David Arioch – Jornalismo Cultural

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Archive for the ‘Reflexão’ tag

Reflexões sobre política – III

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Written by David Arioch

February 6th, 2018 at 5:42 pm

Reflexões sobre política – II

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Written by David Arioch

February 6th, 2018 at 5:41 pm

Reflexões sobre política – I

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Written by David Arioch

February 6th, 2018 at 5:40 pm

Posted in Política,Reflexões

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Me coloque para entrevistar um presidente, eu não o tratarei melhor do que eu trato um andarilho

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Ilustração: Adrian Ball

Você pode me colocar para entrevistar um presidente, eu não o tratarei melhor do que eu trato um andarilho que me relata suas andanças. Posso ter a oportunidade de entrevistar um dos meus escritores preferidos, eu o admirarei e o tratarei com respeito, mas não dispensarei um tratamento melhor do que aquele que dou a um anônimo pioneiro aposentado contando-me histórias da sua juventude. Acredito que uma das coisas mais equivocadas das nossas relações sociais são as “atribuições especiais” de tratamento que damos a alguém simplesmente pela “posição que ocupa na sociedade”.





 

Written by David Arioch

February 5th, 2018 at 2:14 pm

O que você pensa sobre as desigualdades sociais?

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Acervo: Escola Kids

Não é muito difícil descobrir ou pelo menos inferir o que uma pessoa pensa sobre as desigualdades sociais. Basta questioná-la sobre o que ela acharia de um mundo baseado em igualdade; onde uns não seriam absurdamente mais ricos do que outros. Até mesmo a hesitação, a expressão, pode dar um indicativo da resposta. Você já pensou sobre isso?

Estaria tudo bem para você não ter mais dinheiro do que os outros? Mais coisas do que os outros? Não poder se exaltar de suas aquisições materiais? E simplesmente porque o que você tem o outro também tem? Ou pelo menos ter o direito de ter se ele quiser. Ou imagine então um mundo onde as pessoas não dariam a mínima para coisas, porque coisas são basicamente o que são – em muitos casos, produtos aos quais atribuímos mais valor pelo que nos custam, pela exceção, pelo distanciamento que existe entre elas e os outros, do que pelo que são em um sentido funcional ou mesmo hedonista.

A ausência de distinção baseada no poder econômico ou no “acúmulo de coisas que não são acessíveis para uma maioria” possivelmente exigiria do ser humano um esforço intelectual para se destacar, levando em conta que platitudes como “o que eu tenho que você não tem” não chamaria mais a atenção, e simplesmente porque o ter, materialmente, talvez fosse relegado à insignificância, ou pelo menos à adiáfora. Nesse contexto o ser precisaria estar em constante evolução, ao contrário do ter, que não exige evolução moral de ninguém, caso a pessoa não queira. Prova disso são pessoas que nascem em um ambiente de grande poder econômico, e de repente, optam por não fazer nada no decorrer da vida, a não ser gastar dinheiro para ocupar o tempo, desconsiderando todo o resto.

Há também pessoas com muito dinheiro que tendem a considerar seus chamados esforços, envolvam eles atividades ilícitas ou não, desrespeito ou não à vida e a dignidade humana e não humana, como sendo únicos, singulares, e por isso devem ser recompensados de forma dissemelhante, mesmo que isso signifique uma diferença do tipo: “O que você jamais ganhará a vida toda eu ganho em uma semana”. “Eu fiz o que você não seria capaz de fazer. Por isso estou onde deveria estar, onde não é o seu lugar.”

“Porque o meu esforço é muito maior que o seu, sou muito mais inteligente que você, então mereço, de fato, ganhar muito mais que você; e a você resta me servir, mesmo que para isso tenhamos que criar um simulacro de evolução para evitar que você ache que sua vida não está melhorando.” Em síntese, uma sutil estagnação oscilante. “Afinal, porque isso é o que cabe à sua limitada competência que está sempre longe de se igualar à minha”, diriam.

Muitas das mazelas que existem no mundo estão intrinsecamente relacionadas ao fato de que muitos daqueles que têm poder encaram sua força e distinção econômica como uma forma de certidão de superioridade, e o mundo diz que eles estão certos, por mais que leis que não valem na prática tentem informar o contrário. Porque leis são fundamentadas na plasticidade. Existem mais para parecer do que para ser.

