não deixei nenhuma dívida quando saí.”
O Quintal Mágico de Sergio Torrente
“Não tinha como não transformar o lugar onde moro naquilo que vivo diariamente, a arte popular”

Casa na Rua Antônio Felipe que abriga o escritório e o Quintal Mágico de Sergio Torrente (Foto: David Arioch)
Em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, quem passa pela Rua Antônio Felipe em direção à Praça dos Pioneiros se depara com uma residência bem chamativa à direita. É lá, no número 1676, que vive o artista popular Sergio Torrente. Num colorido cenário, Sergio prova que na vida poucas coisas são realmente descartáveis, ainda mais quando um artista tem a sensibilidade de dar um novo sentido até para objetos que cabem na palma da mão e já não funcionam mais, como um velho despertador à corda.
Depois de passar por uma sala, onde também fica o escritório de Torrente, vou mais adiante, atravesso a cozinha e a última porta da casa. Então encontro meu destino, o motivo da visita, o Quintal Mágico, dividido em três espaços. “Não tinha como não transformar o lugar onde moro naquilo que vivo diariamente, a arte popular”, justifica o artista sorrindo.

Em pouco tempo, chegaram peixinhos, flores e gira-giras, penduricalhos criados por Sebastião Torrente (Foto: David Arioch)
Entre pinceladas de tinta verde, amarela e azul, há três anos surgiu um palco e alguns bancos doados por uma igreja do Jardim São Jorge, agora pintados num azul anilado. Em pouco tempo, chegaram peixinhos, flores e gira-giras, penduricalhos criados por Sebastião Torrente, pai de Sergio, que hoje adornam uma bela e frutífera jabuticeira. “Começou a se transformar e vimos que ele estava mágico, então surgiu a ideia de dar o nome de Quintal Mágico, um espaço onde a arte popular floresce, onde artistas autorais podem se apresentar”, enfatiza.
Pelo local já passaram compositores locais como o próprio Sergio Torrente, Marquinhos Diet, Fernando Bana, Rogério Esquivel e João Henrique. Todos os fazedores de música de Paranavaí podem se apresentar no Quintal Mágico. Ao final da performance é passado um chapéu e quem quiser pode contribuir. “Tem que aproveitar o espaço que é nosso”, comenta. Depois peço que me leve até SáD´Zabumbê, onde uma pequena e estreita abertura no muro exige que cada convidado se abaixe para entrar, fazendo uma reverência ao rei, um boneco grande que tem pés no lugar das mãos e mãos no lugar dos pés.
Após sair de uma limítrofe cobertura de lona escura, piso no solo de SáD´Zabumbê, que é melhor aproveitado se você estiver descalço, sentindo a energia da terra. Há um palco bem rústico, que remete ao início da civilização, delimitado por duas ripas e um tronco fino. No muro se vê sapatos pendurados, uma analogia de que tudo que cobre os pés deve ficar suspenso. As trepadeiras também crescem livremente em várias direções. “A energia foi chamando”, acredita Sergio.

Após sair de uma limítrofe cobertura de lona escura, piso no solo de SáD´Zabumbê (Foto: David Arioch)
O local conta somente com a iluminação de uma fogueira, lampião ou luz de velas para criar um clima mais tribal, intimista e informal. Torrente não se preocupa com a ordem das coisas no ambiente, pois elas se ajeitam naturalmente. “Terminamos de tomar uma garrafa de vinho e simplesmente a colocamos aqui, junto com todas as outras que fazem parte de uma simbologia do sangue e da despreocupação”, revela e acrescenta que ao trocar a água pelo vinho o homem deixa de ser motivado pela razão e se guia pela emoção.

