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Sobre o mito das “vacas felizes” e das “galinhas felizes”
O que existe de errado com o chamado “bem-estarismo animal”
Cheri Vandersluis: “Os animais usados nos testes [em laboratórios] não deveriam ter contato humano, porque isso faria com que tivessem vontade de viver”
“Ficamos no portão ouvindo os nossos cabritos chorando enquanto eles eram levados embora”

O casal vegano Cheri e Jim administra o santuário Maple Farm no estado de Massachusetts, nos Estados Unidos (Foto: Maple Farm Sacntuary)
Cheri Ezell-Vandersluis é a fundadora do santuário Maple Farm, criado em parceria com o marido Jim Vandersluis. O local situado na pequena Mendon, no estado de Massachusetts, nos Estados Unidos, funciona como um refúgio seguro e amoroso para os chamados “animais de criação” ou seja, animais criados para consumo; criaturas que por diversos motivos escaparam de serem enviados para o matadouro. Lá, eles vivem suas vidas em paz e fazem tudo que têm vontade sob a tutela do casal vegano.
No entanto, Cheri admite que antes de fundarem um santuário, ela conheceu o lado mais obscuro e insensível da natureza humana no que diz respeito ao tratamento dispensado aos animais. “Sempre amei os animais, mas cresci em uma sociedade que os trata como bens, coisas. […] Eu não tinha ideia de que a carne que eu comia vinha de vacas de olhos arregalados e galinhas fofinhas e inocentes. Embora eu sempre quisesse trabalhar com animais, levou tempo e várias lições de vida para encontrar um emprego que realmente os beneficiasse”, relata.
O primeiro trabalho em que Cheri Ezell teve contato constante com os animais foi em um laboratório de testes de toxicidade de medicamentos. Ela atuava como técnica em histologia e autópsia: “Disseram-me que a pesquisa beneficiava a humanidade e que o assassinato de animais era um tipo de ‘sacrifício’. Nos diários de bordo onde gravávamos os dados da sala de autópsia, não havia o conceito de matar, mas apenas de “sacrificar números’.”
Essa dissimulação da realidade foi o que sempre facilitou o trabalho das pessoas em laboratórios. Ou seja, evita-se confrontar a realidade e refletir sobre as implicações das ações para as vítimas, nesse caso, os animais. Cheri se recorda de quando caminhava para as seções onde pequenos e doces beagles eram confinados e rotineiramente vitimados pela administração de compostos promotores de crescimento, antibióticos, dopamina e muitos outros fármacos.
“Eu queria conversar com eles, alcançar as gaiolas para acariciá-los, olhar em seus olhos confiantes e desconhecidos. Fiz isso por alguns dias antes de ser flagrada e repreendida por esse comportamento. Me disseram que os animais usados nos testes não deveriam ter contato humano. Deveriam apenas receber os medicamentos, serem examinados, limpos e alimentados, uma vez que qualquer expressão de carinho faria com que tivessem vontade de viver, afetando negativamente sua reação aos compostos”, revela.
Ela conviveu com essa justificativa por quatro anos até que pediu demissão. Então conseguiu um emprego em um aquário destinado a entreter visitantes. Em síntese, mais um trabalho em que “bolsos cheios significam o derramamento de sangue animal”, na perspectiva de Cheri. A sua função de “aquarista” incluía alimentar e monitorar a saúde dos milhares de peixes e mamíferos marinhos – supervisionando a qualidade da água e ajudando a equipe a cuidar dos mamíferos marinhos, além de auxiliar na realização de autópsias.
Um dia, o aquário recebeu quatro golfinhos nariz-de-garrafa. Cheri sentiu-se privilegiada pela oportunidade de nadar com eles durante a adaptação ao cativeiro. Mas a ideia romanesca de golfinhos vivendo muito bem em um ambiente artificial logo foi descortinada pela realidade: “No começo de uma manhã, ouvi gritos agudos. Nós não podemos falar a língua deles, mas a angústia, a tristeza e a frustração são facilmente traduzíveis. Um dos golfinhos machos prendeu seu nariz em uma rede e tentou se libertar. Ele estava retorcido e apertado – aprisionado sob a água. Na natureza, se um golfinho fica doente ou ferido, outros o auxiliam e o empurram para a superfície para conseguir ar. Nessa configuração cativa, eles só poderiam assistir o companheiro se afogando lentamente [os outros não atinham acesso ao local onde um dos golfinhos agonizava].”
