Archive for March, 2013
A superação de Stevie Zee
O fisiculturista com paralisia cerebral que se tornou um exemplo
O estadunidense Stevie Zee estava completamente perdido em 1992. Reprovado na faculdade comunitária e incapaz de encontrar trabalho, o rapaz que sofre de paralisia cerebral (PC) decidiu fazer algo para evitar a depressão e a autopiedade.
Em dezembro do mesmo ano, Stevie foi até um ginásio de musculação em Portland, Oregon, sua cidade natal, onde conheceu o fitness trainer e fisiculturista heavyweight David Hughes. “Ele apareceu para uma sessão de treinamento e logo me disse que queria se tornar um bodybuilder. Me surpreendi com a decisão e me empenhei em ajudá-lo”, conta Hughes que instruiu o rapaz no treinamento com pesos e o ensinou muito sobre nutrição esportiva.
Stevie queria competir no bodybuilding, seguindo o mesmo caminho de David. Porém as limitações impostas pela paralisia cerebral fizeram com que o sonho parecesse distante e utópico. Em função da doença, os músculos de Zee costumavam ser encurtados, rígidos e enfraquecidos, o que tornava tudo mais difícil. Com frequência, o controle dos músculos era interrompido por movimentos espontâneos e indesejados, além dos problemas de equilíbrio, instabilidade em movimentar pés, mãos e até falar. Em síntese, Stevie sofre de paralisia cerebral mista, o tipo mais severo.
“Eu tinha dificuldade em aceitar a doença, mas agora eu sei que eu a tenho para inspirar outros a se tornarem pessoas melhores, a tirarem o máximo proveito da vida, independente de tudo”, afirma Zee. Segundo David Hughes, Stevie é mais motivado que a maioria das pessoas. Apesar das dificuldades, mora sozinho, cozinha, dirige e faz as próprias compras.
A primeira recompensa do atleta veio em junho de 2003, quando surgiu um novo tratamento para paralisia cerebral. Zee passou por um procedimento em que foi instalado um mecanismo especial na parede abdominal, minimizando os extremos espamos musculares que o fizeram sofrer por tantos anos. Em 2006, o fisiculturista recebeu um prêmio da revista MuscleMag no Los Angeles Championships, onde foi aplaudido de pé por centenas de pessoas, entre celebridades do bodybuilding.
“Ele teve a coragem de deixar Portland e se mudar para Hollywood. Tudo isso, para realizar seus sonhos. É como se ele fosse um personagem de uma história em quadrinhos”, comenta o lendário ex-fisiculturista Rich Gaspari, que desde 2008 patrocina Stevie Zee. Para entender a história de superação do atleta é preciso ter em mente que para quem sofre de paralisia cerebral é complicado até mesmo caminhar e realizar pequenas tarefas diárias. “Imagine então fazer musculação? Há milhares de limitações que o dizem para não ir por esse caminho. Isso mostra o quanto ele é um vencedor”, diz David Hughes.
O que também chama atenção sobre Stevie Zee é a sua capacidade em seguir dietas restritivas, outro ponto considerado impossível para quem sofre de PC. Ao longo de 20 anos, o atleta não apenas ganhou em condicionamento e qualidade de vida, minimizando os problemas com a doença, como se tornou referência de novos estudos sobre a medicina da encefalopatia crônica não progressiva nos Estados Unidos. “Devo tudo isso a David Hughes que foi quem me transformou em uma pessoa totalmente diferente”, declara Stevie emocionado. Vale lembrar que o fisiculturista é tema do documentário Hang On To Your Dreams, lançado em 2008.
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Roberto Moreira e a tradicional hipocrisia brasileira
Filme de estreia do cineasta mostra a diferença entre olhar e enxergar a realidade
O filme Contra Todos, que marcou a estreia de Roberto Moreira como cineasta, é recheado de críticas sociais que desnudam a hipocrisia da sociedade brasileira a partir de uma caricata família de classe média baixa.
Contra Todos foi o filme brasileiro mais premiado em 2004, quando foi lançado, e não por acaso. A obra apresenta todos os elementos de uma boa história. Na periferia de São Paulo, Teodoro (Giulio Lopes), que tenta preservar uma imagem de homem religioso, interpreta um mercenário e pai de família que bate na filha Soninha (Sílvia Lourenço) e trai a mulher Cláudia (Leona Cavalli) com a companheira de culto Terezinha (Martha Meola).
