David Arioch – Jornalismo Cultural

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Paranavaí, a flor dos cafezais

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Novo livro do poeta Paulo Marcelo é baseado em poemas sobre a colonização de Paranavaí

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Por meio da poesia, Paulo Marcelo ensina história com uma linguagem de fácil compreensão (Foto: Amauri Martineli)

Em janeiro deste ano, o escritor Paulo Marcelo Soares da Silva, radicado em Curitiba, me presenteou com o seu novo livro – “As flores dos cafezais”, recém-lançado. A obra de leitura simples e cativante é baseada em uma coleção de poemas, bem-dispostos em ordem cronológica, sobre a colonização e a evolução de Paranavaí desde os tempos da Fazenda Ivaí, que antecede a Vila Montoya, até a atualidade.

O título do livro é uma clara homenagem a Paranavaí, a quem o escritor se refere em seus poemas como flor dos cafezais, já que a cidade se desenvolveu sob o signo do café até o início dos anos 1970, quando a cafeicultura perdeu espaço para a pecuária.

Por meio da poesia, Paulo Marcelo ensina história com uma linguagem de fácil compreensão. Transmite impressões de uma Paranavaí pouco conhecida pelos mais jovens, mergulhada em impressões de um passado longevo, mas rico e bucólico, que aguça a sensibilidade de quem tem e até de quem não tem contato com a cultura regionalista.

“A realidade e o mito se confundem com o passar do tempo. Ao lado do que é real há que se preocupar também com o ilusório. Os sonhos, a magia e o folclore são peças indispensáveis na engrenagem da vida”, defende o escritor que em sonetos petrarquianos conta com paroxismo como nasceu Paranavaí.

No livro, a narrativa poética romantiza fatos da década de 1920. A partir de um soneto homônimo, Paulo Marcelo aborda com preciosismo a chegada de desbravadores, colonos e outros migrantes que se tornaram pioneiros – numa universalização alheia a nomes. O fim de Montoya, o nascimento da Fazenda Brasileira e a escolha do nome da cidade são referenciados com a rima do autor.

“Entre 1950 e 1960 a produtividade cafeeira atingiu seu ápice na região. Afirma-se que em algumas áreas chegou-se a colher 300 sacas em coco por mil pés de café”, introduz o escritor antes de poetizar as brincadeiras em torno dos cafeeiros, assim como as manhãs ensolaradas, as moças do campo, a inocência dos colonos, a alegria durante as colheitas, a fartura e as grandes geadas.

No livro, a narrativa poética romantiza fatos da década de 1920 (Foto: David Arioch)

No livro, a narrativa poética romantiza fatos da década de 1920 (Foto: David Arioch)

Na obra, alguns personagens, as festas típicas e os cinemas da cidade também são mencionados em versos curtos com digna e nostálgica simplicidade. “Paranavaí é filha dos cafezais. Nasceu numa manhã de muito sol e foi batizada numa tarde de mil cores”, garante o poeta. Em síntese, “Flores dos Cafezais” é um livro de rápida leitura e que não exige demais do leitor, a não ser vontade de peregrinar em emoções e reflexões poéticas, inspiradas em mais de 90 anos de história.

Quem é Paulo Marcelo?

Além de escritor, Paulo Marcelo é bacharel em direito e possui licenciatura em geografia. Participou e foi premiado em muitas edições do Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup). Também recebeu prêmios de menção honrosa no 15º e 19º Jogos Florais de Barreiro, Portugal, e no 1º Concurso de Romances Juvenis da Academia Paranaense de Letras.

Tem contos publicados pela Empresa Tipográfica Casa Portuguesa, de Lisboa, em Portugal, e Casa da Cultura dos Trabalhadores da Quimigal, de Barreiro, também em Portugal. Ademais, é autor de “O Lendário Capitão”, de 2012, e “Xondó e o Furto da Vassoura”, de 2013. O livro “Encantamento”, de 2015, contém ilustrações do próprio escritor e traz um conto sobre a história de um casal que se apaixonou em Paranavaí nos tempos da colonização.

Saiba Mais

Caso queiram adquirir o livro, vocês podem entrar em contato com o autor através do e-mail pmmssi@yahoo.com.br.

