David Arioch – Jornalismo Cultural

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George Orwell, a redenção de um artista

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As obras de Orwell revelam como ele se sentia em relação ao violento sistema em que estava inserido

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Richard Blair ficou decepcionado quando soube que o filho queria se tornar um escritor (Foto: Reprodução)

Richard Walmesley Blair passou 35 anos trabalhando no Departamento de Ópio do Serviço Civil Indiano, uma agência do governo britânico que abalizava a produção de papoula no país. Mesmo assim, Eric Arthur Blair, que cresceu na Inglaterra sem a presença do pai, se dispôs a seguir um destino semelhante, ou seja, tornar-se um filho fiel do Império Britânico.

Aos 19 anos, Blair foi aprovado em sétimo lugar, de um total de 27 classificados, para ingressar como assistente da superintendência da Polícia Imperial Indiana na Birmânia. De acordo com o escritor e professor de literatura canadense, Steve King, o que Eric testemunhou mudou o rumo de sua vida.

“Suas novelas e ensaios revelariam como ele se sentia sobre o sistema de espancamentos, enforcamentos, vigilância e escravidão social em que estava inserido. Blair escreveu mais tarde que independente de tempo e treinamento, ele nunca conseguiu se sentir indiferente à face humana. Por isso, renunciou à função em 1927, depois de cinco anos de ‘trabalho sujo’”, explica.

Richard recebeu a decisão do filho com decepção, principalmente quando soube que seu desejo era tornar-se escritor. Eric iniciou sua jornada para alcançar um tipo peculiar de redenção por meio da literatura. Estava empenhado em  se dedicar a um tipo peculiar de redenção. Como forma de compensação por tudo que viu e viveu na Birmânia, ele se colocou entre os oprimidos para tentar entender como era ser um deles.

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Orwell usou a literatura para combater o totalitarismo (Foto: Arquivo da BBC)

Visitou minas e estaleiros, viveu com andarilhos e vagabundos, aceitou os piores trabalhos e passou fome. São experiências que deram origem ao seu livro de estreia Down and Out in Paris and London, de 1933, lançado no Brasil como Na Pior em Paris e Londres. O jovem autor não gostou muito da obra e antes de publicá-la decidiu adotar o nome George Orwell. Pensou também em outros nomes como P.S. Burton, identidade que adotou quando virou andarilho, Kenneth Miles e H. Lewis Allways.

Os 15 anos seguintes da vida do escritor foram dedicados a combater o totalitarismo e defender através de suas obras a forma mais genuína de socialismo. Quando se juntou à causa republicana na Guerra Civil Espanhola, eles queriam que ele contribuísse escrevendo, fazendo propaganda, porém o seu desejo era lutar. E foi o que conseguiu. A experiência o inspirou a escrever o livro Homage to Catalonia (Homenagem à Catalunha), de 1938.

Como voluntário, George Orwell participou de inúmeras incursões, ficando conhecido pela imprudência nos campos de batalha. E o que fazia dele um alvo fácil era a inexperiência e altura – ele tinha mais de 1,90m. Na primavera de 1937, Orwell quase morreu após levar um tiro na garganta.

“Durante a Segunda Guerra Mundial, como ele sempre sofreu com doenças brônquicas e pré-tuberculosas, teve de se contentar em atuar como guarda territorial, dando palestras sobre combate e cuidando de suprimentos de bombas caseiras que ele resguardou na sua própria casa, perto da lareira”, declara King.

Em 1940, o escritor pressionou o governo britânico para custear exibições do filme O Grande Ditador, de Charlie Chaplin, por toda a Inglaterra. Também fez uma campanha para distribuir armas, inclusive granadas, a cada morador, com a intenção de criar um exército civil capaz de se defender se necessário. “Um rifle pendurado na parede de um operário ou de um camponês é um símbolo da democracia”, escreveu George Orwell.

Primeira edição do livro 1984, lançado em 1949 (Foto: Reprodução)

Primeira edição do livro 1984, lançado em 1949 (Foto: Reprodução)

Depois dos 40 anos, Orwell percebeu que não viveria muito. A tuberculose piorou e ele continuou evitando repouso. Contrariando todas as recomendações, se mudou para a remota Ilha de Jura, na costa oeste da Escócia. Sua casa não tinha eletricidade e se situava a 12 quilômetros de uma estrada que só poderia ser alcançada a pé. E a loja mais próxima ficava a 40 quilômetros. Para piorar, sua esposa, Eileen O’Shaughnessy, faleceu repentinamente em 1945. Então o escritor teve de encarar a realidade de criar sozinho o filho Richard, um bebê que adotaram em junho de 1944.

Quando a guerra acabou, em 2 de setembro de 1945, ele começou a criar a sua novela mais famosa – 1984, até hoje considerada um dos maiores manifestos literários contra o totalitarismo. “Seus heróis vieram das fileiras das classes operárias porque ele acreditava que os horrores gerados pela polícia do pensamento, novilíngua e o ritual Dois Minutos de Ódio deveriam ser combatidos pelos Winston Smith do mundo, não pelos Winston Churchill”, enfatiza King.

Em 1946, Orwell tentou encontrar uma companheira que pudesse ajudá-lo a criar Richard, mas suas três propostas foram declinadas, até porque ninguém queria morar na isolada Ilha de Jura. Três anos depois, o escritor foi surpreendido por Sonia Brownell que aceitou se casar com ele. E ela admitiu que foi conquistada por uma frase: “Procuro uma mulher para ser viúva de um homem de letras.”

O romance distópico 1984 foi concluído em dezembro de 1948 e logo o estado de saúde de george Orwell piorou, tanto que acabou internado no The Costwold Sanatorium, em Gloucesterhsire, no sudoeste da Inglaterra. Quando seu editor o visitou em 21 de janeiro de 1949, eles decidiram que seria melhor mudar o título da obra, então chamada The Last Man in Europe (O Último Homem na Europa).

O New York Times Book Review definiu a receptividade do livro como esmagadoramente admirável, com gritos de horror que superaram os aplausos. Muitos viram o título como ameaçador, mas ele só foi escolhido porque 84 é o inverso de 48, ano em que Orwell terminou de escrevê-lo. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, exatamente um ano depois da escolha definitiva do título.

Saiba Mais

George Orwell nasceu em 25 de junho de 1903 em Motihari, na Índia, e faleceu em 21 de janeiro de 1950, no University College Hospital, em Londres, na Inglaterra. Ele tinha apenas 46 anos.

Obras mais importantes de George Orwell

1984 (1949), Animal Farm (A Revolução dos Bichos – 1945), The Road to Wigan Pier (O Caminho para Wigan Pier – 1937), Homage to Catalonia (Homenagem à Catalunha – 1938) e Down and Out in Paris and London (Na Pior em Paris e Londres – 1933).

