David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Personagens’ Category

Ni e Jabulana, os guardiões do Cemitério Municipal de Paranavaí

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Casal de cães de pequeno porte já evitou furtos e afastou usuários de drogas

Ni e Jabulana, duas vidas dedicadas ao Cemitério de Paranavaí (Foto: David Arioch)

Ni e Jabulana, duas vidas dedicadas ao Cemitério de Paranavaí (Foto: David Arioch)

São 8h e dois cães pequenos e mestiços prestam atenção em tudo que ocorre nas imediações do portão do Cemitério Municipal de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Quando entro no local, continuam sentados, mas acompanham meus passos com os olhos.

Assim que começo a conversar com a autônoma Maria Lurdes da Silva, um cão de pelagem escura chamado Ni reconhece que não sou uma ameaça, coça a orelha, se levanta e decide patrulhar a calçada à direita do cemitério. Jabulana, uma cadelinha de pelo claro, abana o rabo enquanto segue o caminho inverso, descendo à esquerda.

Maria Lurdes conta que Ni se tornou o guardião do cemitério há mais de quatro anos, pouco antes de ganhar a companhia de Jabulana, encontrada ainda filhote depois de ser abandonada ao relento no cemitério. O nome faz referência à bola da Copa do Mundo de 2010. “Ela estava sozinha, assustada e gemendo”, diz a autônoma que a adotou.

A rotina dos cães começa bem cedo (Foto: David Arioch)

Cães patrulham o cemitério desde que eram filhotes (Foto: David Arioch)

Pouco tempo depois, Ni e Jabulana retornam e percorrem todo o cemitério. Sobem nos pontos mais altos para terem uma visão privilegiada da movimentação. Também circulam pelo cruzeiro e alas das gavetas. Só interrompem o percurso e sentam próximos a um túmulo quando encontram um grupo de pessoas.

Deixam a impressão de que estão checando se está tudo bem no local. Qualquer ação suspeita desperta a atenção dos cães. A vantagem de serem pequenos e aparentemente dóceis é que muitas vezes passam despercebidos por quem entra no cemitério com má intenção.

Espertos, os animais já impediram ações de ladrões de lápides, principalmente furtos de placas de bronze. “Quando veem alguma coisa errada, latem sem parar e partem pra cima”, garante Maria Lurdes, acrescentando que Ni e Jabulana afastaram do cemitério muitos jovens que iam até o local para usarem narcóticos. Embora nunca tenham recebido treinamento, os cães identificam usuários de drogas de longe, mesmo quando não estão consumindo nada.

Donizete Azevedo: "Se venho trabalhar todos os dias, eles vêm também" (Foto: David Arioch

Donizete Azevedo: “Se venho trabalhar todos os dias, eles vêm também” (Foto: David Arioch)

A rotina de Li e Jabulana como guardiões do cemitério começa junto com o expediente dos funcionários. “Se venho trabalhar todos os dias, eles vêm também. Dependendo, chegamos 6h30, 7h. Daí levo eles em casa pra almoçar, retornamos e ficamos aqui até as 18h”, explica o mestre de obras Sebastião Donizete de Azevedo que constrói e reforma jazigos.

Ni também tem o hábito de proteger a caixa de ferramentas enquanto Azevedo trabalha. “Eles tomam conta de tudo no cemitério. Mexeu onde não deve, a confusão está armada”, garante Sebastião Donizete que é facilmente localizado pela dupla através do faro, independente da distância.

Os cães também montam guarda quando Maria Lurdes realiza algum serviço esporádico de lavagem de túmulos. “Eles ficam do lado observando. São nossos protetores. Ainda bem que nunca ninguém conseguiu machucar eles”, comenta a autônoma que mora em frente ao Cemitério Municipal de Paranavaí com o marido Donizete de Azevedo.

Maria Lurdes: "“Quando veem alguma coisa errada, latem sem parar e partem pra cima” (Foto: David Arioch)

Maria Lurdes: “Quando veem alguma coisa errada, latem sem parar e partem pra cima” (Foto: David Arioch)

É provável que a convivência e a proximidade com o local de trabalho do casal façam com que Ni e Jabulana vejam o cemitério como uma extensão da própria casa. “Praticamente foram criados aqui dentro, tanto que um dia tivemos de pular o muro para buscar o Ni. Era noite e ele não chegava. Encontramos o bichinho dormindo em cima de um jazigo. Se deixasse, esperaria a gente até no dia seguinte”, revela Maria Lurdes emocionada.

O episódio lembrou o dia em que o pai do cãozinho morreu e o enterraram no quintal. Desolado, Ni passou dias dormindo sobre o túmulo improvisado. “Pois é, mais vale um cachorro amigo do que um amigo cachorro”, cita Azevedo sorrindo, se recordando do ditado popular e destacando que o animalzinho é o seu maior companheiro.

Em retribuição, Sebastião Donizete e Maria Lurdes levam os animais para passear quase todos os dias e só os alimentam com ração de alta qualidade. “Na realidade, nos preocupamos mais com a alimentação deles do que com a nossa”, garante o mestre de obras às gargalhadas.

Qualquer ação suspeita desperta a atenção dos cães (Foto: David Arioch

Qualquer ação suspeita desperta a atenção dos cães (Foto: David Arioch)

Ni e Jabulana convivem em harmonia com outros animais que moram no cemitério, inclusive os muitos gatos alimentados pelo administrador Amilcar Pereira dos Santos. Pela manhã, é fácil encontrar pratinhos com ração ao lado do escritório administrativo situado na entrada. O ambiente os atrai pela tranquilidade.

“Menina”, a gatinha que gostava de velórios

Há alguns anos, uma gatinha rajada chamada Menina se tornou muito popular nos velórios realizados na Capela Mortuária Municipal, ao lado do Cemitério Municipal de Paranavaí. Era raro o animal não comparecer a algum velório. Ficava quase sempre na mesma posição acompanhando a cerimônia.

“As pessoas se assustavam e diziam que ela parecia gente. Dava a impressão de que ela transmitia respeito. Mantinha a postura e não incomodava ninguém. Ficava só observando”, garante a autônoma Maria Lurdes da Silva, com quem Menina morava desde que era filhote.

Saiba Mais

Sebastião Donizete de Azevedo e Maria Lurdes da Silva foram surpreendidos muitas vezes ao saírem do banco e encontrarem Ni em posição de guarda os aguardando para irem embora. Episódio semelhante se repetiu também em lojas e mercados.

Anjo da Morte pode ter morado em Graciosa em 1954

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Pioneiros de distrito de Paranavaí suspeitam que médico nazista viveu no Seminário Imaculada Conceição

Pioneiros do distrito de Paranavaí acreditam que o médico nazista Josef Mengele viveu no Seminário Imaculada Conceição

O médico misterioso raramente deixava o seminário (Acervo: Ordem do Carmo)

Em 1954, um grupo de criminosos armou uma emboscada para assassinar o comerciante Ludovico Selhorst na colônia germânica Graciosa, distrito de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Para não serem identificados, os homens usaram máscaras e se esconderam em uma roça de milho nas imediações do comércio de Selhorst.

À noite, assim que o comerciante ficou sozinho, aguardaram alguns minutos, atiraram nele e fugiram. Quando Ludovico caiu, quem estava próximo do local estranhou o barulho e correu até lá para saber o que aconteceu. “Ele foi atingido perto do braço e não teve tempo nem de ver de onde a bala saiu”, relata a pioneira Francisca Bruning Schiroff que à época tinha 19 anos. Os irmãos da vítima, inclusive Jacob Selhorst que era o delegado do distrito, foram os primeiros a socorrer Ludovico, assim como João Bruning, pai de Francisca, que pediu para alguém chamar um médico hospedado no Seminário Imaculada Conceição.

“Ficamos sabendo desse doutor. Só que ninguém sabia quem era”, conta a pioneira. Descrito como alto, forte e aparentando ter mais de 40 anos, o médico pouco comunicativo estancou o sangramento, aplicou um antibiótico injetável e o encaminhou para o Hospital Professor João Cândido Ferreira, conhecido como Hospital do Estado, em Paranavaí. Para transportá-lo, como não havia ambulância naquele tempo, o colocaram sobre um colchão em cima de um caminhão. A princípio, Ludovico reagiu bem, mas não resistiu e faleceu na manhã seguinte.

Francisca Schiroff: "Ele ficou mais ou menos um ano em Graciosa" (Foto: Reprodução)

Francisca Schiroff: “Ele ficou mais ou menos um ano em Graciosa” (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

A suspeita é de que os envolvidos no assassinato trabalhavam explodindo pedreiras com dinamite. “Achamos que o crime foi cometido por homens contratados para retirarem pedras de um rio perto de Graciosa. Eles estavam atuando na construção do seminário e se desentenderam na hora do pagamento. Me parece que queriam receber mais, então é provável que tenha sido um ato de vingança”, declara Francisca.

A pioneira se recorda do dia em que o frei Bonaventura Einberger falou sobre a chegada de um médico alemão para ajudar os mais necessitados. “Explicou apenas que o médico, assim como ele, também participou da guerra. Como a gente era bem jovem, ninguém tinha coragem de perguntar demais. Além disso, o ‘frei Bona’ não gostava de comentar sobre a Alemanha do período nazista”, relata. Apesar do conhecimento básico de português, o médico não enfrentou nenhum problema no distrito, até porque nos anos 1950 muitos moradores de Graciosa se comunicavam mais em alemão do que em português.

