David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Por que comemos animais?

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Duas indicações de documentários sobre a realidade da exploração animal

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Se fosse para eu indicar apenas dois documentários sobre a conscientização em relação à exploração animal, eu indicaria Reino Pacífico Peaceable Kingdom) e Especismo (Speciesism). Mas por quê?

O primeiro porque tem uma abordagem sensível, mas sem precisar ser tão explícita em relação à violência. E sei que muitas pessoas quando ficam sabendo que um filme é cru em relação a isso, evitam assisti-lo. Além disso, gosto da forma como o filme aborda a senciência, a consciência e ainteligência animal com base em animais criados em santuários. Também discute a transformação na vida desses animais que foram livrados de matadouros e de outras formas de exploração.

O segundo porque tem uma abordagem muito interessante no que diz respeito à questão ética e moral contrária à exploração animal. Apresenta dezenas de referências e discute de forma não passional os motivos pelos quais os animais não merecem morrer. Abre espaço inclusive para contrapontos e depois destaca porque esses contrapontos são equivocados. É um documentário mais fundamentado em discussões do que no impacto audiovisual da violência contra animais, embora também use isso como reforço de tudo que é apresentado.





Written by David Arioch

January 2nd, 2018 at 1:25 pm

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“Warriors” de Sol Yurick e “Anábase” de Xenofonte

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Se você gosta do livro “The Warriors”, do Sol Yurick, ou da adaptação cinematográfica do livro feita pelo Walter Hill, sugiro que leia “Anábase” porque tudo leva a crer que “The Warriors” foi inspirado nessa que é a obra mais famosa de Xenofonte.

Na obra grega, a história se passa antes da era cristã e é protagonizada por soldados, não por violentos membros de gangues. Porém, tanto os soldados de Xenofonte quanto os marginais de Yurick enfrentam uma série de obstáculos para retornarem para casa. Sem dúvida, se ler uma, vale a pena ler a outra.





Written by David Arioch

January 2nd, 2018 at 12:06 am

Reflexão sobre infância e exploração animal

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January 1st, 2018 at 9:20 pm

Retrospectiva 2017 – Será que o ano foi bom para os animais?

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Será que 2017 foi bom para os animais? Matamos mais de 56 bilhões de animais terrestres em 2017, contabilizando apenas os animais executados em matadouros; e mais de um trilhão de animais marinhos, ou seja, sem contar os animais de água doce (Fotos: We Animals/Jo-Anne McArthur/Tommaso Ausili)

Imagine a sensação…

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Foto: We Animals/Jo-Anne McArthur

Imagine a sensação de ter o seu pescoço puxado violentamente por uma corda. Imagine a sensação de carregar cicatrizes pelo corpo que são resultados de violência que membros de outra espécie animal perpetraram contra você simplesmente por diversão.

Imagine a sensação de não viver de acordo com a sua natureza e ainda ter o seu sofrimento exposto para uma multidão. Imagine a sensação de cair no chão, ter a face afundada na terra suja ou na lama e ouvir gritos, berros e risos daqueles que o assistem.

Imagine a sensação de não encontrar empatia por onde quer que você direcione os seus olhos que já não são os mesmos em decorrência da vida que  impuseram-lhe. Imagine em que ponto estaria o seu coração?





Written by David Arioch

December 31st, 2017 at 1:55 pm

Breve reflexão sobre a propaganda que beneficia a exploração animal

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Lequetreque, frango da Sadia que celebra a própria morte.

Neste momento, penso em dois lados da publicidade e propaganda que beneficiam a indústria da exploração animal. De um lado, o investimento maciço feito na propaganda do suposto bem-estar animal e da dissimulação estética. Exemplos clássicos? Embalagens e comerciais com “animais felizes em morrer”.

Do outro, esteado em um contexto histórico e cultural, o endossamento gratuito que parte do sistema educacional por meio de material didático voltado à perpetuação da naturalização da objetificação animal, além de livros infantis que legitimam, romantizam e ajudam a perenizar essa exploração sem propor qualquer questionamento, reflexão ou margem à contrariedade.

