David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Aceitação e rejeição à exploração animal e propaganda

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Faltou carne no açougue (versão reduzida)

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Diante do balcão, Luiz acenou para o açougueiro Nino e pediu um quilo de coxão mole.
— Não tem, o senhor me desculpe.
— Como assim? Nunca faltou coxão mole aqui.
— Então me vê alcatra.
— Também não tem.
— Pode ser patinho.
— Também não.
— O que você tem de carne aí, afinal?
— Nada.
— Nada?
— Isso mesmo.
— Então por que diabos o açougue está aberto?
— Aqui vai ser açougue ainda, mas sem carne. A gente iria fechar até receber a mercadoria, mas o patrão mandou deixar aberto, pra freguesia ir se acostumando.
— Se acostumando com quê?
— Com a falta de carne.
— Você é louco? Açougue sem carne não é açougue.
— Vossa opinião.
— Como?
— Isso mesmo.
— Isso não existe, amigo. Nunca me acostumaria com isso. Onde já se viu açougue sem carne?
— Se o senhor diz, mas tem gente que não está reclamando da mudança.
— Eu não sou os outros.
— Ok…
— Logo mais chega bastante variedade de frutas, legumes, verduras. O senhor gosta de batata beauregard? Chega hoje mesmo.
— E daí, amigo? Por acaso, eu lá quero saber disso?
— Mais opções para o seu paladar, para a sua saúde e para a saúde dos bichos.
— Você acha que tenho cara de quem vai parar de comer carne?
— Aí não sei. Cara não costuma dizer muita coisa, a não ser quando alguém abre a boca, né?
— Você tá de sacanagem comigo, rapaz! Você acha que sou coelho pra comer folha?
— Não, mas dizem que é boa fonte de minerais, fibras e vitaminas.
— Não interessa! Não vim aqui pra isso. Meu negócio é carne, proteína de verdade! Olhe, rapaz, diga ao seu patrão que nunca mais piso os pés aqui. Vocês perderam um cliente de longa data.
Nino ficou em silêncio e assistiu a partida do freguês enquanto uma de suas mãos percorria o balcão com uma flanela. Luiz hesitou por instante. Parou sobre a soleira, bateu com zanga a sola da botina, apontou o dedo cominador em direção ao balcão sem carne, mordeu os lábios inferiores e logo desapareceu.
— Esse aí é capaz de matar um por causa de um pedaço de carne – monologou Nino na sua típica fleuma.
De volta aos afazeres, abriu uma caixa recém-chegada e começou a mimosear uma porção de maçãs. Ele sorria para elas, e elas sorriam para ele – maçãs felizes – com carinhas e tudo o mais.
Vocês vão fazer alguém muito feliz – comentou Nino admirando o rubor das maçãs.





 

Uma visita a Seu Antonio

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Foto: David Arioch

Hoje de manhã, visitei um amigo, o artista plástico Antonio de Menezes Barbosa, que trabalha principalmente com arte rústica. É um sujeito único, que sempre tem muitas histórias para me relatar sobre os tempos de colonização. O conheci por acaso em 2009 quando eu estava pesquisando sobre esculturas baseadas em aproveitamento e reaproveitamento de matérias.

Posso afirmar que não conheço pessoa que entende mais de árvores do que o Seu Antonio. Para se ter uma ideia da singularidade do seu trabalho, ele recolhe pedras, galhos e restolhos de madeira que seriam descartados e os transforma em obras de fruição, decoração ou utilitárias. Tem uma sensibilidade destacável.

Às vezes, ele simplesmente observa algo caído no chão e já imagina no que aquilo pode se transformar. Não apenas imagina, como idealiza e materializa. Há alguns anos, ele fez uma réplica do 14-Bis, de Santos Dumont, obra que viajou pelo Paraná.




 

Written by David Arioch

January 22nd, 2018 at 6:48 pm

Sobre trabalhar de graça

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Toda semana, recebo propostas para produzir conteúdo. O problema é que muitas dessas propostas são de produção gratuita de conteúdo. Ou seja, querem que eu produza conteúdo de graça. Sei que algumas dessas pessoas não têm condições de pagar por tal serviço, embora outras realmente não se importam em lucrar em cima do trabalho dos outros sem pagar por isso.

Sim, se eu pudesse eu trabalharia de graça o tempo todo, mas a verdade é que eu já realizo bastante trabalho independente e voluntário. Quem me conhece, sabe muito bem disso. Não passo um dia sem realizar alguma atividade profissional que não me traga retorno financeiro. Um exemplo é o meu trabalho produzindo conteúdo sobre veganismo e direitos animais, além das minhas receitas. Fora os trabalhos sociais que realizo quase sempre sem apoio. Sendo assim, quando uma pessoa pede que eu escreva de graça, ela está dizendo: “O seu trabalho é bom, mas não vou pagar por ele.”