Passagens do livro 1984, lançado em 1949 (Página 63)

Era provável que houvesse milhões de proles para quem a Loteria era o principal senão o único motivo de continuar a viver. Era o seu deleite, sua loucura, seu anódino, seu estimulante intelectual. Quando se tratava da Loteria, até gente que mal sabia ler e escrever fazia intrincados cálculos e fantásticas proezas de memória. Havia um exército de homens que ganhava a vida graças à simples venda de sistemas, previsões e amuletos.

Winston nada tinha que ver com a exploração da Loteria, que era administrada pelo Ministério da Fartura, mas sabia (como sabiam todos do Partido) que em grande parte os prêmios eram imaginários. Na realidade, só eram pagas pequenas quantias, sendo pessoas inexistentes os ganhadores da sorte grande. Na ausência de qualquer intercomunicação real entre uma parte e outra da Oceania, não era difícil arranjar isso.

Mas se esperança havia, estava nas proles. Era preciso agarrar-se a isso com unhas e dentes. Quando se traduzia o pensamento em palavras, parecia razoável: mas quando se considerava os homens que passavam pela calçada, a ideia se transformava em ato de fé.

Referências

http://www.todayinliterature.com/

Taylor, D. J. (2003). Orwell: The Life. Henry Holt and Company.

Ingle, Stephen (1993). George Orwell: a political life. Manchester, England: Manchester University Press.

Crick, Bernard R. (1980).George Orwell: A Life. Boston: Little, Brown and Company.

“The Orwell Prize | Life and Work—Exclusive Access to the Orwell Archive”. Pesquisa realizada em 29 de maio de 2016.

O mundo sombrio dos Irmãos Grimm

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Na versão original, os contos dos Irmãos Grimm são recheados de canibalismo, infanticídio e incesto

Wilhelm and Jacob Grimm, 1847; daguerreotype by Hermann Blow

Wilhelm and Jacob Grimm se interessaram em estudar o folclore germânico na juventude (Imagem: Hermann Blow)

Acredito que seja difícil encontrar alguém que nunca tenha lido ou ouvido algum conto dos Irmãos Grimm na infância, principalmente pela facilidade com que povoam o ideário das crianças. São histórias que se tornaram ainda mais populares depois das adaptações feitas pela Disney. A primeira e mais icônica continua sendo Branca de Neve e os Sete Anões, de 1937, inspirada no conto Schneewittchen, de 1812.

Também famosos por histórias como Hänsel und Gretel (João e Maria), Rapunzel, Aschenputtel (Cinderela) e Dornröschen (A Bela Adormecida), entre outros, os alemães escreveram e editaram 35 livros. O primeiro, baseado em contos domésticos, foi publicado em 1812 com o título de Kinder- und Hausmärchen. No entanto, até hoje a questão da autoralidade nas obras dos Irmãos Grimm desperta muitas controvérsias porque suas histórias já existiam no folclore germânico e na cultura popular de outros países e regiões da Europa.

Jacob e Wilheilm Grimm cursaram direito na juventude, porém como não tinham interesse em seguir carreira, optaram por estudar o folclore germânico. Jacob foi um pouco além, se interessando também pela filologia, o estudo da linguagem através de fontes históricas. Por isso, mais do que escritores, os Irmãos Grimm foram pioneiros na aplicação de métodos científicos na pesquisa da tradição oral.

Movidos por um misto de anseio acadêmico e patriotismo, enveredaram pela pesquisa de contos folclóricos porque estavam preocupados com a preservação da cultura germânica. Assim que perceberam que havia um filão literário a ser explorado, endossado pela crescente quantidade de leitores que queriam somente ler boas histórias, os Irmãos Grimm começaram a se afastar do academicismo.

Ludwig Emil Grimm

“Eles expandiam ou suavizavam a narrativa na tentativa de fazer algum apontamento moral” (Arte: Ludwig Emil Grimm)

A primeira ação foi descartar as notas de rodapé. Também tornaram as histórias mais romanescas, claras, simples e incluíram lições de moral que pudessem ser compreendidas até por crianças, uma manobra para facilitar a aceitação dos contos e torná-los mais comerciais através da caracterização da fábula.

Com a disneyficação, as histórias dos Irmãos Grimm ganharam mais espaço no Novo Mundo. Contudo, ao final da Segunda Guerra Mundial, autoridades do alto escalão dos países aliados aproveitaram a queda do Terceiro Reich para banir por tempo indeterminado as obras dos Irmãos Grimm, alegando que seus contos influenciaram a violência praticada pelos nazistas até 1945.

O que pareceu um despautério, se levarmos em conta que seus contos eram amados por tantas crianças, começou a fazer mais sentido quando a escritora estadunidense Maria Tatar, expert em literatura infantil, germânica e folclore, publicou em 1987 o livro The Hard Facts of the Grimms’ Fairy Tales. De acordo com a autora, quem tiver interesse em ler as obras originais dos Irmãos Grimm precisa estar preparado para descrições gráficas de assassinatos, mutilações, canibalismo, infanticídio e incesto.

“Crianças são decapitadas e servidas em um ensopado para a apreciação dos pais. Há príncipes e princesas que fazem muito mais do que dormir. Meninas más são obrigadas a rolarem pelas colinas dentro de barris cravejados de unhas. E se elas recusarem, suas mãos e seios são fatiados”, informa Tatar que qualificou Wilhelm como alguém com uma visão literária mais comercial enquanto Jacob era mais acadêmico.

Versão original do Kinder- und Hausmärchen, publicado em 1812 (Foto: Museu Histórico Alemão)

Versão original do Kinder- und Hausmärchen, publicado em 1812 (Foto: Museu Histórico Alemão)

Em alguns contos dos Irmãos Grimm a violência e a sexualidade são mais explícitas do que no material oral que utilizaram como fonte. “Eles expandiam ou suavizavam a narrativa na tentativa de fazer algum apontamento moral. Às vezes fizeram mudanças bem pessoais por razões pouco claras”, declara a escritora. Na primeira edição do conto Die zwölf Brüder (Doze Irmãos), um rei misógino diz à esposa que se o décimo terceiro filho do casal for uma menina, os meninos têm de morrer.

“Eu prefiro cortar todas as suas cabeças do que deixar uma menina entre eles”, esbraveja o rei. Já na segunda edição o discurso muda quando o rei enfatiza que os meninos devem morrer para que sua filha seja a única a herdar o trono, sem qualquer concorrência.

Trecho da primeira versão de Schneewittchen (Branca de Neve), publicado em 1812

Ela caminhou até o príncipe e, feliz em vê-la, ele não conteve a alegria ao ter certeza de que ela estava viva. Então se sentaram à mesa e comeram com satisfação.   

Seu casamento foi marcado para o dia seguinte e sua mãe também foi convidada. Naquela manhã, sua mãe deu um passo em direção ao espelho e disse:

Espelho, espelho na parede,

Quem nesta terra é a mais bela de todas?

O espelho respondeu:

Você, minha rainha, é justa, é verdade.

Mas a jovem rainha

É mil vezes mais justa do que você.