Por dois a três minutos, Sergio manipula os personagens, encenando em espanhol um fragmento criterioso de “Oração” (Foto: David Arioch)
O palco de SáD´Zabumbê também foi criado para a encenação do espetáculo “Oração”, do renomado escritor, dramaturgo e cineasta espanhol Fernando Arrabal, de quem Sergio Torrente conseguiu autorização para a montagem da peça. “A minha ‘Oração’ tem direção do capixaba Wilson Coêlho, grande dramaturgo e pesquisador que possui os direitos do espetáculo no Brasil. Apresentei ‘Oração’ na versão original, em espanhol, em 2010 em três festivais na Argentina. Agora quero marcar uma reestreia para 30 a 40 pessoas, discutindo as questões da culpa e da des…culpa, da origem do conhecimento”, pontua enquanto empurra sobre o solo de SáD´Zabumbê um carrinho de bebê com três bonecos que fazem parte do espetáculo, representando Fídio, Lilbé e seu filho.
Por dois a três minutos, Sergio manipula os personagens, encenando em espanhol um fragmento criterioso de “Oração”, a busca do casal por um sentido em suas vidas. Em frente ao modesto palco há uma mamoneira envolta por fitas e uma pinheira. A primeira é uma árvore de recordações em que as fitas representam as histórias, a trajetória humana. “A vida nada mais é do que momentos de felicidade e esses momentos são criados por nós, seja na intenção de viver, ouvir coisas boas ou estar presente. E o Quintal Mágico celebra isso”, argumenta. Sobre o nome, SáD´Zabumbê é um neologismo da junção dos termos regionalistas “sassinhora” e “zabumbê” que juntos significam senhora felicidade. “Se você entrar por baixo, ela vai te levantar. A ideia aqui é manter o espírito de luz, a boa energia em alta”, defende.
A Ação B, o segundo e maior espaço do Quintal Mágico, que fica entre SáD´Zabumbê e a futura Fábrica de Brinquedos, possui um palco com três palmos de altura, usado para apresentações musicais de duas ou três pessoas. Foi construído a partir de cacos de telhas, sobras de lajotas, tijolos e outros restos de entulho. “Assim que mudei pra cá, fui limpando e colocando tudo num canto. Quando vi aquele monte de tranqueira feia pra danar, armei uns palanques, espalhei tudo isso e compactei. Assim surgiu outro palco”, narra.
Nas “Terças Encantadas”, a partir das 19h30, a diversão no local é baseada em prosa, viola, violão, risos e fogueira. “A gente brinca até as 22h, é o suficiente, até porque o vizinho tem que dormir e nós precisamos trabalhar no dia seguinte”, avisa. No sábado e no domingo os encontros começam às 15h e terminam por volta das 19h. O sinal de que o Quintal Mágico está aberto para quem quiser entrar são as luzinhas acesas na entrada da casa. “Viu a luz? É só vir pro fundo”, sugere.
O céu aberto permite que os convidados tenham um visão privilegiada da Lua e das estrelas enquanto se divertem em torno da fogueira. Nos finais de semana o Quintal Mágico convida todos a retornarem à infância, em rodas de brincadeiras e de cirandas, tocando tambores. “’Esta ciranda quem me deu foi Lia que mora na ilha de Itamaracá…’ E assim por diante. A gente pede que as pessoas se sintam à vontade, pisem no chão, façam coisas que não estão acostumadas a fazer todos os dias”, recomenda o artista que também pretende realizar rodas de congo e coco.
No terceiro espaço do Quintal Mágico, Sergio e o músico Rogério Esquivel vão coordenar pesquisas para a fabricação de brinquedos populares. A ideia é futuramente oferecer oficinas para adultos e crianças. “Queremos incentivar todo mundo a brincar como antigamente. Chegou a hora de desligar um pouco a TV, o computador e o celular. Aqui eles vão aprender a fazer um traca-traca, um mané gostoso – aquele que pula, um jogo de trilhas, damas. Enfim, joguinhos que meu pai brincava comigo quando criança e o pai dele brincou com ele”, explica.