E a sociedade e o sistema em que estamos imersos manda iterados sinais de que isso é pura vericidade. E o que dificulta qualquer mudança não é a incapacidade de reconhecer que isso não é benéfico para a maioria, mas sim que desde sempre, até mesmo entre os mais miseráveis há aqueles que não gostariam de um mundo justo, de igualdade; logo jamais lutariam por isso se desejam ocupar a posição daqueles que “estão no topo”, sejam eles criminosos ou não. Claro, porque a sua inexistência é uma consequência natural do que você não possui, segundo a perspectiva comum. Então perpetua-se a crença de que existirei à medida do que terei.

 





 

Written by David Arioch

February 5th, 2018 at 2:06 pm

De que adianta criticar a Bancada Ruralista enquanto você a financia?

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Foto: TV Tribuna/Reprodução

De que adianta uma pessoa criticar as mazelas da Bancada Ruralista e neste momento, diante da situação dos mais de 25 mil bois sofrendo em Santos, simplesmente não se importar? De que adianta você apontar o dedo para ruralistas que exploram mão de obra barata, humana e não humana, se você consome os produtos deles, logo financia o jogo político deles.

Você já pensou que esses caras que comandam a política brasileira, e não abrem espaço para o verdadeiro exercício da democracia, costumam injetar muita grana em suas campanhas, certo? E de onde você acha que vem esse dinheiro? Costumeiramente, de produtos que eles vendem e que compramos na nossa inocência ou ignorância. E muitos desses produtos já foram vidas. Ou seja, animais.

Então, sim, consumir produtos de origem animal muitas vezes significa de fato um aval para que esses sujeitos continuem se perpetuando no poder. Que tal começar a boicotar esses caras? Não apenas politicamente, mas economicamente. Se informe, não seja ignorante. É preciso fazer um mapeamento idôneo a respeito da vinculação econômica desses políticos.

Quais entidades e empresas eles representam ou possuem, de fato; que tipo de produto eles comercializam, entre outras coisas. Esse tipo de informação precisa ser disseminada com urgência. Necessitamos de um trabalho de boicote em proporções jamais vistas antes.





 

A passionalidade e a autoridade na crítica à exploração animal

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Normalmente não é fácil para um vegetariano ou vegano lidar com situações em que as pessoas realmente demonstram pouco interesse em mudar seus hábitos que envolvem a exploração de animais (Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals)

Normalmente não é fácil para um vegetariano ou vegano lidar com situações em que as pessoas realmente demonstram pouco interesse em mudar seus hábitos que envolvem a exploração de animais. Até mesmo simples atos como o de socializar podem parecer não tão auspiciosos quando você sabe que terá de testemunhar pessoas consumindo alimentos que até pouco tempo atrás eram partes de um animal que caminhava, respirava, se alimentava e dormia – e até mais relevante do que isso, tinha sentimentos, anseio de não morrer precocemente.

Realmente não é fácil reconhecer que existe uma desarmonia entre o que você deseja para o mundo e o que o outro deseja, quando este não considera, de fato, que os animais não merecem morrer para serem reduzidos a alimentos e outros produtos. Claro, alguém pode dizer: “Tenho dó dos animais”. Mas se essa pessoa se alimenta deles, há uma evidente inconsonância entre o que ela pensa e faz.

Então para não refletir a respeito de algo que não lhes agrada é comum as pessoas recorrerem aos mais diferentes tipos de escusas e camuflagens da realidade. Sem dúvida, isso conta com o grande contributo da indústria que oferece todo o suporte necessário nessa jornada que perpetua a desconsideração à contumaz coisificação ou objetificação animal. Quero dizer, a indústria te ajudar a não se preocupar com os animais, porque ela te diz o que deve ser considerado e desconsiderado. E isso acontece de forma muito simples – trabalhando e perpetuando a crença de que o “benefício vale o sacrifício”.

Isso é parte majoritária da realidade em que vivemos, historicamente e culturalmente. Por mais que a indústria que comercializa produtos de origem animal venda ilusões, produtos imersos em realidades (des)conhecidas e negligenciadas que proporcionam prazeres efêmeros, as pessoas, principalmente adultos, compram essa ideia porque elas não apenas aceitam essa ilusão como a aprovam e a apreciam. Afinal, foram criadas nesse contexto.

