Archive for the ‘conscientização’ tag
Nos condicionamos a crer que precisamos de carne para sobreviver
Práticas violentas contra os animais só existem porque sempre há plateia e consumidores
Reflexões de um minuto – Imagine passar a sua vida confinado como um animal criado para consumo
Reflexões de um minuto – Vidas são importantes, até mesmo a do menor animal
Reflexões de um minuto – A criança e o sofrimento animal
Alguém diz: “Você está tentando impor o veganismo ao não servir alimentos de origem animal”

O veganismo é um imperativo moral à medida em que entendemos que alimentos e produtos de origem animal custam vidas (Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals)
Uma amiga me contou que uma criança, filho de sua prima, gostaria de passar um final de semana em sua casa. Então a mãe disse que o garoto come carne e que ela deveria prepará-la no almoço e no jantar do menino. Ela explicou que não faria isso, porque não entra carne em sua casa; e que o garoto estaria muito bem nutrido se alimentando da mesma forma que ela, com boa diversidade vegetal. Ou seja, sem nada de origem animal.
A mãe ficou encolerizada e disse que ela estava tentando impor o veganismo para ela e para o filho, e que ela não partilha desses princípios. O primeiro equívoco desse diálogo está bem claro: não há imposição, levando em conta que a anfitriã é vegana, logo vai contra a filosofia de vida dela oferecer carne mesmo que ela não consuma. Afinal, veganismo está muito além do que consumimos; trata-se de um imperativo moral, algo que se aplica a todos os aspectos de nossa vida, inclusive nas nossas relações com os outros.
Nesse contexto, qual mensagem passamos quando fazemos alguma exceção? Que é permitido tomar parte na exploração animal ou incentivá-la em determinadas circunstâncias, desde que não tomemos parte no consumo direto? Se fizermos isso, quem sabe da próxima vez alguém nos convide para ajudar a abater algum animal. Claro, podemos minimizar esse impacto simplesmente não comendo, certo? Realmente, ponderemos, será que não há nada de errado em financiar exploração e morte de criaturas sencientes mesmo quando não consumimos os produtos que derivam dessa exploração?
Tento sempre ser polido e cortês no diálogo sobre a exploração animal, mas isso não significa um tipo alheado de condescendência. De fato, não preparo nem compro nada de origem animal para ninguém. Então posso ser visto como intransigente, mas de uma intransigência em prol de algo chamado justiça. Em circunstância nenhuma ofereço algo de origem animal a alguém, mesmo que tal pessoa se considere uma “apaixonada” por qualquer alimento de origem animal. E isso não é desrespeitoso, é uma manifestação consentânea, sensata, de franca oposição à exploração animal.
Acredito que é esse posicionamento que leva à reflexão, ao entendimento do que fazemos e porque defendemos o que fazemos. A flexibilização dessa conduta pode ser temerária, porque não apenas transmite uma mensagem errada de permissividade, como permite interpretações erradas em relação à rejeição à exploração animal. Não ignoro também que a ideia da exceção e da seletividade abriram precedentes para que explorações pontuais no passado se tornassem explorações massivas. Por isso, sim, sou da opinião de que a exceção pode ser uma armadilha de legitimação ou perpetuação da arbitrariedade.
Ademais, não é imposição um vegano se negar a servir alimentos de origem animal a um convidado. Em certa ocasião, Tolstói, já vegetariano, ofereceu uma faca e uma galinha viva diante da mesa de jantar para que sua tia a matasse caso quisesse comê-la. Claro que ela não o fez. Pode parecer duro, não? Mas a sua eficaz mensagem foi mais do que simbólica e se espalhou pela Rússia. Tolstói não servia animais em sua casa de bom grado.
Não podemos ignorar que na realidade a imposição é defendida e perpetuada por nós quando nos alimentamos de animais, já que as vítimas não têm poder de escolha quando são reduzidas a fontes de produtos, alimentos ou quaisquer outros fins sem relação com suas reais necessidades. Ser vegano não é uma imposição a ninguém, e a recusa em tomar parte na coisificação ou objetificação animal pode ser uma mensagem desconfortável para quem não é de que o que fazemos com criaturas não humanas perpassa pela nossa nociva transigência e displicência. Até porque tem quem olhe uma pessoa que não se alimenta de animais e instantaneamente ache isso incomum, estúrdio, afrontoso.