Soneto que integra o livro e faz referência ao pássaro que empresta seu nome a uma das áreas históricas de Paranavaí:

O Canto do Surucuá

Voa o lindo passarinho

Ao vento que vem lá,

No quadro, tudo mais belo,

Ao canto do Surucuá

 

As dores vão se afastando,

Em busca d’outro lugar…

Levando mágoas prá longe,

O canto do Surucuá

 

Segue o moço a cavalo,

Batendo o peito por ela

(Um amor que vai buscar)

 

Na fazenda, a donzela

Suspira, lá da janela

Ao canto do Surucuá

No filtro de Kemmy Fukita

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Com arte em filtro de papel reaproveitado, jovem ilustradora chama atenção pela singularidade

Kemmy Fukita reaproveita os filtros usados pela mãe (Foto: Arquivo Pessoal)

Kemmy Fukita reaproveita os filtros usados pela mãe (Foto: Arquivo Pessoal)

Em 2015, a ilustradora Kemmy Fukita, de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, criou uma página no Facebook para divulgar o seu projeto “No Filtro”, em que reaproveita filtros de papel usados para coar café. Unindo arte e sustentabilidade, Kemmy reproduz com singularidade imagens de pessoas famosas e anônimas em construções visuais que transmitem fortes sentimentos e sensações.

Seus traços influenciados pelo hiper-realismo, surrealismo e art nouveau são carregados de intensidade, influências que ela assume com orgulho, assim como a fotografia. “Muitos dos meus desenhos surgem da observação. Gosto muito de desenhar rostos femininos realistas e um pouco desfigurados do real, com cicatrizes. Isto porque sempre tentei representar uma mulher forte, apesar das dificuldades que ela tenha de passar”, explica.

Toda vez que Dona Rosa termina de usar um filtro de café, a filha Kemmy, de 20 anos, o lava com sutileza, para preservá-lo com aspecto envelhecido, e aguarda a secagem antes de começar a produção de mais um desenho. “O processo não é demorado, mas exige muita paciência porque se algo der errado é preciso recomeçar. Para desenhar um rosto realista, por exemplo, eu levo uma hora. Varia de acordo com o grau de dificuldade”, informa.

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“Vi que o giz pastel garantia melhor pigmentação e incluí também as tintas nanquim e aquarela” (Foto: Kemmy Fukita)

Após criar obras em papelão, um dia Kemmy Fukita estava observando a mãe preparar café e teve a ideia de separar o filtro já usado. O lavou, secou e começou a pintar. Gostou tanto da primeira experiência que criou uma página com seus desenhos, frases e trechos de músicas reproduzidos em filtros. “Me baseei em artistas com quem já me identificava. A princípio, tudo era feito com lápis de cor e tinta guache. Depois vi que o giz pastel garantia melhor pigmentação e incluí também as tintas nanquim e aquarela”, revela.

Desde o ano passado, a artista cria obras sob encomenda. As mais pedidas são pautadas em imagens de escritores e músicos, seguidas por desenhos de pessoas comuns. Trabalhos inspirados nas fotos mais icônicas do escritor estadunidense Charles Bukowski estão no topo dos pedidos mais atendidos por Kemmy. “Eu o admiro muito, tanto que um dos meus poemas prediletos é ‘O Pássaro Azul’. Também faço muitas obras baseadas em bandas de rock e cantores e cantoras de outras épocas”, enfatiza.

“É preciso entender que coloco amor e dedicação no que faço” (Foto: Kemmy Fukita)

“É preciso entender que coloco amor e dedicação no que faço” (Foto: Kemmy Fukita)

Cada encomenda, com moldura e dois filtros – um acompanhado de ilustração e outro de uma frase, custa apenas R$ 40. “Uso como embrulho o TNT ou um papel transparente amarrado com uma cordinha de sisal”, destaca, deixando claro o quanto é caprichosa no que se propõe a fazer. Ainda assim a artista reconhece que o seu trabalho não é devidamente valorizado, já que há pessoas que reclamam do preço cobrado por cada obra. “É preciso entender que coloco amor e dedicação no que faço”, argumenta a ilustradora.

Com o projeto “No Filtro”, Kemmy admite que se descobriu ainda mais como ser humano e artista. Inspirada no pai poeta, várias vezes premiado no Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup), ganhou coragem para escrever poemas e publicá-los com seus desenhos. “Desanimei muitas vezes e tive bloqueios criativos, uma descrença no que faço. Mas foram nesses momentos difíceis que encontrei pessoas me apoiando e falando para eu não desistir. Uma frase que sempre trago comigo é do Vinicius de Moraes: ‘A arte não ama os covardes’. É bem isso. Quem vive neste mundo precisa de coragem para se arriscar e amar o que faz”, defende.