Sim, a maioria dos adultos sabe que ninguém, nem mesmo um animal não humano, morre feliz por uma intervenção alheia à sua própria vontade, mas se as pessoas acreditam que uma morte não foi tão dolorosa há uma tendência ádvena de crer que “os fins justificam os meios”. E quando lidamos com essa consciência, acredito, e aqui simplesmente expresso a minha opinião, que a passionalidade e o exercício de autoridade podem dificultar ou até minar a conscientização quando não pesamos nossos discursos e ações.

De fato, a humanidade é despótica com os animais não humanos. Seria muito melhor se as pessoas entendessem que se alimentar de criaturas sencientes é sempre resultado de uma imposição legitimada, de uma ausência de escolha que não oferecemos ao outro por considerá-lo inferior e submetê-lo ao nosso jugo constante. Porém, tenho a consciência de que se tenho uma perspectiva vegana em relação ao valor da vida animal, não posso rejeitar o fato de que muitos outros não a têm, e esses outros são a maioria; e é com esses que devo dialogar caso eu queira uma mudança realmente significativa.

Nenhuma transformação coletiva, por mais claros que sejam seus benefícios, é alcançada sem que para isso seja necessário mudar a mente das pessoas. Por isso, defendo a posição de que compartilhar sensibilidade, conhecimento e argumentar de forma ponderada sobre a exploração animal, sem os arroubos negativos da passionalidade, é o melhor caminho. Até mesmo diante de piadinhas infames, quando alguém age de forma a subverter a expectativa do interlocutor, o surpreendendo ao não reagir em nível equiparável de vazia provocação, há uma maior possibilidade de consideração em relação ao que foi expressado. Ou será que ser ofensivo seja melhor? Não creio.

Quando falamos com alguém sobre a exploração animal, talvez seja interessante conjecturar previamente a reação do outro. Uma reflexão que considero válida é a seguinte: “Se alguém estivesse falando comigo dessa forma, e eu não tivesse a consciência que tenho, será que eu refletiria sobre isso?” A transformação depende dos meios que usamos para alcançar a consciência do outro, e se isso é eficaz. Não importa se tenho a maior vontade do mundo em relação à libertação dos não humanos explorados e reduzidos a alimentos e outros produtos, porque não é unicamente dessa vontade que depende a conscientização humana em relação à exploração animal.

Acredito que preciso sempre ter em mente que se a minha intenção é conscientizar ou sensibilizar quem não vê nada de errado com a exploração animal, devo mostrar um caminho que o leve a aquiescer, a entender por que é importante a abstenção de alimentos e produtos de origem animal. E esse caminho é variável, porque seres humanos não são sensibilizados ou conscientizados pelos mesmos motivos. Até porque pessoas têm suas individualidades, bagagens culturais, histórias de vida, e predisposição ou não a enxergarem os animais como sujeitos de uma vida.

Por tais razões, acho importante ser prudente, provocativo em algumas circunstâncias específicas, porém não ofensivo; o que significa que demando constante controle sobre a passionalidade, os meus impulsos, não permitindo que tenham controle sobre mim. É fácil? Não, porque tudo que diz respeito aos animais objetificados e à nossa impossibilidade de garantirmos que eles vivam sem sofrimento nos toca à sensibilidade e evidencia a nossa impotência em níveis diversos.

No entanto, vale a pena ofender pessoas ou usar termos que façam com que acreditem que há um mundo segregado entre veganos e vegetarianos e não veganos e não vegetarianos? Como isso pode estimulá-las à reflexão? Claro que seres humanos estão em níveis dissemelhantes ou díspares de conscientização, sensibilidade e renúncia, o que significa que há muito a ser estudado e trabalhado. Também reconheço que nem sempre nossas palavras, por melhores que sejam ou mais bem fundamentadas, vão promover qualquer mudança. Mas creio que menos ainda colherão bons resultados aquelas que, como em um exercício de autoridade, estão carregadas de ofensas e vulnerabilidade; e fragilizadas em seus próprios argumentos. Afinal, derramar-se em emoção também pode ser uma forma de negar-se à razão.





 

O tratamento que dispensamos aos não humanos

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Animais famintos em direção ao matadouro e a última refeição de John Wayne Gacy, um dos serial killers mais famosos dos Estados Unidos (Fotos: Eyes on Animals e Departamento de Segurança dos Estados Unidos)

Para que as pessoas possam se alimentar de uma “carne de qualidade”, os animais, por padrão, são deixados em jejum prolongado. Isto, claro, para que suas reações fisiológicas associadas à última refeição não comprometam a qualidade da carne. Como isso pode parecer justo? Aceitável? Você já considerou o fato de que até mesmo serial killers, ou seja, assassinos que não raramente são considerados os piores seres humanos, recebem melhor tratamento?

