David Arioch – Jornalismo Cultural

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A triste realidade de quem vive no fundo da Vila Alta

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Seu Zé não está passando fome graças à sensibilidade de alguns moradores de Paranavaí

Seu Zé, ex-boia-fria, vive em situação precária no fundo da Vila Alta (Foto: David Arioch)

Seu Zé, ex-boia-fria, vive em situação precária no fundo da Vila Alta (Foto: David Arioch)

Ontem, conheci o ex-boia-fria José Rodrigues, de 67 anos, acompanhado do meu irmão Guimarães Jvnior. Ele mora na última rua da Vila Alta, de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, e vive em situação precária.

O idoso foi um dos beneficiados com os alimentos e produtos de higiene que algumas pessoas fizeram questão de doar após uma postagem minha no Facebook. Ele e a esposa não tinham nem o que comer em casa. Achei importante visitá-lo para mostrar a realidade dessas pessoas, provar que ainda há gente vivendo em situação de miséria.

Seu Zé, como é mais conhecido, não trabalha mais e tem sérias dificuldades para andar. Há alguns meses, ele ouviu sons de socos e chutes perto de sua casa e teve a impressão de ter escutado a voz de seu filho – achou que alguém estivesse o espancando.

Quando saiu para ver o que estava acontecendo, um rapaz o empurrou com força e ele caiu violentamente no chão. Desde então, Seu Zé, que vive com a esposa também idosa, se esforça para se manter em pé e luta para voltar a andar sem apoio.

Faço questão de agradecer Renata Cerezuela, Roseli Debarba, Amira Teotonio, Elza Pavao, Dirce Kühl e Márcia Nakamura pelas valiosas contribuições. Agradeço também a Rose Pedro pelas várias doações desde dezembro. Esse trabalho não seria possível sem a boa vontade dessas pessoas sensíveis. E tenho certeza que outros também contribuíram, embora eu não saiba quem são. Muito obrigado!

Written by David Arioch

January 17th, 2016 at 5:34 pm

Ivan & Rose fecha a trilogia Realidade da Periferia

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Além da miséria extrema,  o casal convive com graves problemas de saúde (Foto: David Arioch)

Além da miséria, o casal convive com graves problemas de saúde (Foto: David Arioch)

Lançado hoje no YouTube, o documentário Ivan & Rose fecha a trilogia da série Realidade da Periferia. O curta-metragem faz parte de um trabalho que iniciei no ano passado na Vila Alta, um dos bairros mais pobres de Paranavaí, no Noroeste do Paraná.

O filme aborda a história dos catadores de materiais recicláveis Ivan Martins e Rose Santos que vivem em um barraco construído há 20 anos na Vila Alta, na periferia de Paranavaí. No local, um ambiente escuro e pouco arejado, a mobília se resume a itens já deteriorados e retirados da sarjeta. Quando chove, é difícil se abrigar da água que invade o barraco, arrastando até a lama da rua e do quintal.

Além da situação de pobreza extrema, o casal é obrigado a lidar com graves problemas de saúde. Ivan, que já sofreu acidente vascular cerebral (AVC), infarto e convive com um enfisema pulmonar, só é capaz de se manter em pé quando se apoia sobre o carrinho que ele chama de “cadeira de rodas”.

Rose é epilética, tem labirintite e problemas severos na coluna vertebral. Quando é acometida por alguma crise, chega a ficar dias acamada. Apesar disso, o casal continua na luta, coletando recicláveis que garantem um lucro semanal de R$ 70. Enquanto Rose se responsabiliza pela coleta, Ivan guia o carrinho. “O papelão podia render pelo menos 25 centavos por quilo. Pra gente ter uma vida razoável, né?”, reclama Rose.

Ivan & Rose é um documentário cru, sem artificialismos, que integra uma trilogia que inclui os filmes Oficina do Tio Lú e Vila Alta.

O homem que sobreviveu a três tentativas de assassinato

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Nebrão: “Dei como certa a minha morte. Ouvi só o barulho acionado pelo gatilho, mas a bala não veio”

Na Vila Alta, quem ingressa no crime precisa de sorte para chegar aos 25 anos (Foto: David Arioch)

Na Vila Alta, quem ingressa no mundo do crime precisa de sorte para chegar aos 25 anos (Foto: David Arioch)

Quem conversa com o pacato Nebrão, de 33 anos, não imagina que ele já foi um dos homens mais perseguidos da Vila Alta, na periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Comunicativo e de fala mansa, hoje se orgulha da vida tranquila e também de ter evitado que crianças e adolescentes entrassem ou continuassem no mundo do crime.

“Saí desse caminho errado graças a Deus. Já fui ladrão sim. Também me envolvi em outras coisas erradas. Não posso negar meu passado, mas me distanciei dessa vida sem futuro”, garante enquanto exibe inúmeras cicatrizes, principalmente marcas de facadas. De origem pobre e sem estrutura familiar, Nebrão é um raro exemplo de sobrevivência, ainda mais levando em conta que no bairro onde foi criado quem se torna criminoso precisa de sorte para chegar aos 25 anos.

O rapaz perdeu muitos amigos de infância e adolescência nos anos 1990, quando uma onda de terror tomou conta do bairro. Naquele tempo, a Vila Alta era conhecida como Vila do Sossego. “Muita gente foi pra debaixo da terra e outro monte pra cadeia. Era bandido matando bandido. É até difícil citar uma rua onde não morreu ninguém na época”, afirma. Os assassinatos no bairro sempre tiveram relação com o narcotráfico ou rixas entre facções do crime organizado. “Aqui é bem tranquilo para quem não se envolve com essas coisas, mas o ‘bicho pega’ se tu seguir a vida do crime e der mancada”, garante e cita o exemplo de um garoto de 13 anos que morreu após levar um tiro na cabeça enquanto estava escorado sobre um tanque, bebendo água da torneira.

