David Arioch – Jornalismo Cultural

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Bukowski: “Não vou deixar muito, só algo para ler, quem sabe”

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“Depois que eu partir, haverá mais dias para os outros, outros dias, outras noites, cães caminhando…”

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Bukowski: “O mundo tinha falhado com nós dois” (Foto: Reprodução)

Após publicar mais de 50 livros de poesia e prosa ao longo de meio século, Charles Bukowski se tornou o Grand Old Man da literatura marginal dos Estados Unidos. Abordando a rotina dos trabalhadores de colarinho azul e a realidade das áreas urbanas mais pobres de Los Angeles, habitadas por andarilhos, mendigos, usuários de drogas e outros tipos de rejeitados sociais, ele mergulhou em um universo onde homens de mau hálito e pés grandes parecem sapos e hienas. Eles caminham como se a melodia nunca tivesse sido inventada, e ao final ainda são execrados.

Depois de ser mandado ao inferno, Bukowski observava os braços gordos e suados do senhorio exigindo o pagamento do aluguel. “O mundo tinha falhado com nós dois”, escreveu. O jeito era abrir uma nova garrafa retirada da sacola enquanto ela se sentava na esquina fumando e tossindo como uma velha tia de Nova Jersey. Nos anos 1970, a vida de Charles Bukowski mudou.

Fez várias aparições com Allen Ginsberg e Lawrence Ferlinghetti. Deu entrevistas à Rolling Stone e todas as suas leituras pela Europa estavam com ingressos esgotados. Ele trocou as duas caixinhas de seis unidades de cerveja por quatro garrafas de bom vinho francês. Assim que sua história deu origem ao filme Barfly, de 1987, protagonizado por Mickey Rourke, com direção de Barbet Schroeder e roteiro do próprio Bukowski, ele se distanciou ainda mais da miserável realidade que o acompanhou por tanto tempo.

O seu deteriorado fusquinha 1967, com o qual viveu tantas aventuras, inclusive um dia sua namorada fez um furo no para-brisas com o salto, foi substituído por um novo BMW com teto solar. Em seus tempos de bebedeira, Bukowski deixava os atendentes baterem nele em troca de bebidas. Em 1992, com tuberculose, câncer e sentindo o peso da idade, foi convencido por sua esposa a experimentar uma das chamadas curas da nova era. Mesmo aceitando tudo, Bukowski não deixava de ser irônico.

Um dia, às 8h, enquanto estava sentado nu e sua esposa passava óleo de gergelim pelo seu corpo, o Grand Old Man comentou: “Jesus, como cheguei a esse ponto?” Mesmo na iminência da morte, sua mulher prosseguiu tentando purificá-lo. E pra isso contou com alguns monges budistas que conduziram o serviço. O seu bom humor o acompanhou até o fim.

“Depois que eu partir, haverá mais dias para os outros, outros dias, outras noites, cães caminhando, árvores balançando com o vento. Não vou deixar muito, só algo para ler, quem sabe. Uma cebola selvagem numa estrada eviscerada. Paris no escuro”, escreveu antes do último suspiro. Ele pediu que colocassem em seu túmulo a inscrição: ‘Don’t Try’ [Não tente]. Bom, a interpretação vai até onde a sua mente te conduz.

Saiba Mais

Charles Bukowski nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920 e faleceu em 9 de março de 1994 em San Pedro, Los Angeles.

Referências

http://www.todayinliterature.com/
http://bukowski.net/

Miles, Barry. Charles Bukowski. Random House (2009).

Como trocar a faca pelo garfo

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Documentário mostra como a dieta vegetariana tem transformado vidas

Com o lema “Que o seu alimento seja o seu remédio”, Forks Over Knives segue na mesma linha de documentários como Super Size Me (Arte: Divulgação)

Com o lema “Que o seu alimento seja o seu remédio”, Forks Over Knives surpreende pela riqueza de informações (Arte: Divulgação)

Lançado em 2011, Forks Over Knives, conhecido no Brasil como Troque a Faca pelo Garfo, é um documentário contundente e muito bem embasado, produzido pelo jornalista estadunidense Lee Fulkerson. Na obra, o espectador é convidado a conhecer as grandes transformações que uma dieta vegetariana proporcionou na vida de muitas pessoas com doenças graves, algumas até mesmo desenganadas pelos médicos. E mais, mostra como a indústria de produtos de origem animal é capaz de manipular a política a seu favor, atribuindo a esses alimentos qualidades que fazem a população acreditar que eles são insubstituíveis, quando na realidade não são.

