Archive for the ‘Vegetarianismo/Veganismo’ Category
Brigitte Bardot: “Os animais são nossos amigos, e nós não comemos nossos amigos”
“O que mais me frustra é que não há direitos animais. Os animais não têm direitos”

Em 1973, no auge da carreira, a famosa atriz francesa Brigitte Bardot, que estrelou 47 filmes, anunciou a sua aposentadoria do cinema. E foi assim, aos 39 anos, que ela iniciou uma nova vida como ativista dos direitos animais.
Em entrevista ao jornal britânico The Guardian em 10 de julho de 2015, ela contou que quando descobriu a verdade sobre a realidade da exploração animal, tornou-se evidentemente óbvio para ela, e até mesmo indispensável, colocar um fim em sua carreira. “Que era somente brilho e vaidade, para que eu pudesse me dedicar a esta causa urgente”, justificou.
Em entrevista publicada pelo tabloide Daily Mail em 2 de novembro de 2014, Brigitte relatou que a fama não a satisfazia mais, e que seu amor pelos animais deveria ser expressado oficialmente. “Jamais olhei para trás. Nasci com o amor pelos animais. Não tive nenhum perto de mim na minha infância porque estávamos em guerra, e a vida em Paris era muito difícil”, declarou. A experiência a marcou tanto que ela jamais suportou o som de fogos de artifícios ou trovões, porque remetem às lembranças dos bombardeios.
O que Brigitte Bardot nunca deixou de destacar como realmente positivo em relação à sua fama é o fato de ter condições de conseguir ajuda de pessoas do mundo todo. Em 1986, ela leiloou seus bens para criar a Fondation Brigitte Bardot, para o bem-estar e proteção dos animais. “Resgatei cães e gatos de rua durante toda a minha vida, mas quando comecei a fundação, minha intenção já era fazer muito mais do que isso. Meu objetivo é proteger todos os animais selvagens ou de estimação da França e do exterior. Comecei pequena. Tive que aprender tudo sobre proteção dos animais – as leis, a organização de instituições de caridade, a gestão, e as obrigações de saúde e segurança”, enfatizou ao Daily Mail.
Ao longo da trajetória como defensora dos animais, ela encontrou muitos obstáculos, principalmente porque, segundo ela, há um grande número de pessoas insensíveis ao sofrimento dos animais, pelos quais elas têm profundo desprezo. “Elas os consideram objetos de lucro ou carne sobre pernas”, queixou-se à jornalista Liz Jones, do Daily Mail.

Bardot é vegana, assim como seu marido Bernard d’Ormale, e seus amigos mais próximos. Para a ativista, comer a carne dos animais é semelhante ao canibalismo. “Passamos a proteger uma espécie somente quando ela está quase extinta, o elefante africano e o rinoceronte, por exemplo. Há uma necessidade urgente de protegê-los porque os rebanhos estão sendo massacrados. Mas [como sempre] soamos o alarme apenas quando é muito tarde”, lamentou.
Muitas vezes acusada de incitar ódio racial por causa de seus comentários sobre abate ritual de animais, ela nunca se arrependeu de nada que tenha dito ou escrito sobre o assunto. “Já fui ameaçada muitas vezes por caçadores, açougueiros que vendem carne de cavalo e assassinos de focas. Mas ainda estou viva!”, revelou a Liz Jones.
Brigitte Bardot tem entre suas mais importantes bandeiras, a luta pelo fim do abate halal (islâmico) e kosher (judaico) de bovinos, além do banimento do consumo de carne de cavalo. “Depois de 30 anos, minha fundação ganhou muitas batalhas pequenas, mas ainda estamos esperando pelas grandes vitórias que dependem do governo, e ele não nos concederá, infelizmente”, lamentou em entrevista à ativista Lauren Kearney, do site Respect and Connect, publicada no Huffington Post em 26 de abril de 2016.
Para alcançar seus objetivos, Brigitte passa o dia escrevendo cartas para ministros de governo, chefes de estado estrangeiros, prefeitos e altos funcionários públicos. “Também cuido dos meus animais – tenho quase 50 cavalos, burros, pôneis, cabras, ovelhas e porcos – todos salvos de abatedouros”, confidenciou. Ela também é responsável por gatos, galinhas, gansos, patos e cães resgatados.
Questionada por Liz Jones, do Daily Mail, se é mais difícil envelhecer quando se foi um grande exemplo de beleza na juventude, ela explicou que não tem tempo nem desejo de olhar para o próprio umbigo. Maior reflexo disso é que Brigitte Bardot não tem hora para almoçar. “Apenas como um pedaço de chocolate ou alguma fruta. O almoço me faz perder tempo”, argumenta.