Frei Bonaventura explicou apenas que o médico, assim como ele, também participou da guerra (Acervo: Francisca Schiroff)

Frei Bonaventura explicou apenas que o médico, assim como ele, também participou da Segunda Guerra Mundial (Acervo: Francisca Schiroff)

“Ele se vestia com simplicidade, acho que até para não chamar a atenção. Só que era fácil perceber que não era um médico comum”, avalia Francisca que certo dia foi até o seminário acompanhada da mãe para se consultar com o alemão de quem ninguém sabia o nome.

O médico demonstrava muita experiência profissional, tanto que soube lidar com todos os problemas de saúde dos pacientes. “As consultas com ele eram rápidas e quem não sabia alemão ia acompanhado de um intérprete. Me recordo que a primeira pergunta dele para a minha mãe foi: ‘Como está se sentindo?’”, cita a pioneira.

Polido, parcimonioso e reservado, o médico atendeu praticamente todas as famílias que viviam em Graciosa em 1954. Ainda assim, um fato curioso chamou a atenção dos moradores. O misterioso alemão não registrava prescrições médicas em papel nem pedia que alguém o fizesse para que ele apenas assinasse. “Era tudo falado, de boca mesmo”, garante Francisca Bruning Schiroff.

No distrito, o médico auxiliava o frei Bonaventura na distribuição gratuita dos medicamentos enviados da Alemanha pela Caritas Internacional, entidade de promoção e atuação social que trabalha na defesa dos direitos humanos, da segurança alimentar e do desenvolvimento sustentável solidário. “Eles também levavam remédios para o frei alemão Ulrico Goevert em Paranavaí. Era uma assistência muito boa. Realmente fazia a diferença”, pondera a pioneira.

Após ajudar muita gente em situação de carência social, um dia o homem partiu. A notícia foi lamentada pelos moradores de Graciosa. “Ele ficou mais ou menos um ano aqui. Ninguém sabe exatamente quando chegou nem quando foi embora”, confidencia Francisca. No distrito, o médico morou em um pequeno quarto no Seminário Imaculada Conceição. Poucas vezes foi visto em outros locais.

Lidia Selhorst reconheceu o médico como sendo Josef Mengele (Foto: Reprodução)

Lidia Selhorst reconheceu o homem como sendo Josef Mengele (Foto: Reprodução)

Alguns meses depois, Lidia Selhorst, esposa de Ludovico Selhorst, e também falecida, foi surpreendida ouvindo rádio, quando o locutor noticiou que estavam procurando o médico nazista Josef Mengele, conhecido como Todesengel, Anjo da Morte. A descrição era a mesma do médico que morou em Graciosa. “Falaram que o Mengele tinha inclusive uma cicatriz perto do pescoço. Quando ele se abaixou para prestar atendimento ao Ludovico, a Lidia viu essa cicatriz”, enfatiza Francisca Schiroff.

Como o frei Bonaventura Einberger foi enfermeiro da Wehrmacht, Forças Armadas da Alemanha nazista, até o final da Segunda Guerra Mundial, pode ser que eles tenham se conhecido anos antes. “Não dá pra afirmar até que ponto o ‘frei Bona’ o conhecia, mas a partida do médico foi suspeita. Acho que o frei ficou com medo de alguma coisa e recomendou que o homem partisse para outro lugar”, supõe a pioneira.

“Ele preferia crianças, gêmeos e anões”

Nascido em 11 de março de 1911 em Günzburg, na Alemanha, Josef Mengele se tornou um dos personagens mais famigerados da Segunda Guerra Mundial. Discípulo do geneticista Otman von Verschuer, com quem trabalhou em Frankfurt, Mengele tinha um doutorado em antropologia e outro em medicina.

Bonaventura Einberger, ex-enfermeiro da Wehrmacht, pode ter conhecido o médico muitos anos antes (Acervo: Francisca Schiroff)

Ex-enfermeiro da Wehrmacht, Bonaventura Einberger pode tê-lo conhecido muitos anos antes (Acervo: Francisca Schiroff)

Em 1937, ingressou no Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP) e se voluntariou para trabalhar na SS Medical Corps como pesquisador de genética no reassentamento da Província de Posen, na Polônia. O papel de Mengele consistia em preservar a pureza racial dos membros da Schutzstaffel (SS). Sendo assim, casamentos só eram aprovados após análises invasivas e estudos sobre a árvore genealógica da noiva.

Em 1942, enviaram Josef Mengele para atuar na Frente Leste como cirurgião da 5ª Divisão Panzer. Ferido em combate, teve de ser transferido para o Oeste. Na Alemanha, foi promovido a capitão e se juntou mais uma vez ao geneticista von Verschuer no Instituto Kaiser Wilhelm, onde se concentravam os maiores estudos de antropologia, hereditariedade e eugenia da Alemanha, temas com os quais Mengele se identificava muito.

No instituto, o médico seguiu uma hermética linha de pesquisa baseada na qualificação racial e limpeza étnica. O seu trabalho foi determinante na criação do Aktion T4, programa de eutanásia e esterilização voltado para a identificação de pessoas consideradas “inaptas a se reproduzir ou viver”.

Meses mais tarde, transferiram Mengele para a rede de campos de concentração de Auschiwtz-Birkenau, na Polônia. Com o apoio incondicional do governo alemão, realizou experiências com pessoas que ele mesmo escolhia e qualificava como fracas ou inúteis. Documentos do The National WWII Museum, de Nova Orleans, nos Estados Unidos, responsabilizam Josef Mengele pelo envio de 400 mil pessoas para as câmaras de gás dos campos de concentração. “Ele preferia crianças, gêmeos e anões, pessoas com quem ele fazia experiências sem qualquer tipo de remorso”, comenta o pesquisador e historiador estadunidense Tom Gibbs.

Tom Gibbs: "Ele fazia experiências sem qualquer tipo de remorso" (Foto: Reprodução)

Tom Gibbs: “Ele tinha o hábito de presentear crianças com leite e doces” (Foto: Reprodução)

Von Verschuer e outros cientistas receberam de Mengele muitos cadáveres, órgãos, esqueletos e amostras de sangue de crianças judias e ciganas. “Ele gostava de ‘cortejar’ suas vítimas, tanto que oferecia melhores condições de moradia e alimentação. Também tinha o hábito de presentear crianças com leite e doces”, relata Gibbs.

Em janeiro de 1945, após a evacuação de Auschwitz-Birkenau, Mengele percorreu alguns campos menores até ser capturado. Ficou preso na Alemanha até junho do mesmo ano, quando conseguiu fugir para a Argentina com um nome falso. Mais tarde, partiu para o Paraguai e depois se mudou para o Brasil. Supostamente, Mengele morreu afogado em 7 de fevereiro de 1979 em Bertioga, no litoral paulista. No entanto, até hoje há pesquisadores que refutam o motivo e a data da morte.

Enterrado no Cemitério do Rosário, em Embu das Artes, na grande São Paulo, Josef Mengele teve os ossos exumados em 1985, quando uma equipe de especialistas do Instituto Médico Legal (IML) de São Paulo e da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (USP) confirmou a sua identidade. Em 1992, foi feita uma ratificação por meio de análise em DNA.

Saiba Mais

Há inúmeros relatos de moradores de Graciosa e de Paranavaí que viram o médico caminhando sozinho pelo Bosque de Graciosa em 1954.

Mengele quando já estava vivendo na América do Sul (Foto: Reprodução)

Mengele quando já estava vivendo na América do Sul (Foto: Reprodução)

O que também despertou a suspeita dos moradores de Graciosa é que o misterioso alemão raramente circulava pela área central do distrito.

A 137 quilômetros de Paranavaí, pioneiros de Mamborê, no Centro Ocidental Paranaense, afirmam que Josef Mengele, usando o nome de Josef Kanat, trabalhou como médico no então distrito de Campo Mourão em 1956.

No mundo todo, o médico nazista inspirou livros, filmes, documentários, músicas e programas especiais para a TV. No Brasil, a obra mais conhecida é o filme “Meninos do Brasil”, de 1978. Em 2013, a cineasta argentina Lucía Puenzo lançou o filme “Wakolda”, também inspirado na vida do médico, principalmente em sua passagem pelo Sul da Argentina.

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“Ô Seu Luiz, quer comprar milho?”

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Uma história de furto de milho com crianças de três e nove anos

Luiz Carlos: "Achei o preço bom, até porque crio aves e preciso de milho para alimentá-las”

Luiz Carlos se arrependeu de alimentar as galinhas com o milho comprado por R$ 15 (Foto: David Arioch)

Há pouco tempo, o artista plástico Luiz Carlos Prates, morador da Vila Alta, na periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, estava trabalhando no atelier no fundo de casa quando ouviu alguém o chamando em frente ao portão. Foi ver quem era e se deparou com dois garotos sobre uma carroça cheia de sacos de milho. Um deles gritou: “Ô Seu Luiz, quer comprar milho?”

O artista perguntou o preço e o garoto respondeu que cada saco custava R$ 15. “Achei o preço bom, até porque crio animais e preciso de milho para alimentá-los”, explica. Satisfeito pelo bom negócio, Luiz Carlos ficou intrigado no dia seguinte quando os garotos retornaram oferecendo para a sua namorada, Lindinalva Silva Santos, que mora na casa ao lado, um saco de milho por R$ 5.

