David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for May, 2016

H.P. Lovecraft e o racismo

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“O racismo de Lovecraft é um elemento-chave para a compreensão do mundo que ele criou”

Howard_Phillips_Lovecraft

S.T. Joshi: “Não nego que ele era racista, mas naquele tempo todo mundo era” (Foto: Reprodução)

Cresci lendo obras do escritor estadunidense Howard Phillips Lovecraft, um dos grandes nomes da literatura de horror e fantasia. Com a chegada da maturidade, comecei a ter uma nova percepção sobre seus livros. Em síntese, percebi por intermédio experiência que não é a mesma coisa ler na adolescência e depois na fase adulta obras como “Herbert West–Reanimator”, “The Call of Cthulhu”, “The Silver Key”, “The Case of Charles Dexter Ward”, “The Dunwich Horror” e “At the Mountains of Madness”, só para citar as mais conhecidas.

É uma constatação natural, levando em conta a versatilidade autoral do escritor, hoje considerado um ícone pop da hipermodernidade que influenciou não apenas escritores e colocou em evidência um novo filão literário, mas também inspirou centenas de filmes, dezenas de séries de TV e milhares de compositores mundo afora, principalmente de bandas de rock e heavy metal.

Porém, há um lado obscuro de H.P. Lovecraft que muita gente desconhece, inclusive fãs que não se aprofundaram muito em seu trabalho. E não falo de nada relacionado a horror ou fantasia. Me refiro ao fato do escritor ser apontado como racista, embora isso seja pouco divulgado sob a justificativa de não acrescentar nem subtrair nada de sua literatura.

Contudo, no ensaio “The Genetics of Horror: Sex and Racism in H. P. Lovecraft’s Fiction”, o escritor Bruce Lord refuta essa afirmação reverberada pelos defensores mais radicais do escritor. “O racismo de Lovecraft é um elemento-chave para a compreensão do seu trabalho e do mundo que ele criou”, informa.

Ele tem razão. Histórias famosas como “The Street” e “The Horror at Red Hook” dão mostras categóricas de discriminação racial e isso não tem nada a ver com a defesa do politicamente correto. São apenas exemplos de que escritores também revelam em menor ou maior proporção os seus preconceitos e pré-conceitos em obras que se tornaram icônicas quando falamos de literatura mundial.

Histórias famosas como “The Street” e “The Horror at Red Hook” dão mostras categóricas de discriminação racial (Arte: Francesco Francavilla)

Histórias famosas como “The Street” e “The Horror at Red Hook” dão mostras categóricas de discriminação racial (Arte: Francesco Francavilla)

No caso de Lovecraft, o escritor indiano S.T. Joshi, que escreveu sua biografia, diz que é preciso levar em conta o contexto da época. “Não nego que ele era racista, mas naquele tempo todo mundo era”, declara. Contudo, Joshi ignora o fato de que nessa época nos Estados Unidos já havia escritores e antropólogos que usavam a ciência como principal instrumento de combate ao racismo. Dois nomes que merecem ser citados são Franz Boas e Bronisław Malinowski.

Em “The Horror at Red Hook”, Lovecraft apresenta o detetive Thomas F. Malone, um sujeito sensível e com muita imaginação. Quando sai às ruas e observa pessoas de pele escura, ele vê as mais diversas formas do horror. Quem não lê o livro com atenção, pode julgar que o fato de serem negros ou imigrantes não passa de uma casualidade, mas há fontes que provam o contrário.

Sonia Greene, que foi esposa do escritor, confidenciou anos mais tarde que, quando Lovecraft se mudou para Nova York, ele logo deixou claro o quanto era xenofóbico. “Sempre que andávamos em meio à multidão e nos deparávamos com pessoas das mais diferentes raças [etnias], uma característica comum de Nova York, ele ficava lívido de raiva e quase perdia a cabeça”, enfatizou.