Ela ficou horrorizada em ouvir aquilo, tão assustada que não foi capaz de dizer mais nada. Ainda assim o ciúme a motivou a ir ao casamento ver a jovem rainha. Quando ela chegou, viu que era a Branca de Neve. Em seguida, colocaram um par de sapatos de ferro no fogo, até brilhar em brasas, e obrigaram a velha rainha a usá-los e a dançar com eles. Seus pés ficaram terrivelmente queimados, mas ela não conseguia parar e continuou dançando até a morte.

Saiba Mais

Jacob Ludwig Carl Grimm nasceu em 4 de janeiro de 1785 e seu irmão Wilhelm Carl Grimm em 24 de fevereiro de 1786 em Hanau, a 25 quilômetros de Frankfurt. Wilhelm faleceu em Berlim em 1859 em decorrência de uma infecção. Com a morte do irmão, Jacob se tornou recluso até falecer na mesma cidade em 1863.

Referências

http://www.todayinliterature.com/

Grimm, Jacob; Grimm, Wilhelm. Zipes, Jack, ed. The Original Folk and Fairy Tales of the Brothers Grimm: the complete first edition (2014). Princeton: Princeton University Press.

Tatar, Maria. The Hard Facts of the Grimms’ Fairy Tales (1987). Princeton University Press.

Flaubert e o julgamento que popularizou Madame Bovary

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O escritor dividiu a bancada dos réus com “batedores de carteira” e jovens acusados de pederastia

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Flaubert não gostou quando a Revue de Paris fez alterações substanciais em sua novela (Imagem: Reprodução)

O escritor francês Gustave Flaubert publicou Madame Bovary em 12 de abril de 1857. Mas a obra jamais despertaria tanta atenção na época se não tivesse sido considerada subversiva, o que levou o autor a um dos julgamentos mais famosos da literatura francesa.

Com tanto alarido em torno do livro, Flaubert conseguiu publicidade gratuita e Madame Bovary rapidamente se tornou um sucesso. A primeira novela exigiu cinco anos de dedicação do escritor e um retorno de 800 francos, uma quantia insignificante se levarmos em conta que só o estenógrafo que atuou em seu julgamento cobrou o mesmo valor por duas semanas de trabalho.

Porém, apesar do prejuízo, a novela e o julgamento fizeram a reputação de Gustave Flaubert, mais tarde reconhecido como criador de um novo estilo de escrita, com rítmica versada e precisão que remetia à linguagem científica. Com o veredito a seu favor, o escritor conseguiu assegurar que ninguém comprometesse o retrato detalhista e inédito na literatura francesa de uma realidade considerada “ignóbil” e tão costumeiramente velada em Paris.

Tudo começou quando Flaubert quis publicar sua obra na revista Revue de Paris e recebeu a resposta de que Madame Bovary precisava passar por cortes. “Você enterrou seu romance sob uma pilha de detalhes supérfluos. Ele não é claro o suficiente, porém é uma tarefa fácil que daremos a alguém experiente e inteligente. O trabalho vai custar 100 francos”, informaram.

Durante a sessão, o escritor foi obrigado a ouvir como o seu trabalho era de “mau gosto”, um tipo desprezível de “poesia do adultério” (Arte: Reprodução)

Durante o julgamento, o escritor foi obrigado a ouvir como o seu trabalho era de “mau gosto” (Arte: Reprodução)

A revista acabou publicando o livro em partes e fez alterações que não foram aprovadas pelo escritor. Quando soube, Flaubert exigiu que a Revue de Paris divulgasse uma nota em que ele deixava clara a sua reprovação. Logo que a crítica foi publicada, as autoridades francesas acusaram todos os envolvidos de ofensa à moral pública.

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Primeira versão de Madame Bovary, lançada em 1857 (Foto: Reprodução)

No dia do julgamento, Flaubert dividiu a bancada dos réus com “batedores de carteira” e jovens acusados de pederastia. Durante a sessão, o escritor foi obrigado a ouvir como o seu trabalho era de “mau gosto”, um tipo desprezível de “poesia do adultério”. Ainda assim conseguiu a absolvição e sua obra acabou eternizada na história da literatura mundial.

De acordo com o escritor canadense e professor de literatura Steve King, dentro de um ano, mais uma vez a vida imitou a arte. Em Hamburgo, na Alemanha, os veículos que transportavam as prostitutas começaram a ser chamados de Bovaries.

Madame Bovary

Infeliz no casamento, Emma Bovary é uma mulher sonhadora que vive no interior da França e se vê limitada por uma vida partilhada com um homem de fraca personalidade. Então ela decide mudar a própria realidade, deixando de ser apenas uma lastimosa dona de casa. Com características de heroína e anti-heroína, a senhora Bovary é a protagonista de um retrato fiel que revela a crise existencial de tantas pessoas trilhando caminhos que não são os seus, amargando um presente que antecipa um futuro indesejável.
Além disso, o que fez Madame Bovary ser considerada a maior obra-prima de Flaubert foi a sua originalidade em explorar com acuidade a condição psicológica de seus personagens, caminho que mais tarde seria percorrido por nomes como James Joyce, Marcel Proust, Virginia Woolf e Clarice Lispector. Em síntese, Flaubert se lançou substancialmente dentro da novela, tanto que ele costumava dizer: “Madame Bovary c’est moi”. Ou seja, “Madame Bovary sou eu”.

Saiba Mais

Gustave Flaubert nasceu em 12 de dezembro de 1821 e faleceu em 8 de maio de 1880 em decorrência de uma hemorragia cerebral.

Além de Madame Bovary, outras obras que fizeram a fama de Flaubert são Salambô e A Educação Sentimental.

O livro Madame Bovary foi adaptado para o cinema pela primeira vez em um filme de Albert Ray, lançado em 1932. Porém, aquela que ficou conhecida como a melhor versão surgiu em 1949 com o cineasta Vincente Minnelli. Em 2014, e sob direção de Sophie Barthes, a obra foi relançada no cinema com um elenco composto por Mia Wasikowska, Henry Lloyd-Hughes, Paul Giamatti e Ezra Miller.

Referências

http://www.todayinliterature.com/

Laurence M. Porter, Eugène F. Gray. Gustave Flaubert’s Madame Bovary: a reference guide. Greenwood Publishing Group (2002).

Gustave Flaubert’s Life, Madame Bovary, Alma Classics edition (2010).

Gustave Flaubert, Francis Steegmüller (1980). The Letters of Gustave Flaubert: 1830–1857. Harvard University. 

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Gogol e o seu abismo privado

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“Gogol se tornou o maior artista da Rússia quando assumiu quem era em seu abismo privado”

Gogol

Mesmo com o sucesso, Gogol nunca alcançou suas ambições literárias (Arte: Reprodução)

No dia 4 de março de 1852, Nikolai Gogol faleceu aos 42 anos em Moscou, na Rússia. Seu estilo único o tornou famoso por histórias como O Nariz, publicada em 1832, e O Capote, de 1842, além da peça O Inspetor Geral, de 1836, e a novela Almas Mortas, também de 1842, em que o escritor mistura o cômico, o absurdo e o trágico, inspirado pela obra A Divina Comédia, de Dante Alighieri.