“Estranhei porque o preço mudou muito rápido de um dia pro outro. Não consegui ver lógica nisso, mas deixei passar”, comenta. No terceiro dia, os garotos apareceram novamente com uma carroça cheia de milho e ofereceram ao artista quatro sacos por R$ 15. “Depois dessa, não tive dúvida e falei pra eles: ‘Vocês tão furtando milho, né? De onde tá saindo todo esse milho que não acaba mais? Não adianta vir com conversa fiada, pode falar a verdade”, esbravejou Prates, preocupado com a procedência do cereal.

Os garotos entraram em conflito na hora de se justificar. Um falou que o milho foi repassado para revenda e o outro declarou que encontraram os sacos abandonados em uma mata não muito distante do bairro. “Sabia que era mentira porque conheço bem essa molecada. Pra você ter uma ideia, tinha tanto milho que eles ficaram uma semana vendendo. Repassaram o produto até pra outras pessoas comercializarem”, destaca.

Ao longo de sete dias, Luiz Carlos perdeu as contas de quantas carroças encontrou pelo bairro, guiadas por crianças que ofereciam sacos de milho para quem criava animais como galinhas, patos, porcos e cavalos. “Lá pra cima já ouvia a criançada gritando: “Olha o milho, olha o milho, olha o milho, baratinho, baratinho, baratinho”, relata.

Preocupado, o artista decidiu investigar a origem do produto. Descobriu que os dois garotos que lhe ofereceram o milho tinham invadido um depósito de cereais em uma fazenda nas imediações da Vila Alta. “O mais incrível é que eles tinham só nove anos. Fizeram um buraco na parede do depósito e a irmã de um deles, prestes a completar três anos, passou pela abertura e abriu uma das janelas para eles entrarem”, enfatiza. Enquanto furtavam o milho, a irmãzinha ficou na janela, à espreita, vendo se não aparecia ninguém.

Quando Luiz Carlos ainda não sabia a verdade, a garotinha viu o cereal na casa do artista e disse ao irmão: “Olha aqui, o tio Lú tem um saco de milho. A gente que pegou aquele dia, lembra? Igual aquele que você levou pra casa!” Evasivo, o garoto de nove anos retrucou: “Você tá enganada! Aquilo que levei pra casa era travesseiro, não era saco de milho não!”

Bravo com a situação e também por ter sido enganado, Luiz Carlos despejou todo o milho em um terreno baldio e reuniu todos os envolvidos na ação criminosa e na venda do produto. “Dei um sermão neles e expliquei que isso não se faz. É errado, é coisa de bandido”, lembra. Uma das ironias da história é que o milho despejado no terreno deu origem a um pequeno milharal abandonado que se desenvolveu sem qualquer cuidado ou supervisão.

Mais tarde, uma das crianças que articulou a invasão ao depósito contraiu sarna. Um dia, chegou até a casa do artista plástico com o corpo repleto por feridas. Sensibilizado, Luiz Carlos cuidou do garoto ao longo de uma semana. “Fui até a casa dele para conversar com a família. Me falaram que os pais dele tinham ido embora para uma Vila Rural. Quando expliquei para a avó que o caso do menino era grave, ela disse o seguinte: ‘Leva esse traste daqui. Pega ele pro senhor, não quero ele mesmo.’”

Surpreso, o artista foi informado que o garoto dormia fora de casa, no quintal, em companhia de diversos animais. Para convencer a criança a receber um tratamento diário à base de sal e limão, Luiz Carlos e a namorada, Lindinalva, prepararam lanches para alguns garotos do bairro a semana inteira. “É só oferecer comida que a criançada vem. Deu tudo certo e na semana seguinte ele sarou. Hoje o menino mora com os pais em uma Vila Rural”, revela o artista plástico.

Written by David Arioch

November 6th, 2014 at 6:50 pm

O dia em que Maria Norinha desafiou o patrão

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Maria Norinha na infância, quando vivia na área rural de Paranavaí (Foto: Acervo Familiar)

Maria Norinha na infância, quando vivia na área rural de Paranavaí (Foto: Acervo Familiar)

Maria Norinha tinha 13 anos quando morava em uma colônia a pouco mais de 20 quilômetros da área urbana de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Na época, trabalhava nos cafezais de um dos fazendeiros mais ricos da região. “Comecei na roça com sete anos. Com o tempo percebi que ganhavam muito dinheiro explorando a gente”, relata.

Em um dia de 1969, a jovem foi ao centro de Paranavaí e se apaixonou por um sofá que viu em uma loja. A viagem de retorno para casa foi percorrida a pé, mas com satisfação. “Coloquei na minha cabeça que iria comprar aquele sofá”, conta sorrindo. Quando chegou em casa, um ambiente simples com chão de terra batida, e que nunca acomodou um sofá, explicou ao pai que iria comprar o móvel, mas o homem não concordou e afirmou que o patrão também não concordaria.

Maria Norinha conversou com o fazendeiro e pediu que ele fosse o avalista da compra, justificando que se dedicava à sua roça de café há seis anos. Ainda assim, o sujeito recusou. Obstinada, Norinha foi até o Centro de Paranavaí a pé e comprou o sofá. Na hora da negociação, o gerente da loja disse: “Mas você precisa que o seu patrão seja o avalista. Será que ele vai fazer isso?”

A jovem respondeu: “Ele vai ter que concordar. A gente trabalha pra ele há muito tempo e até hoje não temos sofá em casa.” No dia, os moradores da colônia assistiram a chegada do caminhãozinho que trazia sobre a carroceria um sofá marrom de quatro lugares, cuidadosamente embalado.

Em meio aos olhares curiosos, Norinha pediu que o motorista fosse direto para a casa principal da fazenda, onde vivia o patrão. Chegando lá, mostrou ao fazendeiro que a compra já tinha sido feita e pediu que ele assinasse um documento, assumindo o compromisso como avalista. “Ele hesitou, fez cara feia, mas acabou cedendo”, lembra.

Maria Norinha ficou feliz com a compra. O problema depois foi lidar com a incompreensão do pai e a retaliação do patrão. Por causa do sofá, o fazendeiro a tratou mal por pouco mais de dois meses. “Como nossa casa não tinha piso, eu forrava a base do sofá com plástico e todos os dias o limpava com um pano molhado”, comenta, acrescentando que pagou sozinha pelo produto. O pagamento foi parcelado em 24 meses.

Naquele tempo, sofá era considerado um artigo de luxo na colônia, tanto que muita gente fez questão de ir até a casa de Maria Norinha para checar de perto o conforto do móvel. “Isso era normal numa época em que se ganhava mal e os colonos se endividavam com facilidade, principalmente nos armazéns mantidos pelos próprios patrões. O pagamento era tão ruim que meu irmão teve de trabalhar um ano pra comprar o sapato que ele tanto queria”, revela.

As famílias de colonos costumavam trabalhar de segunda a sexta para custear despesas básicas. Já o final de semana era dedicado aos “bicos” em outras lavouras. “A gente trabalhava sábado e domingo pra juntar um dinheirinho e comprar alguma roupa”, destaca.

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Written by David Arioch

November 4th, 2014 at 12:44 pm

Lurdinha: “Meu sonho era trabalhar em uma biblioteca”

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Em Paranavaí, Maria de Lurdes dedicou 26 anos à Biblioteca Júlia Wanderley

Lurdinha: “Sempre gostei tanto daquele lugar que eu até falava com os livros”

Lurdinha: “Sempre gostei tanto daquele lugar que eu até falava com os livros” (Foto: David Arioch)

Em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, até o dia 29 de setembro, uma segunda-feira, a rotina da auxiliar de serviços gerais Maria de Lurdes Sousa Silva era acordar às 5h30, chegar à Biblioteca Municipal Júlia Wanderley às 6h40 e preparar o café e o chá às 8h. Tradicionalmente, antes ouvia as notícias da Rádio Cultura e da Rádio Caiuá. “Meu expediente começava às 8h, mas eu fazia questão de chegar bem mais cedo”, comenta Lurdinha, como sempre foi conhecida no trabalho.

Aos 61 anos, a auxiliar de serviços gerais nunca deixou nada passar despercebido. Mesmo no último ano de trabalho, Lurdinha ainda tinha fôlego para limpar a biblioteca, a Fundação Cultural de Paranavaí e o Teatro Municipal Dr. Altino Afonso Costa. “Uma vez fiquei um mês sozinha. Fazia o café da biblioteca e da Fundação Cultural e ainda limpava tudo. Na hora do almoço, para adiantar o serviço, eu cuidava da limpeza dos banheiros”, relata.

A tarde de Lurdinha era dedicada ao Teatro Municipal Dr. Altino Afonso Costa. “Não saía de lá se não estivesse limpo como a minha casa. “Fazia com muito amor e carinho”, garante sorrindo e diz que não se esquece das vezes em que levou água fervendo da biblioteca para a Fundação Cultural. A intenção era ganhar tempo, deixar o cafezinho pronto o mais rápido possível.

Pontual em tudo que faz, Maria de Lurdes almoçava às 11h30, acompanhada da edição do dia do Diário do Noroeste. “Não abria mão disso. Eu ficava doente se não lesse o Diário”, brinca Lurdinha que se tornou muito querida no serviço, onde conheceu bastante gente e fez grandes amizades.