Com o lema “Que o seu alimento seja o seu remédio”, inspirado em Hipócrates, Forks Over Knives segue na mesma linha intimista de documentários como Super Size Me, de 2004, ou seja, um filme em que o realizador participa como personagem. Fulkerson é um homem com sobrepeso que descobre que possui inúmeros problemas de saúde em decorrência de seus maus hábitos alimentares. Como muitos ocidentais, tem uma alimentação rica em produtos industrializados – principalmente carboidratos ruins, carnes e laticínios.

Fulkerson é um homem com sobrepeso que descobre que possui inúmeros problemas de saúde

Fulkerson é um homem com sobrepeso que descobre que possui inúmeros problemas de saúde (Foto: Divulgação)

Com o iminente risco de contrair doença arterial coronariana, o jornalista aceita o desafio de participar de um programa de reeducação alimentar baseado em uma dieta vegetariana. Em um mês, ele começa a perceber mudanças positivas. O mesmo acontece com muitas outras pessoas que participam do desafio proposto por profissionais como o cientista e bioquímico P.H.D. em nutrição T. Colin Campbell, o cardiologista Caldwell Esselstyn e o médico John McDougall, profissionais que se tornaram grandes autoridades do assunto nos Estados Unidos.

Para endossar os benefícios da dieta vegetariana, o documentário apresenta pesquisas realizadas nos Estados Unidos e na Ásia, trazendo informações alarmantes sobre a relação entre doenças e o grande consumo de carne e laticínios. Talvez um dos casos mais emblemáticos dos benefícios da dieta vegetariana seja o de uma atleta que após os 40 anos descobriu que tinha câncer de mama estado em avançado, atingindo os ossos e os pulmões.

Campbell deixa claro que isso é mito e que é possível sim encontrar em plantas, frutas e grãos tudo que o corpo humano precisa (Foto: Divulgação)

Campbell deixa claro que isso é mito e que é possível sim encontrar em plantas, frutas e grãos tudo que o corpo humano precisa (Foto: Divulgação)

Sem se deixar abater, ela adotou a dieta vegetariana e continuou praticando atividades físicas com a mesma intensidade, até que o câncer desapareceu, sem recidiva mesmo após décadas. Outros grandes exemplos são de homens e mulheres que se livraram do diabetes e de outras doenças que exigiam consumo regular de medicamentos. E tudo isso porque encontraram na dieta vegetariana a quantidade necessária de macro e micronutrientes que precisavam para ter uma vida realmente saudável.

Questionado sobre a deficiência de proteínas na alimentação vegetariana, Campbell deixa claro que isso é mito e que é possível sim encontrar em plantas, frutas e grãos tudo que o corpo humano precisa. A economia gerada pelo não consumo de produtos industrializados, carboidratos de baixa qualidade, carnes e laticínios também é outro ponto a se considerar, já que quem segue esse tipo de dieta acaba investindo em mais diversidade de alta qualidade.

Como trocar a faca pelo garfo - 04

Esselstyn, um cardiologista que acredita que a alimentação vegetariana é mais poderosa que qualquer remédio (Foto: Divulgação)

Forks Over Knives desvela que a chamada dieta ocidental, rica em carboidratos ruins e grandes quantidades de carnes e lácteos também invadiu a Ásia no período pós-moderno. Enquanto as populações das pequenas cidades e vilarejos preservavam os mesmos hábitos por gerações, os moradores dos grandes centros urbanos foram seduzidos pela praticidade do fast food e pelos excessos no consumo de carne e laticínios.

Através de pesquisa, T. Colin Campbell e outros pesquisadores descobriram que muitos chineses que seguiam uma dieta vegetariana continuavam totalmente saudáveis após os 90 anos. Surpreendente também é o depoimento do homem que possuía 27 problemas de saúde e após adotar o vegetarianismo conseguiu eliminar 26.

O triatleta Rip Esselstyn, inspirado pelo pai, mudou a vida dos bombeiros de um batalhão do Texas depois que entrou para a corporação. E tudo isso sem qualquer imposição, somente mostrando os benefícios práticos do vegetarianismo na vida de colegas de trabalho com altos níveis de mau colesterol. Logo todos concordaram com a inclusão de um cardápio vegetariano. Outros atletas, incluindo um boxeador, também dão depoimentos endossando os benefícios desse estilo de vida. Citam melhor rendimento, melhor recuperação, mais disposição e refutam a afirmação de que há deficiência proteica na alimentação.