Nebrão: "Difícil era citar uma rua onde não morreu ninguém” (Foto: David Arioch)

Os assassinatos no bairro sempre tiveram relação com o narcotráfico ou rixas entre facções do crime organizado (Foto: David Arioch)

O adolescente foi morto porque furtou uma trouxinha de drogas. A tolerância é zero, tanto com quem tenta enganar algum traficante quanto com quem consome e não paga pelo produto. “A quantidade nunca interessa. Pra eles, o mais importante é impor medo e respeito, mostrar que a punição é mortal”, enfatiza. Enquanto converso com Nebrão, ele faz questão de caminhar alguns passos e me mostrar onde três adolescentes foram executados porque “cresceram os olhos” sobre os lucros do chefe. “Quem se envolve com a bandidagem tem que respeitar também a lei do crime”, explica.

Por muito tempo, Nebrão foi conhecido como o maior “ladrão de água e de energia elétrica da Vila Alta”, atividade que depois lhe trouxe problemas com a Companhia Paranaense de Energia (Copel), Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) e polícia militar. Autodidata, se tornou uma espécie de mestre das gambiarras. “Só de olhar, eu sabia o que tinha de fazer. Por R$ 35, eu resolvia o problema de qualquer um. Só ficava sem água ou sem luz quem quisesse”, lembra e acrescenta que já atendeu cerca de 1/3 do bairro.

Famoso pelo serviço rápido, o rapaz desde cedo demonstrou talento em montar e desmontar objetos. Chegou a ser contratado para furtar pontes de córregos. “Dependendo do tamanho, ele não precisava nem de uma hora para desmontar e levar embora”, garante um amigo que entre sorrisos testemunha a conversa. Envolvido com furtos, roubos e receptação de mercadorias desde a adolescência, Nebrão declara que só está vivo porque Deus quis assim. “Quem tem um histórico parecido com o meu não vive muito. Sou um sobrevivente”, garante.

Nebrão falando dos anos 1990: "Difícil era citar uma rua onde não morreu ninguém” (Foto: David Arioch)

Nebrão falando dos anos 1990: “Difícil era citar uma rua onde não morreu ninguém” (Foto: David Arioch)

O rapaz tem motivos para pensar assim. Perdeu as contas de quantas noites dormiu sem saber se acordaria. Uma vez atearam fogo em sua casa de madrugada. Nebrão percebeu o incêndio a tempo e escapou da morte, apesar dos prejuízos materiais. “Comecei a ser perseguido porque um cara delatou dois traficantes e deu o meu nome como se fosse o dele. Ele queria me ‘ferrar’”, revela.

Quando tudo parecia ter voltado à normalidade, Nebrão foi surpreendido na rua por dois homens armados. No momento da execução, apesar da insistência dos atiradores, nenhum dos revólveres disparou. “Dei como certa a minha morte. Ouvi só o barulho acionado pelo gatilho, mas a bala não veio. Corri e vieram no encalço com pedaços de pau. Tentaram me derrubar golpeando minhas pernas. Não caí por milagre e consegui escapar mais uma vez”, confidencia o rapaz que é alto e corpulento, o que também pode ter ajudado na fuga.

As histórias de Nebrão são confirmadas por outros vizinhos que se aproximam para ouvir a conversa. Apesar das tentativas de homicídio, continuou no bairro, próximo da família e dos amigos. Mais tarde, um conhecido apareceu na casa do rapaz e gritou: “Ô, nego, chega aí. Quero falar contigo, é papo reto, coisa rápida.” Em seguida, a irmã de Nebrão disse: “Tenha fé, meu irmão. Deus me disse que hoje você vai amarrar o diabo.”

Quando abriu o portão, o sujeito apontou o revólver para Nebrão que começou a orar enquanto mantinha os olhos fixos sobre o atirador. “Ele abaixou a arma, chorou e disse que não aguentava mais aquela vida. Decidiu se entregar para a polícia”, relata Nebrão que em diversas situações foi perseguido por falsas denúncias de delação de traficantes.

Naquele dia, o homem enviado para matar Nebrão já tinha assassinado cinco pessoas na periferia de Paranavaí. Preocupado com o futuro, Nebrão se distanciou do crime, parou de beber, fumar e se tornou evangélico. Admite que atualmente ganha pouco para sobreviver, mas está feliz por não dever nada a ninguém. “É um dinheiro honesto. Quando a situação aperta, trabalho até na roça nos finais de semana”, assegura.

Hoje, se empenha em fazer alguma diferença na vida de crianças e adolescentes que se tornam ladrões ou ingressam no mundo das drogas. “‘Mando a real’ na molecada. Explico que esse caminho não traz nada de bom. É uma ilusão, e se continuar nele vai morrer sem aproveitar a vida. Aos traficantes e ladrões que conheço, peço pra não oferecer droga nem serviço pra eles. O que posso fazer é aconselhar e pedir”, comenta Nebrão que já conquistou bons resultados com essas ações.

Saiba Mais

Nebrão é um apelido fictício para preservar a identidade do entrevistado.

Vivendo na Vila Alta

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Garotos de 12 anos contam histórias sobre o cotidiano em um dos bairros mais pobres de Paranavaí

A Vila Alta também é um dos bairros mais marginalizados de Paranavaí (Foto: David Arioch)

Vila Alta, um lugar onde crianças passam por situações surpreendentes (Foto: David Arioch)

No último sábado, passei a tarde toda na Vila Alta, um dos bairros mais pobres e isolados de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Foi o suficiente para ouvir muitas histórias sobre a realidade de cinco garotos de 12 anos.

Enquanto brincavam, chamei a atenção de um e perguntei se sabia o significado do símbolo na camiseta que ele vestia. Respondeu negativamente com a cabeça e sanei sua curiosidade explicando que era o logotipo da banda cristã de metalcore (uma mistura de heavy metal com hardcore) Devil Wears Prada, dos Estados Unidos.