Bom, não sou estagiário do curso de jornalismo. Trabalho profissionalmente como jornalista há 12 anos. Sendo assim, posso dizer que tenho alguma experiência e já passei da fase de buscar aprovação para ser pago pelo que faço. Claro, já produzi bastante conteúdo gratuito para os outros. Se for algo realmente necessário, ainda faço isso dependendo do caso.

Sim, há pessoas que produzem conteúdo de graça para os outros. Mas muitos não são profissionais da escrita. São pessoas que escrevem eventualmente ou que têm a escrita como algo secundário, logo a fonte de renda delas não é escrever. Jornalistas escrevem diariamente e ganham para escrever porque foram qualificados para isso.

Quando se trata de freelance, ganhamos por laudas, quantidade de caracteres, despesas envolvidas no processo de produção; há uma série de fatores que devem ser levados em conta quando se quer que um jornalista produza algum tipo de conteúdo. Então quando as pessoas insistem em dizer que não custa nada escrever um texto de graça, ainda mais sem ponderar sobre a realidade desse profissional, elas o estão desrespeitando; e muitas vezes nem se dão conta disso. Tanto que há aqueles que torcem o nariz diante da recusa e talvez até falem mal de você.





 

Written by David Arioch

January 22nd, 2018 at 1:41 pm

O que você faria se alguém disponibilizasse um livro seu para ser baixado gratuitamente?

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Foto: Reprodução

Vi que você fez divulgação de um site que compartilha livros gratuitamente. Agora me tire uma dúvida. O que você faria se alguém disponibilizasse um livro seu para ser baixado gratuitamente?

Eu não faria nada. A ideia de comercializar um livro meu não tem relação com uma imposição ou com uma prerrogativa de limitação ou balizamento de conteúdo. Não existe esse atrelamento entre acesso e pagamento. Se comercializo um livro, é partindo da ideia de uma atribuição voluntária de valor.

Por exemplo, muito do que faço está na internet, disponível para quem quiser, sejam meus textos ou minhas receitas. Tenho uma consciência que não tem nada a ver com essa consciência tradicional de mercado. Dissemino primeiro o conteúdo e depois transformo isso em algo, possibilitando que as pessoas possam comprar o que produzo.

Claro, se elas julgarem que vale a pena. Sendo assim, elas pagam se considerarem válido. E não pagam também se não considerarem. Até quem não quer pagar pode ter acesso ao que produzo, já que continuo gerando conteúdo regularmente e disponibilizando em meio virtual.

Inclusive acho legal a ideia da publicação do livro físico, mas não me importo tanto com ela. Claro que é interessante ter um livro em mãos, há algo de palpável nisso que é significativo aos nossos sentidos, ao mesmo tempo que nos envaidece. Porém, isso não é uma prioridade, não é algo que faça tanta diferença para mim. Além do custo, às vezes penso também na possibilidade do impacto ambiental desse trabalho. A verdade é que basicamente estou aqui para compartilhar informações e isso independe de meio.

Se vou ganhar alguma coisa ou nada produzindo determinado conteúdo, isso depende de uma série de fatores, mas quero continuar compartilhando, se possível. Para se ter uma ideia, muitas das minhas receitas estão registradas, e sei que há pessoas que usam algumas para ganharem dinheiro, de acordo com relatos de conhecidos e amigos.

E o que acho disso? Desde que ninguém seja prejudicado, acho muito bom! Se eu não achasse, isso significaria que a minha preocupação estaria mais voltada para o meu ego do que para a minha intenção que é dividir o que sei com os outros. Por isso, digo que me vejo mais como um compartilhador.





 

Written by David Arioch

January 21st, 2018 at 10:43 pm

Esses dias me perguntaram o que eu acho do Paulo Coelho

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Tratando-se de literatura, e o meu gosto não é baliza do que é bom ou ruim (Foto: Reprodução)

— Acho que o Paulo Coelho é um escritor que se propôs a fazer o trabalho que está fazendo e se tornou bem-sucedido nesse nicho. Não endosso nenhuma opinião ou posição ofensiva ou desdenhosa em relação a ele. Particularmente, tenho predileção por outro tipo de literatura, mas reconheço que ele tem os méritos dele.

Existe algo que chamam de “literatura comercial”, que é o que as pessoas mais consomem no mundo todo se tratando de literatura, e isso, claro, é encabeçado por best-sellers que podem ter sido ou não planejados pensando em vendagem e alcance de um grande público.

No entanto, não cabe a mim dizer se uma pessoa escreve algo estritamente para vender, porque acredito que dificilmente uma pessoa se dedicaria a produzir qualquer tipo de literatura se aquilo não despertasse nela nenhum tipo de gáudio, ou anseio de externalizar uma manifestação conscienciosa em algum nível, seja rasa ou profunda na interpretação subjetiva ou não de alguém.

Um autor que vende muitos livros pode até ter seu trabalho desconsiderado no que diz respeito ao enredo, estrutura, linguagem, etc. Mas se ele alcançou popularidade, no mínimo responde aos anseios culturais de um público bem diverso. Agora se isso acrescenta algo na vida do leitor, isso eu não sei dizer, porque sou apenas um leitor em meio a uma miríade, e minha opinião ou posição não é universal.