Cheri e outro funcionário do aquário mergulharam com uma faca na esperança de cortar a rede onde o golfinho estava preso. Era tarde demais, e o corpo do animal já estava sem vida. Pouco tempo depois, o golfinho foi substituído por outro espécime capturado na natureza, e a rede substituída por uma corrente de metal. Assim o show prosseguiu. “Depois que saí do aquário, passei pouco tempo atuando como designer gráfica antes de entrar para o ramo de leite de cabra. Conheci meu marido, Jim, quando eu estava comprando cabras para o meu negócio. Ele estava vendendo suas vacas leiteiras e se preparando para adquirir novilhas. Nos tornamos inseparáveis”, revela.
Em uma ocasião, quando Jim estava ordenhando uma vaca, Cheri entrou no celeiro e encontrou uma bezerra doente. O marido explicou que a novilha seria vendida para um comerciante de carne e logo mais reduzida a pedaços de carne. “Naquele tempo, eu tinha algum dinheiro e implorei para que ele me deixasse cuidar dela. Ele concordou relutantemente. A levei para uma clínica veterinária, onde aplicaram fluidos intravenosos e antibióticos, e disseram que mais um dia sem cuidados e ela teria morrido. Quando ficou boa o suficiente, eu a trouxe para a fazenda onde ela acabou se tornando uma vaca leiteira”, confidencia.
Com o tempo, Jim e Cheri não conseguiram mais continuar ordenhando vacas. Por isso, aumentaram o rebanho de cabras e começaram a vender leite de caprinos: “O infeliz subproduto disso é: ‘O que fazer com todas as crianças?” Não demorou, e o casal percebeu que em certas comunidades étnicas é uma tradição consumir carne de cabras ainda bebês, ou seja, cabritos, durante o feriado de Páscoa. Pessoas de descendência portuguesa e grega sempre os procuravam nessa época do ano.
“Nós pesávamos os pequenos de 11 a 15 quilos e os clientes pagavam. Eles eram recolhidos e jogados na parte de trás do porta-malas ou na carroceria de uma caminhonete como se fossem pedaços de bagagem. Esses bebês olhavam nos meus olhos com confiança, admiração e medo. Jim e eu sabíamos o destino deles. Trabalhando com laticínios a vida toda, Jim tentava endurecer as minhas emoções. […] Muitas vezes, ficamos no portão ouvindo os nossos cabritos chorando enquanto eles eram levados embora. Foi em um daqueles momentos terríveis que Jim e eu nos olhamos de esguelha e decidimos começar a nossa jornada a favor da vida.”
Cheri e Jim conheceram a organização não-governamental Pessoas Pelo Tratamento Ético dos Animais (Peta) e receberam toda a ajuda necessária para fazer uma transição para uma vida em verdadeira conformidade com o bem-estar animal:
“Entre soluços, falei com uma pessoa maravilhosa que me tranquilizou e disse que estávamos fazendo a coisa certa. Para aliviar o fardo financeiro, nos deram uma lista de santuários para onde poderíamos levar algumas das cabras. Depois de fazer contato com vários santuários sem espaço para mais animais, encontramos o OohMahNee. Os fundadores Cayce Mell e Jason Tracy garantiram que estávamos realmente fazendo o que era certo. Meu coração estava doendo. Eu amava minhas cabras e mandá-las para longe foi difícil mesmo sabendo que seria um lugar seguro para elas. Depois de muito refletirmos, enviamos metade do nosso rebanho para os santuários OohMahNee e PIGs. Foi um dia de sentimentos mistos, mas Cayce e Jason foram meus anjos e nos confortaram durante esse momento angustiante.”