Quando questionei sua idade, hesitou um pouco, mas contou que tem 13 anos. O amigo ao lado o corrigiu, dizendo que são 12 anos. “Vixi, você não sabe nem sua idade!”, repreendeu. O garoto que vou chamar de R. para preservar a sua identidade justificou que nunca viu os próprios documentos. “Fica tudo com minha vó, ela que sabe dessas coisas”, se defendeu enquanto coçava a cabeça.

R. continuou falando e ressaltou que foi jogado na rua pela mãe quando tinha três anos. “Ela me batia muito, não gostava de mim. Quem me tirou da rua foi minha avó. Se não fosse por ela, eu ainda ‘tava’ lá”, garante. V. aproveita a confidência do amigo para revelar que seu pai sempre bate na sua mãe. Por isso, hoje só dorme na casa da avó. “Não consigo mais dormir com eles. Não durmo em nenhum outro lugar, só na minha avó”, enfatiza.

R.: "O que mais aparece é gente chamando pra roubar alguma coisa ou vender drogas" (Foto: David Arioch)

R.: “O que mais aparece é gente chamando pra roubar alguma coisa ou vender drogas” (Foto: David Arioch)

R., que abandonou a escola, assim como outros dois garotos de uma turma de cinco amigos, já passou muito tempo nas ruas. Com nove anos, além de usuário de drogas, se tornou “laranja” do narcotráfico. “Eu roubava [furtava] também. Um dia, a gente ‘passou a mão’ em uns canos de alumínio e levamos pra uma dona de um ferro-velho. Falamos que a Copel [Companhia Paranaense de Energia] descartou tudo no “Lixão”. Era mentira. A polícia veio atrás e a gente teve de correr”, explica. As histórias de R., contadas com singela inocência e peculiar ausência de noção moral, são confirmadas por um adulto que o conhece há mais de três anos.

Acostumados a passar bastante tempo fora de casa, é costume os garotos retornarem ao convívio familiar tarde da noite. “Fico na casa do V. até as 22h. Tem época que vou embora só pra dormir”, relata R. O tempo livre é ocupado jogando bola, matando passarinhos e brincando no bosque ou em uma área conhecida como “Barragem”.

O costume de matar animais não domésticos surgiu com a fome, mas acontece também de algumas crianças fazerem isso sem justificativa aparente. “Parei porque não é legal”, comenta A. O mais intrigante é que a maneira como falam sobre o assunto não demonstra crueldade, e sim falta de referência entre certo e errado, o que é permitido ou não.

É proeminente o desconhecimento sobre a importância da vida animal. Dois garotos disseram que raptaram filhotes de quati e diversas vezes perseguiram outros animais no Bosque Municipal de Paranavaí apenas por diversão. Esse tipo de situação é incentivada pelas atitudes dos mais velhos. Exemplo é um episódio protagonizado por um pai de família que aproveitou um incêndio no bosque para matar quatro macacos-prego em fuga. Um vizinho denunciou que o homem cozinhou, assou e comeu os animais, acompanhado da mulher e dos filhos.

“Aí já aconteceu de tudo. Teve uma época que a gente vivia fumando maconha lá dentro” (Foto: David Arioch)

“Aí já aconteceu de tudo. Teve uma época que a gente vivia fumando maconha lá dentro” (Foto: David Arioch)

“Aí já aconteceu de tudo. Teve uma época que a gente vivia fumando maconha lá dentro”, salienta R. enquanto aponta em direção a um buraco feito com alicate na cerca lateral do bosque. W. aproveita a “deixa” do amigo para confidenciar que há dois anos testemunhou um assassinato na “Barragem”. “Vi uma turma matando um cara com golpes de ferro de portão. Só me falaram pra sair de lá”, garante. O local é citado pelos moradores mais velhos como uma área neutra, onde facções criminosas resolviam desavenças e se livravam de cadáveres.

Curioso, um garoto ainda mais jovem e que não faz parte da turma pergunta se estou entrevistando eles. Respondo que sim e pede para escrever que o sonho dele é ter duas armas, andar de “carrão” com uma mulher no colo e ir pra “zona” tomar pinga. “É isso que quero pra minha vida”, complementa sorrindo.

Na sequência, R. lembra que há pouco tempo achou no “Lixão” um saco de balas de revólver. “Só tinha bala vermelha”, afirma. Da turma de cinco amigos, M. é o único que não reprovou na escola e se orgulha do feito, considerado raro entre os garotos do bairro que têm a mesma faixa etária. Muitos crescem sem incentivo para estudar.

Não é tão incomum encontrar crianças se alimentando de restos no Lixão (Foto: David Arioch)

Não é incomum encontrar crianças se alimentando de restos no “Lixão” (Foto: David Arioch)

“Falam que é bobeira, que estudar não vai dar em nada. Tem pai até que proíbe de ir pra escola”, assegura R. que mal sabe ler e escrever. Também é preocupante o quadro de analfabetismo funcional. Na Vila Alta, muitas crianças leem, mas poucas assimilam o aprendizado a ponto de explicar o que entenderam. Para reforçar o problema, cito como exemplo outra ocasião em que entrevistei dez garotos e seis disseram que estudaram em sala especial.

Em contraponto, é fácil perceber que muitos jovens do bairro são espertos e tem dons que não são aproveitados ou estimulados. Crentes de que o futuro dificilmente vai melhorar, acabam aceitando o convite para ingressar no mundo do crime. “O que mais aparece é gente chamando pra roubar alguma coisa ou vender drogas. Às vezes, você decide roubar porque ‘tá’ com fome”, destaca R., acrescentando que tem crianças do bairro que passam o dia na rua procurando algo pra comer, principalmente as que vivem a dura realidade do abandono ou ausência familiar.