HP-Lovecraft

Críticos viram no racismo de Lovecraft um tipo de ausência de amor próprio e até mesmo ódio de si mesmo (Foto: Reprodução)

No conto “The Rats in the Walls”, de 1923, o gato do protagonista se chama Nigger Man. O nome pejorativo foi trocado em 1950 pela revista Zest Magazine que o nomeou como Black Tom, visando minimizar controvérsias. Em “The Shadow Over Innsmouth”, de 1931, considerado um de seus melhores trabalhos, Lovecraft mostra um personagem que sente repulsão pelos moradores de Innsmouth, assim trazendo um traço biográfico do seu próprio sentimento diante da heterogeneidade de Nova York. O mesmo desprezo veio à tona em 1925, no conto “The Horror at Red Hook”, baseado em suas impressões negativas da população do Brooklyn Heights.

Na biografia “H.P. Lovecraft: A Life by S. T. Joshi”, o escritor indiano declara que Lovecraft simpatizava com hispânicos e judeus, entretanto não sentia o mesmo por irlandeses, alemães e afro-americanos. Por outro lado, há frases em que Lovecraft se posiciona como um antissemita. “Na Polônia e em Nova York, os judeus são de uma estirpe inferior e tão numerosos que seria essencial a mudança do seu tipo físico”, escreveu em uma carta com data de 13 de junho de 1936. De qualquer modo, como os Estados Unidos são uma nação construída por imigrantes é no mínimo paradoxal essa inclinação do autor.

Críticos viram no racismo de Lovecraft um tipo de ausência de amor próprio e até mesmo ódio de si mesmo pela sua condição física fragilizada. Há quem diga que ele se sentia intimidado pela fisicalidade de muitos imigrantes, e isso o tornava odioso e amargo. “O negro é muito inferior. Não pode haver nenhuma dúvida sobre isso, nem mesmo entre os biólogos contemporâneos mais sentimentalistas. Também é um fato que teremos um problema legítimo e muito grave se os negros passarem a ser vistos como iguais aos brancos”, registrou em uma carta escrita em janeiro de 1931.

Um dos autores mais respeitados da literatura de horror do século 20, H.P. Lovecraft influenciou outros importantes nomes da literatura mundial, como o escritor argentino Jorge Luis Borges, William S. Burroughs e Stephen King, além de cineastas famosos como John Carpenter e o mexicano Guillermo del Toro. Sua popularidade cresceu mais ainda com o advento da internet e a divulgação de suas obras em meio digital.

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Quando a escritora estadunidense Nnedi Okorafor, autora do livro “Who Fears Death”, de 2010, venceu o prêmio World Fantasy Award (WFA) em 2011, ela escreveu um texto sobre o seu desconforto em receber um troféu com o busto de H.P. Lovecraft, logo após uma amiga mostrar-lhe um poema racista escrito por ele em 1912. O episódio também inspirou o escritor estadunidense Daniel Jose Older a criar uma petição pedindo aos organizadores do WFA para substituírem o busto de Lovecraft pelo da escritora Octavia Butler, importante nome da literatura de ficção científica dos Estados Unidos.

Referências

The Genetics of Horror: Sex and Racism in H. P. Lovecraft’s Fiction, Bruce Lord.

Lovecraft Letters Vol. 2, p. 27; quoted in Peter Cannon, “Introduction”, More Annotated Lovecraft, p. 5., 1968.

H.P. Lovecraft: Four Decades of Criticism by S. T. Joshi – Ohio University Press, 1980.

H.P. Lovecraft: A Life by S. T. Joshi Necronomicon Press, 1996.

From New Nation, David Riley, No. 4, p. 20-21, 1983.  

The Racial World – View of H.P. Lovecraft, No. 2, by A. Trumbo, 2002.

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Um bom projeto chamado The Last Shadow Puppets

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Projeto foi fundado em 2007 por Miles Kane e Alex Turner (Foto: Divulgação)

Gosto do projeto do Alex Turner em parceria com Miles Kane. Eu já apreciava o trabalho do Turner com o Arctic Monkeys e o do Kane no The Rascals, mas preciso dizer que realmente fiquei surpreso quando conheci o The Last Shadow Puppets há poucos anos.

Interpreto esse projeto como uma trilha sonora que ultrapassa as barreiras do tempo, que constrói a própria identidade em um eterno flerte entre passado e presente. Aos mais velhos, a nostalgia de outras épocas. Aos mais jovens, o sonho ocasional de ter a alma sublimada através de um universo imemorial, mas senciente. Um exemplo que reafirma a minha concepção é a música “Meeting Place”.