Referência
Satya Magazine. From goat farmer to sanctuary founder. Vandersluis, Cheri-Ezell (junho de 2007).
Aos animais a liberdade

Bilhões de animais criados para consumo no mundo todo escutavam isocronicamente um som jamais ouvido antes (Foto: Reprodução)
Sonhei que bilhões de animais criados para consumo no mundo todo escutavam isocronicamente um som jamais ouvido antes; um tipo de chamamento que fazia com que nada temessem, apenas reconhecessem a sua força em evidência por uma subitânea expansão da consciência.
Arrebentavam gaiolas, grades, correntes, atravessavam pastos e cidades. Se articulavam como nunca, como seres sociais que são. Fugiam de matadouros e laboratórios. Não podiam mais ser tocados, mas simplesmente observados. Aos seres humanos, incapazes de se moverem por um artifício romanesco, restava o direito e a obrigação de assistir tudo como meros espectadores.
A cada passo dos sobreviventes em direção à vida, os seres humanos eram presenteados com flashes da libitina, do decesso, da ortotanásia, da morte; não da própria morte, nem de mortes humanas, mas da finitude dos familiares daqueles animais que remanesceram. Os olhos de uma vaca que corria em celeridade, mesmo com os úberes morrudos e quase tocando o chão, projetavam titânicos hologramas de crianças mortas. Todos os seus filhos executados ao longo de anos de ordenha.
Uma galinha sem bico e com olhos cor de terra projetava o exato momento de sua debicagem, calvário que perdurou por semanas. Na cumeeira, no ponto mais alto de muitas cidades, havia projeções colossais de pintinhos sendo triturados em máquinas. Não paravam de cair, não paravam de morrer. Lembranças de um passado hodierno.
Pessoas tentavam cobrir suas cabeças, temendo que o sangue das pequenas criaturas pudesse lavar suas ignorâncias, insipiências. O obnóxio apedeutismo sufocaria. Mas o ser humano é recalcitrante. Pessoas de todas as idades persistiam; tentavam vendar os olhos, seus e dos outros. Não era mais possível abrenunciar a realidade.
Aqueles que privaram os filhos da verdade também amargaram consequências; as crianças não foram poupadas. Por que seriam? Os animais corriam, e os hologramas se expandiam. A morte evidenciada visceralmente por todos os lados, sem romantismo, sem subversão conscienciosa. A verdade avançava. O céu virou um painel.
Cenas de peixes sufocados em tralhas e devolvidos (ou não) ao mar agonizavam, incapazes de sobreviver por mais do que minutos sempiternos. O fim chegaria, mas custaria. Oceanos, mares e rios cuspiam a humanidade, seus barcos, suas bargas e tralhas. Porquinhos soluçavam pendurados sobre grilhões. Era o último registro do último matadouro. Caprinos e ovinos saltavam sobre os carros; amassavam latarias e corriam.
Aos animais a liberdade, à humanidade o reconhecimento da fealdade. Mais adiante, animais telúricos desapareciam através de tocos de árvores transformados em troncos que se alargavam e funcionavam como portais. Nas águas, os não humanos atravessavam crateras, furnas e lapas quiméricas que repeliam os indesejados. Do outro lado, na terra, na água ou no céu, não havia humanidade, somente reciprocidade semeada pela vontade.
O Velho Barbanço, os animais e os gaiatos
Uma vez por semana alguns pequenos gaiatos invadiam a propriedade do Velho Barbanço e davam estilingadas no porco, no boi, na vaca, na cabra, na ovelha, em dois cordeiros e uma galinha que circulavam livremente. A visão do velho não era atilada, mas a sua audição sim. Crentes de que jamais aquele homem de idade avançada os surpreenderia, os petizes aproveitavam – gargalhavam, penduravam sobre a mangueira e até mesmo estercavam perto do comedouro dos animais.