Maria de Lurdes: “Ficava curiosa em ver tanta diversidade nas estantes"

Maria de Lurdes: “Ficava curiosa em ver tanta diversidade nas estantes” (Foto: David Arioch)

Cita como exemplo do bom relacionamento o trabalho colaborativo na limpeza dos camarins do Altino Costa. “Uma colega sempre ajudava a outra, até porque ficamos bem amigas”, comenta e se emociona ao falar que considera os funcionários da Biblioteca Municipal Júlia Wanderley e da Fundação Cultural como parte de sua família.

Só na biblioteca, Lurdinha trabalhou 26 anos. Tudo começou em 1984, quando a Júlia Wanderley funcionava onde é hoje a Câmara Municipal de Paranavaí. “Pedi para a ‘dona Miriam’, mulher do ex-prefeito Pinto Dias, me transferir pra lá porque meu sonho era trabalhar em uma biblioteca. Eu não sabia o que era”, confidencia.

O pedido foi atendido e Lurdinha dedicou 18 anos à Júlia Wanderley. “Mais tarde, me transferiram para o Colégio Municipal Santos Dumont. Depois de quatro anos, voltei para a biblioteca, onde fiquei até me aposentar na semana passada”, explica.

Em tom nostálgico, se recorda com alegria dos tempos em que a Biblioteca Municipal funcionava na Rua Souza Naves, próxima ao Banco Real. “A gente recebia de 150 a 200 alunos por dia. Lá, eu tinha medo de entrar no cofre porque naquele lugar funcionou um banco e um dia um gerente se matou lá dentro por enforcamento”, relata.

Lurdinha passou mais tempo na biblioteca do que em qualquer outro lugar (Foto: Amauri Martineli)

Lurdinha passou mais tempo na biblioteca do que em qualquer outro lugar (Foto: Amauri Martineli)

Ao longo de dez anos, Lurdinha trabalhou aos sábados até as 12h. “Também trabalhei muitos domingos. Isso foi quando não havia internet e os estudantes iam para a biblioteca fazer pesquisas”, justifica e acrescenta que durante a semana a Júlia Wanderley, que chegou a ter dez funcionários, ficava aberta até as 22h para atender a demanda dos estudantes.

O ambiente fez Maria de Lurdes se apaixonar pela leitura. Além de ler nos intervalos, fazia questão de levar revistas e livros para casa. “Ficava curiosa em ver tanta diversidade nas estantes. Comecei a gostar de ler ainda na época das revistas Cruzeiro e Manchete”, destaca e conta que recentemente se encantou lendo o livro “O Menino do Dedo Verde”, do francês Maurice Druon.

Em pouco tempo, aprendeu muito sobre o acervo da biblioteca. Na ausência de alguma funcionária, os frequentadores da Júlia Wanderley tiravam dúvidas com a Lurdinha. “Sempre gostei tanto daquele lugar que eu até falava com os livros. Era uma terapia pra mim ficar em contato com eles”, assegura.

Por muitos anos, Maria de Lurdes Sousa Silva passou mais tempo na Biblioteca Municipal do que em qualquer outro lugar. “Era minha segunda casa. Agora estou numa tristeza muito grande por ter me aposentado. Ainda não me acostumei”, revela.

Casal tenta sobreviver com R$ 280 por mês

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Ivan e Rose moram em um dos poucos barracos que ainda restam na Vila Alta

A entrada do casebre é coberta por materiais recicláveis (Foto: David Arioch

A entrada do casebre é coberta por materiais recicláveis (Foto: David Arioch)

Nos anos 1970 e 1980, quem visitava a Vila do Sossego, atual Vila Alta, em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, se surpreendia com a quantidade de barracos de lona. Cada um, em média, abrigava quatro pessoas. Quando chovia, o desespero tomava conta. Todos tinham de passar a noite acordados e apoiados nas extremidades do barraco para evitar que ficassem descampados.

Com o tempo, o cenário mudou, e hoje o bairro tem poucas pessoas vivendo em situação de pobreza extrema, embora muitos ainda não ganhem o suficiente para viver com dignidade. “Antes a gente reclamava porque não tinha onde morar. Agora cada um pelo menos tem a sua casinha, mesmo que não seja boa”, diz a dona de casa Cristiane Santos França.

Circulando pelo bairro e conversando com os moradores, logo você é informado que muitas moradias só existem porque a comunidade se uniu para construí-las. Ainda assim, é um privilégio que não chegou a todos que vivem no bairro. O casal de catadores de recicláveis Rose Maria Santos e Ivan Cardoso Martins representa bem essa realidade.

Rose Santos: “É difícil porque a casa molha, né? E molha tudo” (Foto: David Arioch)

Rose Santos: “É difícil porque a casa molha, né? E molha tudo” (Foto: David Arioch)

Quem chega em frente ao terreno onde eles moram, nem imagina que ali existe uma “casa” de dois cômodos, com um banheiro improvisado no quintal. A entrada é coberta por materiais recicláveis, o único meio de subsistência de Rose e Ivan que dividem o espaço com cães e gatos, animais que recebem o mesmo tratamento de um filho.

Para entrar no casebre feito à base de materiais descartados na rua, preciso me abaixar para não bater a cabeça no batente fora de medida. O ambiente é escuro e pouco arejado. A luz entra somente por uma pequena janela que dependendo do horário do dia pode ser confundida com uma fresta. No interior do barraco, Rose sorri com timidez e me convida para sentar em uma poltrona bastante judiada, retirada próxima de uma sarjeta.

Nos cumprimentamos e ela me conta que é muito difícil viver nessa situação. Em uma olhadela, percebo que ali não existe nada que algum dia tenham comprado em uma loja. Está tudo muito desgastado. “É difícil porque a casa molha, né? E molha tudo. A gente não tem condições de fazer outra. Molha cozinha, quarto, pinga por tudo”, confidencia Rose visivelmente gripada e enxugando o rosto com um pedaço de pano.

Ivan Martins: “Quando a crise vem, parece que vou morrer. E pode ser que da próxima vez aconteça mesmo” (Foto: David Arioch)

Ivan Martins: “Quando a crise vem, parece que vou morrer. E pode ser que da próxima vez aconteça mesmo” (Foto: David Arioch)

Os móveis, que jamais seriam aproveitados por uma família de classe média, sofrem com a ação da chuva, se deteriorando rapidamente. Quando chove demais, a água arrasta a lama para dentro do casebre. A história se repete há 15 anos, desde que Rose e Ivan fizeram o barraco. “Tudo aqui foi feito por conta própria, juntando aos poucos”, enfatiza a catadora de recicláveis. Enquanto conversamos, escuto um gemido no quarto, cômodo que fica ao lado da sala-cozinha.

Lá, em meio a roupas velhas e objetos antigos, repousa o “Seu Ivan”, como é mais conhecido. Vítima de mal de Parkinson, passa por crises tão severas que há dias em que não consegue andar. Se obriga sempre a se apoiar em algo para evitar a queda, seja uma muleta, um andador ou o próprio carrinho de recicláveis.

Quando percebe a minha presença, Ivan se levanta de um colchão velho, sem roupa de cama, e com muito esforço consegue chegar até nós. Me cumprimenta, sorri e senta ao lado da mulher. Inicia a conversa informando que só não chove em cima do colchão porque conseguiram cobrir parte do casebre com um pedaço de lona doada. “Aí tem cada buracão de pedra que caiu. O madeiramento tá tudo budocando [embodocando]”, afirma.

Os itens no interior do barraco foram encontrados nas ruas de Paranavaí (Foto: David Arioch)

Os itens no interior do barraco foram encontrados nas ruas de Paranavaí (Foto: David Arioch)

“De vez em quando me dá uma tremedeira que nada segura. Não consigo manter nem o copo na mão”, declara com um olhar miúdo e um tom de voz calmo e pausado. Para minimizar o problema, o medicamento não pode faltar. Cardoso também sofre de hipertensão e tem enfisema pulmonar.

Com 61 anos, o homem foi castigado pelas precárias condições de vida. Quem o vê de perto, pensa que é bem mais velho. Mesmo doente, Ivan, assim como Rose, não pode parar de trabalhar. Juntos, eles saem todos os dias pouco antes das 8h e retornam só depois das 20h. São mais de 12 horas diárias de trabalho para lucrar 70 reais por semana, ou seja, 280 reais por mês.

“É o que a gente consegue quando não perde nenhum dia. Agora se ele ficar muito ruim, o ganho é menor”, garante Rose Santos. Entre uma tosse e outra, lembra que o marido sofreu dois infartos nos últimos oito anos. Nas ruas, nem todos respeitam o trabalho dos catadores de materiais recicláveis. Enquanto alguns contribuem, inclusive separando o material para o casal transportar, outros exigem que para recolhê-los é preciso levar também o lixo.

Seu Ivan se emociona quando se recorda da época em que carregava mais de 100 quilos no carrinho (Foto: David Arioch)

Seu Ivan se emociona quando se recorda da época em que carregava mais de 100 quilos no carrinho (Foto: David Arioch)

“Pegamos papelão, plástico, latinha, mas latinha rende pouco, né? Ferro também. O preço é de 10 centavos por quilo. Então tem que conseguir pelo menos 100 pra ganhar um dinheirinho”, explica Rose. Seu Ivan se emociona quando se recorda da época em que carregava mais de 100 quilos no carrinho. “Agora se você me chamar pra ir até o portão pegar dez quilos, não aguento porque não consigo levantar esse peso. Se colocar na cabeça, caio para o outro lado”, lamenta sem esconder a tristeza e o constrangimento. Com olhos marejados, revela que toma banho sentado ou com a ajuda de Rose.