Mesmo com o sucesso, Gogol nunca alcançou suas ambições literárias. Ele se sentia extremamente atraído pelo universo criado por Dante e pelo legado literário da Renascença. Quando terminou Almas Mortas, frustrou-se porque só conseguiu criar o Inferno, sem o Purgatório e o Paraíso. O segundo volume da sua novela viria dar continuidade a esse trabalho, mas ele abandonou a obra.

Considerado o Hieronymus Bosch da literatura russa, um dia Gogol conheceu Catherine, irmã do poeta Nikolai Yazykov, na casa de seu amigo o conde Alexander Tolstói. O escritor criou um laço de afinidade com a moça de 35 anos que morreu precocemente de tifo em janeiro de 1852, três dias após contrair a doença.

Devastado com a morte de Catherine, Nikolai Gogol começou a temer a própria mortalidade e se afundou em uma severa depressão. Percebendo a vulnerabilidade do escritor, um padre ultraortodoxo chamado Matvei Konstantinovsky o convenceu de que a única salvação seria se voltar para a religião. E mais, declarou que jejuar, orar e ler sobre a vida dos santos não era o suficiente para um bom cristão. Ele precisaria renunciar à sua escrita qualificada pelo sacerdote como “vangloriosa” e “profana”.

O escritor seguiu a recomendação e queimou todos os seus trabalhos em sua casa na Avenida Nikitsky, em Moscou, incluindo manuscritos da sequência de Almas Mortas, um trabalho que exigiu anos de dedicação. Na mesma época, Gogol participou do tradicional Banquete de Maslenitsa, que precede a quaresma ortodoxa, quando os russos ortodoxos se empanturram de comida, principalmente derivados lácteos. Como ele era obcecado por comida, o jejum que o sacerdote o obrigou a fazer depois foi tão radical que sua saúde física e mental ficou rapidamente debilitada.

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Escritor foi convencido por um padre de que jejuar, orar e ler sobre a vida dos santos não era o suficiente para um bom cristão (Arte: Reprodução)

Nas últimas horas de vida, alguns médicos tentaram salvá-lo com técnicas de hipnose. Também deram-lhe banhos quentes enquanto derramavam água gelada sobre sua cabeça e depois o banharam em água gelada e o deitaram em uma cama coberta por pães quentes. Foi tudo em vão. Gogol simplesmente pediu que o deixassem morrer em paz.

Quando golpeou as sanguessugas aplicadas em seu nariz e que tentaram entrar em sua boca, ele teve de ser contido. Naquele momento a morte o levou. Nikolai Gogol parecia tão frágil que sua coluna vertebral podia ser vista através de seu estômago.

Quando Dostoiévski elogiou Gogol

Apesar de tudo a grande reputação de Nikolai Gogol como pai do realismo russo foi estabelecida. Inclusive uma frase do russo Fiódor Dostoiévski corrobora esse fato: “Eu e meus contemporâneos saímos debaixo do capote de Gogol.” Segundo Vladimir Nabokov, o estável Pushkin, o prosaico Tolstói e o contido Chekhov tiveram seus momentos de claridade irracional, mas felizmente Gogol se tornou o maior artista da Rússia quando assumiu quem realmente era em seu abismo privado.

Monumento em homenagem ao conto "O Nariz", de Gogol (Foto: Reprodução)

Monumento em homenagem ao conto “O Nariz” (Foto: Reprodução)

Em O Nariz, a história mais famosa de Nikolai Gogol, um barbeiro decide tomar o seu café da manhã. Quando corta o pão, ele percebe que lá dentro há um nariz que pertence ao seu cliente M. Kovaliov. Escandalizada, a esposa do barbeiro o acusa de assassinato. Enquanto o homem assustado tenta se livrar do nariz, o burguês sai pelas ruas de São Petersburgo procurando o próprio órgão.

Em 2002, São Petersburgo amanheceu sem o Hoc mais famoso da cidade. Como se a vida imitasse a arte, a escultura O Nariz, de Vyacheslav Bukhayev, criada em homenagem ao conto de Nikolai Gogol, havia sido furtada. Bem-humorado, o escultor que a concebeu em 1994 disse o seguinte: “Parece que o nariz saiu para dar uma volta.”

Curiosidade

Diz a lenda que Gogol era paranoico e propenso a longos períodos de letargia, por isso temia tanto ser enterrado vivo. Entre seus amigos e conhecidos circulava um rumor de que o escritor queria que seu caixão tivesse um furo para que ele pudesse balançar uma corda que tocaria um sino, assim avisando a todos que ele não estava morto.

Saiba Mais

Nikolai Gogol nasceu em 1º de abril de 1809 e faleceu em 4 de março de 1852. Seu corpo foi enterrado no Cemitério de Danilov.

Até hoje, russos e ucranianos reivindicam a nacionalidade do escritor, levando em conta que ele nasceu em Velyki Sorochyntsi, no Império Russo, e atual cidade de Poltava, na Ucrânia, que à época já era habitada por ucranianos.

Entre as melhores obras de Nikolai Gogol estão “O Nariz”, “O Capote”, “Almas Mortas”, “O Inspetor Geral” e “Diário de Um Louco”.

Fragmento de O Nariz, publicado em 1832

Respeitador dos bons modos, Ivan Yakovlévitch vestiu seu casaco sobre a camisa e se preparou para o desjejum. Colocou à sua frente uma pitada de sal, limpou duas cebolas, pegou sua faca e, com uma expressão grave, cortou o pão em dois.

Percebeu então, para sua grande surpresa, um objeto esbranquiçado exatamente no meio do pão. Cutucou-o cuidadosamente com a faca, apalpou-o com o dedo… “Que poderá ser isso?”, perguntou-se sentindo a resistência.

Meteu então os dedos dentro do pão e dali retirou… um nariz! Seus braços despencaram. Ele esfregou os olhos, apalpou novamente o objeto: um nariz, era de fato um nariz, tratava-se até mesmo de um nariz de suas relações! O pavor tomou conta das feições de Ivan Yakovlévitch.

Mas este pavor não era nada comparado à indignação que se apoderou de sua respeitável esposa. “Onde foste capaz de cortar este nariz, sujeito desastrado!, exclamou ela. Beberrão! Ladrão! Patife! Vou em seguida te denunciar à polícia, seu bandido! Já ouvi três pessoas dizendo que, ao lhes fazer a barba, puxas o nariz das pessoas quase a ponto de arrancá-lo!”

Entretanto, Ivan Yakovlévitch estava mais morto do que vivo: acabara de reconhecer o nariz de M. Kovaliov, assessor do juiz do colegiado eleitoral, que tivera a honra de barbear na quarta e no domingo.