Embora dedique muito tempo à fundação, ela não vê com bons olhos a questão dos direitos animais. “O que mais me frustra é que não há direitos animais. Os animais não têm direitos”, desabafou à Lauren Kearney, do Respect and Connect. Apesar de tudo, Brigitte segue tentando pressionar governos do mundo todo a criarem leis mais compassivas em defesa dos animais.
Durante a entrevista, Lauren pediu que Bardot enviasse uma mensagem ao mundo. Em uma frase curta, que lembra muito o que foi dito pelo escritor irlandês e vegetariano George Bernard Shaw, ela disse: “Os animais são nossos amigos, e nós não comemos nossos amigos.”
Uma de suas lutas mais antigas é contra a indústria de peles, considerada por Brigitte como uma indústria da morte e do sofrimento. “Diante dessa normalização da crueldade, devemos reagir. Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, publicada em 10 de julho de 2015, perguntaram o que ela diria ao conceituado designer de moda alemão Karl Lagerfeld, radicado em Paris e conhecido por defender o uso de animais na indústria da moda, alegando que eles também são explorados para consumo.
“Duvido muito que Karl Lagerfeld come muitos visons, raposas ou chinchilas. É importante não misturar as coisas. Cada batalha deve ser travada em seu próprio direito. A criação de animais para a extração de sua pele é absolutamente terrível”, ponderou. Acusada de já ter usado as roupas de Lagerfeld, Brigitte Bardot rebateu que leva a vida de uma pessoa do campo, então não vê como seria possível que ela usasse algo da grife do alemão enquanto alimenta as cabras sob sua tutela.
“Tenho respeito por Lagerfeld enquanto homem, mas teria muito mais se ele, por sua vez, respeitasse os animais. Não vivemos no mesmo mundo. Ele se inclina para o seu gato, mas não se importa com todos os animais que são sacrificados para suas coleções, pela mais fútil e vulgar das modas. Pele não é luxo. É uma indústria de morte e sofrimento. Devemos boicotar casacos de pele, assim como todos os acessórios [feitos com material de origem animal]. É inacreditável que temos que lutar por algo que deveria ser óbvio para todos”, protestou ao The Guardian.
A sua batalha para proteger as focas abatidas pela indústria da pele é considerada uma das mais simbólicas da luta pelos direitos animais na Europa. “Igualmente, conseguimos obter sucesso na proibição de venda de pele de gato e de cachorro na Europa. No entanto, essa proibição deve ser estendida a todas as espécies. Pele é somente para o uso do animal que a possui. Orgulho, estupidez ou simplesmente ignorância permitiram que essa tendência sobre a exploração leal de peles de animais florescesse mais uma vez”, criticou em entrevista ao The Guardian.
Indagada pela jornalista Liz Jones, do Daily Mail, sobre o motivo do ser humano ter tão pouca compaixão pelos animais, ela respondeu: “O homem não evoluiu. Ele permanece fundamentalmente cruel e bárbaro, mesmo quando ele pensa que mudou.”
Saiba Mais
Brigitte Bardot nasceu em Paris em 28 de setembro de 1934 e começou a conquistar fama internacional em 1957 com o filme “E Deus Criou a Mulher”, do cineasta francês Roger Vadim. Na sequência, vieram “Amar é a Minha Profissão”, “A Verdade”, “O Desprezo” e “Viva Maria!”. Os cinco são considerados os filmes mais importantes da sua carreira artística.
Segundo a revista Time, a ex-atriz é uma das cem pessoas mais influentes da história da moda.
Referências
https://www.theguardian.com/fashion/2015/jul/10/brigitte-bardot-i-couldnt-wear-lagerfeld-while-feeding-my-goats
http://www.dailymail.co.uk/home/you/article-2815676/Brigitte-Bardot-ve-victim-image.html
http://www.huffingtonpost.com/lauren-kearney/interview-with-brigitte-b_b_9771702.html
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
Ransom Riggs e o conto do filho vegetariano de um fazendeiro
“Quando se deu conta de que a carne das refeições vinha de animais, recusou-se a comer aquilo”

O livro “Contos Peculiares”, do escritor estadunidense Ransom Riggs, é considerado um livro dentro de livros, já que surgiu a partir da série “O Lar da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares”. Como pesquiso sobre direitos animais, vegetarianismo e veganismo na literatura, dos dez contos que fluem com facilidade e fazem o leitor mergulhar em um universo quimérico de possibilidades e impossibilidades, um me chamou mais a atenção. É a história de um jovem bastante sensível que reconhece o direito à vida de todas as criaturas. E por isso, se recusa a comê-las, explorá-las ou puni-las, mesmo sendo filho de um fazendeiro.