Um dia, me deparei com uma criança no fim da Vila Alta, no “Lixão”, sentada sobre uma placa de “vende-se”, comendo restos de comida descartados por um restaurante do Centro de Paranavaí. Ela parecia não se incomodar com a presença de um urubu se alimentando da carniça de um cachorro a alguns metros de distância. Me aproximei, dei algum dinheiro, ela agradeceu assustada e foi embora. Moradores das imediações me informaram que essa cena não é incomum. “A sua intenção foi boa, mas pode acreditar que isso não vai acabar assim. Precisamos de muita ajuda aqui”, avalia a dona de casa Maria Cândida de Oliveira.

Casal tenta sobreviver com R$ 280 por mês

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Ivan e Rose moram em um dos poucos barracos que ainda restam na Vila Alta

A entrada do casebre é coberta por materiais recicláveis (Foto: David Arioch

A entrada do casebre é coberta por materiais recicláveis (Foto: David Arioch)

Nos anos 1970 e 1980, quem visitava a Vila do Sossego, atual Vila Alta, em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, se surpreendia com a quantidade de barracos de lona. Cada um, em média, abrigava quatro pessoas. Quando chovia, o desespero tomava conta. Todos tinham de passar a noite acordados e apoiados nas extremidades do barraco para evitar que ficassem descampados.

Com o tempo, o cenário mudou, e hoje o bairro tem poucas pessoas vivendo em situação de pobreza extrema, embora muitos ainda não ganhem o suficiente para viver com dignidade. “Antes a gente reclamava porque não tinha onde morar. Agora cada um pelo menos tem a sua casinha, mesmo que não seja boa”, diz a dona de casa Cristiane Santos França.

Circulando pelo bairro e conversando com os moradores, logo você é informado que muitas moradias só existem porque a comunidade se uniu para construí-las. Ainda assim, é um privilégio que não chegou a todos que vivem no bairro. O casal de catadores de recicláveis Rose Maria Santos e Ivan Cardoso Martins representa bem essa realidade.

Rose Santos: “É difícil porque a casa molha, né? E molha tudo” (Foto: David Arioch)

Rose Santos: “É difícil porque a casa molha, né? E molha tudo” (Foto: David Arioch)

Quem chega em frente ao terreno onde eles moram, nem imagina que ali existe uma “casa” de dois cômodos, com um banheiro improvisado no quintal. A entrada é coberta por materiais recicláveis, o único meio de subsistência de Rose e Ivan que dividem o espaço com cães e gatos, animais que recebem o mesmo tratamento de um filho.

Para entrar no casebre feito à base de materiais descartados na rua, preciso me abaixar para não bater a cabeça no batente fora de medida. O ambiente é escuro e pouco arejado. A luz entra somente por uma pequena janela que dependendo do horário do dia pode ser confundida com uma fresta. No interior do barraco, Rose sorri com timidez e me convida para sentar em uma poltrona bastante judiada, retirada próxima de uma sarjeta.

Nos cumprimentamos e ela me conta que é muito difícil viver nessa situação. Em uma olhadela, percebo que ali não existe nada que algum dia tenham comprado em uma loja. Está tudo muito desgastado. “É difícil porque a casa molha, né? E molha tudo. A gente não tem condições de fazer outra. Molha cozinha, quarto, pinga por tudo”, confidencia Rose visivelmente gripada e enxugando o rosto com um pedaço de pano.

Ivan Martins: “Quando a crise vem, parece que vou morrer. E pode ser que da próxima vez aconteça mesmo” (Foto: David Arioch)

Ivan Martins: “Quando a crise vem, parece que vou morrer. E pode ser que da próxima vez aconteça mesmo” (Foto: David Arioch)

Os móveis, que jamais seriam aproveitados por uma família de classe média, sofrem com a ação da chuva, se deteriorando rapidamente. Quando chove demais, a água arrasta a lama para dentro do casebre. A história se repete há 15 anos, desde que Rose e Ivan fizeram o barraco. “Tudo aqui foi feito por conta própria, juntando aos poucos”, enfatiza a catadora de recicláveis. Enquanto conversamos, escuto um gemido no quarto, cômodo que fica ao lado da sala-cozinha.

Lá, em meio a roupas velhas e objetos antigos, repousa o “Seu Ivan”, como é mais conhecido. Vítima de mal de Parkinson, passa por crises tão severas que há dias em que não consegue andar. Se obriga sempre a se apoiar em algo para evitar a queda, seja uma muleta, um andador ou o próprio carrinho de recicláveis.

Quando percebe a minha presença, Ivan se levanta de um colchão velho, sem roupa de cama, e com muito esforço consegue chegar até nós. Me cumprimenta, sorri e senta ao lado da mulher. Inicia a conversa informando que só não chove em cima do colchão porque conseguiram cobrir parte do casebre com um pedaço de lona doada. “Aí tem cada buracão de pedra que caiu. O madeiramento tá tudo budocando [embodocando]”, afirma.

Os itens no interior do barraco foram encontrados nas ruas de Paranavaí (Foto: David Arioch)

Os itens no interior do barraco foram encontrados nas ruas de Paranavaí (Foto: David Arioch)

“De vez em quando me dá uma tremedeira que nada segura. Não consigo manter nem o copo na mão”, declara com um olhar miúdo e um tom de voz calmo e pausado. Para minimizar o problema, o medicamento não pode faltar. Cardoso também sofre de hipertensão e tem enfisema pulmonar.

Com 61 anos, o homem foi castigado pelas precárias condições de vida. Quem o vê de perto, pensa que é bem mais velho. Mesmo doente, Ivan, assim como Rose, não pode parar de trabalhar. Juntos, eles saem todos os dias pouco antes das 8h e retornam só depois das 20h. São mais de 12 horas diárias de trabalho para lucrar 70 reais por semana, ou seja, 280 reais por mês.