Ivan Cardoso Martins trabalha desde a infância e até hoje não conseguiu se aposentar, seja por tempo de serviço ou pelas limitações impostas pela doença. Sem dia certo para aparecer, as crises podem acontecer com intervalo de dois dias ou até uma semana. “Quando vem, parece que vou morrer. E pode ser que da próxima vez aconteça mesmo”, comenta.

Ivan e Rose, que são facilmente vistos circulando pelas ruas centrais de Paranavaí, sonham em comprar materiais para construir dois ou três cômodos em frente ao barraco. “Se alguém pudesse ajudar, a gente ficaria muito feliz”, admite Ivan em declaração partilhada por Rose. Sem saneamento básico e energia elétrica, o casal parece alheio à realidade dos vizinhos e principalmente dos moradores do bairro ao lado, a Vila Operária.

O catador de recicláveis sofre de mal de Parkinson, enfisema pulmonar e hipertensão (Foto: David Arioch)

O catador de recicláveis também sofre de enfisema pulmonar e hipertensão (Foto: David Arioch)

Assim que agradeço a cordialidade e me despeço, Seu Ivan faz questão de me acompanhar até a entrada, se apoiando com muito esforço em um andador feito e doado pelo artista plástico Luiz Carlos Prates Lima. Apesar da vida de penúria e da invisibilidade social, o homem ainda preserva a sua fé e se despede com um gesto verbal de benevolência: “Muito obrigado pela visita. Vá com Deus, meu filho.”

Contribuição

Quem quiser contribuir com o casal, pode ligar para a Fundação Cultural de Paranavaí: (44) 3902-1128 ou (44) 9865-1391 e falar com Luiz Carlos.

“Com o artesanato, diminuí 90% do meu consumo de remédios”

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Vítima de bala perdida, Élcio Caetano aprendeu a lidar com a deficiência física por meio da arte

Caetano: "Gosto de trabalhar com produtos recicláveis e transformar o industrializado em artesanato" (Foto: David Arioch)

“Gosto de trabalhar com produtos recicláveis e transformar o industrializado em artesanato” (Foto: David Arioch)

Na próxima segunda-feira, às 23h35, completa dez anos que Élcio Caetano ficou paraplégico por causa de uma bala perdida. À época, passou mais de um mês tentando assimilar o que tinha acontecido. “Demorou pra cair a ficha e tive dificuldade em aceitar o fato de que nunca mais andaria”, diz o morador do Conjunto Dona Josefa, entre a Vila Operária e a Vila Alta, em Paranavaí, no Noroeste do Paraná.

Ainda em 2004, sem saber que rumo tomar, Caetano aceitou participar de um programa de terapia ocupacional por sugestão de uma vizinha. “Naquele estado, o ócio é perigoso porque a pessoa acaba tendo muitas ideias que não são saudáveis”, comenta Élcio que teve o primeiro contato com o artesanato em um curso para confecção de tapetes com saquinhos de leite. Foi amor à primeira experiência.

Quase dez anos depois, o que começou como uma terapia se transformou em um meio de sobrevivência. Hoje, Caetano é um especialista em aproveitamento e reutilização de materiais. “Gosto de trabalhar com produtos recicláveis e transformar o industrializado em artesanato”, comenta o artista que tem familiares e amigos que o incentivam. A irmã, por exemplo, costuma ir até a rua 25 de Março, em São Paulo, comprar acessórios e adereços para incrementar as peças de Élcio.

Outros parceiros são a Santa Casa de Paranavaí e Clínica Radiológica de Paranavaí que doam radiografias que o artista transforma em belas borboletas. “Também recebo contribuições de uma cooperativa de materiais recicláveis”, declara enquanto exibe algumas peças recém-confeccionadas e de alta qualidade. Élcio Caetano manipula dezenas de matérias-primas, criando peças únicas, tanto utilitárias quanto decorativas. “Faço vaso com cipó e arame, abajour com tampinhas de garrafa, além de coelho e cortina com garrafas pet”, enfatiza, embora tenha predileção pelo trabalho com sementes.

Faz quase dez anos que Élcio descobriu o talento para o artesanato (Foto: David Arioch)

Faz quase dez anos que Caetano descobriu o talento para o artesanato (Foto: David Arioch)

Com base na demanda, Élcio produz levando em conta as mudanças de clima e tempo. No frio, confecciona toucas, cachecóis, boinas e polainas. No calor, se dedica a fazer colares, pulseiras, arranjos de flores, cortinas e bolsas. “Tem muita gente que deveria experimentar uma atividade como essa. Dá uma satisfação imensa. Com o artesanato, diminuí 90% do meu consumo de remédios. E olha que quem tem paraplegia precisa tomar remédio até pra acordar, comer e dormir”, afirma, sem esconder a satisfação e a alegria de estar vivo e fazendo o que gosta.

Sobre a concorrência com produtos industrializados, o artista que trabalha até a hora de dormir não vê motivos para preocupação. “Existe espaço pra todo mundo. A vantagem do artesanato é que as peças são únicas. Uma nunca sai igual a outra. Então atrai quem busca um diferencial nesse sentido”, esclarece. Interessados em encomendar peças ou conhecer melhor o trabalho de Élcio Caetano, podem ligar para (44) 9725-2450.

A incursão dos Chicos

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Macacos-prego deixam o bosque para garantir a sobrevivência na área urbana

O primeiro Chico avaliando o território antes da incursão (Foto:

O primeiro Chico avaliando o território antes da incursão (Foto: David Arioch)

Perto das 11h, não é difícil perceber uma movimentação tímida, curiosa e rasteira na Rua Benedito Brambila, na Vila Operária. O cheiro de comida na panela faz dezenas de macacos-prego, que desde os anos 1990 receberam o nome de Chico, migrarem da então infrutífera mata do Bosque Municipal de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, para as casas mais próximas.

Nem o asfalto quente, capaz de grelhar um pão em tempo recorde, intimida um bando liderado por um macaquinho experiente que passa as coordenadas aos menores. Eles parecem treinados para ocuparem posições estratégicas na incursão pela área urbana. Por segurança, a maioria atua somente em grupo. Mantendo certa distância para não atrapalhá-los, registrei as ações de um bando de cinco Chicos.

Enquanto o mais alto, de pelagem um pouco acinzentada e olhos arregalados, avaliava o movimento na Rua Benedito Brambila, com o corpo ligeiramente oculto sobre um gramado íngreme, os demais, e aparentemente mais jovens, observavam o entorno, escondidos atrás de alguns carros no estacionamento do bosque. A autorização para atravessar a rua foi um sinal sonoro acompanhado de gestos ligeiros. Mesmo com alguns vizinhos conversando em frente uma das casas, o líder dos macaquinhos não hesitou. Talvez porque sejam pessoas com as quais se acostumaram depois de tanto tempo de visitas diárias.

Um dos macaquinhos corre sobre o telhado da casa de dona Maria (Foto: David Arioch)

Um dos macaquinhos corre sobre o telhado da casa de dona Maria (Foto: David Arioch)

Tão logo o primeiro macaco-prego apressou o passo sobre o asfalto, saltou em cima de um muro, correu e lançou-se sobre o telhado, os demais repetiram o percurso, como se fossem ensinados a seguir sempre o mesmo trajeto. Juntos, logo desapareceram por entre as casas onde o aroma que vinha da cozinha era mais acentuado. Parecia que sabiam em quais residências a comida ficaria pronta mais rápido. Ou seja, em cinco anos de três incursões diárias, se tornaram especialistas na “hora do rango”.

A primeira visita ocorre sempre das 6h às 7h30, seguida pela segunda – das 11h às 12h30, e a terceira – das 17h às 18h30. “Moro aqui faz 20 anos e eles começaram a vir aqui em casa com frequência tem dez. Só que a situação se intensificou mesmo há cinco anos”, conta o empresário Gilberto Serafim Matos que mora em frente ao Bosque Municipal e relata as peripécias dos macacos com um grande sorriso.

Parte do bando com o espólio do almoço (Foto: David Arioch)

Parte do bando com o espólio do almoço (Foto: David Arioch)

Hoje, os Chicos são quase membros da família, tanto que a liberdade chega a ponto de passarem bons momentos diários na casa do seu Gilberto, onde conhecem todos os cômodos. Lá, fuçam na TV e em outros aparelhos eletrônicos, deitam no sofá e pulam sobre as camas. Até mesmo as mamães que transportam as suas macaquinhas nas costas frequentam a residência e se dão o direito de abrir o armário e pegar um pacote de biscoito recheado.

Só que a liberdade no local exige um certo controle, até porque alguns animais são mais geniosos. A dona de casa Maria de Fátima Santos cita o episódio em que um Chico pegou o tapete da cozinha e ficou rolando sobre ele em frente ao portão. Só parou com a algazarra quando foi recompensado com um pedaço de pão. “Se não desse, acho que ele teria sumido com o tapete”, comenta. No bairro, entre os alimentos levados pelos Chicos estão arroz, feijão, carnes, frutas, pães, bolos, ovos, biscoitos, bolachas, chips, rações de gato e cachorro, manteiga, margarina, óleo e azeite.