Um exemplo? Sujeitos que estupraram e mataram dezenas de pessoas e que são condenados à morte nos Estados Unidos costumam ter o direito de escolher uma última refeição com tudo que lhes agrada. Já os animais não humanos, relegamos à fome antes do golpe mortal. Sendo assim, como alguém pode dizer que reprovar o consumo de animais e lutar pelo direito à vida não humana não é importante? Seres não humanos estão na pior escala de tratamento da história da humanidade. Muito abaixo daqueles que são considerados alguns dos piores criminosos da nossa história contemporânea.





 

O jogo de interesses na exploração de animais e a contradição da salvação

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Será que aos olhos dos animais não somos vistos como assassinos?

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Ilustração: Criminal Minds Encyclopedia/Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals

Vamos esquecer por um instante o conceito legal, tradicional e legitimado socialmente de certo e errado e suas implicações ulteriores. Será que o famigerado Assassino do Zodíaco poderia ser considerado um executor com uma proposta de morticínio que segue os princípios do “abate humanitário”? É inegável que ele era um psicopata que usurpava vidas, e por isso merecia ser responsabilizado por seus atos. Mas, por pior que fossem suas ações, me parece, valendo-me me de sua trajetória, que ele não deixava de ter um código de ética.

Afinal, ele matava suas vítimas com tiros cirúrgicos, com precisão letal. Suas ações, independente de motivação, não deixavam rastros de passionalidade. Como um criminoso organizado, era como se estivesse simplesmente cumprindo um trabalho; tanto que sequer tocava suas vítimas. Ele não as torturava; não tinha qualquer interesse ordinário ou especial pelo sofrimento, mas apenas pelas consequências daquilo que não existiria sem o sofrimento pessoal ou transferível em algum nível. Ou seja, a morte.

O contato direto, a fisicalidade, não o interessava. O seu ritual se resumia ao gatilho. O prazer, se existiu, estava no disparo, e o seu clímax no desvanecimento da existência. E foi isso que impediu que ele jamais fosse capturado. Não era previsível nem imprevisível. Ostensivo e privativo, eu diria. Usava sempre o mesmo uniforme e quase sempre a mesma arma. Seu modus operandi e sua assinatura eram unos e indefectíveis na sua expressão e categoria nos anos 1968 e 1969. Seu método empedernido, mesmo que não motivado economicamente, já que não lucrava para matar, me levou a uma associação, concordem ou não, entre a sua pistola e a captive bolt pistol (no Brasil, conhecida como pistola de atordoamento ou de abate), usada nos matadouros dos países de “Primeiro Mundo” desde as primeiras décadas do século 20.

Me refiro à pistola empunhada pelos magarefes para disparar com brutal naturalidade um dardo que penetra o crânio de um animal não humano e atinge seu cérebro na tentativa de insensibilizá-lo no processo de abate. Se fizéssemos isso com seres humanos, independente de motivação, mesmo que em um caso de reparação ou de “lei de talião”, não seríamos considerados vis, túrbidos, refeces, monstros? Jeffrey Dahmer lobotomizava suas vítimas humanas. Será que o que fazemos com os animais antes de matá-los nas linhas de execução é tão diferente da lobotomização? Já que o disparo da captive bolt pistol rouba-lhes a própria identidade, tornando-os inúteis na sua própria essência, assim como os lobotomizados.

Acredito que há funcionários de matadouros que realmente não sentem prazer em tirar a vida de um animal não humano, já que muitos cumprem esse trabalho por alegada necessidade. Porém, será que isso não impacta em suas vidas? Em seu estado emocional e psicológico? Imagine ter um cotidiano pautado em violentar e matar animais. É preciso crer que está diante de objetos, não de vidas. É imprescindível desligar a compaixão – permitir-se uma dissociação. Do contrário, não serve para o trabalho.

Não que trabalhar em um matadouro transforme essas pessoas em sujeitos terríveis, já que são seres humanos imersos em um universo de legitimação de mortes de outras espécies. Afinal, eles seguem o protocolo da indústria e não ousam questioná-la por diversos fatores – pessoais ou não. A atividade se resume a ser pago, em muitos casos mal pago, para matar sob o respaldo legal. Há uma “roupagem” de atividade comum, impedindo que aquele que dispara uma arma contra a cabeça de um animal reconheça isso como errado, cruel, e menos ainda como assassinato. Claro, porque a humanidade diz que está tudo bem em matar, desde que não seja um ser humano; e desde que aquela morte gere algum produto ou bem de consumo.