A existência de veganos em si é vista como uma crítica para muita gente, mesmo que esses veganos nem abram a boca. O fato deles existirem e fazerem o possível para não tomar parte nessa exploração já é um vilipêndio para quem não é capaz de ver que nisso subsiste em essência uma luta por uma forma ancha de respeito que é negligenciada por tanta gente. No meu entendimento, a verdade é que isso diz muito sobre o ser humano, e a sua resistência em, muitas vezes, reavaliar o estado atual das coisas.
Ser uma antítese ou um contraponto à zona de conforto das pessoas é sempre um exercício de chamamento para a mudança. Esse chamamento pode despertar evocações, emoções e sentimentos inesperados e mesmo negativos em quem não está aberto ao diálogo e menos ainda a mudar a sua perspectiva em relação ao direito à vida não humana. O que não significa que não possa se tornar algo positivo no futuro.
A ideia de um novo universo de possibilidades, de se abrir para um novo mundo, é chocante para tanta gente. Porque como seres humanos temos uma tendência a defender hábitos e costumes mesmo quando deletérios: “Se significa vidas que findam, que assim seja, desde que eu me satisfaça.” Costumamos equacionar apenas os prós que nos tocam, mas não os contras que aos outros derrotam.
Toto Wanje: “Todos nós nascemos veganos”

Toto Wanje com o médico Michael Greger, especialista em alimentação vegetariana (Foto: Arquivo Pessoal)
O queniano Toto Wanje nasceu em uma pequena aldeia no Quênia, na África Oriental, onde vivia sem televisão, eletricidade e sem água encanada. Ele conta que a vida era simples e que a carne era considerada um item de luxo que fazia e ainda faz parte apenas da realidade dos ricos, ou pelo menos daqueles que podem pagar pelo seu alto preço no Quênia: “Em muitos lugares na África, a carne é dada apenas aos homens. As mulheres e as crianças seguem uma dieta vegetariana. Nem todas as aldeias no Quênia ou na África são assim. Na minha aldeia, as mulheres e as crianças sempre tiveram muito a dizer à sociedade, embora não sejam considerados tão importantes quanto os homens. Então os homens comiam carne e as mulheres e as crianças se alimentavam com vegetais.”
Toto cresceu rodeado de animais como vacas, galinhas, cabras e ovelhas, mas raramente eles comiam animais. A maioria era criado com a finalidade de ordenha, ou então para serem vendidos para pessoas de outras aldeias. Ainda assim, o destino desses animais não era tão auspicioso. Uma vez por mês um animal era morto para ser consumido em um casamento ou algum outro grande evento. Além disso, no Quênia há um costume antigo de presentear um convidado com uma galinha. Esse mesmo animal é abatido e servido no jantar. Os homens se alimentam das “melhores partes”, e as mulheres das sobras. Com “sorte”, as crianças ganham algum pedacinho para sentir o “gosto”.
Na infância, imerso nessa realidade, Wanje corria até a mesa onde seu tio estava reunido com outros homens e implorava por um pedaço de frango ou do bode que haviam abatido mais cedo. “Eu era travesso e aventureiro, e sempre queria sentir o gostinho do que as pessoas mais velhas estavam comendo. As outras crianças tinham que comer sopas de vegetais e arroz. Parecia um tratamento especial, e até encantador, receber um pequeno pedaço para saborear”, relata.
Mesmo vivendo em uma realidade bastante difícil, a família de Wanje conseguia cultivar milho, castanhas de caju, abacates, laranjas, mangas, tomates, páprica e repolho. A comida estava sempre ao alcance das mãos, bastando selecioná-la e prepará-la. Eles consumiam todos os tipos de comida vegetariana, mas principalmente sopas, saladas e feijões preparados de diversas maneiras. Não havia necessidade de muito dinheiro. Na realidade, o dinheiro só era usado na aquisição de três itens – açúcar, arroz e óleo. “Éramos uma comunidade autossustentável. Tínhamos diferentes papéis em nossa pequena comunidade. As garotas cuidavam dos vegetais, as mulheres cozinhavam, e os garotos se responsabilizam pelos animais. Brincávamos com as cabras, com as galinhas e sempre tentávamos montar no lombo das vacas”, narra.
Naquele tempo, nada incomodava mais as crianças da aldeia de Toto do que a presença de um açougueiro que vinha de outra aldeia quando chegava a hora de abater um boi, uma vaca, uma cabra ou uma galinha para uma festa ou outra ocasião especial. Com a chegada do açougueiro, as crianças fugiam e se escondiam atrás dos arbustos ou das cabanas de barro enquanto o ouviam matando um dos animais.