Os macacos furtam ou roubam qualquer alimento ao alcance das mãos. Se a fome for muito grande, eles consomem no local. Do contrário, levam para o bosque e comem em cima das árvores. Um dia, um dos Chicos foi iludido pela própria fome quando furtou uma fruteira com alimentos de plástico. Inconformado, passou horas batendo as “frutas” contra o tronco da árvore, na ilusão de extrair algo comestível. “Eles adoram pão caseiro. Teve um que abraçou um do tamanho dele e sumiu em direção ao bosque”, lembra a dona de casa Maria José Rodrigues Barros que em outra oportunidade teve de interromper o café da manhã por causa de uma saraivada de pedras.

Hora de ser rápido para não ficar sem "rango" (Foto: David Arioch)

Hora de ser rápido para não ficar sem “rango” (Foto: David Arioch)

O ataque só cessou quando dona Maria os convidou à mesa. Embora não sejam muito exigentes quanto a comida, há alimentos que os Chicos odeiam tanto que fazem questão de urinar em cima. Exemplo é a horta de salsinha e cebolinha da dona Maria, um dos alvos prediletos da macacada. Novas histórias surgem a cada dia. Entre as mais recentes está a de um garoto que andava em frente ao bosque e teve o pacote de chips roubado.

Outra vítima foi o vizinho de dona Fátima. O rapaz chegou em casa com dois quilos de bife e minutos depois se surpreendeu com um bando correndo e rindo bosque adentro com a sacola de carne. Inusitado também foi o episódio em que levaram um gatinho preto para o topo de uma árvore, pensando que o animalzinho era filho de uma das macaquinhas do bando. “Eles fazem maldade também de vez em quando. Tem uns 15 dias que um grupo pegou o meu galo e o enforcou até matar. O bichinho não teve chance nenhuma”, revela dona Fátima.

Se tiver comida dentro, nem panelas, recipientes plásticos e canecas passam despercebidos. Muitos utensílios domésticos foram encontrados presos em galhos de árvores. “Daqui de casa, levaram até fatura de energia elétrica e água. Só tivemos certeza quando vimos os papéis balançando lá no bosque”, confidencia seu Gilberto. Uma vez a família de dona Maria pensou que a casa tivesse sido invadida por ladrões porque encontrou praticamente tudo revirado. Só descobriram mais tarde que a bagunça foi provocada pelos Chicos.

Um se distancia do grupo para beber azeite de oliva (Foto: David Arioch

Um se distancia do grupo para beber azeite de oliva (Foto: David Arioch)

“Agora é engraçado, mas não vou negar que na hora a gente fica com raiva e até ódio. Acontece sim. Só que ninguém judia porque sabe que estão nessa situação por falta de comida”, pondera dona Fátima. Outros vizinhos endossam a opinião da dona de casa. É fácil notar o carinho dos moradores da Vila Operária pelas dezenas de macacos que vivem no Bosque Municipal de Paranavaí. Espertos e persuasivos, os primatas conquistaram até a simpatia de gatos e cães da Rua Benedito Brambila. Chegam até a montarem a sobre alguns cachorros. “Até pitbull se acostumou com eles”, enfatiza dona Maria.

Os moradores já passaram por situações em que os Chicos levaram embora compras de alimentos que deveriam durar mais de um mês. E mais, beberam todos os ovos de uma casa invadida e depois fizeram caretas e riram dos moradores. “Eles sabem o que fazem. Então tem situações que gostam de provocar mesmo”, avalia dona Fátima antes de cair na gargalhada.

Nem se sente intimidado pela câmera (Foto: David Arioch)

Nem se sente intimidado pela câmera (Foto: David Arioch)

Outra curiosidade é que nas casas situadas no entorno do bosque não se vê sacos ou sacolas de lixo. A explicação é uma só – evitar bagunça. Seu Gilberto, por exemplo, esconde o lixo dentro de uma kombi até a hora da coleta. A macacada não dá trégua nem aos domingos. Dona Maria não se recorda quando foi a última vez que dormiu bastante no final de semana. Por volta das 6h, é sempre surpreendida por cinco ou seis Chicos correndo sobre o telhado. “O barulho é tão intenso que parece uma boiada passando”, exagera a dona de casa enquanto ri.

Preocupados com a situação dos macacos-prego do Bosque Municipal, os moradores do bairro são unânimes em afirmar que os animais passam fome há anos. Um reflexo dessa realidade é a imagem que registrei de um Chico bebendo azeite de oliva extravirgem. Uma solução para o problema pode ser a criação de uma parceria entre a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, responsável pelos animais e também pela manutenção do local, com supermercados, hipermercados e frutarias de Paranavaí. Sabemos que qualquer empresa do ramo recebe uma parcela de alimentos com aspecto comprometido, fora de condições de comercialização. Em vez de descartarem, eles poderiam destiná-los aos macacos. Neste caso, o papel da secretaria seria disponibilizar um veículo para o transporte dos alimentos.

Um homem marcado pela tragédia

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Quando a riqueza material ofusca a importância da vida

Paranavaí quando Hésio Azeredo viveu aqui uma sucessão de tragédias (Foto: Toshikazu Takahashi)

Paranavaí quando Hésio Azeredo viveu aqui uma sucessão de tragédias (Foto: Toshikazu Takahashi)

Na infância, meu avô me contou uma história que jamais esqueci. É sobre um homem que teve a vida transformada por uma sucessão de tragédias em 1958 e 1959. Até o ano passado, sempre me questionei se o que ouvi quando criança era verdade ou não. A confirmação chegou até mim há alguns meses, quando encontrei uma sobrinha do protagonista desta sinistra e pitoresca história.

Hésio Oscar Azeredo era um investidor de grandes posses que vivia com a família em uma fazenda a pouco mais de 20 quilômetros da área urbana de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Passava o tempo todo ocupado, tentando encontrar novas formas de multiplicar os lucros. Havia época em que dormia menos de três horas porque achava que repousar mais o impediria de alcançar seus objetivos. “Ele tinha uma boa família e era uma boa pessoa, mas colocava o dinheiro e a ambição acima de tudo”, diz a sobrinha Maria Aparecida Lorelli.

Hésio Oscar era filho único de um falecido casal de multimilionários que até as primeiras décadas do século XX administrava investimentos de capital estrangeiro no Brasil. Ainda jovem, já possuía propriedades rurais em sete estados, além de fazendas no Paraguai e Argentina. Algumas eram maiores do que muitas cidades do Brasil. Também investia em beneficiamento de grãos e cereais, telefonia e transportes fluviais. Era muito influente, tanto que na sua biblioteca particular, um ambiente inspirado no gabinete do presidente dos Estados Unidos – o Salão Oval, deixava em destaque uma grande foto em que aparecia ladeado pelo ex-presidente Dwight Eisenhower.

“A moldura do quadro era de ouro maciço. Poucas pessoas podiam entrar lá. Somente alguns familiares conheciam o lugar. Meu tio ainda pedia que por discrição ninguém falasse sobre o que viu lá dentro”, declara Maria que na infância e adolescência teve três oportunidades de visitar o local. Apesar do apego aos bens materiais, o investidor era considerado pelos empregados como um patrão rigoroso, mas justo. Fazia questão de acompanhar de perto todos os seus negócios. Ainda assim, muitos boatos se espalhavam sobre o Tymbara, apelido que um místico colono de origem kaingang deu a Hésio Azeredo. “Era o único índio da nossa turma. Ele inventou esse apelido e não explicou o significado. Só que ninguém nunca teve coragem de chamar o ‘Dr. Hésio’ de Tymbara, então isso ficava mais entre a gente”, comenta o ex-colono aposentado Inácio Durval Reis que naquele tempo era mais conhecido como Mizim.

Nos anos 1950, o investidor construiu um escritório inspirado em Eisenhower e no Salão Oval (Foto: Reprodução)

Nos anos 1950, o investidor construiu um escritório inspirado em Eisenhower e no Salão Oval (Foto: Reprodução)

Em 1957, já circulava entre os colonos um boato de que Azeredo se referia ao dinheiro como se fosse um tipo de deidade. “Falavam que ele tinha um altar cheio de dinheiro e que não saía de lá sem se ajoelhar e rezar pra ganhar mais um punhado a cada dia”, conta Mizim, acrescentando que talvez tenha sido apenas conversa fiada de gente à toa.

Há quem diga que uma cozinheira da fazenda jurou ter visto paredes forradas com notas de cem dólares em alguns dos cômodos da casa principal. “Todo mundo ouvia falar. Só que não conheço ninguém que testemunhou isso. Sei que tinha cômodos da casa que o ‘Dr. Hésio’ não permitia a entrada de ninguém, nem das empregadas”, enfatiza Reis. Embora as lembranças não estejam mais tão frescas na memória, Maria se recorda com carinho da tia Clara e dos primos Tadeu e Joaquim. “Eram bem espertos e adoravam correr pelo campo. Na fazenda, perto de uma bica de mina, tinha um morrinho coberto por uma grama bem verdinha onde eles adoravam escorregar e rolar. Às vezes eu e uma babá cuidávamos dos dois”, comenta.