Written by David Arioch

May 7th, 2016 at 1:01 am

Passionalidade pode ser boa ou ruim

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Vejo a passionalidade como uma coisa boa e uma ruim. Ela é excelente quando te motiva a seguir em frente, mas péssima quando te cega a ponto de você encarar algo como verdade absoluta. É muito fácil encontrar isso em quem segue ideologias, porém pouco se abre ao diálogo. Sem comedimento, fazem do ser humano o seu próprio ditador sem que ele perceba.

Written by David Arioch

May 7th, 2016 at 12:30 am

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O desabafo de um romeno na Inglaterra

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“A mídia britânica fala de nós como se fôssemos escória”

Romenos protestando contra o preconceito em Londres (Foto: Dana Purgaru)

Romenos protestando contra a discriminação em Londres (Foto: Dana Purgaru)

Alexandru Albescu deixou a Romênia nos anos 1990 e se mudou para a Inglaterra. Hoje ele tem o privilégio de contar com dupla cidadania, porém admite que nunca teve uma vida fácil, nem na atualidade. Houve uma época em que foi tratado com tanta hostilidade que retornou por curto período para sua terra natal. “Um hospital uma vez se recusou a me receber. Disseram que não aceitavam pacientes romenos. Passei pela mesma situação em um banco”, relata.

Mesmo gastando anualmente milhares de libras esterlinas em seguros, Albescu nunca recebeu nenhum centavo do governo. Jamais recorreu a benefícios em habitação, créditos fiscais ou abono de família. “Nunca recebi nada deles. E tenho contribuído com essa sociedade desde os anos 1990. A amo como se fosse a minha própria e posso dizer que tenho amigos britânicos, pessoas que me respeitam”, desabafa. Ainda assim, por ser romeno, até hoje teme pela sua segurança.

Segundo Albescu, a imigração precisa ser discutida abertamente, até porque há um grande estigma social envolvendo os romenos, muitas vezes vistos pelos ingleses como vagabundos e amealhadores de benefícios. “A mídia britânica fala de nós como se fôssemos escória. Eles nos apresentam como pessoas que vêm para cá causar crises no setor de habitação. Isso nos coloca em risco porque atiça o ódio e a xenofobia”, reclama.

Apesar de tudo, Alexandru Albescu tem esperança que a imagem de uma sociedade britânica tolerante ainda há de perseverar diante dos infortúnios vividos por imigrantes trabalhadores como ele e muitos outros. “O Reino Unido ainda é um bom lugar para se viver. Seria triste se ele virasse as costas para a história de tantos imigrantes que contribuíram para a evolução desse Estado”, comenta.

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O Escritório Nacional de Estatísticas (ONS), sediado na Inglaterra, estima que há 170 mil romenos vivendo no Reino Unido.

Written by David Arioch

May 6th, 2016 at 12:04 am

Um grande artista nem sempre é um bom exemplo de ser humano

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Há inclusive aqueles que foram considerados artistas de caráter duvidoso

Picasso sempre chamou a atenção pelos seus relacionamentos conturbados (Foto: Arnold Newman/Getty Images)

Picasso sempre chamou a atenção pelos seus relacionamentos conturbados
(Foto: Arnold Newman/Getty Images)

 

É comum alguém acreditar que um grande artista é um bom exemplo de ser humano, até mesmo uma pessoa perfeita, mas é importante ter em mente que isso não condiz com a realidade. Exemplos nunca faltam. Há inclusive aqueles que foram considerados por alguns como seres humanos de caráter duvidoso e que entraram para a história da arte como verdadeiros gênios, como é o caso do compositor alemão Richard Wagner, cujo antissemitismo dizem que chegou a ponto dele declarar que judeus são incapazes de produzir arte. Apesar disso, alguns estudiosos de sua obra dizem que ele tinha alguns amigos judeus.