“É o que a gente consegue quando não perde nenhum dia. Agora se ele ficar muito ruim, o ganho é menor”, garante Rose Santos. Entre uma tosse e outra, lembra que o marido sofreu dois infartos nos últimos oito anos. Nas ruas, nem todos respeitam o trabalho dos catadores de materiais recicláveis. Enquanto alguns contribuem, inclusive separando o material para o casal transportar, outros exigem que para recolhê-los é preciso levar também o lixo.

Seu Ivan se emociona quando se recorda da época em que carregava mais de 100 quilos no carrinho (Foto: David Arioch)

Seu Ivan se emociona quando se recorda da época em que carregava mais de 100 quilos no carrinho (Foto: David Arioch)

“Pegamos papelão, plástico, latinha, mas latinha rende pouco, né? Ferro também. O preço é de 10 centavos por quilo. Então tem que conseguir pelo menos 100 pra ganhar um dinheirinho”, explica Rose. Seu Ivan se emociona quando se recorda da época em que carregava mais de 100 quilos no carrinho. “Agora se você me chamar pra ir até o portão pegar dez quilos, não aguento porque não consigo levantar esse peso. Se colocar na cabeça, caio para o outro lado”, lamenta sem esconder a tristeza e o constrangimento. Com olhos marejados, revela que toma banho sentado ou com a ajuda de Rose.

Ivan Cardoso Martins trabalha desde a infância e até hoje não conseguiu se aposentar, seja por tempo de serviço ou pelas limitações impostas pela doença. Sem dia certo para aparecer, as crises podem acontecer com intervalo de dois dias ou até uma semana. “Quando vem, parece que vou morrer. E pode ser que da próxima vez aconteça mesmo”, comenta.

Ivan e Rose, que são facilmente vistos circulando pelas ruas centrais de Paranavaí, sonham em comprar materiais para construir dois ou três cômodos em frente ao barraco. “Se alguém pudesse ajudar, a gente ficaria muito feliz”, admite Ivan em declaração partilhada por Rose. Sem saneamento básico e energia elétrica, o casal parece alheio à realidade dos vizinhos e principalmente dos moradores do bairro ao lado, a Vila Operária.

O catador de recicláveis sofre de mal de Parkinson, enfisema pulmonar e hipertensão (Foto: David Arioch)

O catador de recicláveis também sofre de enfisema pulmonar e hipertensão (Foto: David Arioch)

Assim que agradeço a cordialidade e me despeço, Seu Ivan faz questão de me acompanhar até a entrada, se apoiando com muito esforço em um andador feito e doado pelo artista plástico Luiz Carlos Prates Lima. Apesar da vida de penúria e da invisibilidade social, o homem ainda preserva a sua fé e se despede com um gesto verbal de benevolência: “Muito obrigado pela visita. Vá com Deus, meu filho.”

Contribuição

Quem quiser contribuir com o casal, pode ligar para a Fundação Cultural de Paranavaí: (44) 3902-1128 ou (44) 9865-1391 e falar com Luiz Carlos.

Oficina do Tio Lú

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Uma viagem por um universo de abnegação

"Tio Lú" mostra que não é preciso muito dinheiro para fazer a diferença (Fotos: Reprodução)

“Tio Lú” mostra que não é preciso muito dinheiro para fazer a diferença (Fotos: Reprodução)

Lançado no início da semana, Oficina do Tio Lú é o meu mais novo trabalho audiovisual. Parte da série “Realidade da Periferia”, o documentário conta a história do artista plástico Luiz Carlos Prates Lima, de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, que se dedica a recuperar crianças e adolescentes em situação de risco.

Na Vila Alta, um dos bairros mais pobres da cidade, Luiz Carlos, que está sempre enfrentando dificuldades financeiras, deixa de lucrar para ensinar os mais jovens a criarem obras de arte a partir das mais diferentes fontes de matéria-prima.

A oficina do artista fica no fundo da própria casa, onde ele faz crianças e adolescentes se distanciarem do mundo das drogas, da fome e da miséria. Oficina do Tio Lú é uma viagem por um universo de abnegação. Na obra, Tio Lú mostra que não é preciso muito dinheiro para fazer a diferença em um mundo cada vez mais consumista e materialista.

Ficha Técnica

Roteiro e Direção: David Arioch

Colaboração: Jesus Soares

Trilha Sonora: Crash Nomada, Racionais MC’s, Ney Matogrosso e Cólera

Fotos: David Arioch, Gugu Ditzel e Arquivo Pessoal de Luiz Carlos Prates Lima

Personagens: Luiz Carlos Prates Lima, Jesus Soares, Paulo José Zanelato Silva, Lindinalva Silva Santos, Maria de Fátima Oliveira, Danilo Medeiros França, Lucas Antônio Souza Silva, Odair Correa Junior, Gustavo Jesus Souza, Vagner Souza Santos, Weder França Melo, Kelvin Santos Melo, Ariel Gonçalves Souza, Robson Silva, João Paulo Rodrigues Alves e Juvenal Ferreira Silva.

Duração: 46 Minutos

A (des)conhecida pobreza branca dos EUA

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Gummo aborda a miséria e a defasagem intelectual dos chamados white trash

Solomon e Tummler são dois adolescentes que ganham a vida matando gatos (Foto: Reprodução)

Solomon e Tummler são dois adolescentes que ganham a vida matando gatos (Foto: Reprodução)

Personalidade do cinema marginal estadunidense, Harmony Korine lançou em 1997 um filme que chamou a atenção do mundo. Intitulado Gummo, o drama de caráter documental apresenta o universo perturbador e miserável dos brancos pobres dos EUA. São pessoas que vivem à margem da sociedade, conhecidas pejorativamente como white trash.