Revelador também é o fato de que T. Colin Campbell perdeu espaço em uma das universidades mais prestigiadas dos Estados Unidos por causa do seu posicionamento. A instituição sofreu pressão de uma multinacional do ramo de laticínios e eles optaram por dispensar o cientista. A falácia de que o leite é o alimento mais rico em cálcio é apontada por Campbell como um fator cultural que atravessa décadas e justamente porque as grandes indústrias tiveram sucesso em disseminá-la.

Forks Over Knives prova que direta ou indiretamente os maiores produtores de carnes e lácteos controlam até mesmo o que a população consome nas escolas, em repartições públicas e nas empresas. Ou seja, a influência da indústria é tão grande que foi legitimada como se fosse uma prática aceitável, em prol de um bem maior.

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Quando William Faulkner trabalhou em Hollywood

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O escritor só reapareceu depois de nove dias, confidenciando que vagou pelo Vale da Morte

Entre idas e vindas, o escritor trabalhou em Hollywood ao longo de 30 anos (Cortesia de Robert Hamblin, Center for Faulkner Studies, Southeast Missouri State University)

Entre idas e vindas, o escritor trabalhou em Hollywood ao longo de 20 anos (Cortesia de Robert Hamblin, Center for Faulkner Studies, Southeast Missouri State University)

Em 7 de maio de 1932, William Faulkner chegou a Hollywood para atuar como roteirista, um trabalho que entre idas e vindas durou 20 anos. Na época o escritor estadunidense estava com apenas 34 anos e já tinha publicado quatro de suas novelas baseadas no Condado de Yoknapatawpha, incluindo The Sound and the Fury (O Som e a Fúria) e As I Lay Dying (Enquanto Agonizo).

Embora ainda estivesse distante de se tornar popular, Faulkner foi considerado por seus pares como o mais talentoso dos jovens escritores dos Estados Unidos. Àquela altura, ele tinha vivido a maior parte de sua vida em Oxford, Mississippi, e recentemente havia se casado e comprado a velha mansão Rowan Oak, de inspiração neogrega e construída antes da Guerra de Secessão.

Faulkner não era um homem sociável, nem gostava de trabalhar em equipe. O que o fez aceitar o contrato de 500 dólares por semana oferecido pela MGM foi uma experiência que ele teve em uma loja de artigos esportivos, onde o balconista se recusou a receber um cheque dele no valor de três dólares.

Depois que o escritor alegou que sua assinatura ainda valeria mais do que isso, o dono da loja se aproximou e disse a toda a sua equipe para não permitir que o jovem Faulkner pagasse por nenhum artigo que o interessasse. De acordo com o biógrafo Joseph Blotner, os primeiros dias de Faulkner em Hollywood foram incríveis.

Faulkner: "“Você deveria se envergonhar por não ter um cão, assim como todos aqueles que não têm um" (Foto: Reprodução)

Faulkner: “Você deveria se envergonhar por não ter um cão, assim como todos aqueles que não têm um” (Foto: Reprodução)

Em um sábado, ele se aproximou do seu chefe, Sam Marx, e o homem logo percebeu que o escritor cheirava a álcool e tinha um corte na cabeça. Então Faulkner explicou que ele foi atingido por um táxi quando estava trocando de trem em Nova Orleans. Apesar de tudo, justificou que se sentia bem e queria começar o seu trabalho corretamente.

“Nós vamos colocá-lo em uma foto com o Wallace Beery”, disse Marx. Confuso, Faulkner perguntou quem era o sujeito. “Eu tenho uma ideia de quem seja o Mickey Mouse”, comentou o escritor, recebendo a explicação de que os filmes do Mickey Mouse são feitos nos estúdios da Disney.

Em seguida, Sam Marx pediu que o seu office boy levasse Faulkner até a sala de projeção para ver Beery atuando como um pugilista em The Champ, de King Vidor, e no recente Flesh, de John Ford, em que Wallace interpreta um lutador alemão. Faulkner se recusou a assisti-los e preferiu bater um papo com o office boy.

Quando o escritor perguntou se o garoto tinha um cachorro, ele respondeu que não. Faulkner estranhou e enfatizou que todo garoto deveria ter um cão. “Você deveria se envergonhar por não ter um cão, assim como todos aqueles que não têm um”, insistiu. Sem muita demora, Faulkner saiu da sala de projeção justificando que sabia o final da história.