Intitulado “O Gafanhoto”, o conto começa narrando a história de Edvard, um homem que deixou a Noruega em busca de prosperidade nos Estados Unidos. Ele passou por tantas dificuldades no passado que decidiu dedicar-se completamente a uma fazenda que comprou no Território de Dakota, na região setentrional da Luisiana.
Recordando-se da experiência vivida por um amigo que se apaixonou, casou, teve filhos e vivia na pobreza, Edvard evitava relacionamentos. Porém, como sentimentos independem de razão ou mesmo querer, o norueguês se apaixonou, casou e mais tarde teve um filho. A criança nasceu com um coração tão grande que um lado do peito era perceptivelmente maior que o outro.
Mas a felicidade gerada pelo nascimento do filho, que trouxe muitas expectativas a Edvard, chegou ao fim quando a esposa fragilizada acabou falecendo após o parto. Tendo de criar o menino sozinho, o fazendeiro sentiu raiva da criança por ela ser especial – estranha e delicada.
Mesmo ciente de que o menino não tinha culpa da morte da esposa, todo o amor de Edvard se transfigurou em amargura. Nem as semelhanças físicas dos dois sensibilizaram o homem, que se sentia incomodado por ter um filho com coração tão imenso que se apaixonava facilmente:
“Aos sete anos, tinha pedido em casamento uma colega de turma, uma vizinha e a organista da igreja, quinze anos mais velha. Se um pássaro por acaso caísse do céu, Ollie passava dias e dias chorando. Quando se deu conta de que a carne das refeições vinha de animais, recusou-se a comer aquilo novamente. O garoto por dentro era pura sensibilidade.”

Quando o menino tinha 14 anos, uma nuvem de gafanhotos que se estendia por quilômetros devorou o capim, o milho e o trigo da localidade. Os insetos arrancaram até a lã dos carneiros. Encarados como a maior ameaça dos últimos tempos, os colonos iniciaram uma guerra contra os gafanhotos, e assim cada cidadão foi obrigado a entregar quinze quilos de gafanhotos mortos por semana. Quem não fizesse isso, seria multado.
Enquanto Edvard cumpria o seu papel, Ollie recusou-se a matar qualquer inseto. O menino via valor na vida de todas as criaturas, inclusive dos gafanhotos, e saía de casa arrastando os pés para não matar nenhum deles. Irritado com o comportamento do filho que lhe custou uma multa, Edvard virou as costas para ele.
Ninguém na cidade conversava mais com o menino, e sentindo-se muito solitário, Ollie fez amizade com um gafanhoto, tornado seu confidente. O inseto, alimentado às escondidas, era mantido embaixo da cama para que Edvard não o visse. “Não é sua culpa que todos o odeiem. Você só está fazendo o que foi criado para fazer”, disse ao gafanhoto que recebeu o nome de Thor. Em resposta, ouviu somente um “Crii-criiic”.
Quando Edvard descobriu que havia um gafanhoto morando sob o seu teto, ele o arremessou na lareira e Ollie chorou depois de ouvir o lamento agudo do seu grande amigo não humano. Expulso de casa, o menino passou a noite no campo até ser encontrado pelo pai. O homem ficou chocado ao reconhecer que o filho se tornou um gafanhoto gigante. Sem saber o que fazer, buscou a ajuda de um velho sábio que possuía um livro justificando a metamorfose:
“Aqui diz que, quando uma pessoa com certo temperamento peculiar e um coração grande e generoso não se sente mais amada pelos de sua própria espécie, ela assume a forma de qualquer criatura com a qual sinta uma conexão maior.”
Edvard então foi informado de que o filho só voltaria a forma normal se fosse realmente amado por alguém. Incapaz de demonstrar o seu amor, e sentindo repulsa por Ollie ter se tornado um dos seres que ele mais desprezava, o homem alardeou por toda a cidade que ele daria a sua fazenda a quem amasse seu filho e o fizesse retornar à forma humana.
O menino em forma de gafanhoto acabou capturado por filhos de colonos. Eles o aprisionaram, mas não conseguiram alcançar o objetivo, pois nenhum deles o amava, nem mesmo o respeitava. Vendido para um velho caçador, o gafanhoto começou a conviver com cães de caça, até que assumiu a forma de um cão. Durante uma caçada, ele soube que sua função era recolher os gansos abatidos pelo caçador.
No dia seguinte, reprovando a atitude do homem, ele fugiu pelo campo com os gansos. Sem saber do paradeiro do filho, Edvard sentiu-se muito mal pela perda de Ollie. Mais tarde, o fazendeiro casou-se novamente e teve uma filha a quem deu o nome de Asgard. A menina, que de tão bondosa era muito semelhante a Ollie, não enfrentou a mesma intransigência por parte do pai, provavelmente porque o homem temia cometer os mesmos erros.
