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Richard D. Ryder: “Todos nós conhecemos pessoas que podem desistir da carne com facilidade”
“Há também a luxúria [do consumo] de carne que é muito forte, digamos que atinge 30% da população humana”

“Agora temos de tentar argumentar contra o preconceito do especismo no resto do mundo, e particularmente nos novos centros de poder econômico como Índia, Brasil e China” (Foto: Kim Stallwood)
Richard D. Ryder é um psicólogo, defensor dos direitos animais e escritor britânico que em 1970 cunhou o termo “especismo”, uma forma de discriminação que se baseia na ideia de que pelo fato do ser humano considerar outros seres inferiores, ele ignora seus interesses em não sofrer, inclusive negando-lhes o direito à vida. Ao longo de mais de 40 anos, Ryder escreveu importantes livros como “Victims of Science”, de 1975; “Animal Revolution: Changing Attitudes Towards Speciesism”, de 2000; “A Modern Morality”, de 2001; “Putting Back Into Politics”, de 2006; e “Speciesism, Painism and Hapiness”, de 2011.
Em 2010, Richard D. Ryder publicou na Critical Society, Issue 2, uma versão comentada e atualizada do seu folheto “Speciesism”, distribuído em Oxford em 1970 como uma reação contrária às experiências com animais. Logo o termo especismo passou a ser estendido a todas as formas de exploração contra animais não humanos, incluindo, claro, criaturas reduzidas a produtos e alimentos.
Na publicação da Critical Society, Ryder afirma que as revoluções de 1960 contra o racismo, sexismo e classismo ignoraram completamente os animais. Todos pareciam estar preocupados em reduzir somente o preconceito contra seres humanos. “Eles não tinham ouvido falar de Darwin? Eu odiava o racismo, sexismo e classismo também, mas por que parar nisso?”, declarou e acrescentou que como cientista ele já sabia que outras espécies de animais também sentem medo, dor e aflição, assim como nós.
A princípio, o panfleto “Speciesism”, que Ryder distribuiu em Oxford, não teve nenhum efeito. Então ele mudou a sua tática. Reimprimiu o texto com uma ilustração de um chimpanzé usado em experiências e infectado com sífilis. “Pedi a um amigo, David Wood, que incluísse seu nome para que o folheto tivesse um endereço universitário e o enviei às universidades. Desta vez tive algumas respostas. Um dos destinatários era um jovem filósofo australiano chamado Peter Singer. Em poucos meses, ele entrou em contato comigo. Muita coisa aconteceu desde então”, revelou.
No panfleto, o psicólogo afirma que desde Darwin os cientistas têm concordado que não há uma diferença essencialmente “mágica” entre seres humanos e outros animais, falando biologicamente. “Por que então moralmente fazemos uma distinção quase total? Se todos os organismos estão em um contínuo físico, então eles também devem estar no mesmo contínuo moral”, defendeu.
No panfleto, Richard D. Ryder faz uma observação bem crítica em relação ao especismo ao frisar que sob condições especiais de laboratório talvez seja possível acasalar um gorila com um professor de biologia. “Será que a prole peluda será mantida em uma gaiola ou em um berço? […] É costume descrever o homem de Neandertal como uma espécie diferente de nós, uma especialmente equipada para sobreviver à Era do Gelo. No entanto, a maioria dos arqueólogos agora acredita que essa criatura não humana praticava o enterro ritual e possuía um cérebro maior que o nosso. Suponha que o elusivo e abominável Homem das Neves, quando apanhado, acabe por ser o último sobrevivente desta espécie de Neandertal, daríamos a ele um assento na ONU ou implantaremos elétrodos em seu cérebro super humano?” As questões levantadas lembram os conflitos e a “evolução” do símio Peter apresentada por Franz Kafka no conto “Ein Bericht für eine Akademie” ou “Um Relatório para a Academia”, publicado em 1917.
Exemplos hipotéticos como os citados anteriormente por Ryder podem chamar a atenção para a falta de lógica da nossa posição moral em relação à exploração animal. Independente do direito à vida, ele pondera que um critério moral claro é o sofrimento, o sofrimento ocasionado pelo confinamento, medo, tédio e dor física, entre outros exemplos.
Se assumirmos que o sofrimento é uma função do sistema nervoso, então é ilógico argumentar que outros animais não sofrem de maneira semelhante a nós. Na realidade, é precisamente porque alguns outros animais têm sistemas nervosos tão parecidos aos nossos que eles são extensivamente estudados. Em relação aos argumentos a favor de experiências com animais, Ryder aponta inúmeras inconsistências. Há cientistas que dizem que o avanço do conhecimento justifica todos os males. Será que realmente justifica?