Por isso, sempre acho crítica literária algo perigoso quando o autor imprime pessoalidade em vez de avaliar uma obra ponderando sobre o meio, o contexto ao qual ela pertence. Se isso acontece, o que temos diante de nós não é exatamente uma crítica, mas um emaranhado de opiniões e impressões que passam uma ideia de “não gosto desse autor porque ele não corresponde aos meus anseios”, e isso não é muito profissional.

Ao longo da minha vida, li pouco ou quase nada de fantasia, principalmente da adolescência em diante. De terror, se você se refere a Edgar Allan Poe e H.P. Lovecraft, sim, li consideravelmente. Talvez eu poderia citar também alguns autores clássicos como John Polidori, Mary Shelley e Bram Stoker; e alguns outros mais contemporâneos como Guy Endore, Stephen King, Clive Barker e Anne Rice, de quem não conheço profundamente o trabalho também. E se me perguntar sobre autores das novas gerações, simplesmente acho que eu não saberia citar nenhum nome.

Não nego que há muita coisa relacionada à literatura que não desperta a minha atenção, e está tudo bem. Ademais, isso não significa que o que não leio não tenha nenhum valor. Se uma obra do chamado “pior autor do mundo” proporciona algo de bom aos leitores, na minha opinião isso é relevante. Borges, por exemplo, passou boa parte de sua vida lendo os mesmos livros, ainda que diante de uma imensa biblioteca. Ele nem mesmo se considerava um grande leitor tratando-se de diversidade literária. Afirmava que pouco ou quase nada conhecia da literatura contemporânea. Nem por isso dedicava tempo falando mal de autores ou os desmerecendo.

U sintezi, o que quero dizer com isso tudo é que o meu gosto não é baliza do que é bom ou ruim. É basicamente o meu gosto, e ele fala essencialmente sobre mim, não sobre os autores que leio ou não leio.

 





 

Written by David Arioch

January 21st, 2018 at 2:03 pm

16 livros disponíveis gratuitamente no Le Livros para repensarmos nossas relações com os animais

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Como usuário de Kindle, frequentemente navego por livrarias e outros sites em busca de alguma novidade literária ou de algo relevante se tratando de livros digitais; até pela comodidade em ler principalmente quando estou fora de casa. Foi em uma dessas buscas que tive a ideia de dedicar um tempinho a reunir em um texto 16 livros disponíveis gratuitamente no site Le Livros. São obras que nos levam a refletir sobre as nossas relações com os animais não humanos. Há narrativas ficcionais e obras de caráter filosófico, jornalístico e científico de autores brasileiros e estrangeiros. Em menor ou maior proporção, todos têm algo a acrescentar à discussão e à percepção sobre os direitos animais.

“Comer Animais”, de Jonathan Safran Foer

Jonathan Safran Foer discorre sobre o mundo da criação intensiva de aves, porcos e bois, assim como a pesca em larga escala e suas implicações. Após três anos de pesquisas, o resultado é um panorama revelador que mostra que o preço relativamente acessível dos produtos de origem animal só foi possível por causa da intensa violência e do tratamento cruel que dispensamos aos animais no regime industrial.

“De Gado a Homens”, de Ana Paula Maia

Edgar Wilson é um ex-carvoeiro que trabalha em um matadouro de gado em que a carne é destinada à produção de hambúrgueres que nunca experimentou. Exercendo com perícia a função de atordoador, o responsável pelo abate se vê, junto de seu chefe e de outros funcionários, surpreso diante da morte inesperada de animais e dos questionamentos despertados por tais eventos, até então considerados impossíveis.

“A Hora dos Ruminantes”, de José J. Veiga

Conta a história da pequena cidade de Manarairema, que é tomada por cães, que chegam às dúzias no vilarejo, causando uma inversão de papéis. Enquanto os moradores ficam acuados em suas casas, os animais passeiam livremente pela cidade. E, por último, a chegada de centenas de bois completa o quadro alegórico do romance.

 “Eles Sempre Estarão ao Seu Lado”, de Teresa J. Rhyne

O que levaria uma advogada amante de queijos e carnes a se tornar vegana? A reflexão despertada pelo amor por seu companheiro canino. Teresa Rhyne e Seamus, o beagle, sobreviveram ao câncer uma vez, então, quando Seamus desenvolve outro câncer, Teresa embarca em uma intensa jornada de mudanças. Quando ela se depara com outros dois cachorros que precisam de ajuda, incluindo um que foi resgatado de testes com animais, virar as costas parece impossível diante de toda a crueldade que ela descobre.