Infeliz com o marido, Cláudia se relaciona com Júlio (Ismael de Araújo). Aos poucos, a verdadeira imagem da família se descortina. A situação sai de controle quando o amante de Cláudia é assassinado. Perturbada, a mulher destrói a casa e abandona tudo. Depois de fugir e se hospedar em um hotel, Cláudia conhece Lindoval (Dionísio Neto), com quem começa a namorar.
Mais uma vez, o plano de felicidade é interrompido quando Lindoval quase morre após ser espancado. Cláudia acredita que o crime é de autoria do marido. Em meio a tanta confusão, Teodoro decide se casar com Terezinha e mandar a filha morar com a avó. A história ganha outro rumo quando a religiosa recebe uma fita de vídeo do futuro marido tendo relações sexuais com a ex-mulher; Terezinha acreditava que Teodoro era solteiro.
Muitos dos acontecimentos do filme são motivados pelo malandro e persuasivo Waldomiro (Aílton Graça), amigo e confidente da família de Teodoro. Além disso, também chama atenção a busca por isenção e impessoalidade. O cineasta não interfere nos acontecimentos, se limita a apresentá-los da forma mais crua possível, deixando para o espectador a tarefa de refletir e tirar conclusões.
O autor usa recursos que corroboram o realismo da trama – como planos com a câmera na mão, evitando a plasticidade. Moreira ainda escolheu locações que fogem aos clichês da periferia paulistana. Para dar mais naturalidade às cenas, optou por um elenco que concordou em participar do filme sem ter contato com o roteiro antes do início da produção.
Uma população alheia à organização comunitária
Secretário da Ucampar explica porque Paranavaí tem uma estrutura comunitária tão fragilizada

João Francisco de Paula: “Paranavaí tem que crescer da periferia para o centro” (Fotos: David Arioch)
O secretário-geral da União Comunitária das Associações de Moradores de Paranavaí (Ucampar), João Francisco de Paula, é um dos nomes mais emblemáticos da organização comunitária em Paranavaí. Militando na área há 33 anos, acompanhou todo o processo de formação das comunidades locais, mas principalmente das periferias.
De Paula participou da formação das primeiras associações de moradores no final dos anos 1970, numa época em que os movimentos político e comunitário partilhavam os mesmos ideais. Mais tarde, assistiu a dissidência de grupos populares que não se alinhavam mais com as questões partidárias.
“Muitos líderes de bairros foram cooptados politicamente e adquiriram o vício de misturar os interesses do bairro com os próprios”, revela o secretário, acrescentando que quando alguém disputa um cargo de presidente de associação de moradores, já almejando uma candidatura política, corre o risco de priorizar o que não vale a pena ou confundir a própria área de atuação. “Os presidentes naquele tempo não entendiam a organização comunitária”, desabafa.
Em entrevista ao autor deste blog, João Francisco de Paula fala sobre a importância da organização comunitária em Paranavaí, o desinteresse da população, aspectos positivos e negativos das associações de moradores, além de conquistas da Ucampar. Confira alguns trechos:
Como o senhor avalia a organização comunitária em Paranavaí?
A organização comunitária é importante para o avanço dos bairros, embora esteja um pouco estagnada em Paranavaí. Isso acontece porque as lideranças confundem um pouco a sua atuação com a política partidária. Há algum tempo, optei por me afastar da política porque partidos têm interesses próprios, o que acaba prejudicando a comunidade. Precisamos que todos os bairros se organizem, da periferia ou não, porque assim é mais fácil conquistar algo.
Quais são os bairros que estão mais bem articulados?
O Jardim São Jorge é um bairro bem articulado, tem lideranças antigas, pessoas que estão sempre lá ajudando os demais. Depois vem o Sumaré com líderes que também se preocupam com a comunidade.
Como melhorar a organização popular?
As pessoas se reunirem independente de lideranças políticas. Os líderes comunitários precisam buscar apoio e suporte financeiro para executar alguns projetos. É preciso estar em contato constante com o bairro. Só assim se consegue atender as reivindicações.