Antes de eu ir embora, Sergio abraça a viola, canta a plenos pulmões e toca percussão com os pés (Foto: David Arioch)
Cada oficineiro vai assumir o compromisso de produzir três ou quatro brinquedos, feitos principalmente de materiais recicláveis, para doações em comunidades carentes. Além disso, o Quintal Mágico está recebendo brinquedos quebrados para serem consertados e doados. E como diz a letra da música de Torrente: “Uma cidade tem que ter uma canção, um santinho padroeiro para lhe dar proteção. E tem que ter uma bodega sempre aberta, uma cachaça esperta e um louco de plantão. Vamos fazer a nossa bodega aqui”, canta e informa Sergio.
Coordenada por Sol Púrpura, a bodega deve promover ainda mais a interação e a valorização mútua dos frequentadores do Quintal Mágico. “Em breve vamos oferecer pizza, docinhos caseiros, um vinhozinho, uma cachacinha artesanal, os penduricalhos do Seu Tião, brinquedos populares e o que vier. Todo mundo pode trazer alguma coisinha pra expor e vender, inclusive você. Precisamos de pessoas que venham somar, ajudar para que as coisas aconteçam”, declara.
Antes de eu ir embora, Sergio me serve um café fresco, abraça a viola, canta a plenos pulmões e toca percussão com os pés. A cantoria é acompanhada de uma interpretação singular repleta de trejeitos e caretas. A cada batida o chão treme, os objetos passeiam pela estante azul, os penduricalhos se agitam e as cores vibrantes nas paredes reforçam a alegria emanada de um cenário naturalmente festivo. “As cores, a brisa, o olho vibrando, tudo isso faz com que a alma cresça. É muito bom ver que você voltou com vontade de conhecer ainda mais o Quintal Mágico. É bacana. O Quintal Mágico, SáD´Zabumbê, já pegou você!”, anuncia ao notar a minha satisfação em divulgar a magia de um lugar que contrasta com a tecnologia e a célere realidade da vida urbana.
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Os marginais da colonização
“Éramos assim, vagabundos e marginais aos olhos de um mundo já corrompido pela ganância”

Pavão que trouxe Toninho, Beto e Maneco a Paranavaí em 1946 (Foto: Acervo da Fundação Cultural de Paranavaí)
Toninho, Beto e Maneco são três personagens desconhecidos da história de Paranavaí. Jovens na década de 1940, seguiam na contramão da maioria da população. Sentiam prazer em não ter propósitos comuns, apenas viviam o presente. Distantes da ambição que atraía tantos migrantes e imigrantes a Paranavaí, vagavam como marginais, curtindo a vida à sua maneira.
Depois de menos de um ano em Londrina, Toninho, Beto e Maneco decidiram partir para o Noroeste do Paraná, destino que na concepção dos três tinha tudo para garantir muita diversão. “Éramos solteiros e ouvíamos falar muito do Norte Novíssimo do Paraná. Diziam que era um lugar muito diferente. Ficamos curiosos e pensamos em ver isso de perto”, explica Beto.
Na manhã fria de 29 de julho de 1946, desembarcaram do pavão no Ponto Azul em Paranavaí. Carregando sacos de estopa com poucas peças de roupa, os três se conheceram em Londrina enquanto aguardavam o ônibus. “Ficamos rindo quando vimos que os nossos sacos eram iguais”, explica Toninho que deixou a família em Paranaguá para conhecer Londrina. Beto e Maneco fizeram o mesmo. Um saiu de Santos e o outro de Joinville.
Quando colocaram os pés no chão de terra batida, um garoto de 12 anos, conhecido como Amendoim, se aproximou e, assim que viu uma velha cigarreira despontando do bolso da camisa branca de Maneco, gritou: “Ô senhor, me dá um desse aí!” O rapaz então acendeu um Lincoln com um leve riscar de palito velado sob o dedo. Disse que o cigarro seria de Amendoim se conseguisse segurá-lo pela ponta do filtro durante um arremesso. Habilidoso, o garoto o pegou no ar sem queimar os dedos. Depois ajeitou a boina parda surrada, agradeceu, colocou o cigarro na boca e seguiu o trio.