“Canto de Muro”, de Luís da Câmara Cascudo

O livro pode ser definido como um deslavado namoro com a natureza e reverência pelas espécies animais menos prestigiadas pelo bicho humano: ratos, cobras, escorpiões, morcegos, aranhas, baratas “profissionalmente famintas”, formigas, besouros, o grilo “solitário e tenor”, o sapo “orgulhoso, atrevido e covarde na classe musical dos barítonos”, as lagartixas, muito educadas, balançando “as cabecinhas triangulares concordando com tudo”, todo o povinho miúdo que vive nos quintais das velhas casas, nos cantos de muro, entre trepadeiras, tijolos quebrados, e um tanque, no qual vão se abeberar os bem-te-vis, os xexéus, as lavadeiras de casaca preta.

“Caninos Brancos”, de Jack London

Parte lobo, parte cão, Caninos Brancos é vendido por um índio ao perverso Beleza Smith. Sofrendo mil tormentos, o animal aprende que para sobreviver é preciso adaptar-se sempre e sempre. Nesta aventura clássica, Jack London mais uma vez traça um empolgante paralelo entre bicho e homem, natureza e civilização.

“Elizabeth Costello”, de J.M. Coetzee

A consagrada romancista australiana Elizabeth Costello, personagem criada por J. M. Coetzee, já havia protagonizado “A Vida dos Animais”, livro em que profere duas conferências sobre a crueldade com que são tratados os animais não humanos. Em “Elizabeth Costello”, ela vive um novo conflito e o assunto volta a ser rediscutido em um capítulo.

“Desonra”, de J.M. Coetzee

Embora “The Lives of Animals” e “Elizabeth Costello” tenham se popularizado nesse aspecto, a discussão em torno dos direitos animais na literatura de J.M. Coetzee começou modestamente com o romance “Desonra”, em que os animais ocupam papel consideravelmente proeminente, ainda mais quando o protagonista decide realizar trabalho voluntário em um local onde cuidam de animais enfermos e abandonados.

“A Mulher que Matou os Peixes”, de Clarice Lispector

“A mulher que matou os peixes infelizmente sou eu”, afirma Clarice Lispector confessando o “crime” que cometeu sem querer. E para explicar como tudo aconteceu, ela escreveu uma história de compreensão e afeto para com pessoas e bichos. Clarice conta sobre todos os bichos de estimação que já viveram em sua casa. Os que vieram sem ser convidados e foram ficando, e os que ela escolheu para criar, e que foram muitos: uma lagartixa que comia os mosquitos e mantinha limpa a sua casa, cachorros brincalhões, uma gata curiosa, um miquinho esperto, vários coelhos…

 “O Grande Ivan”, de Katherine Applegate

Ivan é um gorila que há 27 anos vive com outros animais em um cativeiro em um shopping. Impedido de sair de um espaço reduzido, as suas únicas distrações são uma TV velha, uma piscina suja e um balanço de pneu.

“A Evolução de Bruno Littlemore”, de Benjamin Heale

Bruno Littlemore é um chimpanzé nascido no zoológico de Chicago, e logo transportado a um laboratório, onde fica sob os cuidados da primatóloga Lydia Littlemore. Como nasceu distante da natureza, o animal que tem uma inteligência muito acima da média não sabe como lidar com seus instintos mais primitivos.

 “O Estranho Caso do Cachorro Morto”, de Mark Haddon

Christopher John Francis Boone gosta de animais, mas não entende nada de relações humanas. Um dia, christopher encontra Wellington, o cachorro da vizinha morto no jardim. É acusado de assassinato e preso. Depois de uma noite na cadeia, decide descobrir quem matou o animal. Então escreve um livro relatando suas investigações.

“Zoo”, de James Petterson

Uma misteriosa doença começa a se espalhar pelo mundo. Inexplicavelmente, animais passam a caçar humanos e a matá-los de forma brutal. A princípio, parece ser algo que se dissemina apenas entre as criaturas selvagens, mas logo os bichos de estimação também mostram as suas garras e as vítimas se multiplicam.

“A Criação”, de Edward O. Wilson

“A Criação” é um apelo para que deixemos o embate entre religião e ciência de lado para podermos salvar a vida no planeta, que nunca esteve tão ameaçado. Valendo- se de suas experiências como um dos biólogos mais destacados no cenário mundial, Edward O. Wilson prevê que, até o final do século, pelo menos a metade das espécies de plantas e animais da Terra poderá ter desaparecido, ou estará a caminho da extinção precoce.

“O Ano do Dilúvio”, de Margaret Atwood

Pensamentos uniformes, comportamentos programados, regimes de exceção, controle social, experiências genéticas e a luta por uma sobrevivência cada vez mais em risco pelo desrespeito à natureza compõem “O ano do dilúvio”, romance pós-apocalíptico da escritora canadense vegetariana Margaret Atwood.

“Os Elementos da Filosofia Moral”, de James Rachels

Abordando os temas centrais da filosofia moral de forma clara e despretensiosa, o autor guia o leitor pelos labirintos fascinantes de problemas, teorias e argumentos relacionados com o modo como devemos viver a vida. Um dos aspectos mais destacáveis da obra é a integração de diversos problemas de ética aplicada, como a eutanásia e os direitos animais.