Gummo conta a história de Solomon (Jacob Reynolds) e Tummler (Nick Sutton), dois adolescentes de Xenia, Ohio, que ganham a vida matando gatos, depois vendidos a um restaurante chinês. A partir dos protagonistas, reféns da mediocridade humana, Korine mostra outros personagens, igualmente degradantes, em fragmentos bem estruturados e angustiantes.

Embora no decorrer do filme haja uma progressão de perspectivas e aberturas para contextualizações, o cineasta faz questão de destacar que os personagens estão fechados em um mundo minúsculo e peculiar, onde predominam os sentimentos coletivos de conformismo e desesperança. Em uma das cenas mais pesadas de Gummo, um jovem desempregado fala naturalmente sobre as possibilidades do suicídio enquanto a câmera se move com certa inquietação.

Gummo mostra o conformismo e desesperança dos brancos pobres (Foto: Reprodução)

Gummo mostra o conformismo e desesperança dos caucasianos pobres (Foto: Reprodução)

Harmony Korine explora isso como um desdobramento das consequências sociais da economia e da política estadunidense que há muito tempo priorizam as classes mais altas. E como resultado da falta de oportunidades, a pobreza intelectual é abordada de forma crua e ríspida, sem qualquer resquício de sentimentalismo. Há momentos em que os personagens dialogam aleatoriamente e com um vocabulário tão limitado, falho e errado que beira ao nonsense.

Para quem está acostumado a acompanhar apenas a cultura cinematográfica de Hollywood, é difícil acreditar que o filme de Korine se passa nos EUA, pois abre as portas de um universo tão marginalizado e nauseante quanto as periferias das nações mais pobres do Terceiro Mundo. Em Gummo, o conceito de beleza é distorcido pelo referencial de proximidade. Os habitantes desse universo particular aprendem, por força da convivência, a admirar o feio, o que é enaltecido pelas tomadas com lentes objetivas de grande-angular.

No filme, a degradação oscila do campo material ao imaterial (Foto: Reprodução)

No filme, a degradação oscila do campo material ao imaterial (Foto: Reprodução)

Duas cenas representam com precisão e minimalismo o objetivo do autor. Na primeira, um mundo caótico é representado pela natureza por meio de um tornado. Na segunda, a desordem no interior da casa de Solomon ressalta o caos humano. Ou seja, em grande ou pequena proporção, nada naquele universo aspira à civilidade. Com exceção da atriz Chloe Sevigny, o filme tem um elenco formado por desconhecidos, até mesmo atores amadores e pessoas comuns, o que faz o autor ultrapassar as barreiras do cinema tradicional para estreitar a relação com a realidade.

Harmony Korine mistura ficção, documentário e videoarte numa produção baseada em filmagens que exploram desde equipamentos profissionais até os mais compactos e domésticos. Quem sabe, uma referência ao Dogma 95 do dinamarquês Lars Von Trier. Há ainda algumas quebras de movimentos propondo rupturas de contexto. Exemplos são as situações em que vídeos são substituídos por fotos, neutralizando a ação da trama e apresentando um panorama mais descritivo.

Outro elemento interessante de Gummo é a trilha sonora que capta a essência de cada cena, migrando do campo claro ao ruidoso, sustentada em composições de músicos dos gêneros clássico, bluegrass, folk, powerviolence, stoner rock e metal extremo. Apesar de ainda ser um cineasta pouco conhecido no Brasil, Harmony Korine começou a ganhar espaço no cinema estadunidense muito cedo. Em 1994, aos 21 anos, escreveu o roteiro do filme Kids, do cineasta Larry Clark, que obteve grande sucesso de crítica e público.

Le Salaire de La Peur e a poesia da degradação humana

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Filme aborda a mercantilização da vida em uma missão suicida

Imigrantes europeus aceitam a missão de transportar nitroglicerina pelas precárias estradas do Terceiro Mundo (Foto: Reprodução)

Imigrantes europeus aceitam a missão de transportar nitroglicerina pelas precárias estradas do Terceiro Mundo (Foto: Reprodução)

Obra-prima do cineasta francês Henri-Georges Clouzot, Le Salaire de La Peur, que chegou ao Brasil tardiamente sob o título O Salário do Medo, conta a história de quatro imigrantes europeus contratados por uma companhia petrolífera dos EUA para transportar uma carga de nitroglicerina pelas estradas precárias de um país do Terceiro Mundo.

Quando Le Salaire de La Peur foi lançado em 1953, a França vivia o apogeu do existencialismo de autores como Jean-Paul Sartre, Albert Camus e Georges Arnaud, pensadores que influenciaram Henri-Georges Clouzot a criar um filme que mostra homens como indivíduos desorientados em um mundo cada vez mais caótico e aberrante, onde os valores são deglutidos pela esperança de sobrevivência.

Na história, Mario (Yves Montand), Bimba (Peter Van Eyck), Luigi (Folco Lulli) e Jo (Charles Vanel) são personagens desgastados pela miséria que vivem no vilarejo de Las Piedras, onde decidem mercantilizar a vida em uma missão suicida que pode render dois mil dólares a cada um. Os quatro são contratados por uma empresa estadunidense de petróleo para garantir que um carregamento de nitroglicerina chegue ao destino.

Clouzot emociona com cenas influenciadas pelo realismo poético (Foto: Reprodução)

Clouzot emociona com cenas influenciadas pelo realismo poético (Foto: Reprodução)

Embora a missão seja na Guatemala, o filme de Clouzot deixa claro que a história poderia se passar em qualquer país de Terceiro Mundo, onde a dominação econômica dos EUA é quase sempre proeminente, deixando graves consequências como a degradação social e o esgotamento dos recursos naturais.