Um dia, tendo somente nabos para comer, o fazendeiro comemorou quando encontrou um ganso no campo, disperso de seu bando. Edvard capturou o animal e o levou para casa, feliz com a possibilidade de um jantar à base de carne de ganso. “Mas nós não precisamos matá-lo. Podemos tomar sopa de nabo outra vez esta noite, eu não me importo!”, insistiu a menina que desabou diante da gaiola do ganso e começou a chorar.
Lembrando-se do filho, Edvard concordou em poupá-lo. Em pouco tempo, o animal tornou-se o melhor amigo de Asgard. E todos respeitavam o seu desejo de não querer vê-lo morto nem ferido. A convivência dos dois e o amor que ela dedicava ao ganso fez com que ele, numa manhã, retornasse à sua forma humana.
Acompanhado de Asgard, o pai ficou extremamente emocionado e perguntou a Ollie se ele poderia perdoá-lo. “Eu o perdoei há anos. Só demorei um pouco para encontrar o caminho de volta para casa”, declarou o rapaz de bom coração.
Ransom Riggs
De acordo com a Editora Intrínseca, Ransom Riggs cresceu na Flórida, mas reside na terra das crianças peculiares, Los Angeles. Formou-se no Kenyon College e na Escola de Cinema e TV da Universidade do Sul da Califórnia, além de fazer alguns curtas-metragens premiados. Nas horas vagas é blogueiro e repórter especializado em viagens, e sua série de ensaios de viagem, Strange Geographies, seu primeiro romance, pode ser lida em ransomriggs.com.
Saiba Mais
“Contos Peculiares”, de Ransom Riggs, foi lançado no Brasil em 2016 pela editora Intrínseca.
“O Gafanhoto” é o oitavo conto da obra.
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
“Se os matadouros tivessem paredes de vidro, todos seriam vegetarianos”
Paul McCartney: “Somente o preconceito permite a qualquer um pensar que existe diferença entre maltratar um gato e maltratar uma galinha, ou maltratar um cachorro e maltratar um porco”

O britânico Paul McCartney é o apresentador de Glass Walls
“Se os matadouros tivessem paredes de vidro, todos seriam vegetarianos” se tornou uma das citações mais populares entre vegetarianos e veganos desde 2009. A frase foi dita pelo compositor britânico Paul McCartney no documentário Glass Walls (Paredes de Vidro), apresentado voluntariamente por ele em uma produção da organização Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais (Peta).
Logo no início, McCartney relata que animais criados para atender a demanda da indústria passam por muitas situações de sofrimento. Exemplo é a realidade de frangos e perus, apontados como os animais que mais sofrem nesse mercado. Ele narra que não é incomum encontrar aves vivendo amontoadas aos milhares em espaços imundos, convivendo inclusive com os próprios excrementos.
Selecionadas geneticamente, elas chegam a crescer tanto em pouco tempo que, incapazes de suportarem o próprio peso, sofrem fraturas e ficam aleijadas. Funcionários mal remunerados também descontam nos animais as suas insatisfações. E isso acontece com frequência porque o trabalho nesses locais não é monitorado, segundo o documentário. “Muitas investigações em abatedouros de frangos e perus revelaram chocantes crueldades que vão além dos usuais abusos”, declara Paul McCartney.
O filme também mostra um vídeo de um homem falando enquanto torce violentamente o pescoço de uma galinha. “Às vezes, elas são difíceis de matar”, comenta com naturalidade. Há locais em que o espaço de confinamento das aves é tão pequeno que elas são incapazes de mover até as asas. Outro triste fato apresentado é que a ponta de seus bicos sensíveis é cortada com uma lâmina quente que provoca muita dor.
Para quem tem dúvidas sobre se essa prática é pontual ou recorrente, é possível encontrar vídeos de pessoas cortando os bicos de galinhas e frangos depois de esquentarem ferramentas na boca do fogão. O que é muito triste, levando em conta que o animal pode ficar até mais de um mês sofrendo em decorrência do corte.
McCartney afirma que frangos e galinhas são animais inteligentes cuja habilidade de raciocinar em alguns casos pode ser superior às habilidades de cachorros e crianças. Frangos e galinhas são também animais muito sociáveis, com uma elaborada ‘ordem de bicagem’ ou sistema de hierarquia social. Ainda assim, muitos são confinadas em gaiolas realmente pequenas durante sua vida inteira.