Séneca: “Resolvi abster-me do consumo de carne e, no final de um ano de abstinência, foi tão fácil quanto prazeroso”

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“Insaciável, insondável, a gula procura cada terra e cada mar”

“Eu simplesmente me privo da comida dos leões e dos abutres. […] Nós só reconhecemos o som da razão quando nos separamos da multidão (Arte: Peter Paul Rubens)

Lúcio Aneu Séneca, mais conhecido como Séneca, foi um importante filósofo do Império Romano, dramaturgo de prestígio, conselheiro do imperador Nero e um dos homens mais influentes de seu tempo. Na juventude, ele teve contato com a filosofia por influência de Átalo O Estoico, Sotion e Papírio Fabiano que faziam parte da escola filosófica criada por Quinto Séxtio, combinando pitagorianismo e estoicismo.

Em “Epistulae Morales ad Lucilium”, ou “Epístolas de Séneca” ou “Cartas a Lucílio”, Séneca narra que ele decidiu abdicar do consumo de animais no início dos seus 20 anos por influência de Sotion. Costumava dizer-lhe por que Pitágoras se absteve de consumir animais, e por que, mais tarde, ele também fez isso.  “[Já] Séxtio acreditava que o homem tinha opções o suficiente sem precisar recorrer ao sangue, e que um hábito de crueldade é formado sempre que o abate é praticado por prazer. Além disso, ele concluiu que deveríamos restringir as nossas ‘fontes de luxo”, argumentando que uma dieta variada era contrária às leis da saúde e não era adequada às nossas constituições.”

Mais tarde, Séneca começou a despertar atenção negativa, porque no império de Tibério César seus hábitos passaram a ser comparados aos de seguidores de religiões estrangeiras, como os cristãos. “Motivado pelo pitagorianismo, Séneca tornou-se um vegetariano estrito. Quando Séneca O Ancião descobriu o novo entusiasmo de seu filho, ele o advertiu sobre as responsabilidades da vida pública ao ser visto como um excêntrico”, consta na página 20 do livro “Seneca: The Tragedies”. Naquele tempo, os primeiros cristãos tinham hábitos vegetarianos e partilhavam da compaixão por todas as criaturas.

Séneca escreveu que os princípios pitagóricos que envolvem a abstenção do consumo de carne favorecem a bondade e a inocência. E mesmo que os benefícios desse não consumo não fossem aqueles enumerados por Pitágoras, principalmente no que diz respeito à metempsicose ou transmigração de almas, que fala que devemos respeitar todas as criaturas porque nós também podemos renascer como animais não humanos, há algo que, do ponto de vista de Séneca é inquestionável – o fato de que abdicar do consumo de animais aproxima o ser humano da frugalidade e o afasta da crueldade contra animais não humanos.

“Eu simplesmente me privo da comida dos leões e dos abutres. […] Nós só reconhecemos o som da razão quando nos separamos da multidão. O próprio fato da aprovação da multidão é uma prova da falta de prática ou de opinião. Pergunte o que é melhor, não o que é costume. Deixe-nos amar a temperança – sejamos justos – deixemos nos abster do derramamento de sangue. Ninguém está tão perto dos deuses quanto aquele que demonstra bondade”, registrou Séneca na epístola 108 de “Epistulae Morales ad Lucilium”.

Séneca cita os ensinamentos de Sotion que afirmava que o homem pode encontrar suficiência de alimentos sem precisar explorar ou matar animais. Segundo ele, a crueldade tornou-se habitual a partir do momento em que a prática de abater animais foi associada à gratificação do apetite. “Movido por esses argumentos, resolvi abster-me do consumo de carne e, no final de um ano de abstinência, foi tão fácil quanto prazeroso”, confidenciou nas epístolas.

De acordo com The Hidden History of Greco-Roman Vegetarianism, de Nathan Morgan, Séneca também foi influenciado pelos ensinamentos de Epicuro e, ao adotar uma “alimentação vegetariana”, ele também passou a criticar a crueldade dos jogos romanos oferecidos como distração aos cidadãos. O que ele definia como uma das decadências de seu tempo, pelo fato de não haver necessidade de instigar a rivalidade entre seres humanos e não humanos.

Em crítica aos hábitos alimentares exóticos da época, o filósofo romano declarou que ninguém precisava de javalis de mais de 450 quilos nem da língua de pássaros raros para satisfazer o paladar ou a fome, em crítica aos excessos despertados pelo consumo de carne: “Devo admirar você somente quando não desprezar o pão simples, quando você se convencer de que as ervas não existem apenas para os outros animais, mas para o seres humanos também. Os vegetais são o suficiente para o nosso estômago e para garantir a continuidade de nossas valiosas vidas.”

Na página 546 do livro “The Oxford Handbook of Animals in Classical Thought and Life”, editado por Gordon Lindsay Campbell, Daniel A. Dombrowski informa que Séneca acreditava que a causa psicológica do consumo de carne estava relacionada à ambição humana. Essa afirmação vai ao encontro das “Cartas a Lucílio”, especialmente a passagem em que ele lamenta que incontáveis navios de todos os mares eram deslocados com provisões para alimentarem apenas uma boca, uma poderosa, mas ainda assim uma única boca humana, enquanto um boi ficava satisfeito com a pastagem de um ou dois acres.