Trabalho inspirado em imagem e frase de Charles Bukowski (Foto: Kemmy Fukita)

“Eu o admiro muito, tanto que um dos meus poemas prediletos é ‘O Pássaro Azul’” (Foto: Kemmy Fukita)

Além de artista, Kemmy Fukita é estudante de moda. Perto de se graduar, não pensa em atuar como estilista. Quer trabalhar com ilustração de moda, se desvinculando da criação de roupas. “Quero futuramente conciliar a ilustração de moda com o aspecto social, pouco valorizado”, confidencia. Sem nunca ter estudado desenho, Kemmy é autodidata, porém acredita que o curso de moda a ajudou a desenvolver habilidades específicas, como se aperfeiçoar no desenho de mãos e pés.

A primeira experiência desenhando foi aos 13 anos, quando decidiu reproduzir os personagens da Turma da Mônica, de Mauricio de Sousa. “Só que não eram tão realistas. Ao longo dos anos fui testando outros materiais além do papel comum. Tive a ideia de pintar desenhos minúsculos em hashi e deu certo. Também fiz isso em pratinhos de papelão, usando tinta guache e palitinhos de dente. Eu era revoltada com pincéis”, conta rindo.

A página “No Filtro”, criada por Kemmy em 2015, se aproxima dos nove mil seguidores. A ilustradora justifica que a crescente popularidade é resultado da divulgação de um de seus trabalhos em uma página de música do Facebook. “E também a uma encomenda feita pelo presidente da Fundação Cultural de Paranavaí, Amauri Martineli. Tudo isso foi de grande importância e eu não esperava, nem tinha noção de que tantas pessoas valorizariam a minha arte”, comemora.

Página do projeto No Filtro no Facebook

 https://www.facebook.com/nofiltro/

Minhas reportagens em projeto de incentivo à leitura

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Inclusão das reportagens no projeto foi feita pelo escritor e professor Antonio Neto (Fotos: Reprodução)

Ontem, fiquei muito feliz ao saber que as minhas reportagens “Sou prostituta sim, acompanhante não” e “Latinha, infância fragmentada pelo crack?” estão sendo usadas no projeto Descobrindo o Ato de Ler o Mundo, de incentivo à leitura, de Santa Maria de Jetibá, no Espírito Santo, por sugestão do professor e escritor Antonio Neto. O trabalho é desenvolvido com estudantes do último ano do Ensino Médio. Incrível como a textualidade é capaz de transpor fronteiras. Em breve sai reportagem sobre o assunto no meu blog.

As duas reportagens estão nos links abaixo:

//davidarioch.com/2013/02/07/sou-prostituta-sim-acompanhante-nao/

//davidarioch.com/2011/07/13/latinha-infancia-fragmentada-pelo-crack/

Uma lição de amor à vida

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João Mariano surpreende pela capacidade de ver beleza naquilo que passa despercebido pela maioria

João Mariano

O documentário mostra o estilo de vida minimalista do aposentado João Mariano (Foto: David Arioch)

Lançado ontem no YouTube, o documentário João Mariano, um curta-metragem de menos de 15 minutos, produzido com um Nokia Lumia 1020, é o meu mais novo trabalho audiovisual. Em meio a muitas reflexões e lembranças, principalmente reminiscências da juventude e das tragédias familiares, o documentário mostra o estilo de vida minimalista do aposentado João Mariano.

Um senhor de 87 anos que ainda tem muita vontade de viver, apesar de tantas perdas e das limitações impostas pela idade, Mariano surpreende pela sensibilidade e capacidade de ver beleza naquilo que passa despercebido pela maioria. Sente prazer na simplicidade de existir e no privilégio de pensar com a mesma acuidade de quando era mais jovem.

Radicado em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, desde 1955, o aposentado que trabalhou até os 84 anos relembra a infância e a adolescência no interior do Ceará. Também fala sobre a tranquila rotina e as experiências mais impactantes de sua vida. João Mariano tem uma relação especial com a natureza e a vida, e isso nem mesmo os problemas de saúde que surgiram na idade avançada são capazes de desqualificar.