Documentário mostra a realidade dos animais explorados pela indústria alimentícia
Acredito que todo mundo já viu galinhas ou frangos ocupando espaços minúsculos, sendo transportados por caminhões nas estradas. Então podemos dizer que não é difícil imaginar como esse tipo de confinamento é desconfortável. E se mantido por longos períodos, como acontece em grandes aviários, o confinamento em espaço reduzido gera desgaste dos músculos, além da deterioração e quebra de ossos desses animais, principalmente pela falta de uso, já que eles não têm como se movimentar.
“Seus pés ficam lacerados, e seus corpos machucados e cortados por ficarem em pé em arames durante 18 meses antes de serem enviadas para os matadouros. Ao final de suas miseráveis vidas, galinhas e perus são forçadamente jogados em gaiolas superlotadas e transportados por horas, sob todos os tipos de condições climáticas, sem comida ou água. Nos abatedouros, as pernas dessas aves são enfiadas em grilhões e suas gargantas são cortadas, muitas enquanto estão completamente conscientes”, enfatiza Paul McCartney.
Sobre os porcos, Glass Walls informa que eles são mais inteligentes do que cachorros, e se saem até melhor do que primatas em algumas tarefas, como, por exemplo, em videogames interativos. A justificativa é que suas habilidades cognitivas são superiores às habilidades de uma criança de três anos. Mesmo assim, esses animais não estão isentos de ficarem presos em condições de lotação e imundície.
“Muitos deles enlouquecem com o estresse, abusos e completa falta de estímulos mentais. Porcas reprodutoras são tratadas como máquinas, forçadas a gerar filhos atrás de filhos. Dão à luz em celas áridas, sem espaço para que cuidem dos filhotes. Leitões doentes ou muito pequenos são rotineiramente mortos”, lamenta McCartney.
O filme mostra cenas chocantes de um funcionário de um abatedouro matando um porquinho a pancadas. Um sujeito que não aparece ri e comemora. O compositor britânico denuncia que as condições vividas por muitos desses animais são tão ruins que a morte de porcos em decorrência de doenças é considerada aceitável pela indústria.
“Eles são selecionados para crescer de forma anormalmente rápida, o que provoca lesões, doenças e dor constante. Depois são submetidos a um transporte massacrante antes de serem abatidos. A insensibilização por choque elétrico não é confiável, o que significa que muitos porcos estão conscientes enquanto suas gargantas são cortadas”, revela o apresentador.

O filme tem duração de apenas 13 minutos
De acordo com o professor e renomado biólogo britânico Donald Broom, da Universidade de Cambridge, vacas e bois nunca esquecem um rosto ou lugar. São animais com habilidades para resolver problemas complexos. Em suas pesquisas, Broom registrou que bovinos são tão dóceis que chegam a saltar no ar quando descobrem a solução para um problema. Ainda assim, são vistos apenas como matéria-prima para a produção de carnes e laticínios.
Outra informação pouco divulgada é que para ampliar a produção de carne e leite, os produtores alimentam as vacas com uma dieta não natural, gerando desconforto e dor ao animal. Durante o inverno em locais frios, não é tão incomum encontrar bovinos amontoados em galpões imundos e congestionados, o que lembra o mesmo regime de confinamento de aves e suínos. O que muita gente ignora, e também é defendido pelo documentário, é que as vacas produzem leite para os bezerros, não para seres humanos. E o que reforça essa afirmação é que para as vacas não pararem de produzir leite, elas são mantidas grávidas ou em fase de amamentação a maior parte de suas vidas.
As vacas leiteiras do mundo real não são como a “Maiada” do Chico Bento. Uma vaca pode chegar a vinte anos se for bem tratada, mas quando exploradas muitas morrem aos seis anos, e em regime de exploração contínua, o que gera um grande desgaste psicológico e emocional. O filhote é afastado da mãe logo após o nascimento, causando grande estresse aos dois.
“Hoje em dia, nas fazendas leiteiras, as vacas são tratadas como máquinas de leite. Algumas são geneticamente manipuladas para produzir dez vezes mais leite do que seus bezerros mamariam naturalmente. Algumas vezes por dia, elas são conectadas a máquinas, o que pode causar uma dolorosa mastite por ordenha repetitiva. Quando elas não são mais úteis como produtoras de leite, são levadas ao matadouro para serem moídas e transformadas em hambúrgueres e em matéria-prima para sopas industrializadas”, assinala Paul McCartney.
Outra etapa dolorosa é a viagem de vacas até os matadouros. Muitas delas, fragilizadas pelo desgaste decorrente dos anos dedicados à produção de leite, morrem no caminho. Antes de serem mortas, elas passam pelo sistema de insensibilização que, assim como acontece com os porcos, não é realmente eficaz e pode intensificar a agonia e o desespero das vacas diante da morte. “Os abates religiosos são, no mínimo, tão cruéis quanto os métodos de abate convencionais. A carne desses animais é certificada como kosher pela União Ortodoxa, a maior certificadora kosher do mundo”, pontua McCartney.