Sabemos que é comum um líder comunitário vislumbrar uma projeção política. O senhor acredita que isso seja favorável ou prejudicial ao bairro que ele representa?
Não tem porque se ligar em política partidária. A comunidade organizada, ciente do que quer, do que pretende, consegue tudo com facilidade, e é muito melhor se for independente de partido. Mas nada impede que no futuro um companheiro líder de uma comunidade possa disputar um cargo de vereador ou deputado, até porque eu mesmo fiz isso.
Quantos bairros tem representatividade em Paranavaí?
Temos 27 associações de moradores, mas funcionando mesmo não mais que 20. Temos muitas associações que começaram e logo acabaram. Este ano, vamos retomar esse trabalho de mobilização nos bairros. Acho que a organização comunitária pode mudar profundamente a situação da cidade em todos os sentidos.

Secretário-Geral da Ucampar: “A população não tem consciência da importância da organização comunitária”
Em uma comunidade não organizada, o que um morador pode fazer para mudar o cenário atual?
Eu sugiro que reúna pelo menos cinco pessoas e crie uma comissão provisória, prevendo a implantação de um estatuto. Daí é só publicar um edital e reunir interessados do bairro em compor chapas para as eleições. O ideal é que haja vários candidatos. Assim o processo se torna mais participativo e democrático.
O que foi feito para unir mais as associações de moradores?
Estamos tentando reunir as associações em conjunto com a Ucampar. Fazemos assembleias para estimular as lideranças. Explicamos que não se pode fundar uma associação e simplesmente cruzar os braços. Entidade é algo que você cria, estrutura e depois passa para outra pessoa. O poder tem que ser comunitário, de todos.
Desde que foi fundada em abril de 2007, quais as conquistas da Ucampar?
Quando o Wanderlei Giraldes assumiu a presidência já tínhamos um compromisso de realizar eventos para melhorar a movimentação das associações. Ele conseguiu articular esse trabalho e logo lançamos a Campanha de Preservação do Patrimônio Histórico e outra relacionada ao IPTU que teve boa repercussão. Todas as associações participaram. O intuito da Ucampar é fazer com que a comunidade participe das decisões políticas, questionando e reivindicando. Sem participação, não há mudanças.
Quem são os apoiadores?
Os apoiadores da Ucampar são os próprios presidentes de associações. Eu acho que não tem apoiador maior que as próprias lideranças de bairros como entidades independentes, sem ligação com poder público municipal, estadual ou federal. Hoje, Paranavaí cresce do centro para a periferia, mas tem que crescer da periferia para o centro também.
A população de Paranavaí tem consciência da importância da organização comunitária?
Não, e muitas vezes nem as próprias associações. São poucas que têm essa consciência. Há lideres comunitários que se consideram mandatários, a voz do bairro, e não é bem assim. Tem que liderar sim, mas com democracia, discutindo todas as necessidades do bairro, além de propor fiscalizações, acompanhar o trabalho da Câmara Municipal, levar propostas, sugerir projetos e “pegar no pé”.
Quais municípios podem ser citados como referência no assunto?
Acredito que londrina, onde conheci associações com boa organização comunitária. Outros exemplos são Santo André e Diadema, no interior de São Paulo, que atuam na gestão participativa; significa participação direta na administração com propostas e discussões. São alguns exemplos de exercício de cidadania.
“Sempre vejo os meninos vendendo drogas”
Luiz Carlos Prates fala sobre a realidade dos jovens da Vila Alta
Morador da Vila Alta, um dos bairros mais pobres de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, o artista plástico gaúcho Luiz Carlos Prates há mais de 15 anos acompanha de perto tudo que acontece na comunidade, onde desenvolve um trabalho de recuperação de menores em situação de risco. Para Prates, a única forma de livrar os jovens do narcotráfico é fazendo um intenso trabalho social.