Referências

http://www.todayinliterature.com

Delgado, Yolanda. The final days of russian writers: Nikolai Gogol and Anton Chekhov. Russia Beyond The Headlines. 5 de junho de 2014.

Aris, Ben. Police on the scent of nose statue gang. The Telegraph. 4 de outubro de 2002.

Peace, Richard. The Enigma of Gogol: An Examination of the Writings of N. V. Gogol and Their Place in the Russian Literary Tradition. Cambridge University Press (2009).

Maguire, Robert. Gogol from the Twentieth Century: Eleven Essays. Princeton University Press (1997).

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Goethe e a busca pelo conhecimento

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Para o escritor, o universo se expandia através das ciências e das artes

Georg Melchior Kraus

Goethe acompanhou uma batalha entre o Exército Revolucionário Francês e as Forças Prussianas de Intervenção na juventude (Arte: Georg Melchior Kraus)

No dia 22 de março de 1832, Johann Wolfgang von Goethe, um dos mais célebres nomes da literatura alemã, estava em sua casa em Weimar, na Turíngia, segurando a mão de sua nora Otília. Na data, ele falou dos passeios que daria nos meses seguintes e se recordou de uma moça de sua juventude. Também balbuciou o nome de seu grande amigo, o igualmente famoso poeta Friedrich von Schiller, falecido em 9 de maio de 1805.

Ansiando para que as persianas se abrissem para o sol da manhã, o autor de Fausto pediu a um empregado: “Mais Luz!” E então seu dedo tracejou uma palavra no ar e ele mudou de posição em sua cadeira, caindo no sono e sucumbindo em um momento que ninguém imaginava que ele morreria.

Quarenta anos antes, Goethe acompanhou uma batalha entre o Exército Revolucionário Francês e as Forças Prussianas de Intervenção. Ele viu no conflito bélico uma oportunidade para conduzir uma pesquisa sobre uma inédita teoria de luz e cor, que mais tarde se transformaria no livro Teoria das Cores, publicado em 1810, e que inspirou os artistas pré-rafaelistas.

O escritor britânico Christopher Middleton escreveu em sua introdução à poesia de Goethe que durante a Batalha de Valmy o alemão foi visto divagando, estudando os efeitos das ondas de choque na visão, levando em conta a luz sobre a poeira. Os resultados desse trabalho contribuíram em vários ramos da ciência – anatomia, biologia, botânica e geologia.

Goethe também teve um importante papel no governo alemão como administrador de artes. Todas essas atividades alimentaram sua paixão pela busca de sinais que pudessem levá-lo a um plano maior na história. Goethe se empenhou ainda em fazer com que a língua alemã fosse vista como uma “textura viva”, o que justifica porque ele é considerado na Alemanha não apenas um grande poeta, mas também um símbolo nacional.

O escritor caiu no sono e sucumbiu em um momento que ninguém imaginava que ele morreria (Arte: Reprodução)

O escritor caiu no sono e sucumbiu em um momento que ninguém imaginava que ele morreria (Arte: Reprodução)

Se dedicando a temas cósmicos ao longo de toda a carreira, o escritor concluiu a última etapa de seus trabalhos autobiográficos nos últimos meses de vida, quando finalizou a segunda parte da obra-prima Fausto. “Agora posso olhar a minha vida como o mais puro presente”, declarou Goethe prevendo o próprio fim.

O drama poético em que o protagonista faz um pacto com o diabo em troca de sabedoria e conhecimento para entender a vida exigiu 60 anos do alemão. A história autobiográfica reflete o próprio anseio de Goethe na busca por luz em um universo que se expande por meio das ciências e das artes.

Ao contrário da obra inglesa The Tragical History of Doctor Faustus, de Christopher Marlowe, em que Fausto é condenado ao inferno, na obra romântica de Goethe o protagonista que vendeu sua alma a Mefistófeles tem direito à redenção.

Fragmento de Fausto II

Ay, neste pensamento eu prometo minha fé inabalável

Aqui a sabedoria diz sua palavra final e verdadeira

Ninguém tem a liberdade ou a vida que merece

A menos que a conquiste diariamente e como se fosse a primeira vez

Fausto morre e Mefistófeles aparece para reclamar seu prêmio. Todo o espaço é preenchido com anjos, e ouve-se um coro durante o enterro, de acordo com a última cena do último ato da obra-prima.

Fausto, obra original publicada em 1808 (Foto: Reprodução)

Fausto, obra original publicada em 1808 (Foto: Reprodução)

Rode mais uma vez as chamas do amor

A pura luz se revela

Aqueles que foram deplorados pela vida

A verdade ainda curará

Resgatados, não mais serão escravos de maus cuidados

Em breve e de tudo por tudo

A felicidade será deles

Saiba Mais

Johann Wolfgang von Goethe nasceu em 28 de agosto de 1749 e faleceu em 22 de março de 1832.

Suas maiores obras são “Fausto”, Os Sofrimentos do Jovem Werther, “Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister”, “As Afinidades Eletivas”, “Prometeus” e “Teoria das Cores”.

Referências

http://www.todayinliterature.com/

Lewes, George Henry. The Life of Goethe (1855). Adamant Media; 2000.

Williams, John. The Life of Goethe. A Critical Biography. Wiley-Blackwell; 2001.

Middleton, Christopher. Goethe, Volume 1: Selected Poems. Princeton University Press; 1994.

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Quando William Faulkner trabalhou em Hollywood

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O escritor só reapareceu depois de nove dias, confidenciando que vagou pelo Vale da Morte

Entre idas e vindas, o escritor trabalhou em Hollywood ao longo de 30 anos (Cortesia de Robert Hamblin, Center for Faulkner Studies, Southeast Missouri State University)

Entre idas e vindas, o escritor trabalhou em Hollywood ao longo de 20 anos (Cortesia de Robert Hamblin, Center for Faulkner Studies, Southeast Missouri State University)

Em 7 de maio de 1932, William Faulkner chegou a Hollywood para atuar como roteirista, um trabalho que entre idas e vindas durou 20 anos. Na época o escritor estadunidense estava com apenas 34 anos e já tinha publicado quatro de suas novelas baseadas no Condado de Yoknapatawpha, incluindo The Sound and the Fury (O Som e a Fúria) e As I Lay Dying (Enquanto Agonizo).

Embora ainda estivesse distante de se tornar popular, Faulkner foi considerado por seus pares como o mais talentoso dos jovens escritores dos Estados Unidos. Àquela altura, ele tinha vivido a maior parte de sua vida em Oxford, Mississippi, e recentemente havia se casado e comprado a velha mansão Rowan Oak, de inspiração neogrega e construída antes da Guerra de Secessão.

Faulkner não era um homem sociável, nem gostava de trabalhar em equipe. O que o fez aceitar o contrato de 500 dólares por semana oferecido pela MGM foi uma experiência que ele teve em uma loja de artigos esportivos, onde o balconista se recusou a receber um cheque dele no valor de três dólares.