Quando Marx foi informado que o escritor já tinha saído do estúdio, ele iniciou uma busca sem sucesso. William Faulkner só reapareceu depois de nove dias, confidenciando que vagou pelo Vale da Morte. “Mas agora já estou pronto para o trabalho”, garantiu.

A atuação de Faulkner como roteirista incluiu também adaptações de To Have and Have Not (Uma Aventura na Martinica), de Ernest Hemingway, e The Big Sleep (À Beira do Abismo), de Raymond Chandler. Muitos aspectos de sua vida em Hollywood foram incorporados ao filme Barton Fink, dos Irmãos Coen, lançado em 1991.

No outono, o escritor retornou para sua casa em Oxford, Mississippi, onde corrigiu as provas tipográficas do seu novo romance gótico sulista – Light in August (Luz em Agosto) enquanto comia melancia e assistia a chuva caindo ao redor da varanda. Com o dinheiro que ganhou da MGM, fez importantes reparos na mansão Rowan Oak.

Referências

http://www.todayinliterature.com/

Blotner, Joseph. Faulkner: A Biography. New York: Random House, 1974.

Blotner, Joseph. Faulkner: A Biography. New York: Random House, 1984.

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H.P. Lovecraft e o racismo

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“O racismo de Lovecraft é um elemento-chave para a compreensão do mundo que ele criou”

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S.T. Joshi: “Não nego que ele era racista, mas naquele tempo todo mundo era” (Foto: Reprodução)

Cresci lendo obras do escritor estadunidense Howard Phillips Lovecraft, um dos grandes nomes da literatura de horror e fantasia. Com a chegada da maturidade, comecei a ter uma nova percepção sobre seus livros. Em síntese, percebi por intermédio experiência que não é a mesma coisa ler na adolescência e depois na fase adulta obras como “Herbert West–Reanimator”, “The Call of Cthulhu”, “The Silver Key”, “The Case of Charles Dexter Ward”, “The Dunwich Horror” e “At the Mountains of Madness”, só para citar as mais conhecidas.

É uma constatação natural, levando em conta a versatilidade autoral do escritor, hoje considerado um ícone pop da hipermodernidade que influenciou não apenas escritores e colocou em evidência um novo filão literário, mas também inspirou centenas de filmes, dezenas de séries de TV e milhares de compositores mundo afora, principalmente de bandas de rock e heavy metal.

Porém, há um lado obscuro de H.P. Lovecraft que muita gente desconhece, inclusive fãs que não se aprofundaram muito em seu trabalho. E não falo de nada relacionado a horror ou fantasia. Me refiro ao fato do escritor ser apontado como racista, embora isso seja pouco divulgado sob a justificativa de não acrescentar nem subtrair nada de sua literatura.

Contudo, no ensaio “The Genetics of Horror: Sex and Racism in H. P. Lovecraft’s Fiction”, o escritor Bruce Lord refuta essa afirmação reverberada pelos defensores mais radicais do escritor. “O racismo de Lovecraft é um elemento-chave para a compreensão do seu trabalho e do mundo que ele criou”, informa.

Ele tem razão. Histórias famosas como “The Street” e “The Horror at Red Hook” dão mostras categóricas de discriminação racial e isso não tem nada a ver com a defesa do politicamente correto. São apenas exemplos de que escritores também revelam em menor ou maior proporção os seus preconceitos e pré-conceitos em obras que se tornaram icônicas quando falamos de literatura mundial.

Histórias famosas como “The Street” e “The Horror at Red Hook” dão mostras categóricas de discriminação racial (Arte: Francesco Francavilla)

Histórias famosas como “The Street” e “The Horror at Red Hook” dão mostras categóricas de discriminação racial (Arte: Francesco Francavilla)

No caso de Lovecraft, o escritor indiano S.T. Joshi, que escreveu sua biografia, diz que é preciso levar em conta o contexto da época. “Não nego que ele era racista, mas naquele tempo todo mundo era”, declara. Contudo, Joshi ignora o fato de que nessa época nos Estados Unidos já havia escritores e antropólogos que usavam a ciência como principal instrumento de combate ao racismo. Dois nomes que merecem ser citados são Franz Boas e Bronisław Malinowski.

Em “The Horror at Red Hook”, Lovecraft apresenta o detetive Thomas F. Malone, um sujeito sensível e com muita imaginação. Quando sai às ruas e observa pessoas de pele escura, ele vê as mais diversas formas do horror. Quem não lê o livro com atenção, pode julgar que o fato de serem negros ou imigrantes não passa de uma casualidade, mas há fontes que provam o contrário.