“Seu Luiz”, de 82 anos, como é mais conhecido, costuma circular com frequência pelas ruas da Vila Alta. Só em um sábado à tarde, contabilizou 13 crianças comercializando crack. “Sempre vejo os meninos vendendo drogas. É comum virar passador, bode expiatório, testa de ferro ou laranja. Mas a parte mais triste é que o destino deles nesse caminho é a cadeia ou a morte”, diz. No bairro, há casos de adolescentes com 15 anos que já se envolveram tanto com o narcotráfico que não se imaginam desempenhando outra atividade.
Prates relata com tristeza o exemplo de um adolescente para quem estava dando lições de artesanato. “Em 2011, passei por uma fase difícil e tive que interromper as aulas voluntárias por alguns dias para fazer algumas peças pra vender. Quando retomei a oficina, o menino sumiu. Fui procurar ele e descobri que um ‘traficante já tinha tomado conta’”, lamenta.
No bairro, é grande a quantidade de crianças e adolescentes fora das escolas. Muitos não têm pais e são criados pelos avós, segundo informações dos moradores da Vila Alta. “Não têm estrutura familiar e ficam disponíveis ao mundo das drogas”, avalia uma das lideranças do bairro, a catadora de recicláveis Maria de Fátima Oliveira que quando caminha pela Vila Alta sempre se depara com restos de drogas nas ruas, principalmente saquinhos de plástico com vestígios de crack.
Seu Luiz, que coordena um grupo de 12 crianças e adolescentes, afirma estar feliz por tê-los livrado do mau caminho, embora ressalte que ainda há muito trabalho a ser feito. “De todas as crianças que cuido hoje, a maioria não tem pai e mãe em casa. Mas o problema maior é que aqui no bairro não são poucos os jovens envolvidos com drogas que são filhos de desempregados, ladrões, prostitutas, traficantes e viciados”, comenta.
Como o bairro é distante da região central, o consumo de narcóticos começou por volta de 1980, de forma discreta e restrita. Mas a situação se agravou, tanto que muitas crianças conhecem a forma e o cheiro da droga. Os 12 alunos do artista plástico são um exemplo. “O meu neto de oito anos também identifica com facilidade quando estão usando alguma coisa”, complementa Maria.
L.F.B, de 10 anos, que em função da alimentação deficiente aparenta ter de sete a oito, já experimentou cola de sapateiro, tiner, éter, maconha, crack e cocaína por influência de falsos amigos. “Quando conheci não sabia nem o nome certo dos produtos. Não ‘tô’ mais nessa onda não, mas conheço muita gente que ‘tá’”, declara enquanto desvia os olhos e ajeita o boné surrado sobre a cabeça.
Seu Luiz se recorda do episódio em que um garoto estava trabalhando em uma cooperativa de recicláveis quando denunciaram ao Conselho Tutelar. “Foram até o local, tiraram o menino de lá e advertiram a cooperativa. Não apresentaram nenhuma solução, tanto que pra ganhar algum dinheiro hoje o garoto vende drogas em frente a própria casa”, relata.
Para as lideranças do bairro, até os anos 1990, a participação do Conselho Tutelar e de outras autoridades era mais efetiva. A criança ou adolescente com problemas era obrigado a assinar um documento em que se comprometia a mudar, recebendo todo o acompanhamento necessário. “Este lugar sempre foi abandonado pelo poder público. Falo da Vila Alta, não da Vila Operária. As pessoas precisam aprender a diferenciar os bairros”, desabafa Luiz Carlos Prates e sugere que o primeiro passo seja educar os moradores da Vila Alta.
O boia-fria Jurandir Oliveira defende que pessoas de outros bairros e cidades costumam cometer crimes e se refugiarem na Vila Alta. “É triste porque fica a impressão de que faz parte da comunidade, o que não é verdade. Nem tudo que acontece de ruim na cidade deve ser atribuído a nós. É injusto”, reclama.
Curiosidade
A Vila Alta tem pouco mais de três mil moradores.
O estigma social da Vila Alta
Maria de Fátima: “Todo mundo era cidadão em outro bairro e aqui se tornou um João Ninguém”

Maria de Fátima no cruzamento com a Rua do Ipê, principal via de acesso da Vila Alta (Fotos: David Arioch)
Uma das lideranças da Vila Alta, um dos bairros mais pobres de Paranavaí, no Noroeste Paranaense, a catadora de recicláveis Maria de Fátima Oliveira conta um pouco da história do bairro que um dia foi conhecido como Vila do Sossego e atualmente soma mais de três mil moradores. Desse total, muitos já foram vítimas de preconceito social.