Depois que o escritor alegou que sua assinatura ainda valeria mais do que isso, o dono da loja se aproximou e disse a toda a sua equipe para não permitir que o jovem Faulkner pagasse por nenhum artigo que o interessasse. De acordo com o biógrafo Joseph Blotner, os primeiros dias de Faulkner em Hollywood foram incríveis.

Faulkner: "“Você deveria se envergonhar por não ter um cão, assim como todos aqueles que não têm um" (Foto: Reprodução)

Faulkner: “Você deveria se envergonhar por não ter um cão, assim como todos aqueles que não têm um” (Foto: Reprodução)

Em um sábado, ele se aproximou do seu chefe, Sam Marx, e o homem logo percebeu que o escritor cheirava a álcool e tinha um corte na cabeça. Então Faulkner explicou que ele foi atingido por um táxi quando estava trocando de trem em Nova Orleans. Apesar de tudo, justificou que se sentia bem e queria começar o seu trabalho corretamente.

“Nós vamos colocá-lo em uma foto com o Wallace Beery”, disse Marx. Confuso, Faulkner perguntou quem era o sujeito. “Eu tenho uma ideia de quem seja o Mickey Mouse”, comentou o escritor, recebendo a explicação de que os filmes do Mickey Mouse são feitos nos estúdios da Disney.

Em seguida, Sam Marx pediu que o seu office boy levasse Faulkner até a sala de projeção para ver Beery atuando como um pugilista em The Champ, de King Vidor, e no recente Flesh, de John Ford, em que Wallace interpreta um lutador alemão. Faulkner se recusou a assisti-los e preferiu bater um papo com o office boy.

Quando o escritor perguntou se o garoto tinha um cachorro, ele respondeu que não. Faulkner estranhou e enfatizou que todo garoto deveria ter um cão. “Você deveria se envergonhar por não ter um cão, assim como todos aqueles que não têm um”, insistiu. Sem muita demora, Faulkner saiu da sala de projeção justificando que sabia o final da história.

Quando Marx foi informado que o escritor já tinha saído do estúdio, ele iniciou uma busca sem sucesso. William Faulkner só reapareceu depois de nove dias, confidenciando que vagou pelo Vale da Morte. “Mas agora já estou pronto para o trabalho”, garantiu.

A atuação de Faulkner como roteirista incluiu também adaptações de To Have and Have Not (Uma Aventura na Martinica), de Ernest Hemingway, e The Big Sleep (À Beira do Abismo), de Raymond Chandler. Muitos aspectos de sua vida em Hollywood foram incorporados ao filme Barton Fink, dos Irmãos Coen, lançado em 1991.

No outono, o escritor retornou para sua casa em Oxford, Mississippi, onde corrigiu as provas tipográficas do seu novo romance gótico sulista – Light in August (Luz em Agosto) enquanto comia melancia e assistia a chuva caindo ao redor da varanda. Com o dinheiro que ganhou da MGM, fez importantes reparos na mansão Rowan Oak.

Referências

http://www.todayinliterature.com/

Blotner, Joseph. Faulkner: A Biography. New York: Random House, 1974.

Blotner, Joseph. Faulkner: A Biography. New York: Random House, 1984.

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William Blake, entre a pobreza e o anonimato

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Assumiu um semblante justo, seus olhos brilharam e ele cantou sobre as coisas que viu no céu

by Thomas Phillips, oil on canvas, 1807

Reconhecimento de William Blake só veio após a sua morte (Arte: Thomas Phillips)

No dia 12 de agosto de 1827, o poeta inglês William Blake faleceu aos 69 anos na pobreza e no anonimato. Seu velório em Bunhill Fields, na região norte de Londres, passou despercebido e só pôde ser realizado através de um empréstimo de 19 xelins. Sepultado em um túmulo sem qualquer inscrição, o corpo de Blake foi colocado sobre outros três e seguido por mais quatro falecidos.

Sua esposa, Catherine, revelou a uma amiga que durante o casamento ela não teve tanto a companhia do marido quanto gostaria. “Ele estava sempre em seu próprio paraíso”, declarou. Apesar da saúde fragilizada, Blake parecia não se preocupar tanto com a morte. “É a imaginação que deve viver para sempre”, comentou quando já estava próximo do falecimento.

Nos últimos dias de vida, o poeta gastou os seus últimos xelins comprando um lápis que usou para homenagear a esposa. “Fique, Kate! Mantenha-se exatamente como você é. Por você ter sido um anjo para mim, vou desenhar o seu retrato”, declarou. Pouco antes de morrer, William Blake assumiu um semblante justo, seus olhos brilharam e ele cantou sobre as coisas que viu no céu”, escreveu um amigo.

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Obra criada pelo inglês sob inspiração da poesia pastoral do romano Virgílio (Arte: Reprodução)

O inglês que amargou décadas de pobreza se via mais como escultor e pintor do que poeta. Ele esperava que em uma exposição realizada em 1808 o seu trabalho pudesse trazer-lhe tanto retorno financeiro quanto reconhecimento por seu estilo original, baseado em temas a frente do seu tempo.

Na exposição que recebeu o nome de “Afrescos de Invenções Poéticas e Históricas”, Blake reuniu 16 de suas pinturas. “Aos que foram informados de que o meu trabalho se resume a obras não científicas, excêntricas ou nada mais que rabiscos de um louco, façam-me justiça e examinem tudo antes de tomar uma decisão”, pediu. Naquele dia poucas pessoas prestigiaram o evento.

Ainda assim ele não hesitou em dizer que não desistiria do seu sonho de ser reconhecido. “Ignorantes insultos não me farão desistir do meu dever para com a minha arte”, informou. Infelizmente ninguém comprou nenhuma de suas obras e a única resenha publicada sobre a exposição definiu William Blake como um lunático que só não corria risco de ser preso porque era inofensivo demais.

Retrato de Catherine que Blake desenhou antes de falecer (Arte: Reprodução)

Retrato de Catherine que Blake desenhou antes de falecer (Arte: Reprodução)

A recepção da poesia do inglês também seguiu na mesma esteira de suas pinturas e esculturas. Poucos viram ou leram pelo menos um de seus livros escritos e ilustrados à mão. Em 1811, dois anos antes de se consagrar como o poeta laureado, o britânico Robert Southey, leu “Jerusalem”, uma das obras mais famosas de William Blake. “É um poema perfeitamente louco”, sintetizou Southey.

Catherine continuou a imprimir e divulgar as obras do marido depois que ele morreu, o que deixou claro que a parceria dos dois envolvia tanto amor quanto trabalho. Com a ajuda de poucos amigos e fãs de William Blake, ela conseguiu sobreviver por mais quatro anos. Nesse período afirmou ter visto o marido muitas vezes, chegando a sentar-se junto dele por duas a três horas diárias.

No dia 31 de outubro de 1831, Catherine chamou por Blake como se ele estivesse no quarto ao lado. “Meu William…meu William…”, repetiu ela até o momento de sua morte. Com o falecimento de Catherine, os direitos sobre as obras de Blake foram transferidos para Frederick Tatham, um artista inglês de pequena expressão que fazia parte de um grupo de seguidores do poeta, conhecido como Shoreham Ancients.