Alguns livrinhos enfatizam: “O boi está feliz em morrer para que você possa comê-lo”, “Sim, a galinha existe só para te servir”, “Isso mesmo! Você é superior e pode fazer o que quiser com eles.” Quando reproduzimos e endossamos tais discursos, rejeitamos a realidade concreta e o êthos de nossas ações.

Afinal, aponte-me um animal feliz em ser golpeado no matadouro. Ou mostre-me uma galinha satisfeita em ter uma visa resumida a botar ovos; ou uma vaca se regozijando em dar à luz para brevemente ser privada do convívio com os seus.





Written by David Arioch

December 31st, 2017 at 1:52 pm

Kostolias e a história do jovem que foi preso por ser vegetariano

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“Hernán sempre sentira aversão por carne. Era algo que vinha desde a sua infância” 

Lançado em 2016 pela Editora Jaguatirica, “O Exilado Político Vegetariano” é um romance de Alexandre Kostolias baseado em fatos reais. A obra conta a história de Hernán López, um rapaz de origem humilde, morador de um dos bairros mais pobres de Santa Fé, na Argentina, que é perseguido e preso em janeiro de 1970. O motivo? Hernán é vegetariano.

Uma das vítimas da ditadura argentina, ele é arrastado de dentro da própria casa e jogado dentro de uma cela, sem direito a advogado ou qualquer tipo de intervenção a seu favor – nem mesmo contato com qualquer pessoa que não seja o carrasco “La Bestia”. Para realçar a quimera da situação, somente depois de semanas, quando é interrogado pela primeira vez pelo “Comisario Supervisor”, é que a Polícia da Província de Santa Fé reconhece que não há outro motivo para o rapaz estar preso, a não ser por sua filosofia de vida vegetariana; já que ele não é “comunista” nem “maricón” – considerados crimes na Argentina da época.

Na cela, Hernán mal dorme, pois sabe que sempre às 6h o carrasco “La Bestia” os visita. “O que lhe aconteceria? Só para começar, levaria um choque elétrico com bastão, o mesmo usado para conduzir gado para o abate nos frigoríficos. O pavor de levar choque com bastão atingia Hernán visceralmente: um dos motivos de suas convicções vegetarianas era o horror que lhe causava só de pensar na forma como os animais são abatidos nos matadouros. Era impossível saber o que o aguardava”, relata Kostolias nas páginas 32 e 33.

A recusa de Hernán López em consumir carne é considerada execrável porque o regime político da Argentina de 1970 considerava a pecuária como o maior orgulho econômico do país. E o desprezo de Hernán por essa cultura baseada na morte de animais era vista como uma atitude antipatriótica, passível de punição.

“Todos tinham muito orgulho da carne de Santa Fé. Bem, quase todos. Hernán López detestava carne. Pertencia a uma categoria de gente sobre a qual, naquelas bandas, pesavam muitas suspeitas, mas poucas informações: os vegetarianos. Hernán sempre sentira aversão por carne. Era algo que vinha desde a sua infância. Os bifes que o obrigavam a comer eram ingeridos com muita dificuldade, lhe causavam náuseas”, narra o autor na página 40.

Por ser vegetariano, os problemas de Hernán surgiram muito cedo. Os primeiros atritos foram com o pai Juan, um homem violento tanto dentro quanto fora de casa. Tendo trabalhado por muito tempo na “lida de gado”, atividade que associava à própria masculinidade, considerava uma afronta ter que tolerar um filho vegetariano sob o mesmo teto, ainda mais em um contexto onde carne era inclusive sinônimo de bem-estar. Associada às mulheres, trazia a equivocada ideia de saúde; e associada aos homens, a equivocada ideia da virilidade:

“Todo bife ancho e asado de costilla que trazia para casa, – com frequência cada vez menor – ganho em troca de serviços esporádicos prestados a algum rancheiro, era sagrado, e Hernán era forçado a comer a sua parte. Se necessário fosse, sob ameaça de chicote e pancada.”