O começo nos anos 1970
A história da Vila Alta teve início em 1977, quando moradores de outros bairros foram obrigados a migrar para uma área desabitada além da Vila Operária. “Era só mato, não tinha nem árvore. Mudei pra cá alguns anos depois e lembro que aqui onde moro hoje só havia duas famílias, uma no Lote 1 e outra no Lote 16”, diz Maria de Fátima que já trabalhou como empregada doméstica, guarda e boia-fria. A catadora de recicláveis, assim como muitos outros habitantes da Vila Alta, nem sempre viveu na periferia.
Maria, que há 35 anos morou na região central de Paranavaí, serve de exemplo para mostrar como o desenvolvimento de um município pode ser prejudicial aos menos favorecidos. “Do Centro, mudei para o Jardim Panorama. De lá, fui para o Jardim São Jorge, até que me vi obrigada a vir pra cá, quando foi decretado o despejo. Isso aconteceu dois dias depois que cheguei do hospital com um filho recém-nascido”, lembra.
Os barracos de lona e os casebres de lata de óleo
Muitos dos moradores da Vila Alta passaram por situação semelhante por causa da supervalorização do custo de vida em outros bairros. “Todo mundo era cidadão em outro bairro e aqui se tornou um João Ninguém. Éramos excluídos da sociedade e muitos nos tratavam como ‘lixo humano’”, desabafa Maria de Fátima que aponta como um dos principais pioneiros o falecido Zé Bala.
Na década de 1980, ainda não havia muitas residências no bairro que se formou a partir da Rua Benedito Brambila. A maior parte da área era ocupada por barracos de lona e casebres feitos com latas de óleo de cozinha. “Era tanto barraco que a gente parecia um bando de urubus. Sempre fazia aquele barulhão quando o vento batia”, comenta.
O preconceito contra os moradores
A população também não contava com recursos básicos. Assim como a energia elétrica, o acesso à água surgiu bem depois, e de forma precária, quando o Centro Social Urbano instalou duas torneiras no bairro. Para piorar, conseguir emprego no comércio local era quase impossível. “No Centro, ninguém dava emprego para quem era da Vila Alta. As moças e os rapazes mentiam, mas logo que descobriam eram demitidos. O preconceito era muito grande”, revela Maria.
Um ex-gerente de uma loja de departamentos de Paranavaí, que pediu para não ser identificado, ressalta que por muitos anos recebeu recomendações para não contratar moradores da Vila do Sossego. “A gente tinha o costume de generalizar mesmo, era uma questão até cultural, de família e convivência social. Pensava que o morador de lá era diferente, não era confiável. A gente sempre o julgava da pior maneira”, admite outra testemunha, o empresário Juliano Fernão Garcia. Recentemente, um mototaxista pediu que o artista plástico Luiz Carlos Prates descesse da moto ao informar que o destino era a Vila Alta.
O desemprego e o trabalho braçal
Embora uma parte dos moradores tenha conquistado bom espaço no mercado de trabalho, concluindo o ensino superior e tornando-se enfermeiros e professores, a maioria ainda está relegada ao desemprego e às linhas de produção das agroindústrias, colheita de laranja, corte de lenha, mandioca e cana-de-açúcar.
“Muitos atuam como pedreiros fora de Paranavaí. Uma minoria trabalha no comércio e coleta materiais recicláveis”, relata Maria que ainda se recorda de episódios em que lojas da região central se recusavam a vender produtos para os moradores da Vila Alta, caso o pagamento não fosse à vista.
O sentimento de não pertencimento a Paranavaí
A principal queixa dos moradores é a de que grande parte da população de Paranavaí não vê as qualidades do bairro. Por isso, há um sentimento de não pertencimento à cidade e uma crença de que ao longo de mais de 30 anos a maior parte das conquistas é resultado de um trabalho comunitário.
“Somos bem unidos, tanto que muitas casas foram feitas em comunidade, com a ajuda de vizinhos e amigos”, garante a catadora de recicláveis, sem deixar de citar que receberam ajuda de pessoas de outros bairros e cidades.
