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As armadilhas e a perspectiva capciosa do “bem-estar animal”
Você já percebeu como quando se fala em exploração animal sempre aparece alguém dizendo que há situações em que os animais não sofrem, que eles não são privados de nada, que não há nada de errado nisso? Esse fato tem relação direta com algo que eu chamo de “malícia da produção”. E o que é a malícia da produção?
É quando, por gozarmos de uma inteligência superior a dos animais, manipulamos a inocência não humana visando a lucratividade. Não quero discorrer sobre casos óbvios de crueldade explícita contra animais na produção industrial. Quero versar sobre algo relacionado à “cegueira do justo”, que surge quando somos incapazes de visualizar algo que por uma questão cultural, conveniente e unilateral não nos pareça evidente nem concreto.
Não é incomum alguém que considera o veganismo radical citar o exemplo de uma bela fazenda modelo, onde os animais são supostamente bem tratados. Sei que esses chamados locais existem. Mas essa concepção de bem tratado é definida por quem? Por quem explora ou por quem é explorado?
Se exploro um animal e sou eu que digo se ele é bem tratado ou não, quem define o que é aceitável ou bom para ele sou eu, obviamente, e levando em conta em primeiro lugar o que esse animal tem a me oferecer. Humanos que exploram animais têm sempre uma perspectiva um tanto quanto capciosa do que é o chamado “bem-estar animal”, porque eles entendem que qualquer oposição ao que fazem representa em algum nível um risco aos seus lucros.
Sendo assim, não acho que a única baliza para considerar o que é certo ou errado em relação à nossa intervenção na vida dos animais seja o sofrimento óbvio, a tortura, a crueldade baseada na violência física. Na realidade, existe um ponto que não costuma ser muito considerado, embora seja de suma importância nessa conscientização. Que ponto é esse? É a malícia da produção fundamentada no condicionamento animal.
Caso você seja contra a exploração de animais, em algum momento da sua vida alguém vai querer te apresentar uma “vaca feliz”, um animal supostamente bem-tratado e que dizem nunca ter passado por nenhum tipo de privação. Sim, pode ser que ela não tenha sofrido nenhum tipo de violação que nos pareça óbvia. No entanto, isso não significa que esse animal não tenha sido privado de ser mais do que uma fonte de alimento ou produto. Mas como assim?
Imagine uma situação. Você é criado para ser objetificado, para ser explorado desde o momento em que nasce. Essa é a sua realidade e isso é tudo que você conhece. Então é claro que a menos que você passe por uma situação mais explícita de privação e violência pode ser que você não manifeste contrariedade em relação à forma como vive, mas isso porque te condicionaram a aceitar uma vida para a qual você não deveria ter nascido, porque não diz respeito, de fato, a quem você é, e às suas reais necessidades. Porém, se você está imerso nessa realidade, e isso é tudo que você conhece, como esperar que você veja isso com estranhamento?
Em vários momentos da minha vida, conheci diversos animais criados para consumo que aos meus olhos pareciam ter uma bela qualidade de vida em uma fazenda. Mas por que tive essa impressão? Porque normalmente partimos da constatação mais evidente. Quero dizer, se um animal não está fisicamente ferido, se ele não está visivelmente estressado, se não aparenta precisar de nada, isso significa que está tudo bem. Esse é um exemplo clássico que serve para endossar o discurso comum dos produtores de leite quando alegam que se “suas vacas” não estivessem satisfeitas elas “esconderiam o leite”.
Para ser honesto, isso na minha opinião não diz nada. Mas por que? Porque se uma vaca foi criada para ser ordenhada, ela foi condicionada a isso, e você vai usar tudo que sabe sobre ela a seu favor para manter o controle da situação. Você leva vantagem sobre esses animais, e vai usar isso como parâmetro para potencializar a produção de tudo que, aos seus olhos, eles têm a oferecer enquanto fontes de produtos; mesmo que jamais tenham dado tal autorização, já que animais claramente não existem para nos servir, nós que os condicionamos a isso, seja por meio da violência inequívoca ou não.