Segundo Toto Wanje, a princípio era horripilante, mas com o tempo acabaram se acostumando, porque a matança, mesmo que não tão frequente, fazia parte dos hábitos culturais do povo de sua aldeia: “Se nunca tivéssemos visto isso sendo feito, provavelmente nunca quereríamos carne [quando soubéssemos a verdade]. As crianças fazem o que os adultos fazem e querem o que os adultos têm. Se uma criança não for ensinada a matar e não for ensinada a comer animais, elas nascerão veganas e crescerão como veganas. Elas não iriam querer ferir qualquer animal ou qualquer ser vivo.“
Suas irmãs e primas jamais assistiam o abate dos animais, e simplesmente porque era chocante demais testemunhar um dos animais com quem eles brincavam e se divertiam no cotidiano ser morto brutalmente. “Mesmo que estivéssemos nos escondendo e observando de longe, como garotos, sentíamos que precisávamos ver como ele os matava. Quanto mais animais vimos sendo mortos, mais ficamos condicionados e acostumados”, reconhece.
Depois de adulto, Toto Wanje percebeu que aquele cheiro estranho do açougueiro da aldeia não era raro. Na realidade, era mais comum do que ele imaginava. Afinal, o mesmo cheiro poderia ser encontrado em qualquer açougue: “Se você é vegano há algum tempo, provavelmente sabe o que quero dizer. Quando você passa por algumas seções de carne, ou quando entra no açougue e passa pelo lugar onde eles cortam a carne, você reconhece que o cheiro é terrível. Você se pergunta como alguém pode comer essa carne morta. Era esse mesmo cheiro de morte, sangue e carne que o açougueiro tinha. Reconheço o cheiro e sei agora que era assim o seu cheiro, e era horrível. Ele estava sempre cercado de animais mortos e matava animais diariamente para ganhar a vida. Matar animais era a sua profissão. Hoje, acredito que quanto mais alguém mata e fere animais, mais ele ou ela perde um pedaço da sua verdadeira natureza humana e dignidade.”
Como Toto e sua irmã não tinham futuro vivendo em sua terra natal, eles foram adotados por uma missionária irlandesa enviada ao Quênia pela Igreja Católica. A mulher se tornou amiga da mãe de Wanje e se ofereceu para educá-los na Irlanda. Na Europa, o jovem queniano se surpreendeu em ver como as pessoas consumiam e ainda consomem muita carne. Logo no café da manhã, Toto e a irmã comiam bacon e ovos. No almoço, consumiam peixe, frango, carne vermelha ou costeletas de porco. Também nunca faltava carne no jantar. “Começamos a comer carne três vezes ao dia. Isso, com o tempo, mudou nossa maneira de pensar. Nos acostumamos a comer carne e literalmente nos apaixonamos pela carne. Tornou-se tão normal para nós que mal podíamos comer uma única refeição sem carne. Ainda me recordo de como eu não queria comer meus vegetais a menos que me dessem um pedaço de carne para acompanhar a minha comida”, revelou, em referência ao fato de que embora vivesse em uma realidade mais esperançosa, é estranho reconhecer que a matança de animais mais do que nunca fazia parte de sua rotina.
Toto Wanje notou que enquanto pessoas com pouco poder aquisitivo se alimentavam com mais vegetais no Quênia, e normalmente alimentos cultivados por eles mesmos, na Europa, muitas pessoas viam como um retrato de uma vida próspera e digna consumir muita carne e produtos sobre os quais pouco conheciam a procedência: “Lembro-me de dizer, como outras crianças dizem, que odiava vegetais. A maioria de nós quando crianças empurra os vegetais para o lado do nosso prato e só come a carne, o arroz, as batatas ou o macarrão. Minha nova mãe irlandesa me faria sentar à mesa até que eu tivesse comido todos os meus legumes e verduras. Agora, como vegano, é engraçado pensar nesses dias em que me recusei a comer verduras e legumes, e mais engraçado ainda quando volto mais atrás e recordo-me que essa era a dieta padrão no Quênia.”
Toto, que hoje é um empreendedor vegano e ativista dos direitos animais em Upsália, na Suécia, cita os episódios em que implorava por um pedaço de carne ao seu tio como um exemplo comum do condicionamento vivido pelas crianças. Para o queniano, ser vegano é como nascer de novo, reconhecer um novo mundo.