O orgulho da periferia
A Vila Alta se orgulha dos seus trabalhadores que atuam na construção civil. Muitos desempenham função determinante na criação de condomínios e luxuosas residências situadas nas áreas nobres de Paranavaí. O bairro também é visto pelos moradores como um celeiro de artistas, pintores e vendedores. Ainda assim, a população clama por mais empregos, já que muitos se distanciam da família quando conseguem trabalho somente fora de Paranavaí.
Entre os moradores entrevistados é unânime o desejo de ver no futuro uma Vila Alta mais moderna, com a estrutura de uma pequena cidade e maior renda mensal. A população reclama da falta de opções de lazer, tanto para crianças quanto adultos. “A situação não é fácil, mas estamos lutando para melhorar ainda mais a vida na comunidade”, acrescenta Maria de Fátima.
Uma pequena dose de realidade sobre o mundo do fisiculturismo
Janice Engel: “Em Bodybuilders, tento explorar os extremos dos profissionais, amadores e promotores”
Nos Estados Unidos, o documentário Bodybuilders, de Janice Engel, lançado em 2000, até hoje desponta como o segundo filme mais popular sobre fisiculturismo, perdendo apenas para o clássico Pumping Iron, de Robert Fiore e George Butler, que chegou aos cinemas em 1977 e garantiu ainda mais notoriedade mundial a Arnold Schwarzenegger.
Produzido de forma independente, Bodybuilders foi exibido por quatro redes de televisão ao longo de oito anos, com destaque para a veiculação na Discovery Channel, onde o documentário obteve uma audiência que superou as expectativas. Dirigido e escrito por Janice Engel, o filme conta ainda com co-roteiro do ex-fisiculturista e ator Lou Ferrigno.
“Em Bodybuilders, tento explorar os extremos dos profissionais, amadores, promotores e estrelas capazes de fazer o possível para manter-se no topo das competições de ‘culto ao corpo’”, explica Janice que em uma escala de 0 a 10 obteve nota 8,8 da crítica nos EUA. A princípio, a ideia da diretora era fazer algo mais curto e conciso, mas a repercussão do tema e a facilidade em encontrar boas fontes permitiram que o documentário crescesse um pouco mais.
Bodybuilders é um filme especial que de forma estratégica ganhou espaço na TV norte-americana após a virada do milênio. Foi apresentado como uma obra sobre um estilo de vida e esporte do passado, presente e principalmente do futuro. Em 2000, o bodybuilding ainda era pouco conhecido até pelos praticantes de musculação.
“Quis mudar isso e apresentar informações que pudessem ajudar até quem não gosta de levantamento de peso a entender esse universo”, comenta a diretora que lançou luz sobre as várias camadas que envolvem o fisiculturismo, inclusive assuntos tabus. Embora não seja popular no Brasil, onde o fisiculturismo cresce a cada ano, o filme Bodybuilders é considerado uma espécie de manual em vídeo do fisiculturista.
Em alguns aspectos, se comparado a Pumping Iron, a obra de Engel é menos ficcional e mais contundente. No entanto, pouco discute sobre a realidade do uso de esteroides anabolizantes e outros fármacos que auxiliam na rotina de atletas profissionais e amadores. Talvez por um cuidado em evitar polêmicas desnecessárias por parte de quem já encara a modalidade com bastante preconceito.
O que sem dúvida ajudou o documentário a tornar-se uma referência em fisiculturismo e musculação são as participações de algumas lendas do bodybuilding mundial como Arnold Schwarzenegger, Lou Ferrigno, Frank Zane, Jay Cutler, Lesa Lewis, Kim Chizevsky, Stan McQuay, Corinna Everson, Craig Titus, Travis Wojcik e os célebres irmãos Joe e Ben Weider, fundadores da International Federation of BodyBuilding and Fitness (IFBB) e criadores do Mr. Olympia, a mais cultuada competição do bodybuilding mundial.