Ou seja, a intervenção humana iniciada no princípio da vida de uma vaca, por exemplo, leva à normalização de algo que não deveríamos entender como aceitável, e claro que porque estamos falando de um alimento que não existe naturalmente para seres humanos, mas sim para bezerros. Ademais, vamos considerar que vacas sejam, de fato, bem tratadas nesse sistema.
Ela vai ter a chance de envelhecer ao lado do bezerro? Não, porque prioritariamente o leite é destinado aos seres humanos. Ela vai ter a oportunidade de pelo menos envelhecer? Não, e por um fator mercadológico ululante – a drástica queda na produção de leite culmina no envio da vaca para o matadouro, e não raramente o seu destino são as pequenas porções de hambúrgueres dispostas na seção de frios dos mercados.
Não esqueça também que muitas das doenças modernas que acometem esses animais têm relação com o sistema de produção. A verdade é que qualquer doença severa e onerosa já resulta no sacrifício do animal, porque nenhum produtor vai deixar de ponderar a relação entre preservação da vida x lucro. Existe alguma legislação que assegure que um animal não morra nessa circunstância? Não. Então como podemos falar em bem-estar animal quando isso mascara fatos irrefutáveis de que a vida do outro não é uma prioridade?
Creio que o condicionamento animal é uma das maiores barreiras dos direitos animais e do veganismo, porque o condicionamento, tanto humano quanto não humano, endossa a aceitação à exploração animal. Animais criados para consumo estão entre os mais inocentes, ingênuos e previsíveis. Claro, não foi por acaso que seus ancestrais foram domesticados. Com base nesse potencial, a humanidade criou ao longo dos séculos “versões” ainda mais dóceis e facilmente condicionáveis. Afinal, isso explica por que no passado escolhemos criar bois e porcos para consumo e não leões e tigres, não é mesmo?
Se você analisar mesmo que superficialmente a história dos muitos povos escravizados pela humanidade, você verá que entre eles sempre existiram muitos que, em decorrência de terem sido escravizados desde a tenra idade, e tendo pouco ou nenhum contato com outra realidade, não viam isso como uma arbitrariedade, mas apenas um triste destino, uma infelicidade, um desamor proveniente de Deus ou até mesmo uma danação baseada na sua própria condição física ou étnica.
Então, te pergunto: “Se tivemos muitos seres humanos que mesmo sendo ostensivamente e visceralmente privados de qualquer direito ainda se conformavam com isso, por que animais não humanos, que sequer partilham do mesmo código comunicativo que nós, não se conformariam? Ou pelo menos não teriam sua conformação condicionada?” Animais humanos e não humanos têm níveis de resistência equiparáveis em alguns níveis e aspectos, porém toda resistência tem limites.
Animais que já não reagem diante da morte, como o boi que aceita o dardo da pistola pneumática em seu cérebro sem tentar escapar da caixa, o porco que passa horas com o olhar disperso sem mudar de posição em uma fazenda, o frango que deixa de bater as asas durante a viagem ao matadouro dentro de uma gaiola de plástico – nenhum desses são exemplos de que está tudo bem em matar e consumir animais, mas sim de que aproveitamos de suas vulnerabilidades para fazermos o que quisermos com eles. E como somos mais inteligentes, usamos isso a nosso favor, mesmo que em ações notoriamente imorais se partimos da perspectiva de que, mais cedo ou mais tarde, obliteramos a vida de quem não quer morrer, assim que o seu “propósito” de proporcionar lucro for cumprido.
Sim, somos ardilosos quando matamos pintinhos machos porque eles não têm valor comercial; quando fazemos debicagem de aves; quando extraímos ou desbastamos dentes de suínos, tradicionalmente sem anestesia; quando eletrocutamos o gado a caminho do matadouro ou de um navio para exportação de “carga viva”; quando marcamos animais com ferro quente; quando usamos iluminação artificial para enganar o relógio biológico das galinhas poedeiras visando ganho em produtividade; quando alimentamos “muito bem” animais que serão mortos em poucos meses.