O maestro judeu Daniel Barenboim, o maior intérprete da música de Wagner, chegou a fazer releituras das obras do compositor alemão em Israel e justificou que o germânico poderia ser repreendido, mas não sua música. “Ele não compôs uma única nota antissemita”, declarou quando questionado sobre o assunto. A explicação se sustenta até mesmo na ponderação de que bondade e maldade enquanto características pessoais são qualidades morais que não se aplicam à arte, principalmente do ponto de vista estético.

O editor do New York Times e crítico literário Charles McGrath defende que uma pessoa, independente de moralidade ou caráter, pode não apenas escrever um bom romance ou pintar uma bela tela como suavizar ou externalizar um grande infortúnio. “Pense em Guernica, de Picasso, ou Lolita, de Nabokov. É um romance excepcional sobre o abuso sexual de uma menor e descrito de uma maneira que faz com que o protagonista pareça quase simpático”, argumenta.

Pound era assumidamente antissemita e protofacista (Foto: Reprodução)

Pound era assumidamente antissemita e protofacista (Foto: Reprodução)

Degas, até hoje cultuado pelo seu perfil fervorosamente humanista, era antissemita e um defensor do tribunal francês que condenou o capitão Alfred Dreyfus, do exército francês, falsamente acusado de traição. Ezra Pound, expoente do modernismo, também era antissemita e protofascista, posições que ele assumia sem receio, embora a maioria não levasse a sério suas declarações sobre o assunto por considerá-lo excêntrico e até mesmo louco.

E na mesma esteira seguia seu amigo T.S. Eliot, da Igreja Anglicana, poeta que se orgulhava de uma posição ideológica muito próxima a de Pound. Já Picasso, sempre chamou a atenção pelos seus relacionamentos conturbados. Das sete mulheres com quem se envolveu amorosamente, duas cometeram suicídio e outras duas enlouqueceram.

Outro pintor com uma história de vida intrigante é o alemão Walter Sickert, referência da pintura avant-garde britânica. A escritora norte-americana Patricia Cornwell publicou um livro em que acusa Sickert de ser o famoso Jack O Estripador. Norman Mailer, duas vezes vencedor do Prêmio Pulitzer, tentou assassinar a esposa.

Filho escreveu carta a Hemingway dizendo como ele destruiu sua vida (Foto: Reprodução)

Filho escreveu carta a Hemingway dizendo como ele destruiu sua vida (Foto: Reprodução)

O pintor Caravaggio e o poeta e dramaturgo Ben Jonson participaram de duelos em que mataram seus adversários sem o menor remorso. E a lista segue extensa. Genet era ladrão, Rimbaud foi traficante de armas e Byron praticou incesto. Flaubert também se envolveu em um escândalo por pagar por sexo com garotos, sim, menores. “A base de toda grande obra de arte é uma pilha de barbárie”, escreveu uma vez o crítico literário alemão Walter Benjamin.

Apesar disso, a arte consegue perseverar como enobrecedora porque ela inspira e transporta o leitor ou espectador. “Ela refina nossas discriminações, amplia a nossa compreensão e simpatia. Se ela faz isso conosco, imagine o que ela não é capaz de fazer com seus autores? Nos apegamos a essas noções porque cremos que a arte nos leva à evolução moral”, enfatiza McGrath.

Questionado se bons exemplos também fazem boa arte, o editor do New York Times responde que há muitos bons artistas que são decentes ou moralmente íntegros. Ou seja, que não são racistas, não batem em suas esposas, não ignoram suas famílias, não praticam injúrias nem mesmo sonegam impostos. “O artista é alguém vinculado à sua própria lei. Ele acaba por ser até mesmo egoísta, mas em muitas situações porque precisa. Grandes artistas tendem a viver para sua arte mais do que para os outros”, declara.

Dickens expulsou a esposa de casa e mandou o filho para a Austrália (Foto: Reprodução)

Dickens expulsou a esposa de casa e mandou o filho para a Austrália (Foto: Reprodução)

A afirmação de McGrath pode ser facilmente comprovada se avaliarmos as biografias de artistas como Fitzgerald, Faulkner, Bellow, Yates e Agee, homens que tiveram casamentos desfeitos, filhos negligenciados e pouco amados. E será que a arte vale a infelicidade dos mais próximos? Hemingway se casou quatro vezes e teve dois filhos problemáticos.