Por isso, a convivência com o pai vaqueiro marcou uma das piores fases da vida do jovem protagonista. Mesmo sentindo profunda aversão, uma repulsa visceral por todos os tipos de carne, se viu obrigado a aprender a engolir sem mastigar – tentando não pensar em tudo que, para ele, estava evidentemente associado ao ato de consumir carne:

“Aprendeu a cortar pedaços no tamanho exato, grandes o suficiente para reduzir o número de vezes que tinha que cometer o sacrifício, pequenas o bastante para passar pela goela abaixo. E fazendo sempre um tremendo esforço para não vomitar. Não é de surpreender que quando seu pai faleceu de cirrose hepática aos 44 anos, Hernán não tenha ficado triste com a ocorrência. Respirou aliviado e nunca mais foi obrigado a comer carne.”

Já detido e encarcerado, em um dos interrogatórios com o “Comisario Supervisor”, Hernán pergunta se é crime ser vegetariano. Então o homem admite que nada consta no Código Penal, porém afirma que ser vegetariano pode se enquadrar como uma ofensa cultural, um delito social.

“Mas eu não considero um delito muito grave ser vegetariano. Eu mesmo, às vezes, prefiro um dourado do Rio Paraná na chapa, ao invés de um bife ancho”, declara o interrogador. Hernán, mesmo diante de uma situação difícil explica que um autêntico vegetariano não come peixe. Só grãos, legumes, verduras, raízes, frutas, coisas assim. Então o “Comisario” não reage bem à explicação do rapaz.

— Hmmm. Tem certeza? Um evidente radicalismo. Você tem certeza de que não é marxista-leninista?”, questiona.

“O Exilado Político Vegetariano”, de Alexandre Kostolias é uma obra sobre um jovem com identidade própria que tenta trilhar o seu próprio caminho em um mundo onde até mesmo a pretensa tolerância está coberta, implícita e explicitamente, de incomplacência. Enquanto as cortinas da vida caem, Hernán López deseja apenas viver à sua maneira, sem ser julgado e condenado por isso.

Em síntese, e na minha concepção, “O Exilado Político Vegetariano” é um livro sobre alguém que, até então imerso em um minúsculo universo de particular inocência e simplicidade, é lançado em um mundo de conflitos constantes entre individualidade, coletividade e alteridade que se diluem entre si. Por onde Hernán passa, há um desespero existencialista, se não o dele, o dos outros, que em face da liberdade de escolha não veem outro sentido na vida que não vivê-la, sofregamente ou não, independente de erros e acertos, e da angústia em um mundo em constante e célere transformação.

Para além do enredo, um dos pontos altos do livro é a leveza e irreverência da narrativa de Alexandre Kostolias, que intercala momentos de tensão com muito bom humor. Em alguns aspectos, a estrutura narrativa e a fluência textual de “O Exilado Político Vegetariano” me trazem lembranças do estilo individual despojado de Charles Bukowski.

Saiba Mais

“O Exilado Político Vegetariano” está à venda na Amazon, Cultura, Saraiva, Americanas e Submarino.





Não, realmente não está tudo bem em explorar animais

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Animais não humanos também compartilham desse interesse em não morrer (Foto: Jan van IJken)

De acordo com a interpretação clássica do direito, basicamente os animais não têm direitos, enfatizou um camarada, referindo-se à nossa Constituição que realmente não assegura direitos aos animais. Sim, de fato, o que temos são leis subjetivas (alguns podem interpretar como limitadas, dúbias, capciosas ou falhas) de proteção aos animais contra a crueldade, o que em si é uma contradição em essência, já que a exploração animal, praticada neste momento contra milhões de animais só no Brasil, é um ato de crueldade em si – levando em conta dois fatores – a exploração precoce que culmina em morte precoce, ou a exploração precoce prolongada que também culmina em morte. A morte em si é um ato de crueldade refletido nos olhos da vítima que não quer ceder.

— Mas se a lei diz que não é crime explorar esses animais na indústria frigorífica ou leiteira, significa que está tudo dentro da lei, dentro do senso de justiça ocidental, logo não há nada de errado nessa prática.