Suponhamos que em um determinado experimento as chances de sofrimento de um animal são mínimas, e as probabilidades dessa experiência auxiliar a medicina aplicada é excelente, ainda assim isso não seria especismo? “E como tal é um argumento emocional egoísta, não fundamentado. Se acreditamos que é errado infligir dor a animais humanos inocentes, então a única lógica, falando filogeneticamente, é estender a nossa preocupação sobre direitos elementares aos animais não humanos”, escreveu Richard D. Ryder no panfleto publicado originalmente em 1970.
Além de lutar pela proibição de testes em animais, Ryder, que tem mestrado em psicologia experimental e doutorado em ciências políticas e sociais pela Universidade de Cambridge, se envolveu diretamente em campanhas contra a criação de animais para consumo, e campanhas de proteção aos elefantes, baleias e focas. Desde 1985, o psicólogo qualifica a sua posição moral como painism (painismo), que diz respeito ao reconhecimento de direitos para todas as criaturas que sentem dor, um assunto que é exaustivamente abordado no seu livro “Speciesism, Painism and Happiness”, de 2011.
Na perspectiva do psicólogo, o painismo é uma terceira via entre a posição utilitarista do filósofo australiano Peter Singer e a visão deontológica de direitos do filósofo estadunidense Tom Regan, já que combina a visão utilitarista de que o status moral vem da capacidade de sentir dor com a proibição sob a ótica de direitos de que é errado usar outros seres sencientes como meios para um fim, desconsiderando as implicações disso para vítima.
O painismo considera o utilitarismo falho porque nesse sistema ético a tortura ou estupro é “justificável quando os benefícios totais compensam as dores da vítima”, o que é um absurdo, segundo Ryder, se considerarmos que os limites da experiência são os limites do indivíduo. Ou seja, não é porque várias pessoas tiveram prazer em um ato que o sofrimento de uma vítima pode ser considerado secundário. Uma ação não deixa de ser errada ou imoral porque dezenas, centenas ou milhares foram beneficiados.
Embora o trabalho de Richard D. Ryder contra a objetificação animal tenha ganhado mais visibilidade nas últimas décadas, a sua luta começou há muito tempo. Em 1969, ele participou de um protesto contra a caça às lontras em Dorset, no sudoeste da Inglaterra. Foi nessa época que ele realmente se interessou pela questão dos direitos animais e enviou três cartas sobre o assunto para o jornal The Daily Telegraph. Em um dos textos, intitulado “Rights of Non Human Animals” ele usou como referência o seu próprio trabalho como pesquisador para condenar as pesquisas com animais.
A romancista Brigid Brophy, também defensora dos direitos animais, leu as cartas de Ryder e o apresentou a Rosalind Godlovitch, Stanley Godlovitch e John Harris, três estudantes de pós-graduação da Universidade de Oxford que estavam editando a obra “Animals, Men and morals: An Inquiry into the Maltreatment of Non-Humans”, uma coleção de ensaios sobre direitos animais lançada em 1971.
O grupo que mais tarde recebeu o nome de Oxford Group, e atraiu novos membros, sedimentou o caminho de Ryder como ativista pelos direitos animais. Eles não apenas produziam material, mas também realizavam encontros, reuniões, imprimiam e distribuíam folhetos em crítica à exploração animal. Logo a luta contra exploração de animais para consumo se tornou uma das prioridades, assim como à rejeição à experimentação animal.
Em 1973, Peter Singer escreveu uma resenha do livro “Animals, Men and morals” para o The New York Review of Books, enfatizando que o artigo “Experiment on Animals”, que integra a obra, e escrito por Richard D. Ryder, era um apelo à criação de um movimento de libertação animal. O trabalho influenciou Singer a escrever o livro “Animal Liberation”, de 1975. Na obra, Singer aborda o especismo no quinto capítulo; o que ajudou a popularizá-lo mundialmente, passando mais tarde a ser incluído inclusive nos mais importantes dicionários.
Em 1977, Richard D. Ryder assumiu a posição de chairman do conselho da Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals (RSPCA) e ajudou a coordenar a primeira conferência acadêmica de direitos animais realizada em agosto de 1977 em Cambridge. O resultado foi a criação de uma “Declaração contra o Especismo”, assinada por 150 pessoas. Com a ajuda de Ryder, o conselho, que se dedicava principalmente à proteção de animais de companhia, passou a dar grande importância às questões envolvendo fazendas industriais, experiências laboratoriais caça e esportes com animais.