Quando Gregory completou 21 anos, ele escreveu uma carta ao pai dizendo como ele destruiu sua vida e a de outros quatro familiares. Depois de se tornar uma transexual alcoólatra em Miami, Gregory morreu em uma penitenciária feminina. Outros agravantes eram o perfil mulherengo de Hemingway e suas constantes bebedeiras. Além disso, sempre se importou mais em escrever do que em cuidar da família.

Assim que se casou com Catherine Hogarth, Charles Dickens, um dos mais famosos romancistas ingleses, prometeu que seria um pai e marido exemplar, levando em conta a própria infância miserável, acentuada pela ausência da figura paterna. No entanto, fez tudo diferente. Foi um pai desleixado e péssimo marido. Irritado ao ver que a cada gravidez a sua esposa ficava mais gorda e doente, Dickens se tornou um sujeito amargo.

“Ele expulsou a própria esposa de casa e anunciou em sua revista que fez isso porque ela era uma mãe tão irresponsável que nem os filhos a suportavam. Mais tarde, despachou o filho Edward, de 16 anos, para a Austrália e nunca mais o viu novamente. Dickens morreu sob o domínio completo da arte, uma arte cruel que exige de seus praticantes uma desumana servidão”, avalia Charles McGrath.

Referência

McGrath, Charles. Good Art, Bad People, The New York Times, The Opinion Pages, Global Agenda, Genius At Work. 22/06/2012.

As controvérsias do comunismo e do socialismo

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comunismo

Houve sim uma grande apropriação de ideias que serviram tão somente como mecanismo de propaganda (Arte: Reprodução)

Várias vezes já me perguntaram o que eu acho dos governos considerados “comunistas” ou “socialistas” no decorrer da história moderna. Bom, não acho fácil responder uma questão como essa porque acredito que seja importante fundamentar bem qualquer resposta. De qualquer modo, meu raciocínio costuma seguir por essa linha:

Basicamente eu acredito que nunca existiu de verdade um governo comunista ou socialista. Na minha opinião o que foi ou o que deveria ser o comunismo e o socialismo nunca saiu da teoria. O que a história mostra é que a partir dessas ideologias houve sim uma grande apropriação de ideias que serviram como mecanismo de propaganda, um recurso para camuflar alguns regimes totalitaristas que em um primeiro momento precisavam conquistar a simpatia das classes mais baixas, principalmente do proletariado.

Gosto de citar um exemplo também para ilustrar essa ideia: “O que houve com o comunismo e o socialismo foi o que aconteceu com a suástica, uma apropriação de algo que em essência significava uma coisa, mas que por uma obliteração simbólica e semântica perdeu quase que completamente o sentido original e diverso.”

Aí alguém pode me perguntar se acho que o comunismo ou o socialismo em essência funcionariam. Sinceramente, não sei. O que posso dizer é que sou avesso a qualquer forma de governo que interfira nas liberdades individuais. Além disso, políticas precisam ser pensadas dentro de um contexto atual. E se a política vai mal é exatamente porque ela não atende essas necessidades. Em breve pretendo publicar um texto em que abordo com alguma profundidade esse assunto mais do que controverso.

Written by David Arioch

May 4th, 2016 at 3:09 pm

O legado romanesco de Knut Hamsun

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O virtuoso escritor norueguês que morreu na pobreza após declarar sua simpatia pelo nazismo

Knut Hamsun, forfatter. Foto ca. 1890.

Knut Hamsun em 1890 (Foto: Reprodução)

Knut Hamsun, um dos maiores escritores da Escandinávia, nasceu em 4 de agosto de 1859 em Gudbrandsdalen, na Noruega. Cresceu em meio à pobreza da pequena comuna de Hamarøy, em Nordland. Na infância e adolescência, trabalhou como aprendiz de sapateiro e pedreiro, até que mais tarde conseguiu se tornar professor. Insatisfeito com os rumos de sua vida, Hamsun passou alguns anos viajando pelos Estados Unidos, onde atuou como motorista de bonde e publicou as impressões satíricas daquele país sob o título Fra det Moderne Amerikas Aandsliv (A Vida Intelectual da América Moderna) em 1889.