Outro importante aspecto elencado pelo documentário é a realidade dos animais aquáticos. Paul McCartney ressalta que peixes têm tanto direito à vida quanto outros seres vivos, pois há um consenso científico de que eles são inteligentes; têm diferentes personalidades individuais e memórias sofisticadas.

McCartney: “Sofrimento é sofrimento, não importa como você o provoque”
“Não como ninguém que eu tenha conhecido pessoalmente. Eu não comeria deliberadamente uma garoupa mais facilmente do que eu comeria um Cocker spaniel. Eles têm uma índole tão boa, tão curiosa. Você sabe, peixes são sensíveis. Eles têm personalidade, sofrem quando são feridos. Também sentem dor do mesmo jeito que mamíferos”, constatou a renomada bióloga estadunidense Sylvia Earle. Mesmo com tantas informações disponíveis sobre a natureza dos peixes, todos os anos eles são mortos aos bilhões.
Quando centenas de toneladas de peixes são capturados em redes de pesca, é comum os animais sofrerem em consequência da descompressão, sufocamento ou esmagamento. Nesse tipo de pesca, geralmente pega-se “acidentalmente” golfinhos, baleias, tartarugas e outros animais indesejados por parte da indústria. “São todos rotineiramente fisgados por anzóis e emaranhados em redes. [Quando indesejados] Seus corpos são jogados de volta ao oceano”, acrescenta McCartney, ponderando que alguns cientistas ambientais acreditam que nesse ritmo os oceanos estarão vazios até o ano de 2048.
Em Glass Walls, a aquacultura e as criações industriais subaquáticas também são qualificadas como extremamente abusivas, já que não é tão incomum os peixes terem de nadar entre seus próprios dejetos em tanques congestionados e até contaminados. “As doenças prosperam. As condições em algumas fazendas são tão horríveis que 40% dos peixes morrem antes mesmo dos criadores matá-los e empacotá-los como comida”, critica Paul McCartney.
Outro fator a se considerar é que, segundo o documentário, o consumo de peixes é a causa número um de intoxicação alimentar, e o único meio realmente significativo dos seres humanos estarem expostos à intoxicação por mercúrio, o que, dependendo da quantidade, pode causar problemas neurológicos.
Para Paul McCartney, não importa se a carne consumida pelos seres humanos é de um animal de quatro pernas, duas ou nenhuma. No seu entendimento, todas as carnes são vermelhas, em referência ao sangue derramado. O apresentador cita o surgimento de novas doenças em decorrência da produção moderna de carne, entre as quais a doença da vaca louca, Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars) e gripe aviária.
“Produtos de origem animal estão constantemente contaminados por bactérias como campylobacter, salmonela e E. Coli. O consumo de carne animal, que está cheio de gorduras e colesterol, é também um dos principais responsáveis pelo aumento vertiginoso de pessoas com obesidade, doenças cardíacas e câncer.
Por outro lado, vegetarianos correm menos riscos de contraírem doenças, o que para o compositor britânico Paul McCartney é um grande motivo para abdicarmos dos alimentos de origem animal.
“E se você se preocupa com o meio ambiente, por favor, saiba que de acordo com cientistas da ONU [Organização das Nações Unidas], o consumo mundial de carne gera cerca de 40% mais gases do efeito estufa do que a soma dos gases emitidos por todos os transportes do mundo. O relatório da ONU também afirma que comer carne é uma das maiores contribuições à degradação de terras, escassez de água e poluição do ar e da água. Se nos preocupamos com o meio ambiente, tirar a carne da nossa dieta é a ação mais importante que podemos tomar”, recomenda McCartney.
Ao final, o apresentador diz que somente o preconceito permite a qualquer um pensar que existe diferença entre maltratar um gato e maltratar uma galinha, ou maltratar um cachorro e maltratar um porco. Sofrimento é sofrimento, não importa como você o provoque. Ademais, não tenho dúvida de que o mercado da exploração animal é um dos negócios mais lucrativos da história da humanidade. Afinal, os animais não ganham nada para serem torturados e mortos. Como isso pode não ser um grande exemplo de injustiça?
Saiba Mais
Lançado em 2009, o controverso filme de curta-metragem tem apenas 13 minutos de duração.
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
Tim McIlrath: “Foi como se eu não tivesse mais estômago para isso [comer carne]”
“Eu era um cara do tipo: ‘Foda-se isso. Nunca vou parar de comer carne.”