Em 9 de março de 2011, a “AR Zone – A Record of Rational Discourse” publicou uma entrevista histórica e bastante esclarecedora com Ryder. O psicólogo relatou que uma tática usada por ele para divulgar o termo “especismo” foi mencioná-lo sempre que era convidado a dar alguma entrevista. “Naquele tempo, a mídia gostou porque era algo novo, mas o meio acadêmico demorou para reagir em relação a isso”, comentou.
Segundo Richard D. Ryder, o especismo ainda não chegou ao fim, embora as pessoas estejam se tornando mais conscientes, porque existe um consolidado discurso que atrela a existência dos animais à utilidade em benefício humano. “Há também a luxúria [do consumo] de carne que é muito forte, digamos que atinge 30% da população humana. Essas pessoas vão lutar com unhas e dentes para proteger o seu ‘direito’ de comer carne. Eles ficam muito irritados se forem desafiados. A carne é uma forma genuína de dependência? Ou é basicamente um impulso básico carnívoro que está geneticamente incorporado em alguns seres humanos, mas não em todos nós? Realmente não sei se essa pesquisa foi feita. Todos nós conhecemos pessoas que podem desistir da carne com facilidade, e sem sentir falta. Mas também há outros que determinam as políticas que parecem ‘precisar’ de carne tanto quanto sexo. Eles desejam isso! Esse problema requer pesquisa”, informou em entrevista à AR Zone.
Para Ryder, se quisermos realmente fazer a diferença na vida dos animais, não devemos ter medo de expressar nossas opiniões sobre isso. “Entre em contato com deputados, professores e editores, assim aumentando a importância moral dessa questão. Agora temos de tentar argumentar contra o preconceito do especismo no resto do mundo, e particularmente nos novos centros de poder econômico como Índia, Brasil e China”, escreveu na versão atualizada do panfleto “Speciesism”, publicado em 2010.
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Richard D. Ryder se candidatou duas vezes ao parlamento inglês. Também é conhecido por suas incansáveis campanhas para convencer os partidos políticos a tratarem a proteção animal como uma questão política.
Referências
Ryder, Richard D. Speciesism (1970). Privately printed leaflet. Oxford (2010).
Ryder, Richard D. Speciesism, Painism and Happiness: A Morality for the 21st Century. Societas. Imprint Academics (2011).
The Encyclopedia of Animal Rights and Animal Welfare. The Oxford Group. Páginas 261-262 (2009).
Ryder, Richard D. The Struggle Against Speciesism (1979).
Singer, Peter. Animal Liberation (1975). New York Review Books. Página 269.
http://www.62stockton.com/richard/index.html
Richard D. Ryder: “Todos os seres que sentem dor merecem direitos humanos”
“A igualdade das espécies é a conclusão lógica da moral pós-Darwin”
Em 6 de agosto de 2005, o jornal britânico The Guardian publicou um artigo de grande repercussão escrito pelo influente psicólogo, defensor dos direitos animais e escritor britânico Richard D. Ryder, que em 1970 criou em Oxford o termo “especismo”. Intitulado “All beings that feel pain deserve human rights”, ou seja, “Todos os seres que sentem dor merecem direitos humanos”, o texto é uma defesa moral dos direitos dos animais não humanos à vida, além de uma crítica contundente ao desinteresse humano em não considerar os interesses de outros animais. Interesses esses que incluem o natural desejo de não passar por privação, não sentir dor e não ser assassinado; imposições diárias que partem de uma prerrogativa arbitrária humana. Logo abaixo, segue a tradução do artigo na íntegra:
A palavra “especismo” me veio à mente enquanto eu estava deitado em uma banheira em Oxford há 35 anos. Era como o racismo ou sexismo – um preconceito baseado em diferenças físicas moralmente irrelevantes. Desde Darwin, sabemos que somos animais humanos que se relacionam com outros animais através da evolução; como, então, podemos justificar a nossa opressão quase total de todas as outras espécies? Todas as espécies animais podem sofrer dor e angústia. Animais gritam e se contorcem como nós; seus sistemas nervosos são semelhantes e contêm os mesmos componentes bioquímicos que sabemos que estão associados à experiência da dor.
Nossa preocupação com a dor e o sofrimento dos outros deve ser estendida a qualquer “painiente” [indivíduo que sente dor] – sensação de dor – independente de sexo, classe, raça, religião, nacionalidade ou espécie. De fato, se os alienígenas são painientes ou se nós fabricamos máquinas que são painientes, então devemos ampliar o círculo moral e incluí-los. A dor é a única base convincente para atribuir direitos ou, de fato, interesses a outros.