Sonia Greene, que foi esposa do escritor, confidenciou anos mais tarde que, quando Lovecraft se mudou para Nova York, ele logo deixou claro o quanto era xenofóbico. “Sempre que andávamos em meio à multidão e nos deparávamos com pessoas das mais diferentes raças [etnias], uma característica comum de Nova York, ele ficava lívido de raiva e quase perdia a cabeça”, enfatizou.

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Críticos viram no racismo de Lovecraft um tipo de ausência de amor próprio e até mesmo ódio de si mesmo (Foto: Reprodução)

No conto “The Rats in the Walls”, de 1923, o gato do protagonista se chama Nigger Man. O nome pejorativo foi trocado em 1950 pela revista Zest Magazine que o nomeou como Black Tom, visando minimizar controvérsias. Em “The Shadow Over Innsmouth”, de 1931, considerado um de seus melhores trabalhos, Lovecraft mostra um personagem que sente repulsão pelos moradores de Innsmouth, assim trazendo um traço biográfico do seu próprio sentimento diante da heterogeneidade de Nova York. O mesmo desprezo veio à tona em 1925, no conto “The Horror at Red Hook”, baseado em suas impressões negativas da população do Brooklyn Heights.

Na biografia “H.P. Lovecraft: A Life by S. T. Joshi”, o escritor indiano declara que Lovecraft simpatizava com hispânicos e judeus, entretanto não sentia o mesmo por irlandeses, alemães e afro-americanos. Por outro lado, há frases em que Lovecraft se posiciona como um antissemita. “Na Polônia e em Nova York, os judeus são de uma estirpe inferior e tão numerosos que seria essencial a mudança do seu tipo físico”, escreveu em uma carta com data de 13 de junho de 1936. De qualquer modo, como os Estados Unidos são uma nação construída por imigrantes é no mínimo paradoxal essa inclinação do autor.

Críticos viram no racismo de Lovecraft um tipo de ausência de amor próprio e até mesmo ódio de si mesmo pela sua condição física fragilizada. Há quem diga que ele se sentia intimidado pela fisicalidade de muitos imigrantes, e isso o tornava odioso e amargo. “O negro é muito inferior. Não pode haver nenhuma dúvida sobre isso, nem mesmo entre os biólogos contemporâneos mais sentimentalistas. Também é um fato que teremos um problema legítimo e muito grave se os negros passarem a ser vistos como iguais aos brancos”, registrou em uma carta escrita em janeiro de 1931.

Um dos autores mais respeitados da literatura de horror do século 20, H.P. Lovecraft influenciou outros importantes nomes da literatura mundial, como o escritor argentino Jorge Luis Borges, William S. Burroughs e Stephen King, além de cineastas famosos como John Carpenter e o mexicano Guillermo del Toro. Sua popularidade cresceu mais ainda com o advento da internet e a divulgação de suas obras em meio digital.

Saiba Mais

Quando a escritora estadunidense Nnedi Okorafor, autora do livro “Who Fears Death”, de 2010, venceu o prêmio World Fantasy Award (WFA) em 2011, ela escreveu um texto sobre o seu desconforto em receber um troféu com o busto de H.P. Lovecraft, logo após uma amiga mostrar-lhe um poema racista escrito por ele em 1912. O episódio também inspirou o escritor estadunidense Daniel Jose Older a criar uma petição pedindo aos organizadores do WFA para substituírem o busto de Lovecraft pelo da escritora Octavia Butler, importante nome da literatura de ficção científica dos Estados Unidos.

Referências

The Genetics of Horror: Sex and Racism in H. P. Lovecraft’s Fiction, Bruce Lord.

Lovecraft Letters Vol. 2, p. 27; quoted in Peter Cannon, “Introduction”, More Annotated Lovecraft, p. 5., 1968.

H.P. Lovecraft: Four Decades of Criticism by S. T. Joshi – Ohio University Press, 1980.

H.P. Lovecraft: A Life by S. T. Joshi Necronomicon Press, 1996.

From New Nation, David Riley, No. 4, p. 20-21, 1983.  

The Racial World – View of H.P. Lovecraft, No. 2, by A. Trumbo, 2002.

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Edna Ferber e a força feminina

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Edna Ferber, literatura sobre mulheres à frente do tempo (Foto: Reprodução)

Para quem gosta de literatura baseada em histórias de mulheres à frente do seu tempo, recomendo as obras da escritora estadunidense Edna Ferber, autora que até hoje ocupa posição de destaque na literatura norte-americana. Um bom começo é o romance “Cimarron”, de 1929, que se pauta no desbravamento do estado de Oklahoma.