“Pude entrevistar várias vezes o Craig Titus. Ele foi muito receptivo e honesto com relação ao uso de esteroides em cada preparação para o Mr. Olympia”, revela Janice Engel em referência ao promissor fisiculturista que em 2006 foi preso pelo assassinato da sua assistente pessoal Melissa James em Las Vegas, Nevada. No filme, também são entrevistados importantes funcionários da IFBB, como Wayne DeMillia. Outro destaque é a preparação pre-contest do fisiculturista Stan McQuay na Musclemania, a maior competição mundial de natural bodybuilding.
Outra curiosidade sobre Bodybuilders é que no decorrer de oito anos de exibição do documentário nos EUA foram feitas algumas pesquisas pela Discovery Channel e outras emissoras avaliando a recepção do conteúdo. O resultado indicou que milhares de pessoas decidiram frequentar ginásios de musculação após assistir ao filme, o que surpreendeu Janice.
Quando o bodybuilding conquistou o cinema em 1948
Muscle Beach, o pioneiro dos filmes sobre fisiculturismo
Nem sempre o fisiculturismo foi pouco respeitado pela sociedade e menos valorizado por meios de comunicação. Se hoje vivemos um tempo em que o bodybuilding é distorcido para as massas, visando intensificar a desinformação e o preconceito ao diferente, é importante entender que nos anos 1940 a modalidade era tão admirada nos Estados Unidos que tinha status de atração turística.
Tudo isso e muito mais é retratado no filme Muscle Beach, de 1948, dos cineastas Joseph Strick e Lerner Irving, que levou milhares de pessoas comuns para os cinemas dos EUA, interessadas em conhecer e admirar os físicos perfeitos de homens e mulheres que frequentavam a Muscle Beach de Santa Monica, na Califórnia. A primeira obra sobre o bodybuilding apresenta a realidade dos fisiculturistas amadores que dividiam o mesmo espaço de treino com ginastas e praticantes de outros esportes.
Embora o bodybuilding tenha se profissionalizado em ambientes fechados e privados, a verdade é que o berço da modalidade é a praia, como apresenta Muscle Beach. O filme mostra atletas treinando rodeados por uma plateia de entusiastas e crianças que desde cedo aprendiam a cultivar uma bela relação com a natureza. Na obra, até os pássaros e outros animais se aproximam enquanto os bodybuilders mantêm o foco nas barras e halteres. Com uma estética vívida, iluminada, plácida e pueril, o filme é uma ode ao belo. Nem mesmo as limitações técnicas do cinema em preto e branco, com certa predominância do cinza, ofuscam a luz que se sobressai e transcende em cada cena.
O que também chama atenção em Muscle Beach é a harmonia e a alegria irradiadas pelo cenário. O filme contagia, embora não seja pautado em uma história nem em diálogos. É um registro fiel e nostálgico do bodybuilding em sua forma mais clássica. Strick e Irving tiveram uma grande preocupação em mostrar que a harmonia do corpo é capaz de promover uma conformidade psicológica e emocional com reflexos positivos no ambiente. Não foi preciso dar voz aos personagens para transmitir isso; bastou mostrá-los em seu habitat.
É possível interpretar que aqueles atletas não viviam para o corpo, mas sim o corpo vivia para eles, pois todos os resultados foram conquistados com a alegria e satisfação proporcionadas pela natural busca da qualidade de vida, sem excessos; como se o homem reconhecesse a sua necessidade de manter o corpo em movimento e desenvolvimento. Embora o filme não aborde o assunto, a Muscle Beach de Santa Monica era uma referência turística não apenas pela qualidade da praia. Todos queriam ver de perto o que aquelas pessoas faziam para conquistar uma forma física tão cativante.

As rotinas de treino em Muscle Beach eram acompanhadas por plateias de admiradores (Foto: Reprodução)
Joseph Strick e Lerner Irving viajaram até a Muscle Beach, onde passaram três dias acompanhando o cotidiano de um grande número de atletas. O local também era famoso por ser uma área de aluguéis baratos e equipamentos de levantamento de peso disponíveis gratuitamente a qualquer hora do dia. O ginásio a céu aberto de Santa Monica foi frequentado por importantes nomes do bodybuilding. Alguns exemplos são Vic Tanny, Jack LaLanne, Joe Gold, Chet Yorton, Steve Reeves, Vince Edwards, Jack Delinger, George Eiferman e Dave Draper. Anos mais tarde, atraiu os atletas Larry Scott, Arnold Schwarzenegger, Franco Columbu, Hulk Hogan, o ator Danny Trejo e muitos outros.