Mas foram os romances Sult (Fome), de 1890, e Pan, de 1894, que chamaram a atenção para o trabalho do escritor, considerado até hoje o precursor da verdadeira literatura moderna norueguesa. O trabalho de Knut Hamsun, independente de época, é determinado por profunda aversão à civilização. Suas obras reafirmam sua crença de que a realização do homem só é possível por meio da sua basilar relação com a terra.

Sem dúvida, um primitivismo que lançou luz sobre sua desconfiança em relação a tudo que é moderno. A máxima expressão dessa filosofia pode ser percebida na obra Markens Grøde (Crescimento do Solo). Os primeiros trabalhos de Hamsun já traziam à tona características fundamentais que marcariam a sua trajetória como escritor. Exemplos são seus personagens baseados em párias. A figura do vagabundo na obra do norueguês é uma constante fundamental porque à época representava a mais agressiva das oposições à civilização.

Com o amadurecimento literário, o autor experimentou considerável gradação (Foto: Reprodução)

Com o amadurecimento literário, o autor experimentou considerável gradação (Foto: Reprodução)

Com o amadurecimento literário, o autor experimentou considerável gradação. Substituiu a hostilidade figurativa pela resignação melancólica em relação à perda da juventude. O envelhecimento então começou a ocupar lugar de destaque em peças como Livets Spil (Jogo da Vida), de 1896, e Aftenrøde (Sol), de 1898, assim como nos romances Under Høststjernen (Sob a Estrela do Outono), de 1906, Benoni, de 1908, e En Vandrer Spiller med Sordin (Um Andarilho Toca com Cordas Silenciosas). Antes, em 1904, ele publicou o livro de poemas Det Vilde Kor (O Coro Selvagem).

Na última fase da carreira como escritor, Knut Hamsun, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1920, já não se preocupava mais com a construção de figuras individuais. Sua atenção se voltou totalmente para os grandes ataques à civilização, um tema que se estende pelos livros Børn av Tiden (A Criança da Era), de 1913; Segelfoss By, de 1915; Landstrykere (Vagabundos), de 1927; August (Agosto), de 1930; Men Livet Lever (A Estrada Leva), de 1933; e Ringen sluttet (O Anel está Fechado), de 1936.

Desde sempre um admirador da Alemanha, principalmente da cultura germânica, quando os nazistas invadiram a Noruega em 1940, Hamsun declarou publicamente sua simpatia por Adolf Hitler, o que surpreendeu muito os noruegueses. Com isso, logo após a guerra, o escritor perdeu a propriedade onde vivia e foi colocado sob observação psiquiátrica. Pouco conhecido no Brasil, mas muito respeitado na Europa e nos Estados Unidos, Knut Hamsun passou os últimos anos de vida na pobreza.

Escritor declarou publicamente sua simpatia por Hitler em 1940 (Foto: Reprodução)

Hamsun declarou publicamente sua simpatia por Hitler em 1940 (Foto: Reprodução)

Em 1945, aos 86 anos, escreveu o obituário de Adolf Hitler no jornal norueguês Aftenposten. A publicação em que ele homenageia o líder nazista se tornou a mais infame de suas obras, inclusive ofuscando o seu respeitado trabalho literário. Em um dos trechos, o escritor afirma que Hitler foi um guerreiro da humanidade, um pregador do evangelho da justiça que serviu de exemplo para todas as nações. “Nós, seus seguidores mais próximos, devemos inclinar nossas cabeças em respeito à sua morte”, escreveu.

Knut Hamsun faleceu em 19 de fevereiro de 1952, aos 92 anos. Em 1954, seus trabalhos voltaram a ser reeditados e publicados. No mesmo ano, uma edição de 15 volumes resgatou toda a trajetória literária do autor.

Referências

Nobel Lectures, Literature 1901-1967, Editor Horst Frenz, Elsevier Publishing Company, Amsterdam, 1969.

Reputação Póstuma de Knut Hamsun

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Patrimônios mundiais estão sob ameaça

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Machu Picchu e Grande Barreira de Corais estão ameaçadas (Fotos: Divulgação)

A Grande Barreira de Corais, na Austrália, e a cidade inca de Machu Picchu, no Peru, dois dos patrimônios naturais e culturais mais preciosos do mundo, estão sob ameaça de grandes atividades industriais. Esse é o alerta do Fundo Mundial da Natureza (WWF). A organização não governamental informou que metade dos 229 locais listados como Patrimônio Mundial estão ameaçados por atividades como desmatamento, pesca e exploração de petróleo.