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João Mariano tem uma relação especial com a natureza e a vida (Foto: David Arioch)

O aposentado celebra a vida diariamente à sua maneira e prova que mesmo quando nos tornamos idosos ainda somos crianças e adolescentes. O maior exemplo disso é a passagem em que cita as muitas vezes na infância da década de 1930 em que o pai o chamou para balançar na rede com ele. “Era muito gostoso”, declara sorrindo como petiz o homem de 87 anos.

João Mariano diz como conheceu Clarinda, a namorada com quem fugiu para se casar em 1955, seu primeiro e único amor. Após a separação e o falecimento dela em 2008, o aposentado nunca mais se relacionou com ninguém. “Eu sinto falta dela, de ver ela. Fiquei sozinho e estou até hoje”, enfatiza sensibilizado. Se emociona ao se recordar da morte do filho José Cláudio, vítima de câncer com apenas 42 anos. “Morreu nos braços da irmã dele. Pra mim foi um choque. É uma coisa que tem hora que parece que é mentira, não uma realidade”, lamenta.

O aposentado conta ainda uma exemplar história de honestidade vivida no início da década de 1940, quando era jóquei na região de Iguatu, no Centro-Sul do Ceará. “Meu gosto mesmo era viver até 100 anos. Aproveitar bem do nosso país”, revela rindo. Em seguida, comenta que às vezes fica abalado com o fato de ter visto tanta gente partindo, já que não resta mais ninguém dos seus tempos de infância e adolescência.

Por outro lado, reconhece que estar vivo é uma vitória. Em síntese, o documentário é uma lição de amor à vida. João Mariano ensina que independente do que passamos nada deve ser mais forte do que a vontade de seguir em frente. A trilha sonora do filme é assinada pela banda finlandesa de pós-rock Magyar Posse.

Observação 

Não consegui disponibilizá-lo no YouTube com a qualidade final da produção, mas creio que a perda esteja dentro do aceitável.

Tulipa, a cadelinha evangélica

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Do início ao fim do culto, Tulipa fica em silêncio, atenta a tudo que acontece no interior da pequena igreja

Tulipa assiste aos cultos três vezes por semana há oito meses (Foto: David Arioch)

Tulipa assiste aos cultos três vezes por semana há oito meses (Foto: David Arioch)

Na Rua C, em um pequeno espaço contíguo à residência da artesã Lindinalva Silva Santos vive a mais jovem frequentadora da Igreja Pentecostal Jesus é a Cura, na Vila Alta, periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Três vezes por semana, pouco antes das 19h30, a cadelinha mestiça Tulipa deixa a sua confortável casinha de madeira, salta sobre uma base de tábuas que lhe serve como passarela e pula a cerca, encurtando caminho por um terreno baldio onde uma pequena porção de capim-colonião a cobre completamente.

Aguerrida, segue pulando e amortecendo a relva com as patas miúdas até chegar à estrada de terra ao lado do Bosque Municipal. Tranquila, mas atenta, percorre mais cem metros até chegar à esquina da Rua A. Olhando ao seu redor, Tulipa atravessa o interior da igreja para mostrar que está pronta para o início do culto. Observa rapidamente o pastor até ser notada e então se aconchega debaixo de um comprido e envernizado banco de madeira. “É o jeito dela de cumprimentar todo mundo. É como se fosse uma pessoa e desse algum tipo de satisfação aos presentes”, informa Lindinalva.

Do início ao fim do culto, Tulipa fica em silêncio, atenta a tudo que acontece no interior da pequena igreja. Por volta das 21h, e da mesma forma que entrou, ela se despede à sua maneira. Lá fora, recebe muitas carícias. Tem tanta confiança no ser humano que fecha os olhos e inclina a cabecinha para ser afagada. Depois retorna para casa fazendo o mesmo trajeto. Muito querida por todos os frequentadores da Igreja Pentecostal Deus é a Cura, a cadelinha começou a participar dos cultos há oito meses e desde então jamais se ausentou. Com o tempo, sua presença se tornou uma atração, principalmente para as crianças.