Tadeu, de cabelos negros que chegavam a azular com a incidência do sol vespertino, era bem comunicativo e agitado. Já Joaquim, de cabelos loiros, era calmo e parcimonioso. Os dois sofriam de heterocromia. “Tadeu tinha um olho preto e um azul. Joaquim possuía um olho preto e um verde. Por causa disso, eu ficava sabendo de muitas bobagens ditas pelos mais ignorantes”, lembra Maria Lorelli. Hésio Azeredo pouco participava do cotidiano familiar. Assistia ao desenvolvimento dos filhos como um espectador desatento. Tinha o hábito de viajar antes do amanhecer, retornando apenas semanas mais tarde e normalmente de madrugada. A pressa era tanta que nem se despedia dos filhos. Se o lucro fosse muito alto e exigisse mais tempo fora de casa, não se importava em se ausentar por alguns meses. Uma vantagem é que o empresário sempre teve pessoas de sua confiança para garantir o bom andamento dos seus muitos empreendimentos.

Criado em uma família que há várias gerações se dedicava a multiplicar riquezas, Azeredo foi o primeiro a romper o ciclo, e não por vontade própria, mas por uma sucessão de acontecimentos que transformaram sua vida. Em dezembro de 1958, após uma séria discussão com o marido, Clara chamou os dois filhos e disse a eles que iriam passar alguns dias na casa da avó em Curitiba. “Ajudei eles a arrumarem as malas e os acompanhei até o aeroporto da família, onde um avião e um piloto estavam sempre à disposição”, relata Maria. No último momento, apesar da resistência em deixá-los partir, Hésio Oscar achou que contrariar a mulher poderia piorar a situação. No início da noite, se arrependeu amargamente ao receber a notícia de que o piloto Julião Martins Bastina sofreu um mal súbito e perdeu o controle da aeronave. O avião que caiu na região dos campos gerais foi encontrado por um caminhoneiro que viu uma criança ensanguentada acenando e gritando por socorro.

“A tia Clara, o Joaquim e o piloto não resistiram aos ferimentos. Acho que morreram na hora do impacto. O Tadeu sobreviveu por um milagre. Ele teve só escoriações e não precisou ficar internado”, destaca Maria Aparecida. A maior parte do sangue sobre o corpo do garoto era do irmão e da mãe que o envolveu nos braços instantes antes da queda. Pelo menos por dois meses após o enterro, a tragédia fez de Azeredo um homem incomunicável, agressivo e ostracista. Não tinha vontade de ver ninguém, nem mesmo o filho sobrevivente. Depois retornou à rotina sem avisar ninguém. E não aceitava que falassem das mortes da mulher e do filho, negando a si mesmo a partida dos dois, mesmo tendo participado da cerimônia fúnebre.

Avião com a mulher e os filhos de Hésio caiu nos Campos Gerais (Foto: Reprodução)

Avião com a mulher e os filhos de Hésio caiu nos Campos Gerais (Foto: Reprodução)

Sem saber como lidar com a vida pessoal, até mesmo esquecendo que tinha família, se afundou ainda mais em trabalho. Esqueceu muitas vezes que Tadeu continuava morando na mesma casa. “O pai dele tinha atitudes de alguém que perdeu tudo. Em vez de se basear naquele exemplo para mudar de vida, fez exatamente o contrário. Fiquei muito nervosa com a situação”, desabafa a sobrinha. Isolado por Hésio Oscar, Tadeu começou a agir como se o irmão Joaquim continuasse com ele. Maria Lorelli foi a primeira a perceber que o primo divagava e tinha alucinações. Parecia falar com outras pessoas, mesmo quando estava sozinho. Quem o via de longe, pensava que havia alguém acompanhando o garoto.

“Ele corria lá pelos lados das plantações. Se embrenhava no meio do cafezal e brincava de se esconder. Lembro que perguntei se tinha mais alguém com ele. Me respondeu que era o irmão. Achei que fosse uma traquinagem inocente, nem comentei com ninguém”, revela Mizim. Episódio semelhante se repetiu uma semana mais tarde, quando Tadeu estava sozinho no quarto, escondido e cochichando dentro do guarda-roupa. Com a insistência dos mais próximos, Azeredo concordou em procurar um tratamento psiquiátrico para o filho. Tadeu foi diagnosticado com transtorno do estresse pós-traumático. Mesmo com acompanhamento médico, o estado do garoto só piorou. Embora se preocupasse com a situação, Hésio preferia deixá-lo aos cuidados de familiares e empregados.

Um dia, quando se machucou ao saltar sobre uma cerca, a perna de Tadeu começou a sangrar. Ele se aproximou do pai e disse: “Por que o senhor não gosta de mim? É por que o que sai do meu corpo é um líquido vermelho sem valor? Mas e se fosse amarelo e brilhante como ouro?” Azeredo não respondeu. Surpreso, se calou e abraçou o filho, clamando por perdão. A cena foi testemunhada ao longe pela prima Maria. Na semana seguinte, três dias antes de completar 12 anos, Tadeu foi encontrado deitado na própria cama, abraçado a uma foto em que ele aparecia brincando com a mãe e o irmão. Havia um pequeno frasco de estricnina ao seu lado. Tadeu estava morto e com os olhos fechados, como se estivesse se preparando para dormir. Quando viu o filho de pijama e sem vida, Hésio saltou pela janela do quarto que ficava no andar superior. O impacto provocou apenas um corte na cabeça, escoriações e um desmaio que durou cerca de duas horas. Ao acordar, teve uma cefaleia intensa que desapareceu só no fim da noite.

Maria Lorelli tentou conversar com o tio sobre a necessidade de velar e enterrar Tadeu, mas Hésio não quis dialogar. Deixou claro que não precisava da ajuda de ninguém, assumindo o compromisso de fazer tudo sozinho. Só exigiu que dois empregados levassem um enorme refrigerador horizontal, que estava na maior despensa da casa, até um quarto ao lado do seu. Mandou que todos saíssem, tomou Tadeu nos braços e o carregou para a sua suíte. Chaveou a porta do quarto e disse aos familiares que retornaria em algumas horas. Antes que alguém fizesse alguma pergunta, entrou em um jipe Land Rover e desapareceu na escuridão, retornando antes do amanhecer, acompanhado de um húngaro misterioso e com um forte sotaque a quem chamava de Gazda. Transferiram Tadeu para o quarto ao lado da suíte e não permitiu que ninguém entrasse no local.

Modelo do jipe usado por Azeredo em 1959 (Foto: Reprodução)

Modelo do jipe usado por Azeredo em 1959 (Foto: Reprodução)

No dia seguinte pela manhã, Azeredo estava mais calmo e convidou parentes e amigos mais próximos para participarem de enterro do filho no cemitério particular da família. Estranharam a atitude porque Hésio nem mesmo havia planejado o velório. Por comiseração e até por medo de uma má interpretação, ninguém cogitou questioná-lo por não deixar ninguém ver Tadeu antes de fechar o caixão. Algumas das pessoas que participaram da cerimônia, segundo Maria Lorelli, comentaram que Azeredo parecia mais lúcido e provavelmente, após o rompante de desespero, logo entraria na fase de aceitação. Quando todos os parentes foram embora, Azeredo dispensou parte dos empregados, justificando que como estava sozinho não precisava mais de tantas pessoas trabalhando na casa principal. Maria insistiu em continuar com o tio por mais alguns dias, mesmo ciente de que talvez não fosse mais bem-vinda. “Desconfiei de algo estranho acontecendo porque o tal húngaro que ninguém conhecia ficou na casa quase uma semana. Além disso, ele não parecia o tipo de pessoa com quem o tio costumava negociar”, argumenta.

Algumas horas antes de Gazda partir, Maria o ouviu cochichando algumas palavras ininteligíveis a Hésio. Sem motivo para prolongar a estadia, a jovem partiu para Curitiba, onde ingressou no curso de medicina da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Nas férias, Maria sempre passava alguns dias na fazenda do tio para saber como ele estava e também para reviver lembranças do tempo em que ajudava a tia Clara e os primos Tadeu e Joaquim. Azeredo estava mais comunicativo e não viajava com muita frequência. Na realidade, raramente deixava a fazenda. A propriedade do empresário se tornou o seu mundo, tanto que as negociações diminuíram consideravelmente. Em 1962, apenas nove dos empregados continuaram trabalhando na propriedade. Era o suficiente para manter a operacionalização das atividades locais.

No final daquele ano, por intermédio dos pais, Maria ficou sabendo que Hésio, sem dar explicações, desfez de grande parte dos imóveis e empresas que possuía. Mas a surpresa maior veio em janeiro de 1963, quando Maria encontrou a fazenda abandonada. As plantações estavam morrendo e não havia ninguém no campo. Na casa principal, a sobrinha sentiu um forte mau cheiro vindo da cozinha, onde muitos alimentos estragaram há bastante tempo. Maria também se deparou com móveis cobertos por lençóis brancos. Nada disso pareceu tão estranho quanto uma bem disposta e linear trilha de notas de cruzeiro que começava no cemitério particular da família e terminava no quarto de Hésio Azeredo.

Maria Lorelli seguiu as notas e quando abriu a porta do quarto viu o tio deitado na cama abraçado com o filho Tadeu. Mesmo sem vida, o garoto estava com a aparência do dia em que foi encontrado morto. “Como participei do enterro dele três anos antes, pensei que eu estivesse louca. Até a expressão no rosto de Tadeu ainda era a mesma”, comenta. Após o susto, Maria viu que Hésio também estava morto. Ao lado do corpo, somente um frasco quase vazio de estricnina. Preocupada com a repercussão, a família de Maria evitou comentários e fez o possível para impedir que a história fosse divulgada. Até mesmo no registro de óbito consta que a causa da morte foi um ataque cardíaco. O caixão onde supostamente colocaram o corpo de Tadeu em 1959 sempre esteve vazio. O substituíram por outro e realizaram uma nova cerimônia fúnebre para pai e filho. Desta vez, com a participação de cinco pessoas. Antes de morrer, Hésio Azeredo deixou um testamento destinando 80% da fortuna para orfanatos, asilos e entidades sociais que cuidavam de crianças de rua.