A princípio, a história gira em torno de Yancey Cravat, um sujeito aventureiro, idealista e com um ferino senso de justiça social que se muda com a família para uma nova área de colonização. Cravat é um personagem intrigante que cria um jornal com a intenção de fazer justiça usando palavras, mesmo que isso custe perder anunciantes e conquistar inimizades.

Mais tarde, enfastiado por um futuro que ele não desejava, decide partir novamente para desbravar uma nova área. Dessa vez, sua mulher, Sabra Cravat, decide não ir com ele, assumindo a direção do jornal e também atuando como jornalista, assim dando início a uma geração de mulheres fortes, corajosas e independentes que começam a ocupar posições de destaque em uma sociedade até então formada somente por lideranças masculinas.

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Sobre Adolf Hitler e Josef Stalin

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Hitler e Stalin, dois dos maiores genocidas da história mundial (Arquivo: Getty Images)

Há pesquisadores que afirmam que Adolf Hitler foi o responsável pela morte de 17 milhões de pessoas durante o regime nazista. Josef Stalin foi além, sendo responsabilizado pela morte de 23 milhões de pessoas, o que significa claramente que ele superou Hitler. No entanto, Hitler comandou a Alemanha por 11 anos e Stalin liderou a União Soviética por 29 anos. Embora tenham sido dois genocidas, os fatores de comparação não costumam ser os mesmos.

Inclusive historicamente a influência de Stalin no mundo foi muito maior do que a de Hitler, endossada pelos Estados Unidos até o início da década de 1950, quando a Guerra Fria abriu espaço para o surgimento do macartismo, o período de caça às bruxas, permitindo que os EUA investissem maciçamente em propaganda e espionagem com a intenção de desqualificar outras formas de governo. Mas tudo isso não com a intenção de buscar paz ou justiça, mas tão somente desestabilizar economias estrangeiras que pudessem oferecer algum tipo de risco à hegemonia estadunidense.

Written by David Arioch

April 20th, 2016 at 1:31 pm

Insane Clown Posse e a mitologia da violência nos guetos

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“Criamos o Dark Carnival para que as pessoas entendam o peso de suas ações”

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Shaggy 2 Dope e Violent J, criadores da mitologia Dark Carnival (Foto: Divulgação)

Fundado em 1989 por Violent J (Joseph Bruce) e Shaggy 2 Dope (Joseph Utsler), o duo de horrorcore Insane Clown Posse, de Detroit, nos Estados Unidos, se popularizou nos anos 1990 por misturar rock e hip-hop, criando um estilo autoral que influenciou músicos e bandas de vários gêneros dentro e fora dos EUA. O que mais chama atenção no trabalho do ICP é que eles são praticamente os únicos a difundirem o horrorcore além do cenário alternativo norte-americano.

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O Insane Clown Posse já lançou 13 álbuns ao longo da carreira (Foto: Divulgação)

A maior parte das músicas do Insane Clown Posse têm relação com o Dark Carnival, uma curiosa mitologia autoral que se baseia na ideia de que as almas das pessoas são enviadas ao limbo, onde aguardam seu destino: céu ou inferno. Para onde cada um vai é determinado pelas suas ações individuais. Entre as músicas apontadas como as mais clássicas do duo estão “The Great Milenko”, “Hokus Pokus”, “The Neden Game”, “Halls of Illusions”, “Boogie Woogie Wu”, “What is a Juggalo?” e “Tilt-A-Whirl”.

Em 2000, quando Violent J estava viajando de Cleveland para Detroit, ele parou em um posto de combustíveis e comprou uma fita K7 com a música “Let’s Go All the Way”, do duo de new wave Sly Fox, de Miami, na Flórida. Joseph Bruce gostou tanto do som que quis regravá-lo. E o resultado foi que a nova versão entrou para a lista de melhores do Insane Clown Posse. Disponibilizada no YouTube em 2007, ultrapassou mais de quatro milhões de visualizações e agradou até quem não simpatizava com o trabalho do ICP.

Ao longo da carreira, o duo já lançou 13 álbuns. O primeiro e que marcou a criação do Dark Carnival foi o “Carnival of Carnage” que usa a mitologia como uma representação da violência dentro dos guetos dos Estados Unidos. E não somente isso. A partir de satíricas críticas sociais, o duo criou um cenário de carnaval itinerante onde a brutal realidade da periferia também é levada para os bairros de classe alta, como desdobramento da miséria e da indiligência. Sendo assim, nas letras do ICP, a violência se desenvolve como prognóstico de um caos mais do que iminente e financiado pelas esferas mais altas do poder.