Remansado, o Velho Barbanço apenas aguardou, na sua característica odara. As horas não diziam nada, porque os tarecos nunca invadiam o local no mesmo horário. Então o velho descobriu uma forma de surpreendê-los. Instalou um fio sob a terra que começava na porteira e percorria a mangueira frontal. Se alguém se aproximasse, um sino era acionado na sala, e quem estava fora nada ouvia.
Um dia, os moleques pularam mangueira adentro e observaram o entorno, asseverando-se de que não havia ninguém por perto. Com a confirmação, prepararam as primeiras estilingadas.
— Estilingue poderia ser uma coisa boa se não a usassem para o mal — disse uma voz roufenha sobre eles.
Espaventados, os quatro gaiatos observaram o Velho Barbanço sentado sobre um dos galhos mais massudos de uma sibipiruna acima deles. Não imaginaram que um dia seriam flagrados. Apesar da idade avançada, o velho saltou da árvore e seus pés tocaram o chão com a lenidade de uma lebre.
— Por que vocês incomodam esses pobres animais? Por que feri-los? Por que tirar-lhes a paz, que é uma das poucas coisas que buscam em suas vidas? Eles vivem bem menos do que nós, e não merecem tal maldade. Agora venham.
Os tarecos hesitaram, se entreolharam, mas seguiram o velho. Barbanço mostrou os curativos que fez em cada um dos animais feridos. Um deles ainda gemia expectando convalescença.
— Eles sangram e sentem dor como eu e você. Imagine se fosse cada um de vocês no lugar deles. Agradaria?
— Não… — responderam encalistrados.
— Podem não parecer tão inteligentes ou sábios pra vocês, mas eles são sim. Sabe por que sei disso? Porque eles buscam mais a paz do que nós. Sabem o que um animal desses faz quando ninguém o machuca? Ele é condescendente, leniente. Entendem o que isso significa? Que ele não conhece o mal como nós conhecemos, não é inerente à sua natureza. Até quando fazem algo de errado, não o fazem por pura maldade, mas por alguma motivação quase sempre alheia à nossa compreensão.
— Hum…mas o senhor come eles, né? — questionou o gaiato menor.
— Na realidade, não, filho.
— Como não?
— Que sentido teria eu livrá-los da dor que vocês causam a eles e entregá-los ao açougueiro? Isso seria muito pior do que o que vocês fizeram. Não se abraça mirando carcaça.
— Ah! Isso é estranho. Nunca conheci quem não comesse carne — comentou outro.
— Pois então está conhecendo agora.
— Isso é diferente.
— É uma reação comum.
— Humm…
— Acredito que quando ferimos alguém, e não nos importamos, estamos mandando uma mensagem de que nem todas as vidas são importantes, e que podemos chegar ao extremo de escolher quem merece viver e quem merece morrer.
— Mas não é isso que já fazemos hoje? — questionou um petiz.
— Sim, e isso te agrada?
— Agora não.
Por que a exploração de animais está na contramão da justiça social
Por que você não se alimenta de animais?
— Por que você não se alimenta de animais? O que existe de tão errado nisso?
— Você já viu um boi, uma vaca e um bezerro pastando livremente? Um peixe serpenteando pelas águas? Um porco rolando na relva? Uma galinha ciscando sem pressa?
— Algumas dessas coisas, sim.
— O que você acha disso?
— É divertido, bonito de ver.
— Pois então. Se eu fosse um animal, provavelmente eu não ficaria feliz de ser privado dessas coisas que me trariam algum tipo de satisfação. Se me alimento de animais, não consigo ignorar minha culpa sobre aqueles que são privados de uma vida natural. Eu não gostaria de nascer, viver e morrer para atender supostas necessidades dos outros. Seria como viver sem um propósito próprio.
— Mas animais são criados com essa finalidade. Você não os veria se não fosse por causa da demanda por produtos de origem animal.