“Ser vegano é ter meus olhos e meu coração abertos novamente para abraçar todos os seres vivos como iguais a nós mesmos. Ser vegano é reconhecer o espírito e o amor que eu tinha pelos animais quando criança. É reviver e abraçar mais uma vez a compaixão que eu tinha pelo mundo e por tudo que é belo na natureza. Um véu foi levantado dos meus olhos e do meu coração. Agora sou capaz de ver os verdadeiros espíritos e as almas dos animais mais uma vez. Acredito que todos nós nascemos veganos, exceto que de alguma forma ao longo da vida, nosso amor e compaixão pelos outros seres vivos são doutrinados e condicionados. ”
Referência
Wanje, Toto. We Are All Born Vegan (22 de novembro de 2016).
Artistas se unem e lançam coleção de contos infantis veganos
São seis livros em que os protagonistas são animais regularmente explorados e mortos para fins humanos
Desde 2014, Marcya Harco, Paulo Roberto Drummond e Daniela Benite realizam ações de artivismo em defesa dos animais. E foi com essa motivação que recentemente publicaram a coleção de livros “PAZ – Pessoas e Animais, AmiZades Legais”, que apresenta às crianças alguns contos com histórias de animais comumente explorados. De acordo com o trio que compõe o projeto PAZ, sediado em São Paulo e que dá nome à coleção, eles tiveram a preocupação em apresentar cada história de maneira delicada e lúdica. Nos seis livros, intitulados “Vera”, George”, “Márcia”, “Gary”, “Jill” e “Ismael”, os protagonistas, que são animais, almejam sempre a liberdade e uma vida justa.
Um diferencial da coleção, e que ajuda a fortalecer a mensagem de que os leitores têm bons motivos para incluir também os animais explorados para consumo em seu círculo moral, é que em cada conto há um ser humano com um olhar sensível em relação aos animais lutando para salvá-los de qualquer exploração. Para entender melhor a proposta do projeto, entrevistei Marcya, Paulo e Daniela sobre a coleção e a sua receptividade, além da importância da literatura infantil e projetos futuros, dentre outros assuntos. Confira:
Sei que os livros da coleção “PAZ – Pessoas e Animais, AmiZades Legais” são voltados principalmente ao público infantil, mas há uma faixa etária específica a quem essas obras são direcionadas?
Todos os contos são ilustrados e sugeridos para crianças a partir dos 3 anos, com leitura compartilhada. Depois de alfabetizadas, são indicados para até 10 anos ou mais, dependendo de como tocam cada pessoa. No entanto, pessoas de todas as faixas etárias têm se interessado e adquirido os livros.
Como foi a ideia de dar nomes únicos de personagens a cada um dos livros?
Cada título leva nome de um animal que é personagem principal e tem a sua história de vida retratada. Sempre acreditamos que o animal incluído na comunidade moral teria o seu espaço como pessoa respeitado, com todos os direitos. Então é assim que o vemos. Nós já o incluímos e assim o tratamos. O nome corresponde à sua identidade como pessoa. Essa questão do nome é muito significativa. Conhecemos há muitos anos um fazendeiro que criava algumas vacas. Ele se afeiçoou mais a uma delas e deu-lhe um nome como pessoa. Depois ele teve muita dificuldade em permitir que ela fosse assassinada para consumo. Era visível a crise de consciência diante da possibilidade de morte da nova amiga.
Cada livro traz um conto diferente, o que significa uma história singular. Porém, há algo que une todas essas histórias como partes de uma mesma unidade?
Sim, os protagonistas de cada história são animais regularmente explorados e mortos para fins humanos: Jiil, uma vaca; Ismael, um porco; Gary, um peixe; Márcia, uma galinha; George, um peru; e Vera, uma coelha. Nesse primeiro momento foi primordial considerar os animais criados e abatidos em grande escala. Outra questão é que há, em todos os contos, um ser humano, criança ou adulto, envolvido na salvação de cada animal herói do conto.
Há um caráter de importância em ler todos os livros para entender melhor cada história?
O interessante em ler toda a coleção é possibilitar às crianças a construção de um olhar sensível para todos os animais. Ao leitor ou leitora com mais vivência, permite ampliar a percepção para a desconstrução de histórias de exploração animal consideradas “normais” em nossa sociedade. É importante esclarecer que a coleção PAZ tem um caráter lúdico e delicado, com uma linguagem extremamente acessível a todos e todas.