Afinal, não os alimentamos “muito bem” para satisfazê-los, mas simplesmente para obter melhor produtividade. Mas não somente isso. E o que dizer das abelhas? Pequenos animais que têm sua rotina manipulada pela intervenção humana para que possamos garantir uma quantidade de mel considerada aceitável para os nossos padrões. Toda a apicultura é baseada na artificialização da rotina das abelhas. Ou seja, o ser humano aproveitando-se da ingenuidade animal. E nesse processo, quando elas são acometidas por parasitas, matamos até as saudáveis, porque seria muito trabalhoso identificar as enfermas.
Pergunte-se: “Por que abelhas dariam naturalmente mel aos seres humanos se esse alimento é produzido por elas para atender suas necessidades nutricionais quando são incapazes de saírem para buscar mais néctar e pólen?” Seja em situação de adversidade climática, queda de temperatura ou carência de floradas. E mais importante, não se engane, mesmo que um animal criado para consumo pareça extremamente saudável e satisfeito, isso não significa que ele seja ou esteja, e muito menos que isso seja certo. Afinal, o que você está testemunhando é apenas resultado de mais um condicionamento visando aquilo que é sempre prioritário – o lucro.
Ser vegano é mais fácil do que você imagina
Mais um dos motivos que provam por que a legislação brasileira é tão chula
Legislação brasileira é tão chula que multam empresa do ramo de exportação de “carga viva” que movimenta bilhões de reais em meses em R$ 1,5 milhão por maus-tratos. Multas deveriam ser devidamente proporcionais ao valor da “carga”, daí veríamos se a situação não mudaria um pouquinho. R$ 1,5 milhão não faz os Queiroz se esforçarem nem pra levantar a sobrancelha.
Por que o veganismo é possível
De que adianta você criticar os políticos se você os financia?
A natureza é tão incrível
A natureza é tão incrível. Se comemos uma fruta, podemos guardar as sementes, plantá-las e no futuro teremos mais frutas. Se nos alimentamos de uma planta, podemos preservar suas raízes para que ela continue prosperando e nos fornecendo nutrientes.
No caso dos animais, se os comemos, isso significa que os matamos. Há não apenas violência, mas terror, sangue, sujeira e mau cheiro. Se demorarmos demais, ou se o processo não for “bem feito”, restará a podridão.
O seu sofrimento é perceptível aos olhos de qualquer criança. E não há nada que possa ser feito para restaurarmos suas vidas. Eles não renascerão se plantarmos seus pés. Não há nem mesmo funeral, e simplesmente porque não há nada significativo a enterrar.
Realização do abate halal no Brasil contradiz suposto “abate humanitário”
No Paraná, e creio que também em diversas regiões do Brasil, o abate de animais sob preceitos islâmicos acontece frequentemente. Eles chamam o ritual de Zabihah. Os próprios compradores do Oriente Médio selecionam os profissionais que farão o serviço. O Paraná é o maior exportador de frangos do Brasil. Moro em uma região “produtora”, e a cada ano aumenta a demanda pelo abate halal, que consiste em cortar os três principais vasos – jugular, traqueia e esôfago.
Nessas horas, eu pergunto: “Me diga aí onde está na prática o crescimento do ‘abate humanitário’ de animais criados para consumo?” Claro, sou contra qualquer consumo de animais, mas essa é uma das situações que revelam a contradição do chamado “abate humanitário”.
Não existe pseudo-abate humanitário ou pseudo-bem-estarismo quando o que está em jogo são milhões ou bilhões de reais. Se houvesse um método ainda mais macabro de abate de animais que garantisse o dobro em dinheiro, não tenho dúvida nenhuma de que políticos dariam um jeito de legitimá-lo legalmente.
De que adianta criticar a Bancada Ruralista enquanto você a financia?
De que adianta uma pessoa criticar as mazelas da Bancada Ruralista e neste momento, diante da situação dos mais de 25 mil bois sofrendo em Santos, simplesmente não se importar? De que adianta você apontar o dedo para ruralistas que exploram mão de obra barata, humana e não humana, se você consome os produtos deles, logo financia o jogo político deles.
Você já pensou que esses caras que comandam a política brasileira, e não abrem espaço para o verdadeiro exercício da democracia, costumam injetar muita grana em suas campanhas, certo? E de onde você acha que vem esse dinheiro? Costumeiramente, de produtos que eles vendem e que compramos na nossa inocência ou ignorância. E muitos desses produtos já foram vidas. Ou seja, animais.