— Você tem razão, mas aqueles que vivem merecem gozar de uma vida sem exploração, privação ou sofrimento. Os animais que são reduzidos à comida depreciam a vida bem menos do que nós. Jamais deixariam de lutar diante da iminência da morte. Isso não é um exemplo de vontade de viver? Maior prova disso é que no chamado bem-estarismo os enganamos antes de matá-los. E claro, para parecermos mais humanos aos nossos olhos. Quero dizer, sou um sujeito tão bom que não o mato violentamente, apenas dissimulo uma situação antes do golpe final. Penso que enganar um ser vivo para matá-lo sem que supostamente ele sofra também é triste, porque é uma forma de traição, já que o animal segue seus comandos em confiança. Você já viu um animal oferecer alguma parte do corpo para que você a retalhe? Se um dia eles deixarem de existir, não será algo tão aberrante, penso. E por que seria? A vida deve seguir seu curso natural, e não existe nada de natural, por exemplo, em manipulação genética para atender caprichos humanos. Muitas vezes os animais nem se reconhecem como animais por causa da interferência humana. Tornam-se seres confusos, deslocados de sua própria vocação. Isso não é triste e preocupante?
— É…acho que faz sentido.
— Imagine se alguém o criasse e o colocasse para trabalhar o dobro do que você trabalharia normalmente, em sua capacidade natural. Como você se sentiria?
— Não concordo com essa comparação, é desleal.
— Tudo nos parece desleal quando observamos os outros como se estivessem abaixo dos nossos pés. Nos recusamos a exercer a empatia ou o reconhecimento do valor da vida animal porque isso exige uma revisão de valores. E também porque isso significa mastigar com a boca aberta e olhos esgazeados diante de um espelho convexo que mostra quem somos e o que fazemos; que revela a face que negamos na nossa relação com os animais.
Jan Gerdes, o ex-produtor de leite que transformou a sua fazenda em um santuário para os animais

Gerdes: “Antes, eu negava que eu gostava deles. Não havia outra maneira. Eu queria ganhar a vida” (Foto: Hof Butenland)
O alemão Jan Gerdes era um típico produtor de leite que via os animais apenas como fonte de renda. Inclusive evitava proximidade para não criar laços com os animais explorados em sua fazenda no Norte da Alemanha. Porém, um dia ele decidiu se questionar sobre o que estava fazendo – se aquilo era, de fato, certo.
“Antes, eu negava que eu gostava deles. Não havia outra maneira. Eu queria ganhar a vida. E agora eles são meus camaradas. Se você está feliz, você fala com eles. Você fala com uma vaca, assim como se falasse com um porco, um gato ou um cachorro. Não vejo diferença. Todos eles têm suas qualidades e ficam felizes quando falo com eles”, disse em depoimento registrado no documentário “Live and Let Live”, lançado por Marc Pierschel em 2014.
A mudança na vida de Gerdes foi visceral, principalmente se considerada a história da fazenda Hof Butenland, construída no século 19, em Butjadingen, no estado da Baixa Saxônia. De acordo com Gerdes, várias gerações produziram leite e queijo no local. Em 1978, ele assumiu o negócio familiar de seus pais e se tornou o primeiro produtor da região a aderir ao sistema orgânico de produção. “Isso significava redução do rebanho, aumento dos estábulos e abolição de correntes e cordas. Os bezerros eram autorizados a ficar mais tempo com suas mães (geralmente são separados logo após o nascimento)”, afirma.
Ainda assim, o sistema não poderia ser considerado “humanitário” na ótica do ex-produtor de leite. O motivo? A vaca é abatida quando a produção diminui, quando deixa de procriar ou quando fica doente, segundo Jan Gerdes, que percebeu que o único caminho verdadeiramente favorável aos animais é a não exploração.
Então ele desistiu da criação de vacas leiteiras e, com a parceria da esposa Karin Mück, transformou a Hof Butenland em um santuário para os animais. Aos poucos, começaram a receber outros animais, principalmente aqueles que seriam sacrificados ou enviados aos matadouros. Além de bovinos, a Hof Butenland abriga porcos, galinhas, patos, gansos, cães, gatos, cavalos e coelhos.