McIlrath teve um choque de realidade ao receber informações sobre a exploração de animais (Foto: Reprodução)
O vocalista e guitarrista da banda estadunidense de hardcore melódico Rise Against, Tim McIlrath, contrariando todas as possibilidades, já que ele se via como alguém que jamais abandonaria o consumo de carne, tornou-se vegetariano. Isto porque acidentalmente McIlrath teve um choque de realidade ao receber informações sobre a exploração de animais na indústria alimentícia.
Em entrevista a Big D, do zine The Black & Blue Press, ele contou que aos 17 anos saiu para comprar um CD e uma camiseta quando alguém colocou um panfleto sobre a exploração de animais em seu bolso. À época, ele não via o vegetarianismo com bons olhos, mas ainda assim teve uma reação inesperada.
”Eu era um cara do tipo: ‘Foda-se isso. Nunca vou parar de comer carne.’ Esse panfleto ficou no meu bolso por dias. Até que um dia, enquanto eu esperava o ônibus, senti algo no bolso e pensei: ‘O que é essa porcaria?’ Então comecei a ler e de repente: ‘Puta merda!’ […] Foi como se eu não tivesse mais estômago para isso. Era como colocar um garfo na minha boca e eu ficar: “Aaaaah, não posso comer isso mais’ Então me tornei vegetariano e nunca mais olhei para trás”, relatou em entrevista a Big D em outubro de 2006.
O panfleto que fez McIlrath abandonar o consumo de carne foi criado pela organização Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais (Peta). Segundo o músico, clipes como “Meat is Murder”, do The Smiths, e bandas como Earth Crisis e Snapcase fortaleceram ainda mais a sua decisão, assim como vídeos da realidade dos matadouros e livros sobre como os animais não humanos são tratados pela indústria alimentícia.
Em entrevista ao expert em punk rock Ryan Cooper, do portal About.com, o vocalista da banda Rise Against citou a baixa qualidade dos produtos de origem animal e qualificou como nojento o sistema de produção de carnes e laticínios. “Não tive mais estômago e condição física para seguir adiante. […] Agora me sinto responsável em passar isso para as próximas gerações, assim como outras bandas fizeram antes”, disse a Cooper. Tim McIlrath realiza campanhas voluntárias para a Peta, visando incentivar principalmente os jovens a aderirem ao vegetarianismo ou ao veganismo.
Referências
http://punkmusic.about.com/od/interviews/a/McIlrath.htm
http://theblackandbluepress.blogspot.com.br/2006/10/interview-rise-against-tim-mcilrath-joe.html
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
A mão que acaricia e envia para a morte
Ao longo dos anos, algumas vezes testemunhei pecuaristas acariciando a cabeça do gado, posando para fotografias que estampariam matérias publicadas em jornais. Dóceis, os animais mantinham-se em silêncio, acatando todas as ordens. Esses mesmos animais que receberam afagos de seus “donos”, mais tarde foram enviados para os matadouros. Eu jamais seria capaz de acariciar um animal e depois enviá-lo para a morte. Não consigo associar isso a algo que não seja traição. Este é o mundo em que vivemos, e normal é aquele que vê beleza nesse tipo de foto no jornal.
Muitos assassinos foram antes torturadores de animais
Em 1872, o teólogo e exegeta (intérprete religioso) alemão David Strauss publicou o livro “Der alte und der neue Glaube”, que significa “A Velha e a Nova Fé”. Na obra, ele registrou que a história da violência e da criminalidade mostra que muitos torturadores e assassinos foram antes torturadores de animais. Para Strauss, a forma como uma nação trata outras espécies é um medidor do seu nível real de civilidade.
Minha mãe, exploração animal e “A Fuga das Galinhas”
Conversando com minha mãe, ela comentou que o primeiro filme que a fez refletir sobre a exploração animal na indústria foi “A Fuga das Galinhas”, no ano de 2000. Fiquei imaginando quantas pessoas não saíram do cinema naquele ano e foram diretamente para algum fast food comemorar “A Fuga das Galinhas” comendo pedaços dos personagens.
Um camarada me falou que jamais deixaria de comer carne…
Um camarada me falou que jamais deixaria de comer carne porque seria muito difícil ganhar massa muscular. Além de dizer que isso não é verdade, já que o ganho de massa muscular depende de uma combinação de fatores, não especificamente do consumo de carne, acrescentei o seguinte:
— Digamos que hipoteticamente você esteja certo. Agora vamos avaliar isso sob uma perspectiva moral. Você quer dizer então que os animais merecem morrer simplesmente para você ganhar músculos? Sabemos que roubar é um meio mais fácil de ganhar dinheiro, mas nem por isso eu e você cometemos crimes, não é mesmo? Chamo isso de baliza moral, porque acredito que matar um animal para reduzi-lo à comida não deixa de ser um tipo de roubo, já que para que você possa comer carne alguém antes roubou a vida de um animal. Afinal, um animal não simplesmente se ofereceu para tornar-se comida, logo houve empenho de força e violência, sendo assim, um roubo.