Duo criou um cenário de carnaval itinerante onde a brutal realidade da periferia também é levada para os bairros de classe alta (Foto: Divulgação)

Duo criou um cenário de carnaval itinerante onde a brutal realidade da periferia também é levada para os bairros de classe alta (Foto: Divulgação)

No início da década de 1990, Violent J e Shaggy 2 Dope desenvolveram um conceito intitulado “Joker’s Cards” que abrange os álbuns “Carnival of Carnage”, de 1992; “The Ringmaster”, de 1994; “The Riddle Box”, de 1995; “The Great Milenko”, de 1997; “The Amazing Jeckel Brothers”, de 1999; “Bang! Pow! Boom!”, de 2009; “The Mighty Death Pop!”, de 2012; e “The Marvelous Missing Link: Lost”, de 2015.

As cartas do Coringa (Joker’s Cards) são enviadas como aviso pelo Insane Clown Posse aos representantes das classes mais altas e também aos políticos que ignoram os apelos das classes baixas. “Nós a entregamos a quem ignora os gritos das cidades. Cada uma das nossas cartas têm um papel específico dentro do Dark Carnival. Falamos da maldade cotidiana para que as pessoas entendam a importância de salvar a alma humana”, explicam Bruce e Utsler.

O conteúdo pesado das letras já chamou a atenção de muitos jornalistas e críticos que apontaram o duo como um paradoxo em essência, já que o ICP tenta ser espiritualista ao mesmo tempo que aborda a violência sem ressalvas. “Sobre isso, só posso dizer que o mais importante é falar a língua das ruas. Tentamos soar interessante para o público, nos aproximando da realidade deles e ganhando sua confiança. Se você é uma pessoa das ruas, é claro que você tem que trilhar esse caminho. Criamos o Dark Carnival para que as pessoas entendam o peso de suas ações”, argumentam.

Conhecidos como juggalos, os fãs do Insane Clown Posse possuem expressões, gírias e costumes bem próprios, tanto na forma de agir quanto de se vestir, como se fizessem parte de uma tribo. E todos os anos milhares de fãs se reúnem no The Gathering, inicialmente sediado em Cave-In-Rock, Illinois, e atualmente em Thornville, Ohio. O evento realizado pelo duo através da Psychopathic Records tem o apoio de astros do rap e do cinema como Ice Cube, Coolio, Vanilla Ice, MC Hammer, Busta Rhymes e Charlie Sheen, além de bandas como Cypress Hill, Drowning Pool, Gwar, Fear Factory, Cannibal Corpse, Andrew W.K., Soulfly e Mushroomhead.

Cover que rendeu mais popularidade ao duo:

 

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Baikal, a reação soviética à Coca-Cola

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Uma das versões mais recomendadas pelos russos é a do fabricante Chernogolovka†(Foto: Divulgação)

Durante a Guerra Fria, não foi apenas no campo da espionagem e da fabricação de armas que a União Soviética desafiou os Estados Unidos, mas também na produção de alimentos e bebidas capazes de diminuir a influência estadunidense. Um exemplo é o refrigerante Baikal, desenvolvido para ser a reação soviética à Coca-Cola. A ideia não era transformá-lo em um produto de consumo mundial, mas sim de redução da penetração da bebida de origem norte-americana em território russo.

A maior diferença entre o Baikal e a Coca-Cola é que o refrigerante russo é baseado em ingredientes naturais, ervas típicas, e tem um sabor peculiar e original, com leve aroma de pinho. Excetuando alguns ingredientes que variam de acordo com o fabricante, a bebida que começou a ser comercializada em Moscou em 1976 traz louro, erva-de-são-joão, sementes de coentro e raiz de alcaçuz na sua composição. O Baikal também não é tão doce. Na realidade, contém pouco açúcar se comparado à Coca-Cola.

Outra curiosidade é que o nome da bebida de coloração castanha-escura é uma homenagem ao maior lago do mundo, situado na Sibéria. Com o tempo o Baikal se tornou tão popular em algumas regiões da Rússia quanto a vodka. Hoje há uma grande variedade de sabores, inclusive versões alemãs, como é o caso da bebida Vostok. O fotógrafo Joris Van Velzen que trabalhou durante anos em Moscou também criou um novo Baikal.