No mesmo dia alugaram uma casa perto da entrada da Vila Operária, na região que ficaria conhecida na década de 1950 como Zona do Baixo Meretrício, um reduto de bordéis onde a agitação começava quando o restante da cidade se silenciava. “Era uma casinha, coisa simples, só pra gente ter um lugar pra ver a vida passar sem pressa”, comenta Toninho.

Ponto Azul, onde o trio desembarcou e conheceu o garoto Amendoim (Foto: Acervo da Fundação Cultural de Paranavaí)
Em pouco tempo, Beto teve a ideia de fabricar rapé artesanal no fundo de casa. O desejo surgiu meses antes, quando leu o romance “Eugênia Grandet”, do francês Honoré de Balzac, e o conto “O Bote de Rapé”, de Machado de Assis. No início buscava parte da matéria-prima em Londrina. Misturava as folhas de tabaco com as cinzas das cascas de árvores que selecionava em Paranavaí e processava tudo em um moedor caseiro. “A gente inalava uma vez por dia usando o polegar e o dedo indicador. Era como uma liturgia de purificação. Chegava a ficar com as unhas encardidas”, confidencia Beto rindo e mostrando com a mão direita como se consumia.
Ocasionalmente os três se juntavam aos peões que atuavam na derrubada de mata, mas só até reunirem uma boa quantidade de cascas para o preparo do rapé. A verdade é que não gostavam de trabalhar. Encaravam como forma de aprisionamento todo serviço que impusesse ao ser humano uma rotina que não permitisse o autoconhecimento, a visão periférica do mundo e a fluência da vida. “Éramos assim, vagabundos e marginais aos olhos de um mundo já corrompido pela ganância. E de fato nos víamos como marginais, o que nunca foi ofensa pra nós”, declara Maneco.
Ao longo de duas semanas de trabalho na mata, testemunharam cinco pessoas com intensos calafrios e pele amarelada, vítimas de malária. Para evitar despesas ao ter de percorrer mais de 50 quilômetros de carreador até o hospital, e seguindo recomendação do patrão, o fiscal preferiu ignorar a situação dos enfermos e ameaçou atirar em quem parasse o serviço para tentar ajudá-los. Dois não resistiram à doença e morreram lá mesmo, agonizando silenciosamente, com seus corpos encharcados de suor. Preocupado com o mau cheiro, o homem obrigou seis peões a enterrarem os mortos – dois rapazes de 18 e 19 anos.
As valas improvisadas foram forradas com galhos e folhas. Quando cobriram as covas com terra, Toninho pediu autorização ao fiscal para dizer algumas palavras em memória dos falecidos. O sujeito não aceitou, bateu o chapéu contra a perna e ordenou que continuassem o serviço. “Já morreu, não significa mais nada. O que vale é nóis que tamo vivo”, justificou o fiscal enquanto talhava com um facão um naco de carne seca. Depois daquele dia nenhum dos três atuou como peão. Porém, jamais esqueceram a expressão de desilusão nos olhos de tantos homens que trabalhavam até 16 horas por dia ajudando a desmatar a região.
Em casa, transformaram o ambiente em um lugar que deram o nome de “La Mancha” em homenagem ao eterno Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Passavam boa parte do tempo lendo, escrevendo, cantando, criando invenções, dançando e consumindo absinto, rapé, ópio, chá de ayahuasca e soltierra, uma bebida à base de raízes e flores silvestres. “Acredito que foi a primeira bebida inventada no Noroeste do Paraná. Só que consumíamos apenas entre nós. Ela ajudava a restabelecer o equilíbrio entre os sentidos”, confidencia Beto que comprava papoula sonífera de um turco conhecido como Symancora Katifoi que conheceu em São Paulo em 1945 por intermédio de um primo.