Então, sim, consumir produtos de origem animal muitas vezes significa de fato um aval para que esses sujeitos continuem se perpetuando no poder. Que tal começar a boicotar esses caras? Não apenas politicamente, mas economicamente. Se informe, não seja ignorante. É preciso fazer um mapeamento idôneo a respeito da vinculação econômica desses políticos.
Quais entidades e empresas eles representam ou possuem, de fato; que tipo de produto eles comercializam, entre outras coisas. Esse tipo de informação precisa ser disseminada com urgência. Necessitamos de um trabalho de boicote em proporções jamais vistas antes.
Bancada Ruralista se mobilizando para fazer o navio com 25 mil bois seguir viagem para a Turquia
A Bancada Ruralista está se mobilizando para fazer o navio seguir viagem para a Turquia com os mais de 25 mil bois em situação degradante no Porto de Santos. Se isso acontecer, será apenas mais uma prova de que definitivamente vivemos em um país onde manda quem pode mais.
Provavelmente, essa vai ser uma das manifestações mais determinantes dos últimos anos no Brasil, e é vergonhoso ver a pouca valorização por parte da imprensa e até mesmo da população. A situação está sendo praticamente ignorada por quem não se importa com a causa animal.
Só a mídia independente e os ativistas, que não devem nada a Minerva Foods e a esses políticos oportunistas, que estão trabalhando a favor do verdadeiro bem-estar animal. Muitas pessoas vivem, de fato, em uma condição egoica, imersas em si mesmas e nos seus; e aqueles, de outras espécies, que são diferentes de nós, são tratados não apenas como produtos – mas como lixo também.
É muito triste ver tantas pessoas não dando a mínima para a situação, não reconhecendo que isso já não se trata apenas de uma questão de valorização da vida animal, mas obviamente também de justiça social. Se esse navio seguir viagem, será mais uma derrota para a dignidade animal – humana e não humana e uma grande vitória do oportunismo e da desconsideração à vida. Se isso acontecer, a frase do Tim Maia de que o Brasil não é um país sério deve reverberar mais um pouco.
A passionalidade e a autoridade na crítica à exploração animal

Normalmente não é fácil para um vegetariano ou vegano lidar com situações em que as pessoas realmente demonstram pouco interesse em mudar seus hábitos que envolvem a exploração de animais (Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals)
Normalmente não é fácil para um vegetariano ou vegano lidar com situações em que as pessoas realmente demonstram pouco interesse em mudar seus hábitos que envolvem a exploração de animais. Até mesmo simples atos como o de socializar podem parecer não tão auspiciosos quando você sabe que terá de testemunhar pessoas consumindo alimentos que até pouco tempo atrás eram partes de um animal que caminhava, respirava, se alimentava e dormia – e até mais relevante do que isso, tinha sentimentos, anseio de não morrer precocemente.
Realmente não é fácil reconhecer que existe uma desarmonia entre o que você deseja para o mundo e o que o outro deseja, quando este não considera, de fato, que os animais não merecem morrer para serem reduzidos a alimentos e outros produtos. Claro, alguém pode dizer: “Tenho dó dos animais”. Mas se essa pessoa se alimenta deles, há uma evidente inconsonância entre o que ela pensa e faz.
Então para não refletir a respeito de algo que não lhes agrada é comum as pessoas recorrerem aos mais diferentes tipos de escusas e camuflagens da realidade. Sem dúvida, isso conta com o grande contributo da indústria que oferece todo o suporte necessário nessa jornada que perpetua a desconsideração à contumaz coisificação ou objetificação animal. Quero dizer, a indústria te ajudar a não se preocupar com os animais, porque ela te diz o que deve ser considerado e desconsiderado. E isso acontece de forma muito simples – trabalhando e perpetuando a crença de que o “benefício vale o sacrifício”.
Isso é parte majoritária da realidade em que vivemos, historicamente e culturalmente. Por mais que a indústria que comercializa produtos de origem animal venda ilusões, produtos imersos em realidades (des)conhecidas e negligenciadas que proporcionam prazeres efêmeros, as pessoas, principalmente adultos, compram essa ideia porque elas não apenas aceitam essa ilusão como a aprovam e a apreciam. Afinal, foram criadas nesse contexto.