O restante foi dividido entre sete familiares e dois irmãos de criação. Em um bilhete queimado no mesmo dia em que foi lido, Hésio explicou brevemente que o húngaro Gazda era um artista da matéria humana que lhe proporcionou, mesmo que por pouco tempo e com certo requinte ilusionista, se comunicar e se despedir do filho de uma maneira que ninguém jamais entenderia. Anos depois, Maria Lorelli ouviu novamente falar de Gazda em São Paulo. Então soube que o homem misterioso foi um dos mais revolucionários taxidermistas do Leste Europeu, onde trabalhou para czares, aristocratas e líderes socialistas. Se mudou para o Brasil nos anos 1940, fugindo da perseguição nazista aos ciganos.

Curiosidade

Tymbara é uma palavra de origem tupi-guarani que significa “aquele que enterra”.

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Uma vida dedicada à música

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Paulo Magalhães, um dos saxofonistas mais requisitados do Brasil nos anos 1960 a 1980

Paulo Magalhães com o Volume 8, de Roberto Leal, de quem foi parceiro por 13 anos (Foto: David Arioch)

Paulo Magalhães com o Volume 8, de Roberto Leal, de quem foi parceiro por 13 anos (Foto: David Arioch)

Em 1948, Paulo Magalhães Lima tinha seis anos quando saiu para comprar um doce com o pai. Naquele dia, dentre as opções por trás de uma vitrine, escolheu uma guloseima que veio colada a uma gaitinha. “Dei o doce a um colega e lambi o que sobrou em volta. Mesmo sem jamais ter tido contato com algum instrumento, toquei “Asa Branca” [de Luiz Gonzaga] e surpreendi meu pai”, conta.

Dias depois, muitos comerciantes de Itaguajé, no Noroeste do Paraná, o convidaram para tocar “Asa Branca” em troca de doces e presentes. O episódio transformou a vida de Paulo que descobriu a vocação para a música e se tornou um dos saxofonistas mais requisitados do Brasil nos anos 1960, 1970 e 1980.

A trajetória como músico começou muito cedo. Aos 13 anos, Paulão, como era mais conhecido no auge da carreira, tocou em seus primeiros bailes em Paranacity e Itaguajé, no Noroeste do Paraná, além de Porecatu, na divisa com São Paulo. “Não demorou e fiz meu primeiro carnaval em Guaraci [na região de Astorga]. Já toquei em 56 carnavais e o mais recente foi este ano aqui em Paranavaí e também em Goiás”, diz.

De 1950 a 1960, Paulo Magalhães se apresentou no Paraguai, principalmente em Coronel Oviedo, a 150 km de Assunção, com o respeitado grupo Los Ases del Ritmo. “Me desenvolvi como músico no quartel, na Banda do Primeiro Batalhão de Fronteira. Foi uma época boa porque saí de lá tocando melhor, lendo partitura e escrevendo, mas minha formação mais sólida veio do que aprendi nas boates e nas zonas”, afirma sorrindo.

A primeira experiência tocando em boate foi em Cascavel, no Oeste Paranaense, onde subiu no palco com Orestes, o primo trompetista. Naquele tempo, Paulão trocou a bateria pelo saxofone. “Lá, conheci o jazz e a bossa nova, os meus gêneros musicais preferidos”, garante. Mais tarde, morando em São Paulo, ao longo de dois anos fez shows em casas noturnas da Rua Augusta.

"Não posso reclamar. Tudo que fiz na vida foi muito especial, então só tenho a agradecer.”

“Não posso reclamar. Tudo que fiz na vida foi muito especial, então só tenho a agradecer.”

Na Boate Lancaster, considerada o templo musical da juventude paulistana, conheceu o célebre Hermeto Pascoal, de quem se tornou amigo nos anos 1960. Após o expediente, os dois reuniam alguns músicos para darem uma “palhinha” antes do dia amanhecer. “Foi o melhor momento da minha carreira. Nas boates, eu tocava o que gostava”, destaca. Em São Paulo, também se apresentou no icônico João Sebastião Bar, quando o local recebia artistas como Chico Buarque, Elis Regina, Cesar Camargo, Toquinho, Geraldo Vandré, Ana Lúcia, Claudette Soares, Pedrinho Mattar, Sambalanço Trio e Alaíde Costa.

Paulo Magalhães teve importantes passagens pela TV Tupi, Cultura, Bandeirantes e Record. Trabalhou com o diretor Luiz Aguiar e os maestros Osmar Milani e Edmundo Peruzzi. “Nos tempos da Tupi, toquei muito com o Manito, dos ‘Incríveis’, um clássico do rock brasileiro e da jovem guarda. Fiquei na TV até 1965, quando me mudei para Foz do Iguaçu”, relata. Lá, formou o grupo “Los Brasileños” que fez muito sucesso na Argentina.

No mesmo ano, Paulão trocou o clarinete pelo saxofone. De volta a São Paulo, entrou para a banda da famosa Boate Mugi, onde fez muitos shows com Martha Mendonça. Acostumado a se aventurar por novos projetos, voltou a Cascavel, onde a família morava, e fundou a banda Alta Tensão. “No final da turnê, larguei a banda e fiquei em Itumbiara, Goiás. Logo me chamaram para fazer parte da Orquestra da Chevrolet. Toquei com eles até 1968”, revela.

À época, as irmãs Nalva Aguiar e Norma Aguiar eram as cantoras da orquestra, até que Nalva foi convidada a fazer parte da banda do cantor Roberto Carlos. “Também recebi o convite. Trabalhei com ele até 1973, quando decidi ficar em Uberlândia, Minas Gerais. Um dia, me entregaram um recado do próprio Roberto Carlos me pedindo pra retornar, falando que precisava de mim. Não voltei porque não queria mais aquela vida”, declara.

Por causa da rotina atribulada, Paulo Magalhães enfrentou uma crise no casamento. E para piorar, mal tinha tempo para os dois filhos pequenos. “No fim, perdi a mulher e tive que cuidar das crianças”, enfatiza, deixando claro que até então não tinha vida pessoal, já que a banda fazia pelo menos 20 shows por mês.

Em 1977, se tornou o saxofonista do cantor português Roberto Leal, com quem trabalhou durante 13 anos e gravou 13 LPs. No auge da carreira, Paulão viajou por dezenas de países. Guarda muitas lembranças dos shows por todas as regiões do Brasil, além de Estados Unidos, Alasca, Bélgica, Canadá, Portugal, França, Inglaterra, Alemanha, Suíça, Luxemburgo, Áustria, Austrália e África do Sul. “Conheci muita gente e muitos lugares. Fiquei pertinho até de mafiosos italianos [prova o que diz mostrando uma foto]. Minha vida no Brasil só normalizou depois de 1990. Estava muito cansado e optei por sair da banda”, justifica.

Nos anos 1980, Paulão participou de trilhas sonoras de filmes. Um exemplo é “As Aventuras de Mário Fofoca”, de Adriano Stuart, lançado em 1982 e protagonizado por Cassiano Gabus Mendes. Na obra, o saxofonista aparece tocando, assim como no filme “O Milagre”, sobre a vida de Roberto Leal. Com muitas histórias para contar, Paulo Magalhães se recorda com carinho dos tempos de Mugstones.

Com a banda, um dos maiores clássicos do rock brasileiro dos anos 1960, gravou um LP, dois compactos e ficou em cartaz na Casa de Espetáculos Canecão, no Rio de Janeiro, por mais de seis meses. “Também fiz parte das bandas Flintstones, Fantômas, The Music of Society e muitas outras. Passei por diversos estilos musicais. Ainda me lembro de quando gravei alguns trabalhos com o Amado Batista”, acrescenta.

Embora não tenha lançado nenhum álbum solo, Paulão se orgulha de ter escrito pelo menos 100 músicas ao longo da carreira. Em Paranavaí e região, só para citar mais alguns nomes, integrou as bandas Condor, MR, Corpo e Alma, Cactus, Oásis, Santa Mônica e Fonte Luminosa. Lecionou na Casa da Cultura Carlos Drummond de Andrade e ensinou muita gente a tocar saxofone, trompete, clarinete e gaita.

“Não posso reclamar. Tudo que fiz na vida foi muito especial, então só tenho a agradecer”, comenta. Aos 72 anos, Paulo Magalhães continua na ativa, tanto como músico quanto professor de saxofone e trompete. Para entrar em contato com ele, basta ligar para (44) 9838-4581.

Frase de destaque

“Me tornei músico há muito tempo, mas ainda me considero um eterno aprendiz.”

Curiosidades

Paulo Magalhães Lima nasceu em Presidente Vensceslau, na região de Presidente Prudente, mas passou parte da infância e adolescência em Itaguajé, onde tocou bateria na Orquestra Continental de Itaguajé, sob regência do Maestro Lincoln.

Ao longo da carreira, Paulão teve o privilégio de conhecer Luiz Gonzaga, o homem que o inspirou na infância a tornar-se músico.