O mundo ao seu redor diz que o que ele faz é certo numa proporção muito maior do que a condenatória, já que o valor da vida animal não humana é proporcional ao peso da carcaça no contexto comercial. Porém, há um aspecto tétrico a se considerar. Essa realidade pode brutalizar o ser humano e transformá-lo, se assim o permitir. E se o executor desenvolve prazer pelo que faz, mesmo que isso signifique a morte de ser de outra espécie, ele corre o risco de definitivamente abrir mão de uma das qualidades mais importantes do ser humano, que é a empatia. Isso realmente não é impossível. Vídeos amadores pululam no YouTube mostrando que como os animais não partilham do mesmo código comunicativo que nós, há sempre aqueles que agem, de fato, como violentadores, psicopatas, serial killers, rampage killers ou mass murderers em relação aos animais de outras espécies.

O contato naturalizado com a violência pode asselvajar o ser humano, principalmente aqueles que já têm predisposição à ferocidade; ou a transferir frustrações aos vulneráveis com quem convive – com destaque para aqueles que não podem reclamar do próprio sofrimento por não terem uma voz que inspira respeito e consideração. Quem não se recorda do clássico do cinema de terror intitulado “Texas Chainsaw Massacre?” Nas partes mais pesadas do filme, estamos diante de um matadouro, e tudo que acontece lá dentro choca facilmente os seres humanos porque as vítimas são humanas. Por outro lado, ignoramos que aquela é a realidade ordinária não humana. Desconsidere a figura do serial killer e substitua os personagens humanos do filme por animais e você terá uma representação trivial do cotidiano.

Pessoas penduradas em grilhões, e sendo golpeadas violentamente, assim como fazemos com porcos; e, claro, tendo partes de seu corpo removidas. O código de comunicação do assassino também parece ser outro, e a sua ausência de empatia faz refletir sobre a empatia que negamos aos seres de outras espécies. É como se não ouvíssemos os animais, assim como os assassinos em série não ouvissem os seres humanos – como se enxergassem a si mesmos como uma espécie além – dotada do direito de nos exterminar. Analise alguns discursos de serial killers e você verá que não é difícil perceber que vários deles se referem às suas vítimas como se fossem bovinos e suínos.

Claro que a minha intenção não é chamar de assassino quem sobrevive matando animais, mas o ato em si é análogo a um assassinato quando subtraímos vidas que não nos pertencem, independente de finalidade. Mas o mundo e a nossa realidade social, cultural e econômica nos dizem diariamente que esse assassinato é justo, necessário e legal, porque tem o aval da maior parte da população e do Estado. E a morte de animais, além de cruel e evidentemente desnecessária, já que é possível viver muito bem sem matar outras espécies para consumo, pode preparar alguém para ações que, enfim, despertem a atenção da população, deixando-a em choque, como é o caso dos crimes cometidos pelo Zodiac Killer, citado no início do texto.

Além desse, recordo-me do caso de Jeremiah Burroughs, funcionário de um matadouro, que enfastiado de executar animais dóceis, acabou por matar mais de 70 pessoas. Há quem diga que o meio e a naturalização da violência contra não humanos o levou a matar pessoas. Não posso afirmar, mas não duvido, e creio que ele não seja o único. Ademais, há inúmeros assassinos e serial killers que adotaram em suas execuções métodos comuns em matadouros e na indústria da carne. Outros exemplos são Jeffrey Dahmer, Robert Pickton, os Bloody Benders, Ottis Toole, Albert Fish, Ed Gein, Béla Kiss, Richard Trenton Chase, Joachim Kroll, Armin Meiwes, Andrei Chikatilo, Arthur Shawcross, Issei Sagawa e Robert Maudsley, entre outros.

Será que aos olhos dos animais não humanos que seguem matadouro adentro não existe a possibilidade de que sejamos vistos como serial killers, mass murderers? A verdade que muitos se negam a ver é que assim como vítimas humanas de assassinatos não têm qualquer anseio em morrer, os animais não humanos nos matadouros partilham do mesmo interesse. Uma prova disso? Antes de executar um animal, dê a ele, ou peça que deem a ele, a oportunidade de fugir. Então você terá sua resposta.