Muitas outras qualidades, como “valor inerente”, foram sugeridas. Mas o valor não pode existir na ausência de consciência ou consciência potencial. Assim, rochas, rios e casas não têm interesses e não possuem direitos próprios. Isso não significa que, claro, eles não têm valor para nós, e para muitos outros painientes, incluindo aqueles que precisam deles como habitats e que sofreriam sem eles.
Muitos princípios morais e ideais foram propostos ao longo dos séculos – justiça, liberdade, igualdade e fraternidade, por exemplo. Mas estes são meros passos para o bem final, que é a felicidade; e a felicidade é facilitada pela liberdade de todas as formas de dor e sofrimento (usando as palavras “dor” e “sofrimento” – intercambiáveis). De fato, se você pensa sobre isso cuidadosamente, você pode ver que a razão pela qual esses outros ideais são considerados importantes é porque as pessoas acreditam que são essenciais para o banimento do sofrimento. Na verdade, às vezes eles têm esse resultado, mas não sempre.
Por que enfatizar a dor e outras formas de sofrimento em vez de prazer e felicidade? Uma resposta é que a dor é muito mais poderosa do que o prazer. Você não prefere evitar uma hora de tortura do que ganhar uma hora de felicidade? A dor é o único e verdadeiro mal. O que dizer então do masoquista? A resposta é que a dor lhe dá um prazer maior que a sua dor!
Um dos importantes princípios do painismo (o nome que dou à minha abordagem moral) é que devemos nos concentrar no indivíduo porque é o indivíduo – não a raça, a nação ou a espécie – que gera o real sofrimento. Por esta razão, as dores e os prazeres de vários indivíduos não podem ser agregados de forma significativa, como ocorre no utilitarismo e na maioria das teorias morais. Um dos problemas com a visão utilitária é que, por exemplo, os sofrimentos de uma vítima de estupro em grupo podem ser justificados se o estupro gerar uma quantidade maior de prazer aos estupradores. Mas a consciência, seguramente, é delimitada pelos limites do indivíduo. Minha dor e a dor dos outros estão, portanto, em categorias separadas; você não pode adicioná-las ou subtraí-las umas das outras. São mundos separados.
Sem experimentar diretamente dores e prazeres, eles não estão realmente lá – estamos contando apenas com suas cascas. Assim, por exemplo, infligir 100 unidades de dor em um indivíduo é, eu diria, muito pior do que infligir uma única unidade de dor em mil ou um milhão de indivíduos, mesmo que o total de dor no último caso seja muito maior. Em qualquer situação, devemos nos preocupar principalmente com a dor do indivíduo que é o sofredor máximo. Não importa, moralmente falando, o que é ou quem é o sofredor máximo – humano, não humano ou máquina. Dor é dor, independentemente do seu hospedeiro.
É claro, cada espécie é diferente em suas necessidades e em suas reações. O que é doloroso para alguns não é necessariamente para outros. Portanto, podemos tratar diferentes espécies de forma diferente, mas devemos sempre tratar o mesmo sofrimento de forma igual. No caso de não humanos, os vemos explorados implacavelmente pela agroindústria, em laboratórios e na natureza. Uma baleia pode levar 20 minutos para morrer depois de ser violentada com um arpão. Um lince pode sofrer por uma semana com a perna quebrada em decorrência de uma armadilha de dente de aço. Uma galinha mantida em gaiola de bateria pode passar a vida toda sem ter a oportunidade de esticar as asas. Um animal em um teste de toxicidade, envenenado por um produto doméstico, pode permanecer em agonia por horas ou dias antes de morrer.
A simples verdade é que exploramos os outros animais e lhes causamos sofrimento porque somos mais poderosos do que eles. Isso significa que se os alienígenas mencionados anteriormente aterrissassem na Terra e se tornassem muito mais poderosos do que nós – os deixaríamos nos perseguir e matar por esporte, diversão, experiências ou nos criarem em fazendas industriais até nos transformarem em saborosos hambúrgueres? Aceitaremos sua explicação de que seria perfeitamente moral que eles fizessem todas essas coisas, pois não somos da mesma espécie?
Basicamente, isso resume à fria lógica. Se nos preocupamos com o sofrimento de outros seres humanos, logicamente também devemos nos preocupar com o sofrimento dos não humanos. É o explorador insensível dos animais, não o protetor de animais, que está sendo irracional, mostrando uma tendência sentimental de colocar a sua própria espécie em um pedestal. Todos nós, graças a Deus, sentimos uma centelha natural de simpatia pelo sofrimento dos outros. Precisamos pegar essa centelha e ventilá-la em um fogo de compaixão racional e universal.
Tudo isso tem implicações, claro. Se gradualmente trouxermos os não humanos para o mesmo círculo moral e legal que nós mesmos, não seremos capazes de explorá-los como nossos escravizados. Muitos progressos foram feitos com uma nova e sensata legislação europeia nas últimas décadas, mas há um longo caminho a percorrer. Estamos atrasados no reconhecimento internacional do status moral dos animais. Existem vários tratados de conservação, mas nada a nível da ONU, por exemplo, que reconheça os direitos, os interesses ou o bem-estar dos próprios animais. Isso deve, e eu acredito que vai, mudar.
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Ao longo de mais de 40 anos, Richard D. Ryder influenciou importantes nomes na luta pelos direitos animais e publicou importantes livros como “Victims of Science”, de 1975; “Animal Revolution: Changing Attitudes Towards Speciesism”, de 2000; “A Modern Morality”, de 2001; “Putting Back Into Politics”, de 2006; e “Speciesism, Painism and Hapiness”, de 2011.
Mark Rowlands explica por que os animais não humanos são sujeitos morais
“Se ele [um animal não humano] é um paciente moral, […] é uma entidade que tem interesses que devem ser levados em consideração”

Animais são facilmente motivados por estados emocionais que Mark Rowlands define como emoções morais (Acervo: Mark Rowlands)
Em 2012, o filósofo galês Mark Rowlands, professor da Universidade de Miami e autor do best-seller “The Philosopher and the Wolf”, publicou o livro “Can Animals be Moral?”, em que explica por que os animais não humanos são sujeitos morais. No livro, Rowlands apresenta argumentos que ratificam o quão equivocado é o discurso de que os seres humanos têm capacidades que os outros animais não têm, por isso eles não são sujeitos morais.
Rowlands reconhece que os seres humanos têm a capacidade de uma consciência moral com a qual os outros animais não podem rivalizar, porém rebate que não é necessário que um indivíduo não humano tenha a capacidade de analisar seus motivos enquanto sujeito moral para ser um sujeito moral.
Para contrapor essa perspectiva, entre outros exemplos, ele cita o luto dos animais ao perderem membros familiares, e também casos de seres não humanos que se recusam a se alimentarem caso o custo de uma refeição seja infligir dor a um semelhante. Essas são evidentemente razões morais básicas que compõem o universo dos animais não humanos.
“Quando fazem isso, eles [os animais] estão fazendo exatamente o que fazemos quando agimos com base nessas razões: estão agindo de forma moral”, defende o filósofo que na obra apresenta falhas nos discursos de Aristóteles, Immanuel Kant e muitos outros filósofos, pensadores e cientistas que concordariam que os animais não se qualificam como sujeitos morais porque não são capazes de analisar criticamente suas motivações e a relação entre suas ações e motivações.
Em “Can Animals Be Moral?”, o autor defende a reivindicação de possibilidade, ponderando que animais são facilmente motivados por estados emocionais que ele define como emoções morais. Entre os exemplos estão a compaixão, empatia, simpatia, tolerância, luto, ciúmes, malícia, medo e pavor. Rowlands frisa que os animais podem agir moralmente com base nessas emoções que possuem conteúdo moral identificável. “A atribuição de motivação moral aos animais é quase sempre considerada como impossível. Em parte, [muitos] filósofos têm razões respeitáveis, embora em última análise, equivocadas. Mas, em parte, eles estão confusos”, declara.
O filósofo argumenta que os animais são sujeitos morais no sentido de que eles são sujeitos de emoções carregadas moralmente. Os animais não humanos compõem a sua própria categoria de “assuntos morais”. Ademais, enquanto sujeitos morais, podem ser agentes morais, pacientes morais; ou ambos, como defendido pelo filósofo moral David DeGrazia. “Se ele [um animal não humano] é um paciente moral, […] é uma entidade que tem interesses que devem ser levados em consideração quando são tomadas decisões sobre ele ou que impactam sobre ele”, escreveu Mark Rowlands.
Para DeGrazia, em uma perspectiva também compartilhada por Rowlands, uma manifestação de que os animais podem ser agentes morais são ações não condicionadas ou não instintivas em que eles manifestam virtudes ou escolhas. Partindo desse exemplo, os animais podem ser considerados agentes morais sempre que suas ações permitirem uma concepção razoável de agência moral, ou seja, de capacidade de agir ou de se abster de agir intencionalmente ou de forma não previamente determinada.
“Devo argumentar que existe outra opção: enquanto os animais são realmente pacientes morais, e não apenas agentes morais, eles também podem ser sujeitos morais”, enfatiza Mark Rowlands. No entanto, um problema comum é que enquanto pacientes morais, normalmente os interesses dos animais não humanos não são considerados, principalmente quando submetidos a ações de agentes morais que não os consideram como sujeitos morais.
A própria filosofia é um exemplo disso, já que ainda hoje a moralidade não humana sofre com a negação filosófica em muitos círculos. Rowlands critica o desinteresse de muitos filósofos, inclusive alguns grandes pensadores, em relação ao status moral não humano. Ele vê isso como uma grande falha histórica, ponderando que a filosofia sempre se debruçou sobre questões como racionalidade, motivação, autonomia, normatividade, autoconsciência e livre arbítrio. São questões que poderiam ter sido muito melhor discutidas se desde o princípio não tivéssemos nos limitado a uma perspectiva que não se preocupou em ir além da observação humana sobre seres humanos.
A maior falha de muitos filósofos da atualidade, assim como filósofos de outros tempos, é que eles não perceberam como os animais são bons em nos fazer refletir, segundo Mark Rowlands. Outra observação interessante apresentada pelo filósofo galês é que a ciência nunca simpatizou muito com a filosofia moral. Porém, ainda assim se apropriou da linguagem da moralidade; passando a usar terminologias morais como altruísmo, empatia, equidade e justiça no contexto do discurso científico.
São apropriações que surgiram principalmente nas últimas décadas quando cientistas passaram a se dedicar mais aos estudos de fundamentação empírica sobre cognição e emoção envolvendo animais não humanos. Contudo, isso prova que a mudança em relação ao entendimento de seres não humanos como sujeitos morais também está acontecendo no campo da ciência, embora ainda haja resistência.
Rowlands acredita que muitos cientistas rejeitam a filosofia moral que envolvem também seres não humanos porque creem que é uma ameaça à objetividade. Contudo, além de ser uma crença equivocada, é contraproducente, porque o ceticismo exagerado em relação aos outros animais ajudou a fortalecer o antropocentrismo e o especismo, impondo limites inexoráveis ao conhecimento humano sobre a vida, o mundo e a natureza. O filósofo galês vê a ciência como um caminho, mas não a considera prioritária ou exclusiva no entendimento das emoções animais, isto porque a filosofia moral também depende de evidências empíricas; e hoje a própria ciência tem buscado, mais do que em qualquer outro período, entender o comportamento animal a partir dessas evidências.
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Mark Rowlands é um filósofo que se dedica ao estudo do status moral de animais não humanos. Ele nasceu em Newport, no País de Gales, em 1962.
Referência
Rowlands, Mark. Can Animals be Moral? Oxford University Press. Reprint Edition (2012-2015).
Breve reflexão sobre o consumo de alimentos de origem animal
A realidade de um animal tirado de seu habitat para ser explorado comercialmente
Foto do projeto We Animals, da fotógrafa e ativista canadense Jo-Anne McArthur mostra claramente a a realidade de um animal tirado de seu habitat, assim como muitos outros, para ser explorado comercialmente, o que significa que o seu destino já foi traçado. Ou seja, objetificação seguida de morte. Nenhum animal sente prazer em ser explorado pela humanidade. Pense nisso.
Tom Regan: “Você nunca deve considerar os interesses daqueles que violam os direitos dos animais (ou humanos) antes de julgar o que estão fazendo como errado”
“Embora eu reconheça o papel importante que Singer desempenhou nos estágios iniciais do movimento moderno, não acredito que suas ideias representem o que os ativistas acreditam”

“Acredito que ambas as ideias [de Peter Singer] não são apenas equivocadas, são fundamentalmente enganosas, de maneira que são prejudiciais aos animais” (Acervo: The Animals Voice)
Tom Regan, autor do clássico “Empty Cages”, de 2004, relatou que com o tempo Peter Singer passou a defender unicamente duas ideias principais: “[De acordo com Singer], Primeiro, devemos considerar os interesses de todos e ter igual igualdade de interesses. Segundo, depois de ter feito isso, devemos fazer o que traz o melhor equilíbrio geral dos interesses dos afetados. A primeira ideia diz respeito ao procedimento: o que temos que fazer antes de decidir o que é o certo a se fazer? A segunda ideia diz respeito ao julgamento moral: o que é o certo a se fazer? Acredito que ambas as ideias não são apenas equivocadas, são fundamentalmente enganosas, de maneira que são prejudiciais aos animais.”
Regan discordava de Singer quanto ao procedimento de consideração de interesses porque, de acordo com ele, isso significa colocar em uma balança, e em nível de igualdade, não apenas os interesses dos explorados, mas também dos exploradores em continuar fazendo o que fazem. Para Regan, a perspectiva ética de Singer em relação ao procedimento, ou seja, o que temos de fazer antes de decidir o que é certo, é perigosa, porque, com base nisso, alguém pode dizer também que é importante considerar os interesses de estupradores, proprietários de escravizados e pedófilos antes de julgar que o que eles fizeram e fazem é absolutamente reprovável e inaceitável.
“Similarmente, acredito que é profundamente equivocado dizer que devemos considerar os interesses das pessoas na indústria de pele, vivissecção ou agricultura animal antes de julgarmos que essas pessoas estão fazendo algo terrivelmente errado. Minha posição não poderia ser mais oposta a essa ideia. Você nunca deve considerar os interesses daqueles que violam os direitos dos animais (ou humanos) antes de julgar o que estão fazendo como errado, isto porque estão violando os direitos de alguém”, justificou Tom Regan a Claudette Vaughan.
Tom Regan afirmou em entrevista ao Vegan Voice que muitas pessoas acreditam que o seu trabalho e o de Singer são muito similares. “‘Singer não diz o mesmo?’, ‘Singer não acredita nos direitos animais?’ Para essas perguntas, a resposta honesta é: ‘Não, ele não diz a mesma coisa. Não, ele não acredita nos direitos animais.’ E se alguém pergunta: ‘No que ele acredita então?’ A resposta é: ‘Ele acredita nas duas ideias que descrevi.’”

“Acredito que é profundamente equivocado dizer que devemos considerar os interesses das pessoas na indústria de pele, vivissecção ou agricultura animal antes de julgarmos que essas pessoas estão fazendo algo terrivelmente errado” (Foto: American Anti-Vivisection Society)
Regan citou que Peter Singer não acredita que a vivissecção seja sempre errada, apontando que o filósofo australiano crê que há situações em que a vivissecção é justificável. “Se os resultados estão em melhor equilíbrio do que se fossem obtidos de outra maneira, então sua visão é a de que não há nada de errado em usar animais em pesquisa. Este é um motivo pelo qual penso que as ideias de Singer são prejudiciais aos animais. Minha posição não poderia ser mais oposta à sua”, explicou o filósofo a Claudette Vaughan.
Tom Regan enfatizou que as pessoas não deveriam ficar chocadas ao saberem disso, levando em conta que Peter Singer diz que não é moralmente errado ter relações sexuais com animais. “Desde que o sexo ocorra em local privado, e assumindo que os participantes estão gostando, ele não vê nada de errado nisso. Isso é perfeitamente condizente com as duas principais ideias de Singer. Na verdade, isso é exigido pelas suas duas principais ideias. Novamente, a minha posição não poderia ser mais oposta a dele. Na minha visão, bestialidade é sempre moralmente errada pelas mesmas razões que sexo com crianças é moralmente errado: os direitos daqueles que não podem dar o consentimento são violados”, criticou.
O filósofo estadunidense argumentou que a última coisa que os animais precisam é que os exploradores de animais insinuem que os ativistas da militância pelos direitos animais estão reivindicando direitos para que possamos ter sexo mutuamente satisfatório com seres não humanos: “Quero dizer, meu Deus! Se isso acontecesse, os ativistas seriam vistos como desonestos, na melhor das hipóteses, e depravados, na pior das hipóteses. Em ambos os casos, o que os ativistas dizem em nome dos animais seria totalmente desconsiderado. Seria muito difícil calcular o dano maciço que seria causado aos animais. Então, embora eu reconheça o papel importante que Singer desempenhou nos estágios iniciais do movimento moderno, além de eu gostar muito dele como pessoa, não acredito que suas ideias representem o que os ativistas da militância pelos direitos animais acreditam. Espero que isso se torne mais claro à medida que avançamos. E precisa ser assim.”
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Professor de filosofia da Universidade Estadual da Carolina do Norte, onde lecionou por 34 anos, Tom Regan conquistou prestígio internacional por sua produção prolífica voltada ao abolicionismo animal. Em 2006, Regan teve o seu livro “Empty Cages”, ou “Jaulas Vazias”, publicado no Brasil. Outras de suas obras de referência são “All That Dwell Therein: Essays on Animal Rights and Environmental Ethics”, de 1982; e “The Case for Animal Rights”, de 1983.
Referência
Quando as pessoas se alimentam de animais, normalmente elas não consideram que estão se alimentando de algo que foi alguém

Este alguém teve olhos para testemunhar o mundo sob uma ótica não muito auspiciosa (Acervo: la Veganista)
Quando as pessoas se alimentam de animais, normalmente elas não consideram que estão se alimentando de algo que foi alguém; e este alguém teve olhos para testemunhar o mundo sob uma ótica não muito auspiciosa; um mundo que pode ser visceralmente injusto e violento com os mais vulneráveis.
Nós endossamos isso das mais diferentes formas, mas principalmente negando-lhes o direito à vida. Para negar esse direito, não reconhecemos, ou fingimos não reconhecer, a capacidade não humana em sofrer e amargar as implicações de uma privação que termina somente com a morte.
No momento em que alguém leva um pedaço de carne à boca, dificilmente esse alguém vai despender tempo pensando que o bife é parte da coxa ou da traseira de um boi, por exemplo. As pessoas simplesmente comem, seguindo um hábito naturalizado. Não há contestação ou associação com a morte nem com a vida – apenas comida – a dissimulada mecânica da vida.
Definitivamente, não vejo como negar que somos estranhos se refletirmos que nos alimentamos de partes de membros de outras criaturas que, assim como nós, também fazem o que podem para evitar a morte. Afinal, o desejo de viver não é uma prerrogativa restritamente humana.
Como podemos chamar os órgãos vitais de um animal de “miúdos”?
Como podemos chamar os órgãos vitais de um animal de “miúdos”? Talvez miúda seja a nossa sensibilidade e consciência em relação ao papel que esses órgãos tiveram para esses seres que um dia foram cheios de vida.
Um aperitivo polêmico
Na minha infância, quando estava com a minha família em Porto Rico, um dia serviram algo de graça para as pessoas provarem em um restaurante.
De longe, notei que era um tipo de carne e fiquei assistindo a movimentação perto de um bambuzal. Ao final, depois que as pessoas terminaram de comer, mostrando-se satisfeitas, o homem que ofereceu o “aperitivo” disse que tinham acabado de comer carne de gato. As pessoas ficaram revoltadas e começaram a cuspir e a amaldiçoar o homem.
Então ele olhou para elas e disse:
“Eu poderia ter dito que era carne de lebre. Aposto que ninguém acharia ruim. Mas como é de gato, vocês reclamam, né? Come carne todo dia, tá reclamando de que? Não adianta fazer careta”, criticou o homem gesticulando em frente a uma pequena churrasqueira.
Dezembro é o mês mais violento para os animais

No Natal, as pessoas desejam o melhor umas às outras, menos aos animais, que devem continuar cumprindo o seu papel enquanto comida
Dezembro é o mês mais violento para os animais. O mês em que é celebrado o Natal, o espírito natalino, um tempo de paz, é marcado por muita violência. Mas como assim? É em dezembro que a demanda por carne é muito superior a de qualquer outro mês. Há muitas encomendas, de animais inteiros, com olhos, com boca, decapitados, eviscerados, fatiados, etc. Vai do gosto e da (in)sensibilidade do freguês.
Pelo menos no Ocidente, é costume as pessoas encherem os carrinhos de carne nessa época do ano. Compram quilos e mais quilos de aves, bovinos, suínos, ovinos, caprinos e “peixes nobres”, preparados das mais diferentes maneiras. Em muitas casas, é possível juntar pedaços de animais e fazer um presépio. “É preciso oferecer uma mesa farta”, dizem apontando para uma grande variedade de carnes, que nada mais são do que partes fatiadas ou inteiras, e normalmente assadas, de espécies mortas (você pode preferir abatidas) para a celebração do nascimento de Jesus.
Segundo a tradição cristã, quando Jesus nasceu, os animais estavam bem próximos à manjedoura, e o calor de seus corpos o aqueceu. Atualmente, no Natal, são as pessoas que aquecem os corpos desses animais, mas nas brasas da churrasqueira, no forno, na grelha. Com a chegada do Natal, mais do que nunca, bebês, pais e mães de outras espécies são servidos sobre uma mesa.
Antes há muitos abraços. As pessoas desejam o melhor umas às outras, menos aos animais, que devem continuar cumprindo o seu papel enquanto comida, e sendo rejeitados como seres sencientes e conscientes. Às vezes, com sorte, pode ser que dividam o mesmo espaço sobre a mesa. Claro, não na mesma forma ou travessa, mas talvez nas imediações, pedaços sem vida combinando a poucos centímetros. Seria uma baita coincidência, não? Talvez um gesto inconsciente de bonomia? Difícil dizer.
No Natal, o espírito de solidariedade e fraternidade emerge como nunca. Sorrisos, lembranças e olhares que miram grandes pedaços de carne, mas que se recusam a racionalizar que cada fragmento já foi parte de uma vida; da vida de uma criatura que até o seu último momento não desejou morrer precocemente, assim como qualquer outro animal, humano ou não.