Cadelinha mostra por onde ela salta quando vai à igreja (Foto: David Arioch)

Cadelinha mostra por onde ela salta quando vai à igreja (Foto: David Arioch)

“Vou dar uma bíblia em miniatura, menor que um dedo, pra ela carregar amarradinha no dorso quando for à igreja”, declara a artesã às gargalhadas. Dócil e silenciosa, Tulipa aceita até carinho de estranhos. “Ela é muito dada e ninguém judia dela. Fica com um dentinho fora da boca o dia todo, só que não faz mal a ninguém. Se dá bem com todos os bichos. Só late à noite porque ela se sente como se fosse a guardiã da casa”, declara Lindinalva. Assim que massageio o pescoço de Tulipa, ela deita e se vira para cima, ansiando por mais afagos.

A cadelinha vive com a artesã há três anos, desde que foi encontrada abandonada ainda filhote ao lado do Bosque Municipal de Paranavaí. “Fazia poucos dias que ela tinha nascido. Peguei ela porque fiquei com medo que algum carro a atropelasse e a matasse. Era bem miudinha e dormia dentro do meu chinelo felpudo. Nunca incomodou ou fez sujeira dentro de casa. Ela é muito obediente e limpinha. Não preciso falar mais de uma vez”, garante Lindinalva apontando para a casinha construída especialmente para Tulipa.

Até hoje a cadelinha só engravidou uma vez, mas os filhotes nasceram mortos e ela nunca mais ficou prenha. Hoje em dia, durante o cio, Tulipa não sai de casa. “Fica arredia com os outros cachorros. Não deixa nenhum deles se aproximar. Entra em um quartinho e fica lá”, revela a artesã que nessa fase redobra os cuidados com a cadelinha.

Tulipa também é exigente quando o assunto é comida. Desde pequena, nunca gostou de nenhum tipo de ração. Prefere biscoitos de leite ou maisena esmigalhados em uma porção de leite. “Arroz, por exemplo, ela só come se tiver molho. Senão só olha e passa longe. A bichinha sabe o que quer e apesar de pequena come que nem cachorro grande”, garante Lindinalva rindo.

Os acasos da literatura e da vida

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Depois de ler “Terra Avulsa” e “Írisz”, de Altair Martins e Noemi Jaffe, me recordei do artista plástico Bálint Fehérkúti (Fotos: Reprodução)

No dia 5 de agosto de 2015, mediei um bate-papo com os escritores Altair Martins, de Porto Alegre, e Noemi Jaffe, de São Paulo, durante o projeto Autores e Ideias, do Sesc, em Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Antes do evento começar, eu disse a eles que a cidade teve um personagem com características de dois protagonistas de seus romances mais recentes – “Terra Avulsa” e “Írisz”.

O artista plástico húngaro Bálint Fehérkúti, que produziu as obras mais importantes da Igreja São Sebastião entre os anos de 1966 e 1971, foi perseguido pelos soviéticos e se refugiou no Brasil. Mais tarde, se isolou em um quarto no Santuário do Carmo, de onde ele não saía para nada. Inclusive trabalhava, comia e se embriagava no mesmo ambiente. Ou seja, aquele era o seu mundo.

No livro “Írisz: As Orquídeas”, a protagonista Írisz sofre com a perseguição soviética, mas isso dez anos depois do que sofreu o húngaro Bálint Fehérkúti, acossado em 1946. Írisz também foge para o Brasil, onde decide recomeçar a vida. Assim como Bálint, ela tem alma de artista e tenta se distanciar do passado, mas não consegue por causa da sua natureza extremamente humana e sensível. Bálint viveu o mesmo dilema, tanto que sucumbiu mais tarde em decorrência de uma cirrose hepática.

No livro “Terra Avulsa”, após um trauma, o protagonista Pedro Vicente toma a decisão de não sair mais do seu apartamento. Na tentativa de se desconectar do mundo, ele cria um país dentro de casa. Curiosamente, Fehérkúti fez o mesmo, mas de forma mais interiorizada do que exteriorizada – não tão visualmente visceral. Interpreto tudo isso como os acasos da literatura e da vida.