O estatuto do santuário informa que o objetivo é estimular o amor e a compreensão em relação ao mundo animal por meio da educação e do bom exemplo, assim promovendo o verdadeiro bem-estar dos animais. Em Butenland, que é praticamente um centro de educação vegana, Jan e Karin explicam detalhadamente as consequências para os animais quando roubamos a sua liberdade, seus filhos e suas vidas.
Profundo conhecedor do sistema de produção leiteira, atividade a qual dedicou décadas, Gerdes sempre tem muito a ensinar aos visitantes do santuário. “O veganismo motivado eticamente como estilo de vida também desempenha um papel importante no trabalho educacional”, enfatiza e acrescenta que hoje, mais do que nunca, é importante prestar atenção aos animais, cujo sofrimento e reais necessidades físicas e psicológicas são ignoradas.
Jan Gerdes pondera que vacas são indivíduos como nós humanos; têm uma ampla gama de emoções e comportamentos que podemos interpretar e entender se as observarmos atentamente: “Para além da estrutura física e do número de estômagos, não são tão diferentes de nós. Em rebanho, as vacas formam estruturas sociais sólidas. Elas adoram seus filhos, nutrem amizades, se ajudam, são sensíveis, inteligentes e amorosas. Algumas delas são mais reservadas, outras são insolentes, impetuosas e curiosas. Algumas apreciam estar com muitas outras, e outras preferem ficar sozinhas. Nenhuma é igual à outra.”
O papel do casal Jan e Karin é devolver a vida e a liberdade aos animais resgatados de uma vida de exploração e privação, naturalmente incentivando o respeito e a empatia. “Claro, não temos que amar cada animal, mas devemos respeitar o direito à vida e não deixar que os motivos egoístas nos guiem. Isso começa com a produção e o consumo de alimentos, com os dolorosos testes em animais, com a produção de vestuário e entretenimento (zoológico, circo), além dos abusos que surgem quando animais são tratados como substitutos de crianças ou parceiros”, frisam.
O estatuto do santuário Hof Butenland defende que os animais não são máquinas, não existem para satisfazer nossas necessidades; nem mesmo são nossos: “Defendemos, portanto, um estilo de vida chamado veganismo. Ele vai além da dieta e cobre todos os aspectos da vida e da união humana e animal. Somente observando e respeitando outros animais como indivíduos podemos realmente reconhecer quem eles são.”
Os 35 anos do clássico punk pela libertação animal “Carne Significa Assassinato”
Dois anos antes do The Smiths lançar “Meat is Murder”, a banda britânica de anarco-punk Conflict lançou o clássico “Meat Means Murder” ou “Carne Significa Assassinato”, que faz uma crítica direta ao consumo de carne e à exploração animal. A música faz parte do álbum “It’s Time to See Who’s Who”, lançado em Londres em março de 1983, e que à época se tornou uma referência para o movimento pela libertação animal na Inglaterra.
Em entrevista a Pete Woods, do Ave Noctum, publicada em 5 de dezembro de 2013, o vocalista e membro-fundador do Conflict, Colin Jerwood, disse que a princípio a ideia era simplesmente formar uma banda sem maiores pretensões. Porém, com o tempo, eles ficaram surpresos com o impacto que suas músicas tiveram entre os ativistas pelos direitos animais. “Na verdade, nunca imaginei que essas palavras que escrevi teriam esse impacto e inspirariam tantas pessoas”, disse.
Quando “Meat Means Murder” foi lançada, Colin era apenas um jovem vegetariano de 20 anos, que mais tarde se tornaria vegano. Em entrevista a Niall McGuirk, publicada pelo The Thumped em 5 de maio de 2013, ele relatou que logo se envolveu com o grupo de ação direta Animal Liberation Front (A.L.F), conhecido por invadir lojas, laboratórios e fazendas para libertar animais. “A A.L.F teve que ser muito cuidadosa depois de algumas grandes prisões. Coisas ainda acontecem. Há um grupo chamado A-Team que tenta acabar com brigas de cães [na Inglaterra]. Não são tantos os estabelecimentos de vivissecção que podem ser invadidos agora porque eles são intocáveis por causa do dinheiro”, revelou.