Ironicamente, em um dos diálogos da obra, o personagem Mario parece visualizar tanto o presente quanto o futuro quando diz: “Onde tem petróleo, tem americanos.” Além de fazer severas críticas ao capitalismo, mostrando que ninguém sofre mais com as ações dos países ricos do que as nações subdesenvolvidas, o cineasta francês ainda consegue emocionar o espectador com uma estética baseada no realismo poético.

Logo na abertura, somos introduzidos por uma criança a um mundo de insetos mergulhados em uma poça de lama, metáfora que amarra toda a trama de Le Salaire de La Peur. Muitas cenas como a mencionada se repetem no decorrer do filme, transmitindo um sem-número de mensagens que flertam com o niilismo.

São imagens capazes de instigar reflexões e emoções conflitantes. Também é interessante a forma como Henri-Georges Clouzot aborda a perda da identidade dos personagens. Sem sobrenomes, se atêm a pequenos sonhos e devaneios de um dia se encontrarem novamente como parte de um algo concreto.

Quando o Khmer Vermelho fez milhões de vítimas no Camboja

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Empresário foi uma das milhões de vítimas do Angkar

A reforma política do Khmer Vermelho culminou em genocídio, miséria e fome (Foto: Reprodução)

A reforma política do Khmer Vermelho culminou em genocídio, miséria e fome (Foto: Reprodução)

Entre os anos de 1975 e 1979, o Camboja, no sudeste asiástico, foi governado pelo Khmer Vermelho, como era mais conhecido o Partido Comunista do Kampuchea (Angkar), uma organização política com o compromisso de promover de Norte a Sul do país uma nova engenharia social baseada na reforma agrária e autossuficiência. O problema é que a tentativa foi ineficaz, resultando em fome e miséria para a maior parte da população do Camboja.

Inocentes eram executados em sítios nas imediações de Phnom Penh (Foto: Reprodução)

Inocentes eram executados em sítios nas imediações de Phnom Penh (Foto: Reprodução)

Nesse período, muitos morreram vitimados por doenças que já tinham cura, como a malária, enquanto muitos outros, considerados opositores do governo, foram torturados e executados pelo Khmer Vermelho. Uma das vítimas do genocídio colocado em prática de 1976 a 1978 pelo Partido Comunista foi o empresário do ramo de transportes Kara Doung Sisowath.

De acordo com o cientista político cambojano Chanto Doung Sisowath, Kara Sisowath foi um dos milhões de alvos da política de genocídio do Khmer Vermelho. “Até hoje não consigo entender a razão da execução do meu pai e de todos os outros compatriotas. Ele não era um homem engajado na política, muito menos criminoso. Pelo pouco que me lembro, se tratava de um homem de família, assim como a maior parte dos cambojanos”, afirma Chanto Doung que era criança na capital Phnom Penh, quando o pai foi executado pelo Khmer Vermelho.

A ditadura do Angkar afetou milhões de cambojanos (Foto: Reprodução)

A ditadura do Angkar afetou milhões de cambojanos (Foto: Reprodução)

Entre 1970 e 1975, o chefe de família dos Sisowath recebeu muitos convites para deixar o país e começar uma nova vida longe da guerra civil que levaria o Khmer Vermelho ao poder. “Ele era patriota e não quis abandonar o Camboja e desistir da sua empresa de transportes. Meu pai disse que continuaria aqui porque ao final da guerra queria ajudar na reconstrução do país. Infelizmente, o seu patriotismo não foi recebido com gratidão”, declara Chanto Sisowath.

Logo as atitudes do empresário foram interpretadas como suspeitas pelo Partido Comunista que não acreditava nas boas intenções de pessoas sem ligação com o Khmer Vermelho. Kara Sisowath foi preso em 1978 e enviado para interrogatório. Um homem chamado Met Chan, conhecido como um contumaz inquiridor, conta que certo dia levaram Sisowath para fora de uma cabana, onde o arrastaram e o espancaram por todo o caminho, até chegarem ao sítio de execuções.

Crianças tiveram de aprender a conviver com a morte (Foto: J. Isaac)

Crianças tiveram de aprender a conviver com a morte (Foto: J. Isaac)

Antes de ser assassinado, o empresário foi algemado e jogado em um porão que ficava em um antigo templo abandonado, com outros três homens. Nenhum dos prisioneiros recebeu comida por dias. Sisowath estava com o rosto inchado e coberto por hematomas. Muitas de suas costelas foram quebradas pelos violentos golpes diários que o fizeram perder a consciência e a capacidade de articular palavras.

O empresário chegou a um ponto de sofrimento que não conseguia mais se mover, nem mesmo pedir por clemência. “Na última vez que falou, ele perguntou pela esposa, filho e filha. Imaginei que estivesse preocupado com a família, mesmo quase morto”, confidencia Met Chan que envergonhado pelo próprio passado começou a denunciar as práticas criminosas do partido em 1985.

Pol Pot e Leng Sary, dois dos maiores criminosos da História do Camboja (Foto: Reprodução)

Pol Pot e Leng Sary, dois dos maiores criminosos da História do Camboja (Foto: Reprodução)

Dois dias após o último interrogatório, Kara Sisowath recebeu três golpes com hastes de metal na parte de trás da cabeça. Met Chan preferiu não falar se o empresário morreu naquele momento ou se agonizou por mais algum tempo. “Meu pai foi morto em julho de 1978, cinco meses antes dos vietnamitas invadirem o Camboja e libertarem os prisioneiros do Khmer Vermelho. Hoje em dia, faço questão de ser uma das vozes que falam ao mundo sobre as atrocidades da política do Angkar [como os cambojanos se referiam ao Partido Comunista do Kampuchea]”, enfatiza emocionado o filho e cientista político Chanto Sisowath.