Segundo o livro The Stranger From Paradise, publicado em 2001, e de autoria do biógrafo G.E. Bentley Jr, Tatham vendeu a própria herança ao longo de 30 anos e por bom preço. Depois que se tornou um religioso fanático, destruiu muitas gravuras e poemas de Blake. Chegou a declarar que se livrou delas porque acreditava que o artista tivesse sido inspirado pelo diabo quando as concebeu.

Saiba Mais

Entre as obras mais importantes do poeta inglês se destacam “The Marriage of Heaven and Hell”, “Jerusalem”, “And did those feet in ancient time”, “Songs of Innocence and of Experience”, “Milton” e “The Four Zoas”.

William Blake nasceu em 28 de novembro de 1757 e faleceu em 12 de agosto de 1827.

Catherine Blake nasceu em 25 de abril de 1762 e faleceu em 31 de outubro de 1831.

Referências

http://www.todayinliterature.com/

G.E. Bentley (2001). The Stranger From Paradise: A Biography of William Blake. Yale University Press.

Blake, William and Tatham, Frederick. The Letters of William Blake: Together with a Life. 1906.

Gilchrist, A. The Life of William Blake, London, 1863, 405.

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Quando o Le Figaro desprezou a obra-prima de Baudelaire

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O poeta sabia que seus poemas teriam grande impacto na sociedade francesa

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Baudelaire criou uma ponte entre o romantismo e o modernismo (Foto: Reprodução)

Em 25 de junho de 1857, o poeta francês Charles Baudelaire publicou a obra-prima Les Fleurs du Mal (As Flores do Mal), criando uma ponte entre o romantismo e o modernismo. Eleita pela crítica como a mais importante e influente coleção de poemas do século 19, a obra dividiu opiniões e chegou a ser vilipendiada pelo jornal parisiense Le Figaro em 20 de agosto do mesmo ano.

“Nunca em um espaço de poucas páginas vi tantos seios mordidos, ou melhor, mastigados. Nunca vi tamanha procissão de diabos, demônios, fetos, gatos e vermes. O livro é um verdadeiro hospital de insanidades da mente humana, de toda a podridão do coração humano. Se a obra tivesse sido criada para curá-los, sem dúvida seria permissível, mas ela mostra que eles não são curáveis.”

Reações como a do Le Figaro colocaram o Escritório de Segurança Pública de Paris no encalço de Baudelaire. O julgamento de Les Fleurs du Mal foi encarado pelas autoridades francesas como uma boa oportunidade de recuperarem a credibilidade após a absolvição de Gustave Flaubert, acusado de imoralidade em 7 de fevereiro de 1857 pela autoria do clássico Madame Bovary.

Baudelaire sabia que seus poemas teriam grande impacto na sociedade francesa e inclusive os produziu com a intenção de torná-los uma bandeira. Por questão de segurança, enviou cópias do seu trabalho para o poeta estadunidense Henry Longfellow e ao poeta inglês Alfred Tennyson. Visto como um lunático por parte da sociedade parisiense, o escritor também pediu ao seu editor Auguste Poulet-Malassis para esconder a maior parte do material. A precaução foi considerada prioritária quando o francês descobriu que alguém divulgou previamente o conteúdo de “As Flores do Mal”, o qualificando como um trabalho subversivo.

Seis poemas de Baudelaire foram proibidos após o seu julgamento (Arte: Mephistopheies)

Seis poemas de Baudelaire foram proibidos após o seu julgamento (Arte: Mephistopheies)

Mesmo com a influência de Poulet-Malassis, Charles Baudelaire não conseguiu impedir que a investigação preliminar o levasse ao tribunal, tanto que de um total de 100 poemas seus que foram citados durante o julgamento, 13 foram considerados como manifestações de desprezo às leis que protegem a religião e a moral. Por outro lado, a sentença também garantiu boa visibilidade a Baudelaire. E mais, chamou a atenção dos entusiastas para um estilo de vida incomum à época.

Seus acusadores insistiram para que o poeta fosse condenado por comportamento irreligioso, mas essa vitória não foi concedida aos detratores. Ao final, Baudelaire teve de abdicar de seis poemas publicados na primeira edição de Les Fleurs du Mal. Foram eles: “Le Léthé”, “Femmes Damnées”, “Les Bijoux”, “A Celle Qui est Trop Gaie”, “Lesbos” e “Les Metamorphoses du Vampire”.

O primeiro poema de “As Flores do Mal” a ser publicado no Brasil foi “Le Balcon”, no livro Alcíones, de Carlos Ferreira, lançado em 1872. Das inúmeras versões da obra traduzida em língua portuguesa, uma que agradou bastante os leitores foi a do tradutor Ivan Junqueira, publicada em versão bilíngue pela Editora Nova Fronteira em 1985 e relançada em 2015.

Logo abaixo, transcrevo a versão de Junqueira para a primordialmente banida “A Celle Qui est Trop Gaie”:

A que está sempre alegre

Teu ar, teu gesto, tua fronte

São belos qual bela paisagem;

O riso brinca em tua imagem

Qual vento fresco no horizonte.

 

A mágoa que te roça os passos

Sucumbe à tua mocidade,

À tua flama, à claridade

Dos teus ombros e dos teus braços.

 

As fulgurantes, vivas cores

De tuas vestes indiscretas

Lançam no espírito dos poetas

A imagem de um balé de As Flores.

 

Tais vestes loucas são o emblema

De teu espírito travesso;

Ó louca por quem enlouqueço,

Te odeio e te amo, eis meu dilema!

 

Certa vez, num belo jardim,

Ao arrastar minha atonia,

Senti, como cruel ironia,

O sol erguer-se contra mim;

 

E humilhado pela beleza

Da primavera ébria de cor,

Ali castiguei numa flor

A insolência da Natureza.

 

Assim eu quisera uma noite,

Quando a hora da volúpia soa,

Às frondes de tua pessoa

Subir, tendo à mão um açoite,

 

Punir-te a carne embevecida,

Magoar o teu peito perdoado

E abrir em teu flanco assustado

Uma larga e funda ferida,

 

E, como êxtase supremo,

Por entre esses lábios frementes,

Mais deslumbrantes, mais ridentes,

Infundir-te, irmã, meu veneno!

 

Referências

http://www.todayinliterature.com/

Baudelaire, Charles. Richard Howard. Les Fleurs Du Mal. David R. Godine Publisher, 1983.

University of Chicago Press. Selected Letters of Charles Baudelaire, 1986.

Huneker, James. Introductory preface to: The Poems and Prose Poems of Charles Baudelaire. New York: Brentano’s, 1919.