No interior da La Mancha, uma casa ordinária por fora e extraordinária por dentro, havia o mínimo possível de móveis, quase tudo criado ou lapidado pelos três amigos. As paredes internas eram adornadas por trepadeiras que cresciam livremente. Até frutas como melancia de cipó, melãozinho do mato, maracujá, uva e fava de arara brotavam dos ramos nas paredes. “Todos puderam se servir delas, tirando direto da natureza”, rememora Maneco. O clima no local era tão ameno que nem as mais severas ondas de calor alteravam o frescor dentro da casa.
No entanto a solitude dos três não durou tanto quanto imaginavam. Em outubro de 1946, duas jovens que trabalhavam em um prostíbulo a 150 metros da La Mancha estavam caminhando quando sentiram um aroma acre e adocicado. Curiosas, se aproximaram e bateram palmas. Toninho, Beto e Maneco, que nunca tinham recebido visita em meses, a não ser do garoto Amendoim, se surpreenderam com o desembaraço das moças. Ao mesmo tempo ficaram receosos. “O que vocês tão preparando aí? É de beber?”, questionou uma loira chamada Lara. Toninho respondeu que era um chá para cefaleia. A moça então insistiu que gostaria de experimentá-lo e acabaram cedendo.
As duas entraram e todos foram para o primeiro cômodo da casa, uma saleta separada das outras dependências por uma longa cortina verde. A conversa se estendeu por pelo menos duas horas e os três relataram que eram estudantes tirando um ano sabático para repensarem a vida. Lara também deu detalhes de sua história. Teve uma briga séria com os pais e deixou Prudentópolis, no Sudeste do Paraná, para conhecer Paranavaí, onde uma amiga já trabalhava em um bordel.
Após a despedida, pediu que as deixassem retornar. Sem noção das intenções da moça, concordaram, só que não velaram a resistência. Ainda assim, Toninho, Beto e Maneco receberam mais de 50 pessoas na casa antes do Natal de 1946. A maior parte chegava através do vínculo de confiança que o trio criou com Lara. Para entrarem no local, era preciso dizer uma senha – Papilio Innocentia, uma referência à obra poética homônima do paranaense Emiliano Perneta.
Os frequentadores da La Mancha eram pessoas simples, personagens anônimos da história de Paranavaí, mas principalmente damas da noite e peões que enxergavam um paraíso na modesta casinha de tábuas escuras – um espaço peculiar onde podiam extravasar anseios, emoções reprimidas e buscar ajuda.
“Alguns começaram a nos ver como curandeiros. Claro que nunca nos vimos assim, só que para não decepcionar aquela gente atendemos cada um. À nossa porta vinham desde vítimas de acidentes de trabalho até pessoas com sífilis e gonorreia. Outros queriam auxílio espiritual. Deu pra ajudar um pouquinho”, enfatiza Beto que admite ter usado substâncias alucinógenas na composição de diversos medicamentos caseiros. Em vez de cobrar pela ajuda, o trio deixava uma cumbuca sobre a mesinha na saleta. Assim cada um contribuía da forma que pudesse ou quisesse.
No dia 26 de julho de 1947, um sábado, Toninho, Beto e Maneco prepararam uma festa para 20 pessoas. Amendoim, Lara e quatro amigas estavam entre os presentes. A comemoração na La Mancha começou por volta das 18h e se estendeu até as 23h. “Uma celebração tranquila, com cantoria, gaita, boa conversa, troca de confidências, muitas bebidas e outras coisinhas mais”, pontua Toninho com um sorriso acintoso.
Antes do fim da noite o trio revelou aos convidados que a festa era uma despedida. Tinham acertado tudo para partir na segunda-feira pela manhã. A notícia desapontou os muitos miseráveis que viam a La Mancha como refúgio e os três jovens como parte importante de suas vidas. Lara e Amendoim não conseguiram esconder as lágrimas que escorriam como chuva de verão. “Se acalmem! Não é o fim do mundo. Um dia vamos nos encontrar e também podemos nos corresponder”, anunciou Maneco com voz indolente enquanto vertia uma sobra de absinto do fundo de um cálice de barro.