Sim, a maioria dos adultos sabe que ninguém, nem mesmo um animal não humano, morre feliz por uma intervenção alheia à sua própria vontade, mas se as pessoas acreditam que uma morte não foi tão dolorosa há uma tendência ádvena de crer que “os fins justificam os meios”. E quando lidamos com essa consciência, acredito, e aqui simplesmente expresso a minha opinião, que a passionalidade e o exercício de autoridade podem dificultar ou até minar a conscientização quando não pesamos nossos discursos e ações.
De fato, a humanidade é despótica com os animais não humanos. Seria muito melhor se as pessoas entendessem que se alimentar de criaturas sencientes é sempre resultado de uma imposição legitimada, de uma ausência de escolha que não oferecemos ao outro por considerá-lo inferior e submetê-lo ao nosso jugo constante. Porém, tenho a consciência de que se tenho uma perspectiva vegana em relação ao valor da vida animal, não posso rejeitar o fato de que muitos outros não a têm, e esses outros são a maioria; e é com esses que devo dialogar caso eu queira uma mudança realmente significativa.
Nenhuma transformação coletiva, por mais claros que sejam seus benefícios, é alcançada sem que para isso seja necessário mudar a mente das pessoas. Por isso, defendo a posição de que compartilhar sensibilidade, conhecimento e argumentar de forma ponderada sobre a exploração animal, sem os arroubos negativos da passionalidade, é o melhor caminho. Até mesmo diante de piadinhas infames, quando alguém age de forma a subverter a expectativa do interlocutor, o surpreendendo ao não reagir em nível equiparável de vazia provocação, há uma maior possibilidade de consideração em relação ao que foi expressado. Ou será que ser ofensivo seja melhor? Não creio.
Quando falamos com alguém sobre a exploração animal, talvez seja interessante conjecturar previamente a reação do outro. Uma reflexão que considero válida é a seguinte: “Se alguém estivesse falando comigo dessa forma, e eu não tivesse a consciência que tenho, será que eu refletiria sobre isso?” A transformação depende dos meios que usamos para alcançar a consciência do outro, e se isso é eficaz. Não importa se tenho a maior vontade do mundo em relação à libertação dos não humanos explorados e reduzidos a alimentos e outros produtos, porque não é unicamente dessa vontade que depende a conscientização humana em relação à exploração animal.
Acredito que preciso sempre ter em mente que se a minha intenção é conscientizar ou sensibilizar quem não vê nada de errado com a exploração animal, devo mostrar um caminho que o leve a aquiescer, a entender por que é importante a abstenção de alimentos e produtos de origem animal. E esse caminho é variável, porque seres humanos não são sensibilizados ou conscientizados pelos mesmos motivos. Até porque pessoas têm suas individualidades, bagagens culturais, histórias de vida, e predisposição ou não a enxergarem os animais como sujeitos de uma vida.
Por tais razões, acho importante ser prudente, provocativo em algumas circunstâncias específicas, porém não ofensivo; o que significa que demando constante controle sobre a passionalidade, os meus impulsos, não permitindo que tenham controle sobre mim. É fácil? Não, porque tudo que diz respeito aos animais objetificados e à nossa impossibilidade de garantirmos que eles vivam sem sofrimento nos toca à sensibilidade e evidencia a nossa impotência em níveis diversos.
No entanto, vale a pena ofender pessoas ou usar termos que façam com que acreditem que há um mundo segregado entre veganos e vegetarianos e não veganos e não vegetarianos? Como isso pode estimulá-las à reflexão? Claro que seres humanos estão em níveis dissemelhantes ou díspares de conscientização, sensibilidade e renúncia, o que significa que há muito a ser estudado e trabalhado. Também reconheço que nem sempre nossas palavras, por melhores que sejam ou mais bem fundamentadas, vão promover qualquer mudança. Mas creio que menos ainda colherão bons resultados aquelas que, como em um exercício de autoridade, estão carregadas de ofensas e vulnerabilidade; e fragilizadas em seus próprios argumentos. Afinal, derramar-se em emoção também pode ser uma forma de negar-se à razão.