Há muito tempo no mercado, o refrigerante russo é considerado um bom tônico com propriedades restauradoras relacionadas à adição de Eleutherococcus senticosus, o ginseng siberiano. Embora o ritmo de produção tenha oscilado com o passar dos anos, o Baikal ainda ocupa posição de destaque entre as bebidas carbonatadas mais vendidas na Rússia. Ele só não é indicado para quem sofre de diabetes ou precisa manter um severo controle de ingestão de líquidos. Das versões tradicionais do Baikal, que não possui ingredientes de origem animal nem relação com testes em animais, a mais recomendada pelos russos é a fabricada em Chernogolovka, no óblast de Moscou.

O Baikal pode ser comprado no link abaixo:

http://www.russianfooddirect.com/food/beverage/water-kvas/baikal/

Powerviolence, música de cunho social e politizado

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Show do Capitalist Casualties nos Estados Unidos (Foto: Divulgação)

Show do Capitalist Casualties nos Estados Unidos (Foto: Divulgação)

Importante subgênero da cultura punk, o powerviolence jamais se popularizou no Brasil, ao contrário de países como Estados Unidos, Canadá e Japão, além do continente europeu. Acredito que um dos grandes diferenciais do powerviolence é o fato de ser um dos estilos musicais com maior número de pessoas politizadas ou engajadas em causas sociais – claro que numa avaliação de proporcionalidade. Algumas bandeiras do subgênero nascido nos Estados Unidos são a defesa dos direitos dos animais, humanitarismo e denúncias de problemas urbanos.

Não é música por música ou simplesmente música pela arte. É música pela transformação, pela necessidade de fazer algo. Inclusive o som pancada, que tem um conceito tão literal quanto metafórico, ultrarrápido e conciso é justamente uma referência à necessidade de despertar, refletir por si mesmo – ter uma opinião fundamentada e agir. A ideia é instigar o ouvinte, como se estivesse ao seu lado gritando em seu ouvido.

Do subgênero, uma das bandas mais emblemáticas é o Capitalist Casualties, grupo de Santa Rosa, na Califórnia, que pratica um som cru, breve, alígero e dissonante desde 1986. Na década de 1990 e início dos anos 2000 o powerviolence conquistou boa visibilidade. O que contribuiu muito foi a expansão de fanzines, webzines, gravadoras e revistas independentes. A situação mudou mais tarde com a extinção de festivais e outras iniciativas que ajudavam na divulgação do estilo. Há quem diga que o powerviolence perdeu espaço porque hoje em dia ainda é muito difícil ser autossuficiente no cenário underground.

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Written by David Arioch

April 4th, 2016 at 11:59 pm

Robin Williams e a geração anos 1980

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Williams interpretando Adrian Cronauer no clássico de Barry Levinson (Foto: Reprodução)

Williams interpretando Adrian Cronauer no clássico de Barry Levinson (Foto: Reprodução)

Sobre cinema norte-americano, não posso falar por outras gerações, mas pelo menos a minha – dos anos 1980, consumiu muito do que foi produzido com a participação do ator estadunidense Robin Williams. Antes dele falecer em 11 de agosto de 2014, aos 63 anos, eu estava acompanhando o seu trabalho como o publicitário Simon Roberts na série de TV The Crazy Ones, da CBS, que estreou em 2013. Não tenho dúvida alguma de que o seu nome no cast ajudou a alavancar a popularidade da sitcom antes do lançamento.

Robin Williams se juntou aos grandes nomes do cinema estadunidense depois do filme Good Morning, Vietnam (Bom dia, Vietnã), de Barry Levinson, lançado em 1987. Como eu era pequeno, só fui saber quem era Adrian Cronauer, um de seus grandes papéis, na minha adolescência, embora eu já tivesse um vinil com a música tema do filme. A princípio, conheci o trabalho desse ator singular através de obras como Dead Poets Society (A Sociedade dos Poetas Mortos), The Fisher King (O Pescador de Ilusões), Hook, Mrs. Doubtfire (Uma Babá Quase Perfeita), Toys (A Revolta dos Brinquedos), Jumanji e Patch Adams, não exatamente nesta ordem.

Na infância, tive a oportunidade de assistir Hook no cinema à moda antiga, com direito a lanterninha e mais de mil poltronas. Claro, depois vieram muitos outros filmes de Williams. Sem favoritismos, destaco como os meus preferidos todos aqueles em que ele manifestou mais do que o seu potencial cênico – a sua própria humanidade e sensibilidade. Ficam as boas lembranças.

Written by David Arioch

March 31st, 2016 at 11:01 pm