A trilha sonora é uma singela viagem pela perspectiva do cantor Earl Robinson que do início ao fim narra as belezas do local e das pessoas que o frequentavam. Em 2008, o filme Muscle Beach foi recuperado pela Academy Film Archive e relançado em 2009 pela San Francisco Cinematheque que o avaliaram como um dos grandes documentários da cultura norte-americana do século XX.
O fisiculturista e eu
Filme canadense mostra como o bodybuilding ajudou a fortalecer uma relação entre pai e filho
Lançado em 2007, The Bodybuilder and I é um filme do canadense Bryan Friedman que decide acompanhar a rotina de fisiculturista do próprio pai. A princípio, a ideia do rapaz era registrar o bodybuilding como uma subcultura recheada de esquisitices. Talvez, uma maneira de conseguir a atenção do homem com quem viveu ao longo de 26 anos, mas jamais o conheceu de verdade.
O advogado Bill Friedman, de 59 anos, é um ex-sedentário e ex-viciado em trabalho que após um longo e desgastado casamento é surpreendido por um pedido de divórcio. Bill se torna depressivo, mas renasce com a musculação, colocando-a em primeiro lugar na sua vida. Chega a deixar pra trás uma carreira extremamente lucrativa que lhe garantiu uma mansão, os melhores carros e uma fortuna que proporcionou estabilidade financeira para toda a família.
Após vencer duas importantes competições de bodybuilding da sua faixa etária, Friedman consegue atrair a atenção do filho Bryan. O rapaz então acompanha a jornada do atleta apenas com a intenção de destacar o quão estranho pode ser o bodybuilding como uma subcultura. Sem um profundo ou forte vínculo com o pai, Bryan registra todas as etapas da rotina, desde a hora em que ele acorda até o momento de dormir.
“Meu objetivo era mostrar como somos distantes e também como aquele mundo poderia parecer mais importante pra ele do que a própria família. Era pra ser algo sobre um velho fisiculturista obsessivo quanto aos seus músculos”, conta o cineasta Bryan Friedman que mesmo com uma vida de luxo sempre se sentiu mal pela ausência da figura paterna. Ao contrário do planejado, o filme ganha outro rumo quando o filho ressentido começa a aprender muito sobre o pai.
The Bodybuilder and I é uma história sobre como a conexão entre pai e filho pode ser algo valoroso, verdadeiro e intenso, independente de tempo. Um filme sincero e bem-humorado que tem um caráter testemunhal sobre as possibilidades dos seres humanos se reencontrarem e tentarem entender o que é importante um para o outro. Com 60 anos, o extrovertido Bill Friedman luta para recuperar o status de campeão mundial da categoria masters, se consolidando como um ícone do bodybuilding canadense.
Após algum tempo, o introspectivo Bryan se torna compreensivo quanto ao amor do pai pela musculação, atividade que disciplinou Bill e lhe deu mais ânimo para viver. É interessante a forma como o filho em alguns momentos do filme deixa claro o preconceito contra o bodybuilding. São cenas que representam com clareza a grande intolerância social que aflige o fisiculturismo em todo o mundo. O espectador pode interpretar que o sucesso de Bill na carreira profissional só foi possível em função de sua natureza pautada pela perseverança e disciplina.
Surge aí de forma subjetiva a ideia de que se alguém tem força de vontade o suficiente para seguir uma rotina intensa de treinos, dieta e outras regras que competem ao bodybuilding, essa mesma pessoa tem as qualidades mais importantes para ser bem sucedida em outras áreas. The Bodybuilder and I, vencedor do Prêmio de Melhor Documentário do Festival Internacional de Documentários do Canadá (Hot Docs) e Atlantic Film Festival, é uma obra de esperança voltada principalmente para pais, filhos e qualquer um que desconheça o poder transformador que possui dentro de si. Dirigido e escrito por Bryan Friedman, o filme é co-produzido pela January Films e National Film Board of Canada.


