— Realmente, mas todas as suas ações se sustentam em parâmetros legais? Quero dizer, se a lei não diz que alguns de nossos atos não são criminosos, então devemos cometê-los? Sabemos que tudo que é ilegal é considerado errado, mas nem tudo que é errado é considerado ilegal. Se bato em um carro parado de madrugada e fujo, posso escapar da punição caso não haja nenhuma testemunha, mas a minha inclinação moral me impede de desaparecer sem dar satisfação ou me predispor à reparação. Assim como uma pessoa pode esquecer uma carteira ao meu lado, eu poderia pegá-la, guardar no bolso e ir embora. Mas eu não faria isso. Por quê? Porque reconheço que é errado. Entendo as implicações disso para o outro, me coloco em seu lugar. Uso a mesma baliza moral quando se trata de animais explorados diuturnamente como fontes de matéria-prima, alimentos e produtos. Sim, eles não são como nós, mas são seres viventes e sencientes que, de maneira diversa, expressam interesse em não sofrer ou morrer.

— Mas, mais cedo ou mais tarde, eles morrerão de qualquer forma.

— Você tem razão, mais cedo ou mais tarde, eu também morrerei de qualquer forma, mas nem por isso você me vê oferecendo o pescoço para ser degolado. Animais não humanos também compartilham desse interesse em não morrer. Sendo assim, não, realmente não está tudo bem em explorar animais.

— Tudo bem, mas o próprio Aristóteles foi uma grande influência para a base moral cristã ocidental, e ajudou a endossar o uso de animais. Quero dizer, ele rejeitava a ideia da racionalidade animal, pesando contra os animais a concepção da “racionalidade matemática”, que o levava a ver os animais como sujeitos sem qualquer direito que justificasse não consumi-los ou usá-los.

— Sim Aristóteles fez isso, e teve influência inegável sobre o antropocentrismo. Mas ao citar Aristóteles, você desconsidera Pitágoras, Plutarco, Plotino, Empedócles, Platão, Teofrasto, Apolônio de Tiana, entre outros da Grécia Antiga que, embora divergissem em alguns aspectos, convergiam para a questão moral da vida não humana em algum nível. É importante não ignorar que a moralidade e a ética independem da legalidade, porque versam sobre o que clama à integridade e à virtude humana. É sobre quem você é como sujeito que reconhece o êthos de suas ações para além do que lhe é concernente. Ou seja, há a prática e o reconhecimento de uma atribuição de valor, e é isso que fazemos, por exemplo, quando rejeitamos a ideia de que animais não são sujeitos de direitos. Isto porque o direito no caso dos animais, não é uma prerrogativa para assegurar privilégios a seres não humanos, mas sim direitos básicos como existir sem correr o risco de sofrer em decorrência da intervenção humana. Tenha em mente que direitos animais não envolvem humanização, não dizem respeito a isso; porque o ato de humanizar animais em si é, na minha concepção, um ato reprovável. Mas por que? Porque reverbera especismo a partir do momento que ansiamos por aproximá-los de nós na tentativa de atribuir valores humanos às suas existências; e isso considero evidentemente errado. Animais não precisam de valores humanos, precisam do reconhecimento de seus valores não humanos, que é o que realmente condiz com quem são, não com quem os tornamos ou queremos que eles sejam.





O que eu acho do projeto de lei da “Segunda Sem Carne”?

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Fotos: Jo-Anne McArthur/G1

O projeto de lei que estabelece a “Segunda Sem Carne” foi aprovado na Assembleia Legislativa de São Paulo, mas acho difícil ser sancionado pelo governador Geraldo Alckmin. Ele vetou até o projeto de lei que proibia o uso de animais vivos no ensino. Sendo que hoje em dia essa prática não é apenas comprovadamente desnecessária como ultrapassada. Além disso, tem o lobby da indústria frigorífica. Mesmo que isso represente apenas um dia, e em órgãos públicos, os frigoríficos farão alguma pressão.

Acho interessante o projeto de lei porque chama atenção para o assunto, ou seja, leva à reflexão até pessoas que nunca deram atenção para essa questão da abstenção do consumo de carne; mas não sei se isso realmente funcionaria. Tenho visto uma confusão em relação à divulgação nos meios de comunicação. Porque se trata apenas de não fornecer carne em estabelecimentos públicos em um dia da semana, mas isso não significa que esses servidores deixarão de consumir carne nesse dia.