— Mas essa perspectiva é dissemelhante, porque quem envia esses animais para o matadouro investiu tempo e dinheiro, logo merece ter o seu retorno.
— Pais também criam seus filhos, e investem tempo ou dinheiro, ou os dois dependendo do exemplo, mas isso não dá a eles o direito de explorar, violentar ou matar seus filhos. Talvez isso pareça visceral para quem está imerso em uma prospectiva homocêntrica. Porém, esperar retorno financeiro tendo a morte como premissa não me parece nem de longe algo moralmente apropriado, mesmo quando não falamos de seres humanos. Afinal, alguém será privado precocemente de existir.
O teste ergométrico
Como faço todos os anos, fui até a clínica cardiológica fazer o teste ergométrico, e quando terminei ainda tinha pique para ir um pouco além. O técnico me disse que de centenas de pessoas que passam pela clínica anualmente, não mais do que dez conseguem chegar até o final do teste ergométrico. Recebi vários parabéns da equipe da clínica. E há outro ponto a se considerar, o fato de que sou vegano. Enquanto muitos usam a desculpa de que é impossível garantir força, resistência e massa muscular sem carne, laticínios e ovos, eu continuo rendendo muito bem nas atividades físicas; e simplesmente porque eu quero e me empenho para isso.
Para Tolstói, o ser humano não deve fingir ignorância sobre o sofrimento dos animais reduzidos a alimento
“Para nada serve, a não ser para desenvolver os sentimentos bestiais, a luxúria, a gula, a embriaguez”

Tolstói via a carne como uma excitadora das piores paixões (Foto: Reprodução)
Em 1892, o escritor russo Liev Tolstói escreveu que quando uma pessoa decide buscar o mais sincero caminho moral, o primeiro passo é a abstinência do consumo de carne, já que o consumo dela é um ato imoral, porque envolve o assassinato de um animal. Tolstói via a carne como uma excitadora das piores paixões, porque é algo que facilmente provoca a gula e a voracidade.
Para o escritor russo, a carne afasta o ser humano de uma série de virtudes. Por isso, ele defendia que quando uma pessoa busca evoluir ou se tornar um ser humano melhor uma importante decisão é abandonar o alimento de origem animal. O que não significa que apenas quem não come nada de origem de animal seja bom.
“Quero somente demonstrar que, para conseguir levar uma vida moral, é indispensável adquirir progressivamente as qualidades necessárias, e que de todas as virtudes, a que primeiro há que conquistar é a sobriedade, a vontade de dominar as paixões. Tendendo à abstinência […], a primeira virtude será a sobriedade na alimentação, o jejum relativo”, registrou o russo no ensaio “O Primeiro Passo”, em referência à alimentação de origem animal.
Segundo Liev Tolstói, o ser humano não deve fingir ignorância sobre o sofrimento dos animais reduzidos a alimento, e deve buscar entender as implicações de suas ações, mesmo que indiretas, no que diz respeito à exploração dos animais não humanos. Sobre o consumo de alimentos de origem animal, ele criticou: “Se pelo menos fosse necessário, ou sequer útil, mas não! Para nada serve, a não ser para desenvolver os sentimentos bestiais, a luxúria, a gula, a embriaguez.”
O escritor declarou que uma quantidade incontável de galinhas e frangos são sacrificados diariamente nas cozinhas, com suas cabeças cortadas e jorrando sangue enquanto estremecem e batem as asas de maneira terrível; e simplesmente para satisfazer um prazer efêmero e nefasto. Ainda assim, muitas pessoas tentam justificar a morte desses animais citando a garantia da própria saúde como parâmetro.
Há quem afirme que não seria capaz de suportar uma alimentação exclusivamente vegetal, e que por ter um débil organismo a carne é essencial. Por outro lado, se diz sensibilizado com a realidade dos animais, alegando inclusive a impossibilidade de testemunhar qualquer privação ou sofrimento animal. Para Tolstói, se uma pessoa está com a saúde debilitada e julga ser impossível viver sem carne, o maior erro subsiste no fato de que na verdade essa pessoa tem problemas de saúde exatamente por nutrir-se de alimentos contrários à natureza humana, ou seja, de origem animal.
Referência
Tolstói, Liev. O Primeiro Passo (1892).
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar: