Archive for the ‘Paraná’ tag
As tatuagens de Tiziu
As formas irregulares revelam o sofrimento que passou para registrar no corpo os nomes dos pais

“Saí da escola porque tiravam sarro de mim, não me encaixava. Me ofendiam, me chamavam de burro” (Foto: David Arioch)
Tiziu tem 12 anos e passa a maior parte do tempo nas ruas da Vila Alta, na periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Quem não o conhece, pensa que ele está sempre com raiva. Circunspecto e bicudo, engana apenas os estranhos. Os mais próximos sabem que a feição carrancuda é apenas uma forma de velar a natureza sensível. Mas não é preciso mais do que alguns minutos de conversa para perceber o quanto Tiziu é carente. Suas confidências sobre a vida e o cotidiano revelam mágoa, solidão e ao mesmo tempo um desejo incólume de ser incentivado de alguma forma. “Saí da escola porque tiravam sarro de mim, não me encaixava. Me ofendiam, me chamavam de burro. É o pior lugar do mundo. Prefiro a rua”, sentencia ao pressionar as próprias mãos.
Tiziu costuma conversar evitando contato visual. Quando se sente intimidado, observa tudo a meio metro de altura. Foi condicionado a encarar a vida e o mundo como se fosse um ser rastejante, dotado de um visão limitante que poucas vezes o permite contemplar a totalidade de alguma coisa. “Fico andando pela vila quando não tenho nada pra fazer”, comenta. O garoto normalmente fica pouco à vontade fora do bairro. Deslocado, parece que sente a visão se comprimindo diante de tantos olhares inquisidores. Distante da Vila Alta, já percebeu muitas pessoas o observando, tentando fundamentar suspeitas injustificáveis. “Acho que na mente deles eu não poderia sair daqui nunca”, afirma.
Apesar disso, Tiziu gosta de ir ao shopping, ambiente que segundo ele tem “cheiro de beleza”, onde se sente imerso num universo de “coisas boas”. “Quando estou lá, só vivo o momento. Fui lá poucas vezes. Uma vez comi tão bem que até esqueci quem me olhava torto”, comenta com um sorriso enviesado. Em um antebraço, Tiziu tem tatuado o nome da mãe e no outro o do pai. Há entre eles o desenho de um diamante concebido com esmero. A ideia é mostrar que são duas partes de um todo simbolizando aquilo que o garoto considera o bem mais precioso e raro em sua vida – o amor familiar. A grafia em caixa alta é simples, mas profunda. As formas irregulares das letras revelam o sofrimento que passou para registrar no corpo os nomes dos pais. “Tem a ver com amor, né? Família é pra sempre”, destaca num tom de voz embargado.
As três tatuagens foram feitas por Tiziu com uma maquininha que ele mesmo criou à base de garfo velho, tinta de caneta, fita isolante, agulha de costura, motorzinho, pilhas, isqueiro e estilete. “A gente inventa o que precisa”, diz. O garoto surpreende, não apenas pelas invencionices, mas também porque homenageou duas pessoas com quem não tem convivência diária. A mãe o levou para morar com os avós, alegando que não se davam bem. Tiziu então cresceu sem a presença materna. O pai, morador de outro bairro, não costuma visitá-lo mais de uma vez por mês. “Acho que me criei por aí. Minha avó já é bem idosa e meu avô vive pelos bares”, enfatiza enquanto desliza cuidadosamente os dedos pelas tatuagens, a alternativa encontrada para se sentir mais próximo dos pais.
Saiba Mais
Tiziu é um apelido fictício para preservar a identidade do entrevistado.
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
Quando Alex Kidd nos inspirou a viver
“Por um momento, quis ser admirado por explodir tijolos e saltar sobre balões vermelhos”

“Pensei em prendermos Pozinho no guarda-roupa para jogarmos Alex Kidd por algumas horas” (Foto: Reprodução)
A primeira vez que joguei videogame foi em 1988, quando meus pais trouxeram para casa um Atari 2600. O ligávamos em uma TV com caixa de madeira de 21 polegadas. Eu achava o controle engraçado porque me lembrava o estribo de uma bicicleta na posição vertical. No dia do teste, minha empolgação era tão grande que eu não conseguia parar de sorrir. Parecia o Animal do desenho animado Muppet Babies. Também tive uma repentina crise de comichão que só desapareceu depois de 30 minutos jogando Enduro. Para mim, aqueles carrinhos que mais se assemelhavam com aranhas deformadas representavam a mais fidedigna perfeição. “Olha, Douglas! Legal demais, né? Tem até disputa na neve”, comentava com meu irmão mais velho.
Depois de Enduro, conhecemos uma infinidade de outros jogos, como River Raid, H.E.R.O, Keystone Kapers, Space Invaders, Pac-Man, Pitfall, Boxing, Ice Hockey, Freeway, Sneak ‘n Peek, Spider-Man, Adventure, Donkey Kong, Skiing e Mario Bros. O que facilitava o acesso eram os cartuchos multijogos. A maior diferença de se jogar Atari quando o videogame ainda estava no auge era a oportunidade de ver as reações de crianças, adolescentes e adultos. Não era difícil testemunhar pessoas chorando de alegria ao jogar pela primeira vez. O videogame também funcionava como um tipo peculiar de “medidor de solidariedade”. Ou seja, você podia perceber facilmente quem eram seus amigos, colegas e conhecidos mais egoístas. Alguns chegavam a chamar vizinhos apenas para assistir aos jogos, sem oferecer qualquer possibilidade dos convidados encostarem as mãos em um controle.
Participei de um episódio assim na casa do garoto mais rico do meu bairro em 1989. Detentor de um Master System novinho, ele fez questão de chamar a minha atenção e a de mais outras seis crianças. Na tarde daquele dia, brincávamos de esconde-esconde nas imediações de um terreno baldio perto da minha casa, na Rua Pernambuco, em Paranavaí. “Olha, meu pai trouxe pra mim dos Estados Unidos o melhor videogame do mundo. É um Master System. Hum…aposto que nunca ouviram falar dele, né? É muito, muito melhor do que o seu Atari. Quem quiser pode ir lá em casa daqui meia hora que vou mostrar como ele é perfeito”, disse o menino. Imediatamente, sem se despedir, virou as costas e foi embora.
Na hora, nem me importei com o tratamento dado pelo garoto. Ignorei a sua altivez, arrogância e pedantismo. Me preocupei apenas com as palavras Master System. A princípio, o resto foi descartado como se eu jamais tivesse ouvido qualquer outra frase saída de sua boca descarnada. Aquele nome mexeu tanto com a nossa imaginação que paramos de brincar de esconde-esconde. Sentamos no meio-fio e comentei em tom de contemplação: “Master System parece um nome bonito, né? Maaa…sss…teer…Syyysss….teeem. Aaaah, mas será que existe coisa melhor que Atari? Atari é Atari!” Na nossa turma de jovens de quatro a sete anos, todo mundo concordou. Alguns balançaram a cabeça e outros emitiram apenas um monossilábico “aham” seguido por risos. Chegada a hora, fomos até a casa do “Pozinho”, um apelido oculto que atribuímos àquele garoto que vivia no palacete branco da esquina. Como passamos boa parte da tarde brincando de esconde-esconde, escalando árvores e atirando com pistolas de água, não estávamos bem limpos.
Quando chegamos à esquina, do alto de seu quarto, contíguo a uma sacada romanesca, Pozinho nos observou com um olhar displicente e sobranceiro. Talvez nos enxergasse como formigas obreiras que estavam ali para cultuá-lo, levá-lo ao êxtase com nossa inferioridade reafirmada na falta de acesso a um videogame, um objeto de desejo recém-despertado em nós por ele mesmo, na gana de tentar ferir nossos sentimentos. Sim, lá em cima estava uma criança de seis anos, mas com anseios perniciosos tão sobressaltados que despertava admiração até em adolescentes celerados. Assim que Pozinho se afastou da janela, fiquei na ponta dos pés para acionar o interfone. Martinha, uma senhora negra, alta, simpática e de pele reluzente que trabalhava como empregada doméstica na casa há mais de 20 anos, destravou o portão. Quando coloquei meus pés sobre um tapete felpudo dourado que ornava o antepasso da sala, percebi como meu tênis chinesinho branco estava demasiado sujo.
Os cadarços encardidos me deixaram constrangido ao ver tudo brilhando no interior daquele cômodo. Um aroma suave e cítrico, simbolizando a mais devotada das limpezas domésticas, amplificava o meu pré-remorso. “Que vergonha! Ela limpou aqui agora”, pensei comigo mesmo. No canto, um vaso grande com lírios-da-paz, uma das plantas preferidas da minha mãe, realçava ainda mais o perfume do ambiente. Ao ver minha hesitação, Martinha disse que não tinha problema nenhum. “Entre, menino! Não vão ser seus pés miúdos e menores que a palma da minha mão que vão atrapalhar o meu trabalho. Pode ficar sossegado!”, garantiu ela com um sorriso tão confortável que fez sucumbir o meu mal-estar. Na mesma esteira, seguiram-me as outras crianças. Martinha então nos levou até o quarto de jogos do Pozinho, situado no terceiro piso.
Éramos como os sete anões seguindo os comandos de Martinha, a nossa laboriosa Branca de Neve nos guiando aos aposentos da Rainha Grimhilde. Antes de abrir a porta e se despedir, ela recomendou que ignorássemos o jeito grosseiro e a metidez do juvenil patrão. Assim que entramos, Pozinho nos deu uma olhadela e comentou: “Todos vocês vieram? Certo! Só não fiquem muito perto de mim nem da TV porque preciso de espaço pra me concentrar.” Olhamos uns aos outros e seguramos o riso com as mãos, ignorando nossas unhas com resíduos de terra e de cascas de árvore. Sem perceber nossa reação, o garoto ligou o videogame e se acomodou em uma confortável poltrona inclinável que trazia uma etiqueta com a bandeira dos Estados Unidos. Ao alcance de sua mão direita, havia uma bandeja com Dadinho, Ice Pop, balas Fizz, pirulitos do Zorro, 7 Up e Sukita.
Ensaiando uma centelha de educação, sugeriu que sentássemos onde quiséssemos. Não havia lugar para todo mundo, então fomos todos para o chão. Em poucos minutos, nos mostrou Alex Kidd, um jogo de plataforma em que um garoto orelhudo destrói pedras com os punhos. Nossos olhos brilhavam ao ver tantas cores em um game. O que era aquilo? Quem era aquele herói cabeçudo serpenteando por bosques e cavernas? Pensei que estivesse sonhando. Quis morar naquele quarto para sempre. Não! Por um momento, quis viver dentro do jogo, sendo admirado por explodir tijolos e saltar sobre balões vermelhos. Como o jogo estava em inglês, Pozinho fez questão de dizer sem base alguma que ele entendia tudo e nós não entendíamos nada.
O ignoramos e trocamos olhares maliciosos. Nos comunicamos muito bem sem precisar abrir a boca. Havia um desejo unânime, não verbalizado, de tapar a boca de Pozinho com esparadrapo e trancá-lo dentro do guarda-roupa. Jogaríamos Alex Kidd por algumas horas e então o soltaríamos. Sim, na teoria parecia plausível. Só que a realidade era muito diferente. Não tínhamos coragem, nem achávamos aceitável fazer algo assim. Fabiano e Mariana, dois da nossa turma, não resistiram, se levantaram e pediram para jogar. Pozinho desdenhosamente declinou a proposta com um olhar de desprezo seguido por uma careta de nojo. A negativa os emocionou sobremaneira que ao longe se podia notar a transparência e o aspecto orvalhado de seus olhos. “Rá! Até parece! Chamei aqui só pra vocês passarem vontade mesmo. Agora podem sair daqui. Tchau!”, declarou sem velar o sorriso sardônico e a intenção capciosa.
Nos levantamos, abrimos a porta e descemos os degraus. Olhei para trás e mais uma vez ele estava nos observando. Se regozijava com a nossa pequenez, já que a sua anormal baixa estatura para alguém de seis anos não permitia tal comportamento tão empertigado quando estávamos de pé diante dele e sobre o mesmo piso. Para quebrantar sua satisfação, acenei, sorri e agradeci o convite. Lá embaixo, a iluminada Martinha nos aguardava com doces e refrigerantes. “Olha o que separei pra vocês. Coloquem em seus bolsos ou escondam em suas roupas e vão com Deus”, sugeriu numa despedida afetuosa. De volta ao meio-fio, entre goles de Soda Limonada, dividimos sorvete fura bolo, arrozinho em flocos, azedinho de morango e balas. Ao escurecer, fomos para casa. No dia seguinte, eu soube que três amigos adoeceram de tanta vontade de jogar Alex Kidd no Master System. Ficaram febris e passaram dias sem consumir alimento sólido.
Irritado, me senti tentado a retornar à casa de Pozinho para destruir o seu videogame a marteladas. Consegui me controlar e também evitei de contar a algum adulto o que aconteceu. Ninguém da nossa turma relatou nada. Uma semana depois, já não nos importávamos muito com o Master System. Continuamos jogando Atari, realizando pequenos torneios de jogos de corrida e luta. Quando enjoávamos, saíamos para escalar árvores, colher frutas ou brincar de esconde-esconde, pega-pega e “balança, caixão”. Em frente à Sanepar, subíamos em um muro alto que permitia uma visão privilegiada da baixada do Jardim Paulista, onde mais tarde desceríamos com carrinhos de rolimã.
Azul e límpido ou enuviado e chovediço, o céu nunca nos mostrou limites, assim como as sibipirunas, os ipês, as sete-copas e os jamelões que se refaziam conforme as estações do ano. Os muros e as escadas cada vez maiores também reconduziam nossas aventuras. As novas construções instigavam nossas visitas tanto quanto as casas e os barracões abandonados. Cães de diversos tamanhos ainda nos perseguiam, não por maldade, mas porque no dia a dia eles eram personagens dos jogos de plataforma que eram nossas vidas. No final de 1989, Pozinho ainda me observava ao longe. Tentando me provocar, um dia balançou o controle retangular do Master System para fora da sacada do seu quarto. O cumprimentei e sorri brevemente. Não, não quis ser irônico. Senti pena e compaixão ao ter certeza de que enquanto ele simulava ser um personagem aventureiro de um videogame, nós éramos felizes por sermos os Alex Kidd do mundo real.
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
“Doutor, vou estourar os miolos dele”

Paulo Pimentel desembarcou com a comitiva no Aeroporto Edu Chaves (Acervo: Blog do Joaquim de Paula)
Em 1966, o então governador Paulo Pimentel veio a Paranavaí, no Noroeste do Paraná, com uma grande comitiva. Acompanhado de quase todos os secretários, o político “lotou” Paranavaí com carros oficiais do governo, de acordo com Augustinho Borges que à época era gerente da Reta Táxi Aéreo e recepcionou a comitiva no Aeroporto Edu Chaves.
Ao longo de três dias em Paranavaí, Paulo Pimentel aproveitou para conhecer o comércio local e as opções noturnas de lazer. À noite, em um dos momentos de descontração, Augustinho levou a comitiva até uma boate local. Chegando lá, o secretário estadual de comunicação Pedro Washington cordialmente se aproximou de uma moça muito bonita e disse: “Ô menina, tudo bem aí?” Um homem que estava perto ficou muito irritado e em tom ameaçador foi pra cima do secretário. “Você chegou agora e já vem metendo o bico?”, esbravejou o rapaz.
Sem entender o motivo da raiva, Washington apenas respondeu: “Não, filho! Estou apenas sendo educado.” Tonico, um jovem de Paranavaí que tinha fama de matador e trabalhava como segurança para a comitiva do governador, entrou na frente extremamente encolerizado. Depois de balançar uma pistola Parabellum, Tonico gritou: “Doutor, vou estourar os miolos dele agora mesmo. Deixa eu matar, deixa eu matar!”
Preocupado que uma discussão banal terminasse em tragédia, Pedro Washington deu alguns tapinhas nas costas de Tonico e suplicou: “Pelo amor de Deus, não faça isso! Não faça isso!”, lembra Augustinho Borges aos risos. O homem então abaixou a arma e desistiu de matar o rapaz.
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
Meu primeiro encontro com a morte
Tentei tocar o chão abaixo dos meus pés, mas estava fundo demais
Meu primeiro encontro com a morte foi em janeiro de 1993. Aconteceu de forma casual, inocente, incauta e avassaladora, assim como muitas das nossas experiências na infância. Meus pais tinham planejado no final de 1992 uma viagem para o litoral norte de Santa Catarina.
Saímos de casa numa madrugada, por volta das 4h, um horário que sempre agradou meus pais pela grande possibilidade de não encontrarmos muitos veículos na estrada, ao menos nas primeiras horas de viagem. Admito que o sono ficou bem leve ao saber que sairíamos cedo rumo a novos destinos. Acordei com a respiração ofegante e expansiva do Happy e do Chemmy ao pé da orelha. Eram dois cãezinhos da raça poodle parecidos com dois grandes flocos de neve.
O Happy vivia com a língua de fora, como se quisesse falar e não latir. Ostentava um semblante jubiloso, dando a impressão de passar o dia inteiro sorrindo. Já o Chemmy possuía olhos tão expressivos que me transmitiam uma cândida melancolia. Em síntese, era menos agitado e mais carinhoso. Em comum, apesar das diferenças de personalidade e fisionomia, os dois eram dotados de uma postura altiva e indefectível. Só sentavam ou deitavam no chão com as patas sobrepostas, formando um X de formas itálicas. No dia da partida, pedimos à minha avó Clara para cuidar da casa e dos animais.
Em parte, o percurso foi relativamente tranquilo, até porque meus pais gostavam de parar em locais que não conhecíamos, tornando a viagem mais proveitosa e divertida. Quando chegamos a Matinhos era quase meia-noite e me surpreendi ao ver uma movimentação de centenas de pessoas pelas ruas. Eu, acostumado a uma realidade em que 22h já era tarde, não sabia que existiam cidades noturnas.
Havia muitas luzes, o suficiente para me fazer crer que a escuridão não tinha vez naquele lugar. A experiência me lembrou a reação de uma criança estrangeira ao ver o fulgor do sol da meia-noite em Luossavaara, no extremo norte da Suécia. Os letreiros enormes e brilhantes no centro de Matinhos iluminavam as ruas, as calçadas e os passantes. Também serviam como juncos para corujas urbanas que assistiam skatistas adolescentes saltando bancos, pequenas rampas e executando rock slides enquanto sorriam e seguravam latinhas de Coca-Cola, Taí e Fanta.
Os arroubos da urbanidade confundiam os vaga-lumes que se misturavam aos remanescentes piscas-piscas de Natal, talvez pensando que fossem parentes. Alguns jovens miravam a lua, balançavam os braços, bebiam cerveja em saquinhos, gargalhavam e cantavam Under The bridge, do Red Hot Chilli Peppers. Outros continuavam hipnotizados no interior de uma casa de fliperamas com mais de 40 máquinas.
De longe, eu ouvia sons retumbantes de tiros, saltos, acelerações, derrapagens, socos, chutes e musiquinhas eletrônicas monofônicas e polifônicas. O local estava cheio de adolescentes e crianças acompanhadas dos pais. A empolgação no interior me lembrou a cena em que Marty McFly, interpretado por Michael James Fox, observa crianças jogando fliperama em De Volta Para o Futuro 2. Chips, refrigerante, chiclete em rolo, Freshen Up, Minichiclets, Mentex e Lollo abasteciam os jogadores alheios ao que acontecia nas ruas. Rodeados de testemunhas, os desinibidos e impetuosos falavam alto e apertavam os botões com força. Logo entendi que queriam deixar suas marcas nas máquinas.
Lá fora, o céu não estava muito escuro. Suspeitei que estivesse absorvendo as cores e as luzes dos lugares, das pessoas e dos animais que ajudaram a compor um cenário notívago tão complacente. Percorri centenas de metros dentro e fora do carro. Não vi discussões, trocas de ofensas, nem violência. Quando um rapaz pisou em falso na calçada e caiu em frente a um automóvel no asfalto, um senhor imediatamente desceu do carro e o ajudou a se levantar.
Mais adiante, um motociclista se descuidou ao admirar uma bela moça em traje de verão que andava rente ao meio-fio. Como consequência, bateu na carroceria de uma caminhonete. Ao ver o jovem caído, o motorista de aproximadamente 50 anos desceu e ignorou os arranhões na lataria. “Você tá bem? Quer que peça ajuda?”, indagou. Apesar do susto, o motociclista não se machucou e a moto sofreu apenas riscos superficiais. O dono da caminhonete considerou o prejuízo mínimo e se recusou a cobrar. Agradecido, o rapaz se despediu com um sorriso portentoso e um aperto de mão consistente.
Após alguns dias em Santa Catarina, acordamos cedo numa manhã ensolarada e fomos a uma praia entre Itajaí e Balneário Camboriú. Havia pouca gente em frente ao mar calmo e convidativo. Sentei um pouco na areia para observar tudo à minha volta. Notei que o céu estava especialmente azul, límpido e com um recorte amarelo amendoado que parecia a entrada de um portal para lugar algum. Também avistei suas nuvens envolvendo e afagando nove gaivotas.
Minutos depois, me levantei e avisei meus pais que eu entraria no mar. Como manda a tradição, me disseram para ter cuidado e ficar próximo da margem. Comecei a brincar na água, numa área tão rasa que me permitia ficar agachado ou sentado afundando as mãos na areia. Quando enjoei, caminhei mar adentro, sentindo o peso cada vez maior da água sobre o meu corpo. Estava tudo bem. Percebi pessoas perto de mim e o mar ainda não tinha tocado os meus ombros. De repente, enquanto eu sorria e via meus pés penetrando a areia, as águas se rebelaram. O impacto de uma grande onda me arrastou alguns metros mar adentro.
Confuso e sem enxergar direito, engoli a água salgada que invadiu minha garganta com tanta aspereza que quase engasguei. Tentei tocar o chão abaixo dos meus pés, mas estava fundo demais. Não havia ninguém nas imediações. Observei ao longe apenas fisionomias desfocadas. Me debati contra a água, tentando nadar. Não adiantou. Outra onda me arrastou e desta vez para o fundo do mar.
Bebi muita água a contragosto e comecei a ter rápidas alucinações. Imaginei alguém me puxando pelos pés. Meus olhos e garganta queimavam de forma vertiginosa. Tanto que minha visão enturveceu gradualmente, abalando minha crença na sobrevivência. Fui tomado por lembranças fugazes dos poucos parentes e amigos falecidos. “Não! Eu não quero encontrar vocês ainda. Quero ver minha família. Eles estão logo ali, bem mais perto de mim do que qualquer um de vocês. Sou criança ainda. Por favor!”, pensei. Ao mesmo tempo, senti o palato abrasado e as lágrimas caindo do meu rosto como chuva de verão.
Para minha surpresa, antes que fosse vencido pelas câimbras, o mar se acalmou. Eu continuava muito longe da margem, só que ganhei o direito de nadar. Então coloquei em prática o que aprendi nas aulas de natação com meu pai em 1992. Mesmo combalido, cheguei à beira-mar. O medo de morrer era tão grande que só parei de nadar quando a areia tocou meus joelhos. Saí da água rindo e chorando ao mesmo tempo, com as pernas cambaleando, o rosto pálido e os lábios arroxeados. Não consegui dar outro passo e caí deitado.
Minha família chorou comigo. Naquele dia o salva-vidas sumiu e quando meus pais me localizaram eu já estava nadando. Eles viram apenas meus braços curtos e meus cabelos negros e lisos se movendo na água. Antes de me levantar da areia para ir embora, observei novamente o céu. O recorte amarelo amendoado tinha se dissipado, mas não as nove gaivotas que recebiam as carícias das nuvens que cobriam o mar da Praia Brava.
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
O mundo de Marinho
A história do jovem que há nove anos passa o dia vagando pelo centro de Paranavaí
Era uma quinta-feira, por volta das 8h30, quando eu e o fotógrafo Amauri Martineli saímos para procurar o famoso Marinho, um jovem sorridente que vive vagando pelo centro de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Em poucos minutos, o vimos próximo da Banca Tanaka, na movimentada Rua Getúlio Vargas. Acenei, o rapaz se aproximou e perguntamos se ele aceitaria nos contar a sua história e o motivo de ter se tornado andarilho.
Empolgado com a ideia de uma reportagem sobre a sua vida, sorriu e disse que nos aguardaria. Assim que Martineli deu a volta para estacionar o carro, Marinho desapareceu. Depois de 15 minutos de procura, o vi a 50 metros do local onde conversamos antes. Já estava com um semblante diferente. O sorriso tinha sumido. Me aproximei, expliquei a ideia da entrevista, mas se mostrou desinteressado. “Ah, vamos deixar pra semana que vem. Hoje eu não tô bem”, justificou. Então perguntei o que ele tinha e expliquei que poderíamos ajudá-lo. O rapaz insistiu: “É a minha cabeça, não tá boa. Depois passa. Isso é normal comigo”, garantiu, de forma evasiva.
Me afastei um pouco, chamei o Amauri e juntos conseguimos convencer o Marinho a bater um papo com a gente. Curiosamente a cefaleia se desvaneceu em pouco tempo. Logo o rapaz ficou à vontade e demonstrou muita satisfação pelo nosso interesse em conhecer a sua história narrada em cerca de uma hora. Com um estilo próprio de ser, Marinho passa a maior parte do dia no centro de Paranavaí, onde gosta de ficar perto das entradas das lojas vendo a movimentação de pessoas e ouvindo música. Admite que tem preferência pelo pagode, gênero da época das festinhas da adolescência.
Muito conhecido pelos comerciantes e comerciários das ruas Getúlio Vargas e Manoel Ribas, o rapaz é elogiado pela quietude. Discreto, não gosta de incomodar ninguém. “Hoje só fumo cigarro e bebo cerveja. Bebo todo dia. Compro cigarro solto numa banca. A mulher gosta de mandar Derby. Pago 50 centavos em cada um. Ah, antes eu nem gostava daquele Free, achava fraco, mas agora é o meu preferido. Só que custa caro”, reclama.

“Quando alguém estranha, faço questão de cumprimentar pra mostrar que sou do bem” (Foto: Amauri Martineli)
A latinha de cerveja é sagrada para Marinho que tem 30 anos e me chama de tio o tempo todo, embora tenhamos a mesma idade. Comprada na loja de conveniência de um posto de combustíveis, ele informa que costumava pagar R$ 1 na Schin, mas recentemente subiram o preço para R$ 1,50. “Tinha outra que era R$ 1,75 e caiu pra R$ 1,25, então só bebo dessa. De vez em quando tomo umas pingas no [antigo] Terminal Rodoviário e fico doido, mas é mais moderado”, pontua enquanto sorri e coça a cabeça. Às 18h, quando as portas das lojas se fecham, o rapaz caminha até o antigo Jardim Ouro Branco, onde passa a noite sozinho e deitado sobre uma calçada nas imediações do Centro Esportivo do Sesc.
Entre latidos de cães da vizinhança, dorme ao relento até amanhecer, perto da ex-residência dos avós. “Lá é tranquilo. Me deixam ‘de boa’. Quando alguém estranha, faço questão de cumprimentar pra mostrar que sou do bem”, comenta Marinho que dorme na rua há nove anos. Antes de virar sem-teto, vivia com os avós. Ficou sem casa quando os dois faleceram em decorrência de ataques cardíacos. As mortes tiveram diferença de poucas horas. O rapaz recebeu a notícia quando estava preso. Foi flagrado fumando e portando maconha. “Fiquei seis dias na cadeia. Não pude ir nem ao velório. Só vieram me avisar que os dois morreram”, lamenta. De Marinho, as drogas não levaram apenas a oportunidade de se despedir dos avós, mas também a própria identidade e capacidade de sonhar.
A falsa ilusão de ser admirado pelos amigos fez com que experimentasse maconha com 15 anos. “Queria me alugar um pouco. Acabou que saí tremendo com medo de morrer. Só ficou ‘massa’ quando parei de ter as ‘piras’. Eu ‘desligava’ mesmo, nem pensava em nada”, revela. A primeira tragada aconteceu no Parque Ouro Branco, no Ribeirão Xaxim, onde se reuniu com 13 garotos, principalmente vizinhos. No local, encontraram alguns jovens fumando maconha em um bong caseiro, feito a partir de garrafa pet. “Ofereceram pra gente e o bagulho fez efeito rápido. Tinha um trilho no córrego e até hoje eu não sei como cheguei do outro lado. Devo ter caído até na água. Sei lá”, declara às gargalhadas.
Quando a larica, a fome em decorrência do uso de maconha, surgia, a garotada descia até o Laticínio Iva, onde um guarda fornecia a eles algumas caixinhas de leite. Marinho tomava até três de uma vez. Com o tempo, quis se afastar da maconha, mas não resistiu. O ápice do vício foi aos 16 anos, incentivado por “amigos” que moravam perto da casa dos seus avós. “Eles vendiam pra mim. Então quando minha mãe me dava um, dois reais, eu ia lá comprar. Tinha uns ‘caras quentes’ que vendiam 50 gramas, peso de balança, por 30 reais, o suficiente para quatro dias. Era da boa, pura mesmo. Bem diferente do baseado de um real que eu fumava pelo menos quatro por dia”, confidencia.
À época, Marinho não conseguia dormir sem antes tragar o “cigarro branco”. Ficava muito agitado e ansioso. Entre os vizinhos, pelo menos nove fumavam juntos. Quando tinha dinheiro para comprar só um baseado, o rapaz se irritava fácil. “Ficava bravo porque sempre aparecia gente pedindo pra dividir. Não dava nem tempo de ficar doido”, justifica. O fornecedor era sempre o mesmo, só que quando surgia algum imprevisto o jeito era procurar outra “boca de fumo”.
Por causa do vício, Marinho ficou 26 dias internado no Hospital Psiquiátrico Nosso Lar, em Loanda. O rapaz se queixa que teve de conviver com loucos. “Eu era o único normal lá. Aplicaram um bagulho em mim que minha língua até enrolou e não consegui falar”, lembra. O tratamento não deu certo e o rapaz retornou a Paranavaí. Em casa, o avô tentou curá-lo do vício com o preparo caseiro de “garrafadas de erva-de-são-joão”. Marinho tomava pelo menos dois litros por dia para tentar controlar a abstinência de canabinoide.
Quando estava se afastando definitivamente da maconha, foi morar na rua e conheceu o crack. A primeira pedra foi experimentada por curiosidade, nas imediações do antigo Terminal Rodoviário Urbano. Pedia dinheiro no centro de Paranavaí e corria até lá para comprar. “Entrei na pedra com 23 anos. Achei o crack muito mais gostoso do que a maconha. Teve uma vez que conheci um cara ‘massa’ que vendia pedra de cinco e de dez reais”, confessa Marinho que fumava até 12 pedras de R$ 5, ou seja, o equivalente a R$ 60 por dia.
Normalmente começava a consumir crack pela manhã e parava por volta das 22h. Só prolongava o uso nos finais de semana, quando estendia o consumo até as 4h. Sexta e sábado o vício era financiado com as doações generosas dos frequentadores de bares e lanchonetes da Avenida Paraná que raramente falavam não para Marinho. “‘Chapava’ pedindo dinheiro. Daí gastava mais de R$ 60. Fumava e ficava ‘ruinzão’. Tinha uma mulher que me deixava dormir na casa dela. Eu aparecia lá de madrugada e ficava olhando pro teto me perguntando porque não amanhecia logo pra eu sair pedindo dinheiro pra comprar mais pedra”, enfatiza.
Marinho não se esquece do dia em que estava perto de uma “biqueira”, como ele chama as “bocas de fumo”, no Jardim Ipê, e foi surpreendido pela aproximação de uma viatura da Polícia Militar. Assustado, tentou arremessar o cachimbo em um terreno baldio, mas o objeto bateu no portão e voltou. A segunda tentativa deu certo. Só que era tarde demais e foi obrigado a se explicar para a polícia.
Apesar da vida de riscos, Marinho jura que jamais foi perseguido ou ameaçado por traficantes. “Nunca enganei ninguém. Só ficava em débito com os ‘mais chegados’. Mas era coisa de dois a quatro reais. Às vezes se irritavam comigo e me davam o produto até de graça. Cheguei a ganhar pedra de R$ 5”, diz rindo. O seu ponto preferido era o entorno do velho Terminal Rodoviário Urbano, de onde se afastou há quatro anos, quando parou de usar crack. “Até hoje tem gente vendendo lá. Não me interesso porque não vejo mais graça”, explica.
Antes de se livrar do vício, por iniciativa do irmão, ficou internado em uma clínica de reabilitação por quatro meses em Curitiba. “Eu não queria nada com nada e saí de lá”, reconhece. Outra tentativa sem sucesso foi em uma chácara para dependentes químicos no Sumaré. Com a abstinência, o rapaz perdia o controle de si mesmo e agia como outra pessoa. “Fugia de lá alucinado e bravo. Andava uns 19 quilômetros até chegar no centro de Paranavaí. Hoje tô livre disso. Não quero saber dessas drogas. Prefiro continuar vivo”, pondera Marinho que ao final da entrevista conta que se chama Mariosvaldo de Freitas Mazanares Souza Moura.
“Minha infância, vou falar pra você, tio”
“Minha infância, vou falar pra você, tio. No meu aniversário de seis anos a minha mãe fez um bolo delicioso e colocou uns bonequinhos ‘desenhadinhos’ do Corinthians, porque eu era corinthiano, e do Palmeiras, né? Foi muito legal! Melhor dia! Chamei um amigo que morava no [Jardim] São Jorge e outro que vivia um pouco pra cima da minha casa. O resto era família”, conta o jovem andarilho Marinho. A primeira experiência do rapaz em um escola foi na mesma época, quando ingressou no Colégio Estadual Newton Guimarães. “Até a quarta série ainda era ‘da hora’. Depois que chegou a quinta, passei a odiar por causa das matérias. Tudo muito difícil e eu não entendia nada”, reclama.
A maior lembrança da quinta série remete ao dia em que o pai chamou ele e um dos irmãos para passear de Ford Belina. “Eu tinha uns 12, 13 anos. Corremos Paranavaí. Visitamos minha irmã e voltamos pra casa só lá pelas dez da noite. Parecia até que ele sabia o que iria acontecer depois. Quando deu duas horas da manhã, meu pai morreu de ataque cardíaco”, lamenta Marinho com olhos marejados.
Com a morte do pai, Marinho perdeu mais ainda o interesse em estudar. Quando chegou à sétima série do ensino fundamental teve de fazer supletivo à noite para tentar recuperar o tempo perdido. “Nem passava de ano mais. Fui pro [Colégio Estadual] Leonel Franca e só chegava atrasado, lá pelas 8h20, 8h40, até na hora do recreio. Daí falaram que seria melhor eu estudar perto de casa. Então me deram a transferência e mudei pro [Colégio Estadual] Marins [Alves de Camargo]”, relata.
Marinho reprovou novamente e só conseguiu a aprovação no ano seguinte. “Cada negócio mais difícil, bicho!”, reclama. Quando não estava na escola, corria para uma pracinha perto de casa, onde se reunia com os amigos para jogar bola num ‘areião’. Sonhavam em fazer traves de madeira. Sem experiência com marcenaria, apelavam para chinelos e lajotas.
Marinho faz questão de destacar que no mesmo período arrumou muitas confusões por causa de pipa. O agravante era o uso indiscriminado de cerol. “Na adolescência, quando chegava dezembro eu acordava cedo pra ir ver se tinha passado ou reprovado na escola. Olhava, ficava triste e falava: “É doido! Nunca que fico sem tirar nota vermelha!”
“De lembrança, eu tô devagar, tio”
“De lembrança, eu tô devagar, tio. Lembro mais das mortes. Foi triste porque acordei e vi meu pai caído e morto”, narra. Mais tarde, perdeu o contato com a mãe, com quem morou pouco tempo após a perda do pai. Também residiu no Hotel Floresta, perto da rodoviária velha, com uma das irmãs. Apesar de hoje não ter muito contato com a família, Marinho tem boas lembranças. Se recorda de quando tinha seis anos e o irmão o levou para participar da Escola de Futsal São Lucas. “Foi doido, hein? Fiz gol no primeiro dia. Eu era ala esquerda, canhoto. Fiquei até os 13 anos, quando quis jogar campo”, explica e acrescenta que gostava de perturbar o técnico Gildo Tomé para deixá-lo jogar como titular quando viajavam para disputar campeonatos.
Segundo Marinho, seus dribles eram dos mais “bobos”. Gostava de “dar chapéu”. “Só que ainda preferia o campo pra bater de ‘bicicleta’”, comenta enquanto gesticula. Na adolescência, ingressou no Paranavaí Atlético Clube (PAC) e jogou várias vezes no Estádio Municipal Waldemiro Wagner. Começou a se destacar na posição de meia-esquerda. Logo o bom desempenho garantiu escalação para os Jogos da Juventude. Em uma das edições, ajudou o time a chegar à semifinal. Com 19 anos, surgiu uma grande oportunidade. “Fui convidado a participar de um ‘peneirão’ para ir pro Santos, tio. Por azar, acabei eliminado”, lamenta.
Marinho lembra com satisfação da época em que se apresentou no palco do Teatro Municipal Dr. Altino Afonso Costa. “Eu era ‘arteiro’ no colégio, então eles me chamaram pra fazer teatro. Topei e fui lá assistir alguns ensaios. Foram loucas as peças. Gostei mesmo!”, garante Marinho que participava dos ensaios no Colégio Marins. Os encontros geralmente ocorriam à noite ou quando os alunos tinham aulas vagas. “Fizemos uma peça dirigida pela Lígia Oliveira que chamava ‘Que país é esse?’ Foi ‘massa!’”, enfatiza. De repente, Marinho não quis mais saber de teatro e abandonou as aulas.
“Agora não penso em trabalhar. Quem sabe, depois”
“Agora não penso em trabalhar. Quem sabe, depois. Já trabalhei como servente de pedreiro quando morava com meus avós. Só que parei. Tentei ser ajudante de pintor, mas o homem falou que eu não ia pra frente não. Cheguei a ir pra roça também. Daí odiei minha vida!”, diz o andarilho Mariosvaldo de Freitas Mazanares Souza Moura, o Marinho.
Quando atuava como servente, o rapaz gostava de transportar areia e lajota. Segundo ele, bater massa também era “da hora”. O que mais o animava era o fato de que podia pegar dinheiro todo dia. Convencido pelo irmão, Marinho tentou morar em Curitiba algumas vezes. A primeira tentativa foi aos 16 anos. “Quando eu chegava lá, ele sempre falava que eu precisava arrumar emprego. Eu respondia: ‘Mas pra que emprego, rapaz? Não quero trabalhar!’”, revela.
Um dia o irmão o convidou para ir a um restaurante. Chegando ao local, convenceu a proprietária a contratar Marinho como ajudante. Após 15 dias de trabalho, o rapaz pegou um vale e abandonou o serviço. Voltou para a casa do irmão, preparou a mala e foi direto para a rodoviária sem avisar ninguém. “Antes do ônibus partir, meu irmão entrou pra falar comigo. Expliquei que não iria ficar lá perdendo tempo. Queria voltar pra Paranavaí. Então ele só se despediu”, relata.
Quando encontram Marinho casualmente, os amigos dos tempos de infância e adolescência ainda tentam convencê-lo a sair da rua e procurar um emprego para mudar de vida. “Ah, tio! Já trabalhei, mas não entendo de nada. O negócio era estudar, mas perdi minha chance. Então sobrou só isso aqui pra mim”, declara. Nas ruas, Marinho está sempre correndo riscos, obrigado a lidar com os percalços de um estilo de vida subumano.
Já foi perseguido várias vezes, inclusive espancado. Quem mora nas ruas de Paranavaí precisa ter muito cuidado. Não há garantias de um novo amanhecer. “Há pouco tempo um cara que nem conheço gritou que bati na mãe dele. Eu disse que ele tava doido e corri pra dentro de um mercado. Chegando lá, falei: ‘Liga pra polícia pra nós aí, rapaz! Não sei qual é a daquele cara ali não, doido!”
27% dos jovens atletas paranaenses sofrem de síndrome de burnout
Rafael Octaviano explica que hoje em dia os jovens precisam de preparo psicológico para não abandonarem o esporte

Rafael Octaviano: “Eu não tinha ideia dessa profundidade, de que temos mais do que o dobro de casos no Paraná do que na Suécia” (Foto: Amauri Martineli)
No final de abril, o professor universitário paranavaiense Rafael Octaviano de Souza, mestre em exercício físico na promoção da saúde pela Universidade Norte do Paraná (Unopar), lançou o livro “Burnout – Atletas Jovens”, escrito em parceria com o pesquisador Dartagnan Guedes, pós-doutorado em condição física e saúde pela Universidade Técnica de Lisboa.
A obra produzida para auxiliar profissionais das áreas de esporte e saúde traz muitos dados importantes. Um deles é a descoberta de que 27% dos jovens atletas do Paraná têm grandes chances de abandonarem o esporte. Do total, 5% sofrem de burnout elevado e 22% de burnout moderado. “Eu não tinha ideia dessa profundidade, de que temos mais do que o dobro de casos no Paraná do que na Suécia, por exemplo”, diz Rafael Octaviano, acrescentando que embora a identificação da síndrome tenha sido feita nos Estados Unidos nos anos 1970 o problema ainda é pouco conhecido e discutido no Brasil.
Definido como um estresse ocupacional crônico, o burnout é causado por exaustão física e emocional, redução do senso de realização e desvalorização. Nos jovens, um agravante são as cobranças da família, amigos e treinadores. “Muitas vezes a criança começa a treinar cedo por imposição do pai que praticou um esporte e quer que o filho siga o mesmo caminho. Com o tempo, perde-se o interesse pela atividade porque vira uma obrigação, sem direito de escolha”, explica Souza.
A síndrome atinge principalmente os praticantes de esportes individuais. O fato de treinar sozinho e sem apoio faz com que muitos jovens se sintam derrotados antes das competições. Outro fato revelador apresentado no livro é que as mulheres são mais suscetíveis ao burnout do que os homens. “O apoio social para as atletas é bem menor. É comum o marido, namorado e pai as criticarem”, conta o autor.
Hoje em dia, muita gente ainda relaciona o burnout ao chamado overtraining, ou seja, excesso de treinamento, o que é um grande erro, já que a síndrome atinge atletas que estão seguindo uma rotina de menor duração. “Os maiores exemplos são os jovens que estão perdendo o interesse e abandonando o esporte aos poucos”, comenta Rafael Octaviano.

“Com o tempo, perde-se o interesse pela atividade porque vira uma obrigação, sem direito de escolha” (Foto: Amauri Martineli)
No entanto, a síndrome não deve ser confundida com dropout que é o abandono da atividade em decorrência de fatores como mudança de cidade, escola, trabalho e lesões. Como o burnout tem características mais específicas, a manifestação do problema pode surgir de diversas formas. “Um jovem que até então gostava de treinar e de repente começa a priorizar banalidades como as baladas e as festas com os amigos pode estar com a síndrome. Neste caso, a recomendação é que o diagnóstico seja feito por psicólogos e psiquiatras”, alerta Souza.
Para evitar o burnout em atletas, é preciso uma reorganização social do esporte. É necessário ponderar que na infância todo mundo deve ter a oportunidade de experimentar várias atividades. “O que vemos hoje é o oposto. Há muita pressão sobre atletas jovens. Temos crianças com cinco a seis anos que já tem a vida esportiva traçada”, destaca. Como consequência, há um grande incentivo ao treinamento físico, técnico e tático, mas em contraponto há pouco investimento em preparo psicológico.
O assunto ainda é muito polêmico e pouco discutido na literatura esportiva brasileira, o que justifica porque 70% das referências do livro “Burnout – Atletas Jovens” são da literatura internacional. Para a produção do livro, Rafael de Souza e Dartagnan Guedes se aprofundaram nas obras dos maiores estudiosos do assunto. Ou seja, os estadunidenses Herbert Freudenberger, Christina Maslach, Susan E. Jackson, Alan L. Smith e Thomas D. Raedeke.
Para entender melhor como o distúrbio afeta os atletas paranaenses, Souza e Guedes realizaram pesquisas com 1217 jovens. Coletaram muitos dados por meio do Questionário de Burnout em Atletas (QBA), basicamente um questionário de autorrelato em que os participantes respondem 15 questões. “Cada atleta respondeu cinco perguntas sobre cada sintoma”, declara Rafael Octaviano. A dupla também trabalhou com variáveis envolvendo tipos de treinamento, intensidade, idade, sexo, modalidade esportiva e nível de competição. “Essa foi a relação que usamos para identificar o que causa o burnout, mas não tenho dúvidas de que precisamos evoluir muito”, enfatiza.
Os autores comemoram o fato de que a obra está sendo vista como nova referência para pesquisadores brasileiros e estrangeiros que estudam a síndrome. “O nosso trabalho não tem fins de diagnóstico. É mais para servir de assessoria. Agora esperamos que apareçam novas pesquisas sobre burnout em atletas jovens de outros estados do Brasil”, frisa Souza.
O projeto gráfico do livro “Burnout – Atletas Jovens” foi criado por Ronaldo Frutuozo e a capa pela Icon Comunicação. “Praticamente tudo foi feito por profissionais de Paranavaí. Apenas o imprimimos na Midiograf de Londrina. Agora estamos comercializando o livro na Banca do Wiegando, Banca Tanaka, Academia Beko, Panificadora Pão de Ouro e em alguns outros pontos por R$ 25”, revela Rafael Octaviano que já está ministrando palestras sobre o tema. Para entrar em contato com o autor, ligue para (44) 9954-8107.
Burnout pode se tornar depressão
Quem sofre de síndrome de burnout precisa procurar ajuda o quanto antes. Do contrário, o distúrbio pode se tornar uma depressão. “Quem tem burnout ainda consegue levar uma vida normal quando se afasta da atividade pela qual não se interessa mais. Em caso de depressão, a realidade é mais alarmante”, garante Rafael Octaviano de Souza, autor do livro “Burnout – Atletas Jovens”, escrito em parceria com Dartagnan Guedes.
Para entender as implicações da síndrome e preveni-la, o primeiro passo é a conscientização. Entretanto, o problema não é facilmente identificado porque exige que os profissionais que estudam ou lidam com o burnout trabalhem com algumas variáveis psicológicas. “É importa avaliar os níveis de perfeccionismo, ansiedade, motivação e autoeficácia de cada pessoa. O assunto exige aprofundamento, tanto que até quem é da área de fisiologia do exercício está buscando referências em burnout. Eles querem saber como essas condições psicológicas podem afetar o aspecto fisiológico”, afirma Souza.
As pesquisas sobre o tema também levantam questões sociais bem pertinentes. Uma delas é sobre o velho ditado de que o esporte tira os jovens das ruas. “Será que tira mesmo? Ou quem vem para o esporte institucionalizado não é alguém que já o praticava? Estudando sobre a realidade dos jovens atletas do Paraná, percebemos que a oportunidade normalmente é dada para quem já está envolvido nesse meio”, reclama Rafael Octaviano.
Síndrome foi descoberta pelo psicólogo Herbert Freudenberger
A síndrome de burnout foi descoberta na década de 1970 pelo psicólogo Herbert Freudenberger. À época, o pesquisador trabalhava com pessoas que ajudavam usuários de drogas. “Os participantes começaram a se despersonalizar. Não conseguiam se sensibilizar com os dependentes químicos e abandonaram o trabalho social, o que chamou a atenção de Freudenberger”, relata o professor universitário Rafael Octaviano de Souza, mestre em exercício físico na promoção da saúde.
Na sequência, o maior trabalho de destaque foi o da pesquisadora Christina Maslach que estudou o distúrbio no contexto laboral. Inclusive foi quem descobriu que o burnout deve ser avaliado a partir de diagnósticos sobre exaustão emocional, redução do senso de realização pessoal e despersonalização. “No esporte, o assunto começou a ser pesquisado só na década de 1990”, ressalta Souza.
Saiba Mais
O livro “Burnout – Atletas Jovens” é resultado da dissertação de mestrado profissional concluída no ano passado por Rafael Octaviano de Souza, sob orientação de Dartagnan Guedes. O trabalho teve duração de dois anos.
O centenário de nascimento de Sebastião Bem Bem
Roza de Oliveira: “Nunca vi outro político assim, que não quer usar dinheiro público”

Sebastião Bem Bem foi vereador na época em que não se ganhava nada para exercer a função (Foto: Acervo Familiar)
Nascido em 11 de março de 1915, o lavrador Sebastião Bem Bem de Oliveira deixou Monte Alegre, distrito de Santo Antônio de Pádua, no Rio de Janeiro, em novembro de 1948. Se mudou com a família para o Noroeste do Paraná após ser convencido pela irmã de que Paranavaí era a terra do café. Com experiência nas mais diversas lavouras, Bem Bem se arriscou e perseverou. Mais tarde, trocou o campo pela cidade e se tornou um político exemplar numa época em que vereadores não ganhavam nada para exercer a função. Depois de superar muitos obstáculos e ajudar tantas pessoas, o pioneiro faleceu aos 77 anos em 4 de maio de 1992.
“O café estava em evidência e meu pai sempre gostou de trabalhar como lavrador. Quando chegamos a Paranavaí, ficamos na casa da tia Taninha até arrumar um cantinho para morar. Enfrentamos dificuldades e perdemos uma irmãzinha, Ruth, que passou muito mal nos quatro dias de viagem e faleceu dez dias após a chegada”, diz a filha Roza de Oliveira, acrescentando que o trajeto tortuoso foi percorrido de trem e de ônibus.
Quando deixou a residência da irmã, Sebastião Bem Bem hospedou a família em uma humilde casinha construída onde é hoje a Unimed, na Rua Antônio Felipe. “O Paulo [Cesar de Oliveira, fundador do Grupo Gralha Azul e presidente da Fundação Cultural de Paranavaí] nasceu naquele ranchinho de tabuinhas, parede de lascas e chão de terra batida”, relata Roza sorrindo, como se estivesse revivendo o passado.
Bem Bem de Oliveira também trabalhou em Paranavaí como funcionário da Prefeitura de Mandaguari até que se mudaram para a famosa Chácara Progresso. O local era o preferido dos filhos, mas infelizmente o pioneiro teve de vender o imóvel e se mudar para um sítio. “Papai começou a lidar com café na propriedade do seu Antonio José da Silva. Depois fomos colher algodão. A família toda ajudava na lavoura”, lembra a filha.
Durante as colheitas, Bem Bem, que ainda criança aprendeu a manejar enxada, foice e machado, sempre explicava aos filhos a importância de estudar. Não queria que enfrentassem as mesmas dificuldades que ele. “Deixou claro para todos nós que é estudando que se vence. Tinha uma tristeza muito grande por não ter estudado”, confidencia Roza, lembrando que pais como Sebastião Bem Bem eram raros nos anos 1950 e 1960. Os filhos se recordam da alegria do patriarca ao vê-los diante de uma lamparina folheando um livro ou caderno à noite, mesmo que isso custasse acordar com o rosto sujo de tanta fuligem.
Quando Roza completou 15 anos e recebeu uma nomeação do prefeito José Vaz de Carvalho para trabalhar como professora na Casa da Criança, onde é atualmente Colégio Estadual Dr. Marins Alves de Camargo, Bem Bem ficou preocupado porque a filha precisaria percorrer quilômetros a pé para lecionar. Então decidiu se mudar.
Na área urbana, novamente se sentiu perdido porque tinha pouca experiência trabalhando longe do campo. Esperto e inteligente, não se abateu. Ao perceber a chegada de tantas famílias a Paranavaí, Sebastião Bem Bem começou a atuar como corretor de imóveis. Entre altos e baixos, o pioneiro fluminense estava sempre disposto a encarar desafios, tanto que trabalhou até na derrubada de mata em Loanda. Saía de Paranavaí na segunda e retornava apenas no sábado.
“Sempre teve uma capacidade muito grande de auto-superação. Não se entregava de jeito nenhum”, assegura Roza. Enquanto Bem Bem trabalhava como peão, a esposa Elazir Azevedo de Oliveira prestava serviços como lavadeira de roupas para muitas famílias de Paranavaí.
De acordo com o filho Paulo Cesar de Oliveira, com o incentivo dos amigos, Bem Bem de Oliveira concorreu ao cargo de vereador nas eleições de 1952 e ficou como suplente. À época, trabalhou para o candidato a prefeito Herculano Rubim Toledo, vencido pelo médico José Vaz de Carvalho. Logo que assumiu a administração municipal, José Vaz o convidou para uma conversa. “Ele disse que queria meu pai trabalhando com ele, ajudando a administrar Paranavaí. O convite foi aceito e os dois nunca desfizeram a parceria”, garante Paulo Cesar.
Naquele tempo, Bem Bem já realizava trabalhos sociais, contribuía com solicitações de encaminhamento para internações. Nos quatro primeiros anos que viveu em Paranavaí, não teve nenhuma pretensão política, só agia por amor ao próximo. “Ele se tornou um famoso voluntário da ação social e da área de saúde. Não sossegava enquanto não conseguia internar quem o procurava pedindo auxílio”, frisa Roza.
A partir de 1965, com a popularidade alta e o crescente reconhecimento de suas ações, o pioneiro conseguiu se eleger vereador. O desempenho agradou tanto a população que Bem Bem foi reeleito em 1969, 1973, 1977 e 1983. “Foram cinco mandatos consecutivos. De 1975 a 1976, ele foi presidente da Câmara Municipal. Atuou também como secretário da assistência social”, lembra Paulo Cesar de Oliveira.
Quando era vereador, não tinha hora para chegar em casa e recebia os eleitores até de madrugada. Tarde da noite, não era raro os filhos ouvirem vozes vindo da entrada da residência. A visita tinha quase sempre a mesma motivação: “Ô seu Bem Bem, meu pai tá doente. Precisamos da sua ajuda”, clamavam. O vereador se apressava e ia para a Santa Casa de Paranavaí, de onde não saía até garantir que o enfermo fosse internado.
Paulo Cesar se recorda de um episódio cômico em que até o prefeito José Vaz de Carvalho se rendeu aos esforços de Sebastião Bem Bem. “Um dia, o José Vaz, que era médico, estava atendendo na Santa Casa e uma recepcionista chegou falando que o Bem Bem estava nervoso. Então o prefeito disse: ‘Ah, manda ele pra lá”, narra o filho.

Elazir Azevedo de Oliveira e Bem Bem de Oliveira se casaram em 1938 em Santo Antônio de Pádua, no Rio de Janeiro (Foto: Acervo Familiar)
Se voltando para um paciente, Carvalho justificou que Bem Bem era uma pessoa muito boa, mas que exigia muita atenção. “Ninguém aguenta alguém que quer ser atendido toda hora”, criticou. Quando percebeu que Sebastião Bem Bem já estava entrando, José Vaz mudou o rumo da conversa. “Estou falando. Não tem homem igual o Bem Bem em Paranavaí. Atende ele, menina!”, ponderou.
Respeitado até por adversários políticos, o vereador tinha o hábito de fazer tudo sem usufruir de recursos públicos. Quando conseguia o encaminhamento de pacientes para Curitiba e outras cidades do Paraná, fazia questão de ir junto e ainda dormia ao lado da cama do paciente. “Sempre procurava a hospedaria mais barata. Chegava a ser ridicularizado pelos colegas. Nunca vi outro político assim, que não quer usar dinheiro público. Uma vez, papai dormiu em uma pensão e roubaram a mala dele”, confidencia Roza de Oliveira, evidenciando a bondade e azar do vereador.
O respeito e consideração de Sebastião Bem Bem pela população era tão grande que muitas vezes o pioneiro chegou ao Hospital das Clínicas de Curitiba carregando enfermos nos braços. Como vereador não tinha salário, trabalhou cerca de 16 anos sem ganhar nada. “Sabe o que ele fez na primeira ocasião em que recebeu como vereador? Dividiu mais da metade com os menos favorecidos”, conta rindo o genro Augustinho Borges.
Quem conheceu Sebastião Bem Bem de Oliveira sempre o considerou um guerreiro. Se sobressaía pelo interesse em fazer a diferença quando ainda não existiam políticas específicas para a área da saúde. “Era firme no que acreditava e um comentário só o atingia se tivesse argumentos consistentes, não vaidades”, avalia Rosa. Até hoje, Bem Bem é lembrado pela defesa de leis que garantiram à população o direito de acompanharem os familiares internados na Santa Casa de Paranavaí.
Em ato de coragem, durante uma sessão na Câmara Municipal, o vereador manifestou indignação contra a bancada ruralista no Congresso Nacional e ainda fez questão de chamar a atenção dos que representavam os interesses dos latifundiários na região. Mesmo depois de dedicar 25 anos de vida à população de Paranavaí, Sebastião Bem Bem de Oliveira não conseguiu obter a aposentadoria. “Não se aposentou nem como trabalhador rural, atividade que exerceu por décadas. Também foi guarda do aeroporto, secretário de assistência social e corretor de imóveis. Nada disso garantiu que ele recebesse nem mesmo um salário mínimo na terceira idade”, lamenta Paulo Cesar.
Antes de falecer em 4 de maio de 1992 em decorrência de falência múltipla de órgãos, Bem Bem teve um acidente vascular cerebral (AVC) e passou os dois últimos anos de vida em uma cadeira de rodas. Segundo Roza de Oliveira, o pai sofreu bastante. Teve de fazer hemodiálise e frequentemente precisava ser internado. “Ele era diabético e hipertenso. Um dia, o José Vaz entrou no quarto e falou que o Bem Bem não merecia passar por isso”, testemunha Paulo Cesar de Oliveira.
Pouco antes de morrer, Sebastião Bem Bem de Oliveira lamentou o arrependimento de não ter se dedicado mais aos filhos. Também questionou se realmente foi um bom pai. “Deixamos claro que ele foi o melhor pai do mundo, que nos ensinou com rigor a importância de sermos honestos e trabalhadores. Apesar de todas as dificuldades, nos ensinou muito sobre Deus, um presente eterno que todo pai deveria dar aos filhos. Foi um momento de emoção, choro e conforto”, assinala Roza.
No dia 6 de maio de 1992, o editorial do Diário do Noroeste expressou pesar pela morte de um dos políticos mais importantes da história de Paranavaí. “Bem Bem de Oliveira entrou pobre na política e assim saiu dela, quando sua saúde já não permitia mais desenvolver as atividades legislativas. Fez um grande trabalho na área social – fato reconhecido até por adversários políticos. E a grande virtude do ex-vereador é que ele realizou este trabalho antes de entrar para a Câmara Municipal e continuou depois de se despedir do legislativo. Foi a política que entrou na vida de Bem Bem e não ele que entrou para a política.”
Bem Bem amava poesia e adorava noticiários
Obrigado a trabalhar desde criança, Sebastião Bem Bem de Oliveira só estudou até o segundo ano do primário, atual ensino fundamental. Ainda assim, gostava muito de ler e era bom em cálculos. “Ele tinha aquele complexo de achar que não possuía cultura por ter estudado pouco. Apesar disso, gozava de uma capacidade invejável para discursar e evangelizar. Era um homem inteligentíssimo e entendia tudo sobre a bíblia, o seu livro preferido que leu tantas vezes”, diz a filha Roza de Oliveira.
O amor pela poesia e pela declamação, Roza herdou do pai aos cinco anos. A influência foi tão significativa que os filhos cresceram afeiçoados à literatura. Paulo Cesar de Oliveira, fundador do Grupo Gralha Azul, atribui ao pai o seu grande envolvimento com arte e cultura ao longo da vida. Além de leitor inveterado, Sebastião Bem Bem adorava noticiários, tanto que quando comprou a primeira TV “foi como se o paraíso chegasse até ele”, define a família.
Bem Bem também sabia ser bravo e intransigente, principalmente quando ficava com ciúmes. Roza de Oliveira jamais esqueceu o episódio em que estava estudando química em casa com a ajuda do amigo e engenheiro Luís Beletti. “De repente, passa o papai com um cabo de vassoura pra bater no rapaz. Ele achou que estávamos muito perto um do outro. Tinha o coração bom demais, mas um temperamento difícil”, admite Roza às gargalhadas. No dia, a filha chorou a noite toda de vergonha. Ficou tão constrangida que passou um bom tempo sem se aproximar de rapazes. Mais tarde, Bem Bem se arrependeu e convidou o jovem para um almoço.
Um mito em Santo Antônio de Pádua
Nos anos 1970, Sebastião Bem Bem de Oliveira já convivia com o diabetes. Teimoso, se recusava a seguir a dieta. “Ia pra casa do amigo Salomão e comia tudo que não podia. Ele não gostava de se cuidar. Lá pelo início dos anos 1980, só abriu uma exceção e deu uma caprichada quando prometi levar ele e a mamãe para visitar os parentes no Rio de Janeiro”, lembra a filha Roza de Oliveira.

Dona Elazir: “Eu e o Bem Bem enchemos Paranavaí de gente. Tivemos 14 filhos, 17 netos e 22 bisnetos” (Foto: Acervo Familiar)
Cumprindo o combinado, o levaram para Santo Antônio de Pádua. Apesar de ter deixado a cidade natal ainda muito jovem, a fama de Bem Bem como um homem bondoso e admirável era tão grande que na casa do irmão, onde ficou hospedado, recebeu visitas o dia todo, até de pessoas que não conhecia.
“Chegou muita gente de carro de boi e também a cavalo. Foi aí que percebi o quanto ele era querido em Pádua. De lá, fomos para o Rio [de Janeiro, capital], onde visitamos Jorge de Sá, um de seus melhores amigos. Na volta, passamos ainda em São Paulo para ele rever o ‘Seu Olivier’, outro grande amigo”, descreve Roza, acrescentando que fizeram todas as vontades de Bem Bem durante a viagem.
O que também chamava a atenção no pioneiro era a grande sensibilidade. Era acostumado a chorar com facilidade, principalmente quando reencontrava algum parente ou amigo. Se emocionava até mesmo com figuras públicas que admirava. “Eu tinha 13 anos quando o presidente Getúlio Vargas cometeu suicídio e lembro como se fosse hoje. Morávamos em um ranchinho e o ‘radião’ ficou ligado dia e noite. Papai chorava sem parar”, pontua Roza.
Um traço de personalidade que virou nome
De acordo com a esposa Elazir Azevedo de Oliveira, o pioneiro fluminense Sebastião de Oliveira ficou conhecido como Bem Bem muito cedo pelo jeito afável e querido de ser. “Quando ele era criança o chamavam de benzinho. Mais tarde, começaram a falar Bem Bem”, conta. O genro Augustinho Borges explica que o apelido que depois virou nome ganhou força com o altruísmo do pioneiro fluminense. “Ele era a pessoa que mais se encaixava no ditado ‘faça o bem sem olhar a quem’. Fazia o melhor por qualquer pessoa e tentava sempre ver o lado bom de tudo”, comenta Borges.
Em 1980, Sebastião de Oliveira decidiu fazer uma retificação de nome porque nas últimas eleições perdeu muitos votos quando concorreu a vereador. O problema era que bastante gente o conhecia apenas como Bem Bem. “O sujeito votava, mas os votos não eram considerados porque o que valia era o nome no registro de identidade”, comenta Augustinho Borges.
Com o auxílio do advogado Fuad Esper Cheida, o pioneiro conseguiu fazer a alteração. À época, Augustinho Borges viajou até o Rio de Janeiro para formalizar a mudança e buscar a nova certidão de nascimento do sogro. Na última eleição municipal em que concorreu, Bem Bem superou de longe a quantidade de votos das eleições anteriores, provando que era um dos políticos favoritos da época. Em reconhecimento a tudo que fez por Paranavaí, Sebastião Bem Bem de Oliveira recebeu em 14 de dezembro de 1981 o título de cidadão benemérito de Paranavaí.
Em 2 de setembro de 1987, o pioneiro foi presenteado pela Associação Comercial e Industrial de Paranavaí com uma placa de prata entregue pelo então prefeito Benedito Pinto Dias. A solenidade o reconheceu como o homem público do ano pela Comissão Organizadora das Solenidades da Semana da Pátria. Bem Bem também foi prestigiado com um nome de rua. Uma das vias mais importantes do Jardim Ibirapuera e Jardim Santos Dumont, a Rua Catete recebeu o nome de Rua Sebastião Bem Bem de Oliveira.
Saiba Mais
Sebastião Bem Bem de Oliveira era do Rio de Janeiro, cujo padroeiro é São Sebastião e se mudou para Paranavaí, cidade que também tem o santo como padroeiro. Casou-se com Elazir Azevedo de Oliveira que nasceu em 20 de janeiro, Dia de São Sebastião. Além disso, por pouco “Dona Elazir” não recebeu o nome de Sebastiana.
Sebastião Bem Bem se apaixonou por Elazir quando ela tinha apenas 14 anos. Tentou pedir a mão da jovem em casamento, mas o pai dela recusou alegando que não tinha filha em idade de se casar. Apaixonado, Bem Bem ficou tão abalado que chegou a ser internado em um sanatório. Sebastião de Oliveira não desistiu, tanto que se casaram quatro anos depois.
Em Santo Antônio de Pádua, Sebastião Bem Bem trabalhava cultivando arroz na serra. Apesar das dificuldades, todos os dias ‘Dona Elazir’ percorria longas distâncias e subia morros levando uma cesta de comida para o marido e os companheiros de trabalho.
Paulo Cesar de Oliveira se recorda do episódio em que o pai, Sebastião Bem Bem, estava acompanhando um homem com problemas psicológicos para receber tratamento médico em outra cidade. Na ocasião, o sujeito abriu a porta do carro, desceu e fugiu em direção a um matagal. Bem Bem teve de correr atrás do homem para trazê-lo de volta.
Frase da filha Roza de Oliveira, de 73 anos.
“Um dia, ali perto do Grande Hotel teve um tiroteio e o papai mandou todo mundo deitar no chão. Ficou com medo que alguma bala acertasse a gente. A confusão foi armada por causa de grilagem de terras.”
Frase da esposa Elazir Azevedo de Oliveira, de 94 anos.
“Eu e o Bem Bem enchemos Paranavaí de gente. Tivemos 14 filhos, 17 netos e 22 bisnetos. Fico triste por ter perdido sete filhos, mas também fico feliz de ter uma família tão grande, boa e bonita. Todos me tratam bem, querem o melhor pra mim. São muito queridos. Me sinto uma ilha cercada por netos por todos os lados. Tem hora que fico perdida no meio da turma, né?”
O Garganta de Ouro que deixou Terra Rica para conquistar o Brasil
Antes do estrelato, quando vivia em Terra Rica, José Rico cantava em troca de doces
Na infância, o pequeno José Alves dos Santos começou a se destacar em Terra Rica, no Noroeste do Paraná, ao cantar em troca de doces. Quando cresceu, a necessidade o obrigou a exercer serviços braçais para sobreviver. Porém, como profetizara um padre, José ainda seria rico. Após mais de 40 anos de sucesso, infelizmente, José Rico, que tocaria na 44ª ExpoParanavaí no dia 13 de março, faleceu hoje em Americana, interior de São Paulo, em decorrência de complicações envolvendo coração e rins.
O músico José Alves dos Santos, conhecido como José Rico, o Garganta de Ouro do Brasil, nasceu em São José do Belmonte, Pernambuco, em 1946, mas em 1948 se mudou com a família para Terra Rica, onde viveu até os 19 anos. De acordo com Wilson Alonso, amigo de infância do cantor, José Rico sempre foi um grande personagem da cidade. “Ele nunca foi como aqueles artistas que esquecem da própria origem. Não ficava mais de seis meses sem aparecer aqui”, explicou em tom de orgulho em entrevista que me foi concedida em 2006.
Ao se mudar para o extremo Noroeste do Paraná, no início, o pai de José Rico conseguiu manter a família com o ofício de barbeiro. No entanto, logo surgiram dificuldades e ainda criança José Alves dos Santos teve de trocar a chupeta por uma enxada. “Ele trabalhou muito na lavoura. Também atuou como pintor, sorveteiro, engraxate e servente de pedreiro. Lembro como se fosse hoje”, contou Alonso, se calando por alguns segundos, disperso em pensamentos.
Quando não estava trabalhando, o pequeno José gostava de cantar. A boa voz foi determinante para ser convidado a participar de eventos locais em que o cachê se resumia a paçoquinha e sorvete. “Era uma figurinha carimbada nas quermesses e festas juninas. Quem tinha muito dinheiro na época, sempre o chamava para se apresentar”, relatou Alonso, sem velar o sorriso nostálgico.

Com Milionário, o cantor formou uma das maiores duplas de música sertaneja do Brasil (Foto: Reprodução)
O interesse pela música sertaneja foi precoce, mas naquele tempo o desconhecido José dos Santos embalava o público com canções românticas e boêmias. “Eram composições de Altemar Dutra e Nelson Gonçalves. O pessoal gostava mais desses cantores que estavam no auge”, revelou Alonso. No fim da adolescência, José Alves dos Santos começou a participar de programas de rádio. Alonso citou um episódio em que o cantor veio a Paranavaí para participar de um programa de auditório. “Ele conseguiu chegar a tempo de se apresentar na Rádio Paranavaí, graças ao sargento Vieira”, reitera.
Quando ainda sequer cogitava a possibilidade de gravar um disco, o jovem José conheceu o pároco Eduardo Bassil que o incentivou. “O padre falou que ele seria um José Rico, ficaria realmente rico, e isso aconteceu. Foi merecido porque ele lutou muito por isso, não caiu do céu”, avaliou Wilson Alonso.
José Rico gostava de comer arroz, feijão e ovo
Na adolescência, as mãos do cantor sertanejo José Rico não se sentiam atraídas apenas pelas cordas do violão. “Briga era com ele. Lembro que antigamente tinha luta em circo, então normalmente no segundo dia ele já estava lá na arena lutando. O Zé gostava muito disso”, informou o amigo Wilson Alonso.
Emocionado, Alonso destacou a simplicidade como a principal característica do cantor. “O Zé chegava aqui em casa e dizia que queria comer arroz, feijão, ovo frito e quiabo. Além disso, adorava sair na rua de bermuda, camiseta e tênis”, enfatizou o amigo.
Apesar de não tocar nenhum instrumento, Wilson Alonso guardava com esmero um violão cuidadosamente envernizado e sempre brilhante. O instrumento sempre ficava à espera do amigo José Rico. Por muito tempo, ao toque do primeiro acorde sempre levava à tona a nostalgia e graça da época em que usava o talento para ganhar um pedaço de doce.
Saiba Mais
O texto acima é resultado de uma entrevista que fiz com Wilson Alonso em 2006. Infelizmente, Alonso faleceu em 10 de setembro de 2011, três anos e cinco meses antes da partida de José Rico, a quem ele considerava um de seus melhores amigos.
Curiosidades
Além da música sertaneja, José Rico apreciava música gaúcha, mexicana, paraguaia e cigana. Tais influências são perceptíveis nas composições do artista.
A música “Estrada da Vida”, de autoria de José Rico, garantiu a venda de mais de dois milhões de discos.
A dupla Milionário e José Rico surgiu em 1973. Desde então, lançaram 29 discos e dois filmes: “Na Estrada da Vida” e “Sonhei com Você”.
O filme “Na Estrada da Vida” foi dirigido por Nelson Pereira dos Santos, expoente do cinema novo brasileiro.
Vila Alta e a realidade da periferia
Documentário mostra que a Vila Alta também é uma comunidade de pessoas honestas
Disponibilizei hoje no meu canal no YouTube o documentário “Vila Alta”, que faz parte da série Realidade da Periferia, composta por um filme de longa-metragem, um de média-metragem e um curta. É uma trilogia de documentários. Todos estão relacionados, tanto que há referências de cada obra nos três filmes.
Na semana que vem começo a produzir o curta-metragem “Ivan & Rose”, sobre as dificuldades e o cotidiano de um casal de catadores de recicláveis que vive com R$ 280 por mês. O filme fecha a trilogia iniciada com a obra “Oficina do Tio Lú”, lançada em fevereiro.
Mas voltando ao filme que lancei hoje, o documentário Vila Alta mostra que há mais de 30 anos os moradores mais pobres da área rural e de diversos bairros de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, foram obrigados a se mudar para um lixão no fim da Vila Operária. No local, mesmo sem energia elétrica e água encanada, eles montaram dezenas de barracos de lona para abrigar suas famílias.
Vivendo sob condições sub-humanas, ainda tiveram de conviver com o preconceito, a intolerância, a violência e a criminalidade. Socialmente invisível, a população do bairro, que um dia foi conhecido como Balão Mágico e Vila do Sossego, hoje sofre para se livrar de um estigma social que se perpetuou ao longo de décadas.
Em Paranavaí, os mais jovens crescem ouvindo histórias que reforçam o mito de que a Vila Alta é uma “terra de criminosos”, um lugar onde ninguém deve ir. Não é à toa que a maior parte da população da cidade não conhece o bairro.
O documentário destaca outra realidade pouco conhecida. Na contramão da sua fama, a Vila Alta também é uma comunidade de pessoas honestas, batalhadoras e sensíveis que mesmo privadas das necessidades básicas ainda lutam e sonham com um futuro mais digno.
Apresentado de forma crua, mas solene, Vila Alta é uma obra testemunhal em que os personagens dialogam livremente. Do início ao fim, para reforçar o caráter intimista, a câmera é apoiada sobre uma mão. Não há escapismo, tratamento de imagem, uso de microfone externo e neutralização do som ambiente. Até mesmo alguns ruídos são preservados, cumprindo o objetivo de retratar com fidelidade as particularidades de cada momento, assim como o universo de cada personagem.
Para quem quiser assistir ao filme na íntegra, segue o link:
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
Casal tenta sobreviver com R$ 280 por mês
Ivan e Rose moram em um dos poucos barracos que ainda restam na Vila Alta
Nos anos 1970 e 1980, quem visitava a Vila do Sossego, atual Vila Alta, em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, se surpreendia com a quantidade de barracos de lona. Cada um, em média, abrigava quatro pessoas. Quando chovia, o desespero tomava conta. Todos tinham de passar a noite acordados e apoiados nas extremidades do barraco para evitar que ficassem descampados.
Com o tempo, o cenário mudou, e hoje o bairro tem poucas pessoas vivendo em situação de pobreza extrema, embora muitos ainda não ganhem o suficiente para viver com dignidade. “Antes a gente reclamava porque não tinha onde morar. Agora cada um pelo menos tem a sua casinha, mesmo que não seja boa”, diz a dona de casa Cristiane Santos França.
Circulando pelo bairro e conversando com os moradores, logo você é informado que muitas moradias só existem porque a comunidade se uniu para construí-las. Ainda assim, é um privilégio que não chegou a todos que vivem no bairro. O casal de catadores de recicláveis Rose Maria Santos e Ivan Cardoso Martins representa bem essa realidade.
Quem chega em frente ao terreno onde eles moram, nem imagina que ali existe uma “casa” de dois cômodos, com um banheiro improvisado no quintal. A entrada é coberta por materiais recicláveis, o único meio de subsistência de Rose e Ivan que dividem o espaço com cães e gatos, animais que recebem o mesmo tratamento de um filho.
Para entrar no casebre feito à base de materiais descartados na rua, preciso me abaixar para não bater a cabeça no batente fora de medida. O ambiente é escuro e pouco arejado. A luz entra somente por uma pequena janela que dependendo do horário do dia pode ser confundida com uma fresta. No interior do barraco, Rose sorri com timidez e me convida para sentar em uma poltrona bastante judiada, retirada próxima de uma sarjeta.
Nos cumprimentamos e ela me conta que é muito difícil viver nessa situação. Em uma olhadela, percebo que ali não existe nada que algum dia tenham comprado em uma loja. Está tudo muito desgastado. “É difícil porque a casa molha, né? E molha tudo. A gente não tem condições de fazer outra. Molha cozinha, quarto, pinga por tudo”, confidencia Rose visivelmente gripada e enxugando o rosto com um pedaço de pano.

Ivan Martins: “Quando a crise vem, parece que vou morrer. E pode ser que da próxima vez aconteça mesmo” (Foto: David Arioch)
Os móveis, que jamais seriam aproveitados por uma família de classe média, sofrem com a ação da chuva, se deteriorando rapidamente. Quando chove demais, a água arrasta a lama para dentro do casebre. A história se repete há 15 anos, desde que Rose e Ivan fizeram o barraco. “Tudo aqui foi feito por conta própria, juntando aos poucos”, enfatiza a catadora de recicláveis. Enquanto conversamos, escuto um gemido no quarto, cômodo que fica ao lado da sala-cozinha.
Lá, em meio a roupas velhas e objetos antigos, repousa o “Seu Ivan”, como é mais conhecido. Vítima de mal de Parkinson, passa por crises tão severas que há dias em que não consegue andar. Se obriga sempre a se apoiar em algo para evitar a queda, seja uma muleta, um andador ou o próprio carrinho de recicláveis.
Quando percebe a minha presença, Ivan se levanta de um colchão velho, sem roupa de cama, e com muito esforço consegue chegar até nós. Me cumprimenta, sorri e senta ao lado da mulher. Inicia a conversa informando que só não chove em cima do colchão porque conseguiram cobrir parte do casebre com um pedaço de lona doada. “Aí tem cada buracão de pedra que caiu. O madeiramento tá tudo budocando [embodocando]”, afirma.
“De vez em quando me dá uma tremedeira que nada segura. Não consigo manter nem o copo na mão”, declara com um olhar miúdo e um tom de voz calmo e pausado. Para minimizar o problema, o medicamento não pode faltar. Cardoso também sofre de hipertensão e tem enfisema pulmonar.
Com 61 anos, o homem foi castigado pelas precárias condições de vida. Quem o vê de perto, pensa que é bem mais velho. Mesmo doente, Ivan, assim como Rose, não pode parar de trabalhar. Juntos, eles saem todos os dias pouco antes das 8h e retornam só depois das 20h. São mais de 12 horas diárias de trabalho para lucrar 70 reais por semana, ou seja, 280 reais por mês.
“É o que a gente consegue quando não perde nenhum dia. Agora se ele ficar muito ruim, o ganho é menor”, garante Rose Santos. Entre uma tosse e outra, lembra que o marido sofreu dois infartos nos últimos oito anos. Nas ruas, nem todos respeitam o trabalho dos catadores de materiais recicláveis. Enquanto alguns contribuem, inclusive separando o material para o casal transportar, outros exigem que para recolhê-los é preciso levar também o lixo.

Seu Ivan se emociona quando se recorda da época em que carregava mais de 100 quilos no carrinho (Foto: David Arioch)
“Pegamos papelão, plástico, latinha, mas latinha rende pouco, né? Ferro também. O preço é de 10 centavos por quilo. Então tem que conseguir pelo menos 100 pra ganhar um dinheirinho”, explica Rose. Seu Ivan se emociona quando se recorda da época em que carregava mais de 100 quilos no carrinho. “Agora se você me chamar pra ir até o portão pegar dez quilos, não aguento porque não consigo levantar esse peso. Se colocar na cabeça, caio para o outro lado”, lamenta sem esconder a tristeza e o constrangimento. Com olhos marejados, revela que toma banho sentado ou com a ajuda de Rose.
Ivan Cardoso Martins trabalha desde a infância e até hoje não conseguiu se aposentar, seja por tempo de serviço ou pelas limitações impostas pela doença. Sem dia certo para aparecer, as crises podem acontecer com intervalo de dois dias ou até uma semana. “Quando vem, parece que vou morrer. E pode ser que da próxima vez aconteça mesmo”, comenta.
Ivan e Rose, que são facilmente vistos circulando pelas ruas centrais de Paranavaí, sonham em comprar materiais para construir dois ou três cômodos em frente ao barraco. “Se alguém pudesse ajudar, a gente ficaria muito feliz”, admite Ivan em declaração partilhada por Rose. Sem saneamento básico e energia elétrica, o casal parece alheio à realidade dos vizinhos e principalmente dos moradores do bairro ao lado, a Vila Operária.
Assim que agradeço a cordialidade e me despeço, Seu Ivan faz questão de me acompanhar até a entrada, se apoiando com muito esforço em um andador feito e doado pelo artista plástico Luiz Carlos Prates Lima. Apesar da vida de penúria e da invisibilidade social, o homem ainda preserva a sua fé e se despede com um gesto verbal de benevolência: “Muito obrigado pela visita. Vá com Deus, meu filho.”
Contribuição
Quem quiser contribuir com o casal, pode ligar para a Fundação Cultural de Paranavaí: (44) 3902-1128 ou (44) 9865-1391 e falar com Luiz Carlos.