Ele também observou que enquanto uma floresta era o suficiente para vários elefantes o ser humano seguia sua nefasta jornada como o responsável pela pilhagem de toda a terra e de todos os mares. Isso explica ainda porque ele costumava se referir aos glutões que consumiam grandes quantidades de carne como “escravos da barriga”. Defensor de uma alimentação simplificada, e que não incluía alimentos de origem animal, na epístola 95, Séneca aponta como um problema o surgimento de uma força “supernumerosa” de médicos, de instrumentos cirúrgicos e medicamentos, porque isso significava que o número de pessoas doentes estava aumentando vertiginosamente.

O filósofo romano via isso como consequência de maus hábitos alimentares, entre os quais os excessos do consumo de alimentos de origem animal. “Muitos pratos induziram a muitas doenças. Observe o quão vasta é a diversidade de vidas que um estômago recebe. Insaciável, insondável, a gula procura cada terra e cada mar. Alguns animais perseguimos com armadilhas, redes de caça, ganchos, não poupamos nenhum tipo de trabalho para submetê-los ao nosso jugo. Não há permissão para qualquer espécie viver em paz.  Não é de se admirar que com uma dieta tão exagerada as doenças variam tanto”, lamenta na epístola 95.

Correndo o risco de ser executado como um traidor, Séneca foi obrigado pelo governo imperial a abdicar da abstenção de alimentos de origem animal. Seus hábitos alimentares passaram a ser vistos como uma ameaça à ordem. No entanto, isso não o impediu de estimular outras pessoas a seguirem por esse caminho por meio de suas 124 cartas, mais tarde transformadas na famosa obra “Epistulae Morales ad Lucilium”. Ainda assim, abdicar de sua nutrição essencialmente vegetal também não o impediu de ser morto, já que o imperador Nero o acusou de participar de uma conspiração para assassiná-lo.

Até hoje a maior parte dos pesquisadores da história e da obra de Séneca defende que ele jamais participou desse plano. A desconfiança de Nero, supostamente reforçada pela inveja que ele tinha do prestígio de seu conselheiro, custou a vida do filósofo romano que foi compelido a suicidar-se em Roma aos 68 anos, no ano 65 do século I. Além de suas cartas e ensaios filosóficos, outro importante legado deixado por Séneca são as tragédias “Medeia” e “Tiestes”, que influenciaram a tragédia e o drama europeu durante e após o Renascimento.

No livro “Ethics of Diet”, publicado em 1883, Howard Williams enfatiza que Séneca foi um ser humano excepcional, de pensamentos elevados, e essencialmente bom no melhor sentido da palavra; que não se limitava ao lugar-comum e a uma moral convencional. Diferente dos muitos oradores de sua época, que conquistavam facilmente aprovação e aplausos com seus enunciados clichês, Séneca instigava a dúvida e a reflexão, porque entendia que só a mudança de consciência e pensamento poderia permitir ao ser humano rever a sua conduta de vida em todas as suas relações. Os seus discursos não raramente demandavam abnegação, autocontrole e uma consciência para além da concepção ortodoxa do mundo e da vida.

Saiba Mais

Lúcio Aneu Séneca, filho de Séneca o Ancião, nasceu em Córdova, atual Andaluzia, no ano 4 antes da Era Cristã. Por influência de sua tia, acabou eleito questor após o ano de 37 do século I, o que deu-lhe o direito de ocupar um lugar no senado romano. Séneca foi considerado o mais importante filósofo estoico durante o Renascimento.

Referências

Seneca. Letters From A Stoic: Epistulae Morales AD Lucilium: All Three Volumes.  CreateSpace Independent Publishing Platform; Combined edition (2014).

Phillips, Howard. The Ethics of Diet: An Anthology of Vegetarian Though. White Crow Books (2010).

Campbell, Gordon Lindsay. Daniel A. Dombrowski. The Oxford Handbook of Animals in Classical Thought and Life. Oxford University Press (2014).

Seneca. Seneca: The Tragedies. Página 20. Series: Complete Roman Drama in Translation. Johns Hopkins University Press; 1st edition (1995).

Morgan, Nathan. The Hidden History of Greco-Roman Vegetarianism. Encyclopedia Britannica. Advocacy for Animals (2010).

Tyson, Jon-Wynne. The Extended Circle: A Dictionary of Humane Thought. Penguim Group. United Kingdom (1990).

 





 

“A Sociedade Industrial e Seu Futuro”, de Ted Kaczynski

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Estou lendo pela primeira vez o livro Industrial Society and Its Future (A Sociedade Industrial e Seu Futuro), escrito pelo matemático e terrorista Ted Kaczynski, que ganhou fama internacional na década de 1990 como o “Unabomber”. Não simpatizo com as ações dele, já que suas bombas custaram a vida de pessoas, mas admito que o livro é intrigante e faz alguns apontamentos bem contundentes, que dialogam com a realidade atual, embora tenha sido lançado em 1995.