A festa acabou cedo porque no dia seguinte os três acordariam às 3h. Em meio à escuridão serena, ouviram o som de um jipe Land Rover encostando em frente ao casebre. Era João José, um senhor de quem alugaram o veículo por dois dias, assumindo o compromisso de mais tarde deixá-lo atrás de uma tulha em uma propriedade rural na entrada de Maringá, onde o proprietário do jipe poderia buscá-lo.
Toninho, Beto e Maneco aproveitaram a ausência de brisa e o calor matutino que principiava breve estiagem. Como o silêncio da natureza os privilegiava, atearam fogo em tulhas e cafezais de cinco propriedades rurais de alguns dos homens mais ricos da região. Um era o responsável por contratar o sujeito que deixou os dois jovens peões morrerem à míngua, de malária, no seio da mata. Quando o fogo começava a se alastrar, saltavam sobre o jipe e partiam sem qualquer remorso.
Entre as lavouras destruídas estava a de um fazendeiro ciumento que feriu várias partes do corpo de Lara com um punhal, na tentativa de assassiná-la. Em uma noite da semana anterior o homem berrou e exigiu que a jovem não atendesse mais nenhum outro cliente. Ela não aceitou. Ensandecido, só foi contido graças à intervenção do Capitão Telmo Ribeiro que tomou a arma da mão do sujeito, o agarrou pelo pescoço e deu-lhe um vigoroso soco no estômago.
No final da tarde de terça visitaram a residência do fiscal a quem culpam até hoje pela morte dos peões vitimados pela maleita. Pensaram em atear fogo em sua casa. Mudaram de ideia quando viram três crianças brincando no quintal descampado e sem cerca. Ao lado, uma jovem mãe esfregava fervorosamente a calça bege do marido em um tanque improvisado. “Vamos largar esse pra lá. A vida se encarrega de fazer justiça. O que é dele tá guardado”, sugeriu Maneco. Toninho e Beto concordaram.
À noite, por volta das 21h, receberam a confirmação de que os estragos nas lavouras e tulhas eram enormes e ainda inestimáveis. Recolheram os pertences e anteciparam a partida. Estavam entrando no jipe quando ouviram a suplicante voz de Lara. Segurando uma malinha amarelada, a moça pediu para deixá-la partir com eles. Hesitaram um pouco, mas, como se tornara tradição, cederam ao pedido da jovem.
Paranavaí parecia mais serena do que nunca. A população dormia enquanto o jipe atravessava as ruas de terra da cidade, deixando pequenas cortinas de poeira clara que cobriam com sutileza os cães deitados próximos das soleiras das casinhas de tábuas. “Foi um sonho intenso. Vivemos em Paranavaí algumas das maiores dores e alegrias de nossas vidas. Agradeço por estarmos vivos, por ter a chance de contar pela primeira vez com detalhes a fase mais emocionante da nossa história. Talvez amanhã não estejamos mais aqui, então cabe a você compartilhar com outras pessoas”, aconselha Toninho, aos 89 anos, com a voz embargada e um olhar úmido e cristalino.
Saiba Mais
Toninho e Beto tinham 20 anos quando chegaram a Paranavaí. Maneco, o mais jovem, estava com 19, assim como Lara.
Os três amigos moram em Curitiba e mantêm contato frequente até hoje. Toninho é médico veterinário aposentado. Beto também se aposentou, mas como engenheiro florestal. Maneco continua trabalhando como artista plástico e escritor.
O trio retornou a Paranavaí a passeio somente 32 anos após a partida.
Lara se casou com Toninho em 1949. Viveram juntos até 1995, quando ela faleceu em decorrência de um câncer de mama.
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