Para conhecer a história do húngaro na íntegra, acesse: //davidarioch.com/2015/02/19/artista-hungaro-escapou-de-um-dos-piores-campos-de-concentracao-da-uniao-sovietica/

Written by David Arioch

March 9th, 2016 at 11:36 pm

Entre a cruz e a espada

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O Informante, de Michael Mann, apresenta o dilema de um executivo de uma indústria tabagista

Wigand é demitido por não concordar com a conduta da empresa tabagista em que trabalha (Foto: Reprodução)

Wigand é demitido por não concordar com a conduta da empresa tabagista em que trabalha (Foto: Reprodução)

Lançado em 1999, o filme O Informante (The Insider), do cineasta estadunidense Michael Mann, apresenta o dilema do executivo Jeffrey Wigand (Russell Crowe), demitido por não concordar com a conduta da empresa tabagista em que trabalha. O drama controverso e documental foi inspirado no artigo The Man Who Knew Too Much, de Marie Brenner, publicado na revista Vanity Fair.

No momento em que Jeffrey Wigand é demitido, o produtor do programa jornalístico 60 Minutes, da CBS, Lowell Bergman (Al Pacino) recebe informações comprometedoras sobre o insondável mundo dos grandes fabricantes de cigarros. A partir daí, Bergman procura uma fonte confiável para se aprofundar no assunto e acaba conhecendo Wigand.

Na mesma esteira, há um jornalista e um executivo preocupados em denunciar uma substância cancerígena que acelera a dependência química e psicológica. Para Bergman, isso também significa marcar para sempre a história da indústria tabagista. Passando por séria crise financeira, Jeffrey Wigand decide contribuir com o produtor, mas muda de ideia quando o presidente da indústria tabagista onde trabalhava o pressiona através de um acordo de confidencialidade.

Após muita insistência, Wigand acaba concedendo a primeira entrevista ao 60 Minutes. Logo ele vê sua vida se complicar. A influência da indústria é tão grande que seu mundo desaba. O executivo perde a família e fica em uma situação que parece irresolúvel. É punido por seguir os princípios éticos de um cidadão, não de uma empresa ou instituição. Preocupado com as incertezas do futuro, não sabe como reagir aos acontecimentos.

Apesar disso, acredita que a justiça há de ser feita e arrisca a própria liberdade ao dizer tudo o que sabe durante o julgamento contra a empresa. Wigand também concorda em conceder uma entrevista mais reveladora ao 60 Minutes. Porém, o produtor Lowell Bergman é traído pelos próprios superiores que se negam a veicular o conteúdo. Em contra-ataque, a indústria tabagista cria factoides sobre a vida de Wigand e os lança na mídia com a intenção de acabar com a sua credibilidade e torná-lo um pária.

Bergman recebe informações comprometedoras sobre o insondável mundo dos grandes fabricantes de cigarros (Foto: Reprodução)

Bergman recebe informações comprometedoras sobre o insondável mundo dos grandes fabricantes de cigarros (Foto: Reprodução)

“Vale a pena arriscar a própria vida por uma verdade que não foi levada ao público?”, questiona o filme para em seguida dar a resposta. Apesar dos riscos, Wigand acredita no valor da honestidade, mesmo sendo um homem comum lidando com problema incomum. Outra constatação interessante de O Informante é que a partir da história do executivo, Lowell Bergman percebe o poder de seu próprio programa.

Idealista, Bergman não desiste de honrar seus compromissos com a fonte, nem quando é impedido de veicular entrevistas boicotadas por “problemas corporativos”. Na contramão de Lowell está o menos idealista e mais pragmático Mike Wallace (Christopher Plummer), apresentador que preocupado somente com a carreira opta por seguir ordens da direção da emissora.

Wallace só encara a situação com os olhos de Bergman depois de ser enganado por seus superiores que ordenam a reedição de suas entrevistas. Um ponto importante elencado pela obra é o compromisso ético de Bergman com a profissão e não com a empresa para a qual trabalha, mesmo que infelizmente isso seja demasiado incomum fora da ficção.

Talvez a melhor pergunta seja aquela que Bergman faz aos seus companheiros: “Você é um homem de notícias ou de negócios?” É exatamente esse questionamento que muitos jornalistas deveriam se fazer. Afinal de contas, o jornalismo genuíno nasce do interesse público, não patronal.

Embora Wigand seja o informante primário, no decorrer do filme, Bergman também assume a mesma função quando se torna fonte para seus colegas de profissão de outros programas e emissoras. Lowell desempenha esse papel com o intuito de derrubar o falso dossiê composto pelos inimigos do executivo. Como informante, o desempenho do produtor é decisivo para que as informações de Wigand não sejam comprometidas.