O protovegetarianismo na literatura do poeta romano Ovídio

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“Seres humanos, parem de profanar seus corpos com alimentos ímpios”

Ovídio ajudou a eternizar o filósofo grego Pitágoras como um dos precursores do vegetarianismo no Ocidente (Acervo: Ancient History Encyclopedia)

Influência para Dante Alighieri, Shakespeare, Caravaggio, Michelangelo, Boccaccio, Rembrandt, Rousseau, Chaucer, Kafka, James Joyce, Fernando Pessoa e Cruz e Sousa, entre outros importantes nomes da literatura e das artes plásticas, o poeta romano Ovídio se tornou mais conhecido pela autoria da obra em latim “Metamorfoses”, composta em 15 livros em hexâmetro heroico e considerada uma das mais importantes obras da mitologia clássica.

Quando “Metamorfoses” foi publicada pela primeira vez no ano 8 do século I, Ovídio chegou a ser considerado um contraventor em diversos círculos sociais, principalmente pela forma como descreve, mesmo que poeticamente, um mundo diferente daquele idealizado pelos imperadores da época. Até hoje a causa de seu exílio na remota Tomis (atual Constanta ou Constança, na Romênia), na Cítia Menor, ao Sul do Mar Negro, ainda á incerta, embora “Metamorfoses” tenha sido publicada no mesmo ano.

Mas não é difícil entender por que Ovídio, que gozava de grande popularidade, despertaria desconfiança e receio. Assim como alguns filósofos da Grécia Antiga que foram perseguidos por suas ideias que se voltavam mais para o desenvolvimento humano, equilíbrio entre os seres vivos e à potencialização de sensibilidades, como Sócrates, que foi obrigado a ingerir cicuta após 30 dias preso, Ovídio também não admitia restrições ao intelecto e à capacidade humana de gerir a compaixão e o respeito pela vida em suas multifárias formas.

No 15º livro de “Metamorfoses”, há dois capítulos em especial que chamam a atenção. Na versão traduzida do original em latim para o inglês por Anthony S. Kline, no capítulo “Os Ensinamentos de Pitágoras: Vegetarianismo”, Ovídio ajudou a eternizar o filósofo grego Pitágoras como um dos precursores do vegetarianismo no Ocidente, o que contribuiu para dar origem ao termo “pitagóricos” em referência a “vegetarianos”, locução que passaria a existir formalmente apenas no século 19, em referência a quem se abstém do consumo de carne e de outros alimentos de origem animal. Sendo assim, é importante reconhecer que se a história do vegetarianismo no Ocidente remete há mais de 2,5 mil anos, em parte isso se deve a autores como Ovídio, já que Pitágoras, por exemplo, não publicou nada em vida.

Em “Metamorfoses”, o poeta romano narra que havia um homem que fugiu de Samos porque, odiando a tirania de seus governantes, preferiu viver em exílio voluntário. Segundo Ovídio, embora os deuses estivessem longe, Pitágoras poderia visitá-los através do céu e do poder de sua mente, já que o que a natureza negou à visão humana, Pitágoras poderia desfrutar a partir do seu terceiro olho – em menção à sua capacidade intuitiva atilada.

Pitágoras fazia questão de dividir o seu conhecimento com o público. De acordo com o poeta romano, ele reunia multidões silenciosas que ouviam as maravilhas de suas palavras quanto à origem do universo e das causas das coisas. Discorria sobre o mundo físico, os deuses, o surgimento da neve, a origem dos relâmpagos, das tempestades, dos trovões e das estrelas. Na realidade, sobre tudo que era oculto ou mesmo intencionalmente velado. Incentivava também a abstenção do consumo de animais, um fato em especial que estimulou o pintor flamengo Peter Paul Rubens a conceber a pintura que receberia o nome “Pitágoras advogando o vegetarianismo”, criada entre os anos de 1618 e 1620.

“Ele foi o primeiro a condenar o ato de servir carne à mesa. […] Seres humanos, parem de profanar seus corpos com alimentos ímpios. Há colheitas, há maçãs envergando os galhos; e uvas amadurecendo nas videiras; há ervas aromáticas; e aquelas que podem ser suaves e gentis sobre as chamas; […] A terra pródiga de sua riqueza, fornece-lhe um suave sustento e oferece comida sem morte ou derramamento de sangue”, exorta Ovídio citando Pitágoras.

O poeta romano escreveu, baseando-se no discurso do grego, que a carne satisfaz a fome dos animais selvagens, embora não todos eles, já que cavalos, ovelhas e bovinos se alimentam de grama. “Tigres armênios, leões furiosos, lobos e ursos desfrutam de comida molhada com sangue. Ó, quão errada é a carne feita de carne; para um corpo voraz engordar, engolindo outro corpo; para uma criatura viver a partir da morte de outra criatura! Assim, entre essas riquezas, a terra, a maior das mães, cede. Você não é feliz a menos que rasgue, com dentes cruéis, lastimosas feridas, recordando assim a prática do ciclope; e você não pode satisfazer o seu voraz apetite e a sua inquieta fome a menos que você destrua outra vida”, critica.