Baudelaire, Charles. Ivan Junqueira. As Flores do Mal. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

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O dia em que a Rússia chorou com Dostoiévski

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“Eles prometeram que não iriam mais odiar, mas simplesmente amar uns aos outros”

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Discurso histórico de Dostoiévski marcou inauguração de monumento a Pushkin (Foto: Moscow Times)

Em 8 de junho de 1880, seis meses antes de sua morte, Fiódor Dostoiévski discursou na inauguração do monumento em homenagem a Alexander Pushkin, à época reverenciado como o poeta nacional da Rússia. A estátua construída por Alexander Opekushin, um escultor de origem humilde, foi custeada através de doações e logo se tornou um marco histórico.

Naquele dia, milhares de curiosos foram até a Praça Pushkin, no centro de Moscou, pensando em encontrar um campo de batalha em que a consciência literária russa seria definida por Ivan Turgueniev e Dostoiévski. Liev Tolstói, que também foi convidado a participar da cerimônia, recusou o convite por causa de suas inclinações religiosas. Enquanto Turgueniev, que vivia em Paris, representava os escritores mais ocidentalizados, com uma perspectiva mais europeizada, Dostoiévski seguia na contramão, como um camponês apaixonado e devotado ao que era essencialmente russo.

Com a saúde debilitada, porém lúcido, Dostoiévski aproveitou a oportunidade para promover uma mistura de nacionalismo místico e cristianismo em oposição ao refinado liberalismo de Turgueniev. O autor da obra-prima “Pai e Filhos” teve o seu discurso calorosamente recebido, mas não tanto quanto o de seu conterrâneo existencialista. Fiódor Dostoiévski superou todas as expectativas com palavras que soaram como um hino ao espírito russo, uma profecia de grandeza e um chamado messiânico. Quando o escritor subiu no palco o auditório trovejou em aplausos. Ele se inclinou e fez sinais pedindo para que o deixassem ler.

Discurso foi feito seis meses antes da morte do escritor existencialista (Arte: Reprodução)

Discurso foi feito seis meses antes da morte do escritor existencialista (Arte: Reprodução)

Em meio ao alarido, começou a leitura de seu discurso. Em cada página, Dostoiévski foi interrompido por rajadas de aclamações. Leu em voz alta, com grande entusiasmo, e destacou a importância da união da humanidade, a definindo como o único caminho para a sobrevivência harmoniosa. Do início ao fim se surpreendeu ao ouvir gritos vindo da plateia. Desconhecidos começaram a chorar e jogar-se sobre os braços de familiares, amigos e estranhos. “Eles prometeram que não iriam mais odiar, mas simplesmente amar uns aos outros”, escreveu Fiódor Dostoiévski emocionado em carta à esposa Anna Dostoyevskaya em junho de 1880.

Uma testemunha declarou que teve a impressão de que as paredes do auditório foram substituídas por uma desmesurada fogueira. Dostoiévski foi visto como um grande profeta diante da escultura de Pushkin. Movidos por impetuoso paroxismo, muitos gritaram que estavam dispostos a morrer pela Rússia se necessário.

Ao final da noite, mais de cem mulheres se apressaram, compraram uma enorme coroa de flores e coroaram o soberano da noite – Dostoiévski, diante de uma audiência de milhares de pessoas. Mesmo com as transformações vividas pela Rússia no século 20, o monumento ao poeta nacional e a Praça Pushkin perseveraram não apenas como símbolos do espírito russo, mas também da esperança na humanidade, tanto que o local continua sendo o preferido dos russos para se reunir e ler poemas.

Referências

http://www.todayinliterature.com/

Dostoevsky, Mikhailovich Fyodor. Letters of Fyodor Michailovitch Dostoevsky to His Family and Friends – 1917.

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Laranja Mecânica, o filho preterido de Anthony Burgess

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A obra perdeu o sentido quando uma editora americana suprimiu o último capítulo do livro

Burgess sempre acreditou que a energia humana é melhor gasta na criação do que na destruição (Foto: Marvin Lichtner/Time & Life Pictures/Getty Image)

Burgess sempre acreditou que a energia humana é melhor gasta na criação do que na destruição (Foto: Marvin Lichtner/Time & Life Pictures/Getty Image)

Embora o livro A Clockwork Orange (Laranja Mecânica), do escritor britânico Anthony Burgess, não figure entre os seus melhores romances, a obra distópica de 1962 foi responsável por torná-lo famoso no mundo todo, principalmente após o lançamento do controverso filme de Stanley Kubrick em 1971.

Se por um lado, alguns críticos qualificaram o livro como uma profecia do colapso social hipermoderno, outros foram além, defendendo que a obra em si já o incentivava. A verdade é que à época pouca gente entendeu o sincretismo de sadismo, cultura teddy boy e uma apocalíptica filosofia urbana e social reforçada por uma mixórdia do idioma russo e do jive talk, uma linguagem popular que surgiu entre músicos de jazz do Harlem, em Nova York.

Ainda assim, mesmo com tanta repercussão e sucesso a partir da década de 1970, Burgess fazia questão de dizer em cada entrevista que, de todos os seus livros, “Laranja Mecânica” era o que menos o agradava, e não por causa da estrutura, linguagem e conteúdo, mas sim porque o cinema e as editoras dos Estados Unidos o descaracterizaram.

A Clockwork Orange

Pessimismo de Stanley Kubrick fez o escritor britânico odiar a adaptação para o cinema (Foto: Reprodução)

A obra, segundo Burgess, perdeu o sentido a partir do momento em que uma editora americana suprimiu o último capítulo do livro, um fato que se repete até a atualidade em algumas edições, já que a primeira edição estadunidense foi uma das mais reproduzidas. Quando o escritor britânico teve a oportunidade de lançar uma nova versão restaurada em 1986, ele fez questão de escrever uma introdução explicando como o seu trabalho foi arruinado.

No original, o jovem Alex, protagonista cruel e vicioso, evolui no capítulo 21 porque Burgess sempre acreditou que a energia humana é melhor gasta na criação do que na destruição. Porém as editoras dos Estados Unidos foram na contramão. E com elas o pessimismo do cineasta Stanley Kubrick que fez o escritor britânico odiar a adaptação do seu livro, com um final que leva o cinismo às raias do surrealismo.

A partir da obra de Burgess, não é difícil entender a escolha do título Laranja Mecânica. Ele faz uma analogia do ser humano com uma laranja, um belo organismo recheado de suco e que pode ser espremido por Deus, pelo diabo ou até por si mesmo quando substitui os dois. Em síntese, um ser humano que rendido às próprias armadilhas do maniqueísmo se torna incapaz de entender a primazia do livre-arbítrio.

Burgess ficou tão chateado com a desvirtuação do livro que chegou a admitir que desde então só escrevia embriagado. O autor frequentemente encontrava pessoas comentando que o seu livro era uma ode à violência e à misantropia, quando na realidade a sua intenção era alertar sobre a nefasta mecanização da humanidade.

Saiba Mais

Pouco conhecido no Brasil, Earthly Powers (Poderes Terrenos), de 1980, é considerado o melhor livro de Anthony Burgess.

Referência

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