Como vocês veem a importância da literatura infantil contra a exploração animal?
As obras literárias, as quais afastam a visão antropocêntrica do mundo, podem colaborar para a construção de conhecimento da criança, no sentido de sua formação, como pessoas críticas diante da atual condição dos animais e de todo o habitat de vida na Terra. O estímulo à empatia, ao afeto, à compaixão, e principalmente ao respeito e à consideração ética em relação aos animais não humanos são parâmetros para que a literatura infantil se torne uma ferramenta pedagógica primordial para o processo educativo de todas as crianças. Uma sociedade que maltrata animais, considerando-os como mercadoria e propriedade será sempre opressora e violenta, em facetas diversas, tanto com os animais não humanos quanto conosco, humanos.
Quais são os predicados de um bom livro para sensibilizar crianças em relação aos direitos animais?
Primeiramente, afastar a perspectiva antropomórfica e zoomórfica sobre os animais não humanos. Os personagens animais não estão para falarem das qualidades e dos defeitos humanos, mas retratarem suas próprias histórias e desejos, como sujeitos morais. Estimular a empatia, o respeito, a afetividade e a consideração pelos sentimentos dos animais. De preferência, livros de fácil manuseio e ilustrados.
Entre a idealização e a conclusão do livro foi preciso bastante tempo?
A ideia surgiu em 2015. Em seguida, o Paulo Roberto Drummond iniciou a escrita dos contos, e em 2016 a Daniela Benite, começou o trabalho com as ilustrações. Em 2017, entramos com uma campanha de crowdfunding [financiamento coletivo] e ao final do ano enviamos o material para a gráfica.
Houve alguma dificuldade nesse processo?
Muita. Não tínhamos verba. Então foi uma luta insana, dia e noite, trabalhando na campanha de crowdfunding. A Marcya Harco teve um problema de saúde e precisou ser internada durante um mês, em razão de uma hérnia de disco extrusa. Nesse tempo, apesar da dificuldade em se locomover, ela levou o seu notebook e realizou a diagramação dos livros no hospital mesmo. Ao final, não arrecadamos o que pretendíamos, mas conseguimos produzir uma quantidade modesta da coleção.
Como tem sido a receptividade?
Incrível! Modéstia à parte, as pessoas que adquiriram os livros têm elogiado muito as histórias, as ilustrações e o projeto em si. Comentam sobre a boa receptividade e o encantamento das crianças pelos contos. Estamos muito felizes por isso.
Os livros já têm sido utilizados em escolas?
Tivemos uma reunião em São Paulo com os dirigentes da primeira escola vegana do Brasil, a Nativa Escola, localizada em João Pessoa [Paraíba]. A escola vai adotar a coleção PAZ como material pedagógico para crianças do ensino infantil e fundamental I. Algumas professoras da rede pública, que apoiam o veganismo, adquiriram os livros para leitura em sala de aula.
Vocês têm maior predileção por algum dos contos em específico?
Não temos um livro predileto. São histórias lúdicas, às vezes poéticas, de aventuras, de personagens, animais e pessoas [crianças e adultos], que lutam para um mundo ético, sem violência, sem escravidão, com paz, compaixão e libertação para todos. Cada livro tem um valor intrínseco.
Consideram difícil a publicação de livros com temática vegana no Brasil?
Olha, como fizemos um projeto autônomo, não pesquisamos muito essa questão. Mas imaginamos que não deva ser muito fácil ainda. A ideia da coleção surgiu dentro de um projeto que estávamos iniciando, que é o projeto PAZ – Pessoas e Animais, AmiZades Legais. Ela nasceu como primeira realização desse projeto, que tem o objetivo de fomentar e reverberar ações que difundam as inter-relações positivas, que já existem pelo mundo, entre pessoas humanas e pessoas animais. Isso no foco, principalmente, dos animais que são violentamente explorados. Queremos dizer: “Olha, você ainda come o porco, mas veja esse porco aqui. Ele tem um amigo humano que respeita a sua vida e o seu modo de ser.” Acreditamos que ações como essa também possam colaborar no convencimento, no esclarecimento, já que, se formos pensar em Kant, o veganismo não poderia ser uma espécie de adeus a menoridade do indivíduo?
Há previsão de novas parcerias e publicação de mais livros?