Para mais informações, acesse: 

http://www.worldwildlife.org/

 

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A atendente e o café expresso

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Me senti comendo cubos de açúcar em forma de expresso (Foto: Reprodução)

Perto do horário do almoço, passei com minha mãe em uma cafeteria. Ela pediu um café expresso e eu também. Fazia muitos anos que eu não tomava um expresso, tanto que me aproximei da atendente e perguntei a ela como o preparavam, qual era a composição. “Vocês adicionam açúcar?”, questionei. Ela respondeu que não, que a bebida vinha pura para ser adoçada ao gosto do cliente. Então comentei: “Bom! Então você pode me servir na menor xícara.”

Também fiz algumas perguntas sobre um assado de palmito recém-colocado na estufa. Ela se mostrava confusa nas respostas, mas isso não me incomodou porque notei que era nova na função. Enquanto ela me atendia, um homem sisudo a assistia atentamente. Percebi que ele era o gerente e talvez até o dono do lugar. Em pouco tempo, o telefone da cafeteria tocou e ouvi a mesma moça conversando com a filha. Parecia que a menina estava agitada por algum motivo desconhecido e a mãe se esforçava para acalmá-la.

Tão logo desligou, ela veio até a nossa mesa e nos serviu. Suas mãos tremiam. Agradeceu mais uma vez e caminhou em direção ao balcão. Comi o assado, nada mal, porém não era dos melhores. Minha mãe se serviu do café expresso extremamente forte e amargo, bem diferente do que ela pediu. Quando levei a xícara à boca, notei no primeiro gole um gosto extremamente acentuado de açúcar. Ali tinha no mínimo umas duas colheres de chá bem cheias.

Depois de anos sem sentir o sabor do açúcar em estado puro, tive a mesma sensação de quando se é criança e come bolo de festa de aniversário bebendo refrigerante – a língua chega a acidular. Atrás do balcão, a moça e o seu patrão continuavam nos observando. Um espelho lateral os denunciava. Me senti comendo cubos de açúcar em forma de expresso.

Malgrado isso, mantive a expressão serena, assim como minha mãe que só se queixou do café no carro. Quando me levantei para ir embora, caminhei até a atendente e disse: “Foi o melhor café expresso que tomei na vida. O assado também estava excelente. Parabéns!” Acanhada, a moça sorriu, assim como o gerente que desfez o semblante carrancudo e acenou com a cabeça, numa respeitosa reverência. Parti tranquilo, mas ainda sinto na boca o gosto hiperbólico do açúcar.

Written by David Arioch

May 3rd, 2016 at 12:16 am

Dio, a descoberta do bombachinha

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Me surpreendi ao ver no quintal um gavião-bombachinha empoleirado no galho da jabuticabeira

Vivia solto, percorrendo todo e qualquer espaço que lhe agradasse ou atiçasse sua curiosidade

Eu tinha oito ou nove anos. Cheguei em casa e me surpreendi ao ver no quintal um gavião-bombachinha empoleirado no galho da jabuticabeira. Ele era filhote e minha mãe o encontrou ferido nas imediações de um terreno baldio. Cuidou dele e logo ele se recuperou, mas não quis partir. Vivia solto em casa, percorrendo todo e qualquer espaço que lhe agradasse ou atiçasse sua curiosidade. Sua penugem plúmbea contrastava com o céu claro em dias quentes. Eu dizia que ele era o senhor da chuva porque suas penas acinzentadas eram como o firmamento nuvioso. Sempre que alguém me perguntava porque Diodon tinha as penas próximas do pé direito alaranjadas, eu repetia a mesma história que inventei:

“Num dia de pouca claridade ele voou tão alto que o Sol ficou com raiva e apareceu de repente queimando apenas uma pequena porção de suas penas. O susto foi tão grande que até seus olhos azuis mudaram de cor – uma lembrança sem fim de sua teimosia.” Dio era tranquilo e silencioso, porém não gostava de interagir com outros animais. Apenas os assistia à distância, como se do galho onde repousava observasse os súditos de seu reino. Tinha um olhar inquiridor e ao mesmo tempo singelo e lhano. Não era capaz de caçar, então recaía sobre nós a responsabilidade de alimentá-lo com carne moída com carbonato de cálcio em pó.