As ações de Bergman também obrigam a CBS a veicular o programa com a entrevista concedida pelo executivo. Com uma vitória dúbia, o produtor deixa a emissora, desiludido pela falta de responsabilidade social e profissionalismo da diretoria. No final, tanto o produtor quanto o executivo se veem na mesma posição. São dois homens que desistiram de ganhar muito dinheiro porque acreditam que a verdadeira ética não tem preço.

Written by David Arioch

March 7th, 2016 at 8:23 pm

Uma história de amizade em um mundo árido

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Johann e Ranulpho se aproximam por força da necessidade, mas aos poucos se tornam amigos

A princípio, Johann e Ranulpho são apenas dois estranhos se ajudando (Foto: Divulgação)

A princípio, Johann e Ranulpho são apenas dois estranhos se ajudando (Foto: Divulgação)

Lançado em 2005, Cinema, Aspirinas e Urubus é o longa-metragem de estreia do cineasta Marcelo Gomes. Ambientado no sertão nordestino em 1942, o road movie apresenta a história do alemão Johann (Peter Ketnath) e do sertanejo Ranulpho (João Miguel), dois homens antagônicos que se aproximam por força da necessidade, mas aos poucos se tornam amigos.

A primeira cena em que Johann aparece guiando o automóvel em meio à caatinga carrega um conceito de desertificação. A contumácia da claridade amplifica a sensação do vasto vazio em profundidade – do nada, do inabitado. E a trilha aliada ao ambiente evidencia a saudade e a solidão. Em Cinema, Aspirinas e Urubus, desde o princípio a música é tão importante quanto um personagem – ela situa o drama no tempo.

No limiar, há poucos diálogos e a comunicação do filme com o espectador é construída a partir da iluminação que naturalmente intensa reflete uma aridez que evoca semelhante agonia despertada por Nelson Pereira dos Santos em Vidas Secas, adaptação cinematográfica do clássico de Graciliano Ramos.

O imigrante Johann conhece o sertanejo Ranulpho em uma de suas paragens para vender aspirinas e exibir filmes promocionais a pessoas humildes que nunca foram ao cinema. Logo o sertanejo se oferece como ajudante e o alemão aceita. O caráter de tragicomédia da obra se baseia no fato de que o estrangeiro, distante da Segunda Guerra Mundial, vê a mansidão do sertão como paraíso enquanto o brasileiro a vê como um inferno.

O calor extremo, praticamente perpetuado pela estiagem, notabiliza o mal-estar de Ranulpho, crente de que a vida num lugarejo distante da modernidade acentua sua ausência de perspectiva. Atitudes impolutas, como a do sertanejo que não sabe onde encontrar combustível porque está acostumado a ver apenas veículos de tração animal, nutrem a depreciação de Ranulpho, sujeito que usa a ironia como instrumento da própria contestação social.

No decorrer da trama, os dois começam a se entender (Foto: Divulgação)

No decorrer da trama, os protagonistas começam a se entender (Foto: Divulgação)

É interessante a forma como Marcelo Gomes aborda a linguagem regionalista e suas redundâncias. Com exceção dos dois protagonistas, muitos dos personagens, formados por gente simples, têm um vocabulário visceralmente pobre, fundamentado em monossílabos canhestros. Em contraponto, também é algo encantador e singelo porque é honesto e veraz. O próprio Ranulpho, um sonhador em paradoxo – com uma visão pessimista do sertão nordestino, tenta impressionar o alemão, porém recai nas mesmas falhas que ele tanto condena com relação àquele povo humilde.

“Aqui nem guerra chega” e “Lugar que não presta é assim, demora pra acabar”, diz Ranulpho em tom de escárnio. O brasileiro rejeita o cigarro nacional do alemão, deixando subentendido que para ele tudo que é bom precisa ser importado. Recalcitrante, o sertanejo passa boa parte do tempo depreciando seus conterrâneos. Johann, que muitas vezes escuta em silêncio os discursos do ajudante, decide se manifestar e defende que é difícil entender como Ranulpho pode criticar tanto o povo nordestino, sendo que ele faz parte daquela realidade. “Mais ou menos”, responde, sem ceder.

Entre os momentos mais bucólicos da obra estão as cenas de exibição dos comerciais de aspirina. Os espectadores ficam deslumbrados e emocionados. O cinema tão esperado pela população se resume a um vídeo projetado em uma tela de pano – a trilha sonora é baseada nas músicas que tocam no rádio do caminhão. Para eles, a experiência é tão inolvidável que ao final do filme continuam parados observando a tela de pano.

“Vai passar o filme de novo?”, questiona um rapaz empolgado. Intrigante também é a autêntica observação da moça que diz não querer ser atriz porque no filme os atores parecem pessoas infelizes tentando transparecer felicidade. No decorrer da trama, Johann e Ranulpho começam a se entender depois de passarem por muitas situações de aprendizado. No final, os dois reconhecem e aceitam as próprias diferenças e singularidades como resultado do mundo em que foram gestados.

Outro fato curioso é que a cidade natal de Ranulpho se chama Bonança, uma ironia e uma realidade. É incoerente se tratando de riquezas materiais, porém verdadeira ao pensarmos em serenidade. Em 2005, após o lançamento de Cinema, Aspirinas e Urubus, encontrei muitas críticas alegando que o filme é lento e sacal. Acredito que não se trata de uma deficiência de direção, muito pelo contrário. É um artifício de fidedignidade. O sertão é envolto em lentidão e marasmo, então nada mais justo do que transmitir isso, principalmente quando se traz referências do neorrealismo.

Written by David Arioch

March 4th, 2016 at 6:39 pm

O dia em que Tio Lú escapou da morte

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Tio Lú quase morreu ao ser confundindo com outro homem (Foto: David Arioch)

Tio Lú quase morreu ao ser confundindo com outro homem (Foto: David Arioch)

O artista plástico Tio Lú, de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, me contou hoje uma história que acho interessante compartilhar. Durante o relato, me recordei de “A Narrativa de Arthur Gordon Pym de Nantucket”, de Edgar Allan Poe, que anos depois deixou de ser apenas ficção para se tornar realidade, fazendo muitos de seus leitores refletirem sobre a quimera que envolve questões de probabilidade e impossibilidade.

Há cinco anos, Tio Lú estava pedalando pela Rua Pernambuco, perto do antigo depósito dos Correios, quando lhe chamou a atenção o fato de um homem passar diante dele vestindo roupas iguais e com as mesmas cores – sandálias amendoadas de couro, camisa azul e calça jeans escura. Assim como Tio Lú, o sujeito também era alto, negro e tinha cabeça raspada, além de composição corporal muito semelhante.

Por descuido, o homem quase esbarrou nele e seguiu guiando a bicicleta, também da mesma cor, com pressa, logo desaparecendo no horizonte. Intrigado, mas despreocupado, o artista plástico continuou pedalando, até que de repente ouviu um tiro que passou raspando à direita de sua camisa. O outro balaço coincidiu com o momento em que Tio Lú jogou a bicicleta sobre a calçada, se lançando sobre o pavimento de mosaico português e assim se livrando da morte.

Assustado, olhou para trás e viu um rapaz correndo e empunhando um revólver calibre 38. “O que é isso? Você tá louco?”, questionou Tio Lú, lívido e com o corpo trêmulo. O homem o observou rapidamente, o ignorou e prosseguiu acelerado. Desorientado, o artista plástico só conseguiu se levantar cinco minutos após o choque. No dia seguinte, ficou sabendo que ele foi confundido com o homem mais tarde assassinado na Rua Pernambuco, em Paranavaí.

Tio Lú vai comercializar suas obras na ExpoParanavaí

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Obras resgatam principalmente elementos da cultura sulista (Foto: David Arioch)

A partir de amanhã, o artista plástico Luiz Carlos Prates de Lima, mais conhecido como Tio Lú, um mestre na arte de manipular madeira, vai estar no Pavilhão de Indústria e Comércio da ExpoParanavaí 2016, no Noroeste do Paraná, vendendo suas clássicas obras em madeira, que resgatam principalmente elementos da cultura sulista. É uma boa oportunidade para quem quiser conhecer de perto o trabalho do idealizador da Oficina do Tio Lú, projeto social que por meio da arte afasta crianças e adolescentes do mundo do crime e das drogas. Parte do dinheiro arrecadado com as vendas vai ser usado na manutenção da oficina.

Written by David Arioch

March 3rd, 2016 at 4:31 pm

Posted in Artes,Paranavaí