Estamos em busca de parceiros para uma nova edição da coleção atual. Também estamos planejando uma outra coleção de livros para mais adiante. Já nos sugeriram procurar editoras, mas aí a coleção, de cuja venda queremos gerar recurso para financiar outras atividades do projeto PAZ, deixará de oferecer essa oportunidade. Uma vez que só conseguiríamos receber 10% do que for arrecadado. Por isso, estamos pensando em uma forma de produzir, por exemplo, uma tiragem de mil exemplares da coleção. Dessas mil coleções, uma boa parte seria distribuída para as crianças, ONGs, instituições e escolas de baixa renda, e a outra parte fomentaria outras ações do PAZ.
Falem um pouco também do trabalho de vocês com a arte como instrumento de reflexão sobre o respeito à vida animal não humana. Sei que, para além da literatura, vocês também trabalham com teatro e intervenções artísticas voltadas para essa conscientização.
A arte é uma expressão sensível e habilidosa de uma experiência estética, que por via sensorial, altera a percepção ao nosso redor, provocando a desautomatização do cotidiano. O ato artístico não deve ser apenas uma informação. É necessário que se proponha uma experiência ou vivência. A obra artística deve tocar as pessoas no campo da sensibilidade, estimulando-as a se colocarem diante da sociedade de forma mais ativa, consciente e crítica. Mas, como podemos fazer uma arte em que o espectador passe do papel de contemplador passivo para ativo? É preciso que a arte proporcione uma experiência. Sem experiência, não há sensibilização nem reflexão e muito menos incitará uma transformação.
Por isso, desde 2014 realizamos ações de artivismo em defesa dos animais. Trabalhamos com teatro e frequentemente realizamos atividades artísticas dirigidas às crianças, por meio de apresentações teatrais e oficinas pedagógicas. Pensamos que uma educação consciente, a qual prioriza o respeito pela vida, seja a base para proporcionar um mundo de paz. Buscamos realizar ações de artivismo (arte + ativismo) por meio de linguagens diversas, como cenas teatrais, performances visuais, poesia, narração de histórias, literatura, entre outras. Nossas ações artísticas têm como objetivo propor experiências que possibilitem o despertar da empatia e da consciência afetiva das pessoas, com o intuito de impulsionar ações que modifiquem a atual realidade especista, violenta e absurdamente injusta, as quais os animais não humanos são subjugados e agredidos. Transformações no âmbito do veganismo, visto que este é o único caminho real em direção a libertação e reconhecimento dos animais não humanos como seres morais e de direitos. Para tanto, as experiências e fruições artísticas têm que ser significativas.
Os seis livros veganos que compõem a coleção estão à venda na lojinha do Projeto PAZ:
http://pazpessoaseanimais.com/#!lojinha
Você também pode acompanhá-los no Facebook:
Alguém diz: “Não quero mais ser chamado de vegano”
Acredito que o amor aos animais não é prioritário na consideração ao direito à vida não humana, mas sim o respeito
Minha linha de pensamento em relação aos animais é semelhante a do J.M. Coetzee. Acredito que o amor aos animais não é prioritário na consideração ao direito à vida não humana, mas sim o respeito. O respeito sim deve ser uma premissa básica. Acho um erro muito grande quando restringimos o discurso em favor dos animais ao amor, até por uma questão óbvia – nem todas as pessoas amam os animais.
E devo condená-las por isso? De modo algum. Muitas pessoas desgostam de outras, mas nem por isso fazem algo contra elas. E por que? Porque em primeiro lugar deve prevalecer o respeito. Outras formas de exploração não chegaram ao fim por causa de amor.
Essa é a realidade do mundo não romanesco em que vivemos. Veganos não precisam amar animais; não precisam tutelar animais, nem mesmo conviver com os animais. O primeiro e mais importante passo é entender que não temos o direito de interferir negativamente em suas vidas. Se uma pessoa cumpre esse papel, ela já está contribuindo.
Entendo também que o meu trabalho não é o trabalho do outro, assim como o dele não é o meu. Cada um cumpre o seu papel de acordo com suas características e potencialidades. Sempre fui a favor da diplomacia. Esse é o meu perfil, e não abro mão dele.
Não tenho interesse em ofender pessoas, xingá-las, independente da circunstância, porque pra mim é perda de tempo. E sei que à medida em que apelo as chances do outro me ouvir diminuem consideravelmente. Claro, você pode discordar, mas siga o seu caminho que eu sigo o meu.