Em 1984, o Conflict realizou shows em protesto contra a prisão de membros da A.L.F. Também arrecadou dinheiro para a libertação dos ativistas. Na página 166 do seu livro “No Future: Punk, Politics and British Youth Culture – 1976-1984”, lançado em 2017, Matthew Worley escreveu que em termos práticos o anarquismo punk tende a desautorizar a organização política formal a favor da ação, e entre as suas diversas facetas, principalmente na Inglaterra, estão ações de libertação animal, sabotagem à caça e levantamento de fundos para grupos de ativismo animalista: “Alguns, incluindo Colin Jerwood, do Conflict, alinharam-se com a Animal Liberation Front (A.L.F), o que condiz com a ação direta defendida em seu EP To a Nation of Animal Lovers EP (1983).”
Outro autor que reconhece a importância musical do Conflict como instrumento de conscientização sobre a realidade da exploração animal e do chamamento para o ativismo em favor dos direitos animais a partir da década de 1980 é Ian Glasper, autor do livro “The Day the Country Died: A History of Anarcho Punk 1980-1984″, de 2006. “Depois do Crass, a maioria das pessoas quando fala no gênero anarco-punk pensa imediatamente no Conflict, uma banda cuja música era honesta, agressiva e intransigente, e que fazia dos direitos animais a sua questão principal”, destacou na página 104 do seu livro.
No artigo “Nailing Descartes to the Wall: animal rights, veganism and punk culture”, publicado em 2014 na Anarchist Library, Len Tilbürger e Chris P. Kale citam que entre as inúmeras bandas anarco-punk que abraçaram os direitos animais e o veganismo nos anos 1980, Conflict é considerada a mais importante: “Para complementar suas exortações líricas, eles projetavam imagens de vídeo, obtidas pela própria banda que se infiltrou em matadouros, em telas por trás do palco enquanto se apresentavam. Eles também exaltavam os movimentos de ativistas pela libertação animal na década de 1980”.
Nas páginas 232 e 233 da tese de PhD “An Investigation into the Emergence of the Anarcho-Punk Scene of the 1980s”, publicada pela Universidade de Salford, no Reino Unido, em outubro de 2004, o autor Mike Dines observa que muito do material do Conflict oferece um “chamado às armas” na luta contra matadouros e as estruturas do governo. Ele usa como exemplo a faixa “Ungovernable Force”, de 1986, em que Colin Jerwood questiona: “O que significa ação direta?” Então ele continua: “Isso significa que não estamos mais preparados para continuarmos sentados e permitir que coisas terríveis e cruéis aconteçam. Ação direta pelos direitos animais significa causar danos econômicos aos que abusam e lucram com a exploração”.
Meat Means Murder (Carne Significa Assassinato) – 1983
A fábrica está produzindo, tudo processado, embalado e organizado
Uma substância abatida e obscura, e no rótulo lê-se “carne”
Escondida por trás de nomes falsos como porco, presunto, vitela e bife
Um olho é um olho, uma vida é uma vida, a atual crença esquecida
A linha de produção diária ainda está alimentando essa farsa
Para acabar sobre a sua mesa e então sair pela sua bunda
Você ainda continua na fila e continua assistindo
Serrarem os membros adequadamente para os ensopados
Carcaças empilhadas num monte
Sortidos, macios, suculentos pedaços congelados
Bem, você não percebe que aquele suco é sangue?
De gargantas recém-nascidas, rios de sangue jorram
Sangue de jovens corações, sangue de veias
Seu sangue, o sangue deles, serve da mesma maneira!
Agora você está diante da mesa, sentado, sorrindo
Sentado ali comendo, você nunca perceberá como aquilo foi feito.
Está servido sobre um prato esterilizado, você não pensará na matança
O mais longe que seu cérebro irá é “isso é pra fritar ou grelhar?”
Você lamenta pelo abate de focas, pelo massacre de baleias
Mas realmente importa se vive na terra ou na água?
Você nunca teve um casaco de pele, você acha que é cruel com os visons
Bem, e quanto à vaca, o porco ou a ovelha? Eles não te fazem pensar?