Entre os ensinamentos de Pitágoras, Ovídio aborda a Era do Ouro, uma época em que os seres humanos eram felizes porque se satisfaziam com os frutos das árvores e com as ervas que a terra produzia, assim não contaminando os seus lábios com sangue. Naquele tempo, os pássaros abriam caminho no ar em segurança, sem terem o que temer, assim como os leões que vagavam sem medo da intervenção humana: “Mas, uma vez que alguém, quem quer que fosse, invejava as presas do leão e enchia sua insaciável barriga com carne, abria-se caminho para o crime.”

Ovídio relata que a violência humana contra os animais começou a partir da violência e da morte das “feras selvagens”. E tal ferocidade, também citada no diálogo de Sócrates com Glauco, e registrado por Platão em “A República”, remete à ganância humana, aos homens invadindo áreas naturais cada vez maiores não para satisfazerem suas necessidades básicas, mas sim para lucrarem com suas produções, o que deixa subentendido que havia aqueles que já não se contentavam com a igualdade. Estes buscavam status, distinção baseada no poder pecuniário.

“A perversidade se espalhou ainda mais, e acredita-se que o porco foi considerado o primeiro a merecer o abate porque arrancou as sementes com o seu largo focinho e destruiu a esperança de uma colheita. A cabra foi levada à morte, no altar da vingança, para navegar pelas vinhas de Baco. Esses dois sofreram pelos seus crimes!”, conta Ovídio, acrescentando que rebanhos tranquilos como de ovelhas, animais naturalmente pacíficos, também foram vítimas da procacidade humana, mesmo sem terem invadido ou destruído plantações.

Citando os ensinamentos de Pitágoras, Ovídio declara que o ser humano imerso na violência contra os animais é um ingrato, indigno da dádiva que é o milho. Também fala dos homens que forçavam os bovinos a puxarem o arado, e quando estes já não gozavam da mesma vitalidade eram mortos a sangue frio, com golpes de machado no pescoço:

“Não era suficiente ter cometido tal maldade; envolveram os deuses em seus crimes e acreditam que os deuses se deleitavam com o abate dos bois que sofriam. A vítima, com sua beleza excepcional (uma vez que ser agradável é prejudicial), e que se distinguia pelas fitas rituais de ouro, era posicionada em frente ao altar enquanto ouvia, sem entender, as orações, e via o milho que trabalhou tanto para produzir sendo colocado entre seus chifres, e depois derrubado, manchado com o sangue das facas que refletiam na água límpida.”

Tencionando descobrir qual era a verdadeira vontade dos deuses, os homens, imersos na violência legitimada, arrancavam os pulmões do peito dos animais enquanto estes ainda estavam vivos, com o coração rufando. “Disso (tão grande é a fome do homem pelo alimento proibido) você se alimenta, ó raça humana! Não, eu imploro, concentre sua mente nas admoestações. Quando você coloca a carne do gado abatido em sua boca, sabe e sente que está devorando uma criatura amiga”, censura o autor.

No capítulo “Os Ensinamentos de Pitágoras: A Santidade da Vida”, Ovídio defende que, seguindo os preceitos de Pitágoras, devemos permitir e garantir que os animais vivam em segurança e de forma honrada, não cabendo a nós intervir no curso de suas naturezas, nem decidir quando suas vidas devem findar simplesmente por um capricho hedonista:

“Não podemos preencher as nossas barrigas como se estivéssemos em um banquete canibal. Que perversidade eles fazem, quão impiedosamente se preparam para derramar o próprio sangue humano, aquele que rasga a garganta de um bezerro com a faca e escuta insensível o seu balido; […] que chora como uma criança, ou se alimenta de uma ave que eles mesmos alimentaram. Até que ponto isso não é um verdadeiro assassinato? Para qual caminho isso leva? […] Deixe o boi morrer de velhice. Não engane os pássaros com galhos molhados nem aprisione o veado, assustando-os com cordas emplumadas ou iscas traiçoeiras como ganchos farpados. […] Deixe sua boca livre de seu sangue, desfrute de uma comida mais suave.”

Saiba Mais

Ovídio nasceu no ano 23 a.C. em Sulmona, na atual Itália, e faleceu no ano 17 ou 18 da Era Cristã em Tomis, na Cítia Menor.

Além de “Metamorfoses”, Ovídio legou obras como “Amores”, “Cartas de Pônticas”, “As Heroides”, “Curas para o Amor”, “A Arte de Amar” e “Tristezas”.

Referências

Ovid. Anthony S. Kline. Ovid’s Metamorphoses. University of Virginia (2000).

Platão. A República. Nova Fronteira (2014).