David Arioch – Jornalismo Cultural

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Drauzio Varella, consumo de leite e a Piracanjuba

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Convite para as palestras de Varella que incentivam o consumo de leite (Fonte: Site Beba Mais Leite)

O médico Drauzio Varella, que se tornou uma referência para milhões de brasileiros, tem realizado palestras incentivando as pessoas a consumirem mais leite. Não são palestras realizadas de forma independente, mas sim patrocinadas pela Piracanjuba, o que acaba por ser um pouco controverso vindo de um conceituado profissional.

A Piracanjuba, ou Laticínios Bela Vista, é uma grande empresa que não apenas investe na exploração de animais em níveis industriais, como também foi investigada em 2015 pela Operação Leite Compen$ado, do Ministério Público do Rio Grande do Sul. À época, descobriram que lotes de leite adulterados com água e soda cáustica chegavam às indústrias Piracanjuba.

Particularmente, não acho correta essa atitude de um médico, porque quando ministramos uma palestra com patrocínio de uma indústria, de algum modo estamos passando um atestado de que confiamos nela.  Além disso, é importante considerar que nos últimos anos surgiram inúmeros estudos reprovando o consumo de leite, inclusive por parte da Universidade Harvard (referências ao final do artigo).

Outra importante referência no assunto é o médico estadunidense T. Colin Campbell, que é inclusive filho de ex-proprietários de laticínios e tem livros publicados no Brasil. Ele viaja o mundo falando sobre os malefícios do consumo de leite. Campbell é uma pessoa que dedicou décadas de pesquisa a isso, ao contrário do senhor Drauzio Varella, que embora tenha vasto conhecimento em outras áreas, fala de leite sem ser um especialista ou estudioso do tema, já que suas áreas de conhecimento são outras.

Também temos uma pesquisadora brasileira, a filósofa Sônia T. Felipe, que produziu um livro muito bom, também baseado em anos de pesquisa, que discute o impacto da produção de leite na sociedade e os efeitos dele na saúde humana. A obra intitulada  “Galactolatria: Mau Deleite”, lançada em 2012, pode inclusive ser adquirida através de contato pelo site homônimo. Ademais, nunca vi o senhor Drauzio Varella discutindo abertamente sobre esse assunto, mas somente falando sobre os benefícios do alto consumo de leite, sem dar margem para contraposições em relação ao consumo.

Observação

Minha crítica não diz respeito a todo o trabalho do médico Dráuzio Varella, mas somente a esse caso em específico.

Saiba Mais

Para a produção de quatro litros de leite são necessários 3,8 mil litros de água, de acordo com informações do documentário “Cowspiracy – O Segredo da Sustentabilidade”. Essa é a quantidade necessária em todas as etapas de produção.

Referências

http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2015/05/desta-vez-leite-adulterado-continha-so-agua-e-soda-caustica-4759744.html

http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2015/05/mp-flagra-leite-azedo-e-faz-nova-operacao-contra-transportadora-e-cooperativa-4759677.html

http://www.galactolatria.org/

http://www.huffingtonpost.ca/2013/07/05/harvard-milk-study_n_3550063.html

https://www.hsph.harvard.edu/nutritionsource/calcium-full-story/

http://nutritionstudies.org/provocations-casein-carcinogen-really/

http://nutritionstudies.org/provocations-dairy-protein-causes-cancer/

http://www.telegraph.co.uk/foodanddrink/healthyeating/10868428/Give-up-dairy-products-to-beat-cancer.html

Contribuição

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A Perdigão e as controvérsias do Chester

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Suposta foto de uma produção de Chester ainda muito jovens (Foto: Perdigão)

Leiam o que a Perdigão diz quando questionada sobre a origem do Chester, o frango geneticamente modificado: “Chester é um animal, mas não é uma espécie diferente de ave, como o peru ou o avestruz, por exemplo. É a mesma espécie que o frango convencional.”

Para se ter uma ideia, um frango convencional pesa em média de 1,8 a 2,5 quilos. O Chester pesa pelo menos quatro quilos. Sendo assim, como achar normal o tamanho do Chester? Imagine o esforço que essa ave tem de fazer para se locomover.

Segundo a Perdigão, não tem sentido a aplicação de hormônios sintéticos no Chester porque as aves são abatidas antes do tempo necessário para que as substâncias comecem a fazer efeito. Por outro lado, o animal chega a quatro quilos em 42 dias. Ou seja, o dobro de um frango convencional. Em contato com a Perdigão, quando alguém pede fotos reais do Chester ainda vivo, eles dizem o seguinte: “Não dispomos de imagens desta ave em granja e/ou linha de produção.”

Ou seja, no Brasil, a Perdigão cria misteriosamente uma ave reduzida à comida e que a maioria não sabe o que é, o que não raramente levanta suspeitas. Também me surpreende saber que o Chester, um frango geneticamente modificado, e que me parece que ninguém nunca viu nem na TV, a não ser depois de morto, é consumido no Brasil desde 1982. Até hoje, não há muitas informações sobre o sistema de produção dessa ave. E as poucas a que temos acesso são controversas.

Só para endossar o quão estranho tudo isso é, pergunte aos consumidores o que é exatamente um Chester, se eles já o viram em algum aviário e se são capazes de descrevê-lo. Na minha opinião, mais uma história sobre a qual as pessoas precisam receber muito mais informações do que aquelas disponibilizadas pela indústria.

Written by David Arioch

December 25th, 2016 at 6:37 pm

Estadão e a falta de bom senso sobre a problemática dos javalis

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Se o javali tornou-se uma praga, isso se deve à ineficiência do Ibama (Foto: Reprodução)

Li ontem no Estadão uma reportagem com um título bem infeliz: “Espécie invasora, javali é opção abundante e grátis na ceia de Natal”. Na matéria, um estudante de zootecnia se orgulha de sair para caçar animais silvestres com seu pai desde que tinha nove anos. Ou seja, uma criança praticava uma atividade ilegal no Brasil. Hoje, já adulto, admite isso no Estadão e está tudo bem.

Outro problema é que a reportagem se refere à caça como uma atividade prazerosa. “A diversão, no entanto, se apressa a dizer, é só consequência de um importante trabalho de controle da praga na agricultura.” Em primeiro lugar, um veículo de abrangência nacional que deveria promover a conscientização acaba por qualificar a caça como uma atividade divertida.

Em segundo lugar, se o javali tornou-se uma praga, isso se deve à ineficiência do Ibama, que é responsável pelo controle de reprodução de animais como javalis. Outro ponto a se considerar: se os javalis são uma praga, o que são os seres humanos gananciosos?

De acordo com a ONU, a Amazônia Brasileira, o lugar com a maior biodiversidade do planeta e que já perdeu 80% de sua área original, pode desaparecer nos próximos dez anos por causa da desenfreada produção de gado e soja. Quem é o invasor mesmo? Uma pena ver veículos de comunicação prestando um desserviço tão grande. E para piorar, ainda produzem uma matéria com título jocoso, instigando qualquer um a sair de casa com arma em punho para matar javalis.

Written by David Arioch

December 25th, 2016 at 2:04 pm

O veganismo é muito radical?

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Porém, não é radical o ato de comer animais? Seres que tinham vida, respiravam, se emocionavam? (Foto: We Animals/Jo-Anne McArthur)

Vez ou outra, alguém me diz que considera o veganismo muito radical. Sob a perspectiva de que o veganismo é uma grande mudança na vida de alguém, concordo naturalmente. Porém, não é radical o ato de comer animais? Seres que tinham vida, respiravam, se emocionavam? Claro que é uma questão cultural o consumo de carne, mas ninguém pode dizer que não há diversidade ou boas fontes nutricionais na alimentação vegetariana.

De acordo com o botânico John Warrer, autor do livro “A Natureza dos Cultivos”, há mais de 300 mil alimentos vegetais disponíveis na natureza. Claro que nem todos esses alimentos são acessíveis por diversos fatores, mas não deixa de ser um número surpreendente, que mostra como as pessoas subestimam o potencial de uma alimentação vegetariana. Isso prova também que não é por falta de opções que as pessoas não deixam de comer carne, mas sim porque têm o costume e o paladar como principais justificativas. Por isso, em muitos casos não fazem questão de mudar, já que é mais fácil manter o status quo.

Ademais, uma dieta básica vegetariana, que não prioriza o consumo de produtos industrializados, pode ser muito mais barata do que uma dieta baseada em carnes e laticínios. Creio que não seja necessária nenhuma pesquisa científica para provar isso. Basta passar em feiras, mercados e açougues e fazer as devidas comparações. Eu, por exemplo, às terças-feiras compro até mais de dez quilos de vegetais, frutas, legumes e tubérculos com cerca de R$ 25. Compare isso com o preço da carne, por exemplo, e avalie o custo/benefício.





Sensíveis e racionais

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Há pessoas que estranham quando alguém demonstra ser tão sensível quanto racional. Temos uma forte tendência à polarização. Tratando-se de personalidade, facilmente dividimos uns aos outros entre sensíveis e racionais. Ou seja, se é sensível, não é racional, e se é racional, não é sensível.

Demonstre tanta deferência pelo romantismo quanto pelo racionalismo e verás pessoas o julgando como volátil, confuso ou até mesmo tolo. Goethe escreveu “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, um dos maiores símbolos do romantismo alemão, e mais tarde publicou “A Teoria das Cores”, em que fez oposição a Newton.

De fato, Goethe era romântico, mas outras de suas obras mostram que ele não pode simplesmente ser definido como tal. Ele era mais do que isso, assim como muitos seres humanos resumidos ao zeitgeist, ou seja, ao espírito de uma época, ou a uma linha de pensamento que diz apenas parcialmente quem realmente são ou eram.

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December 24th, 2016 at 7:16 pm

Somos mais e nos julgamos menos

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Não somos naturalmente mono, somos pluralistas desde o primeiro respiro (Arte: Reprodução)

Enquanto eu aguardava atendimento, Alberto sentou ao meu lado em uma das poltronas da Caixa Econômica Federal. Me falou que estava se aposentando depois de 40 anos de trabalho dedicados a mesma empresa. Parecia satisfeito, mas não tão seguro sobre isso. “Terminei a faculdade e passei a vida inteira fazendo praticamente a mesma coisa”, contou. Perguntei se ele se sentia realizado. Respondeu que não, mas que se adaptou a viver dessa forma.

O questionei também sobre seus sonhos de infância e adolescência, se tinha lembranças de algum deles. “Já não me lembro quais eram. Faz muito tempo”, disse. Todos os dias, encontro Alberto na figura de outras pessoas. Eles estão por todos os lados e me fazem pensar que não nascemos para nos dedicar somente a uma atividade. Não somos naturalmente mono, somos pluralistas desde o primeiro respiro, mas a vida, o mundo e aquilo que nos cerca muitas vezes nos limita. O tempo sempre parece curto, sem margem para a diversidade.

E assim corremos o risco de perder nossa pluralidade na infância ou adolescência, quando nos dizem o que devemos ou não fazer, para o que nascemos ou não nascemos; quando as pessoas agem como se conhecessem melhor nossas aptidões do que nós mesmos. A criança nunca quer ser somente uma coisa. Ela quer ser várias. As horas e os dias mostram isso. A vida demanda liberdade, e a nossa diminui quando crescemos por fora, mas nos reduzimos por dentro.

As inseguranças são amplificadas quando você não se vê como parte de um caminho, e ao mesmo tempo alguém te oferece prazos para “tornar-se alguém”. E esse alguém não raramente é outra pessoa que não você. Os conflitos aumentam na fase adulta porque você é obrigado a abandonar a multiplicidade da sua existência para se resumir a não mais do que uma atividade – o trabalho.

Nomes tornam-se metonímias da profissão, a identidade humana é suprimida pela profissional, e o ser perde cada vez mais espaço para o ter. Acredito que muitos dos males psicológicos e emocionais da atualidade têm relação com essa supressão existencial. Somos mais e nos julgamos menos. Nos vemos como incapazes de fazer mais do que fazemos, ou o que realmente queremos – porque é o que o mundo nos diz.

E o tempo nos leva à passividade, a aceitação de uma perspectiva lancinante de pragmatismo. O conformismo nos sufoca com um tipo de sutileza travestida de aceitável incerteza. Quantas pessoas que você conhece são hoje o que realmente gostariam de ser? Sentem-se verdadeiramente recompensadas pelo que fazem? Vive-se pelo não viver quando a vida se torna um simulacro do que poderia ser.

Não somos seres mecânicos, somos complexos. Quando nossas potencialidades, mesmo que ainda desconhecidas, são ignoradas, morremos um pouquinho a cada dia, sufocados pela rotina, pelas pressões externas e por nossas próprias descrenças. Acredito que somos como árvores que cedem diante da tempestade quando amargam na própria raiz o dissabor da incredulidade.

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Written by David Arioch

December 21st, 2016 at 3:27 pm

Ser tímido

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Kafka, por exemplo, era tímido, e sua força literária tinha relação com a sua timidez (Foto: Reprodução)

Não vejo como ser tímido pode ser tão ruim. Muito do que faço na minha vida tem justamente a timidez como motriz. As pessoas subestimam a timidez quando a relacionam apenas aos aspectos negativos da vida em sociedade. Pessoas tímidas naturalmente ouvem mais e observam mais. Também refletem muito.

Kafka, por exemplo, era tímido, e sua força literária tinha relação com a sua timidez. Hermann Hesse, William Faulkner, Edgar Allan Poe, Marcel Proust, Emily Dickinson, Emily Brontë, George Bernard Shaw, Hunter Thompson e Nathaniel Hawthorne também eram tímidos. São nomes que hoje ocupam posição de destaque na literatura mundial. Logo ser tímido não é uma forma de fracasso.

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Os riscos do maniqueísmo

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Arte: The Jordan Valley

Suspeito que a incompreensão, a segregação e a torpeza surgiram a partir do momento que decidimos deliberadamente definir quem representa o bem e quem representa o mal neste mundo. A tal da visão maniqueísta me parece ser sempre um dos principais perigos da humanidade. O maniqueísmo é temerário porque ele é versátil, ardiloso e obscuro. Pode transfigurar bem em mal e vice-versa.

Assim destrói-se o mal pelo bem e o bem pelo mal. A passionalidade também pode nos cegar e nos levar ao maniqueísmo. Somos maniqueístas até nas trivialidades cotidianas. Um exemplo? Sempre que condenamos alguém por uma atitude que não é do nosso agrado. Ademais, somos maniqueístas quando repensamos nossas amizades por meros desentendimentos. Nesse sentido, me refugio no livre pensamento.





Written by David Arioch

December 4th, 2016 at 4:36 pm

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Tem hora que é triste reconhecer como somos atrasados

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Sou da opinião de que quanto mais pessoas escrevendo, melhor (Foto: Reprodução)

Tem hora que é triste reconhecer como somos atrasados. Em alguns países, enquanto oferta-se a oportunidade para escritores amadores ganharem espaço, por meio de máquinas que imprimem poemas e contos em estações de trem e metrô, no Brasil há escritores renomados que viajam dizendo quem deve ou não escrever. Que visão pequena.

Sou da opinião de que quanto mais pessoas escrevendo, melhor. Escrever é um dos maiores exercícios de sensibilidade e senso crítico da história da humanidade. Claro que é preciso evoluir sempre, mas quem somos para dizer o que deve ou não ser escrito, o que deve ou não ser publicado? A maior prova disso são os autores do passado e que hoje são celebrados.

Vários desses escritores não teriam entrado para a história da literatura se não tivessem publicado de forma independente seus próprios trabalhos. Vivemos na era da democratização da escrita, e quem não concorda com isso não está preparado para o que vem pela frente. Admiro escritores que vão na contramão disso, que mesmo com tanto prestígio seguem estimulando quem gosta de escrever.

Written by David Arioch

December 4th, 2016 at 4:28 pm

O belo nunca vai ser simplesmente belo

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"Joven Beduina", de Luis Ricardo Falero (Pintura de 1891)

“Joven Beduina”, de Luis Ricardo Falero, de 1891

O belo nunca vai ser simplesmente belo porque a beleza é uma forma completa de cognição, não apenas uma palavra vazia atribuída de um valor físico que reflete, partindo do senso comum, a jovialidade humana suscetível ao definhamento.

A beleza ou preservação dela envolve fatores de atração e abstração. É no belo também que desde sempre o homem se inspira para criar mitos e lendas que se perpetuam no imaginário das pessoas.

Acreditar na beleza como superficial é uma perspectiva canhestra ou equivocada. Quantas obras de arte, das mais diversas ramificações, foram produzidas inspiradas no que a beleza humana é capaz de despertar? Sem contar com a elevação à posteridade…

Antes de morrer, em 7 de outubro de 1849, o escritor Edgar Allan Poe escreveu que beleza de qualquer tipo, em seu desenvolvimento supremo, invariavelmente excita a alma sensível às lágrimas, o que justifica por que o belo surpreende sem ser tipificado.

Written by David Arioch

December 4th, 2016 at 4:24 pm

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