A primeira vez que ele subiu no meu dedo, senti cócegas. Quando comecei a rir, Dio abriu o bico e emitiu um guincho oxítono e estiolado. Tive a impressão de que ele quis retribuir minhas gargalhadas à sua maneira. Conforme Diodon crescia, meus dedos se tornaram insuficientes para resguardá-lo, e ele decidiu se aninhar em meu braço e ombro, principalmente perto do pescoço, onde aprendeu a me cutucar sutilmente com as garras. Sobre a minha espádua, Dio sempre chamava a atenção de curiosos no centro de Paranavaí. Vez ou outra abria as asas como um leque, reafirmando sua imponência. Seus olhos estalados me davam a impressão de que sua visão atilada contemplava tudo que o cercava, a exemplo de sua audição. Nada passava despercebido, nem mesmo uma folha solitária arrastada pela brisa para dentro de uma boca de lobo.

Ocasionalmente ele se encolhia na presença de estranhos, velando parte do corpo atrás de mim. Era inevitável sentir cócegas e gargalhar ao perceber seu bico ruço ponteando a minha cabeça. Então ele movia os pezinhos à esquerda, até tocar meu deltoide, e me observava com atenção, já ignorando as visitas que ele encarava como intrusão. Apesar do estranhamento que durou meses, os poodles Happy e Chemmy já não eram mais vistos por Dio como ameaças. Ao analisá-los, seu comportamento mudou consideravelmente. Me recordo quando flagrei o caritativo Chemmy lambendo as penas de Diodon. Silencioso, o bombachinha mirava o bico em direção ao céu índigo com ar contemplativo.

Naquele final de tarde, assim que o estrepitoso Happy se aproximou para lamber seu bico, Dio não se posicionou para bicar seu focinho como de costume. A verdade é que não se importou. Talvez nem tivesse notado o que aconteceu e continuou admirando a amplidão celeste, abstraído da terra e lançado aos céus por onde flutuava sob sonhos maviosos como suas penas. Happy estranhou a passividade do gavião e o examinou com expressão exultante e enleada. Os poodles recuaram quando o bombachinha agitou as asas e caminhou até o quintal, em direção à jabuticabeira. Subindo de galho em galho, chegou ao topo. Hesitou por quase um minuto e de repente saltou com as asas abertas.

Durante o voo, Dio guinchava com tanta excitação que chamou a atenção de vizinhos e estranhos que passavam pela Rua Artur Bernardes. Ele estava feliz e até os mais airados percebiam isso. Era como se o céu desanuviado ganhasse um novo dono, um jovem animalzinho que descobriu através da observação que o sopro da vida também subsiste na concessão. Todos os dias à tarde ele voava no mesmo horário. Achando aquilo curioso, comecei a cronometrar a duração de seus passeios e incursões. Uma hora, duas horas, três horas, quatro horas. A cada semana que passava eu notava que menos tempo em casa Diodon ficava. Foi quando me dei conta que seu lar já não era um lugar, mas um espaço inestimado por onde suas asas balouçavam com a pureza de um cavalo alado.

Na última vez que o encontrei em casa, ele bicou carinhosamente a minha cabeça. Suas penas estavam mais vibrantes, assim como seus olhos rutilantes de citrino que me transmitiam astúcia e convicção. Diodon não era mais o miúdo bombachinha que chegou em casa ferido, desnutrido e com poucas penas. Embora não gostasse de abraços, permitiu que eu o envolvesse rapidamente entre os meus, sem sequer apontar suas longas e afiadas garras. O soltei e ele reproduziu o mesmo guinchado da primeira vez em que subiu em meu dedo. Em poucos minutos, Dio foi embora e nunca mais voltou. Não o procuramos porque não há o que encontrar quando a partida é motivada pelo anseio intempestivo de voar.

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