Desde o dia em que você nasceu, nunca te contaram da peça que está faltando?
Saiba Mais
O Conflict foi fundado em Eltham, Sul de Londres, em 1981. A formação original da banda era Colin Jerwood (vocal), Francisco ‘Paco’ Carreno bateria), Big John (guitarra), Steve (Guitarra) e Pauline (vocal). O primeiro lançamento do Conflict foi o EP “The House Man Built”, de 1982. Em 1983, no EP “To a Nation of Animal Lovers”, Steve Ignorant, do lendário Crass, fez uma participação especial. Mais tarde, com o fim do Crass, ele ingressou como segundo vocalista.
Referências
Woods, Pete. Interview – Conflict. Ave Noctum (5 de dezembro de 2013).
McGuirk, Niall. It’s Not About Sitting In Your Slippers – An Interview With Conflict’s Colin Jerwood. The Thumped (5 de maio de 2013).
Worley, Matthew. No Future: Punk, Politics and British Youth Culture – 1976-1984. Página 166. Cambridge University Press (2017).
Glasper, Ian. The Day the Country Died: A History of Anarcho Punk 1980-1984. Página 104. PM Press (2014).
Tilbürger, Len; Kale, Chris P. Nailing Descartes to the Wall: animal rights, veganism and punk culture. Anarchist Library (2014).
Dines, An Investigation into the Emergence of the Anarcho-punk Scene of the 1980s. PhD thesis. University of Salford, UK. Páginas 232-233 (2004).
Um vegano no churrasco
— Boa tarde
— Boa tarde…
— Então você é o tal do cara que não consome carne, ovos, leite e tal?
— Bom, não sei se podemos dizer que sou o tal cara, já que há mais pessoas como eu, que não se alimentam de animais. Acho mais justo dizer que sou apenas “um dos caras”.
— Sei.
— Mas nem uma linguicinha de vez em quando para socializar com os amigos? Ninguém vai ficar sabendo, só entre nós.
— Acho que é bem possível socializar com os amigos sem a “linguicinha”. Bom, se bem que posso preparar Bucanera também, caso alguém queira.
— Bucanera? Que diabos é isso?
— É a minha linguiça vegetal e consideravelmente saudável.
— Sei. Mas se é vegetal não é linguiça, né? E saudável? Isso tá muito errado, cara!
— Por que não?
— Por que não vem de bicho, ora!
— E a páprica, o alho, a cebola e a pimenta que dão o sabor à linguiça são provenientes de quais animais?
— O que isso tem a ver? Não vamos distorcer as coisas. Linguiça é linguiça e ponto.
— Você tem razão. Sou um linguiceiro veganamente contraventor.
— O quê?
— Continuarei chamando de linguiça.
— Não! Não! Não! Ninguém morreu, ora! Ninguém morreu! Ninguém foi despedaçado! Você não juntou nem pagou para que alguém embalasse vísceras, cartilagens, miúdos, sangue, pedaços suculentos de gordura – deliciosos sebinhos em uma apetitosa tripa de porco. Sua linguiça nem mesmo deve ter uma quantidade de sódio que ultrapassa a ingestão diária de um adulto.
— Entendo. Que sabor magnificente tem a carne em seu estado natural, não é mesmo? Apague o fogo da churrasqueira. Por que perder tempo temperando tudo com ingredientes vegetais? Pra que fogo? Que tal simplesmente comer direto da fonte? Não pouparíamos tempo e trabalho? Imagine o deleite de socializar dilacerando uma vida com os próprios dentes. Poderíamos rasgar e comer partes ainda quentes de um animal com seu coração pulsando ruidosamente. Imagine toda a adrenalina, serotonina e endorfina desencadeadas pelo prazer dessa deliciosa violência. Afinal, não é pra isso que temos os nossos caninos? Nossas garras? Nossa agilidade felina?
— Que nojo, cara! Você é bem sinistro. Olhe, nada contra você, mas você é um tipo bem radical.