Durante o domínio do Khmer Vermelho, milhões de cambojanos perderam familiares e amigos. A maioria dos que viveram esse período tem problemas psicológicos e precisam de acompanhamento médico. “Ainda somos uma população assustada”, admite Chanto Doung. Muitos cambojanos talentosos, principalmente intelectuais, optaram por deixar o país, mesmo com o fim da política Angkar, o que foi muito negativo para o Camboja.

O que o Partido Comunista do Kampuchea fez, sob a liderança de Pol Pot e Leng Sary – dois dos maiores criminosos de guerra do país, jamais deve ser ignorado. “É uma lição monumental para as gerações futuras. Que o mundo evite mais dessas atrocidades, mas ao mesmo tempo nunca as esqueça”, ressalta o cientista político.

Curiosidades

Ex-líderes do Khmer Vermelho, Pol Pot e Leng Sary morreram de ataque cardíaco. O primeiro em 15 de abril de 1998 e o segundo em 14 de março de 2013.

Os crimes praticados no Camboja pelo Khmer Vermelho inspiraram a banda de punk-rock Dead Kennedys, uma das mais politizadas do gênero nos EUA, a compor o clássico Holiday In Cambodia, lançado em 1980.

“Sempre vejo os meninos vendendo drogas”

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Luiz Carlos Prates fala sobre a realidade dos jovens da Vila Alta

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Prates é um artista que recupera menores em situação de risco (Fotos: David Arioch)

Morador da Vila Alta, um dos bairros mais pobres de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, o artista plástico gaúcho Luiz Carlos Prates há mais de 15 anos acompanha de perto tudo que acontece na comunidade, onde desenvolve um trabalho de recuperação de menores em situação de risco. Para Prates, a única forma de livrar os jovens do narcotráfico é fazendo um intenso trabalho social.

“Seu Luiz”, de 82 anos, como é mais conhecido, costuma circular com frequência pelas ruas da Vila Alta. Só em um sábado à tarde, contabilizou 13 crianças comercializando crack. “Sempre vejo os meninos vendendo drogas. É comum virar passador, bode expiatório, testa de ferro ou laranja. Mas a parte mais triste é que o destino deles nesse caminho é a cadeia ou a morte”, diz. No bairro, há casos de adolescentes com 15 anos que já se envolveram tanto com o narcotráfico que não se imaginam desempenhando outra atividade.

Prates relata com tristeza o exemplo de um adolescente para quem estava dando lições de artesanato. “Em 2011, passei por uma fase difícil e tive que interromper as aulas voluntárias por alguns dias para fazer algumas peças pra vender. Quando retomei a oficina, o menino sumiu. Fui procurar ele e descobri que um ‘traficante já tinha tomado conta’”, lamenta.

No bairro, é grande a quantidade de crianças e adolescentes fora das escolas. Muitos não têm pais e são criados pelos avós, segundo informações dos moradores da Vila Alta. “Não têm estrutura familiar e ficam disponíveis ao mundo das drogas”, avalia uma das lideranças do bairro, a catadora de recicláveis Maria de Fátima Oliveira que quando caminha pela Vila Alta sempre se depara com restos de drogas nas ruas, principalmente saquinhos de plástico com vestígios de crack.

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Maria de Fátima conta que sempre encontra vestígios de drogas nas ruas

Seu Luiz, que coordena um grupo de 12 crianças e adolescentes, afirma estar feliz por tê-los livrado do mau caminho, embora ressalte que ainda há muito trabalho a ser feito. “De todas as crianças que cuido hoje, a maioria não tem pai e mãe em casa. Mas o problema maior é que aqui no bairro não são poucos os jovens envolvidos com drogas que são filhos de desempregados, ladrões, prostitutas, traficantes e viciados”, comenta.

Como o bairro é distante da região central, o consumo de narcóticos começou por volta de 1980, de forma discreta e restrita. Mas a situação se agravou, tanto que muitas crianças conhecem a forma e o cheiro da droga. Os 12 alunos do artista plástico são um exemplo. “O meu neto de oito anos também identifica com facilidade quando estão usando alguma coisa”, complementa Maria.

L.F.B, de 10 anos, que em função da alimentação deficiente aparenta ter de sete a oito, já experimentou cola de sapateiro, tiner, éter, maconha, crack e cocaína por influência de falsos amigos. “Quando conheci não sabia nem o nome certo dos produtos. Não ‘tô’ mais nessa onda não, mas conheço muita gente que ‘tá’”, declara enquanto desvia os olhos e ajeita o boné surrado sobre a cabeça.

Luiz Carlos: "A Vila Alta sempre foi abandonada pelo poder público"

Luiz Carlos: “A Vila Alta sempre foi abandonada pelo poder público”

Seu Luiz se recorda do episódio em que um garoto estava trabalhando em uma cooperativa de recicláveis quando denunciaram ao Conselho Tutelar. “Foram até o local, tiraram o menino de lá e advertiram a cooperativa. Não apresentaram nenhuma solução, tanto que pra ganhar algum dinheiro hoje o garoto vende drogas em frente a própria casa”, relata.

Para as lideranças do bairro, até os anos 1990, a participação do Conselho Tutelar e de outras autoridades era mais efetiva. A criança ou adolescente com problemas era obrigado a assinar um documento em que se comprometia a mudar, recebendo todo o acompanhamento necessário. “Este lugar sempre foi abandonado pelo poder público. Falo da Vila Alta, não da Vila Operária. As pessoas precisam aprender a diferenciar os bairros”, desabafa Luiz Carlos Prates e sugere que o primeiro passo seja educar os moradores da Vila Alta.

O boia-fria Jurandir Oliveira defende que pessoas de outros bairros e cidades costumam cometer crimes e se refugiarem na Vila Alta. “É triste porque fica a impressão de que faz parte da comunidade, o que não é verdade. Nem tudo que acontece de ruim na cidade deve ser atribuído a nós. É injusto”, reclama.

Curiosidade

A Vila Alta tem pouco mais de três mil moradores.